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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Beata Felipa Mareri, Virgem. A primeira clarissa venerada com culto público.

    

Beata Felipa Mareri, primeira clarissa
beatificada. 
      A primeira Clarissa a ser honrada com culto público não foi Santa Clara, mas a Beata Felipa Mareri, morta em 1236, quando Santa Clara ainda vivia em São Damião de Assis.

     Felipa nasceu no final do século XII, cerca do ano 1195, da nobre família dos Mareri, no castelo de sua propriedade situado em San Pietro de Molito, hoje Borgo San Pietro, província de Rieti.
     O fundador da baronia da família Mareri foi Felipe, que teve pelo menos quatro filhos: Tomás, Gentil, Felipa e outra filha cujo nome se desconhece. O maior incremento da fama e fortuna da família se deveu a Tomás, que foi um alto funcionário do imperador Frederico II.
     Felipa começou já na infância a dar mostras de virtude pouco comum e de aptidão excepcional para os estudos. Era-lhe familiar a língua latina o que ajudou-a nas leituras das Escrituras.
     Orientada para a vida de perfeição por São Francisco de Assis nos anos 1221-1225, quando o Santo, peregrinando pelo vale de Rieti, se hospedava na casa de seus pais, Felipa tomou ainda jovem a decisão de consagrar-se a Deus, e se manteve com tal firmeza em seu propósito, que não conseguiram dobrar sua vontade nem as pressões dos parentes, nem as ameaças de seu irmão Tomás, nem as ofertas e pedidos de seus pretendentes.
     Diante da atitude de seus familiares, Felipa, como anos antes Santa Clara de Assis, cortou por si própria o cabelo, vestiu hábito pobre e, junto com sua irmã e algumas companheiras, se refugiou em uma gruta nas montanhas próximas de seu castelo, desde então chamada «Gruta de Santa Felipa».
     Ela a adaptou com austeridades para seus fins e ali permaneceu até que seus irmãos Tomás e Gentil subiram ao monte para solicitar-lhe o perdão e ofereceram às servas de Deus uma igreja dedicada a São Pedro e, com uma ata notarial datada de 18 de setembro de 1228, lhe deram o castelo de sua propriedade em San Pietro de Molito e a antiga igreja beneditina anexa.
     Para ali se trasladaram Felipa e suas seguidoras, e em seguida começaram a organizar sua vida claustral seguindo a forma de vida e as normas que São Francisco havia dado a Santa Clara e a suas irmãs do mosteiro de São Damião em Assis.
     São Francisco indicou um de seus primeiros companheiros, o Beato Rogério de Todi, para dirigir espiritualmente a Beata e as Clarissas do mosteiro por ela fundado. Para tanto, Rogério se trasladou para o vale de Rieti, e ali permaneceu cumprindo sua missão até a morte da Beata em 1236.

Antiga gravura da Beata Felipa em afresco. 



     O Beato Rogério de Todi (Úmbria), por seu equilíbrio, associado ao mais fervoroso zelo missionário, fora enviado por São Francisco à Espanha para implantar ali a Ordem Franciscana. Erigiu conventos, acolheu religiosos que soube formar no espírito seráfico e os organizou como Província religiosa. Terminada sua missão, regressou à Itália.
Com os sábios conselhos do Beato Rogério, homem de grande fervor e não menor prudência, a comunidade de Felipa Mareri, se firmou exemplarmente na Regra da Ordem Segunda. Felipa se ligou com afetuosa devoção ao franciscano de Todi, sob cuja direção a comunidade por ela querida progredia na perfeição.
     O mosteiro logo se converteu em uma escola de santidade. A ocupação principal da comunidade monástica era o culto e o louvor de Deus, a vida litúrgica, a leitura e o estudo da Sagrada Escritura, a oração e a contemplação. Porém, ao mesmo tempo, o trabalho era tido em grande consideração, como também o atendimento dos pobres e o apostolado.
     No mosteiro eram preparados remédios que eram distribuídos gratuitamente aos doentes pobres. O fervor da caridade nas palavras e nas obras, bem como o estilo de vida daquelas Clarissas, com Felipa à frente e todas seguindo o Santo de Assis, fizeram reviver a vida evangélica no vale de Rieti, como antes havia acontecido no vale de Espoleto.
     Quando a Felipa sentiu-se próxima da morte, pediu a presença do Beato Rogério. Ela morreu no seu mosteiro no dia 16 de fevereiro de 1236. Nas orações fúnebres o Beato Rogério a invocou como se faz aos santos.
     O Beato Rogério de Todi sobreviveu pouco a sua filha espiritual: faleceu em 1237 e Bento XIV aprovou o seu culto em 24 de abril de 1751.
     Logo o túmulo de Felipa se converteu em meta de peregrinações e as graças e os favores extraordinários alcançados de Deus pela intercessão da Beata se multiplicaram.
     Em 1706 foi feito um reconhecimento de seus restos mortais e se constatou que seu coração permanecia incorrupto e é ainda hoje conservado em um relicário de prata.
O Papa Inocêncio IV deu o título de “santa” a Felipa em uma bula de 1247, mas foi o Pio VII quem, em 30 de abril de 1806, confirmou seu culto imemorial e aprovou a missa e o ofício em sua honra.
     Em 1940, o antigo Borgo San Pietro e o mosteiro de Clarissas fundado pela Beata Felipa ficaram submersos sob as águas de um novo lago artificial, às margens do qual foi reconstruído tanto o mosteiro como o povoado. 



