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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Beato Manuel Lozano Garrido – “Lolo”, Leigo da Ação Católica.



Fiel leigo que soube irradiar em seu exemplo e seus escritos o amor a Deus, inclusive entre as enfermidades que o sujeitaram a uma cadeira de rodas durante quase 25 anos. Ao final de sua vida perdeu também a vista, mas continuou ganhando os corações para Cristo com sua alegria serena e sua fé inquebrantável. Os jornalistas poderão encontrar nele um testemunho eloquente do bem que se pode fazer quando a pena reflete a grandeza da alma e se coloca a serviço da verdade e das causas nobres (Papa Bento XVI – 13 de junho de 2010).

 Manuel Lozano Garrido, Lolo, nasceu em Linares – Espanha – em 1920. Aos 22 anos ele ficou numa cadeira de rodas devido a uma paralisia progressiva. A sua imobilidade foi total. Em seus últimos nove anos ficou cego.

Lolo foi um jovem secular, um cristão que levou a sério o Evangelho. Manteve sempre a alegria no seu constante sorriso. Homem do sofrimento,foi semeador da alegria nas centenas de jovens e adultos que se aproximavam dele em busca de um conselho.

Beato Manuel Lozano e sua irmã e cuidadora
Lúcia. O beato, mesmo em meio às dores, mantinha-se
sempre feliz, sorridente e sereno. 
O Segredo de Lolo para viver o sofrimento com alegria
Lolo foi um jovem amante dos esportes e da natureza, muito alegre nas suas travessuras infantis e, na sua juventude, transbordava de alegria. Formou-se apóstolo na Ação Católica.
Na Ação Católica aprendeu a amar com loucura a Virgem Maria e, ao longo dos seus vinte e oito anos de escritor e jornalista inválido, escreveu-lhe belíssimas páginas cheias de amor e ternura filial.
Na Ação Católica adquiriu seu fervor eucarístico que vai acompanhá-lo por toda a vida.
Um dia, estando já paralítico, na varanda de sua casa que ficava em frente à Igreja que estava com as portas abertas, parou de escrever e disse: “Agora, frente a frente com o sacrário, vou escrever, com Ele, um parágrafo”.


A experiência eucarística de Lolo

Na adolescência ele levava a Eucaristia clandestinamente aos prisioneiros durante a Guerra Civil Espanhola. Passou a noite inteira de quinta-feira Santa na prisão adorando o Santíssimo Sacramento na Eucaristia que lhe tinham dado escondido num ramo de flores.
A Eucaristia é para Lolo fortaleza na sua debilidade, alegria no seu sofrimento, fonte na sua inquietação apostólica e manancial para a sua escrita.


Apóstolo
Numa época de perseguição religiosa, percorre os bairros com a propaganda da Ação Católica e evangeliza através da rádio. Este Lolo inquieto e mensageiro recebe a visita do sofrimento: “Aparentemente o sofrimento mudou o meu destino de um modo radical. Deixei as aulas, desfiz-me do meu título e fiquei reduzido à solidão e ao silêncio. O jornalista que eu quis ser não ingressou na escola; o pequeno apóstolo que sonhava a ser deixou de ir aos bairros; mas o meu ideal e a minha vocação tenho-os ainda agora diante, como a plenitude que nunca pudera sonhar”. Este apóstolo da Ação Católica recebe de Deus a “vocação” do doente: “minha profissão: inválido”.

E é tal a sua invalidez que no dia a dia vai perdendo todos os seus movimentos. O seu corpo converte-se numa massa retorcida de ossos doloridos, mas nunca se queixa nem fala de si mesmo. No entanto, quando perde o movimento da mão direita, aprende a escrever com a mão esquerda. Quando também a mão esquerda se paralisa, fala e dita para um gravador, convertendo-se assim, num escritor e jornalista a partir da cadeira de rodas.
Quando ainda podia mexer os dedos deram-lhe uma máquina de escrever. A primeira frase que escreveu:

“Senhor, obrigado por esta máquina. Que o Teu Nome seja sempre a força da alma desta máquina... que a Tua Luz e transparência esteja sempre na mente e no coração de todos aqueles que trabalharem com ela, para que o que se faça com ela seja nobre, limpo e transmita esperança”.

Imóvel a partir de sua cadeira de rodas, Lolo funda o Sinai – grupos de oração através da imprensa. Cada grupo de 12 doentes e um convento de clausura tomam sobre si o “cuidado espiritual” da imprensa. Ao todo, chegou a reunir cerca de 300 doentes graves que, em "parceria" com alguns conventos de clausura, ofereciam seus sofrimentos e orações pela imprensa católica. 
Como Moisés, que orava de braços levantados no monte Sinai para ajudar Israel, todos os doentes, que não podiam levantar os seus braços nem andar com seus pés, convertem-se em apoio para os jornalistas.

Devido a complicações de seu próprio estado de imobilidade (grande propensão a doenças respiratórias), morreu no dia 3 de novembro de 1971. O milagre para sua beatificação: a cura instantânea e inexplicável de um menino gravemente enfermo, com a imposição do crucifixo que o Beato trazia em suas mãos na hora da morte) foi aprovado pelo Papa Bento XVI em 2009.  No dia 12 de junho de 2010, celebrou-se a sua Beatificação, tendo presentes as suas irmãs: Lucia (que também foi sua cuidadora) e Expectacion.



O crucifixo do milagre para a Beatificação. 

SÃO JOSÉ LUIS SÁNCHEZ DEL RIO, Leigo e Mártir (Mártir de Cristo Rei no México, 1927).



