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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Frei Miguel Ângelo Serafini, Presbítero Capuchinho



A pedido de nosso irmão Moisés da Cruz, ocds, membro da Comissão de Formação e responsável pela Escola de Formação Santa Edith Stein e que é natural de Aracaju - SE,  publico algumas matérias sobre o Frei Michelângelo de Cíngoli (Michelângelo Serafini), mais conhecido como Frei Miguel Ângelo, frade capuchinho italiano que viveu a maior parte de sua longa vida (faleceu com 104 anos) como missionário no Estado do Sergipe.
O religioso faleceu com grande fama de santidade e estima pública. Portanto, já existe um movimento dos confrades de sua Ordem e da Arquidiocese de Aracaju para encaminhar sua causa de beatificação para o Vaticano. Lembro aos leitores do blog que o processo diocesano (a primeira fase do processo de beatificação/canonização de um candidato aos altares) somente pode começar após pelo menos 05 anos da morte do candidato. Claro que isso não impede a grande veneração do povo e o túmulo do futuro servo de Deus já é bastante visitado, no qual orações são feitas a Deus para alcançar graças com a sua intercessão. Esperamos que em breve sua causa seja aceita e que um dia seja mais uma estrela gloriosa a ornar os nossos altares, pois, já orna o Trono do Altíssimo a quem tanto amou e tão perfeitamente serviu na terra.


Notícia publicada no jornal em 31/10/2012, portanto, antes de sua santa morte:

Frei Miguel Ângelo celebra 104 anos com missa em Aracaju
Fiéis celebraram a data na Igreja dos Capuchinhos no Bairro América. Religioso dedicou quase 80 anos de vida aos trabalhos comunitários.

“A noite desta terça-feira (30) na Igreja dos Capuchinhos, localizada no Bairro América, Zona Oeste de Aracaju, foi de celebração e festa pelos 104 anos do Frei Miguel Ângelo, que dedicou 77 anos da sua vida aos trabalhos comunitários na região. Os fiéis católicos lotaram a missa festiva e cantaram os parabéns ao homenageado.
Mesmo com a saúde um pouco abalada Frei Miguel assistiu toda a programação em uma cadeira de roda. Para a estudante universitária Lucineide Gomes dos Santos, o franciscano deu grandes contribuições à comunidade. ‘Ele fez uma verdadeira revolução no Bairro América com seus trabalhos humanitários. Um verdadeiro símbolo religioso’, comenta a universitária que faz referência a ajuda do padre na construção da Igreja São Judas Tadeu.
Frei Florêncio da ordem dos Capuchinhos de Aracaju também reafirma a opinião da estudante Lucineide. ‘Padre Miguel é uma figura representativa da Igreja Católica em Sergipe. Sempre atuou no trabalho apostólico aqui no bairro, além de já ter liderado missas em várias outras partes do estado’, comenta.

77 anos de trabalho comunitário

Michelângelo Serafini é italiano da cidade de Cíngoli, província de Macerata. Ingressou na ordem dos capuchinhos em 1925 vindo ao Brasil como missionário após ter sido ordenado em 1934. Aqui no país ficou conhecido popularmente como Frei Miguel.
Antes de se estabelecer em Aracaju, trabalhou nas paróquias de Santa Rosa de Lima, Divina Pastora, Rosário do Catete, Maruim e Santo Amaro. Quando chegou à capital recebeu a missão de construir a primeira igreja capuchinha da cidade.
Com quase 80 anos de atuação dos trabalhos comunitários, hoje Frei Miguel é um exemplo de vida para muitos seguidores.
‘Sou gaúcho, mas conheci o Frei há 30 anos quando me casei nesta igreja de Aracaju. Sempre que posso venho aqui e sou muito bem recebido por ele. Apesar da idade Frei Miguel ainda está lúcido e tem energia. Esperamos que ele seja beatificado pelo Vaticano’, acredita o militar Paulo Ademar”.



Testemunho de um confrade seu capuchinho:

Frei Miguelângelo Serafini, acaba de completar 104 voltas  ao redor do Sol, ele mesmo um raio de sol para quem recebeu a graça de conhece-lo.

Quem olha atentamente para esse homem de Deus - hoje com os estigmas da passagem do tempo bem visíveis em seu corpo, mas sempre com o brilho das estrelas nos seus olhos -não pode deixar de maravilhar-se   com a sua transparência. Frei Miguel é qual uma janela, uma window, aberta para o alhures e apontando para o site de Deus, onde não entra nenhum tipo de vírus. Só leveza e amor. 



Li, se não me engano em Rubem Alves, que quem lê um livro de teologia não tem acesso a Deus, mas ao coração do teólogo, que O desenha e pinta com traços e cores tirados de dentro de si. Quem lê esse texto humano, que é Frei Miguel, tem acesso, quase direto, ao coração de Deus. Ele torna Deus evidente.  Por isso mesmo, as pessoas que dele se acercam, querem tocá-lo. Porque dele continua saindo uma Força apaziguadora.

Comecei meu noviciado em Aracaju, junto com três companheiros de sonho.  O que nosso mestre, Frei Urbano, nos dizia acerca de São Francisco (que era um irmão menor, cheio de bom senso, bom gosto e bom humor), nós o encontrávamos, materializado, naquele frade de sorriso maroto, de poucas palavras, com observações sempre concisas e certeiras, quase no estilo dos koans dos mestres zen ou dos apotegmas dos Padres do Deserto.


Hoje – já se passaram 40 anos –, quis a Providência divina que eu voltasse a compor aquela Fraternidade. Quando Frei Rubival me comunicou que eu iria morar em Aracaju, pensei logo na honra e na alegria que seria, para mim, morar perto de Frei Miguel.

E assim tem sido. Do alto dos seus 104 anos, nosso Miguilim (uma vez, venci a timidez e o chamei assim, e parece que ele gostou...) continua irradiando a bondade e a beleza do Grande Mistério. Sempre magnânimo, lembra um mahatma, um roshi, um discípulo de Jesus Cristo. Os sergipanos o veneram. E ele, na medida do possível, os atende com a mão que diz a palavra boa. Que abençoa. Com aquele sorriso, tímido e generoso, que é um dos sinais que mais o distinguem.

