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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

SÃO PEDRO CRISÓLOGO, Bispo e Doutor da Igreja.


As palavras escritas de Pedro Crisólogo ecoaram com a força da doutrina e da fé sendo em um brado que nos apontou o céu aqui na terra

“Pedro das palavras de ouro”, assim era conhecido o santo que nasceu em Ímola na Itália, por volta do ano 380. Seus pais eram cristãos e desde cedo foi educado em sólida doutrina e fé católica, assistido por Cornélio, bispo de Ímola, que o batizou e ordenou diácono. O acompanhou também em sua caminhada a imperatriz romana Galla Plácida que fez de Pedro seu conselheiro e em 424 influenciou seu filho, o imperador Valentiniano III, a sagrá-lo Arquidiácono da cidade de Ravena.

Pedro desempenhou com zelo e fervor sua função eclesiástica que no ano de 433, foi indicado pelo imperador para ser consagrado bispo da diocese de Ravena. Assim aconteceu e o próprio Papa Xisto III consagrou Pedro. Conhecido como o “doutor das homilias”, Pedro escreveu cento e setenta e seis homilias explicando e aprofundando assuntos da doutrina católica, dogmas e catequeses, combatendo heresias e empreendendo com isso grande jornada de conversões e resgate de almas para a Igreja. A partir daí recebeu o nome de Chrysologus que quer dizer palavras de ouro, ficando conhecido como Pedro Crisólogo. Escreveu ainda uma série de homilias dedicada a São João Batista e à Virgem Maria.

 
Pedro teve determinante participação nos concílios de Éfeso e Calcedônia, nos quais combateu fortemente e venceu a heresia Monofisita de Eutiques. Este ainda teria recorrido a Pedro por conta de sua condenação e, em carta, São Pedro Crisólogo o advertiu severamente a abandonar a heresia e obedecer ao bispo de Roma.

Pedro Crisólogo faleceu em Ímola por volta do ano 450. Alguns historiadores apresentam datas diferentes para sua morte sendo a mais provável o dia 31 de julho. Em 1729 foi declarado Doutor da Igreja e em 1969 após o Concílio Vaticano II sua festa litúrgica foi fixada em 30 de julho.



Oração de São Pedro Crisólogo:

Dai-nos, Senhor Deus Altíssimo, a Graça de sermos sempre verdadeiros na defesa da verdadeira Doutrina, ensinada e sustentada pelo Magistério Romano, e pela intercessão de São Pedro Crisólogo, concedei-nos a Graça que ardentemente vos pedimos. São Pedro Crisólogo, rogai por nós.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

SÃO JOSÉ MARIA TOMASI, Cardeal e grande liturgista.



Primeiros anos
Tomasi nasceu em Licata, no Reino da Sicília, na época parte da Coroa de Aragão, filho de Giulio Tomasi, o primeiro príncipe de Lampedusa, e sua esposa, Rosalia Traina. Sua vida foi orientada a Deus desde muito cedo. Formado e educado em casa, onde nunca sentiu falta de riquezas e nem de uma educação moral. Seus pais se preocupavam muito com sua formação cristã e com sua educação, especialmente no aprendizado das línguas antigas e modernas, especialmente a espanhola, pois queriam que ele fosse para a corte real em Madri depois que herdasse o título de seu pai, de Grande da Espanha.

Mas o próprio Tomasi tinha outros planos e, desde muito jovem, não desejava nada para si além de servir a Deus. Ele cultivou esse desejo piedoso em seu coração até conseguir autorização de seu pai para seguir sua vocação religiosa.

Depois renunciar formalmente ao principado de seu pai, seu por direito de nascença, em favor de seu irmão mais novo e também de sua enorme herança, Tomasi foi admitido entre os padres Teatinos (Clérigos Regulares), uma ordem religiosa fundada por São Caetano em 1524 como um movimento reformador da Igreja Católica e lembrando pela vida simples levada por seus membros. Ele se juntou à ordem em 24 de março de 1665 e finalmente realizou sua profissão religiosa na casa teatina de São José, em Palermo, em 25 de março de 1666.

Tomasi então estudou filosofia, primeiro em Messina e, depois, por conta de sua saúde debilitada, em Ferrara e Modena; e teologia em Roma e em Palermo. Foi ordenado sacerdote no Natal de 1673. Para ampliar seu conhecimento do grego, estudou também o etíope, árabe, siríaco, caldeu e hebraico — convertendo seu professor, um rabino judeu, ao cristianismo. Ele estudava comparando os títulos dos salmos nos diversos saltérios em várias línguas e se dedicava aos originais das Escrituras e de textos patrísticos. Em suas pesquisas, vasculhou bibliotecas, arquivos e monumentos para recriar a história da liturgia e da disciplina eclesiástica.

Principalmente por causa de seu grande amor aos documentos antigos da igreja e às tradições eclesiásticas, Tomasi considerava que uma boa parte de seu próprio crescimento espiritual estava em dedicar-se, de corpo e alma, à publicação de livros litúrgicos raros e antigos textos litúrgicos, revelando, desta forma, muitos textos antigos que ainda permaneciam perdidos em bibliotecas.


Reformador
Os esforços reformadores de Tomasi eram direcionados não à introdução do novo, mas à restauração e manutenção do antigo, o que lhe valeu algumas críticas e refutações. O papa Inocêncio XII fez dele um examinador de futuros bispos e do clero. O papa Clemente XI, a quem ele serviu como confessor, nomeou-o consultor da Ordem dos Teatinos, teólogo da Sagrada Congregação para Consultas sobre Regrantes e outros cargos da Santa Sé, consultor da Sagrada Congregação dos Ritos e qualificador do Santo Ofício. O mesmo papa criou-o cardeal-presbítero, com o título de Santos Silvestre e Martinho nos Montes, ordenando que ele aceitasse a homenagem.

Tomasi ensinou catequese para crianças pobres de sua igreja titular, Santi Silvestro e Martino ai Monti, introduzindo aos seus paroquianos o canto gregoriano.


Obras
As muitas publicações de Tomasi sobre temas litúrgicos, nas quais ele unia sua piedade e sua erudição, lhe valeram os títulos de "Príncipe dos Liturgistas Romanos" e "Doutor Litúrgico". Não são poucas as normas que, estabelecidas pela autoridade dos papas e pelos documentos do Concílio Vaticano II, vigentes ainda hoje, foram propostas e ardentemente desejadas por Tomasi, entre elas:

1.     A forma atual da Liturgia das Horas.
2.     A distinção e o uso do missal e do lecionário na celebração da Eucaristia.
3.     Várias normas do Pontifical Romano e no Ritual Romano.
4.     O uso do vernáculo ao invés do latim, que ele recomendava apenas para devoções privadas.
Seu objetivo era sempre promover uma participação mais pessoal e íntima do povo na celebração da liturgia .

As obras de Tomasi (em latim: Codici Tommasiani), publicada principalmente com base nos antigos códices nas bibliotecas do Vaticano e vallicelliana, além da biblioteca de Cristina da Suécia, foram elogiadas pelas academias de toda a Europa. A mais importante é o "Codices sacramentorum nongentis annis antiquiores" (Roma, 1680), parcialmente transcrita por Mabillon em sua "Liturgia Gallicana". Depois, os "Salterium" (Rouse, 1683), com edições romanas e gálias, publicadas com o nome de Giuseppe Maria Caro (ou J. M. Carus), na qual Tomasi reintroduziu os símbolos tipográficos de Orígenes, o obelisco e o asterisco, esquecidos havia nove séculos.

Sob o mesmo nome, Tomasi escreveu "Responsalia et Antiphonaria Rom. Eccl." (Roma, 1686); "Sacrorum Bibliorum Tituli, sive capitula" (Roma, 1688); "Antiqui libri Missarum Rom. Eccl." ("Antifonário de Papa São Gregório I"), intitulado "Comes", escrito por Alcuíno por ordem de Carlos Magno (Roma, 1691); "Officium Domicinae Passionis", utilizado pela Igreja Ortodoxa Grega na Sexta-Feira Santa, traduzido para o latim (Roma, 1695).