A capela do século XIII, onde eram venerados os restos mortais da Beata, foi restaurada na nova igreja com as mesmas pedras medievais, e foi decorada com os afrescos que a adornavam no antigo mosteiro. O coração da Beata é venerado ali em um relicário.


(Fonte: blog Heroínas da Cristandade) 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Conselhos contra o demônio e suas tentações pelo Santo Cura d'Ars, SÃO JOÃO MARIA VIANNEY.


São João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars,  nasceu na França no ano 1786. Foi um grande pregador, fazia muitas mortificações; foi um homem de oração e caridade, totalmente dedicado e empenhado em salvar as almas de seus paroquianos. 
Tinha um dom especial para a confissão. Por isso, vinham pessoas de diferentes lugares para confessar-se com ele e escutar seus santos conselhos. Devido a seu frutífero trabalho pastoral foi nomeado padroeiro dos sacerdotes. Também combateu contra o maligno em várias ocasiões, inclusive em algumas não só espiritualmente.
Em uma delas, enquanto se preparava para celebrar a Missa, um homem lhe disse que seu dormitório estava pegando fogo. Qual foi sua resposta? “O 'Resmungão' está furioso. Quando não consegue pegar o pássaro, ele queima a sua gaiola”. Entregou a chave para aqueles que iam ajudar a apagar o fogo. Sabia que Satanás queria impedir a Missa e não o permitiu.
Deus premiou sua perseverança diante das provações com um poder extraordinário que lhe permitia expulsar demônios das pessoas possuídas.
Sua confiança em Deus e fé inabalável nos dão várias lições que podem também nos ajudar em nossas lutas do dia-a-dia em nossa caminhada nesta terra. Sim, o mal existe; mas, Deus pode mais… “Quem como Deus?”.


 


Orientações e conselhos do Santo:

1. Não imagine que exista um lugar na terra onde possamos escapar da luta contra o demônio, se tivermos a graça de Deus, que nunca nos é negada, podemos sempre triunfar.

2. Como o bom soldado não tem medo do combate, assim o bom cristão não deve ter medo da tentação. Todos os soldados são bons no acampamento, mas é no campo de batalha que se vê a diferença entre corajosos e covardes.

3. O demônio tenta somente as almas que querem sair do pecado e aquelas que estão em estado de graça. As outras já lhe pertencem, não precisa tentá-las.

4. Uma santa se queixou a Jesus depois da tentação, perguntando a Ele: “onde você estava, meu Jesus adorável, durante esta horrível tempestade?” Ao que Ele lhe respondeu: “Eu estava bem no meio do seu coração, encantado em vê-la lutar”.

5. Um cristão deve sempre estar pronto para o combate. Como em tempo de guerra, tem sempre sentinelas aqui e ali para ver se o inimigo se aproxima. Da mesma maneira, devemos estar atentos para ver se o inimigo não está nos preparando armadilhas e, se ele está vindo para nos pegar de surpresa…

6. Três coisas são absolutamente necessárias contra a tentação: a oração, para nos esclarecer; os sacramentos, para nos fortalecer; e a vigilância para nos preservar…

7. Com nossos instintos a luta é raramente de igual: ou nossos instintos nos governam ou nós governamos nossos instintos. Como é triste se deixar levar pelos instintos! Um cristão é um nobre; ele deve, como um grande senhor, mandar em seus vassalos.

8. Nosso anjo da guarda está sempre ao nosso lado, com a pena na mão, para escrever nossas vitórias. Precisamos dizer todas as manhãs: “Vamos, minh’alma, trabalhemos para ganhar o céu”.

9. O demônio deixa bem tranquilo os maus cristãos; ninguém se preocupa com eles, mas contra aqueles que fazem o bem ele suscita mil calúnias, mil ofensas.

10. O sinal da cruz é temido pelo demônio porque é pela cruz que escapamos dele. É preciso fazer o sinal da cruz com muito respeito. Começamos pela cabeça: é o principal, a criação, o Pai; depois o coração: o amor, a vida, a redenção, o Filho; por fim, os ombros: a força, o Espírito Santo. Tudo nos lembra a cruz. Nós mesmos somos feitos em forma de cruz.



Fonte: http://cleofas.com.br/10-ensinamentos-de-s-joao-vianney-para-a-luta-contra-o-mal/

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Beato Felipe Sifhong, Leigo, catequista e pai de familia, e seus companheiros, protomártires tailandeses.