José Luis Sánchez del Río nasceu no dia 28 de março de 1913, em Sahuayo - Michoacán. Frequentou a escola em seu povoado natal, onde passou a integrar as vanguardas do grupo local da ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) e posteriormente, em Guadalajara - Jalisco.
Quando estourou a Guerra cristera em 1926, seus irmãos se uniram às forças cristeras, porém, sua mãe não lhe permitiu que se unisse. O general Prudêncio Mendoza, também o recusou quando tentou alistar-se. O menino insistiu dizendo que queria ter a oportunidade de dar sua vida por Cristo e poder alcançar o Reino dos Céus. As palavras que convenceram sua mãe a deixá-lo ir foram as seguintes: "Nunca terá sido tão fácil alcançar o Céu como agora".

Cena do filme "Cristiada", que aborda a
Guerra dos Cristeros no México.
Durante uma luta dificílima no dia 06 de fevereiro de 1928, o cavalo do general foi morto e José descendo do cavalo que montava o ofereceu ao general dizendo-lhe:

"Aqui está meu cavalo. O senhor faz mais falta à causa que eu".

Em seguida procurou refúgio e disparou em direção ao inimigo até que lhe acabasse a munição. As tropas do governo o fizeram prisioneiro e o encarceraram na sacristia da igreja local.

O processo e a execução de José foi presenciado por dois de seus amigos de infância.

Na sexta-feira, 10 de fevereiro, o retiraram da Paróquia e o levaram à hospedaria geral do exército federal. Lá o prenderam e, torturando-o para que abjurasse a fé, lhe cortaram as plantas dos pés, fazendo-lhe derramar sangue em abundância. Depois, sendo ainda mais brutos e pertinazes no mal, o conduziram descalço (pois tinha os pés esfolados) pela Rua Insurgentes, até chegar ao que hoje é o Instituto Sahuayense, rodearam o Boulevard e seguiram direto até chegar ao Cemitério Municipal.

Em todo o trajeto, apesar das dores atrozes que sentia e à iminente morte que sofreria, o menino José ia dando gritos e vivas a Cristo Rei e à Virgem de Guadalupe.

Pelo caminho, chorando e rezando ao mesmo tempo, chegou ao local onde lhe foi apontada sua cova e, colocando-se de pé diante dela, foi enforcado e apunhalado por seus carrascos. Um deles, Rafael Gil Martínez, conhecido como "O Zamorano" o desceu da árvore onde havia sido suspenso e lhe perguntou: "O que você quer que digamos aos seus pais?" e José, com toda a dor que sentia, pôde dizer com sua voz já fraca:



"Que Viva Cristo Rei e que no Céu nos veremos!"





O algoz sacou a pistola e disparou um tiro que atingiu a têmpora do menino José, matando-o. Eram 23:30, noite em Sahuayo, Michoacán - México.

José Luis Sánchez del Río foi beatificado em 20 de novembro de 2005 pelo Papa Bento XVI. O Papa Francisco, no dia 16 de outubro de 2016, em solene cerimônia na Praça de São Pedro, canonizou-o, juntamente com outros seis santos. Torna-se modelo de coragem e de fé para todos os jovens católicos. 






São José Luis Sánchez del Río, rogai por nós! 




SÃO LEÃO MAGNO, Papa e doutor da Igreja (um dos maiores Papas da História, grande defensor da Igreja)





Homem de doutrina, soube harmonizar o Ocidente com o Oriente, dando à Igreja seu caráter universal. Pontífice compenetrado de sua missão,  defendeu a verdadeira Fé, certo de que provinham da abundância  da graça de Cristo as obras por ele realizadas.

O leão é, dentre todos os animais, aquele que merece o indiscutido título de rei. Sua imponente presença lhe garante o respeito dos demais e sua força avassaladora, que nada faz recuar, afiança sua supremacia na savana ou na floresta. Tido também como o símbolo da lealdade, ele trava com ufania a batalha pela sobrevivência, lutando sempre de frente. Vemos, assim, como a perfeita ordenação da natureza consiste em cada criatura cumpra a finalidade para a qual foi criada.

Tais características do rei dos animais remetem nosso espírito para realidades mais elevadas, das quais não é senão um pálido reflexo. Quis Deus nos dar a conhecer, por meio desta imagem, algo da sua grandeza e poder infinito. Entretanto, quando a majestade divina se espelha, não mais num ser irracional, mas numa criatura humana qualificada pela graça, ela adquire alturas verdadeiramente sublimes e arrebata as almas de modo incomparável.

Assim sucede ao contemplarmos a figura de um Sucessor de Pedro que reinou em meados do século V, época crucial da História, cujas vicissitudes, tanto no campo político quanto no dogmático, contribuíram para realçar ainda mais a personalidade fulgurante daquele Pontífice e seus dotes de governo e organização. Seu nome — mantido por ele ao ser elevado ao Sólio Pontifício — reproduzia em sua pessoa “um dos mais nobres títulos de nosso divino Ressuscitado”: Leão, o grande defensor da Igreja.

Foi o primeiro Papa a usar esse nome. “Ele o escolheu porque sentia dentro de si um sopro do Espírito Santo que lhe dava um ímpeto de escolher tudo quanto era grande. Ele gostava das coisas grandiosas e sabia perfeitamente o que devia fazer para harmonizar todas as correntes e defender a Igreja da forma mais extraordinária possível”.