Tanto poderia testemunhar sobre Frei Miguel. Não podendo, entretanto, exceder o limite do que me foi pedido, digo, last but no least, que Frei Miguel não é apenas um irmão menor; ele é, como  no-lo revelou São Francisco no seu Testamento, o menor dos irmãos. O que para nós outros ainda é adjetivo e utopia, em Frei Miguel já é, visivelmente, um substantivo, uma eutopia. Sendo na prática o menor dos servos, ele nos desvela o maior segredo de Deus: Sua alegria e Sua simplicidade. Seu amor.

Frei José Edilson Bezerra OFMcap.



Notícia da morte do Frei Miguel publicada em 09/01/2013

Morre aos 104 anos, Frei Miguel Ângelo. O Frei, devido à idade avançada, vinha enfrentando problemas de saúde.

Foi em outubro do ano passado que centenas de fiéis e admiradores do trabalho de Frei Miguel Ângelo de Cíngoli, se reuniram na paróquia São Judas Tadeus, popularmente conhecida como Igreja dos Capuchinhos, para comemorar os seus 104 anos. Nessa quarta-feira (9), no entanto, os mesmos fiéis e admiradores se unem para a despedida. Frei Miguel morreu por volta das 6h de hoje.

Em junho de 2012, o frei foi internado no Hospital São Lucas. Na ocasião, a informação era que o frei estava sem querer se alimentar e precisou ser internado para recuperar as forças. Segundo os médicos, ele não sofria de doença nenhuma, nem diabetes, nem colesterol, não nada do tipo, apenas fraqueza por conta da idade.

Exéquias do Frei Miguel celebradas pelo Arcebispo de Aracaju, bispo
auxiliar e vários representantes do clero, bem como pelos confrades. 



Autoridades civis, eclesiásticas e o povo em geral lotam a igreja onde seu
corpo foi velado. 




O povo, com grande emoção, se despede do "frei santo", Frei Miguel
Ângelo, o "Santo de Aracaju". 


Adorado, não só pela comunidade em que se instalou na década de 60, o frei nasceu no ano de 1908, em Cíngoli, na Itália, e aprendeu desde cedo o espírito de sacrifício. Entrou no Seminário dos Frades Menores Capuchinhos da Província das Marcas de Ancona em 04 de outubro de 1926 e ordenou-se em 29 de julho de 1934 quando recebeu o nome de Frei Miguelângelo de Cíngoli.   Vindo para o Brasil no ano de 1935, fixou-se na Bahia onde lecionou para seminaristas e noviços.

Exerceu atividades missionárias também nos municípios baianos como Entre Rios, Rio Real, Jandaíra e Redondezas. Frei Miguel chegou à Aracaju em 1963 por designação da ordem e aqui exerceu o melhor da sua atividade pastoral e missionária.   São muitos anos de trabalhos exercidos com amor e perseverança com a comunidade de todo o Estado de Sergipe.

Na década de 70 e 80 o religioso foi vigário de Maruim, Santo Amaro, Rosário do Catete e General Maynard. Mas foi em Aracaju, especificamente no bairro América, que Frei Miguel marcou presença sempre paciente na hora de atender e ajudar a população.    


Seu venerável corpo foi velado na Igreja dos Capuchinhos, no bairro América, em Aracaju.

São João Batista de la Salle, Presbítero e Fundador dos Irmãos das Escolas Cristãs (Lassalistas)



“O verdadeiro apóstolo tem de sofrer e dar sangue de alma pela obra que deseja realizar” (São João Batista de La Salle).


Organizador do ensino primário católico gratuito

Era o ano de 1651. Na França, era a época do reinado do rei Luis XIV. Foi neste período que nasceu, na cidade de Reims, João Batista de La Salle, filho de Luis de La Salle – conselheiro de Luis XIV – e Nicole Moët. Era o mais velho de onze irmãos.

Nascido numa família muito religiosa, La Salle desde cedo sentiu uma forte inclinação para o sacerdócio. Aos dez anos entrou para o colégio dos “Bons Enfants” (Bons Meninos). Foi nesta mesma época que pediu aos seus pais para ser sacerdote, obtendo o seu consentimento. Logo entrou para o seminário de São Sulpício, em Paris.

Quando tinha quinze anos foi nomeado cônego da catedral de Reims, posição muito avançada para um menino de sua idade, mas assumida com responsabilidade. Só para ter uma idéia, do corpo de cônegos de Reims haviam saído quatro papas, 43 cardeais, 28 bispos e um santo. Estaria La Salle destinado a ser mais uma das personalidades a fazer história?

Em 1678, após licenciar-se em Filosofia e em Teologia, La Salle ordenou-se sacerdote, celebrando a sua primeira missa na catedral de Reims. Após ordenado sacerdote, La Salle passou a ser diretor espiritual de algumas Comunidades Religiosas, além de continuar o seu ofício na Catedral.

Nesse época, em Rouen, uma senhora fundara uma escola gratuita para meninas órfãs. Em Reims, quiseram imitar esse exemplo, mas para os meninos. Adrien Nyel, encarregado de iniciar as suas funções de educador nessa cidade, foi hospedado por São João Batista, que escreveu então: “Se, [antes de abraçar minha vocação], eu soubesse que a simples caridade que eu tomava para com os mestres de escola, transformar-se-ia no dever de morar com eles, eu os teria abandonado. Porque como eu colocava abaixo de meus criados as pessoas que trabalhavam em escolas, o único pensamento de que seria obrigado a viver com eles me pareceria insuportável”.
E assim começou a missão de São João Batista. A organização do ensino primário católico gratuito, e dos Irmãos das Escolas Cristãs.

Em 1679 surgiu a primeira escola lassalista. Foi muito difícil, especialmente em se tratando de encontrar mestres, uma vez que naquele tempo não havia tanta facilidade em se conseguir professores, e ainda os mesmos não eram formados.

Aos poucos a obra foi crescendo e novas escolas gratuitas foram surgindo. Nyel, porém, era um sonhador e não se preocupou muito com o tamanho da expansão da obra. E logo acabou deixando La Salle sozinho para tomar conta de tudo.