Os sete beatos mártires Tailandeses. 
O Cristianismo foi introduzido na Tailândia em 1881. A Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris era ativa naquele país, bem como outras Congregações missionárias ou caritativas. Em 1940, o país contava com um milhão de católicos reunidos em pequenas comunidades, além da presença de comunidades cristãs protestantes. A Tailândia era um país essencialmente budista, com algumas minorias hinduístas.
A partir de 1940, os missionários franceses tiveram que deixar o país por causa da II Guerra Mundial. O pluralismo religioso era então considerado uma ameaça à unidade nacional. O vilarejo de Songkhon às margens do rio Mekong, na fronteira com o Laos, foi o palco do martírio de sete moradores católicos daquela região: Philippe Siphong, as religiosas Agnes Fhila e Lúcia Khambang, e os leigos Ágata Fhutta, Cecília Butsi, Viviane Khamfhai e Maria Fhon.
Felipe Sifhong nasceu na província de Nakhon Fhanom em 30 de setembro de 1907, numa família católica, e foi batizado no mesmo dia do seu nascimento. Aluno da escola paroquial de Non Seng, Felipe tornou-se mais tarde professor primário, em 1926, no vilarejo de Songkhon. Ali ele se casou, cinco anos mais tarde, com Maria Thong, e tiveram cinco filhos. Além de professor, Felipe era também catequista e homem de confiança dos missionários, que lhe confiavam a administração do posto missionário quando precisavam se ausentar. Ele era o chefe da comunidade cristã local.
Em agosto de 1940, um grupo de policiais tailandeses chegou em barcos nesse vilarejo isolado, constatando que os habitantes daquele lugar professavam uma religião estrangeira. Em novembro, o Padre Figuet foi expulso do país. Os habitantes locais se confiaram à proteção do catequista Felipe Sifhong e das Irmãs Agnes Fhila e Lúcia Khambang, a fim de permanecerem firmes na Fé.
Em meados de dezembro, Felipe recebeu uma carta contendo uma mensagem falsa, escrita por policiais, ordenando-lhe que comparecesse à subprefeitura. Felipe pressentiu o perigo. No início da noite do dia 15 daquele mês, dois policiais levaram-no preso para que fosse interrogado. Felipe foi fuzilado naquela noite, depois de fazer o sinal da Cruz. A mesma sorte estava reservada às duas religiosas. O Cristianismo era, então, considerado uma das práticas anti-nacionais. As autoridades tailandesas tiveram o cuidado de esconder os túmulos dos mártires a fim de que as almas dos falecidos não viessem “atormentar os vivos”. Em 1959, seus restos mortais foram solenemente enterrados em Songkhon.

       Os sete tailandeses foram beatificados em 1989 pelo Papa João Paulo II. São celebrados no dia 26 de dezembro.

SÃO SIMÃO ESTILITA, Eremita e Taumaturgo. Vida, obras e milagres desse santo "estranho", cuja vida é apenas admirável, não imitável.








“Deus é admirável em seus Santos”! Alguns, inclusive, por causa de costumes e práticas extraordinários, são mais objetos de admiração do que propriamente de imitação. Esse é o caso de São Simão Estilita, eremita e grande asceta, mais conhecido pelos cristãos da Igreja Ortodoxa bem como pelos Católicos de Rito Oriental. 


Simeão Estilita, o Antigo (Sis, c. 389 - Telnessin, 459) foi um asceta cristão sírio, que viveu no cimo de uma coluna de pedra. É considerado santo quer pela Igreja Católica Romana, quer pela Igreja Ortodoxa.

 Na Igreja Católica o seu dia corresponde ao 05 de Janeiro, enquanto que na Igreja Ortodoxa é celebrado a 01 de Setembro. É chamado de "Antigo" para distingui-lo de outro Simeão Estilita que viveu no século VI. Simeão nasceu no norte da Síria, perto da moderna Alepo, tendo começado a sua vida como pastor.

Em 403 a.C. ingressou como monge em Teleda, tendo adoptado práticas de austeridade extremas que geraram critícas e o afastamento da comunidade.  Mudou-se então para Telnessin por volta do ano 412.

Viveu como eremita numa cela e depois passou a viver no topo de uma coluna preso por uma corrente (daí seu apelido  estilita, que vem da palavra grega “stylos”, coluna). Foi adotando cada vez colunas mais elevadas, tendo a última onde viveria durante trinta anos (entre 429-459) dezessete metros de altura.  O que era necessário à sobrevivência era levado através de uma escada. O local onde se erguia a coluna tornou-se alvo de peregrinação de doentes e de pessoas que procuravam aconselhamento espiritual.

Simão Estilita (Séc. V) tornou-se famoso por ter passado 37 anos da sua vida no topo de um pilar. Daí pregava sermões e escrevia epístolas que eram veneradas em todo o Império Bizantino.

A fama de Simão Estilita, que já em vida era considerado um Santo, ficou a dever-se à autoridade moral que lhe advinha da renúncia ao mundano e da sua dedicação total à meditação.

Simão, apesar do exíguo espaço a que se confinou, não viveu isolado. Os seus fiéis seguidores iam visitá-lo diariamente e Simão exercia daí a sua influência a favor das causas que considerava justas.

No local do pilar onde Simão viveu construiu-se mais tarde uma Basílica designada Qal at Simân (O Palácio de Simão). A ruínas desta Basílica ainda hoje são local de peregrinação.

A vida de São Simeão foi escrita por três autores, não somente contemporâneos, senão também testemunhas oculares da maior parte dos fatos.  São eles: o bispo Teodoreto, que compôs o seu trabalho dezesseis anos antes da morte de Simeão; Antônio, discípulo do santo, e o sacerdote Cosmas, seu amigo, que governava uma paróquia das cercanias, e que, em nome de tal paróquia, lhe escreveu uma carta que ainda possuímos.


Vida, obras e milagres
Nascera Simeão numa localidade da Cilícia, chamada Sisan, na fronteira da Síria e, desde a idade de treze anos, guardou ovelhas pertencentes ao pai.

Um dia em que o rebanho não podia sair em virtude da neve, foi à igreja com os pais e lá ouviu ler o Evangelho que diz: “Bem-aventurados os que choram, ai dos que riem; Bem-aventurados os que têm puro coração”.

Perguntou a um ancião como se podia adquirir tal felicidade. O outro lhe disse que era pelo jejum, pela prece, humildade, pobreza, paciência, e lhe aconselhou a vida monástica como sendo a mais elevada filosofia.