A estabilidade da Igreja repousa sobre uma pedra inabalável

Corria o ano 440 quando sobreveio o falecimento do Papa São Sixto III. Reunido o conclave, foi eleito para suceder-lhe Leão, arquidiácono da Igreja romana e conselheiro pontifício, que já por esse tempo era muito estimado e admirado por “sua sabedoria teológica, sua eloquência magnificente e sua diplomacia habilíssima”. 3 O escolhido, contudo, encontrava-se nas Gálias como delegado papal, pelo que demorou em atravessar os Alpes e chegar a Roma. Por isso só pôde ser investido no dia 29 de setembro, em meio às manifestações de júbilo e benquerença do clero e do povo.

Não obstante, ninguém dos que ali o aclamavam poderia ter uma noção exata das ingentes lutas e dificuldades pelas quais ele haveria de passar ao longo dos seus 21 anos de pontificado. São Leão enfrentou a fúria das hordas invasoras, que se lançavam à conquista da Europa e de Roma, bem como a insídia das heresias, não menos perigosa para a Igreja, sem nunca perder a certeza de que a estabilidade da Igreja repousa sobre uma pedra inabalável, a qual não é a virtude natural de nenhum Pontífice, mas a promessa de Cristo a Pedro, quando este manifestou a fé em sua divindade e recebeu de suas mãos o Papado.

Em uma homilia comemorativa de sua ascensão à Cátedra petrina, alguns anos depois, proclamou ele com voz forte e palpitante de emoção esta convicção: “Quando se trata de exercer os deveres de nosso cargo, desejamos agir com piedade e vigor, e nos reconhecemos, ao mesmo tempo, fracos e covardes, pesados que somos, devido à fragilidade de nossa própria condição; no entanto, fortes pela incessante intercessão do Sacerdote todo-poderoso e eterno que, semelhante a nós e igual ao Pai, abaixou a divindade até o nível do homem e elevou a humanidade até o nível de Deus, nós nos rejubilamos justa e santamente pela disposição por Ele tomada. Com efeito, se delegou a numerosos pastores o cuidado de suas ovelhas, nem por isso renunciou a guardar Ele próprio seu rebanho bem-amado. Mais ainda, como consequência dessa assistência essencial e eterna, recebemos a proteção e o apoio do Apóstolo que, decerto, não se afrouxa no cumprimento de sua função; e este sólido fundamento, sobre o qual se eleva em toda a sua altura o edifício da Igreja, não se cansa de sustentar a massa do templo que sobre ele repousa. [...]. Pois é na Igreja inteira que Pedro diz a cada dia: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’, e toda língua que confessa o Senhor é instruída pelo ensinamento desta palavra. É esta Fé que [...] introduz no Céu aqueles que ela arrancou do mundo, e as portas no inferno não podem prevalecer contra ela. Ela é, de fato, assegurada divinamente com uma tal solidez que nunca a perversidade dos hereges a poderá corromper, nem a perfídia dos pagãos a poderá enganar”.


Defensor da Igreja face às heresias

Espalhavam-se, com efeito, por aqueles tempos muitas heresias que ameaçavam a unidade do Corpo Místico, confundindo e arrastando numerosos espíritos menos vigilantes. O norte da África via-se infestado por arianos, donatistas e também por maniqueus, muitos dos quais procuravam refúgio na Itália fugindo da invasão dos vândalos. De outro lado, os priscilianos, que no fim do século IV haviam difundido na Espanha sua ideologia, tornavam a multiplicar-se, apesar de terem sido condenados pelo Concílio de Toledo no ano 400.

Mas o pior inimigo assomava no Oriente. Ainda não se haviam silenciado totalmente os ecos da perniciosa doutrina de Nestório — o qual “não via em Cristo mais do que duas pessoas colocadas uma ao lado da outra, unidas exterior e moralmente”  —, quando Eutiques, arquimandrita de um convento de Constantinopla, começou a defender o erro oposto: segundo ele, havia em Jesus Cristo “uma só natureza composta da divindade e da humanidade”, motivo pelo qual seus partidários chamaram-se monofisitas.

Contra esses adversários São Leão fez honra a seu nome, “intervindo em diferentes circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez, através dos seus escritos e mediante os seus legados. Mostrava deste modo como a prática da primazia romana era necessária então, como também hoje, para servir eficazmente à comunhão, característica da única Igreja de Cristo”.

Tendo tomado conhecimento da presença dos maniqueus em Roma, apressou-se em advertir o rebanho confiado à sua guarda, exortando-o à vigilância, em suas pregações. Também contra os priscilianos escreveu São Leão uma carta a São Turíbio, Bispo de Astorga, denunciando os principais erros dessa nociva seita.

Pedro falou pela boca de Leão!

Sem embargo, sua maior vitória no campo dogmático foi a condenação decisiva dos desvios doutrinários de Eutiques, o qual, sob a capa de ortodoxia antinestoriana, encontrava grande aceitação entre o povo. Como já o próprio São Paulo escrevera aos coríntios, “é conveniente até que haja heresias, para que também os que são de uma virtude provada sejam manifestados entre vós” (I Cor 11, 19), também os enganos dos monofisitas contribuíram para ser definida de maneira clara e fulgurante a doutrina S Leao Magno.JPGcristológica da união das duas naturezas — humana e divina — na única Pessoa do Verbo.

Na célebre carta dirigida a Flaviano, Bispo de Constantinopla, São Leão afirmou: “Numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. [...] Verdadeiro Deus, Ele é também verdadeiro homem; e nada há de falso nessa unidade, pois n’Ele é perfeita tanto a humildade do homem como a grandeza de Deus. [...] Em colaboração com a outra, cada natureza realiza o que lhe é próprio: o Verbo, aquilo que é próprio do Verbo; a carne, o que é próprio da carne. A primeira resplandece nos milagres, a segunda sucumbe aos sofrimentos. Assim como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, a carne não deixa a natureza de nossa raça”.

