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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Oração ao Anjo da Guarda do Brasil






Santo Anjo do Brasil, vós fostes encarregado pelo Pai Eterno de guardar esta Terra de Santa Cruz e ajudá-la a crescer e desenvolver-se conforme Seus desígnios benevolentes.
Nós cremos no vosso poder junto de Deus e confiamos na vossa prontidão em socorrer-nos. Sede, pois, nosso guia para que cumpramos convosco a nossa missão no mundo. Ajudai a Igreja no Brasil a anunciar Cristo com franqueza e alegria e penetrar toda sociedade com o fermento do Evangelho. Afastai, com a força da Santa Cruz, todos os poderes dos inimigos que ameaçam o povo brasileiro. Unimos as nossas preces às vossas.



Apresentai-as diante do Trono de Deus, para que, unidas ao Sacrifício de Jesus, oferecido diariamente em nossos altares, alcancem aquelas graças que mais precisamos nesta hora de combate espiritual. E guardai-nos sempre debaixo do manto protetor de Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe e Rainha, para que permaneçamos fiéis no caminho de Jesus, o único que nos conduz da terra ao Céu.
Lá, na assembleia de todos os povos, unidos como uma só família de Deus, louvaremos e agradeceremos convosco ao Pai Eterno, com Seu Filho e o Espírito de Amor, por toda a eternidade. Amém

(Aprovada por Dom Raymundo Cardeal Damasceno de Assis, em Aparecida no dia 28 de maio de 2012)






domingo, 20 de setembro de 2015

Serva de Deus Maria Margarida Bogner, Virgem da Ordem da Visitação.


Irmã Maria Margarida Bogner nasceu na província de Torontál, município de Melence (Hungria), aos 15 de dezembro de 1905, de uma família nobre e religiosa. Em 17 de dezembro foi batizada em Német-Élemér, porque em Torontál não existiam Igrejas para o culto católico; recebeu o nome de Adelaide Maria Ana. Aos 11 de abril de 1915 recebeu a primeira comunhão.
Era uma criança muito extrovertida e excepcionalmente afetuosa, vivaz e alegre; muito amada pelas companheiras, tinha um coração grande e bom. Desde pequena tomava sob a sua proteção as crianças mais necessitadas. Com a idade de nove anos adoeceu com escarlatina, o que lhe provocou uma periostite, em consequência da qual um pé ficou para sempre rígido.
A debilidade física foi a fiel companheira de toda a sua vida. Por dez meses precisou ficar no leito e durante este tempo demonstrou ser uma criança admiravelmente paciente. Ainda adolescente revelou uma devoção especial para com Jesus Sofredor. Suscitou nela compaixão o ver e saber que... “foi deitado em um travesseiro tão duro (a cruz)”. Um dia na escola se levantou e disse para sua professora: “eu gostaria tanto de ser uma santa. Como devo ser para me tornar santa?”.
Por um certo período viveu com prazer o que o mundo e as amizades – mesmo boas – lhe ofereciam. Com os exercícios espirituais que fez em 1923 teve início a sua grande ascese espiritual. Daquele momento em diante, depois de grandes lutas, viveu somente para Deus, sem mudar o seu estilo externo de vida. Sua conversão, como a chama, a partir daquele momento leva-a para uma vida evangélica mais perfeita, à procura do seu caminho interior. Ela mesma o descreve no seu diário que com fidelidade reflete plenamente a sua alma.
Em 7 de julho de 1925, ainda em família, fez o voto de castidade e de cumprir sempre aquilo que entendesse ser mais agradável a Deus; aos 15 de agosto do mesmo ano ofereceu toda a sua vida como um lento martírio, escrevendo com o seu sangue, em um diário, aquilo que tinha decidido.
Depois de ter pedido repetidamente, e a vários Institutos, para ser admitida à vida religiosa, e ter sido rejeitada por motivo da sua saúde frágil, aos 10 de agosto de 1927 foi acolhida – por manifestação e particular intervenção da Providência – no Mosteiro da Visitação de Thurnfeld, no Tirol.
Aos 10 de abril de 1928 vestiu o hábito religioso da Visitação, mudando o nome de Etelka (Adelaide) para Irmã Maria Margarida. O hábito santo das esposas de Cristo a fez totalmente feliz. Aos 5 de agosto de 1928 chegou a Erd, no primeiro Mosteiro da Visitação fundado na Hungria, onde permaneceu até a sua morte.
Como noviça, também em Erd, desejava ardentemente conhecer do modo mais perfeito possível a sua Ordem e a espiritualidade que nela se vive para poder plenamente aderir e contagiar com o seu entusiasmo as companheiras de noviciado. Por ocasião da sua Profissão Temporária pediu ao Sagrado Coração permanecer fiel aos seus votos até o último respiro e jamais ofendê-Lo, nem mesmo com as menores e premeditadas imperfeições. Testemunhou até a morte, o quanto foi sincero esse seu pedido.
Teve uma notável devoção a Jesus na Eucaristia, ao seu Sagrado Coração e a sua Mãe Imaculada. Fez a Profissão Perpétua aos 16 de maio de 1932. Naquele dia já estava febril, mas radiante com uma felicidade que contagiava a todos. Estava com tuberculose, e em meados de julho o médico a declarou seu estado muito grave.
Morreu no Mosteiro da Visitação de Erd, aos 13 de maio de 1933, depois de um longo sofrimento em silêncio e na prática constante e exata das virtudes evangélicas, especialmente aquelas desejadas por São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal para as suas filhas: a doçura e a humildade. DOS SEUS ESCRITOS:
 “... Jesus, sinto que é no Mistério da Eucaristia que eu devo te amar de modo particular. A lâmpada do tabernáculo deve consumir-se diante do altar. Jesus, eu desejo ardentemente prostrar-me o mais frequentemente possível diante do Sagrado Cibório para amar-te, para te falar da minha ternura, como se fosse no Paraíso, onde abraçarei os seus pés. Lá em cima, Tu és incessantemente amado e adorado, mas aqui Tu és deixado sozinho, és ofendido...”
“...Ó Trindade, ó Deus, eu devo ser santa para a tua maior glória, para o triunfo da Igreja e para o triunfo das almas. Tu mesmo, ó Jesus, disseste: Nada é impossível para aqueles que confiam em mim...”
“...Sejamos alegres, Jesus ama as almas radiantes. Sirvamo-lo sorrindo, os nossos olhos devem irradiar a nossa felicidade. A alma alegre é atenta, fecunda, e vence facilmente as dificuldades. Uma tal alma não conhece obstáculos, porque a alegria é a companheira da generosidade...”
“...As colônias missionárias de uma visitandina não tem fronteiras, hoje batizo na China, amanhã na América, e semeio em qualquer lugar a semente da fé; mas ajudo também as Missões na Europa: hoje aqui, amanhã em outro lugar. Onde passa uma visitandina os corações se acendem como as lâmpadas na noite. Ela deve percorrer o mundo procurando almas com os seus pequenos sacrifícios para conduzi-las a Jesus. Ele conta conosco, não o desiludamos. A nossa vocação é a redenção das almas...
...Oh, não rejeitemos nada às almas. É preciso levá-las a cada momento a Jesus! A nossa vida parece muito simples, mas sob esta simplicidade se esconde a sublimidade...”
“...Não me consolo pela perspectiva do céu, porque não fiz nada para merecê-lo, porém sempre agi por Ele, para consolá-lo, para lhe dar prazer; por isso, mesmo conhecendo minha fragilidade não tenho medo da morte...”
“...É preciso ver Jesus e amá-lo em cada alma. Amemos também as almas frias, que não querem abrir a porta do seu tabernáculo à luz. Amemos aqueles cujo tabernáculo é feio e descuidado. Adoremos Deus neles e os estimulemos dia após dia a amar de um modo sempre mais puro...”