Com o seu próprio nome, publicou "Speculum" (Roma, 1679); "Exercitium Fidei, Spei et Caritatis" (Roma, 1683); "Breviarium psalterii" (Roma, 1683); Vera norma di glorificar Dio (Roma, 1687); "Fermentum" (Roma, 1688); "Psalterium cum canticis" (Roma, 1697); "Indiculus institutionum theologicarum veterurn Patrum" (3 vols., Roma, 1709, 1710; 1712), uma exposição da teoria e prática teológica derivada de antigas fontes patrísticas.

Tomasi também escreveu diversas obras menores, as quatro últimas publicadas por G. Mercati (Roma, 1905). Em 1753, Antonio Francesco Vezzosi publicou suas obras em onze volumes.

Santa morte
Tanta sabedoria estava intimamente ligada a uma grande santidade de vida, de cuja fama já gozava em vida. Era modelar sua vida e era muito estimado pelo clero romano e, inclusive, por não católicos, devido à sua humildade e afabilidade. Infelizmente, tamanho esplendor de bons exemplos e de virtudes brilhou por pouco tempo. Não haviam se cumprido 08 meses de seu cardinalato quando, depois de ter participado na Capela Papal da Vigília de Natal na Basílica Vaticana, foi atacado por violenta pneumonia. Expirou santamente em sua residência, no palácio Passarini, na via Panisperna, no dia 01 de janeiro de 1713. Sua morte foi sentida e lamentada por todos e, especialmente, pelo papa Clemente, que admirava tanto sua santidade que havia se aconselhado com ele antes de assumir o papado. Foi enterrado em sua igreja.

Foi beatificado pelo Papa Pio VII em 1803 e canonizado por São João Paulo II em 1985. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Beata Maria Repetto, Virgem e Religiosa.



Maria Madalena Paregrina Repetto nasceu em Voltaggio, na província de Alexandria, diocese de Gênova, em 31 de outubro de 1809. Era a filha mais velha do notário João Batista Repetto e de Teresa Gazzale, que tinham dez filhos. Ela foi batizada no mesmo dia com o nome da Santíssima Virgem. Como a mais velha, logo teve que ajudar sua mãe no cuidado dos irmãos e nas tarefas domésticas. Era uma família profundamente religiosa de modo que quatro irmãs e um irmão consagraram-se a Nosso Senhor.
     O dia da Primeira Comunhão, que ela fez quando tinha dez anos, imprimiu em seu coração o desejo de viver o resto de sua vida em união com Jesus. Maria frequentou a escola por alguns anos, mantendo vivo o interesse pela leitura, especialmente hagiografias. É muito provável que ela aprendeu com seu pai, que tinha certa cultura, enquanto sua mãe lhe ensinou a bordar. A serenidade da família foi perturbada quando Maria tinha treze anos, devido à morte prematura de dois irmãos.
     A condição social dos Repetto era certamente melhor do que da maioria dos habitantes de Voltaggio uma região essencialmente agrícola. Dirigidas por sua mãe, Maria, e sua irmã Josefina visitavam as famílias mais necessitadas da região, fazendo pequenas doações ou trabalhos domésticos. Às vezes elas levavam para casa roupas para lavar ou consertar (um compromisso não leve para duas meninas). A fé realmente iluminava cada passo seu, e ela amadurecia lentamente no coração o desejo da consagração religiosa. Aos 20 anos, quando sua cooperação em casa podia ser dispensada, Maria comunicou seu desejo aos pais.
     Em 7 de maio de 1829, Maria entrou no Conservatório de Nossa Senhora do Refúgio no Monte Calvário, de Gênova. Este Instituto havia sido fundado em Gênova dois séculos antes por Santa Virginia Bracelli Centurione. Estas religiosas são chamadas de "Brignoline" do nome do nobre Emanuel Brignole, que lhes deu o local da primeira Casa Mãe.
     O dote que seu pai lhe deu foi suficiente para mantê-la por toda vida, além de uma soma que, com a permissão da superiora, ela poderia dar para instituições de caridade. Devido suas habilidades e sua instrução foi admitida como religiosa do coro e não como uma auxiliar. Ela pode viver a sua vocação na obscuridade total. No dia da Assunção do ano 1831 fez os votos privados de pobreza, castidade e obediência.
     De caráter simples e alegre, sua calma era edificante. Na oficina de bordado passava seus dias trabalhando e rezando. A oficina garantia importante renda para a casa e para Irmã Maria significava imitar seu patrono e mestre de vida São José, que com o trabalho de carpinteiro provia a subsistência da Sagrada Família. Maria tinha uma confiança ilimitada em São José.
     Em 1835, uma epidemia de cólera eclodiu em Gênova: o desejo de servir a Cristo no doente que sofria fez Irmã Maria vencer sua própria reserva. Com outras Irmãs ela dedicou-se com abnegação e amor. Seu compromisso foi tão grande que começaram a chamá-la de "monja santa". E pensar que por sua pequena estatura e sua humildade era muito difícil ser notada. Cessada a emergência, voltou para a oficina.
     Vinte anos mais tarde, outra epidemia de cólera atingiu a cidade (foi o verão de 1854) e Irmã Maria de novo deu tudo de si mesma como voluntária. As pessoas agora a consideravam uma criatura eleita. Posteriormente, por causa do enfraquecimento da vista, foi-lhe dado o trabalho de porteira. Uma tarefa aparentemente simples, mas fundamental para uma comunidade, uma vez que representa o principal contato com o exterior.
     Eram muitos os que batiam na porta do convento para mendigar ou para receber uma palavra de conforto e Irmã Maria era atenciosa e carinhosa com as necessidades de todos; para cada um tinha uma palavra. Foi nesta missão que se tornou proverbial sua devoção a São José. Ela recomendava a ele todos os doentes. No corredor, ao lado da recepção, havia uma imagem do santo e ela, quando eles pediam graças especiais, se apressava em ir pedir-lhe e implorar.
     Alguns episódios de sua vida são autênticos "fioretti". O grau de oração era muito intenso, gostava de meditar todos os dias as Estações da Via Sacra. Sua serenidade e seu sorriso encantavam; também tinha uma grande sensibilidade pelas vocações. Um dia Irmã Emanuela perguntou-lhe quando a reverenciada fundadora, Virginia Centurione, seria elevada a honra dos altares. Irmã Maria candidamente respondeu que isto iria ocorrer precedida porém por sua "filha". Ela não sabia que aludia a si mesma: Santa Virginia foi beatificada quatro anos após a Irmã Maria (mais tarde também foi canonizada).
     Em 1868 a comunidade teve que deixar o convento para dar lugar à construção da nova estação ferroviária de Brignole. A nova casa foi construída em Marassi e aqui Irmã Maria foi novamente nomeada porteira. Naqueles anos, em Gênova outro homem de Deus ajudava os necessitados: o capuchinho São Francisco Maria de Camporosso (1804-1866). Os dois nunca se encontraram, mas estavam "misteriosamente" em contato por meio de seus assistidos.

     Maria viveu toda sua vida em uma pobreza tal, que ela preferia usar as roupas usadas das Irmãs, que acomodava à suas medidas diminutas. No entanto, muito dinheiro passou por suas mãos: recebia dos ricos e com alegria dava aos pobres.

domingo, 17 de janeiro de 2016

SÃO PEDRO TOMÁS, Bispo carmelitano. Memória em 08 de janeiro.