Este documento, belo tanto por sua pureza teológica quanto pelo brilhante estilo literário, foi proclamado no Concílio de Calcedônia, convocado em 451 para dirimir a questão. E os Bispos presentes acolheram o final da leitura “com uma eloquente aclamação, da qual é conservada a notícia nas atas do Concílio: ‘Pedro falou pela boca de Leão’, prorromperam em uníssono os Padres conciliares”.

“Nesta controvérsia, na qual estava em causa a Fé da Igreja, o mérito de São Leão foi o de dar ao dogma tradicional uma formulação precisa, que punha fim de imediato às ambiguidades tão prejudiciais para a ortodoxia. [...] Somando a Tradição ao carisma infalível do Pontífice Romano, São Leão enuncia em termos simples a fórmula de Fé adotada logo de saída pelos Padres da Calcedônia: há em Cristo duas naturezas completas, e uma só Pessoa”.

Um “leão” face à barbárie pagã

Mal acabara de derrotar a perversidade da heresia que procurava desestabilizar a Igreja, perfilava-se já no norte da Itália a barbárie pagã que avançava num turbilhão de fogo, sangue e devastação. Átila, o terrível chefe dos hunos, o “flagelo de Deus”, cruzara os Alpes, tomara Milão e Pavia, e estava acampado em Mântua, com a via aberta para atacar Roma, onde se encontrava uma população aterrorizada e abandonada por seus governantes, incapazes de defendê-la. A esperança da Urbe e de todo o resto da Península repousava sobre os ombros do Vigário de Cristo. Agora não teria ele de empunhar o gládio da palavra, a fim de confundir os hereges, mas sim de arriscar a própria vida para salvar suas ovelhas.

São Leão pôs-se resolutamente a caminho, seguido de alguns Cardeais e dos principais membros do clero romano. Revestido das insígnias pontifícias e cavalgando um humilde animal, apresentou-se diante de Átila e o intimou a cessar aquela guerra de saques e devastações. Contra todas as expectativas humanas, o bárbaro recebeu com temeroso respeito aquele ancião que vinha até ele sem armas e sem soldados; prometeu-lhe viver em paz com o Império, mediante o pagamento de um leve tributo anual, e retirou-se por onde viera. Interpelado depois por seus guerreiros, os quais não compreendiam aquela súbita mudança,o “flagelo de Deus” replicou: “Enquanto ele me falava, eu via, de pé a seu lado, um Pontífice de majestade sobre-humana. De seus olhos jorravam raios, e tinha na mão uma espada desembainhada; seu olhar terrível e seu gesto ameaçador me ordenavam conceder tudo quanto solicitava o enviado dos romanos”.

Quais foram as palavras do santo Papa ao chefe bárbaro, não se sabe. Segundo o relato de um cronista contemporâneo, ele “abandonou-se ao auxílio divino, que nunca falta aos esforços dos justos, e o êxito coroou sua fé”.12 Do alto do Céu, São Pedro favoreceu a missão de seu sucessor, confirmando-a por um milagre. “Este importante acontecimento tornou-se depressa memorável, e permanece como um sinal emblemático da ação de paz desempenhada pelo Pontífice”.13 A vitória foi festejada com pompa e solenidade em Roma e, para perpétua ação de graças, São Leão mandou fundir a estátua de bronze de Júpiter Capitolino e fazer com esse metal uma grande imagem do Apóstolo Pedro, que até hoje se venera na Basílica Vaticana.

Três anos depois, quando Genserico, rei dos vândalos, chegou às portas da Cidade Eterna, foi mais uma vez este santo pastor quem a salvou, alcançando do invasor que não a incendiasse nem derramasse sangue.

Pastor terníssimo e generoso

Os últimos anos de sua vida, São Leão os dedicou à organização da disciplina eclesiástica, à pregação e ao aprimoramento da Liturgia. Foi ele quem acrescentou ao Cânon da Missa as palavras: Sanctum sacrificium (Sacrifício santo), e Immaculatam Hostiam (Hóstia imaculada), as quais refletem de modo inequívoco seu senso teológico e sua intensa devoção ao Mistério Eucarístico. Restaurou as antigas basílicas, erigiu novos templos e doou ricos vasos para as celebrações.

Grandioso sob todos os aspectos de seu pontificado, São Leão também o foi na caridade, demonstrada por seu terníssimo afeto pelo rebanho que o Espírito Santo lhe confiara e pela generosidade com a qual distribuía esmolas entre os mais necessitados. Finalmente, a 10 de novembro de 461, rodeado do amor de seus fiéis, rendeu sua nobre alma a Deus, deixando à posteridade um exemplo ímpar de integridade e de zelo pela Casa do Senhor.

Mais poderosa é a chave de ouro

Homem de doutrina, de escritos e de palavra eloquente, soube harmonizar o Ocidente com o Oriente, dando à Igreja seu caráter universal. Varão de inigualável personalidade, contribuiu para reforçar a primazia da Sé de Roma, graças ao prestígio e à autoridade de sua pessoa. Pontífice compenetrado de sua missão, defendeu a verdadeira Fé, certo de que não provinham de sua capacidade humana, mas sim da abundância da graça de Cristo, as obras por ele realizadas.