Tendo recebido no coração essa semente da palavra divina, Simeão entra numa igreja de mártires, prostra-se no chão, roga Àquele que quer a salvação de todos os homens, que o conduza ao caminho da perfeição.

Tendo permanecido longamente em tal postura, sobrevém-lhe um suave sono durante o qual tem uma visão que ele soía narrar assim:

Parecia-me estar cavando um alicerce, e que alguém me dizia que cavasse mais. Desejando repousar, não podia, porque ele me ordenava que continuasse a cavar. Assim procedeu quatro vezes.  Finalmente, disse-me que o alicerce era bastante profundo, e que eu podia, sem temor, erguer uma construção da forma e da altura que me aprouvesse.”

A predição, observa Teodoreto, foi verificada pelo fato, pois os fatos superam a natureza humana. Depois dessa advertência interior, entrou Simeão num mosteiro vizinho, e lá ficou dois anos.  Mas o desejo de uma vida mais perfeita o fez passar a outro, governado por um santo varão chamado Heliodoro, que para ele entrara com a idade de três anos, transcorrendo sessenta e dois sem sair.

O mosteiro contava oitenta monges. Simeão demorou-se dez anos e a todos ultrapassou em austeridade, pois, enquanto os outros comiam um dia sim, um dia não, ele só comia uma vez por semana.  Os superiores o repreendiam, como se se tratasse de uma irregularidade, mas não conseguiram persuadi-lo, nem diminuir-lhe o ardor pela penitência.

 Um dia, pegando uma corda trançada de folhas de palmeira e, por conseguinte, duríssima, com ela cingiu o corpo desde os rins até os ombros, de tal modo que ela lhe entrou na carne.

Levou-a sob o hábito bastante tempo para que todo o corpo se transformasse em úlcera. Perceberam-no finalmente pelo cheiro e pelo sangue que dela escorria. Tiraram-lha com muito esforço; a roupa estava colada à carne pelo sangue; para arrancá-la, foi mister umedecê-la durante três dias; quanto à corda, houve necessidade das incisões dos médicos.

A operação lhe causou dores tão vivas que o julgaram morto durante algum tempo. Quando sarou, disseram-lhe os superiores que se fosse, de medo que o seu exemplo se tornasse prejudicial a homens mais fracos que pretendessem imitá-lo. Retirou-se para o deserto da montanha, e desceu a uma cisterna seca, onde continuou a louvar a Deus.

Ao cabo de cinco dias, os superiores, repreendidos por visões, arrependeram-se de o haver repelido, e mandaram procurá-lo. Encontraram-no e retiram-no da cisterna com uma corda. Algum tempo depois, rumou ele para Telanissa, localidade situada aos pés de uma montanha perto de Antioquia.

Numa pequenina cabana, encerrou-se durante três anos.  Quis, então, imitar o jejum de Moisés e de Elias, e passar quarenta dias sem comer.

O abade Bassus, superior de um mosteiro vizinho, estava incumbido de inspecionar os sacerdotes do campo. Simeão rogou-lhe que tapasse a porta com barro, sem lhe deixar nada na cela.  Respondeu-lhe Bassus que matar-se não era uma virtude, e sim o maior dos crimes. “Meu pai, retrucou-lhe Simeão, deixai-me, então, dez pães e uma jarra de água; se tiver necessidade de alimento, tê-lo-ei à mão”.

Assim se fez. Ao cabo de quarenta dias, voltou Bassus, tirou o barro com o qual estava fechada a porta e, entretanto, viu todos os pães intactos, a jarra ainda cheia de água e Simeão prostrado, sem voz, sem movimento, sem respiração.

Pedindo uma esponja, o superior umedeceu-lhe os lábios, e lhe ministrou os divinos mistérios.  Fortalecido, Simeão levantou-se e tomou algum alimento, isto é, alface, chicória e semelhantes verduras, que mastigou e engoliu, pouco a pouco. Bassus, arrebatado, regressou ao seu mosteiro, que contava mais de duzentos monges, e lhes narrou a maravilha.

Desde então, continuou o nosso santo a jejuar dessa maneira todos os anos, quarenta dias seguidos, e já havia transcorrido vinte e oito anos em tal modo, quando Teodoreto compôs o seu trabalho. Ficava de pé nos primeiros dias, em seguida sentava-se, continuando a orar, depois estendia-se, semimorto.

Depois de passar três anos na cela perto de Telanissa, subiu ao tôpo da montanha, e mandou fazer um cinto de muralhas sem teto, no qual se encerrou, com uma corrente de ferro, de vinte côvados de comprimento, preza por uma extremidade a uma grande pedra, e pela outra ao pé direito, a fim de, mesmo que o quisesse, não poder sair daquele espaço.

Lá, entretinha-se na meditação das coisas celestes. Melécio, então vigário de Antioquia, aconselhou-o a tirar a corrente, mostrando-lhe que a vontade bastava para manter o corpo parado com liames intelectuais. Rendeu-se Simeão e, mandando chamar um ferreiro, livrou-se da corrente.

Espalhou-se por toda parte a reputação de Simeão, e todos acorriam a ele, não somente da vizinhança senão também de lugares distantes vários dias de caminhada. Levavam-lhe paralíticos, rogavam-lhe que curasse enfermidades. Os que recebiam o que tinham solicitado voltavam com alegria, e publicavam os benefícios, o que atraía ainda maior número de pessoas.