“... peço a Jesus que cada respiro meu seja uma comunhão espiritual e cada batida do coração o renascer de uma alma, assim cada comunhão espiritual devolve a vida a uma alma. Creio que no céu não teremos felicidade maior, do que, ao contemplar Deus, admirando a sua Majestade, a sua glória, a sua alegria, à vista das almas salvas por nós... Ah! quantas almas esperam ainda de nós a sua felicidade! Oração Ó Senhor, que te comprazes nas almas pequenas e humildes e te serves delas para cumprir grandes obras, glorifica a tua pequena flor, Irmã Maria Margarida. faz com que a auréola da Beatificação resplandeça logo sobre a sua fronte para a Tua glória e o bem das nossas almas, e pela sua intercessão nos conceda a graça que te pedimos”. 

sábado, 19 de setembro de 2015

Beata Bronislava da Polônia, Priora.



Bronislava nasceu em 1230 em uma importante família polonesa; seu avô havia fundado o mosteiro Premonstratense em Zwierzyniec, perto de Cracóvia, onde a tia de Bronislava, Gertrude, tinha entrado, tornando-se mais tarde priora em Imbramowice.
Bronislava também era prima do dominicano São Jacinto e relacionada com São Jacek e o Beato Czeslaw. Bronislava entrou no convento de Zwierzyniec com a idade de dezesseis anos, e foi logo depois eleita priora. As marcas de sua vida espiritual eram suas devoções à Paixão de Nosso Senhor e a sua Santa Cruz.
Quando a peste chegou à Polônia, ela logo começou a ajudar os doentes e a consolar os moribundos. Durante a turbulência política que tomou conta da Polônia, o convento de Zwierzyniec teve que ser abandonado em várias ocasiões por estar localizado fora da muralha de Cracóvia e, portanto, vulnerável a ataques. Nessas ocasiões, as religiosas eram forçadas a procurar abrigo das hordas de saqueadores em outras casas religiosas, ou nas profundezas das florestas.
O pior ataque veio em 1241 com a invasão dos tártaros. Bronislava e algumas das suas irmãs estavam rezando com os braços estendidos na forma de uma cruz, quando ela recebeu a notícia de que os tártaros selvagens estavam avançando rapidamente para Cracóvia.
O convento estava em perigo iminente de destruição. Bronislava pegou um crucifixo, apertou-a contra seu coração e disse às suas Irmãs: "Não temam nada. A cruz vai nos salvar". Ela então levou as Irmãs para as passagens subterrâneas do convento, onde permaneceram com sucesso escondidas dos invasores. O convento, no entanto, não foi poupado, e desabou em chamas, prendendo as Irmãs no subterrâneo. Conta-se que quando Bronislava bateu três vezes com seu crucifixo em uma parede de pedra da escura prisão, uma passagem para a liberdade se abriu para elas.




Após a destruição do convento, muitas Irmãs se refugiaram nos mosteiros que haviam sido poupados. Bronislava permaneceu nas ruínas do antigo convento com um punhado delas, construindo pequenas cabanas para dormir e passava os dias cuidando dos pobres, dos doentes e das inúmeras vítimas da invasão tártara.
Bronislava faleceu em 1259, logo após a morte de São Jacinto. Desde então seu culto floresceu entre os habitantes da Cracóvia e seu santuário é local de muitas peregrinações. Em todas as épocas da história da Cracóvia as pessoas procuraram sempre a sua ajuda nos momentos de dificuldade. Em 23 de agosto de 1839 o Papa Gregório confirmou seu culto imemorial e muitas centenas continuam a rezar por sua canonização. Ela é considerada Padroeira de uma boa morte e da prevenção de doenças.

Fonte: Nobility.org, comenta:


Pensando na perseguição islâmica de cristãos na África, Índia, Paquistão e no Oriente Médio, só podemos rezar pedindo que Deus, em Sua infinita misericórdia faça por eles o que Ele fez pela Beata Bronislava e suas Irmãs, protegendo-os e não permitindo que os inimigos da Cruz descubram seu esconderijo.

(Fonte: blog Heroínas da Cristandade)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

SÃO JOSÉ DE CUPERTINO, Presbítero franciscano e Místico.



São José de Cupertino, o santo da
humildade e simplicidade, tinha um
maravilhoso dom de levitação. 
Ele era carente de capacidade intelectual a ponto de chamar-se a si mesmo de "Frei Burro". Mas, cheio de luzes sobrenaturais, discorria em profundidade sobre temas teológicos e resolvia intrincadas questões que lhe eram apresentadas.

Deus criador chama todos e cada um dos homens à santidade, porém, em sua sabedoria infinita, o faz pelas mais diversas vias. A uns pede que se isolem como eremitas nos desertos, a outros manda pregar às multidões. Conserva por toda a vida a inocência imaculada de uns, enquanto a outros faz emergir de uma situação de terríveis pecados para, arrependidos, atingirem a perfeição.

Há, porém, um contraste que desperta especialmente a atenção: quando a excelência das virtudes floresce numa alma pouco favorecida pelas capacidades intelectuais. Deus suscitou inteligências luminares, como São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, mas, para demonstrar sua onipotência, elevou a alto grau de santidade também homens os mais desprovidos de capacidades naturais. Um destes últimos é São José de Cupertino.

Uma vocação difícil de realizar-se

O pequeno José veio ao mundo em 17 de junho de 1603, na aldeia de Cupertino, não longe de Otranto, Itália. Seu pai, um pobre carpinteiro, morreu antes que o bebê nascesse, deixando a infeliz viúva com seis filhos e carregada de dívidas. Insensíveis à sua dor, os credores a despejaram da casa, pois ela não tinha condições de pagar o aluguel. A triste senhora ficou reduzida à situação de dar à luz em um estábulo. Assim, já em seu nascimento, a vida de José se assemelhava à do Salvador, cujos passos viria resolutamente a seguir.