Nasceu, segundo registros antigos, em Salimaso de Thomas, diocese de Sarlat; outros creem que talvez tenha sido em Lebreil, parte do município de Salas de Belvés (Dordonya). Seu pai era agricultor; empenhou-se a estudar em Monpazier, vivendo da caridade e ensinando aos outros mais jovens. Foi a Agen e voltou a Monpazier em 1325. Atraído pela Ordem do Carmelo, estudou um ano em Leitora e, aos 21 anos de idade, ingressou na Ordem, fazendo o noviciado em Cordom ou Bergerac.
Professou em Bergerac e estudou dois anos, passando depois a Agen e Bordeus. Ensinou lógica e filosofia em Albi. Também deu aulas em Paris. Voltou à Aquitânia em 1345, quando foi eleito procurador-geral da Ordem; depois de acabar os estudos de teologia em Paris, onde obteve o grau de mestre em 1348, foi à corte do Papa Clemente VI, em Avinhão, e fez a oração fúnebre em seu funeral.


Atividade diplomática como conciliador de conflitos e representante do Santo Padre.
Conhecido por sua habilidade diplomática e sua oratória, ajudou os Papas seguintes como seu representante, intentando resolver conflitos entre reis cristãos, a unificação das Igrejas Católica e Ortodoxa e a união para combaterem contra os muçulmanos.
Foi delegado papal em negociações com Gênova (1352, para conseguir a paz com Veneza), Milão e Veneza. Em 1354, foi nomeado bispo de Patti e Lipari e representou o papa na coroação de Carlos IV de Luxemburgo. Em Serbia, em 1356, intentou acalmar o conflito entre Veneza e Hungria.
Entre 1357 e 1359, foi enviado a Constantinopla, onde recebeu o apoio de nobres e do próprio João V Paleólogo para a unificação das Igrejas Católica e Ortodoxa. Foi a Chipre e empreendeu uma peregrinação à Terra Santa, voltando depois à Sicília e Chipre. Em 1359, foi enviado com as tropas como Delegado Universal à Igreja do Oriente e bispo de Corinto, com a mesma missão de combater os turcos, aliado com Veneza, Chipre e os cavaleiros da Ordem de Malta. Em Chipre, coroou Pedro I de Chipre como rei de Jerusalém.
Concebe a ideia de uma nova cruzada e marcha para pedir ajuda ao Ocidente, aproveitando para pôr paz em um conflito entre Milão e Roma. Em 1363 foi nomeado arcebispo de Creta e, em maio de 1364, Patriarca Latino de Constantinopla (era um título simbólico, sem jurisdição real) e legado papal de Urbano V, sucedendo ao cardeal Talleyrand. Nesse mesmo ano, foi cofundador da Faculdade de Teologia da Universidade de Bolonha. Preocupou-se em consolidar a paz entre os reis cristãos e em trabalhar pela união das Igrejas, convertendo-se em um precursor do ecumenismo. Entre suas missões diplomáticas, levou uma vida austera e modelar, preocupado pela evangelização dos povos e pela caridade para com os mais necessitados.

Apesar dos altos cargos que exerceu, nas suas viagens Frei Pedro Tomás procurava sempre, como residência, os conventos dos seus irmãos carmelitas, vivendo ali como irmão e com os irmãos de Nossa Senhora do Carmo a vida normal da comunidade, segundo a Regra.
Com Pedro I de Chipre, participou da cruzada contra Alexandria em outubro de 1365, que foi tomada, porém, imediatamente abandonada, por medo de um contra-ataque turco. A tradição diz que, em um dos ataques das tropas cristãs, o bispo foi ferido com uma flecha e morreu em Chipre três meses depois, em 6 de janeiro de 1366. Por isso era tido como “mártir”.

Na realidade, voltou a Famagusta são e salvo, porém, enquanto preparava uma viagem até Roma, enfermo “de um catarro” e muito magro (“reduzido a pele e ossos”, conforme relatos da época), morreu em um convento carmelita de sua cidade no dia 6 de janeiro de 1366. Apesar de ser bispo, pediu que o levassem para sua última morada vestido com o hábito da Ordem.

Devoção a Nossa Senhora
Era muito devoto de Nossa Senhora. Amou tanto Nossa Senhora que parece que trazia no coração o seu nome. Foi um dos mais ardorosos defensores da Imaculada Conceição de Maria Santíssima. A ele se atribui o tratado “De Immaculata Conceptionis” em quatro volumes de sermões. É dele a profecia inspirada pela Virgem Maria de que a Ordem do Carmo durará até o fim dos tempos.


Veneração
Rapidamente começaram os relatos de milagres em seu túmulo, no convento carmelita de Famagusta. Fala-se também de uma claridade que envolvia seu cadáver exposto ao público em seu funeral.

Em maio de 1366, quatro meses após sua morte, descobriu-se que seu corpo ainda estava incorrupto e Pedro de Chipre pediu sua canonização a Urbano V. O Papa proibiu o translado do corpo do santo bispo durante dez anos, ainda que este houvesse pedido que seu corpo fosse transladado para Bergerac. Pouco depois, Philippe de Mézières escreveu sua vida, base de sua posterior hagiografia.

Os seus esforços pela promoção e consolidação da unidade da Igreja Oriental fazem deste santo do séc. XIV, um precursor do ecumenismo e um verdadeiro “apóstolo da unidade da Igreja”.

A conquista turca de Chipre em 1571 e o terremoto de 1753 acabaram com o rastro do santo em Chipre. Em 1609, a Santa Sé autorizou a festividade de Pedro Tomás entre os carmelitas, que foi confirmada por Urbano VIII em 1628; formalmente não foi canonizado. Em Lebreil, ergueu-se uma capela sobre a casa em que se crê que nasceu, porém foi derrubada durante a Revolução Francesa. Foi restaurada em 1895 como santuário em sua memória.

sábado, 16 de janeiro de 2016

SÃO JERÔNIMO e sua resposta a um inimigo da veneração às relíquias dos Santos.


É “idolatria” honrar as relíquias dos mártires? Por que os católicos veneram os restos mortais dos santos? Confira a resposta contundente de São Jerônimo a um herege de sua época e descubra qual a verdadeira doutrina católica sobre as santas relíquias. Na resposta de São Jerônimo vemos que, às vezes, é necessário que usemos de sabedoria, mas, também de veemência, quando defendemos a doutrina da fé. 

Estamos no século V. Ainda não há eletricidade, ainda não se sabe da existência da América, ainda não se conhecem as universidades. Entretanto, o ser humano já possui um conhecimento muito maior e mais extraordinário que qualquer outro: "Verbum caro factum est – O Verbo se fez carne" (Jo 1, 14). Já há Igreja Católica, já existem Papa e bispos, sem falar de uma multidão de fiéis que, atraída pela verdade do Evangelho, segue a doutrina de Cristo e obedece aos legítimos pastores da Igreja [1].


Neste tempo, vale lembrar, ainda não há protestantismo. Ainda não há Lutero, não há Calvino, e nem sequer os iconoclastas começaram a quebrar imagens no Império Bizantino. Mesmo assim, uma questão perturba a mente de algumas pessoas: refere-se às "relíquias" dos santos. O termo relíquia vem do latim e significa "restos". O que acontece é que os restos mortais dos mártires – homens e mulheres que confessaram publicamente a sua fé em Jesus, até o ponto de morrerem por isso – são recolhidos pelo povo cristão e venerados publicamente na Igreja. Ossos e outros objetos ligados a eles são depositados em lugares sagrados, reverenciados e honrados como se as almas santas que animaram aqueles instrumentos ainda estivessem ali, vivas entre eles.

A pergunta que alguns fazem – e que os reformadores protestantes repetirão um milênio depois – é se a veneração daquelas relíquias não estaria desviando o foco de Cristo ou, para ser mais direto, não acabava constituindo uma espécie de "idolatria" ou "superstição" pagã. Afinal, tamanho apego a coisas materiais não seria uma ofensa à doutrina essencialmente espiritual ensinada por Jesus?

