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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

domingo, 11 de outubro de 2015

SANTA JUSTINA DE PÁDUA, Mártir.


Martirológio Romano: Em Pádua, nos confins de Veneza, Santa Justina, virgem e mártir (s. III/IV).

São Venâncio Fortunato, bispo de Poitiers, em princípios do século VII, considera Santa Justina como uma das virgens mais ilustres, cuja santidade e triunfo foram consagrados pela Igreja, e afirma que seu nome torna Pádua tão famosa como o de Santa Eufêmia a Calcedônia e o de Santa Eulália a Mérida. O mesmo autor, no poema que dedicou à vida de São Martinho, exorta os peregrinos que vão a Pádua a beijar o sepulcro da Bem-aventurada Justina.
O culto a Santa Justina é atestado em Rimini em uma inscrição do século VI-VII, e em Como, o Bispo Agripino lhe dedicou um oratório em 617, como recorda a inscrição dedicatória.
Segundo as fontes literárias conservadas em numerosos códices a partir do século XII, espalhadas em muitas bibliotecas italianas, Justina pertencia a uma distinta família de Pádua durante a perseguição de Diocleciano. Presa por causa de sua fé, Justina foi conduzida ao tribunal de Maximiano; não conseguindo as ameaças fazê-la apostatar de sua fé, o juiz condenou-a a pena capital. Foi martirizada em 7 de outubro de 304. Seu corpo foi sepultado próximo do teatro romano.

A basílica construída por Opilião sobre o túmulo de Justina se conservou até 1117, quando um terremoto a destruiu completamente. Os monges beneditinos, que já oficiavam na igreja desde o final do século VIII, reconstruíram-na, embora menos esplêndida do que a primeira. Mas a Congregação Beneditina de Santa Justina, fundada na Igreja de Santa Ludovica Barbo em 1418, tendo se propagado rapidamente, os monges construíram um templo mais digno em honra da mártir. Iniciado em 1521, foi completado em 1587. O corpo de Santa Justina foi colocado sob o altar mor da igreja em um relicário duplo de jumbo e madeira, coberto por um véu de ouro.
A difusão da Congregação Beneditina de Santa Justina, que elegeu a mártir como sua patrona especial, junto com São Bento, contribuiu para propagar o seu culto na Itália e na Europa. Após a vitória de Lepanto, Veneza a elegeu como patrona especial de todos os seus domínios.
Atualmente, após um período de esquecimento causado especialmente pela supressão do mosteiro em 1810, e pelo subsequente fechamento da igreja pelas leis napoleônicas, o culto de Santa Justina lentamente recobra novo vigor favorecido pela reabertura do mosteiro ocorrida em 1919.

Fontes: blog Heroínas da Cristandade (com permissão) e santiebeati.it

Beata Lúcia de Caltagirone, Virgem e Terciária Franciscana.



As informações sobre a Beata Lúcia seguem um costume comum dos Franciscanos dos primeiros séculos: as vidas de figuras veneráveis desta Ordem eram pouco documentadas.
Um autor dos mais autorizados é o célebre irlandês Luca Wadding, frade recoleto (1588-1657) que redigiu os Annales Minorum, onde incluiu uma Vita de Lúcia de Caltagirone.
Lúcia nasceu em Caltagirone, Sicília, no ano 1360. Seus pais a educaram na piedade e ela soube corresponder maravilhosamente às suas expectativas. Eles eram devotos de São Nicolau de Bari e experimentaram sua proteção várias vezes.
Um dia em que Lúcia subiu em uma figueira para recolher frutos foi surpreendida por um furioso temporal com granizo e raios. Um raio caiu sobre a árvore onde Lúcia estava, e ela caiu por terra meio morta. Em sua mente viu perfilar-se a figura de um santo ancião, São Nicolau de Bari, que a tomava por uma das mãos e a entregava de novo a sua família.
Aos 13 anos abandonou seu povoado natal na Sicília para seguir uma piedosa terciária franciscana de Salerno. Pouco tempo depois esta guia espiritual faleceu e Lúcia entrou em um convento salernitano de Irmãs que seguiam a Regra franciscana.
O convento franciscano que acolheu Lúcia muito provavelmente foi o de São Francisco próximo da igreja de São Nicolau, erigido em 1238 e supresso em 1809, após as leis napoleônicas.
Ali se distinguiu pela fiel prática de seus deveres e em especial pelo amor à penitência, com a qual se havia comprometido para expiar os pecados da humanidade, e sobretudo para uma participação mais íntima com as dores de Cristo.

Por algum tempo exerceu o ofício de mestra de noviças. A fama de sua virtude se difundiu. Muitos recorriam a ela para pedir-lhe orações e conselhos. Dedicava muito tempo à oração, à meditação e à contemplação das coisas celestes. Flagelava seu corpo virginal com frequência; a terra lhe servia de leito; um pouco de pão e água eram seu sustento diário. Tinha especial devoção pelas Cinco Chagas de Nosso Senhor.
Os nobres acudiam a ela, e ela consolava os aflitos, chamava à penitência os pecadores, edificava os piedosos. Deus confirmou sua santidade com prodígios. Havia chegado aos quarenta anos e já estava pronta para o céu. Sua vida austera, os prolongados e dolorosos sofrimentos minaram sua saúde.

Lúcia, terciária regular, morreu em Salerno no ano 1400. Depois de sua morte realizou diversos prodígios. O culto e a veneração por ela foi se estendendo sempre em Salerno e nas regiões vizinhas, até que em 4 de junho de 1514 o Sumo Pontífice Leão X concedeu o ofício e a Missa em sua honra, compostos tomando como exemplo os de Santa Clara.
Lúcia precedeu de alguns séculos outras terciárias franciscanas célebres, como Santa Maria Francisca das Cinco Chagas (1715-1791) e a venerável Maria Crucifixa das Cinco Chagas (1782-1826) que como ela foram, em Nápoles, ponto de referência espiritual para gerações de fieis.


http://es.catholic.net/op/articulos/36282/luca-de-caltagirone-beata.html

sábado, 10 de outubro de 2015

SANTO ANDRÔNICO E SANTA ATANÁSIA, Esposos e "Monges" (uma história fantástica).