Toda espécie de povos aparecia: ismaelitas, persas, armênios, iberos, homeritas e árabes dos mais longínquos.  Vinham das extremidades do Ocidente, da Itália, da Gália, da Espanha, da Grã-Bretanha. A reputação do santo estendia-se até os etíopes e os citas nômades.  Em Roma, era tão grande que os artesãos tinham posto pequeninas imagens do santo na entrada de todas as lojas, para atrair a sua proteção. Teodoreto afirma que assim ouviu dizer.

Sentia-se Simeão importunado pela incalculável multidão que se apinhava em volta dele para tocá-lo e tirar uma bênção das peles que o cobriam.
Parecia-lhe impertinente submeter-se a tão excessivas honras, e penoso ser constantemente daquela maneira instado.  Foi o que o levou a ficar de pé numa coluna, em grego style ou stylos, donde lhe veio o nome de Estilita.

No ano de 423, mandou fazer uma de seis côvados de altura, na qual viveu quatro anos.

Mandou erguer uma de doze côvados, depois outra, de vinte e dois. Ficou treze anos em ambas. Os últimos vinte e dois anos de vida, passou-os numa quarta coluna de quarenta côvados de altura.

 A coluna terminava com uma balaustrada, formando um pequeno recinto de três pés de diâmetro.

Foi lá que Simeão se mantinha de pé, noite e dia, inverno e verão, exposto aos ventos e à chuva, à neve e à geada.

Os monges do deserto mandaram perguntar-lhe que modo tão estranho de vida era aquele, ordenando-lhe que o abandonasse e seguisse o caminho trilhado pelos pais.

 Tinham dito ao enviado: “Se ele obedecer de boa vontade, deixai-o viver ao seu modo; ser resistir e se mostrar escravo da própria vontade, tirai-o da coluna à força.”

 O enviado expôs a Simeão a ordem dos Padres, e Simeão avançou imediatamente um dos pés para descer. O enviado disse-lhe que permanecesse lá e se animasse, visto que o seu estado vinha de Deus.

Os monges do Egito, escandalizados com tal novidade, mandaram dizer-lhe que estava excomungado. Melhor informados, porém, do seu mérito, de novo com ele se comunicaram.

Estranhava-se então, e ainda hoje se estranha um gênero tão extraordinário de vida. Pergunta-se qual a utilidade disso, e quais podem ser os objetivos da Providência.

O padre Cosme, em particular, nos dá a conhecer a especial vocação de Simeão. Por duas vezes lhe apareceu o profeta Elias num carro de fogo, e lhe recomendou fortemente duas coisas, o zelo pela Igreja e a defesa dos pobres.

Cuida, disse-lhe, de que ninguém despreze o sacerdócio, e que todos obedeçam aos ministros sagradas. Sobretudo, porém, cuida dos pobres; saibam os infelizes de toda espécie, os oprimidos, os órfãos e as viúvas que o teu auxílio jamais lhe faltará, e que serás sempre para eles pai e defensor. Cuida de jamais cederes às ameaças dos prefeitos e dos reis, ou de parecer ambicionar o favor dos ricos. Mas repreende com a mesma equidade, e em público, tanto o rico como o pobre. Sê, pois, firme, e está pronto a tudo sofrer. Arma-te de paciência e de doçura, a fim de que nunca possa coisa nenhuma arrancar-te ao dever”.

Depois dessa advertência celeste, Simeão decuplicou as austeridades.

 Durante nove anos, sofreu, entre outras coisas, de uma horrível úlcera no pé esquerdo.

 Todos, os sacerdotes, os bispos e o próprio imperador, por cartas, lhe rogavam descesse da coluna até que se curasse.

Lá ficou ele, embora a tal dor se unissem ainda várias outras; e quando, no fim da quaresma, que ele, como habitualmente, passou sem comer nem beber, julgavam encontrá-lo morto, viram-no milagrosamente curado; recebeu a comunhão pascal das mãos do bispo de Antioquia, Domnus, sobrinho e sucessor de João.

Em breve teve o santo a oportunidade de desempenhar o novo mister.

 Trezentos pobres obreiros de Antioquia foram ao pé da coluna queixar-se do prefeito da cidade. Devia a corporação deles, todos os anos, tingir de vermelho para a cidade de Antioquia, certo número de peles.

O prefeito, varão cruel, teve a triste ideia de exigir três vezes mais. Os obreiros, vendo-se arruinados por aquele imposto tirânico, sobretudo se se tornasse perpétuo, enviaram trezentos dos seus a Simeão o qual, comovido, mandou dizer ao prefeito que não oprimisse os infelizes, e se contentasse com o tributo comum. Riu-se o prefeito do santo, e ameaçou os obreiros de os fazer apodrecer no calabouço. Não teve tempo para isso.

 Ainda não tinha os trezentos legados saído do recinto de Simeão, quando alguém trouxe a notícia de que o prefeito, atacado de súbita hidropisia, rolava pelo chão torturado por espantosas dores; chegaram imediatamente cartas em que se rogava ao servidor de Deus que dele se apiedasse; finalmente, todos os sacerdotes do seu governo rumaram para o pé da coluna pedindo ao santo que lhe devolvesse a saúde.

Respondeu Simeão que era preciso deixar a questão a Deus; ao mesmo tempo, benzendo um pouco de água, disse: Se Deus prevê que esse homem, uma vez curado, se há de portar melhor, desde que o molhem com esta água, sentirá a graça de Jesus Cristo; mas se Deus prevê o contrário, eu vos predigo, o enfermo não verá absolutamente esta água.

 Um mensageiro, imediatamente enviado, envidou todos os esforços; mal, porém, entrou na casa, soube que o prefeito acabava de expirar no meio de espantosas convulsões. O exemplo espalhou um salutar terror entre os maus, e reanimou a esperança dos oprimidos .