Cabe esclarecer que não são muitas as pessoas a fazer esse tipo de questionamento. De fato, a grande massa de cristãos não tem dúvidas a respeito da importância de custodiar e honrar os restos mortais dos santos. Uma epístola circular do martírio de São Policarpo de Esmirna, por exemplo, atesta que os ossos dos mártires são tidos pelos cristãos como "mais preciosos que as pedras de valor e mais estimados que o ouro puro" [2]. Isso ainda no século II, muito antes de Constantino conceder a liberdade de culto aos cristãos! Desde aqueles anos, a prática de venerar as relíquias dos mártires não pára de crescer, com a mesma rapidez que o Evangelho se vai impregnando nas mentes e nos corações dos homens.

São poucos os que contestam o culto das relíquias, mas o posto dos que coçam a cabeça não permite que sejam ignorados. – Há um presbítero falando mal das santas relíquias, e isso pode causar dano às almas! – Foi o que pensou São Jerônimo, ao levantar-se contra o herege Vigilâncio de Aquitânia, um clérigo que, entre muitos erros, defendia o fim do culto às relíquias e das vigílias nas basílicas dos mártires.
A resposta de Jerônimo a Vigilâncio – condensada em uma de suas epístolas [3] – é dura e incisiva, e pode até mesmo chocar os ouvidos mais frágeis. Poucos textos, porém, são tão claros e contundentes na exposição da doutrina católica a respeito da veneração aos santos.


Carta 109 (53) "Acceptis primum", a Ripário, presbítero de Aquitânia, c. ano 404
Informado de que Vigilâncio condenava tanto a veneração às relíquias dos mártires quanto as vigílias feitas diante de seus sepulcros, São Jerônimo como que trava combate nesta carta e se declara disposto a refutar estes erros, caso Ripário, seu destinatário, lhe envie os escritos de Vigilâncio.

1. Tendo recebido tuas cartas, ó Ripário, julgo que não as responder seria arrogância; e respondê-las, ao contrário, seria temeridade. Com efeito, as coisas que me perguntas não podem nem ouvir-se nem contar-se sem sacrilégio. Dizes, pois, que este tal Vigilâncio, a quem eu, com mais propriedade, chamaria “Dormitâncio” [4], voltou a abrir a boca suja para exalar contra as relíquias dos santos mártires o seu terrível mau cheiro: julgando-nos adoradores de ossos, ele nos chama cinerários [5] e idólatras. Oh! homem infeliz e digno de pena, que, ao dizer tais coisas, não percebe ser mais um samaritano e judeu, os quais, preferindo a letra que mata ao Espírito, que dá vida (cf. 2Cor 3, 6), consideram impuros não só os cadáveres, mas inclusive a mobília de suas casas.


Nós, ao contrário, recusamo-nos a adorar, não digo nem as relíquias dos mártires, mas nem sequer o sol, a lua ou os anjos, sejam arcanjos, querubins ou serafins, nem nenhum nome que possa haver quer neste mundo, quer no futuro (cf. Ef 1, 21), pois não podemos servir mais às criaturas do que ao Criador, que é bendito pelos séculos (cf. Rm 1, 25). Veneramos, todavia, as relíquias dos mártires, a fim de adorarmos Aquele de quem eles são mártires; honramos, sim, os servos, para que a honra prestada a eles recaia sobre o seu Senhor, que diz: "Quem vos recebe, a Mim recebe" (Mt 10, 40). São, portanto, impuras as relíquias de Pedro e Paulo? Quer dizer então que o corpo de Moisés, sepultado, como lemos, pelo próprio Senhor (cf. Dt 34, 6), não passa de imundície? Sendo assim, todas as vezes que entramos nas basílicas dos apóstolos e profetas, como também nas de todos os mártires, são ídolos o que ali veneramos? As velas acesas diante de seus túmulos são, enfim, sinais de idolatria? Farei uma só pergunta mais, que há de ou curar ou ensandecer de vez a cabeça insana deste autor, a fim de que as almas simples não se percam por causa de tamanhos sacrilégios. Acaso era imundo também o corpo do Senhor enquanto esteve no sepulcro? Os anjos, portanto, com vestes resplandecentes, vigiavam aquele cadáver "sórdido" para que, séculos mais tardes, o delirante Dormitâncio vomitasse esta porquice e, assim como o perseguidor Juliano, destruísse nossas igrejas, ou mesmo as convertesse em templos pagãos?

Relíquias dos Santos Mártires de Arjona

Relíquias do mártir São Valentim



2. Surpreende-me que o santo bispo em cuja paróquia, pelo que dizem, Vigilâncio é presbítero, concorde com esta loucura e nem com disciplina apostólica nem com disciplina férrea corrija esse vaso inútil "para a mortificação do seu corpo, a fim de que a sua alma seja salva" (1Cor 5, 5). Ele deveria lembrar-se do que dizem os Salmos: "Se vês um ladrão, te ajuntas a ele, e com adúlteros te associas" (Sl 49, 18); e noutra passagem: "Todos os dias extirparei da terra os ímpios, banindo da cidade do Senhor os que praticam o mal" (Sl 100, 8). E ainda: "Pois não hei de odiar, Senhor, os que vos odeiam? Os que se levantam contra vós, não hei de abominá-los? Eu os odeio com ódio mortal" (Sl 138, 21-22). Ora, se não se devem honrar as relíquias dos mártires, como então lemos: "Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos" (Sl 115, 6 [15])? Se, pois, os ossos dos defuntos tornam impuros os que os tocam, como o cadáver de Eliseu, que, segundo Vigilâncio, jazia imundo na sepultura, pôde trazer à vida outro corpo morto (cf. 2Rs 13, 21)? Logo, foram impuros todos os arraiais do exército de Israel e o próprio povo de Deus, já que, levando consigo pelo deserto os corpos de José e dos patriarcas, trouxeram à Terra Santa as cinzas dos mortos? Também José, deste modo, foi profanado, ele que, com grande pompa e cortejo, partira com a ossada de Jacó em direção a Hebron, unicamente para reunir os restos imundos de seus parentes, juntando um morto aos outros? Oh! deveriam os médicos cortar esta língua e pôr sob tratamento esta insanidade. Se ele [sc. Vigilâncio] não sabe falar, que aprenda ao menos a calar-se. Eu mesmo já tive ocasião de ver outrora este monstro e, servindo-me dos textos da Escritura como das amarras de Hipócrates, tentei conter o seu furor; mas ele, tomando o seu partido, preferiu fugir e refugiar-se entre as vagas do Adriático e os Alpes do rei Cócio [i. e. Alpes Cócios], donde pôde desfazer-se em injúrias contra nós. De fato, tudo quanto um tolo diz não é senão vociferação e barulho.