Andrônico e Anastásia viveram no Egito no fim do século IV, no tempo do imperador Teodósio. Uma história fantástica. Verdadeira ou fantasiosa? Bem, não temos como saber com absoluta certeza. Porém, é plausível que tenha acontecido. A "religiosidade" da época permitia sim que esposos, por penitência e/ou devoção, se separassem e cada um fosse viver como religioso e religiosa em algum mosteiro. Apesar de isso não ser possível hoje em dia, não deixa de ser interessante que naqueles tempos Deus inspirasse tal atitude em muitos de seus filhos e filhas... 

     Andrônico era um alexandrino que se estabeleceu na Antioquia como ferreiro. Vivia muito feliz com sua esposa Atanásia e seus dois filhinhos, João e Maria, e seu negócio prosperava. Porém, quando completaram 12 anos de casados, subitamente seus dois filhos morreram no mesmo dia. Desde então, Atanásia passava a maior parte do tempo chorando junto ao túmulo e rezando na igreja vizinha.   
     Um dia, ela viu de repente junto a si um forasteiro que lhe assegurou que seus filhos gozavam da felicidade celeste e desapareceu. Atanásia reconheceu nele São Julião mártir, patrono da igreja em que ela costumava rezar. Cheia de alegria, dirigiu-se imediatamente à oficina de seu esposo e lhe disse que já era tempo de abandonarem o mundo, ao que Andrônico aquiesceu.
     Ao partirem de sua casa, cuja porta deixaram aberta, Atanásia invocou para si e para seu marido a bênção que Deus havia concedido a Abraão e Sara, dizendo: "Já que por amor a Ti deixamos aberta a porta de nossa casa, abri-nos Tu as portas de teu Reino". Os dois foram juntos para o Egito, sua terra natal e se dirigiram para o deserto de Esqueta em busca de São Daniel o Taumaturgo. O santo enviou Santo Andrônico para o Mosteiro de Tabena e aconselhou Santa Atanásia a disfarça-se de homem e a ir viver como anacoreta na solidão.
   Após 12 anos, Santo Andrônico se encontrou com um monge imberbe, que lhe disse que se chamava “Atanásio” (era Santa Atanásia, na verdade) e que ia para Jerusalém. Ambos fizeram a viagem, juntos visitaram os lugares santos e juntos voltaram ao deserto. Eram então muito amigos e não querendo impor-se o sacrifício da separação, se dirigiram ao Mosteiro “Dezoito” (assim chamado porque ficava a uma distância de 18 léguas de Alexandria), onde o superior lhes designou duas celas contíguas.
     Pouco antes de morrer, “Atanásio” se pôs a chorar. Um monge perguntou a causa de seu pranto e ele respondeu: "Quando eu estiver morto, entrega ao irmão Andrônico a carta que encontrareis sob meu travesseiro". Quando Andrônico leu a carta, ficou sabendo que o morto era sua própria esposa e que ela o havia reconhecido desde o momento em que se encontraram.
     Vestidos de branco e levando em suas mãos ramos de palma os monges sepultaram Santa Atanásia. Um monge ficou com Santo Andrônico até o sétimo dia depois da morte de sua esposa e então lhe rogou que partisse com ele. Como o santo se negasse a partir, o monge foi sozinho. Porém, um mensageiro alcançou-o e disse-lhe que o irmão Andrônico agonizava. O monge reuniu todos os seus irmãos, e juntos chegaram à cela de Santo Andrônico, que morreu suavemente, assistido por eles e foi sepultado junto a sua esposa.
     O Cardeal Barônio introduziu seus nomes no Martirológio Romano e acrescentou que haviam morrido em Jerusalém.

SANTA SOFIA, Mãe das Santas Virgens e Mártires Fé, Esperança e Caridade.



Santa tradicional, não incluída no Martirológio Romano atual. Martirológio Romano (1956): Em Roma, Santa Sofia, Viúva, mãe das santas virgens e mártires Pistis (Fé), Elpis (Esperança) e Agape (Caridade). (c. século II).
Santa Sofia, cujo nome significa “Sabedoria Divina” teve por filhas as três virgens: Fé, Esperança e Caridade, nomes escolhidos por ela no batismo, pelo amor que dedicava a essas virtudes cristãs.
Santa Sofia buscou sempre a perfeição evangélica, sendo agraciada por Deus com o dom de contemplar as grandezas celestiais, educando suas filhas num reto amor pelas virtudes, numa época de intensas perseguições ao Cristianismo - por volta do século 130 d.C.
     Sofia e suas filhas viveram na época da perseguição do imperador romano Adriano e seu prefeito Antíoco. Sendo discípulas incondicionais de N. S. Jesus Cristo, foram presas e martirizadas, porque pregavam por toda cidade de Roma e arredores a mensagem do Crucificado.
As filhas foram martirizadas na presença da mãe. Santa Sofia, cuja fé e fortaleza eram inabaláveis, animava suas filhas a perseverarem na virtude mesmo durante os bárbaros tormentos que lhe foram infligidos pelo imperador que fazendo sofrer as filhas pretendia fazer a mãe renegar sua fé cristã.
Santa Fé foi a primeira a ser martirizada, sendo despida, atada de mãos e pés, cruelmente chicoteada tendo seus cotovelos e tornozelos esmagados à marteladas, em meio aos risos e injúrias do imperador; sua irmã, Santa Esperança, também despida, foi lançada lentamente numa caldeira de betume derretido; por fim, Santa Caridade, de apenas nove anos de idade, foi decapitada, seu corpo retalhado e lançado ao fogo.