Com a preocupação de preparar bem os professores, La Salle tomou a decisão de reuni-los na casa de sua família. Mas, sendo homens rudes, não foram bem aceitos e La Salle acabou alugando uma pequena casa onde poderia morar com eles e ao mesmo tempo iniciá-los na arte de educar. Estava, assim, criada a primeira Escola Normal, e também o núcleo da congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs (Irmãos Lassalistas).



Sofrimentos e injúrias

Foram muitas as dificuldades: os mestres não demonstravam vocação, nem perseverança. Além disso, as escolas de La Salle, por serem gratuitas, recebiam franca oposição das outras escolas que eram pagas. Os donos de escolas pagas saqueavam as escolas lassalistas, queimavam o material, quebravam tudo... além de processarem La Salle diversas vezes alegando maus tratos para com os alunos.

 
Uma das ações de La Salle foi doar todos os seus bens aos pobres, além de renunciar ao cargo de Cônego em favor de um sacerdote muito pobre. Os próprios irmãos não gostaram nada disso e murmuraram contra o santo achando “um absurdo” mesmo ter abjurado de toda a sua fortuna, podendo utilizá-la para eles mesmos que passavam necessidade. Porém, La Salle desejava outra coisa: que sua obra fosse totalmente dirigida pela Divida Providência e não por “recursos financeiros”. A partir do momento em que fez isso, os Irmãos e as escolas passaram a viver confiando apenas na providência de Deus. E, felizmente, embora às vezes tenha faltado comida, sempre tiveram alguma coisa com que repartir com quem precisava mais do que eles.

Organizado o Instituto e as escolas, começaram as perseguições dos mestres-leigos. Seu hábito simples mereceu-lhe vaias na rua e a injúria de lhe lançarem lama no rosto.


Amarguras até “entrar na terra prometida dos eleitos”

Mais tarde, difundindo a comunhão freqüente, e recebendo cheio de alegria e submissão a bula “Unigenitus”, João Batista é atacado pelos jansenistas, e abandonado pelos próprios irmãos. Idoso e alquebrado por suas austeridades, em 1717, la Salle pensa em descansar no noviciado de Saint Yon, mas o padre que o serve em suas doenças, o maltrata. E dois dias antes de sua morte, em suas querelas religiosas, o arcebispo de Rouen tira-lhe todos os poderes, como a um padre indigno.
“Espere — diz João Batista com um sorriso — que logo serei libertado do Egito, para ser introduzido na verdadeira terra prometida dos eleitos”. E ele conseguiu isso, na Sexta-Feira Santa de 1719.


Relaxamento do empenho apostólico

Para bem situarmos a pessoa de São João Batista de la Salle em meio às vicissitudes por ele vividas, devemos considerar que, naquela época, em virtude das guerras de religião — muito exacerbadas na França — entre protestantes e católicos, que desorganizaram profundamente a estrutura eclesiástica da Igreja Católica, de um lado; de outro, em virtude do fato de que os efeitos salutares da Contra-Reforma haviam passado, estava se reintroduzindo nos fiéis, e também no clero, um grave relaxamento de costumes e de empenho apostólico.

Como resultado dessa tibieza, procurava-se muito o apostolado junto aos mais ricos, aos nobres, às pessoas importantes da corte, aos magistrados, enfim, às pessoas que, a qualquer título, tivessem um situação social. Em contrapartida, desdenhava-se o apostolado junto aos pobres e, especialmente, os meninos carentes. Noutros termos, favorecia-se antes as relações que pudessem trazer vantagens, com detrimento para a gente desprovida de recursos. Resultado, imensa quantidade de crianças do povo crescia sem ter formação ou ensino religioso.


À procura dos abandonados

Ora, São João Batista de la Salle nascera numa família de magistrados e, portanto, de certa categoria. Além disso, tornou-se cônego, e os cônegos naquele tempo possuíam rendas. Poderia ele, portanto, seguir o movimento geral e candidatar-se com seu título de cônego para freqüentar meios mais gabaritados que os dele. Poderia almejar uma boa carreira eclesiástica, eventualmente como bispo, talvez cardeal. Entretanto, São João Batista de la Salle segue uma orientação diversa.

Pessoa modelar que era, abnegado, desinteressado dos bens desse mundo, vai procurar aqueles que estão sendo abandonados, e constituiu uma congregação religiosa de irmãos leigos, especialmente destinados a ensinar a religião para as crianças.

Catequista primoroso

Há outro aspecto que merece ainda mais nossa consideração. São João Batista de la Salle foi um exímio professor de catecismo, e desempenhou essa função santamente, ou seja, perfeitamente. Existem modos de lecionar o catecismo em nível primário, de maneira que se marque o rumo da alma para a vida inteira. E pessoas há que se mantiveram firmes na virtude e no ideal católico, ao longo de toda a sua existência, por causa de uma catequese bem dada. São João Batista de la Salle foi desses primorosos catequistas, ensinando os fundamentos do catolicismo com toda a atenção, o recolhimento e a influência que pode haver na lição de catecismo proferida por um santo.

Mas, fez ele coisa muito melhor. Não apenas deu aulas, como fundou uma congregação religiosa voltada para a catequese no ensino primário. Ou seja, suscitou vocações de homens que deixaram o mundo para se consagrar exclusivamente ao ensino do catecismo. Portanto, milhares de pessoas que, desde aquela época, têm passado a maior parte de suas vidas nessa nobre tarefa.



Sofrimentos e contrariedades

Agora, em torno dessa linha mestra, de um traçado límpido como um canal, aparecem as sinuosidades dos sofrimentos, das dificuldades, das oposições que ele encontrou à sua frente. Cumpre tê-las presente, para se contemplar, na sua verdadeira perspectiva, a vida e a obra de São João Batista de la Salle. É bela a luta que ele teve de enfrentar contra tantas incompreensões, das quais as mais dolorosas vieram da parte dos seus próximos.

Uns se arrepiaram diante de um quotidiano confiado apenas à Providência, sem rendas nem patrimônios garantidos: “O senhor é cônego, tem bom ordenado, é fácil confiar na Providência quando, todos os meses, cai um montante na sua bolsa. Mas, para nós, coitados, onde está o nosso dinheiro? Queremos patrimônio”!
 São João Batista de la Salle renuncia ao seus próprios bens, e a reclamação passa a ser outra. Ele diz:

 — Pronto. Estou pobre como vocês.
— Que loucura! Dispensar esse dinheiro! Era só o que tínhamos! É um crime!