Apesar de sua pobreza, a mãe conseguiu colocá-lo em uma escola, e foi nela que, aos oito anos, ele teve o primeiro de seus numerosos êxtases. Seus colegas, não compreendendo a razão de vê-lo parado e com o olhar perdido, deram-lhe o jocoso apelido de "Boccaperta" (boca aberta).

Quando estava um pouco mais crescido, começou a trabalhar como aprendiz de sapateiro. No entanto, já sentia a vocação religiosa, e ao completar 17 anos tentou ser admitido num convento dos capuchinhos. Para sua tristeza, foi recusado por conta de sua ignorância. Não se deixou esmorecer e, à custa de grande insistência, conseguiu ser recebido como irmão leigo, em 1620, pelos capuchinhos de Martino, que o experimentaram em diversos ofícios, mas os seus êxtases contínuos sujeitavam a louça e outros objetos do convento a uma prova não pouco custosa! Dizem que chegaram a colar em seu hábito os cacos da louça que quebrara. Foi preciso mandá-lo embora. Na terrível provação de ter que despir-se do hábito franciscano, comentou que era como se lhe arrancassem a própria pele.

José procurou abrigo na casa de um tio que tinha certas posses, mas, após algum tempo, este o declarou "completamente inútil" e o pôs na rua. Após tantas desventuras, voltou para a casa materna. Sua mãe recorreu a um parente que era franciscano, por cujo intermédio o jovem acabou sendo aceito no convento de La Grotella, como ajudante leigo, nos trabalhos do estábulo.

Embora sempre distraído e desastrado, sua humildade e espírito de oração e penitência o tornaram estimado por todos, e em 1625, por votação unânime dos frades, ele foi por fim admitido como religioso franciscano. Os frades conventuais concordaram em aceitá-lo para cuidar da mula do convento de Grottella. Depois, sua piedade, austeridade, obediência e dons sobrenaturais levaram os frades a admitirem-no no convento.


Bastava pensar em Jesus ou olhar
para uma cruz para fazê-lo entrar
em êxtase. 
Pregação feita por meio do bom exemplo

Entretanto, seu amor a Deus levava-o a almejar o sacerdócio. Embora alguns duvidassem que ele fosse capaz de tanto, os superiores permitiram-lhe começar os estudos. Atravessou os anos de filosofia a duras penas. Nas horas de exame, ficava tão inseguro que, muitas vezes, era incapaz de responder. Mas a Providência não o desamparava. Quando seu mestre começava a impacientar-se, o nosso santo lhe dizia: "Tenha paciência, assim será mais meritório".

Em uma das provas mais importantes, o examinador lhe disse: "Vou abrir a esmo o Evangelho, e a primeira frase que me cair sob os olhos, essa terás de me explicar". Em seguida, abriu o livro santo na página da visita a Santa Isabel, e mandou Frei José dissertar sobre a frase: "Bendito é o fruto de teu ventre". Era justamente este o único ponto que ele sabia explanar.

Chegou, por fim, o dia do exame definitivo, no qual se decidiria quem seria ordenado. José recomendou-se à sua Santa Mãe, Nossa Senhora de Grottella. Apresentou-se o grupo de seminaristas diante do bispo, e este logo começou o exame oral. Os dez primeiros a serem interrogados saíram-se tão bem que o prelado, muito satisfeito com o nível de preparação daquele conjunto, dispensou da prova os demais. Frei José era o 11º da lista... Assim, com razão, Frei José de Cupertino viria a ser declarado padroeiro dos estudantes, especialmente daqueles que se encontram no período de exames.

Foi ordenado sacerdote em março de 1628. Sempre teve muita dificuldade de pregar e ensinar. No entanto, supria essa deficiência e ganhava as almas por meio da oração, da penitência e do poderoso meio do bom exemplo.


"Frei Burro"... e hábil teólogo

Na verdade, era pouco versado nos conhecimentos humanos, tanto que se chamava a si mesmo de "Frei Burro". Contudo, a graça divina lhe concedia muita sabedoria e luzes sobrenaturais, e desse modo ele não somente ultrapassava o comum dos homens no aprendizado das doutrinas, como se mostrava hábil em resolver as mais intrincadas questões que lhe eram apresentadas. Em certa ocasião, um professor da Universidade Franciscana de São Boaventura disse: "Escutei-o discorrer tão profundamente sobre os mistérios da teologia, como não o poderiam fazer os melhores teólogos do mundo".

Além disso, nunca deixou de ser místico e grande contemplativo. Tudo aquilo que, de algum modo, tinha relação com Deus ou com as coisas santas – o som do sino, o canto litúrgico, a menção dos nomes de Jesus ou de Maria, alguma passagem dos Evangelhos – facilmente o transportava ao êxtase. E nada o tirava desse estado. Em vão seus irmãos de hábito tentavam empurrá-lo ou arrastá-lo, depois passaram a golpeá-lo, espetá-lo com pregos e, por fim, alguns mais impacientes chegaram a tocar sua pele com brasas. Nada produzia efeito. Por milagre da santa obediência, somente a voz do superior o trazia de volta à vida comum.


Êxtases frequentes, fonte de transtornos e provações.

O êxtase às vezes o surpreendia durante a Missa. Voltando a si, São José retomava o santo sacrifício no ponto preciso em que o havia deixado, sem se equivocar no cerimonial. Tais eram seus êxtases que certo dia, durante uma levitação, suas mãos ficaram por cima das chamas de dois tocheiros. Atônitos, os espectadores ficaram mudos de temor, mas, passado o êxtase, não havia qualquer sinal de queimadura. Sua Missa durava habitualmente duas horas. Por vezes, Nosso Senhor lhe recomendava que a abreviasse para ir desempenhar seu ofício de esmoler. Aconteceu- lhe mesmo de elevar-se e permanecer suspenso no ar.

Os êxtases e levitações eram muito
comuns. Podiam ocorrer a qualquer
momento ou lugar. 
Os arroubamentos de São José de Cupertino podiam acontecer em qualquer momento e lugar

Como essas ocorrências causavam não pouco espanto e admiração, além de grande distúrbio na comunidade, os superiores acharam por bem decidir que Frei José não mais celebrasse Missa em público nem participasse dos atos em comum, como cânticos no coro, refeições e procissões. A partir de então, ele devia permanecer em seu quarto, onde uma capela privada foi preparada para seu uso. Tudo o bom frade aceitou, com humilde e obediente resignação.