A santa mãe, ajudada por alguns dos presentes, enterrou os corpos de suas santas filhas, e prostrada diante do túmulo comum, rezava. Algum tempo depois Sofia morreu na paz do Senhor. Seu corpo foi enterrado pelos cristãos na mesma sepultura de suas filhas. Ela também foi mártir porque padeceu em sua alma cada um dos tormentos que suas filhas padeceram.
Adriano morreu roído de podridão e de remorsos, reconhecendo que se comportara iniquamente com aquelas santas, e fora cruel com os seguidores de Cristo.
Esta história se encontra recompilada na Legenda Áurea.
Santa Sofia faleceu no dia 30 de setembro do ano 130, tornando-se uma das santas mais populares na Igreja do Oriente. Seu Santuário na Itália localiza-se na cidade de Poderia, Salerno, e no Brasil na cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Cosmos, a igreja foi construída pelo então comendador Serafim Sofia, grande devoto desta santa.


http://es.catholic.net/op/articulos/35108/sofa-o-sonia-santa.html
http://www.paideamor.com.br/santos/santa_sofia.htm

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Beata Encarnação Gil Valls, Virgem Leiga, Terciária Franciscana e Mártir (Guerra Civil Espanhola, em 1936).


Beata Encarnação Gill Valls, Virgem e Mártir
Encarnação Gil Valls, leiga, nasceu em Onteniente (Valência) em 27 de janeiro de 1888, foi batizada no mesmo dia e confirmada em 24 de maio de 1893. Ela recebeu sua primeira comunhão em 1899 na igreja paroquial de Santa Maria. Cresceu no seio de uma família cristã que lhe proporcionou uma esmerada educação. Ficou órfã em sua juventude e pensou então em entrar em um mosteiro, porém preferiu ficar no mundo para atender seu irmão Gaspar, sacerdote.
Professora de escola primária em Albuixech e Beniarrés, na província de Valência, e uma mulher de oração, passava para seus alunos a fé em Deus. Em Onteniente, colaborou muito com seu irmão nas obras de apostolado. Ingressou na Ação Católica e em outras associações apostólicas, especialmente aquelas de adoração da Eucaristia; foi também um catequista muito eficaz. Em Valência teve contatos com as teresianas e com as reparadoras, a cuja congregação de Filhas de Maria pertenceu.
Colaborou na fundação do Patronato da Infância e dirigiu a Escola Noturna Feminina da Ordem Terceira Franciscana, à qual pertencia. Fazia todo bem que podia com dedicação e entrega.
Quando a revolução chegou, permaneceu ao lado de seu irmão; foram aprisionados e morreram juntos fuzilados na noite de 24 de setembro de 1936, no Porto de Olleria (Valência). Foi beatificada em 11 de março de 2001 pelo Papa João Paulo II.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

SANTO EDMUNDO CAMPION, Presbítero Jesuíta e Mártir (mártir da fidelidade ao Papa).





Homem inteligente, cordial e corajoso, com um futuro brilhante diante de si, renunciou a tudo para afervorar as almas que cambaleavam na Fé numa época de sangrentas perseguições.

Os séculos XVI e XVII foram tempos difíceis para a Igreja na Inglaterra. A outrora cognominada Ilha dos Santos encontrava-se imersa em problemas de índole política que logo transcenderam para a esfera eclesiástica, com as mais graves repercussões.

Em 1534, Henrique VIII se autonomeou Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra e declarou réu de morte a quem não reconhecer essa autoridade. Ao ano seguinte, foram decapitados dois dos mais proeminentes opositores ao Ato de Supremacia: São John Fisher e São Thomas More. Os mosteiros, conventos e confrarias foram dissolvidos. Uma implacável perseguição se desatou contra os que permaneciam fiéis ao Papa.

Foi nessas circunstâncias históricas que nasceu em Londres, no dia 25 de janeiro de 1540, Edmundo Campion.


Aluno brilhante, orador eloquente, professor estimado

Filho de pais abastados, o pequeno Edmundo era dotado de inteligência ímpar e de grande facilidade para o estudo das letras, o que fazia abrir-se diante dele um futuro brilhante. Teve um tal progresso no colégio que, com apenas 13 anos, foi o estudante escolhido para fazer, em latim, o discurso de boas-vindas à Rainha Maria I, quando esta entrou solenemente em Londres, em 1553.

O donaire e a vivacidade do menino cativaram os presentes. Entre estes estava Sir Thomas White, fundador do Colégio São João de Oxford, que o tomou sob sua proteção e levou para essa instituição, a fim de educá-lo e formá-lo.

Edmundo não defraudou seu benfeitor. Coroou seus estudos com brilho, correspondendo às esperanças do mestre. Por sua privilegiada inteligência e grande eloquência, era sempre o orador escolhido para discursar nas ocasiões importantes. Como professor, destacou-se de tal forma que alunos de outros cursos vinham assistir às suas aulas como simples ouvintes. Foi nomeado proctor (chefe dos inspetores de disciplina da Universidade). Em pouco tempo tornou-se estimado e popular entre os estudantes a ponto de "fazer escola": formou-se em Oxford um grupo de estudantes denominados "os campionistas", porque o imitavam na maneira de falar, nos gestos, nos modo de ser e até de vestir-se.


Encontro com a rainha Isabel I

Algum tempo depois de sua coroação como rainha, Elisabeth I visitou Oxford com uma grande comitiva, para passar alguns dias entre os estudantes da célebre Universidade. Tinha por objetivo arregimentar para a sua causa jovens universitários ou professores de grande talento. A visita durou seis dias e constou de vários atos acadêmicos, entre os quais uma homenagem do corpo docente. O orador escolhido foi Edmundo Campion, então com 27 anos de idade.