3. Tu talvez me repreendas em teu íntimo por haver-me dirigido nestes termos a quem não está presente para defender-se. Devo, contudo, confessar-te a minha dor. Não posso ouvir pacientemente tal sacrilégio. Eu li, pois, sobre a lança de Finéias (cf. Nm 25, 7); sobre a austeridade de Elias (cf. 1Rs 18, 40); sobre o zelo de Simão Cananeu; sobre a severidade de Pedro, cujas palavras prostraram a Ananias e Safira (cf. At 5, 5); sobre, enfim, a constância de Paulo, punindo com cegueira perpétua a Elimás, o Mago, que se opunha às vias do Senhor (cf. At 13, 8-11). Não há crueldade no ser temente a Deus. De fato, na própria Lei se diz: "Se o teu irmão, ou um teu amigo, ou a tua esposa te quiserem desviar da verdade, esteja a tua mão sobre eles, e tu lhes derramará o sangue, e tirarás o mal de Israel" (cf. Dt 13, 6-9). Pois bem, ó Vigilâncio, são imundas as relíquias dos mártires? Por que então trataram os Apóstolos de enterrar com grande dignidade o corpo "imundo" de Estevão? Por que fizeram a seu respeito um grande pranto (cf. At 8, 2), a fim de que a sua lamentação se tornasse a nossa alegria? Ora, não fosse isso o bastante, tu [sc. Ripário] também me dizes que ele despreza as vigílias. E vai nisto contra o próprio nome, como se Vigilâncio quisesse antes dormir do que ouvir o Senhor, que diz: "Então não pudestes vigiar uma hora comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26, 40-41). E noutra passagem canta o profeta: "Em meio à noite levanto-me para vos louvar pelos vossos decretos cheios de justiça" (Sl 118, 62). Lemos também no Evangelho que o Senhor passava as noites orando a Deus (cf. Lc 6, 12) e que os Apóstolos, quando eram mantidos sob custódia, costumavam vigiar e entoar salmos a noite inteira, para que a terra estremecesse, o carcereiro se convertesse, o magistrado e a cidade se enchessem de horror (cf. At 16, 25-38). Paulo diz: "Sede perseverantes, sede vigilantes na oração" (Col 4, 2) e, noutro lugar, em "vigílias repetidas" (2Cor 11, 27). Que Vigilâncio durma, então, se assim lhe aprouver, e seja sufocado com os egípcios pelo exterminador do Egito (cf. Ex 11, 4-6). Nós, porém, digamos com Davi: "Não, não há de dormir, não há de adormecer o guarda de Israel" (Sl 120, 4), para que venha a nós o Santo Velador (cf. Dn 4, 10) [6]. Mas se porventura, devido aos nossos pecados, Ele adormecer, enquanto nossa barca se enche d'água, despertêmo-lO: "Levanta-Te, Senhor, como dormes?" e clamemos: "Senhor, salva-nos, nós perecemos" (Mt 8, 25).

4. Quisera eu poder escrever-te mais coisas, ó Ripário! Os limites de uma simples carta, porém, impõe-nos a modéstia do silêncio. De resto, tivesses tu nos enviado os livros de suas cantilenas, saberíamos em detalhe a que objeções poderíamos responder. Por ora, apenas golpeamos o ar (cf. 1Cor 9, 26) e demos a conhecer não tanto a infidelidade dele, que é manifesta a todos, quanto a nossa própria fé. Mas se desejares que discorramos com mais vagar a este respeito, envia-nos as suas lamúrias e tolices, para que afinal dê ouvidos à pregação de João Batista: "O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo" (Mt 3, 10).



Referências
Cf. Catecismo de S. Pio X, n. 3: "Verdadeiro cristão é aquele que é batizado, crê e professa a doutrina cristã e obedece aos legítimos Pastores da Igreja."
De Martyrio Sancti Polycarpi, 18 (PG 5, 1043).
O original dessa epístola de São Jerônimo a Ripário está no volume 22 da Patrologia Latina, 906-909.
Um sarcástico jogo de palavras: Vigilâncio (Vigilantius), isto é, "aquele que está desperto"; Dormitâncio (Dormitantius), ou "o que dorme".
Assim eram pejorativamente chamados os cristãos dos primeiros séculos, por venerarem as cinzas e as relíquias de santos e mártires.

No original, lê-se: "[...] ut ad nos veniat et air, qui interpretatur vigil." Pode tratar-se de uma referência ao Espírito Santo. Os trechos precedente e seguinte, no entanto, dão a entender que é realmente de Nosso Senhor Jesus Cristo que São Jerônimo fala.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

SÃO DAMIÃO DE VEUSTER (ou de Molokai), Presbítero e Missionário entre os leprosos.


Com a presença do Rei Alberto II da Bélgica e de sua esposa, a rainha Paola Ruffo de Calábria, o Santo Padre Bento XVI canonizou o Pe. Damião de Veuster (ou de Molokai), Apóstolo dos Leprosos.
Nascido em Flandres, na Bélgica, o Pe. Damião abraçou a vida religiosa, tendo se radicado no Havaí onde, cumprindo a missão que lhe foi designada por seus superiores, exerceu frutífero ministério em uma colônia de leprosos, tornando-se também um deles.

"Adeus, mamãe; até o céu": tais foram as palavras de despedida do jovem religioso Damião de Veuster, ao aproveitar um transporte que inesperadamente surgiu no caminho que trilhava a pé após fazer uma peregrinação ao santuário mariano de Montaigu acompanhado de sua mãe e de uma cunhada. Era o início de sua viagem sem retorno para o longínquo Reino do Havaí.

Na verdade, quem deveria ir para o Havaí em missão religiosa era seu irmão mais velho Panfílio, que o precedeu ingressando na Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e da Adoração ao Santíssimo Sacramento do Altar. A viagem de Panfílio fora cancelada por motivo de doença e assim Damião, que almejava ser missionário, aproveitou-se disso e pediu ao superior que o permitisse partir como substituto.


Nascimento, infância e adolescência

Seu nome de nascença era Jozef (carinhosamente reduzido para Jef, na intimidade), tendo vindo ao mundo em 03 de janeiro de 1840, em Tremelo, na região flamenga da Bélgica. Batizado no mesmo dia em que nasceu, era o penúltimo de uma série de oito filhos do casal Jan Frans e Catherine, que trabalhavam na área rural. A feliz família - da qual alguns membros demonstraram vocação religiosa - guardava respeitosamente os domingos e dias santos, nos quais nem mesmo a costura era permitida: missa pela manhã, vésperas à tarde, e também descanso e recolhimento. Às refeições a oração era conduzida pela zelosa mãe, em latim.

A vocação religiosa pouco a pouco desabrochava no pequeno Jef. Certa vez ele e seus irmãos Paulina e Augusto resolveram passar um dia inteiro em oração e penitência na solidão de um bosque, como anacoretas (nem mesmo lançaram mão do lanche que haviam levado). Mas foi na adolescência que o chamado tornou-se cada vez mais forte, apesar da vontade contrária de seus pais, a quem chegou a dizer: "deixem-me entrar no convento, ou Deus os castigará".


Recebe o hábito da Congregação dos Sagrados Corações

Aos dezoito anos a vocação religiosa já estava profundamente enraizada na sua alma. Em janeiro de 1859, acompanhando o pai em uma visita a seu irmão Augusto (que já ingressara na Congregação dos Sagrados Corações), em Louvain, foi deixado por algumas horas no convento enquanto o Sr. Franz tratava de outros assuntos na cidade, mas quando este passou pela casa religiosa para buscá-lo, Jozef pediu para ficar, pois isso evitaria a dor das despedidas no lar: a permissão foi então dada pelo pai, que já pressentia que isso iria acontecer. Em menos de dois meses recebeu o hábito religioso, passando a chamar-se Damião, iniciando assim o noviciado (que na ocasião se estendia por 18 meses). Logo demonstrou grande habilidade no aprendizado do latim (a se ressaltar: ele já houvera sido recusado em um seminário ao qual se dirigiu por sua própria iniciativa, sob alegação de ser rude e de desconhecer outros idiomas além do flamengo, sua língua natal).

Vivendo em ambiente religioso, surgiu em Damião a vocação para missionário, e passou ele a rezar diariamente nessa intenção junto à figura de São Francisco Xavier, apóstolo da Índia, pintada em uma janela. Posteriormente, quando ordenado presbítero, passou a usar as palavras "sacerdote missionário" após sua assinatura, hábito que manteve por toda a vida, assim definindo-se.