Mas as provas a que Deus submetia este seu servo estavam longe de terminar. Tantas manifestações sobrenaturais chamaram a atenção da Inquisição, perante a qual o bom frade foi acusado de abuso da credulidade popular. Durante um interrogatório no mosteiro napolitano de São Gregório Armeno, ele teve um êxtase diante dos juízes. O longo e complexo processo ocasionou-lhe o transtorno de ser várias vezes transferido de uma casa dos conventuais para outra. Mas Frei José de Cupertino sempre manteve sua paciência e espírito alegre, submetendo- se com confiança aos desígnios da Providência. Longe de afligir-se, progredia na via da santificação. Praticava a mortificação e o jejum a tal ponto que fazia sete longos períodos de abstinência por ano, e durante boa parte desse tempo não experimentava nenhuma comida, exceto às terças-feiras e domingos.     


Simplicidade e inocência

Comumente via as pessoas em forma de um animal que representava o estado de sua alma. Se encontrava alguém cuja alma não estivesse limpa, sentia o mau odor do pecado e advertia: "Estás cheirando mal, vai te lavar". E, após uma boa confissão, sentia um aroma agradável de perfume.

Facilmente entrava em êxtase e levitava.
Vivia de tal forma em contemplação que, mesmo durante árduos trabalhos, não conseguia distrair-se dela. Não poucas vezes, pensando nas realidades eternas, José se elevava do chão. Realmente, o "Irmão Burro" passou boa parte de sua vida no ar, entre o céu e a terra... Devido talvez à sua simplicidade e inocência, José de Cupertino tinha grande amizade e familiaridade com as mais simples criaturas de Deus.

 Certa vez mandou um passarinho ir ensinar às freiras de um mosteiro cantar o Ofício. E todos os dias, à hora das Matinas e da Noa, eis que o pássaro aparecia à janela do coro, animando o cântico das religiosas.

Em outra ocasião, encontrou duas lebres junto ao bosque de Grottella e as preveniu: "Não vos afasteis de Grottella, porque muitos caçadores vos perseguirão". Tendo desobedecido a essa recomendação, uma delas foi surpreendida e perseguida por cães. Encontrando aberta a porta da capela, o animalzinho atravessou a nave e atirou-se nos braços de José. "Eu não tinha te avisado?", disse-lhe o santo. Em seguida, chegaram os caçadores, reclamando sua presa. "Esta lebre está sob a proteção de Nossa Senhora, portanto não a tereis", respondeu ele. E, depois de abençoá-la, a pôs em liberdade.

Apenas ao pronunciar os santíssimos nomes de Jesus e de Maria, José entrava em levitação. Passeando um dia com outro frade nos jardins do convento, este lhe disse: "Irmão José, como criou Deus um tão belo céu!" Ao ouvir estas palavras, José deu um grito, voou e colocou-se de joelhos sobre uma oliveira. Os galhos balançavam como se estivessem sob o peso de um pássaro.


Urna com o corpo incorrupto do santo.



A santidade atrai

Sua fama de santidade espalhou-se rapidamente por toda a Itália e mesmo por outros países da Europa. Príncipes, reis, cardeais e até o Papa o procuravam.

Todo este movimento em torno do humilde religioso e os fenômenos sobrenaturais pouco comuns inquietaram a Inquisição. Em 1653, por ordem do Santo Ofício, foi transferido de Assis para o convento capuchinho de Petra Rúbia, e depois, para o isolar mais, a Fossombrone. Devia ele viver isolado, inclusive, da comunidade.

Os frades conventuais recorreram ao Papa Alexandre VII. Queriam reconduzir São José a Assis, mas o Papa respondeu: "Não, basta-lhes um São Francisco em Assis". Que maior elogio para um franciscano?!

Foi enviado a Ósio, perto de Loreto em 1657. Ao chegar, exclamou: "Este é o lugar de meu descanso". E de fato foi em Ósio que entregou sua virtuosa alma a Deus, em 17 de setembro de 1663. Foi canonizado por Clemente XIII em 1767.


(Revista Arautos do Evangelho, Jan/2004 e Set/2006, n. 25 e 57)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

SÃO ROQUE GONZÁLEZ, SÃO JOÃO DE CASTILHO E SANTO AFONSO RODRIGUEZ, Presbíteros Jesuítas e Mártires.


Os Santos Missionários e Mártires das Missões Roque González e seus Companheiros foram os primeiros evangelizadores nas terras do Sul do Brasil. Membros da Ordem dos Jesuítas, eles exerceram o seu trabalho missionário junto aos índios Guaranis, na atual Região Missioneira, no Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.



São Roque González

Nasceu em 1576, na cidade de "Nossa Senhora da Assunção", hoje a capital do Paraguai. Seus pais, Bartolomeu González de Valverde e Maria de Santa Cruz, eram de elevada classe social, e deram sólida formação cristã aos dez filhos, dois dos quais se tornaram sacerdotes.
Desde os mais tenros anos criou-se e conviveu com os índios guaranis, falando sua língua perfeitamente e conhecendo suas tradições. Indignava-se profundamente com o modo como eram tratados pelos colonizadores, reduzidos a escravidão em suas próprias terras. Brutalmente explorados, muitos morriam de fome.
Em 1588 os Jesuítas chegaram em Assunção e Roque passou a frequentar seu colégio, completando seus estudos, inclusive Teologia.
Em 1598 foi ordenado sacerdote, aos 22 anos, seguramente um dos primeiros nativos do Paraguai. Assumiu por dois anos a missão junto aos índios da região de Maracaju, que lhe ficaram profundamente afeiçoados. Foi nomeado cura da Catedral de Assunção, o que aceitou por obediência, embora ainda sonhasse em trabalhar para sempre entre seus amados índios. Em 1609 foi nomeado Vigário Geral da Diocese, mas nosso santo ingressou na Companhia de Jesus: foi admitido no noviciado em maio de 1609, e dois anos depois fez sua primeira profissão religiosa.


As Reduções

Pe. Roque e outro jesuíta, Pe. Vicente Griffi, foram enviados à dificílima missão de pacificar os índios Guaicurus. Eles conseguiram até mesmo fundar ali uma redução, enquanto muitos até temiam que eles não retornassem com vida.
Enviado depois à redução de Santo Inácio Guaçu, conseguiu superar muitas dificuldades e, graças ao seu tino eminentemente prático, fez com que ela se tornasse um verdadeiro modelo para todas as futuras reduções. Preciosa ajuda os jesuítas receberam do franciscano Pe. Frei Luís Bolaños, que lhes transmitiu sua grande experiência no assunto. As reduções (para os portugueses equivaleriam às Aldeias, ou aldeiamentos), foram criadas para levar os índios nômades a uma vida estável e habituá-los ao trabalho regular através da agricultura, do cultivo das artes e ofícios, e evangelizá-los pela catequese e pregação. Pela sua índole comunitária, muitos sociólogos do século XIX consideraram as reduções a realização utópica da sociedade justa, fraterna e solidária.
A atividade de supervisão era extenuante: Padre Roque era arquiteto, pedreiro, marceneiro, administrador, agrônomo...Participava de todo tipo de trabalho. Jovens jesuítas eram para lá enviados a fim de aprenderem nessa escola prática. Não obstante, isso não impedia que Padre Roque fosse fiel à oração e às demais atividades religiosas.
A partir de 1615 começou a fundar novas reduções e em 1619 fundou a primeira delas junto ao Rio Uruguai. Antes de prosseguir nesse relato, vamos conhecer nossos outros dois santos, Afonso e João, que um dia se unirão a Roque no martírio.