Ou seja, aqueles mesmos que deviam apoiá-lo e ajudá-lo na sua obra, não compreendiam todo o alcance do que ele desejava fazer. Muito lhe terá custado passar por essas adversidades, até que os horizontes se clareassem e seus seguidores se pusessem à altura do santo.

Outra contrariedade a vencer: tornar-se professor primário. Percebe-se pela narração que ele, em virtude da formação que recebera na família, não tinha em grande conta a figura de mestre-escola, “colocando-a abaixo de seus criados”. A Providência bate à porta de sua alma e lhe chama: “Meu filho, convido-o para ser professor primário e catequista”. Sem hesitação, ele deixa as honrarias e antigos hábitos, aceita o chamado e passa a viver no meio dos professores primários. Pode-se bem conjecturar que São João Batista esperasse encontrar, entre esses últimos, uma acolhida amável e um trato afetuoso. Não! Mais incompreensões, vistas limitadas, estupidezes.



Regou com o próprio sangue a árvore de sua obra

Ele adota uma vestimenta muito simples, para indicar a modéstia da profissão e das suas condições. Em lugar de respeito, as pessoas o vaiam na rua e chegam a jogar-lhe lama no rosto. Para onde se voltasse, encontrava ele recusa e maus tratos. Apesar de tudo, sua obra caminhava e prosperava.
Quer dizer, a Providência quis que ele sofresse tanto para, com os méritos dos seus padecimentos, com seu sangue, regar a semente que lhe fora confiada plantar e fazer vicejar.

Permitam-me chamar a atenção para essa regra da qual não se esquiva nenhuma obra apostólica: o apóstolo autêntico, ou sofre e dá o sangue de alma — mais dolorido e precioso que o do corpo — pelo que deseja realizar, ou absolutamente não é apóstolo.

Todo apóstolo tem de sofrer. E uma das suas aflições mais pungentes é a de se sentir, de um lado, chamado a empreender uma obra, e, de outro, perceber as ondas contrárias que parecem tornar sem sentido o chamado que recebeu. Essa coarctação da vocação, esse enfrentar obstáculos que parecem opor-se à via do Espírito Santo, constitui uma das dilacerações mais penosas que uma alma pode sofrer.

De maneira que São João Batista de la Salle agiu como verdadeiro homem de Deus, suportando todas essas contrariedades. Por fim, a morte o libertou de tudo, e ele encontrou a sua coroa no Paraíso.

As escolas se multiplicavam. Em pouco tempo, eram várias espalhadas pela França. Isso, ao mesmo tempo em que gerava respeito, aumentava o ódio dos demais donos de escola contra La Salle.

O desgaste fez com que ele ficasse muito doente. Sua saúde foi se desgastando e tanto ele como os Irmãos sofreram muito. La Salle chegou a pensar ser ele o culpado por tantos transtornos e afastou-se do Instituto que ele mesmo, com tanto carinho, fundara.

Refugiou-se na Parmênia, uma bela região entre as montanhas, e procurou orientação espiritual com uma irmã com fama de santidade que lá vivia, a irmã Luísa. Porém os Irmãos não souberam viver sem o seu amado pai, e enviaram uma carta ordenando que voltasse e reassumisse a sua missão como Irmão e como superior. Humildemente, La Salle obedeceu.


Alquebrado pela idade (conta já com 68 anos, um número muito elevado para a expectativa de vida na França de sua época), em 1719, La Salle sente-se muito mal. Na quaresma sente que seus dias chegam ao fim. Já havia deixado no ano anterior de ser superior. Na quarta-feira santa pediu os últimos sacramentos e na sexta-feira da Paixão, 07 de abril de 1719, entregou sua alma ao Criador. O comentário que se ouviu nas ruas foi: “Morreu um santo”.



No ano de 1900, João Batista de La Salle passou a ser oficialmente um santo da Igreja Católica. E no dia 15 de maio de 1950, o papa Pio XII proclamou-o padroeiro universal de todos os educadores. Nada mais natural para quem dedicou a sua vida integralmente à causa da educação.

A nós cabe admirar e imitar esse modelo de santidade, de confiança e de resolução que levou a bom termo a obra para a qual a Providência o suscitou. Obra cujos frutos enriquecem e torna mais digna de nosso amor a Igreja Católica Apostólica Romana.

A congregação dos Irmãos Lassalistas, em seus três séculos de história, além de sua grandiosa obra educacional espalhada pelo mundo inteiro (inclusive no Brasil), já concedeu à Igreja muitos santos e bem-aventurados, entre confessores e mártires. 


São João Batista de La Salle, Patrono dos
Professores e Professoras Cristãos. 


sábado, 5 de abril de 2014

SÃO VICENTE FERRER, Presbítero Dominicano, Exímio Pregador e Grande Taumaturgo.



Imagine um pregador cujas homilias durassem de duas a três horas e que na Sexta-feira Santa elas chegassem a durar até seis horas...  Será que haveria gente para ouvi-lo?



Um grande pregador!

Se o pregador fosse São Vicente Ferrer haveria... E muitos! Pois, as igrejas onde ele costumava fazer suas homilias tornavam-se pequenas para conter a multidão que ele atraia.
Em Tolosa, na Espanha, um de seus sermões prolongou-se por seis horas seguidas! Seus ouvintes dessa cidade costumavam dizer: “Este homem veio a esta cidade para nossa salvação ou para nossa perdição. Para que nos salvemos, se fizermos o que ele nos diz; para que nos condenemos, se nos descuidarmos de obedecer-lhe”! E afirmavam ainda: “Até aqui podíamos dizer que não tínhamos quem nos ensinasse bem o que somos obrigados a fazer. Agora já não podemos dizer isso”.

Foi tão grande a devoção que habitantes de Tolosa tiveram por ele que, depois de sua partida, transformaram em relíquias tudo que dele puderam guardar. O palanque que ele usou para fazer suas pregações era tocado e beijado como se fosse algo sagrado.