A rainha escutou-o com muita satisfação, fez-lhe os mais lisonjeiros oferecimentos e colocou-o sob a tutela de seu chanceler, William Cecil, que mais tarde referiu-se a ele como sendo "um dos diamantes da Inglaterra".1


Começa a batalha pela fidelidade

Quase que por instinto, Campion rejeitava as reformas implantadas na esfera espiritual por Henrique VIII e seus sucessores. Inebriado, porém, pelas possibilidades de uma brilhante carreira, deixou-se levar pelos acontecimentos e prestou o Juramento de Supremacia em 1564, reconhecendo a rainha como governadora suprema da Igreja na Inglaterra. Quatro anos mais tarde, recebeu das mãos do bispo anglicano de Gloucester a ordenação diaconal.

Entrementes, o futuro mártir dedicara-se aos estudos de filosofia aristotélica, de teologia natural e dos Santos Padres, e não tardou a tomar consciência de sua falta. Profundamente perturbado pelos remorsos, procurou um sacerdote católico, fez uma boa confissão e assumiu publicamente sua condição de filho da Igreja.

Tinha ele clara noção de que sua atitude o obrigaria a abandonar a carreira acadêmica, mas não hesitou em fazer esse sacrifício. Também não ignorava que, se permanecesse na Inglaterra nessas circunstâncias, estaria exposto a grandes riscos. Por isso deixou Oxford e mudou-se em 1569 para Dublin.


Um novo porvir: o sacerdócio e o martírio

No ano seguinte, o Papa São Pio V promulgou a bula Regnans in Excelsis, excomungando a rainha Elisabeth I. Após esse ato pontifício, os ânimos se acirraram, e a situação de Edmundo tornou-se especialmente delicada. Os irlandeses o viam com maus olhos, por ter se dedicado a escrever uma história desse país sob o ponto de vista inglês; os católicos o olhavam com suspeitas, pelo fato de ele ter sido ordenado diácono anglicano; e os anglicanos e luteranos o detestavam por ser um "papista".

Não teve outra alternativa senão voltar à Inglaterra, com o nome de Mr. Patrick e disfarçado de lacaio. Chegou a Londres a tempo de testemunhar o juízo de um dos primeiros mártires oxfordianos: São João Storey, jurista, executado em 1571 por sua fidelidade ao Romano Pontífice. Percebeu, então, o quanto a Santa Igreja em sua nação necessitava de almas dispostas a uma doação total, para sustentar na Fé os católicos e manter o estandarte da catolicidade erguido naquela terra outrora conhecida como a Ilha dos Santos.

Este fato despertou em sua alma a vocação ao sacerdócio, com a disposição de sacrificar tudo, inclusive a vida, se preciso fosse, em defesa da Igreja de Cristo. O martírio passou a fazer parte de suas cogitações e de seu futuro.


No seminário em Douai

Decidido a corresponder sem tardança ao chamado do Divino Mestre, empreendeu uma viagem para Flandres, num momento crítico em que todos os viajantes eram suspeitos. Após muitas peripécias, conseguiu chegar ao seminário de Douai, fundado e dirigido pelo padre William Allen, o futuro Cardeal, também oxfordiano. Neste seminário, que foi ponto de partida para muitos santos e mártires, ele estudou Teologia, Exegese e Divindade. A cópia da Suma Teológica usada por Campion em seus estudos existe até hoje, mostrando as anotações por ele feitas à margem do argumento de São Tomás sobre o "batismo de sangue", isto é, o martírio.

Martírio parecia ser o único tema de conversa no seminário de Douai, naquela época. Todos se julgavam indignos de tão grande privilégio, mas contavam com o auxílio da graça. Convictos da realidade expressa na famosa frase de Tertuliano: "O sangue dos mártires é semente de cristãos" 2, estavam realmente dispostos a tudo.

Santo Edmundo permaneceu aí nove anos e recebeu as ordens menores e o subdiaconato. Mas tinha o coração sempre atormentado por ter prestado o Juramento de Supremacia. Desconfiando de suas próprias forças, colocava sua confiança "nAquele que conforta" (Fl 4, 13), e empenhava-se, ao mesmo tempo, em preparar sua alma na humildade. Almejava, para isso, uma vida de austera disciplina e obediência. Acreditava que assim talvez se tornasse "digno do verdugo e da forca por seu Deus".3


Sacerdote jesuíta

Partiu então para Roma, como peregrino, e solicitou ingresso na Companhia de Jesus. O Superior Geral, padre Everardo Mercuriano, o recebeu como noviço e o designou para Brunn, na Província da Áustria. Mais tarde foi transferido para Praga, onde estudou por mais cinco anos e recebeu a ordenação sacerdotal em 1578.

Começou para Santo Edmundo uma fase de intensas atividades de apostolado. Era constantemente chamado para pregar e atender Confissões nas cidades próximas, e não deixava de dar assistência aos fiéis nos hospitais e nas prisões.

Um dia, recebeu uma carta do Cardeal Allen, comunicando-lhe que havia organizado uma incursão de missionários na Inglaterra e que ele, padre Edmundo, fazia parte do grupo. "O Geral acedeu às nossas súplicas; o Papa, verdadeiro pai de nosso país, consentiu; e Deus nos permitiu que nosso querido Campion, com seus dotes extraordinários de sabedoria e graça, nos fosse afinal restituído". 4 Aproximava-se o almejado martírio... Seus companheiros do Colégio de Praga deram-lhe um pergaminho com a profética inscrição: "Padre Edmundo Campion, mártir".




Cem mil conversões em um ano!

Em 18 de abril de 1580, partiu de Roma, com a bênção do Papa Gregório XIII, uma pequena caravana de missionários, entre eles três jesuítas: padre Robert Persons, superior, padre Edmundo Campion e o irmão Ralph Emerson. Receberam estes, também, a bênção de São Felipe Neri, no Oratório, e os incentivos de São Carlos Borromeu em Milão, por onde passaram.