Os Sagrados Corações Protagonista de um simbólico funeral

Findo o noviciado, era o momento dos solenes votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência. A cerimônia deu-se em 7 de outubro de 1860, na Casa principal da Congregação na Rua de Picpus, em Paris (endereço do qual os religiosos herdaram uma de suas designações populares: "padres de Picpus"). Após ouvir as palavras dirigidas pelo superior, Damião renunciou a qualquer propriedade pessoal, à constituição de família carnal, e aos seus destinos, com as seguintes palavras: "eu, Damião, seguindo as constituições, estatutos e regras aprovados e confirmados pela Santa Sé Apostólica, faço para sempre, entre vossas mãos, meu reverendíssimo Pai, voto de pobreza, de castidade e de obediência como irmão da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, ao serviço dos quais quero viver e morrer. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém". Teve então estendido sobre si um tecido mortuário sustentado por quatro religiosos professos, enquanto outros quatro portavam velas acesas caracterizando aquele momento como um enterro: era cantado o hino fúnebre Miserere, feita a aspersão do "defunto" com água benta, enquanto em voz baixa era recitado o Pai Nosso e algumas outras preces, ao fim das quais aquela "morte" era selada com a oração: "Deus eterno e todo poderoso, que ordenais que, mortos para o mundo, vivamos em Cristo, conduzi vossos servidores pelo caminho da salvação eterna; que suas vidas sejam escondidas em Cristo para que, recebendo-O de Vós, desejem o que Vos agrade e o cumpram com todas as suas forças", o que se seguia do alegre cântico do Te Deum, solene hino de ação de graças.


Mudança de rumo: sacerdote missionário no longínquo oriente

Ao contrário do irmão mais velho Panfílio, Damião não tinha inicialmente esperança de se tornar sacerdote: seus estudos secundários se reduziam a poucos meses, e só lhe sobravam duas opções: irmão converso e irmão de coro. Os irmãos conversos podiam partir em missões, sendo geralmente destinados a construções de capelas ou residências para os missionários, e os irmãos de coro atuavam como encarregados da capela e da sacristia do convento, e por vezes ajudavam em algumas atividades nas escolas da congregação. Mas os superiores perceberam ser Damião intelectualmente dotado, e assim o permitiram preparar-se para o sacerdócio, tendo cursado um ano de filosofia em Paris, quando também estudou latim e grego além de aprimorar o idioma francês; depois foi enviado de volta a Louvain, na Bélgica, para estudar teologia, o que fez por dois anos.

A dor pela doença que acometeu seu irmão Panfílio, destinado inicialmente a ser missionário no Havaí, logo se transformou para Damião em alegria, pois teve resposta afirmativa ao pedido de permissão para substituí-lo na feliz viagem que não conheceria retorno: após cinco meses singrando os mares, desembarcou o jovem religioso em Honolulu, capital do que então era um reino. O grupo era formado por um sacerdote, três clérigos, dois irmãos conversos, e dez irmãs. As irmãs ocupavam um compartimento ao lado do que foi destinado aos religiosos do sexo masculino, mas nenhuma comunicação era feita entre eles a não ser por intermédio do superior que os acompanhava, o Pe. Chrétien, detalhe que Damião fez questão de inserir em carta remetida aos pais durante a viagem.

Dormindo em beliches, os religiosos viajavam em um verdadeiro convento flutuante: havia momentos destinados às orações, aos estudos e às distrações, sob as ordens de um zeloso padre superior, e, quando o vento e o mar se acalmavam, era celebrada a Santa Missa a bordo. Em nenhum momento as perturbações orgânicas próprias às viagens marítimas foram motivo de queixas nas missivas que Damião remetia aos familiares, mas - ao contrário - suas palavras eram como essas: "em parte se deve a vossas fervorosas orações, queridíssimos pais, que tenhamos feito uma feliz travessia, pois vos asseguro que a Divina Providência nos protegeu visivelmente durante toda a nossa viagem; várias vezes, sobretudo nos lugares perigosos, sentimos o socorro de nosso divino Salvador, que prometeu permanecer sempre com seus apóstolos e seus missionários até o fim dos tempos". E a viagem marítima encerrou-se no dia da festividade de São José (19 de março de 1864), no porto de Honolulu: recebidos pelo superior da missão, Pe. Modesto Favens, os viajantes foram levados à catedral para a celebração de uma Missa, seguida de um Te Deum.

No Havaí, após breve passagem pelo subdiaconato e diaconato, Damião foi ordenado presbítero em 21 de maio do mesmo ano, na Catedral de Nossa Senhora da Paz. "Como eu tremia ao subir pela primeira vez ao altar - escreveu ao superior geral da Congregação - como estava emocionado meu coração ao dizer pela primeira vez ao Verbo que descesse às minhas mãos; que afetos então sobrenaturais e diferentes para mim ali se formavam ao distribuir, em minha primeira missa, o Pão da Vida a 150 ou 200 pessoas, das quais muitas provavelmente se haviam inclinado frequentemente ante seus antigos ídolos e que agora, totalmente vestidas de branco, se aproximavam com tanta modéstia e respeito à Santa Mesa".




Ministério sacerdotal no Havaí

Iniciou-se então a vida de sacerdote missionário para Damião, sob as ordens de seu superior religioso e do vigário apostólico (Pe. Modesto Favens e Mons. Louis-Desiré Maigret, respectivamente, ambos pertencentes à mesma família religiosa: Sagrados Corações). Poucos dias após ser ordenado, Pe. Damião foi enviado à Ilha Grande do arquipélago, onde passou a exercer o ministério. As distâncias que tinha de percorrer eram muito grandes, o que o levou a enfrentar dificuldades para a confissão frequente (chegou a apelar a um artigo da regra que proibia formalmente que um missionário estivesse só, em carta ao superior geral). Incansavelmente, ano após ano, construía capelas, além de distribuir os sacramentos, ensinar nas escolas, cuidar de doentes, pregar ao povo, e assim anunciar o Evangelho.

Em 04 de maio de 1873, em meio a outros irmãos, o vigário apostólico (Mons. Maigret, bispo) pediu voluntários para se revezarem dando assistência aos leprosos na ilha de Molokai: alguns se apresentaram, sendo o Pe. Damião escolhido para ser o primeiro de uma alternância que não ocorreu, pois o encargo tornou-se definitivo. Alguns meses depois dirá, em carta a um irmão: "tendo já passado sob o pano mortuário no dia de meus votos, acreditei ser meu dever oferecer-me a Sua Grandeza [o bispo], que não teve a crueldade, como ele dizia, de ordenar tal sacrifício". O próprio bispo (vigário apostólico), Mons. Maigret, acompanhou o novo pastor a Molokai, para apresentá-lo às ovelhas que a ele eram confiadas.

Leprosário insular

A lepra (hanseníase) surgira no Reino do Havaí em 1840, como consequência da imigração, sendo naquela época incurável, e considerada muito contagiosa. O isolamento era a única solução encontrada pelas autoridades para a terrível enfermidade que continuava a desafiar a medicina. Os leprosos - várias centenas - eram confinados na ilha de Molokai, a quinta em extensão territorial do arquipélago, mais precisamente em uma península envolvida pelo oceano e isolada do restante do território por uma barreira montanhosa íngreme. Os enfermos que ali moravam podiam ser acompanhados por parentes, mas isso era uma exceção, pois em sua maior parte eram abandonados e rejeitados. Havia medidas governamentais para apoio aos que ali estavam confinados, como a construção de um pequeno hospital, alimentos e algumas roupas, e a visita eventual de um médico, mas tudo era rudimentar e muito aquém das necessidades. Os óbitos eram frequentes - um a dois por dia - e o próprio Pe. Damião deu o exemplo, sepultando os cadáveres que por vezes não tinham o privilégio de gozar dessa atitude de respeito aos mortos.