Tal foi São Leão I, cognominado Magno devido à santidade majestosa com a qual se distinguiu ao longo de sua vida, legando aos séculos futuros um profundo ensinamento: a carne nada é diante do espírito (cf. Jo 6, 63). Por piores que sejam as situações de aflição ou de prova pelas quais tenha de passar a Santa Igreja, o poder espiritual, entregue por Jesus a Pedro, faz a verdade brilhar e impor-se definitivamente. Das duas chaves que adornam a tiara pontifícia — de prata e de ouro, símbolos do poder temporal e do espiritual —, a mais poderosa é a de ouro: “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”! (Mt 16, 18).


(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Nov/2012, n. 131, p. 34 à 37)

SÃO LEÃO MAGNO, Papa e Doutor da Igreja (2° texto biográfico).




Combateu heresias, reforçou a disciplina eclesiástica, escreveu importantes obras, sendo seu pontificado o mais importante da antiguidade Cristã. 

“Num tempo em que a Igreja enfrentava os maiores obstáculos para seu progresso, em conseqüência da rápida desintegração do Império Romano do Ocidente, enquanto o Oriente estava profundamente agitado por controvérsias dogmáticas, esse grande Papa, com uma sagacidade sem precedentes e poderosa mão, guiou o destino da Igreja Romana e Universal”.(1)

São Leão nasceu em Roma, de pais toscanos, no final do século IV ou começo do V. Já na juventude distinguiu-se nas letras profanas e na ciência sagrada. Um antigo concílio geral diz dele: “Deus, que o havia destinado a obter brilhantes vitórias contra o erro e a submeter a sabedoria do século à verdadeira fé, tinha posto em suas mãos as armas da ciência e da verdade”.(2) Tornando-se arcediago da Igreja romana, serviu sob os Papas São Celestino I e Sixto III.

Hábil diplomata, era ele bem conhecido, pois foi por sua sugestão que Cassiano escreveu em 430 ou 431 sua obra De Incarnatione Domini contra Nestorium (“Sobre a Encarnação do Senhor, contra Nestório”). E também nesse mesmo ano São Cirilo de Alexandria a ele se dirigiu para interessá-lo em seu favor contra o mesmo herege Nestório.

São Leão foi designado para várias missões delicadas na época. Em uma delas, em 440, foi enviado pelo Imperador Valentiniano III à Gália, para tentar reconciliar dois dos mais famosos personagens do Império — o comandante militar da Província, Aécio, e o principal magistrado, Albino —, que não pensavam senão em suas desavenças em vez de voltar-se contra os bárbaros que estavam às portas do vasto Império. São Leão encontrava-se nessa missão quando, falecendo o Papa Sixto, foi eleito para sucedê-lo.

Leão foi sagrado no dia 29 de setembro de 440. Um mês depois, pedia ao povo romano, reunido na basílica de São João de Latrão: “Eu vos conjuro, pelas misericórdias do Senhor, que ajudeis com vossas orações àquele que haveis chamado com vossos desejos, a fim de que o espírito da graça permaneça sobre mim e não tenhais que arrepender-vos de vossa eleição”.(3)

Incansável defensor da ortodoxia
São Leão considerou como um de seus principais deveres, na qualidade de supremo Pastor, manter a disciplina eclesiástica, nesse tempo em que a contínua invasão de hordas bárbaras provocava desordens em todas as condições da vida; inclusive nas regras de moralidade, que estavam sendo seriamente violadas. Foi ele extremamente enérgico para a manutenção da disciplina, e muitos de seus sermões e decretos vão nesse sentido.

Esforçava-se principalmente em sustentar a ortodoxia naqueles tempos difíceis para a Igreja e de decadência geral. “De sua primeira carta, escrita a Eutiques em 1º de junho de 448, à sua última carta ao novo Patriarca de Alexandria, Timóteo Salophaciolus, em 18 de agosto de 460, não podemos senão admirar a clara, positiva e sistemática maneira pela qual Leão, fortificado pela primazia da Santa Sé, teve parte nessa difícil confusão”.(4)

Pouco depois de sua elevação ao sólio pontifício, começou a combater energicamente as heresias que surgiam no Oriente. Assim, por exemplo, soube que em Aquiléia sacerdotes, diáconos e clérigos, que tinham sido aderentes da heresia de Pelágio, haviam sido readmitidos à comunhão da Igreja sem ter feito abjuração explícita de sua heresia. O Papa, além de condenar severamente o fato, ordenou que um sínodo provincial se reunisse naquela cidade, no qual tais pessoas fossem intimadas a abjurar publicamente a heresia e a subscrever uma confissão de fé inequívoca.

Outro grave problema que teve de enfrentar foi contra nova onda da heresia maniquéia. Hordas e hordas de maniqueus, que fugiram da África por causa da invasão dos vândalos, haviam se estabelecido em Roma, onde fundaram uma comunidade maniquéia secreta. O Papa ordenou aos fiéis que denunciassem esses hereges aos sacerdotes. Em 443, junto aos senadores e presbíteros, conduziu uma investigação pessoal contra a seita, sendo então seus líderes julgados e condenados.

Por influência do Papa, o Imperador Valentiniano III promulgou um edito pelo qual estabeleceu punições contra os maniqueus. São Próspero de Aquitânia afirma em suas Crônicas que, em conseqüência das enérgicas medidas do pontífice contra a heresia, os maniqueus foram também expulsos das províncias; e que mesmo os bispos orientais emulavam com Leão I na perseguição a essa seita herética.