Sua missão era puramente espiritual: procurar as ovelhas perdidas, recuperar os católicos que vacilavam ou contemporizavam sob o regime persecutório, afervorar as almas fiéis. Jamais poderiam imiscuir-se em problemas políticos, menos ainda participar de confabulações, ou mesmo simples conversas, contrárias à rainha.

Não foi sem grandes riscos e dificuldades que conseguiram cruzar o Canal da Mancha e entrar disfarçados em Dover, pois espiões ingleses em Roma haviam enviado notícias da sua partida, e em toda a Inglaterra a força policial estava mobilizada para impedir a entrada desses "fora da lei" em seu território.

Os católicos ingleses, animados pela chegada dos sacerdotes, encarregaram-se de hospedá-los e dar-lhes condições de exercer seu ministério apostólico. Puderam eles, assim, durante mais de um ano, desempenhar suas funções sacerdotais, sempre em situação de risco. Disfarces, nomes falsos, precários esconderijos, apreensões nos momentos de buscas policiais, tudo isso fazia parte da rotina dos heroicos missionários.

Campion pregava com frequência sobre o primado de Pedro. Celebrava a Santa Missa, atendia Confissões, dava conselhos, alentava os fracos, "tudo como nas catacumbas",5 diz um de seus biógrafos. Mais ainda, trazia de volta ao Rebanho de Cristo inúmeras ovelhas desgarradas. "Cem mil conversões em um ano!", exclama o mesmo autor.6


O "jesuíta sedicioso"

Refugiado em York, padre Campion escreveu, em latim, sua mais famosa obra: Decem Rationes (As dez razões para ser católico), logo divulgada por todo o país. No dia 29 de junho de 1581, apareceram sobre os bancos da igreja de Santa Maria de Oxford 400 exemplares dessa obra, lá deixados por uma mão desconhecida...

Em resposta a essa audaciosa iniciativa dos missionários, a rainha ofereceu grande soma pela captura deles, sobretudo do padre Campion. Em 16 de julho, festa da Virgem do Carmo, ele e o irmão Emerson estavam em uma casa de Lyford Grange, para ministrarem os Sacramentos. Disfarçado entre os fiéis, entrou lá um espião, chamado George Eliot. Tal qual Judas, o Infame, saiu logo depois de receber a Sagrada Comunhão, para denunciar os missionários a quem lhe pagava o salário de seu vil ofício.

Não tardaram a chegar os agentes do governo, que vasculharam a casa e prenderam os ministros de Deus. Amarrados aos cavalos e cavalgando de costas, foram conduzidos a Londres, onde entraram sob manifestações de escárnio de um pequeno populacho. No chapéu do padre Edmundo estava afixada uma inscrição: "Campion, o jesuíta sedicioso".


Julgamento e condenação

Na Torre de Londres, iniciou-se processo do padre Campion. A rainha quis falar pessoalmente com ele. Ofereceu-lhe a vida, a liberdade, honrarias e até mesmo a Diocese de Cambridge, com a condição de que ele reconhecesse sua supremacia espiritual no Reino da Inglaterra. O destemido varão recusou todas essas ofertas. Deu-se, então, prosseguimento ao inquérito. Embora submetido a terríveis torturas, o padre Campion defendeu-se com tanto acerto que os acusadores não encontravam meios de incriminá-lo. Foi preciso recorrer ao depoimento de falsas testemunhas.

Num ridículo julgamento realizado em Westminster, no dia 20 de novembro, é decretada a sentença de morte na forca, seguida de estripação e esquartejamento. Santo Edmundo e seus companheiros condenados, o padre Sherwin e o também jesuíta Briant, acolheram-na com o cântico jubiloso do Te Deum laudamus e de um versículo do salmo 117: "Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e felicidade" (v. 24).

George Eliot, o delator, procurou o santo missionário no calabouço para pedir-lhe perdão. E foi perdoado imediatamente.


O martírio

Caía uma chuva fina e fria sobre Londres, na manhã de 1º de dezembro de 1581. Os três condenados foram conduzidos ao patíbulo amarrados numa esteira de vime arrastada por cavalos. Ao passar o arco de Newgate, Santo Edmundo conseguiu erguer a cabeça o suficiente para saudar uma imagem de Nossa Senhora que ali se encontrava em seu nicho.

Chegando a Tyburn, onde estavam levantadas as forcas, Campion subiu com toda a firmeza que lhe permitiam seus membros deslocados pelas torturas. Ouviu-se um murmúrio de admiração entre espectadores, seguido de um longo silêncio. Começou ali uma nova colheita de conversões, entre as quais a de um jovem que se fez jesuíta e sofreu, 14 anos depois, idêntico martírio: Santo Henrique Walpole.

Já com a corda colocada no pescoço, o padre Campion foi pela última vez interrogado por um conselheiro da rainha, que lhe exigiu uma confissão pública de suas "traições".

A História registra suas derradeiras palavras: "Se ser católico é ser traidor, me confesso como tal. Mas se não, tomo a Deus - ante cujo Tribunal vou agora apresentar-me - como testemunha de que em nada ofendi a rainha, nem a Pátria, nem qualquer pessoa, para merecer o título ou a morte como traidor”. 7

Rezou por fim o Pai-Nosso e a Ave Maria, e pediu aos católicos presentes que rezassem o Credo enquanto ele expirava. Entregou, assim, sua alma ao Criador, como mártir da fidelidade à Cátedra de Pedro.


Notas:

1 WAUGH, Evelyn. Edmundo Campion.
San Francisco: Ignatius Press, 2005, p. 68.
2 TERTULLIANO. Apologget., 50; PL 1, 534.
3 BRICEÑO J., SJ, Pe. Manuel. San Edmundo Campion. In: ECHEVERRÍA, L., LLORCA, B., REPETTO BETES, J.L. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2006, vol.
12, p.19.
4 WAUGH, Op. cit., p. 87.
5 BRICEÑO J., SJ, Op. cit., p. 21.
6 Idem, ibidem.
7 Idem, p. 23.