Uma rainha de árabes tinha um ministro que tiranizava viúvas e órfãos, bem como o país inteiro.

Os habitantes enviaram legados a Simeão, que mandou dizer ao cruel ministro: Cuida de te corrigir dos crimes de que te acusam, para que, roubando o bem alheio, o teu não percas. Mas o homem, longe de aquiescer a tal censura, maltratou o enviado que lha transmitira.

O castigo não tardou. Nem ainda partira o legado, quando o ministro caiu como que petrificado, e morreu dizendo: Simeão, por favor, tende piedade de mim .

Entretanto, foram contar a Simeão que inúmeras pessoas se queixavam das suas advertências e das suas importunas intercessões nas causas de viúvas, órfãos e outros desventurados.

 Tratava-se de criaturas que, pouco temendo os juízos de Deus, oprimiam o povo. Resolveu ele, então, nada mais fazer, e deixar tudo à Providência; proibiu aos discípulos que admitissem queixosos ao seu recinto, pelo menos até que lhe fosse dado conhecer de maneira mais precisa a vontade de Deus. Vários foram, pois, obrigados a voltar tristemente.

Não tardou o nosso santo em ter uma visão, na qual foi severamente repreendido pela fraqueza, e ameaçado de ver passar a outro a vocação e autoridade; a fim de reparar o erro, foi-lhe ordenado fazer o possível para a defesa dos pobres e aflitos, e deixar o resultado a Deus.

Pouco depois, dois irmãos, ainda moços, chegaram de Antioquia para lhe rogar proteção contra o conde de Oriente, crudelíssimo varão, que os perseguia em virtude de uma velha inimizade como o pai deles que morrera.

Simeão, que fora amigo do pai, admoestou o conde nestes termos: “Não façais mal nenhum a estes rapazes, pois me pertencem.” Respondeu o conde que, longe de lhes querer mal, estava pronto a prestar a ele, com os dois rapazes, os mais humildes serviços. Era um gracejo.

Aproximava-se a quaresma, em que Simeão não admitia ninguém ao seu recinto. Tendo os jovens regressado à cidade, o conde mandou prendê-los, ameaçou-os de prisão se se não submetessem a todas as suas exigências, e de tudo informou zombeteiramente o santo, mediante uma carta.

Respondeu-lhe Simeão estas palavras: “Advirto-vos pela segunda vez; não façais o menor mal a estes rapazes, para que não suceda sejais vós próprio levado perante a justiça, sem terdes a quem recorrer”!

Replicou o conde: “Sei que, durante estes quarenta dias, fechais o vosso recinto, para passá-los no retiro. Far-me-eis, pois, o favor de empregar todo esse tempo em me desejar o mal, pois se me desejardes o bem, não quero me sobrevenha. Simeão disse: “Infeliz”! Desejou a maldição em vez da benção. Deus há de ouvi-lo antes que ele pensa.”

No terceiro dia da primeira semana do jejum, dois dias depois de se haver Simeão encerrado, atravessava o conde, num carro, a praça pública, quando subitamente o detiveram cinco oficiais do palácio.

Com uma corda ao pescoço foi levado ao tribunal, onde numerosos acusadores exigiam vingança pelas suas inúmeras iniquidades. O mestre da cavalaria, que recebera as ordens secretas do imperador, condenou-o a uma grande multa e mandou que o atirassem ao calabouço.

O homem, então, suplicou humildemente aos dois jovens que por ele intercedessem com Simeão, e obtivessem missivas ao imperador. Responderam-lhe os dois que era precisamente o tempo em que o santo não recebia ninguém; que, a não ser tal, trataria indubitavelmente da sua questão com o imperador e os prefeitos do pretório. Abandonado por todos, foi o infeliz ignominiosamente conduzido por todas as cidades até Constantinopla, onde o imperador o privou de todos os bens e o condenou ao exílio.

 Não chegou sequer ao lugar de exílio, uma vez que morreu miseramente em caminho .

Após semelhantes fatos, a acorrência de infelizes de toda espécie tornou-se prodigiosa.

Reclamava-se a intercessão do santo, não somente contra a injustiça dos homens, senão também contra toda espécie de calamidades. Assim, o território de Afsão foi devastado por uma multidão de ratos que atacavam os próprios animais, e os habitantes não tiveram dúvida em recorrer a Simeão.

 Mostrou-lhes ele, em primeiro lugar, que se tratava de um castigo pelos pecados cometidos; depois, ordenou-lhes que lhe levassem ao pé da coluna um pouco de pó, com ele fizessem três cruzes em cada casa, e uma nos quatro cantos da cidade, celebrassem as vigílias, com o santo sacrifício, durante três dias, e abrandassem a Deus mediante orações.

 Obedeceram-lhe e no terceiro dia não se viu mais um sequer dos inúmeros bichos .

No meio da multidão de homens que afluíam de toda parte, Simeão era sempre um apóstolo no trono, a pregar constantemente tanto para os cristãos como para os pagãos.

Aos primeiros, lembrava a perfeição do Evangelho, com os meios de correção dos defeitos. Assim, para desabituá-los de jurar pelo nome de Deus, pedia-lhes jurassem pelo seu.


 


Várias vezes, em seguida às suas exortações, uma paróquia, uma localidade inteira, empenhava-se por escrito em ser fiel ao trato. Vimos um exemplo na carta que lhe escreveu a localidade de Fanir.