São Leão defrontou-se também com a questão da heresia monofisista no Oriente, defendida por Eutiques, monge de Constantinopla. Ensinava o monge que em Jesus Cristo havia somente uma natureza; e não duas –– a humana e a divina –– como é o ensinamento correto. Eutiques já havia sido excomungado por São Flaviano,(5) Patriarca de Constantinopla, e apelou ao Papa. Leão I, depois de investigar a questão, escreveu uma carta dogmática a São Flaviano, com uma exposição serena e profunda da cristologia católica. No caos das discussões, este foi o guia seguro para os espíritos sinceros, estabelecendo e confirmando a doutrina da Encarnação e da união das naturezas divina e humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele urgiu que um concílio se reunisse para julgar o concílio ilegalmente realizado em Éfeso –– que condenara e depusera São Flaviano, inocentando Eutiques – e ao qual denominou de “Concílio de Ladrões”. Foi assim reunido o Concílio de Calcedônia, sob os auspícios dos imperadores Marciano e Santa Pulquéria (vide Catolicismo, setembro/08), que condenou Eutiques e Dióscoro, patriarca de Alexandria.


Átila, rei dos hunos, o “Flagelo de Deus”
Um perigo de outra ordem surgiu no horizonte. Átila, rei dos hunos, que a si mesmo chamava de “Flagelo de Deus”, tudo destruía nas Gálias. Tongres, Treves e Metz foram pilhadas; Troyes foi salva por São Lupo, e Orleans por Santo Aniano. Batido nas planícies de Chalons pelos esforços conjuntos de Aécio, Meroveu, rei dos francos, e Teodorico, rei dos visigodos, Átila voltou-se para o norte da Itália, destruindo tudo a ferro e fogo. Muitos se refugiaram nas pequenas ilhas existentes nas lagunas do Mar Adriático, dando origem a Veneza. Átila saqueou Milão; e o imperador Valentiniano III, não se julgando a salvo em Ravena, fugiu para Roma. O imperador, o senado e povo só viram uma saída para conjurar a situação: que São Leão fosse parlamentar com o invasor.

Para São Leão, sua missão era clara: salvar o mundo cristão, e também sua pátria e seu povo. Mas a tarefa não era nada fácil, e o sucesso imprevisível.

São Leão foi encontrar-se com o temível bárbaro nas proximidades de Mântua, revestido de todos os paramentos pontificais e acompanhado por sacerdotes e diáconos em trajes sacerdotais. “Como um leão que não conhece medo nem tardança, este varão se apresentou para falar ao rei dos hunos em Peschiera, pequena cidade próxima de Mântua, e moveu o vencedor a voltar”, diz um cronista da época. Outro contemporâneo, São Próspero da Aquitânia, afirma que São Leão “abandonou-se ao auxílio divino, que nunca falta ao esforço dos justos, e o êxito coroou sua fé”.(6)

Átila prometeu viver em paz com o império mediante um tributo anual. Fez cessar imediatamente as hostilidades, e pouco depois, fiel à sua palavra, retornou aos Alpes.

Os bárbaros perguntaram então a seu chefe por que, contra seu costume, havia mostrado tanto respeito para com o Papa, a ponto de obedecer tudo quanto ele havia proposto. Átila respondeu que “não foi a palavra daquele que veio me encontrar que me inspirou um medo tão respeitoso; mas eu vi junto a esse Pontífice um outro personagem, de um aspecto muito mais augusto, venerável por seus cabelos brancos, que se mantinha em pé, em hábito sacerdotal, com uma espada nua na mão, ameaçando-me com um ar e um gesto terríveis, se eu não executasse fielmente tudo o que me era pedido pelo enviado”. Esse personagem era o Apóstolo São Pedro. Segundo outra tradição, o Apóstolo São Paulo estava também presente. Não nos resta nenhum relato contemporâneo dessa intervenção dos Apóstolos. Mas a tradição que no-lo narra está consagrada pela autoridade do Breviário Romano.(7)

Outra invasão de Roma, outras circunstâncias
O Sumo Pontífice ordenou preces públicas para agradecer a Deus tamanho benefício. Mas o povo volúvel logo se esqueceu do magnífico favor, e se entregou às diversões como jogos no circo, teatros e deboches. O imperador não foi o último a dar o mau exemplo da imoralidade mais revoltante. Num sermão, São Leão aplicou ao povo as palavras de Jeremias (5, 2): “Vós os atingistes, e eles não sentiram; vós os quebrastes de golpes, e eles não quiseram submeter-se ao castigo”. Emocionado, acrescentou: “Queira Deus que estes males sirvam para a emenda dos que sobrevivem, e que, cessando as desgraças, cessem também as ofensas”.(8)

Mas sua advertência não foi atendida. Por isso, três anos depois, São Leão já não foi tão bem sucedido com o vândalo Genserico. O que o Pontífice pôde obter dele foi que não queimasse a cidade e respeitasse a vida de seus cidadãos. E que estaria a salvo tudo o que se pudesse recolher nas três grandes basílicas de Roma. Mas Roma foi saqueada durante 15 dias. Ninguém morreu, mas muitos ficaram na miséria.

O Pontífice procurou socorrer os necessitados e reconstruir a cidade, declarando outra vez que esses males se deviam à impiedade do povo. E exclamou: “Meu coração está cheio de tristeza e invadido por um grande temor. Porque estão em grande perigo os homens quando são ingratos a Deus, quando se olvidam de suas mercês e não se arrependem depois do castigo, nem se alegram com o perdão”.(9) São Leão enviou missionários à África para atender os cristãos cativos que Genserico levou consigo.