Em certas localidades, enquanto São Vicente Ferrer fazia sua pregação, tudo parava. As lojas fechavam e até as audiências nos tribunais eram suspensas. Todos queriam ouvi-lo. Nos dias em que São Vicente Ferrer pregou em Tolosa, por exemplo, não houve pregador que quisesse fazer sermão, porque todo mundo ia atrás do Santo.

Quando sabiam que ele se aproximava de uma cidade, era comum o povo ir ao seu encontro. Havia então, verdadeiras disputas para que se conseguir um lugar que ficasse o mais próximo possível do Santo. Então para ele não ser esmagado pela veneração e entusiasmo popular, era necessário que quatro homens jovens e fortes conduzissem umas pranchas de madeira que formavam um quadrilátero no interior do qual São Vicente Ferrer podia caminhar com segurança.

De onde lhe vinha a atração e o sucesso

Com uma oratória brilhante e cheia de fogo, São Vicente Ferrer mantinha a lógica das argumentações escolásticas. Seus ouvintes percebiam nele a presença do sobrenatural e suas palavras eram carregadas de amor de Deus. Era isso que atraia seus ávidos ouvintes. A graça divina estava nele. Seus inflamados sermões não só atraíam multidões mas, obtinham incontáveis conversões, inclusive de judeus e maometanos que ainda dominavam a península Ibérica.

Sem dúvida, o sucesso e as graças obtidas nesse apostolado eram frutos de sua obediência amorosa a Nosso Senhor Jesus Cristo que, em uma visão tida pelo Santo, ordenou que ele pregasse a verdadeira Fé católica pelo mundo todo.



Sempre esteve próximo à Ordem dos Pregadores

A casa de seus pais ficava nas imediações do Real Convento da Ordem dos Pregadores, os dominicanos. Isto ajudou a que, ainda jovem, Vicente decidisse tornar-se religioso, vestindo o hábito dos frades dominicanos.

Fez sua profissão religiosa em 1368 e foi ordenado sacerdote em 1374. Alternou o estudo e o ensino da filosofia com a aprendizagem da teologia passando pelas cidades de Lérida, Barcelona e Tolosa, todas na Espanha. Aprofundou-se no estudo e conhecimento perfeito da exegese bíblica e da língua hebraica. Quando regressou a Valência, sua cidade natal, ensinou teologia, escreveu, pregou e foi um exímio conselheiro.

Alguns anos mais tarde, passou a viver na França, exercendo suas funções na cidade de Avignon, onde caiu gravemente enfermo sofrendo uma doença que o levou à beira da morte. Por ocasião dessa enfermidade, ainda em Avignon, Vicente teve uma visão de Deus. Ele viu Nosso Senhor Jesus Cristo acompanhado por São Domingos, fundador de sua Ordem Religiosa e por São Francisco de Assis. Nessa visão, Nosso Senhor conferiu a ele a missão de pregar o evangelho pelo mundo.

Após ter aceito essa difícil e nobre incumbência, repentinamente, ele recuperou a saúde. A 22 de novembro de 1399, deixou a França e saiu pregando a palavra de Deus no Ocidente. Sua ação foi um contínuo espalhar de tesouros de sabedoria.


Uma época conturbada, dentro e fora da Igreja

São Vicente Ferrer veio ao mundo no ano de 1350, em Valência, numa Espanha que ainda lutava contra os árabes maometanos invasores da península ibérica. O Ocidente passava por uma grande crise espiritual que atingia direta ou indiretamente todas as nações. Nenhuma escapava!

A França encontrava-se assolada pela Guerra dos cem anos; na Itália, havia conflitos entre "guelfos" e "gibelinos". As regiões espanholas de Castela e Aragão viviam um momento de anarquia. Fora das fronteiras da cristandade o perigo maometano era uma constante. Para piorar o ambiente de confusão dessa fase histórica, houve uma crise religiosa.

Foi durante esse período que eclodiu no seio da Igreja o Cisma do Ocidente. Cardeais declararam inválida a eleição de Urbano VI como Papa. Surgiram outros Papas. Um deles foi Clemente VII.

Um Papa ficava em Roma, o outro em Avignon. Os dois se excomungavam mutuamente. Nações e reinos tomaram partidos de acordo com suas conveniências: a Cristandade dividiu-se.

São Vicente Ferrer chegou escrever um tratado sobre este cisma. Esforçou-se e colocou todo peso de seu prestígio em toda a Cristandade para que o Cisma do Ocidente tivesse um desfecho favorável aos interesses da própria Igreja.

Foi dentro dessas circunstancias históricas que envolviam o Ocidente Cristão que São Vicente Ferrer deveria desenvolver seu apostolado.



O perfil moral e religioso de Vicente

Foi, antes de tudo, um religioso dominicano fiel ao carisma de São Domingos. Vicente pregava sobre a segunda vinda de Jesus no Juízo Final. E isso de um modo tão compenetrado que provocava a conversão nas pessoas. Era um homem de penitência, da verdade, da esperança, que semeava a unidade e a expectativa do Senhor que voltará. A Providência abençoava seu apostolado: sua pregação era confirmada com sinais, milagres e conversões. Sua vida foi uma confirmação de que a Palavra de Deus precisa ser anunciada com o espírito e com uma vida a serviço da verdade e da Igreja.



Diariamente, dez mil pessoas osculam suas mãos

Em seus sermões, a voz de Deus falava por sua boca: as inimizades públicas cessavam, os pecadores eram movidos ao arrependimento, almas desejosas de perfeição o seguiam. Pregava sempre para multidões que, às vezes chegavam a mais de 15.000 pessoas colocadas ao ar livre. Pessoas contemporâneas do Santo afirmavam que, embora falando na sua própria língua, era entendido por quem não a conheciam.

Em Tolosa foi tão grande a quantidade de pessoas, que o próprio Arcebispo pediu para que o sermão fosse na praça de Santo Estêvão que fica ao lado da Igreja e onde podia caber um público maior. Vicente pregou e celebrou Missa solene na praça quase todos os dias.