Santo Afonso Rodrigues

Nasceu aos 10 de março de 1598, em Zamora, Espanha. Seus pais eram Gonzalo Rodrigues e Maria Olmedo, muito religiosos. Depois de fazer os estudos primários em sua terra natal, entrou na Companhia de Jesus em Salamanca, e foi mandado para o noviciado em Villagarcia. Foi aí que se apresentou como candidato ao Pe. João Viana, que buscava voluntários para as missões na Ameríndia...
Pe. João era procurador da Província do Paraguai. Como outrora fizera Pe. Inácio de Azevedo , procurava voluntários para o difícil trabalho das missões. Falava aos jovens estudantes das dificuldades e privações por que passavam os missionários, e como deviam estar preparados até mesmo para o martírio. Afonso entusiasmou-se! Quis fazer parte dessa expedição missionária e embarcou com mais 37 companheiros no dia 2 de novembro de 1616; entre eles estava também João de Castilho.
A viagem foi cheia de perigos: uma tempestade quase os fez naufragar; colidiram com outro navio; duas semanas de calmaria (completamente parados em alto-mar, sem ventos a soprar as velas!). Descansaram 15 dias na Baía, Brasil, e reembarcaram, chegando em Buenos Aires em 15 de fevereiro de 1617.
Afonso continuou seus estudos em Córdova, Argentina, onde também era excelente professor de letras humanas. Concluídos os estudos com brilhantismo, foi ordenado sacerdote em fins de 1623 ou início de 1624.
Tinha uma devoção toda especial a Cristo crucificado.
Seu primeiro ministério sacerdotal foi junto aos ferozes índios Guaicurus, por oito meses. Foi mandado então para a redução de Itapuã, fundada anteriormente por Pe. Roque González, e agora muito próspera.


São João de Castilho

Nasceu em 14 de setembro de 1595, em Belmonte, Espanha, na nobre família de Castilho. Seu pai Afonso, era corregedor da cidade (o que equivaleria a prefeito). Sua mãe, Maria Rodrigues, zelava pela sólida formação cristã dos seus 10 filhos. Quatro deles abraçariam a vida religiosa: João, o primogênito, e três filhas, que entraram para a Ordem das Monjas Concepcionistas Franciscanas.
Ainda menino João entrou no colégio dos Jesuítas. Quando acabou os estudos de latinidade, foi enviado pelos pais à Universidade de Alcalá. Entrou no noviciado da Companhia de Jesus em 1614, aos 18 anos de idade. Deixou então a faculdade de direito e foi estudar Filosofia. Foi nesse tempo que por lá passou o Pe. João Viana... Como muitos outros jovens, João ofereceu-se com generosidade, e foi aceito.
Fez a mesma viagem que o jovem Afonso. Ao terminar os seus estudos de filosofia, foi mandado para o Colégio da Conceição do Chile. Gozava de boa saúde física. Nos estudos encontrou algumas dificuldades. Era de temperamento colérico, como Santo Inácio de Loyola, mas ao mesmo tempo dotado de uma gentileza cativante e figura esbelta.
Em 1625 foi ordenado sacerdote. Enquanto lecionava, aprendia a língua guarani, para poder um dia trabalhar entre os índios.
Começou o seu ministério na redução de São Nicolau, onde aprofundou o conhecimento da língua indígena. Ele era afável, bondoso e desprendido, estimado por todos. Venerava a Virgem Maria com grande confiança. Logo conquistou a simpatia de todo o povo da redução.

"Submetia-se, de boa mente, aos sacrifícios que as circunstâncias dele exigiam. Tornou-se carpinteiro, lavrador, enfermeiro. Limitava o descanso ao mais essencial da vida. Tinha que enfrentar certos caciques. A choça, em que morava, era extremamente precária. As paredes eram de taquara. O frio no inverno, por vezes, era tanto que não o deixava dormir. Por comida havia um pouco de milho cozido e farinha de mandioca, o cardápio dos índios. Tinha que enfrentar longas caminhadas, a pé. Vivia uma interminável quaresma, todos os dias do ano. Jejuava muito. Uma pequena refeição à noite era luxo que os missionários se permitiam somente na Páscoa." (Dom Estanislau KREUTZ, Santos Mártires das Missões, p 48)

Não foi por acaso que se tornaram mártires! E não nos esqueçamos que estes são apenas os sofrimentos exteriores. Quais foram as suas provações interiores? Como dizia Santa Teresa de Ávila, "Deus trata duramente os seus amigos", mas "não lhes faz agravo, pois tratou assim a seu próprio Filho".

Em solo gaúcho

Conhecendo já um pouco da vida de todos os nossos três missionários, voltemos agora à narrativa das novas fundações que Pe. Roque vinha realizando junto ao Rio Uruguai, desde 1619.
Por mais de seis anos tentou penetrar em nosso atual Rio Grande do Sul, ou seja, na margem esquerda do Rio Uruguai, e o conseguiu no dia 3 de maio de 1626, festa da invenção da Santa Cruz. Nesse dia celebrou a missa, provavelmente a primeira celebrada nesse Estado do Brasil, e fundou a redução de São Nicolau, que chegou a ter oito mil habitantes no século seguinte. Ali também trabalharia Pe. João de Castilho.
Pe. Roque chamava essas terras de Tupanciretan, que quer dizer "Terra da Mãe de Deus"! Como fazia em todas as novas fundações, levava consigo um quadro de Nossa Senhora da Conceição, a quem confiava e dedicava o êxito desses empreendimentos missionários. Ela era chamada de Conquistadora, pois o milagre de muitas conversões lhe é atribuído. A devoção à Nossa Senhora Conquistadora permanece muito enraizada em toda essa região do cone sul.
Continuando as fundações, foi nomeado superior regional das reduções do Rio Uruguai, que devia visitar periodicamente, supervisionando o trabalho dos jesuítas que lá estavam. Quando Pe. Roque visitou a redução de Itapuã, Pe. Afonso pediu para ser enviado a uma missão mais desafiadora. Seu pedido foi aceito, e Pe. Roque levou-o para as missões do Rio Uruguai.
Em 15 de agosto de 1628 fundou a redução de Assunção do Ijuí, e após dois meses e meio de organização e encaminhamento da mesma, colocou-a aos cuidados do Pe. João.