(Revista Arautos do Evangelho, Dez/2009, n. 96, p. 34 à 37).

Texto compilado e adaptado da página http://www.arautos.org/view/show/11640-santo-edmundo-campion-martir-da-fidelidade-ao-papado-

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Beatos Luís Yakichi e Lúcia, Esposos, e seus filhos André e Francisco, Mártires no Japão.



Martirológio Romano: Em Nagasaki, Japão, beatos Luís Yakichi e Lúcia, esposos, e seus filhos André e Francisco, mártires, que enfrentaram a morte por Cristo: os rapazes e a mãe foram decapitados diante do pai e este foi queimado vivo.

O casal Luís e Lucia Yakisci e seus filhos, André e Francisco, pertenciam à diocese de Funai, e foram martirizados por sua fé no Japão, sua pátria.
Em 1622, os cristãos de Nagasaki planejaram libertar o missionário Luís Florès, detido nos cárceres de Firando. Para executar a árdua tarefa foi encarregado o próprio Luís Yakisci, homem bastante inteligente e astuto, que com uma pequena embarcação conseguiu iludir a vigilância dos guardas e libertar o Padre Florès. A fuga, porém foi descoberta em seguida e os guardas, dotados de meios mais velozes, conseguiram alcançar a precária embarcação de Yakisci e reconduziram ao cárcere os dois prisioneiros.
Luís foi submetido a vários interrogatórios por parte dos juízes, interessados em descobrir os nomes dos organizadores do complô. Foi submetido a suplícios contínuos que tornaram seu corpo irreconhecível, mas todas as torturas não abateram o seu ânimo. Jamais revelou nada, mesmo quando ameaçaram de morte também os seus mais íntimos familiares. Todos os quatro recusaram a liberdade em troca da renúncia à fé de Cristo e ao juiz não restou senão condenar ao martírio a heroica família.
Os dois filhos foram decapitados junto com a mãe diante do pai, e este foi queimado vivo lentamente. Isto aconteceu no dia 2 de outubro de 1622 em Nagasaki, cidade japonesa na qual haviam nascido. Os dois filhos nasceram respectivamente em 1615 e 1619, enquanto dos pais não se tem esse dado.
O Beato Pio IX beatificou esta família no dia 7 de maio de 1867, junto com um grupo de 205 mártires em terra japonesa, entre os quais outros 15 casais todos da mesma nacionalidade. Até hoje o Japão é a nação que deu à Igreja Universal o maior número de modelos de santidade vivida no estado conjugal.


 Fontes: Blog Heroínas da Cristandade (com a permissão da dona do blog). 

SÃO GREGÓRIO BARBARIGO, Cardeal e Patrono dos Necessitados.



Gregório Barbarigo nasceu em Veneza, no dia 16 de Setembro de 1625. Oriundo de uma família aristocrata, rica, famosa e piedosa de Veneza, ele pôde por isso receber uma sólida e integral formação religiosa e intelectual. Fazia parte da Congregação Mariana. Aos dezoito anos, ele já era secretário do embaixador de Veneza.

Em 1648, viajou com o embaixador veneziano Alvise Contarini ao Congresso de Münster, na Alemanha, para as negociações do Tratado de Vestefália, que pôs fim à sangrenta Guerra dos Trinta Anos. Durante o congresso, ele conheceu o núncio apostólico Fabio Chigi, que o orientou para o sacerdócio. Completou os seus estudos na Universidade de Pádua.

Quando o núncio foi eleito papa, com o nome de Alexandre VII, nomeou Gregório Barbarigo cônego de Pádua; em 1655, prelado da Casa pontifícia e dois anos mais tarde foi consagrado bispo de Bérgamo. Finalmente, em 1660, tornou-se cardeal.

O papa sabia o que estava fazendo, pois as atividades apostólicas de Gregório Barbarigo marcaram profundamente a sua época. Como cardeal, participou nos conclaves de 1667, de 1676, de 1689 e de 1691. Após o conclave de 1676, o novo Papa eleito, Inocêncio XI, manteve-o em Roma durante três anos como conselheiro e confiou-lhe a supervisão do ensino da religião católica na cidade.

Dotou o seminário de Pádua com professores notáveis, provenientes não só da Itália, mas também de outros países da Europa, aparelhando a instituição para o estudo das línguas orientais. E fundou uma imprensa poliglota, uma das melhores que a Itália já teve.

Fundou em Pádua uma biblioteca e uma imprensa poliglota, que foi considerada na altura uma das melhores da Itália. Para educar e orientar melhor os pais e educadores, criou também escolas populares e instituições onde se ensinava religião. Fundou também várias instituições de caridade.
Pôde desenvolver plenamente seu trabalho pastoral, fundando escolas populares e instituições para o ensino da religião, para orientação de pais e educadores. Num período de peste, fez o máximo na dedicação ao próximo. Cuidou para estender a assistência à saúde para mais de treze mil pessoas.


São Gregório criou e patrocinou
muitas instituições de caridade
e educativas. 
Gregório Barbarigo fundou, ainda, inúmeros seminários, que colocou sob as regras de são Carlos Borromeu, e constituiu a Congregação dos Oblatos dos Santos Prosdócimo e Antônio. Foi um dos grandes pacificadores do seu tempo, intervindo, pessoalmente, nas graves disputas políticas de modo que permanecessem apenas no campo das ideias.

Depois de executar tão exuberante obra reformista, morreu em Pádua no dia 18 de junho de 1697.

A sua vida e obra foi profundamente estudada por João XXIII, seu conterrâneo, que nasceu e trabalhou como sacerdote na diocese de Bergamo. Foi canonizado por esse santo Papa em 1960, afirmando, no seu discurso, que elevou São Gregório Barbarigo ao posto que ele merecia ocupar na Igreja. Seu coração é venerado no seminário diocesano de Pádua.