Os fiéis tinham tanto desejo de conseguir um lugar nas cerimônias que se levantavam à meia noite e se dirigiam para a praça com lanternas e archotes e cada um trazia seu próprio assento. Todos afirmavam que podiam ouvi-lo estando perto ou longe dele.

Mesmo assim, todos queriam estar juntos dele. Queriam vê-lo bem, observar como oficiava as cerimônias religiosas, como curava os doentes que vinham ao palanque onde ele se encontrava. Todos queriam estar o mais próximo dele para mais facilmente poder beijar-lhe as mãos e, assim que o sermão terminasse, poderem voltar para casa tendo recebido dele a bênção. De certa feita, num vilarejo, as dez mil pessoas que ouviam seu sermão beijaram respeitosamente suas mãos. E este gesto foi repetindo nos onze dias seguintes em que ele ali pregou.


Converteu mouros, ressuscitou uma desafiante judia

São Vicente trabalhou com afinco também pela conversão dos judeus e dos maometanos. Os historiadores afirmam que foram 25.000 judeus e 8.000 maometanos que ele converteu com seu exemplo e palavras.

No Domingo de Ramos de 1407, ele pregava numa igreja de Ecija, na Espanha. Uma senhora judia, rica e poderosa, seguia seus sermões por mera curiosidade. Fazia sarcasmos a meia voz e, em forma de desafio, levantou-se de improviso e atravessou a multidão para sair. Ela não conseguia esconder sua fúria. O povo, obviamente, ficou indignado com sua atitude.

"Deixai-a sair, disse o Santo, porém afastai-vos do pórtico"... E foi justamente esse pórtico da entrada da Igreja que despencou sobre ela e a matou. São Vicente disse, então, em alto e bom som: "Mulher, em nome de Cristo, volte à vida!" A mulher ressuscitou! Depois disso, a senhora converteu-se à verdadeira Religião... Na cidade, anualmente, uma procissão passou a comemorar a morte, ressurreição e conversão da senhora judia.




Ele profetizou sua canonização e quem o canonizaria

Com o correr dos anos, a idade chegou e com ela o cansaço e os males físicos. Muitas vezes, era obrigado a caminhar amparado.

Quando começava a pregar, porém, tudo desaparecia. Seu rosto como que se transfigurava, a pele parecia retomar o frescor da juventude. Seus olhos brilhavam e sua voz era clara e sonora. Sua convicção era firme e transparecia em suas palavras, deixando todos admirados. Os frutos dos sermões continuavam abundantes e de tal modo que eram sempre necessários muitos sacerdotes para ouvir as confissões que eles geravam.

Sua missão apostólica continuou até 1419. Ele estava na Bretanha, quando percebeu que sua vida estava chegando ao fim. Porque ele amava muito sua terra natal, ele foi colocado em um navio para ser transportado até ela e lá morresse. O navio navegou toda a noite. Mas, pela manhã, inexplicavelmente, encontrava-se no porto. Era um sinal de que Deus queria que morresse na Bretanha.

Aos 69 anos, assistido por amigos, por seus irmãos dominicanos e por damas da corte da Duquesa da Bretanha, entregou sua combativa alma a Deus. Era o dia 5 de abril de 1419. O processo de canonização começou no dia seguinte. A Igreja reconheceu como autênticos 873 milagres.

Em 1455 foi canonizado Papa Calisto III que, muitos anos antes de ser Papa, foi favorecido por uma profecia de São Vicente. Durante uma das pregações do Santo em Valência, entre a multidão dos que se aproximavam dele para se encomendar às suas orações, São Vicente pôs sua atenção em um sacerdote, que lhe pedia também a caridade de rezar por ele. O Santo disse-lhe: "Eu te felicito, meu filho. Tendes presente que és chamado a ser um dia a glória de tua pátria e de tua família, pois serás revestido da mais alta dignidade a que pode chegar um homem mortal. E eu mesmo serei, após minha morte, objeto de tua particular veneração".

Um dia, São Vicente Ferrer ao cumprimentar um jovem franciscano, disse-lhe: "Oh! Vós estareis nos altares antes do que eu". O jovem era o futuro São Bernardino de Siena, canonizado em 1450.


São Vicente Ferrer, rogai por nós!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

São Caetano Catanoso, Presbítero e Fundador



São Caetano Catanoso
Cultor e apóstolo da Sagrada Face de Cristo, era animado por uma fervorosa e incansável caridade pastoral. Nasceu em Chorio de San Lorenzo (Itália), no dia 14 de Fevereiro de 1879, numa família profundamente cristã. Com a idade de 10 anos, sentindo a vocação ao sacerdócio, entrou no Seminário arquiepiscopal de Régio. Recebeu a Ordenação sacerdotal em 20 de Setembro de 1902. Naquela ocasião manifestou publicamente o propósito de ser um digno ministro de Cristo. Fez então a promessa de jamais cometer algum pecado deliberado e de estar na presença de Deus todos os instantes da vida.

Em 1904 foi nomeado pároco de Pentidattilo, um vilarejo onde prosperava somente a pobreza, o analfabetismo e a ignorância religiosa, e as pessoas viviam no silêncio o drama da marginalização e da prepotência. Ele dedicou-se imediata e inteiramente à missão de pastor, compartilhando com todos as privações, as angústias, as alegrias e as dores da sua gente.

Uma das poucas fotos de São Caetano
Catanoso, sempre com seu terço na mão
Desde então o povo identificou nele o carisma da paternidade e espontaneamente começou a chamá-lo "pai", apelativo que melhor qualificava a sua personalidade sacerdotal e pastoral.
Foi inflamado pela devoção à Sagrada Face sofredora do Senhor e abraçou a missão de defender o culto da mesma entre os povos. Em 1919 instituiu em Pentidattilo a Pia União da Sagrada Face, e em 1934 fundou a Congregação das Irmãs Verónicas da Sagrada Face, aprovada canonicamente em 1953. Com o conforto dos sacramentos, morreu santamente a 4 de Abril de 1963, em Régio, na Casa Matriz da Congregação que ele tinha fundado. Hoje a sua vida doada produz muitos frutos.