Em 1o.de novembro de 1628, juntamente com o Pe. Afonso, fundou a redução de Caaró. A que ‘santo’ ela foi dedicada?
A redução de Caaró foi dedicada a todos os Santos Mártires, especialmente aos três mártires jesuítas japoneses recém beatificados, Paulo Miki, João de Goto e Diogo Chisai. Como Deus é admirável! Essa região de Caaró hoje é dedicada a outros três mártires jesuítas: ROQUE, AFONSO e JOÃO! Todos os jesuítas e demais missionários daquela época tinham perfeita consciência do perigo em que viviam; a devoção aos santos mártires não é mero acaso, mas elemento natural de sua espiritualidade. Preparados para a morte, viviam privações e sofrimentos constantes. Que pessoas admiráveis! Como têm tanto a nos ensinar! O coração desses Amantes de Deus já intuía o presente que estavam por receber. O Espírito Santo os preparava suave e decisivamente para o grande dia.


O martírio em Caaró

Desde os primeiros dias dos missionários em Caaró, diversos caciques compareceram. Os índios, em troca do compromisso de se reduzirem, recebiam dos missionários cunhas e outros objetos vindos da Europa. As cunhas, machadinhas de ferro, significavam uma grande transformação, pois com elas talhavam suas canoas e preparavam a roça, modificando costumes milenares com a introdução de novas técnicas de subsistência.
Amanhecendo a quarta-feira do dia 15 de novembro, continuavam os índios a afluir, recebendo as cunhas. Após a celebração da missa, enquanto Pe. Roque, inclinado, procedia à preparação do sino que seria instalado em um alto mastro, aproximaram-se os assassinos...Dois deles desferiram violentos golpes com as suas machadinhas de pedra na cabeça de Pe. Roque, que morreu instantaneamente. O mesmo aconteceu com Pe. Afonso, que ouviu os gritos e saiu de sua cabana. Morte instantânea. A seguir, barbáries: vestes arrancadas, corpos esquartejados, destruição da capela e objetos religiosos.

Um velho cacique se opôs aos assassinos, e por isso teve a mesma morte. Sofreu assim o batismo de sangue! Esse mártir guarani pode um dia se juntar aos nossos santos mártires como novo santo da Igreja. Não sabemos seu nome, por isso é chamado de Cacique Adauto.


O martírio em Assunção do Ijuí

De Assunção do Ijuí partira a maquinação do crime: o poderoso e influente cacique Nheçu, que dominava os índios e julgava-se um deus, odiava os missionários e a nova religião. Não suportando as conversões, decretou o extermínio dos missionários.
Chegou a vez do pe. João de Castilho. Dois dias depois, sexta-feira 17 de novembro, investiram contra ele e o arrastaram até o mato. Bofetadas, vestes rasgadas, amarradas as mãos com cordas: arrastado pelo mato, seu corpo virou uma imensa chaga. As testemunhas oculares afirmavam que ele repetia sempre: "Tupanrehê", que quer dizer "Seja por amor de Deus". Agradecia-lhes também o que estavam fazendo e dizia que iria para o céu. Crivado de flechas, golpeado, os índios cansados acabaram por esmagar-lhe a cabeça. No dia seguinte seu corpo foi queimado e destruída sua cabana e objetos sagrados.
Levaram a Nheçu a alva e a casula do padre. Vestindo-se com elas, prometeu prosperidade e o retorno às tradições dos antepassados. Mandou trazer alguns batizados e lavou-lhes a cabeça para retirar a graça batismal.


A reação das reduções

Pe. Romero enviou mensageiros a todas as reduções, pois corriam grande perigo. Resgataram os restos mortais dos missionários e levaram-nos a Concepción, com o pranto de todo o povo. Os guerreiros comandados por Nheçu tentaram atacar outras reduções, mas foram rechaçados. Por fim, com reforços vindos de vários lugares, um verdadeiro exército de 1.200 índios cristãos venceu os mais de 500 índios inimigos.
No dia seguinte ao martírio de Caaró, um fato sobrenatural, atestado por trinta e três caroenses: uma voz saiu do coração de Pe. Roque, quando para lá voltaram os assassinos: anunciava a punição dos criminosos por terem maltratado a imagem da Mãe de Deus, mas do céu os ajudaria (O coração de São Roque é a única relíquia dos corpos dos três mártires que não se perdeu).

Aclamados como mártires

Logo após o fim dos combates foi feita a primeira peregrinação ao local do martírio em Caaró; em Assunção, o bispo determinou uma celebração solene de ação de graças pelo martírio, e o próprio irmão de Pe. Roque, o Cônego Pedro González, presidiu a missa com grande participação de todo o povo. Todos consideravam os missionários mártires da Igreja, e assim o processo foi iniciado já no ano seguinte, em 1629.
Após um grande movimento por ocasião do terceiro centenário das mortes, o processo foi retomado e culminou com a Beatificação em 1934. Desde então cresceu muito a devoção aos Santos. O coração de São Roque passou a realizar viagens missionárias pelo Paraguai, Argentina e Brasil. Em 1940 percorreu diversos lugares do Rio Grande do Sul, inclusive Caaró, o que se repetiu em 1973, 1978, 1992 e 1998, sempre com grande veneração dos fiéis.

Esperamos que os nomes desses nossos gloriosos mártires possa finalmente ser conhecido e venerado por todo o Brasil, e que dessa vez o coração de São Roque possa passar em peregrinação em todo o país. Que o seus exemplos de missionários, evangelizadores, catequistas extremados, possa suscitar um novo impulso para a ação pastoral de toda a Igreja no Brasil.


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Verdadeiros Santos do Brasil

É hora de esclarecermos uma questão...

Quantos santos canonizados o Brasil têm? Todos sabem que são só dois, Santa Paulina e Santo Antônio Galvão, certo?

Errado. A maioria dos brasileiros, e mesmo muitos padres, ignora a existência de outros três santos canonizados, do Brasil. Desde 1988 o Brasil tem três santos jesuítas, martirizados em solo do Rio Grande do Sul, há muito tempo venerados como santos Rio-Grandenses (gaúchos!): São Roque González de Santa Cruz, Santo Afonso Rodrigues e São João de Castilho.