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Resumo esquemático: 
Nascimento
16 de Setembro de 1625
Local
Veneza
Ordem
Diocesana - Cardeal
Local vida
Pádua (Itália)
Espiritualidade
Proveniente de uma nobre família de Veneza, ficou órfão de mãe aos 4 anos de idade, mas o pai soube educar a seus filhos com suas atitudes exemplares, sendo confidente e conselheiro, recitando diariamente o pequeno ofício de N.Sra, até sua morte em 1687. Em 1643, aos 18 anos de idade tornou-se secretário do embaixador de Veneza na Alemanha até o ano de 1648, quando conheceu se tornou amigo de um Cardeal que seria um dia, papa: Fábio Chigi. Em 1655 tornou-se sacerdote (30 anos de idade). Foi bispo de Bérgamo e depois cardeal e bispo de Pádua. Sobretudo, nesta última cidade, pôde desenvolver plenamente seu trabalho pastoral, fundando escolas e instituições de caridade. Num período de peste fez o máximo na dedicação ao próximo. Seu coração é venerado no seminário diocesano de Pádua. Neste dia, por ordem do Papa João XXIII, de tão feliz memória, veneramos um santo de ciência e sabedoria admiráveis. Ele foi primeiro do Bispo da terra do Papa João XXIII, Bérgamo. Mais tarde, foi transferido para Pádua. Antes de ser padre e bispo, fora diplomata. Depois, cuidou do estudo das línguas orientais no seminário e fundou até uma imprensa poliglota.
Local morte
Itália
Morte
No ano de 1697
Oração
São Gregório Barbarigo, fundador de escolas e instituições de caridade, que tivestes a graça de nascer em uma família cristã e bem estruturada, nos vos louvamos por vossa vida de santidade e pedimos vossa intercessão: olhai por nossos estudantes e professores, pelos responsáveis por nossa nação e por todas as nações do mundo, para que se voltem a Deus e somente assim cumpram os Mandamentos, as Leis de Deus e assim esta terra se tornará um novo céu. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Devoção
À prática integral da caridade
Padroeiro
Dos necessitados

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Beato Antônio de Categeró (de Évola ou de Noto), Terciário Franciscano.



Na atormentada história da Europa da primeira metade do século XVI, encontramos a vida de Antônio, o Etíope. Nascido em Barco de Cirene (Líbia) de família maometana, religião que ele professou até que, por um acidente providencial, foi capturado e deportado para a Sicília, em Siracusa. Foi comprado como escravo por um agricultor de Avola, um certo João Landanula (ou Landolina) que lhe confiou seu rebanho. John percebeu que aquele seu servo era bastante inteligente, de coração sincero, de índole nobre, honesta, e respeitosa. Então o exortou, pela palavra e pelo exemplo – a renunciar ao Islã pela fé cristã – projeto cujo êxito confiou à providência divina. O servo bom mostrou-se prontamente disposto à catequese.
Foi batizado pela Igreja e passou a chamar-se Antônio em homenagem a Santo Antônio. Amava os pobres, fugia do ócio e passava seu tempo de folga do trabalho em oração. Dedicou-se em nome de Jesus e nunca falhou para corrigir qualquer um que usasse o nome de Deus em vão. Alimentava em si um espírito constante de arrependimento dos pecados, lamentando, com profunda dor e contrição, aqueles cometidos por ele no primeiro período de sua vida, antes de sua sincera conversão.
Durante os 38 anos em que viveu no território avolense desfrutou de uma reputação de homem exemplar, sóbrio e, com sua caridade, conquistou os corações de toda gente. Ele costumava vir regularmente a partir da campanha avolense à Igreja de Santa Venera, bem vagaroso, para a confissão e comunhão; dedicava-se, também, a alimentar a lâmpada do santuário. No altar de São Tiago Apóstolo, ele cuidava das flores e conseguiu enriquecer o altar com um frontal e um par de castiçais. Don Nicholas Cascone, que por muitos anos foi seu confessor em Santa Venera, disse: “Antônio tem progredido de virtude em virtude e de bom para melhor. Tenho-o acompanhado como meu filho espiritual durante 15 anos e o tenho avaliado um homem caridoso, paciente e casto, zeloso no serviço de Deus, não vendo nele a mínima falha, por menor que fosse.”
Entrementes, o fazendeiro João casa dois de suas netas com dois irmãos de Noto: Vicente e Miguel Giamblundo e, como parte do dote, dá-lhes seu rebanho e o escravo líbio, recomendando muito que o tratassem muito bem.
Desde então, Antônio viveu em Noto com seus novos proprietários que lhe indicam as pastagens onde levar as ovelhas e onde construir um galpão e o nomeiam capataz – chefe dos pastores para o rebanho numeroso da grande propriedade de Celso. Este ofício, Antônio irá exercer com precisão e grande bondade para com os pastores subordinados, incentivando a honestidade profissional. Mesmo neste novo ambiente a vida de Antônio ocorre com o mesmo ritmo de trabalho e oração.
Em consideração às qualidades sobrenaturais e aos milagres que Deus se dignava operar por meio do santo homem, que tanto os admiravam e temendo manter como escravo um amigo de Deus, Miguel e Vicente Giamblundo deram-lhe a liberdade: “por sua bondade e vida santa, e porque é muito caridoso e paciente”. Os quatro anos de serviço voluntário, depois de obtida a liberdade, são também vividos com dedicação por Antônio, sem descuidar quaisquer dos deveres de capataz.
Livre da escravidão doméstica, dedicou-se ao voluntariado no hospital de Noto. Assistia diariamente à missa e participou de um grupo de oração. Leu a vida dos santos muitas vezes como um incentivo para imitá-los. Ele queria imitar, especialmente, a vida do Beato Conrado de Piacenza: vestiu por isso o hábito de terceiro franciscano, recebido das mãos do guardião do convento franciscano da região e se retirou para o deserto de Pizzoni, onde levou uma vida mais angelical que humana.
Nas vezes em que Antônio veio a Noto, o povo saiu às ruas, alguns para vê-lo, outros para beijar sua mão e muitos para recuperarem-se de uma doença. Disseram aqueles que o tratavam familiarmente: “Nunca o vi zangado, mesmo quando provocado, em vez disso, mostrava-se mais leve e calmo para que todos se maravilhassem”.  
Um dia, ficou doente, em Noto. Sentindo seu fim chegando, quis receber os últimos sacramentos e entregar a alma devotamente a Deus. Faleceu em 14 de março de 1550.
Seu corpo foi enterrado, por sua própria vontade, na igreja desse convento de Observantes Menores. Tanta estima e devoção popular para com o humilde negro ermitão, fez com que despertasse a admiração do seu biógrafo, o historiador Vicente Netino Littara (1550-1602) que nasceu no ano de sua morte.
Será grande número de milagres alcançados por sua intercessão. No dia 13 de abril de 1599, 49 anos após sua morte, seu túmulo foi aberto para o reconhecimento canônico de seus espólios mortais. Seu corpo foi encontrado intacto e incorrupto, como se tivesse morrido naquele mesmo dia.
Na vida e depois da morte foi conhecido por muitos milagres. Era chamado de “o negro” pela cor de sua pele, sendo ele filho de pais africanos. Muitos já o chamavam de o Santo Negro pela distintiva santidade de sua vida.  Em 1611 é dada licença para divulgar a imagem com a auréola de beato.
No século XVII, o exemplo de sua vida é proposto principalmente para os negros escravizados no Brasil, vindos da África: lá é chamado de “Santo Antônio de Categeró” (ou Cartaginês) por sua origem Africana.
Em 24 de janeiro de 1978, na igreja Santa Maria de Jesus, em Noto, o bispo Dom Salvatore Nicolosi faz o reconhecimento canônico da ossada do Beato Antônio, doando o braço direito à paróquia de Nossa Senhora do Ó, em São Paulo (Brasil)
Por ocasião do Congresso Diocesano (11-12 de janeiro de 1992), o Beato Antônio foi escolhido como o Protetor da caridade diocesana, porque é, hoje, sinal profético e ecumênico que interpela nossa consciência cristã a ser capaz de acolher a tantos imigrantes da África. Um número sempre maior tem vindo habitar a Itália e a Europa. Em cada um deles devemos ser capazes de ver um irmão em Cristo, nosso Salvador. “A memória do Beato Antônio Etíope – escravo negro do século XVI, convertido ao Cristianismo, que viveu em Avola e Noto como exemplar e heroico testemunho evangélico, a ponto de ser venerado, hoje, no Brasil com um culto popular muito vívidofortalece a nossa consciência de estarmos envoltos em um plano equilibrado e abrangente de amor do Pai comum a toda humanidade.” (Mons. Nicolosi)
Em 2003 com os restos mortais do beato negro foi transferida para a Capela Franciscana da Imaculada em Suire de Lipari, Via Silvio Spaventa, 33.