A rica coleção de cartas e sermões admiráveis que nos legou São Leão Magno — e que lhe mereceram o título de Doutor da Igreja — são um claro espelho da história de seu tempo. “Com ele vemos pela primeira vez o Papado medieval em toda sua concepção grandiosa e sua intransigência necessária, e nele resplandece o duplo elemento que garante a vida divina da Igreja: autoridade e unidade”.(10)

O grande Papa e santo faleceu em Roma no dia 10 de novembro de 461, e foi declarado Doutor da Igreja em 1754.


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Notas:

1. J.P. Kirsch, Pope Saint Leo, The Catholic Encyclopedia, online edition, www.newadvent.com.

2. Les Petits Bollandistes, Vies de Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IV, p. 328.

3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 101.

4. J.P. Kirsch, id., ib.

5. Ver nosso artigo sobre Santa Pulquéria em Catolicismo, edição de setembro de 2008.

6. J.B. Weiss, História Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 328.

7. Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 333.

8. Fr. Justo Perez de Urbel, op. cit., p. 103.

9. Id., ib., p. 105.

10. Id., Ib., p. 108.

(Fonte: site Catolicismo, de Plínio Solimeo) 


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Beato John Henry Newman, Cardeal (convertido do anglicanismo ao catolicismo, cardeal e santo).




John Henry Newman nasceu em Londres (1801) e faleceu em Edgbaston (1890). Foi um sacerdote da Igreja Anglicana que, por meio de uma busca profundíssima, no estudo, na oração, na meditação e contemplação das coisas de Deus, terminou por ingressar à Casa de Deus e integrar o Corpo Místico de Cristo, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O grande cardeal Ratzinger, no ano 1990, escreveu, com o habitual brilhantismo, a propósito do centenário da morte de Newman: Foi sua consciência que o conduziu, dos antigos laços e das antigas certezas, para o difícil e estranho mundo do catolicismo”. Vinte anos depois, em 2010, o mesmo Ratzinger, então Papa Bento XVI, beatificou o Cardeal Newman em Coventry, Grã-Bretanha, aos 19 de setembro, durante sua viagem à Inglaterra.

Como bom pensador, Newman viveu a sua fé de maneira inquieta, como quem procura incessantemente o autoaprimoramento e não se contenta com menos que a Verdade (que é o próprio Cristo), e em suas inquietações sempre estiveram entrelaçadas fé e razão.


A infância de Newman

John Henry Newman era o primogênito dos seis filhos do casal John Newman e Jemina Fourdrinier. Nasceu em Londres e foi batizado na Igreja anglicana de Saint Bennet Fink.

Seu pai, um homem empreendedor, foi subindo de posição social até que se tornou banqueiro. Mas depois de vários anos de êxito, veio a derrocada. Foi o próprio John Henry que teve de manter toda a sua família quando frequentou a Universidade de Oxford.
“Fui educado durante minha infância para ter o grande prazer de ler a Bíblia, mas não tive sólidas convicções religiosas até os 15 anos”: assim Newman abriu o segundo parágrafo de sua obra-prima, intitulada Apologia pro vita, a história de suas convicções religiosas, que escreveu em 1864 para combater quem, à raiz de sua conversão, o atacava ferozmente.

Um dia, na ermida de Littlemore, onde se converteu, encontrou e folheou um velho caderno seu de escola. Na primeira página encontrou, maravilhado, um emblema que lhe cortou a respiração: tinha desenhado a figura de uma cruz robusta e, atrás, uma figura que representava um rosário com uma pequena cruz unida a este. Naquele momento tinha só dez anos. Estas imagens não teriam por que terem sido desenhadas a lápis por Newman, devido à aversão que os protestantes têm às imagens sacras.



Newman e os Padres da Igreja

No ano 1826, quando ainda era anglicano, Newman decidiu estudar com um método sistemático os Padres da Igreja (a Patrística), e (como ocorre no caso de diversos protestantes que se convertem ao catolicismo) nasceu daí um grande amor. Em primeiro lugar, examinou-os sob a ótica protestante; depois, em 1835 e 1839, retomou o estudo a partir de uma ótica mais parecida com a do catolicismo (ainda que ele não o soubesse).

Em uma carta a seu amigo Pusey, Newman disse: “Não me envergonho de basear-me nos Padres, e não penso em de forma alguma me afastar deles. A história dos seus tempos não é para mim um almanaque velho. Os Padres me fizeram católico e eu não pretendo me afastar da escada pela qual subi para entrar na Igreja”.

Os Padres da Igreja foram para Newman seu grande amor. Neles, encontrou a resposta às persistentes perguntas religiosas e de fé que o torturaram durante 44 anos, até que, aos 09 de outubro de 1945, foi acolhido na Igreja Católica pelo padre Domenico Barberi, passionista italiano que foi beatificado por Paulo VI em 1963.

Sobre a conversão ao catolicismo

A conversão chegou através de um cansativo percurso intelectual e espiritual. Sua biografia identifica-se com a elaboração do pensamento e com o empenho da alma. John Henry Newman está situado entre os grandes pensadores, filósofos e teólogos da história da humanidade. Sua bibliografia, que se têm edificado no mundo no transcurso dos 125 anos desde sua morte, é enorme.

Com espírito de explorador, atento e escrupuloso, pesquisou o interminável nó de caminhos que é o protestantismo. Primeiro como calvinista, depois como anglicano, para depois chegar com alegria à Igreja edificada pelo próprio Cristo sobre o Apóstolo Pedro, como pôde experimentar também outro convertido excepcional: Santo Agostinho. Newman comportou-se como o capitão que governa seu navio de guerra com destreza e competência e, sem trégua alguma, alcançou, com grande humildade e sobretudo com zelo, a meta desejada.