Está em nome do sacerdote Cosme, dos diáconos, dos leitores e de todo o povo, com os seus magistrados; todos, unanimemente, subscrevem aos preceitos que ele lhes impôs: santificar o domingo e a sexta-feira, não ter duas medidas, mas apenas uma, justa, não deixar ultrapassar os limites do seu campo, não recusar o salário aos obreiros, reduzir à metade o juro do empréstimo, devolver os penhores aos que pagam, julgar, segundo a equidade, a causa dos pequenos e dos grandes, não ter nenhuma deferência com a justiça, e não receber presentes contra quem quer que seja, não caluniar ninguém, não manter relações com malfeitores e ladrões, reprimir os desdenhadores das leis, de frequentar assiduamente a igreja. Seja anatemizado quem violar essas regras, quem se apoderar do bem alheio, oprimir os inocentes, subornar os juízes, tirar qualquer coisa aos órfãos, às viúvas, aos pobres, ou raptar mulher. Pois tudo quanto nos prescrevestes, e que nós ratificamos, queremos seja observado no futuro. E o que prometemos, juramos cumprir, juramo-lo por Deus, por Cristo e pelo Espírito vivificante e santificante, e pela vitória dos nossos imperadores. Se alguém ousar desobedecer, seja anatemizado segundo a vossa palavra; nós o repreenderemos, não teremos ligação com ele, a igreja não lhe receberá a oferta, não assistiremos ao sepultamento dos seus .


Vê-se por esse exemplo a salutar influência de Simeão nos contemporâneos. O padre Cosme, que lhe dirigiu a carta assinada por todos é o mesmo que lhe escreveu a vida.



Pelas suas pregações e pelos seus milagres, convertia Simeão particularmente milhares e milhares de infiéis: iberos, armênios, persas, árabes, especialmente árabes ismaelitas.

Iam vê-lo em grandes grupos de duzentos ou trezentos, às vezes de mil, renunciavam em voz alta aos erros dos antepassados, particularmente ao culto de Vênus, e quebravam os ídolos na sua presença; recebiam o batismo, e aprendiam dos seus lábios as leis segundo as quais deviam viver.

O biso Teodoreto assistiu um dia à conversão de um grupo de ismaelitas. Quase foi sufocado até, pois tendo Simeão dito que fôssem pedir-lhe benção episcopal, acudiram os ismaelitas com selvagem afoitamento; uns o puxavam pela frente, outros por trás, outros pelos lados; os mais afastados, montando nos outros, alongavam os braços, pegavam-no pela barba ou pelas vestes; ia ser esmagado, quando Simeão gritando, os afastou .


Muitas vezes, ao pé da coluna, os credores perdoavam as dívidas aos devedores, os amos libertavam gratuitamente os escravos.

Quando, no fim da quaresma, se reabriram as portas do seu recinto, não somente a montanha de Telanissa, senão também as montanhas das cercanias fervilhavam de gente.

Vê-lo de longe bastava a grande número de pecadores e pecadoras para abraçarem a penitência e retirarem-se em mosteiros. Invocavam-no, tanto ausente como presente. Os marujos iam agradecer-lhe havê-los socorrido na tormenta e salvado do naufrágio .

Os cristãos da Pérsia lhe enviavam cartas e legados para agradecer-lhe haver libertado da prisão trezentos e cinquenta deles, e feito cessar a perseguição com o trágico fim do mago que a instigara .

O próprio rei da Pérsia concebeu pelo santo a mais elevada estima. A uns legados que lhe falavam do santo, perguntou como vivia este e quais eram seus milagres.

A rainha, sua esposa, pediu azeite abençoado por Simeão e o recebeu como grande presente. Todos os cortesãos, apesar das calúnias dos magos, cuidavam de se instruir com ele, e lhe chamavam varão divino.

No meio dessa glória, era ele tão humilde que se julgava o último dos homens.

De fácil acesso, doce e agradável, respondia a todos, fosse artesão, camponês, mendigo.

Dizia aos que libertara suas enfermidades: “Se alguém vos perguntar que vos curou, dizei que foi Deus; guardai-vos de falar de Simeão, pois recaireis no vosso mal”.

Teodoreto, que o vira e com ele conversara várias vezes, e que lhe escreveu o resumo da vida, bem via a dificuldade de acreditar em tais maravilhas.

É por isso que diz: “Ainda que eu disponha por testemunhas, se assim devo falar, de todos os homens vivos, temo que a minha narração pareça à posteridade uma fábula inteiramente destituída de verdade. O que aqui se passa está acima da humanidade; entretanto, costumam os homens medir o que lhes diz pelas forças da natureza, e quando alguma coisa lhe ultrapassa os limites, afigura-se mentira aos que desconhecem as coisas divinas” .

No ano de 459, sofreu a cidade de Antioquia espantoso desastre.

Foi, na narrativa de uma testemunha ocular, durante a noite de 7 para 8 de junho, durante a noite do domingo de Pentecostes para a segunda-feira .

O povo acabava de se entregar a tais desordens e brutalidades que superavam em muito a ferocidade das feras, segundo a expressão de Evagro.

De súbito, pelas quatro horas da noite, verificava-se um tremor de terra tão furioso que fez desabar quase toda a cidade, e sobretudo a parte mais rica e povoada.

Várias localidades dos arredores tiveram a mesma sorte.



O refúgio dos infelizes, na época, era o grande Simeão Estilita.

 Viu êste chegar ao pé da sua coluna uma multidão em pranto, sacerdotes e leigos, trazendo grandes cruzes, archotes e incensórios fumegantes.