(Mons. Salvatore Guastella)


Notas de rodapé
1. Dele eu publiquei dois livros: “FRATELLO NEGRO, Antonio di Noto, detto l’Etiope” (página 140). Noto 1991 e “LUI E NOI PER LORO. Fontes de arquivos e documentos em B. Antonio de Noto e Avola (1550), dito o etíope, ou ‘de Categerò’ “(página 240). Noto, 2000.
2. Sobre a escravidão doméstica na Sicília entre os séculos XV e XVI, Charles Verlinden oferece uma excelente visão em seu Ensaio Escravidão e Economia no sul no início da era moderna (Annali del Mezzogiorno, III, 1983, 11-18). Corrado Avolio, tratando da escravidão doméstica na Sicília no sec. XVI, observa que a longa existência desta ferida feia foi completamente esquecida pelos sicilianos, embora tenha sido um triste privilégio da ilha. No que concerne ao ilustre dialetólogo de Noto, a partir de registros de notários de Noto e dos cartões do mosteiro do Santíssimo Salvador, é possível perceber a presença de mais de 60 escravos.
3. Processo informativo diocesano, Noto 1550, teste n.9.
4. Antigamente, o domingo, “dia do Senhor”, tornara-se o dia da reconciliação no seio da comunidade dos irmãos na fé, e a data mais adequada e significativa para emancipar seus escravos oficialmente, restaurando-lhes a plena liberdade. Vamos imaginar que, deste modo, o escravo Antônio foi libertado no sinal da ágape eucarística. Não tinham os Giamblundo decidido “Não ter mais por escravo alguém que Deus tinha por amigo?”
5. “Custodem plácida immistum minoris ovilis Aethiopem, quamvis corpore mente servil ingênuo: quamvuis Totosi pice nigrior artus, ast animam nive Candidior, King comprobat ipsa, quam ditado verdadeiro, aethiopum æquo præibit manus. Múltiplas monstrabit miracula rerum, donec signipedum mandarit Templo corpus et ipsum não defraudandum Cultus venerationis honra “(Vincenvo Littara, Conradias, L. VIII, 296-303. Tradução Corrado Gallo).
6. De um Martirológio Franciscano, publicado em Paris, em 1653. A vida do nosso Antonio terciário também foi escrito por Antonio Daça, La vita e i miracoli di fratel Antonio de Categerò (l’Etiope) santo negro del T.O.F., reunidos a partir de três processos autênticos e de noventa testemunhos juramentados. Valadolid, 1611.

Bispo de Noto, 12 de junho de 1978. A partir da esquerda Don Ottavio Ruta, P. Alberto Morinimissionário St. Paulo, o bispo Dom Salvatore Nicolosi, Con. Noé Rodrigues paróquia de NossaSenora do Ó (S. Paulo) e Mons. Guastella. (No Brasil)