Corpo incorrupto de São Caetano Catanoso, Presbítero e Fundador


Trecho da homilia do Santo Padre Bento XVI por ocasião de sua canonização em 23 de outubro de 2005:

“São Caetano Catanoso foi cultor e apóstolo da Sagrada Face de Cristo. ‘A Sagrada Face afirmava é a vida. Ele é a minha força’. Com uma feliz intuição ele conjugou esta devoção à piedade eucarística. Assim se expressava: ‘Se queremos adorar a Face real de Jesus... encontramo-lo na divina Eucaristia, onde o Corpo e Sangue de Jesus Cristo se esconde sob o branco véu da Hóstia a Face de Nosso Senhor’. A Missa quotidiana e a frequente adoração do Sacramento do altar foram a alma do seu sacerdócio:  com fervor e incansável caridade pastoral ele dedicou-se à pregação, à catequese, ao ministério das Confissões, aos pobres, aos doentes, ao cuidado das vocações sacerdotais. Às Irmãs Verônicas da Sagrada Face, que ele fundou, transmitiu o espírito de caridade, de humildade e de sacrifício, que animou toda a sua existência”.

terça-feira, 1 de abril de 2014

SÃO PAULO DA CRUZ, Presbítero e Fundador da Congregação da Paixão do Senhor, ou, Passionistas.


São Paulo da Cruz, Presbítero e Fundador
Papa Pio IX, assinalado pelo honroso epíteto "Cruz da Cruz", teve a satisfação de inscrever no catálogo dos santos a São Paulo da Cruz, o grande devoto da Sagrada Paixão de Jesus, o benemérito fundador dos Passionistas.
Este santo nasceu em 1694 na Itália setentrional e recebeu no batismo o nome de Paulo Francisco.  Os piedosos pais souberam dar a seu filho uma educação ótima cristã, e em suas instruções, muitas vezes relataram-lhe fatos da vida de penitência que levaram os santos eremitas. Foi neste ambiente de piedade e amor de Deus, que Paulo Francisco nasceu e cresceu. Não podia, pois, faltar, que também ele fosse do mesmo espírito e, menino ainda de poucos anos, se entregasse aos exercícios de oração e penitência também. Seu lugar predileto era a igreja, ou para acolitar o sacerdote no altar ou para visitar Nosso Senhor no SS. Sacramento.  Este terno amor a Maria Santíssima, teve-o recompensado uma vez com a aparição de Nossa Senhora com o Menino Jesus, e outra vez pela salvação miraculosa de um grande perigo de morte. Desde jovem que cultivava um espírito de grande penitência e mortificação. Nas sextas-feiras se flagelava e seu alimento era um pedaço de pão embebido em vinagre e fel. 

Na juventude, a Virgem Maria aparece-lhe e o orienta
a fundar uma congregação dedicada a honrar e divulgar
a devoção à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. 
Fez estudos em Cremolino, localidade vizinha. Não só revelou bonitos talentos, como entre os condiscípulos se distinguiu pela pureza de costumes, que o fez ser por todos respeitado e amado.  Com alguns de seus companheiros fez uma santa aliança, com o fim de se solidificarem no amor de Deus e se familiarizarem com a meditação sobre a Sagrada Paixão e Morte do Salvador.  Entrou com eles na Irmandade de Santo Antônio, sendo ele nomeado seu chefe. Nesta qualidade, muitas vezes dirigia a palavra à numerosa assistência dos Irmãos, que muito apreciavam suas alocuções, cheias de sentimento e piedade.
O jovem padre escreve a Regra de sua futura
Congregação religiosa
Quis seu tio sacerdote que, por interesse puramente materiais, tomasse estado, a que o sobrinho teve esta bela resposta: "Meu Salvador crucificado, eu vos asseguro, em que vós vejo o meu sumo Bem e que, possuindo-vos a vós, me basta". Esta vitória sobre sua própria natureza Deus lhe recompensou com um forte desejo, que lhe deu ao martírio.
Quis se alistar entre os soldados de Veneza, para com eles ir combater com os turcos, mas Deus lhe revelou, ser a sua vontade que fundasse uma Congregação de homens que, como missionários, trabalhassem para a salvação das almas. Paulo confiou este segredo ao bispo de Alexandria, o qual, após madura reflexão, aprovou o plano, e em 22 de novembro de 1720, lhe deu o hábito preto com uma cruz branca sobre o peito, encimada esta do Santo Nome de Jesus, e impôs-lhe o nome de Paulo da Cruz. Na mesma ocasião, autorizou-o a ensinar a doutrina cristã ao povo de Castelazzo.
São Paulo da Cruz era um grande pregador. Suas
práticas eram sempre acompanhadas por multidões
que acorriam para ouvi-las. Todos maravilhavam-se
com sua eloquência e emocionavam-se com suas
ardentes palavras. As conversões eram numerosas.
Paulo obedeceu; com o crucifixo na mão, andou pelas ruas da cidade, chamando o povo para dar atenção às verdades divinas.  Suas prédicas sobre a Sagrada Paixão, causaram profunda impressão. Os ouvintes choravam, velhas inimizades acabaram de vez; não mais se ouvia falar de orgias no Carnaval e por toda a parte apareceram dignos frutos de penitência. Ali mesmos, restringindo a sua alimentação a pão e água, escreveu a Regra da sua futura Ordem, fez uma romaria a Roma, e com seu irmão João, se retirou para o monte Argentano, perto de Orbitello. A fama do seu zelo apostólico, de sua vida mortificada e santa, fizeram com que o bispo de Toja os chamasse para sua diocese, lhes conferisse as ordens sacerdotais e do Papa Benedito XIII alcançasse a licença para aceitar candidatos em seu noviciado. 

Depois de alguns anos de abençoada atividade, os Irmãos voltaram para o monte Argentano, para proceder à fundação da Ordem. Em breve, aliaram-se-lhes discípulos. A cidade de Orbitello se encarregou de dotá-los de grande convento, de que tomara posse em 1737.