A afluência durou cinquenta e um dias. Era tão grande o terror que ninguém ousava entrar nas casas nem trabalhar nos campos. Por toda parte se ouviam gritos e gemidos.

A única esperança da turba era Simeão. Estava pronta para tudo quanto ele ordenasse.

Após os cinquenta e um dias de luto, houve, no mês de julho, uma grande solenidade, a última do bem-aventurado Simeão. Não creio, diz o autor da sua vida, testemunha ocular, que jamais tenha havido reunião tão numerosa; era como se Deus tivesse arrancado dos seus países todos os povos do universo para os reunir num mesmo lugar, a fim de dizer o derradeiro adeus ao seu amado servidor.

Ele, como pai que dita as últimas vontades a filhos dóceis, tendo mandado chamar os sacerdotes e o povo, consolou-os a princípio, e em seguida os exortou muito a observar os mandamentos de Deus. Acrescentou, então:

 “Agora, voltai para vossos lares, e celebrai vigílias cristãs durante três dias; depois, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ide, sem temor, cuidar dos vossos afazeres, e retomem os artesãos o seu respectivo trabalho; tenho a certeza de que Deus se apiedará de vós no futuro.” Disse, e a todos despediu.

Trinta dias depois da partida deles, em 29 de agosto, um sábado, às onze horas, na presença de alguns dos seus discípulos, o servidor de Deus foi repentinamente atacado de um mal que, alastrando-se-lhe pelo corpo todo, em breve se fez mortal.

 Do domingo à terça-feira, o seu estado foi, pouco mais ou menos, o mesmo.

Entretanto, emanava-se-lhe do corpo uma suavidade e uma variedade de odores incomparáveis.

Finalmente, na quarta-feira, 2 de setembro, às nove horas, estando presentes todos os discípulos, prepôs dois deles aos demais, e recomendou todos ao Senhor.

Em seguida, ajoelhou-se três vezes e, depois de se levantar, olhou para o céu. Gritando-lhe de todos os lados a multidão: “Abençoai-nos, Senhor!”  Ele volveu o olhar para as quatro partes do mundo, e, erguendo a mão, o abençoou e o recomendou ao Senhor por três vezes; depois, erguendo de novo os olhos ao céu e batendo três vezes no peito, pousou a cabeça no ombro do primeiro discípulo e expirou.

A multidão continuava a lhe contemplar o rosto, sem saber se estava vivo ou morto.

 Um dos discípulos valeu-se do tempo e daquela incerteza, para mandar avisar às ocultas o bispo de Antioquia.

Temia-se que o povo lhe raptasse o corpo. Pelo mesmo motivo, os discípulos não o baixaram da coluna para colocá-lo no relicário; pelo contrário, mostraram o relicário sobre a própria coluna, aguardando o dia do funeral.

A nova da sua morte divulgou-se imediatamente por todo o mundo. Houve, ao mesmo tempo, luto e júbilo.

Os órfãos e as viúvas perguntavam, entre lágrimas e soluços:

Aonde iremos encontrar-vos agora, Simeão, vós que, após Deus, foste a nossa única esperança? Os que se viam oprimidos pelos poderosos e privados dos seus bens exclamavam com amargura: nós, os mais infelizes dentre os mortais, agora é que iremos temer a cólera e a cobiça dos lobos!

Como livrar-nos de tais angústias? Que auxílio invocaremos? Ah, quem despertará do sono êste leão cuja voz formidável fazia tremer todos os animais ferozes? Os enfermos diziam, chorando: aonde poderemos ir, encontrar um médico igual a vós, Simeão, vós que expulsáveis a enfermidade antes de ver o enfermo?

O clero o lamentava como firme sustentáculo da fé e da disciplina.

Ao mesmo tempo, todos se alegravam, refletindo que, após uma vida tão santa, fora coroado no céu.

No seu funeral, houve incontável multidão. O patriarca na Antioquia, Martírio, apareceu com vários bispos.

Ardaburo, que governava o Oriente com um poder quase soberano, também apareceu com vinte e um condes, um grande número de tribunos ou generais, seguidos das tropas romanas.

Os habitantes de Antioquia tinham lhe pedido a honra de conservar na cidade as relíquias do santo, para lhes substituírem as muralhas que haviam desabado.

Ruínas (o que restou) da coluna onde
viveu São Simão Estilita
Foi com tal pompa que o corpo foi transportado, a princípio pelos sacerdotes e bispos, desde o recinto da coluna até a primeira aldeia, pelo espaço de quatro milhas; em seguida, puseram-no num carro escoltado por guardas de honras, pelos príncipes, por todos os magistrados da cidade, pelas tropas romanas e por uma multidão sem fim de povo.

Ao canto dos hinos, ao esplendor dos archotes, misturava-se o perfume que ardia à passagem do cortejo. Homens e mulheres, anciãos e moços, plebeus e nobres, desertavam as cidades para venerar as relíquias do santo, e receber dele a sua derradeira bênção.

O cortejo durou cinco dias, sendo a distância de quinze léguas. Na segunda-feira, tiraram-no do recinto, na sexta-feira entrou em Antioquia, onde o corpo foi depositado na grande igreja.

Um energúmeno, que fora curado durante a passagem do corpo, o acompanhou até lá. O patriarca e o seu clero instituíram um ofício cotidiano em sua honra.

Verificaram-se ainda mais milagres no seu túmulo do que os realizados durante o tempo em que vivera.