Newman, apesar de dar especial importância ao valor da amizade e aos laços profissionais, quando viu e compreendeu a Verdade, e ao mesmo tempo onde estava, não se preocupou com mais nada nem com ninguém, e abandonou tudo e todos, assim como fizeram os Apóstolos. Seus amigos anglicanos compreenderam que tinham perdido um grande homem: alguns lamentaram; outros o julgaram ferozmente; outros, em contrapartida, o apoiaram.

O elogio mais belo, a nosso parecer, que lhe deram em vida, foi a carta que Edward Pusey enviou a um amigo:
“Deus está ainda conosco e nos permitirá seguir adiante, apesar desta grande perda. Não devemos esconder sua importância, porque foi a maior perda que tivemos. Quem o conheceu sabe bem dos seus méritos. Nossa igreja não soube se beneficiar. Era como se uma espada afiada dormisse em sua bainha porque ninguém sabia empunhá-la. Era um homem predestinado a ser um grande instrumento divino, capaz de realizar um amplo projeto que restabelecesse a Igreja. Foi-se – como todos os grandes instrumentos de Deus – inconsciente de sua própria grandeza. Foi-se para cumprir um simples ato de dever, sem pensar em si mesmo, abandonando-se completamente nas mãos do Altíssimo. Assim são os homens em quem Deus confia. Poder-se-ia dizer que se transferiu para outra área da vinha, onde pode utilizar todas as energias de Cardeal sua poderosa mente.”

Os ataques
Certamente partiram da Igreja anglicana, dos intelectuais protestantes e também da própria Igreja Católica (!). Os primeiros o consideravam um traidor, os segundos, alguém de quem se deve desconfiar. Também alguns católicos na Irlanda estiveram contra: ele foi removido do cargo de reitor da Universidade de Dublin. John Henry Newman escreveu a Apologia pro vita justamente para se defender dos ataques dos intelectuais. Este livro engendrou muitas conversões. Recordemos que o Papa Leão XIII afastou muitos rumores maliciosos, quando concedeu a Newman o barrete cardinalício.


A beatificação de Newman em uma sociedade onde reina o relativismo moral e intelectual

O Cardeal Newman combateu sincera e lealmente o liberalismo, trazendo, com seu método sistemático e analítico, um dos perfis mais reais daquela Europa em fase de corrupção, de abandono da civilização cristã e de agonizante apostasia. Conseguiu identificar as conotações de secularização e relativismo de nossos dias, fruto da presunção que já os gregos pagãos, depositários de verdadeiras sementes do Verbo, definiam übris (ύβρις = a arrogância de quem não se submete aos deuses), ou o que é o mesmo, a ideia de antepor os lugares comuns supostamente racionais da própria época à razoabilidade e racionalidade da Tradição.

Newman, de quem, como disse o cardeal Ratzinger em 1990, “pertence aos grandes doutores da Igreja”, esse grande cavalheiro do século XIX inglês, alcançou a Verdade quando tinha 44 anos, depois de décadas de estudo e aprofundamento. Com valentia, forçou sua própria mente para entender, indagar, sondar os meandros da História, da Filosofia, Teologia e descobrir finalmente a Pedra Preciosa. Assim, diz: “Vi meu rosto naquele espelho: era o rosto de um monofisista, o rosto de um herege anglicano, e o descobri quase com terror!”.

O epitáfio na tumba do futuro do Beato John Henry Newman, cuja vida é das provas mais evidentes e concretas de que a razão pode se unir à fé para trazer ao mundo a Igreja de Jesus Cristo, a única Verdade que leva à salvação eterna, fala sobre a relação entre crer na verdade e ser livre: “Se permanecerdes em minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” (Jo 8,31-32). John Henry Newman é o modelo que a Igreja propõe aos cristãos e aos católicos para seguir: foi uma resposta claríssima do Papa Bento XVI ao mundo relativista.


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Newman foi nomeado Cardeal pelo Papa Leão XIII (1879). Abaixo alguns momentos importantes de sua vida tais como narrados pelo próprio Papa Bento XVI na homilia do dia de sua beatificação:
“A conversão [do Cardeal Newman] ao Catolicismo, exigiu-lhe o abandono de quase tudo o que lhe era caro e precioso: os seus haveres e a sua profissão, o seu grau acadêmico, os laços familiares e muitos amigos. A renúncia que a obediência à verdade, à sua consciência, lhe pedia, ia mais além ainda. Newman sempre estivera consciente de ter uma missão para a Inglaterra. (…) Em Janeiro de 1863, escreveu no seu diário estas palavras impressionantes:
'Como protestante, a minha religião parecia-me miserável, mas não a minha vida. E agora, como católico, a minha vida é miserável, mas não a minha religião'."

O Cardeal Newman se referia à postura de total humildade e quebrantamento diante de Deus que só a aprendeu a ter sob a tutela da sã Doutrina Católica, e que é totalmente diferente da sua antiga maneira protestante de pensar, quando já "se achava salvo" e era muito seguro. – A intercessão do Beato Cardeal John Newman é uma importante ferramenta para todos os católicos que possuem amigos, parentes ou entes queridos que não acolhem a verdadeira Igreja de Cristo. Através dele podemos pedir ao Senhor que a luz da Verdade se acenda em seus corações.

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Fontes:

ZENIT, "O cardeal Newman e a busca da verdade", disponível em: http://www.zenit.org/pt/articles/o-cardeal-newman-e-a-busca-da-verdade