Quando "descobrimos" isso ao fazer as pesquisas para esse site, sentimos alegria e indignação ao mesmo tempo. Alegria pelo fato em si, pela vida desses nossos irmãos tão queridos e colocados por Deus para ficarem muito próximos de todos nós brasileiros. Indignação simplesmente porque é um absurdo o que faz a propaganda, ou melhor, a falta dela! À Madre Paulina foi feita justiça, graças a Deus, pois hoje todo o Brasil sabe que temos uma santa, tão humilhada em vida e agora tão exaltada por Deus. Mas ela não foi a primeira santa do Brasil (somente a primeira santa mulher): esses nossos santos amigos, mártires do Rio Grande do Sul, foram deixados de lado... Não por Deus, certamente.

Conhecê-los foi uma grande alegria, e é impossível não se apaixonar por eles! Sua dedicação, sacrifício contínuo em meio a tantas dificuldades, fome, frio, falta de tudo para quem antes vivia no conforto, perigos por todo lado e finalmente o martírio! Já eram mártires antes, pela vida de caridade e abnegação que levavam. Dedicaram-se totalmente aos seus fiéis índios. Seu exemplo e caridade são contagiantes: Pe. João de Castilho, enquanto já era agredido brutalmente pelos seus algozes, dizia "Filhos meus, que é isso?" Filhos meus! Quando disseram que iam matar todos os outros missionários respondeu: "Então conduzi-me para lá e matai-me em sua companhia". Sabia muito bem o que estava acontecendo... Deus os preparou para esse dia.

Que eles são santos do Brasil ninguém pode duvidar, pois isso se baseia nos mesmos critérios que dizem que Santa Paulina é brasileira, ou então Pe. Anchieta, Pe. Eustáquio, etc., todos nascidos em outros países. Aqui trabalharam ou aqui morreram? Sim! Então são considerados santos brasileiros.

Santos ignorados

Alguns pensam que esses três santos são santos do Paraguai, porque o Papa canonizou-os em 1988, em Assunção, capital do Paraguai. Não são conhecidos no Brasil (ou ao menos além do Rio Grande do Sul), e não foi falado deles entre nós em 1988, quando foram canonizados. Por ocasião da canonização de Madre Paulina foi falado continuamente na mídia que ela era a primeira santa brasileira (não referindo-se a santo do sexo feminino, mas a um canonizado em si, genericamente)... Enfim, Madre Paulina seria a única canonizada. Mas não é bem assim. E nós custamos a acreditar...


Realmente do Brasil

Os santos trabalhavam na Região Missioneira, que na época tinha reduções ("aldeias") em regiões relativamente próximas desde o sul, sudeste do Paraguai, nordeste da Argentina, até o noroeste do Rio Grande do Sul. Em 1626, Pe. Roque, jesuíta e paraguaio de nascimento, começou as fundações na margem esquerda do Rio Uruguai, e aí deu-se o martírio, dois anos depois, em 1628, onde também morreram Pe. Afonso Rodrigues e Pe. João de Castilho, espanhóis.

Essa região, hoje solo gaúcho, estava sob domínio da coroa espanhola. Mesmo a coroa portuguesa e suas colônias, ou seja, todo o Brasil, desde 1580, por não ter outro descendente legítimo, foi herdada pelo Rei Filipe II, da Espanha, parente mais próximo do finado rei português. Assim permaneceria até 1640, ano em que os portugueses se rebelaram e proclamaram novo rei. Esse período foi o de maior crescimento do território brasileiro, já que podíamos crescer para o lado ocidental sem receio de invadir terras que pertenciam ao Rei espanhol, soberano de ambos os lados da linha de Tordesilhas.

Ora, pela tradição universal da Igreja, vale para o santo o lugar do martírio ou da morte. São Paulo Apóstolo estava preso em Roma quando foi martirizado, e lá ficaram suas relíquias, até hoje. Ninguém foi reclamá-las em Roma. Santo Antônio estava de passagem por Pádua quando morreu. Lá ficaram suas relíquias, e Pádua passou a fazer parte até do seu nome. Esses nossos três santos jesuítas não foram apenas martirizados em solo gaúcho, o que já seria um título de pertença ao Brasil, mas exerciam o seu apostolado aqui: são mais do Brasil, em certo sentido, que dos outros países da Região Missioneira, como Paraguai e Argentina. O povo gaúcho sempre os chamou de "Mártires Rio-Grandenses". Embora possamos considerá-los também como santos da região missioneira, incluindo nossos vizinhos, seria absurdo excluí-los do nosso país.





Venerados como nossos santos

Esses três mártires sempre foram mais venerados no sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, do que nos países vizinhos, Argentina e Paraguai, e isso de forma decisiva. Segundo a fama de santidade, eram mais considerados como santos brasileiros do que como santos de outras regiões. Lembremos o que significa a fama de santidade para as questões que envolvem uma causa de canonização, e veremos que isso que acabamos de afirmar é da maior importância.

Correspondendo aos anseios do povo e seguindo o critério da fama de santidade, religiosos e bispos gaúchos levaram em frente a causa, ou seja: aqui viveram, aqui morreram, aqui eram venerados e aqui foi encaminhado o processo. Realizado o processo até a Beatificação, essa foi celebrada pelo Papa Pio XI, em Roma, em 1934. Desde então cresceu ainda mais a devoção a esses nossos santos, e a relíquia de São Roque percorreu inúmeras dioceses do sul, com grande veneração dos fiéis.

Historicamente os três mártires já foram chamados de "Mártires do Paraguai", pois para os primeiros historiadores jesuítas mais ligados ao contexto da região, sobretudo por serem de língua espanhola, essa denominação corresponderia mais ao que seria o "antigo" Paraguai, como um sinônimo da região Missioneira na época do martírio. Denominação que envolveria não só áreas do Paraguai atual, mas também o nordeste da Argentina e o Rio Grande do Sul. Já foram chamados também de "Mártires Platenses", o que corresponderia ao território de toda a região Missioneira, sul do Brasil inclusive, sem mencionar especificamente um dos países envolvidos. Mas sem dúvida, a denominação de "Mártires Rio-Grandenses" é a que mais corresponde à veneração popular aos Santos Mártires, enquanto fama de santidade em solo gaúcho. Esse era o sentir do povo da região, e o que determinou a abertura e prosseguimento do processo até a beatificação. Nesse sentido, mesmo que o processo tivesse sido iniciado em outro país, não alteraria em nada a questão; mas fica evidente que não foi à toa que o mesmo foi encaminhado pelo Brasil. Se não fosse a sua veneração popular pelo povo gaúcho (fama de santidade), talvez a causa de canonização desses nossos três mártires não teria ainda sido iniciada, não seriam nem beatos nem santos atualmente...