Os habitantes dividam-se em dois povoados: Kalawao e Kalaupapa. As moradias eram em geral muito precárias, por vezes feitas com pedras ou vegetais (até mesmo de cana-de-açúcar), com cobertura de folhas. A promiscuidade entre os pobres leprosos imperava, sem distinção de idade ou sexo. Não se podia falar propriamente em higiene, pois a água era obtida de fontes longínquas, conduzida em toscos recipientes transportados nas mãos. Os maus odores exalados das feridas e dos dejetos eram especialmente nauseantes, sendo mesmo insuportáveis para um recém-chegado: o Pe. Damião chegou a deslocar-se rapidamente para fora de certos ambientes e assim evitar ocorrências mais desagradáveis que não poderia controlar, como se pode perceber nesse registro: "mais de uma vez, cumprindo junto a eles meus deveres sacerdotais, me vi forçado não somente a tampar as narinas mas inclusive correr para fora a fim de respirar ar puro". Escreveria ele, posteriormente, que o cachimbo que passou a usar atenuava em seu organismo os efeitos de tais emanações, pois o odor do tabaco, ao impregnar suas roupas, atuava como uma fragrância dissimulando as impregnações infectas.

Ao superior geral da congregação, o Pe. Damião escreveu em agosto de 1873: "eis-me aqui, reverendíssimo padre, em meio a meus queridos leprosos. São muito hediondos de ver, porém têm uma alma resgatada pelo preço do sangue adorável de nosso divino Salvador. Ele também, em Seu divino amor, consolou os leprosos. Se eu não os posso curar como Ele, ao menos os posso consolar, e pelo santo ministério que Sua bondade me confiou espero que muitos entre eles, purificados da lepra da alma, apresentem-se ao Seu tribunal em estado de entrar na sociedade dos bem-aventurados". Diz também que "acabo de fazer um pedido a Sua Grandeza [o bispo] para ampliar a capela. O odor infecto que emana de seus corpos e de suas feridas exigiria uma igreja grande para tornar o culto menos penoso. Algumas vezes me era difícil resistir durante a Santa Missa e no sermão. É como o ‘já cheira mal' de São Lázaro. Enfim: Nosso Senhor suportou isso, e eu também o posso. Oxalá pudesse conseguir, por esse sacrifício, a ressurreição espiritual dos que, entre eles, ainda não saíram da tumba do pecado para viver a vida de graça que o bom Deus a eles oferece todos os dias".

Mãos à obra

Várias capelas foram construídas por iniciativa do Pe. Damião, tendo ele constituído um coro e uma banda de música, que passaram a atuar convenientemente nas missas, nas procissões e nos funerais, e até mesmo nas recepções aos visitantes mais ilustres. Procurava demonstrar benquerença para com todos, participando de suas refeições, compartilhando seu cachimbo com outros homens, e até brincando com as crianças. Além disso, todos eram bem-vindos em sua casa. Mesmo antes de contrair a doença ali imperante, o Pe. Damião se inseriu entre eles, pois ao dirigir a palavra aos que ouviam suas homilias dizia: "nós, leprosos", mesmo sem saber que um dia tal expressão se tornaria real.

Em poucos anos o Pe. Damião fez florescer uma autêntica comunidade, bem oposta ao que encontrou quando chegou àquele "cemitério vivo": os moradores constituíam, quando ele ali aportou, uma verdadeira selva humana. Eis suas palavras extraídas de um relatório escrito em 1886: "à chegada dos novos leprosos, os antigos se apressavam a incutir neles a falsa máxima de que ‘neste lugar já não há lei'. Durante muito tempo me vi obrigado a combatê-la, vendo que se aplicava o mesmo às leis humanas e às divinas. Em consequência dessa teoria ímpia, a maioria dos solteiros, e dos casados que estavam separados de seus cônjuges pela lepra, viviam amontoados sem distinção de sexo. Muitas mulheres eram obrigadas a prostituir-se para conseguir amigos que as ajudassem durante sua doença. As crianças, quando fortes, eram empregadas como serventes. E quando a lepra havia progredido, tais mulheres e crianças eram expulsas da casa para buscar um abrigo em qualquer lugar. Não era raro encontrá-las atrás de uma cerca esperando que a chegada da morte viesse pôr fim a seus sofrimentos, ou que uma mão compassiva ou contratada os transportasse ao hospital". Acrescenta o Pe. Damião, no mesmo documento: "como muitos leprosos morriam, meu dever sacerdotal me oferecia amiúde a ocasião de visitá-los em suas cabanas e, ainda que minhas exortações se dirigissem principalmente aos moribundos, balançavam frequentemente as orelhas dos pecadores públicos, os quais pouco a pouco tomaram conhecimento das consequências de suas más condutas e começavam a se arrepender. A esperança do perdão de um Salvador misericordioso começava a reforma de sua má vida (...). Um meio dos mais eficazes para destruir a imoralidade tem sido a permissão para casar-se, dada aos leprosos não impedidos por um matrimonio anterior (...). Uma grande bondade para com todos, um terno amor para com os necessitados, uma doce compaixão para com os doentes e moribundos, juntamente com uma sólida pregação a meus ouvintes, esse tem sido o procedimento constante do qual me tenho servido para introduzir os bons costumes entre os leprosos".


Pintura feita por um amigo retratando o padre
com lesões de hanseníase. 
Sofrimentos

Um sofrimento que particularmente atormentou o Pe. Damião foi a dificuldade para fazer a confissão frequente. Nos cinco primeiros anos o isolamento da colônia de leprosos era total, por ordem do governo. Por ocasião de uma visita do superior provincial - o Pe. Modesto Favens - este foi impedido de desembarcar, limitando-se a se inclinar sobre a amurada do navio para ouvir as acusações do rigoroso penitente que se aproximara em uma canoa, feitas em voz alta por estar proibido de subir a bordo a fim de evitar contágio.

Os anos se passaram em meio a frutífero apostolado, mas o sacrifício foi aceito: a hanseníase tomou pouco a pouco o robusto organismo do Pe. Damião. Manchas foram surgindo na pele, tumorações foram se desenvolvendo em várias partes do corpo, a sensibilidade começou a desaparecer, mas naquela época o diagnóstico médico não era tão fácil e rápido como nos dias atuais. A certeza surgiu em janeiro de 1885 quando, após uma fatigante caminhada para o exercício do ministério, pôs o pé em uma vasilha contendo água escaldante pensando ser morna, e não sentiu incômodo algum: perdera a sensibilidade térmica, o que indicava estar leproso. Aos familiares, diz que "trato de levar minha cruz com alegria, como Nosso Senhor Jesus Cristo". Ao Pe. Léonor Fuesnel, então seu superior provincial, o Pe. Damião faz um pedido: "pois bem, meu reverendo padre, já não tenho dúvidas, sou leproso; que o bom Deus seja bendito! Não tenha muita pena de mim, pois estou perfeitamente resignado com minha sorte. Não peço mais que uma graça: suplicai a nosso Muito Reverendo Padre que envie algum [sacerdote] que possa uma vez ao mês descer até nossa tumba para confessar-me e, no restante do tempo, ocupar-se das capelas do outro lado da ilha, onde não há doentes".

Em uma carta dirigida a um escritor que visitara aquela colônia de leprosos, o Pe. Damião escreveu em outubro de 1885: "Desde o mês de março passado meu correligionário, o Pe. Alberto, deixou Molokai e o arquipélago para regressar a Tahiti. Desde então sou o único sacerdote em Molokai e tenho a fama de estar atacado eu próprio pela terrível doença. Os micróbios da lepra se instalaram finalmente na minha perna esquerda e na orelha. Minhas pálpebras começam a cair. Me é impossível viajar a Honolulu, pois a lepra se faz visível. Logo minha figura ficará deteriorada, suponho. Estando certo de que a doença é real, permaneço tranquilo e resignado, e até sou mais feliz entre as pessoas aqui. O bom Deus sabe o que é melhor para minha santificação, e nesta convicção digo todos os dias um bom 'fiat voluntuas tua' [seja feita a tua vontade]. Tenha a bondade de rezar por este seu amigo provado e recomendar-me, assim como aos meus desventurados leprosos, a todos os servidores de Deus".