São Paulo da Cruz, grande apóstolo da devoção à
Sagrada Paixão e Morte de Jesus. 
A finalidade da Ordem, fundada por São Paulo da Cruz é pela pregação de missões implantar e firmar, nos corações, o amor de Deus por meio de meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo.  Todos os seus religiosos, aos três votos comuns, acrescentam o quarto, pelo qual se obrigam a trabalhar pela propagação entre os fiéis da devoção à Sagrada Paixão.
 A Ordem foi aprovada pelo Papa Bento XIV, em 1741. Deste mesmo Papa é o conceito: "Esta Ordem, que a nosso ver, devia antes de todas ser a primeira, acaba de  ser aprovada por último". Paulo foi nomeado seu primeiro superior geral. 
Com o estabelecimento oficial da Ordem, as suas obrigações começaram a vigorar. Não é possível enumerar  as Missões que foram pregadas nas cidades e nas aldeias;  e muito menos haverá quem possa contar as  conversões nelas  efetuadas. As prédicas de São Paulo da Cruz sobre a Paixão de Cristo operaram milagres nas almas dos mais empedernidos pecadores. "Padre,  disse-lhe certa vez um oficial militar, eu estive no tumulto da batalha; presenciei terrível canhoneio sem estremecer; mas as suas práticas fazem-me tremer da cabeça aos pés".  Paulo, pregando, parecia ser tomado todo do amor divino;  falando do amor de Jesus na Eucaristia, dos tesouros insondáveis do sacrifício da Missa, ou tratando da devoção da Mãe de Deus dolorosa, seu rosto se transfigurava, e o ardor com que falava, se comunicava aos ouvintes. 
A santa Missa celebrada por ele, era um espetáculo de piedade e de concentração para todos, a quem era dado lhe assistir. 
Em um êxtase, Jesus Crucificado aparece-lhe,
abraça-o e faz com que beba do Preciosíssimo
Sangue que sai da Sagrada Chaga do Costado. 
Os seis Papas, em cujo governo Paulo da Cruz viveu, tinham-no em alta consideração.  Clemente XIV deu à sua Ordem o Convento de São João e Paulo no monte Céio, onde tinham pregado as últimas Missões. Quando, muito doente, desenganado pelos médicos, mandou ao Santo Padre pedir a bênção para a hora da morte, Pio VI deu ao mensageiro esta resposta:  "Não queremos que o vosso Superior morra agora;  dizei-lhe que esperamos a  sua visita aqui, depois de três dias".  Paulo, ao receber esta ordem, apertou o crucifixo ao coração e disse, em abafado gemido: "Oh, meu Senhor crucificado, quero obedecer ao vosso representante".  O perigo da morte desapareceu imediatamente e  três dias depois esteve no Vaticano, cordialmente recebido pelo Papa.

Viveu mais três anos, cheios de  sofrimentos, mas sempre unido a  Jesus na Sagrada Paixão e a Maria a  Mãe dolorosa, de quem favores especiais recebeu na hora da morte, em 18 de outubro de 1775.  Paulo da Cruz despediu-se do mundo na idade de 81 anos. Sua Ordem chamada a  dos "Passionistas", continua florescente, no vigor e no espírito do seu fundador,  espalhada em  diversos  lugares do mundo.  No Brasil, ela se estabeleceu em 1911, com Casa Provincial em São Paulo.     




Reflexões

A Ordem dos Passionistas foi fundada no século dezoito, numa época em que a maçonaria cantava vitórias sobre a Igreja Católica, das quais uma foi a supressão da Companhia de Jesus, que sua nefanda política conseguiu extorquir do Papa Clemente XIV.  Na França ela preparou uma revolução; as chamas da revolução subiram ao céu e toldavam os horizontes; na Alemanha e na Áustria ela favoreceu o pernicioso Josefinismo, que muito prejuízo trouxe ao Reino de Cristo naqueles países. Para tempos tão tristes, não podia haver remédio melhor, senão a união mais estreita com Jesus crucificado, e a meditação da sua Sagrada Paixão e Morte.

A importância desta devoção ressalta da história da Igreja e do seu exemplo.  Simão Pedro era um Apóstolo zeloso e não menos privilegiado. Tinha ouvido as pregações de Jesus, presenciou todos os milagres operados por seu Mestre, esteve presente na Transfiguração do monte Tabor, recebeu da mão de Jesus a santa comunhão.  Não obstante, deu sinais de fraqueza, já no Horto das Oliveiras e mais tarde no pátio do palácio do sumo pontífice. Chegou a negar seu divino Mestre, só para não dar a conhecer a uma empregada.  Bastou, entretanto, um só olhar para Jesus, ao vê-lo na sua humilhação e miséria, para romper em amargo pranto e se converter.

Dimas, o bom Ladrão, criminoso inveterado, e até a última hora impenitente, quando viu Nosso Senhor na Cruz, um raio de luz penetrou sua alma e, arrependido dos seus malfeitos e ao mesmo tempo confiante na misericórdia divina, a Jesus dirigiu esta súplica: "Senhor, lembrai-vos de mim, ao entrardes no vosso reino". Jesus recompensou imediatamente esta expressão da fé e da comiseração, dizendo-lhe: "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso". (Lc. 23)

O capitão romano de que fala São Mateus, morava em Jerusalém. Pouco se lhe dava a doutrina e os milagres de Jesus. Da boca de Pilatos tinha ouvido a declaração da inocência deste, o que não interessou. Comandante da corte, deu suas ordens, assistiu impassível à crucificação. Nada de compaixão, nada de sentimento superior em sua alma movia. Mas quando fixou seu olhar "no homem das dores", pregado na cruz, seu orgulho experimentou um choque irreprimível e em voz alta, para todos ouvirem, declarou: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus", no que concordaram todos os que com ele estavam guardando a Jesus. (Mt 27)


Glorificação de São Paulo da Cruz no Céu. 
A firmeza dos Mártires, o heroísmo dos defensores da fé, não tiveram outra fonte, senão a Santa Paixão e Morte de Jesus. Os grandes penitentes encontraram - todos eles - a sua paz, a sua tranquilidade, a sua felicidade ao pé da cruz.

Por tudo isso é que a Igreja não cessa de chamar os seus filhos para junto da Cruz do Filho de Deus crucificado. Sem haver uma obra de interrupção, o santo sacrifício da missa é celebrado no mundo inteiro. Todos os católicos são obrigados a assistir este sacrifício nos domingos e dias santos. 


A devoção à Sagrada Paixão e Morte de Jesus é a garantia da salvação para quem a pratica com fé e amor.