Somente mais recentemente, em 1978, quando se tratou de levar adiante o processo para a canonização dos três beatos, as Igrejas dos três países abraçaram em conjunto a causa (Brasil, Argentina e Paraguai). Em sinal de unidade, e por serem importantes para toda a região, concordaram em dar a eles o único título de "Mártires das Missões", livre de conotações políticas ou nacionalistas. Isso quer dizer: não seriam considerados exclusivamente do Brasil, o que poderia acontecer teoricamente. As Igrejas do Paraguai e da Argentina reconhecem a preeminência do Brasil na questão, psicologicamente evidenciada ainda mais pelo fato de o processo ter sido conduzido aqui. Mas a Igreja do Brasil, na pessoa de Dom Estanislau Kreutz, bispo de Santo Ângelo, sempre considerou nossos mártires como na realidade são, patrimônio comum a toda a Igreja presente na região Missioneira e um sinal de comunhão. A Igreja não está presa ou limitada a fronteiras, e não perde nada quando divide entre seus filhos as suas alegrias. Pelo contrário, a alegria é muito maior!

Lembremos outro argumento muito importante: o Brasil é um dos quatro países herdeiros da antiga região missioneira; o que diz respeito à região missioneira diz respeito ao Brasil também, e se eles são santos da região missioneira, são santos do Brasil também.

Outro detalhe, não decisivo para esse ponto de vista, mas significativo: o que faltava para a canonização, um milagre aprovado, foi apresentado também justamente pelo Brasil, isto é, pela diocese de Santo Ângelo. Foi a comprovação da cura milagrosa de Maria Catarina Stein, ocorrida em 1940, coincidentemente nessa mesma diocese onde os mártires derramaram seu sangue, e uma das maiores promotoras da causa.

Aprovado o milagre pela Santa Sé, quando se tratou da cerimônia de canonização, não havia condições de se fazer no Brasil, isto é, no local do martírio, sem infraestrutura para isso. Os paraguaios se adiantaram e conseguiram que fosse feito lá, sobretudo por causa da visita do Papa ao Paraguai. Havia também o argumento afetivo de que o Bem-aventurado Roque González era nascido em Assunção. Lembramos que o país de origem não é relevante para a questão; Santo Afonso e São João são nascidos na Espanha. A cerimônia teria sido feita no Brasil, sem dúvida alguma, se houvesse condições materiais para isso, da mesma forma como o Papa canonizou Edith Stein no campo de concentração no qual ela morreu. Com certeza, se isso houvesse acontecido, todos nós saberíamos que os Santos eram do Brasil. Pelo fato de não ter sido devidamente divulgado, o fato passou despercebido.


Considerar os legítimos primeiros habitantes da terra

Existe ainda outro argumento contra o parecer de que eles não são santos do Brasil: são os habitantes da região na época dos mártires. Eram os índios guaranis, que estavam sendo catequizados nas reduções pelos nossos santos. Falavam o tupi, como, aliás, quase todo o Brasil na época, e era a língua usada pelos missionários obviamente. Esses cristãos continuaram habitando a região, eles e seus descendentes, independente do jogo de dominação imposto à força sobre o lugar. Considerado território espanhol, depois português e enfim, Brasil independente, não importa, os habitantes eram os mesmos, na mesma terra, apesar das décadas de absurda violência que a região conheceu com o tempo. As duas guerras guaraníticas não conseguiram dizimar todos os índios que habitavam a região, nem expulsá-los, com era o desejo de portugueses e espanhóis. Com o tempo, outros habitantes (como os imigrantes europeus) vieram fazer parte dessa grande família, mas sua descendência permaneceu na terra. Seus descendentes estão ligados à região, e hoje são chamados de brasileiros. Os santos que viveram entre eles, transmitiram a fé cristã aos seus antepassados e são por eles venerados, não são seus santos? Hoje essa região faz parte do Brasil e seus habitantes são chamados brasileiros. Os títulos de pertença ou dominação política podem ter mudado, mas houve uma continuidade: o povo cristão é o mesmo. Roque González e seus companheiros eram santos desse povo e continuam sendo. Esse povo é brasileiro: eles são santos do Brasil. Alguém ousaria tirar os santos desse povo?

Se eles não são santos dessa região, de qual região são então? Dizer que essa região não fazia parte do Brasil na época, e por isso, o que lá aconteceu não pode ser atribuído ao Brasil atual, é o mesmo que dizer que os habitantes seculares dessa terra não podem ser chamados hoje de brasileiros. Isso é absurdo! Inconscientemente estamos dizendo que os índios e seus descendentes que habitam essa região do Rio Grande do Sul não são legítimos brasileiros. Estamos perpetuando a mesma mentalidade que provocou as guerras guaraníticas, considerando a posse (arbitrária) da terra como critério, sem levar em conta o povo que nela habita.


O título de Protomártires do Brasil

Se são do Brasil, e foram martirizados em 1628, são nossos protomártires, primeiros mártires. Porém, em março de 2000, quando os Mártires do Rio Grande do Norte (martirizados em 1645) foram beatificados, receberam esse título (Quem dá esse título é o Papa, conforme o que lhe é apresentado pela Congregação da Causa dos Santos. Essa por sua vez decide segundo o que é apresentado pelo Brasil, ou seja, por quem encaminhou os estudos a respeito).

Dar esse título a outros santos, é o mesmo que dizer que os Santos do Rio Grande do Sul não são do Brasil, o que não é verdade. Não se trata de disputar um título, pois isso para Deus não tem importância. Dom Estanislau enviou nessa ocasião um pedido de retificação à Congregação para as Causas dos Santos, mas até agora o pedido não foi atendido.

Alguns chegaram a dizer que a região do Rio Grande do Sul na época do martírio pertencia à coroa espanhola; mas o mesmo argumento serve para a região do martírio do Rio Grande do Norte: em 1645 essa região estava sob domínio holandês, e foram os calvinistas holandeses a martirizarem os nossos beatos.

Poderia se argumentar também que os do Sul não são nascidos no Brasil, e os do Norte são quase todos nascidos no país (27 de um total de 30 beatos; o número real de martirizados, porém, chega a 150!). Mas esse argumento está fora de lugar: não é a nacionalidade de origem que está em questão, mas o local onde morreram. Todos os três do Sul e os 30 do Nordeste estavam no Brasil. E também não estavam aqui simplesmente de passagem, o que já seria suficiente, mas todos também viviam nessas regiões. Além do mais, a causa do cacique Adauto relativiza ainda mais esse argumento, pois havia um "brasileiro" também entre os do sul.

Quanto aos nossos três santos serem protomártires ou não, não se trata da disputa pelo uso de um primado, mas em reconhecer aos mártires do sul que eles são realmente do Brasil. Os argumentos são todos a favor, porque excluí-los?


Segundo Dom Estanislau, bispo da Diocese de Santo Ângelo, a diocese do martírio dos nossos santos, o tempo se encarregará de fazer ver essa realidade.