Tendo a notícia de sua doença se espalhado por todo o arquipélago, o Pe. Damião teve de enfrentar uma prova que lhe foi um sofrimento atroz: seus superiores se opuseram categoricamente a que viajasse à capital, Honolulu, por qualquer motivo que fosse, inclusive para a confissão sacramental. Sua chegada seria suficiente para espantar os fiéis das capelas da missão, pensavam. O aflito sacerdote missionário deixou extravasar um pouco de sua tristeza em uma carta ao Pe. Léonor Fouesnel (superior provincial que tratava o Pe. Damião com incompreensão e hostilidade): "a negativa absoluta expressa em um tom de autoridade policial, mais que em tom de superior religioso, e feita em nome do bispo e do ministro como se a missão estivesse posta em quarentena, me causou - asseguro-o sinceramente - mais dor do que tudo o que tive de sofrer desde a infância. Respondi com um ato de submissão absoluta em virtude de meu voto de obediência. Continuo estando em paz (...). Sempre resignado à santa vontade do bom Deus em nossos sofrimentos cada vez mais lancinantes, sejamos, Monsenhor, mortui in Christo... vitae nostrae sint absconditae in Deo - mortos em Cristo e que nossas vidas estejam escondidas em Deus".


São Damião já gravemente afetado pela
hanseníase. 
A Eucaristia, seu alimento

O Pe. Damião era um entusiasta da sagrada Eucaristia. Afinal, a Adoração Eucarística fazia parte do espírito da congregação em que ingressara, e nas viagens pelas regiões entregues a seus cuidados ele lamentava não ter, por vezes, o Santíssimo Sacramento para junto a Ele apresentar suas preces, suas confidências, seus anseios. Em carta ao Pe. Alberto Montiton, seu grande amigo que se transferira de Molokai para Thaiti, se lê: "Vossa carta de 14 de março veio cicatrizar um pouco a profunda ferida no coração que vossa partida me havia causado. As lágrimas que eu então vertia eram perfeita expressão de minha dor pela perda e meu pressentimento da penosa e excepcional situação na qual ia passar o resto de meus dias. De fato, meu querido padre, desde que perdi em vós um bom companheiro neste triste leprosário, não tenho tido mais que a visita momentânea de um irmão cada dois ou três meses. Ademais, a terrível doença, cujo começo conheceis, faz progressos espantosos e ameaça impedir-me, talvez logo, de celebrar a Santa Missa e, não tendo outro sacerdote, eu me veria privado da santa comunhão e do santo sacramento. Tal privação é a que mais me custará e que tornará insuportável minha situação. Não é a doença e os sofrimentos o que me desencoraja; longe disso. Até aqui me sinto feliz e contente e, se me fosse dada a oportunidade de sair daqui em boa saúde, diria sem titubear: fico com meus leprosos" (maio de 1886).


Distinguido pelas autoridades

Apesar dos vários meses em que permanecera em uma verdadeira prisão - pois esteve preso pela sagrada obediência, cárcere sem grades ou cadeias, porém mais encarcerante do que os que as têm - pôde o Pe. Damião experimentar algum consolo: foi-lhe permitida a viagem a Honolulu sem cometer desobediência ou incorrer em censuras. Pelo contrário: recebeu a visita do próprio Rei do Havaí, Kalakaua I, de seu primeiro ministro Walter M. Gibson, e do bispo Mons. Bernard Hermann Koeckemann.

Em setembro de 1881 a princesa havaiana Lydia Liliuokalani havia visitado os leprosos em Molokai, e ficou tão comovida com a miserável situação em que se encontravam imersos associada à extrema dedicação do sacerdote missionário que não conseguiu pronunciar o discurso que havia preparado, cujo texto tinha às mãos. Retornando a Honolulu solicitou que o esforçado padre fosse investido como Comandante Cavaleiro da Real Ordem de Kalakaua, honraria que a ele foi então concedida pelo soberano reinante em reconhecimento aos seus "esforços no alívio dos sofrimentos e na mitigação das dores dos infelizes", sendo humildemente aceita e considerada como uma atenção dada a seus leprosos. A insígnia era uma medalha com a Cruz da Real Ordem de Kalakaua. Anos depois, em meio aos sofrimentos finais de sua enfermidade, o Pe. Damião salientou: "o Senhor me condecorou com sua cruz particular: a lepra".


São Damião há poucos dias da morte. 



Trabalhando até ser abatido pela doença

Apesar da progressão da doença, o Pe. Damião a ela não se entregou: ao contrário, continuou a ministrar os sacramentos, a visitar os enfermos, a consolar os que estavam tristes, a pregar o Evangelho. Em 19 de março de 1889 completou 25 anos de ordenação presbiteral, porém no dia 28 do mesmo mês prostrou-se em seu leito para não mais o deixar, pois seu estado de saúde se agravou. Fez uma confissão geral ao Pe. Wendelin Moellers, que o assistiu, o qual em seguida confessou-se ao santo homem que ali jazia, e em seguida ambos renovaram os votos religiosos. Esse sacerdote foi encarregado pelo Pe. Damião de dizer ao superior geral que seu "mais doce consolo nesses momentos era morrer membro da Congregação dos Sagrados Corações".

Em 15 de abril de 1889, após quase 16 anos entre os leprosos de Molokai e tendo-se tornado um deles, o Pe. Damião partiu para a eternidade. Contava apenas 49 anos, mas a aparência lhe atribuía idade muito superior. Foi sepultado no cemitério da comunidade em que vivia, mas em 1936 seus restos mortais retornaram à Bélgica, sendo postos em um jazigo na igreja dos Sagrados Corações, em Louvain. Por ocasião da beatificação (feita por João Paulo II em 1995) os ossos de sua mão direita - que tanto batizou, ungiu, consagrou, abençoou - retornaram ao Havaí.



São Damião de Veuster e Santa Mariana Cope. 


Honrado, distinguido e venerado não só pelos católicos

A veneração e o respeito ao Pe. Damião de Molokai não se restringem à Igreja Católica: diversas confissões não católicas viram nele altíssimas qualidades, e ainda em vida ele foi distinguido com a admiração e o apoio (inclusive financeiro) advindos de agremiações não alinhadas com as convicções pelas quais o sacerdote missionário viveu e morreu. Uma detalhada carta aberta foi dirigida pelo escritor Robert Louis Stevenson a um ministro da religião por ele seguida, em firme e fundamentada defesa da memória do recém-falecido Pe. Damião, vítima de críticas destrutivas que visavam a Santa Igreja através de seu dedicado servo.

Disse Mahatma Ghandi: "Se a assistência aos leprosos é tão cara ao coração dos missionários católicos, isso se deve ao fato de que nenhuma obra exige, como ela, um espírito de sacrifício. Ela exige o mais elevado ideal, a mais perfeita abnegação. O mundo político e jornalístico não tem heróis os quais possa glorificar e que sejam comparáveis ao Pe. Damião de Molokai. A Igreja tem entre os seus milhares de pessoas que, como ele, sacrificaram sua vida em serviço dos leprosos. Valeria a pena pesquisar em qual fonte tal heroísmo se alimenta".
O sacerdote missionário em 11 de outubro de 2009 passou a ser chamado São Damião de Molokai, canonizado pelo Papa Bento XVI em presença do rei e da rainha da Bélgica em meio à imensa alegria dos irmãos e irmãs da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e da Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento do Altar espalhados pelo mundo.



PRINCIPAIS FONTES:
Le Père Damien de Molokai, apôtre des lépreux (Édouard Brion, versão chilena em espanhol intitulada El Camino de Damián traduzida pelo Pe. Fabián Pérez del Valle SS.CC., Santiago do Chile, maio de 2000)
La canonisation du Père Damien de Veuster (Bernard Couronne, André Lerenard e Christian Malrieu, Montgeron, França)


Site da Congregação dos Sagrados Corações (www.ssccpicpus.com)