Páginas

Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

SÃO JERÔNIMO, Eremita, Presbítero e Doutor da Igreja, escritor da Bíblia "Vulgata" (tradução dos originais hebraicos e gregos para o latim) - memória em 30 de setembro.


A Santa Igreja Católica reconheceu sempre São Jerônimo como um homem eleito por Deus para explicar e fazer entender melhor a Bíblia Sagrada, por isso foi declarado Patrono de todos os que no mundo se dedicam a fazer entender e amar mais a Palavra de Deus gravada nas Escrituras Sagradas.
"E as portas do inferno não prevalecerão contra Ela!" Nas eras conturbadas para a Igreja é que aparecem os grandes guias. O período situado entre o final do século IV e meados do século V foi uma dessas eras. Erros e heresias pululavam no seio da Cristandade. Então, surgiram grandes luzeiros de santidade e ciência: Santo Hilário, de Poitiers, Santo Ambrósio, de Milão, o grande Santo Agostinho. Havia ainda um outro luminar que, com os anteriores, formou o conjunto dos "Santos Padres da Igreja": São Jerônimo, cuja festa celebra-se no dia 30 de setembro, o "mês da Bíblia".



Jerônimo de Stridon

Jeronimo nasceu no ano de 342. Era filho de Eusébio, da cidade de Stridon, já na divisa entre a Panônia e a Dalmácia, em terras não distantes de Aquileia, na Itália. Sua família era cristã, nobre e rica. Acompanhando o costume da época, foi batizado apenas aos 18 anos, contudo, teve uma educação cristã desde criança.

Seu pai percebeu logo as precoces aptidões que Jerônimo tinha para os estudos e apenas esperou que ele chegasse à adolescência para enviá-lo a estudar em Roma. Ali, usando a pequena fortuna que seu pai lhe deu, procurou os melhores mestres. Tendo, porém, uma juventude um tanto livre.

No centro do mundo civilizado de então, o jovem dedicou-se com afinco aos estudos da gramática, da retórica e da filosofia. Estudou latim, tendo como professor de línguas um famoso pagão chamado Donato.

Jerônimo tornou-se um grande latinista e também se destacou como conhecedor do grego e de outros idiomas.


Jerônimo e os clássicos romanos e gregos.

Ele dedicava horas e horas de seus dias lendo, estudando e até decorando livros de grandes autores latinos: Cícero, Virgílio, Horácio e Tácito. E ainda encontrava disposição para conhecer autores gregos. Entre eles, Homero e Platão. Tal era seu entusiasmo e admiração pelos escritores clássicos que logo formou uma biblioteca só com obras deles, chegando até a copiar à mão vários desses livros.

Dedicando tanto tempo a esses autores, quase nunca encontrava ocasião para as leituras cristãs. Embora estivesse totalmente imerso nessa situação nada conveniente, ele, contudo, não havia rompido com os princípios que conhecera na infância, nem cortado os laços com suas raízes cristãs.

Foi, certamente, sua inexperiência juvenil que o levou a mergulhar sem censuras no ambiente mundano e decadente da Roma de seu tempo. Mais que um extraviado exacerbado, ele foi uma vítima do modismo da época.

Tempos mais tarde, Jerônimo admitiu que essa sua atitude o tinha colocado fora do verdadeiro caminho. Apesar disso, ele recordava também que Deus não o havia abandonado nunca e que o guiava constantemente. Foi por essa ocasião que ele tornou-se catecúmeno. Continuava seus estudos e preparava-se para ser batizado. Seus domingos em Roma consistiam em constantes visitas às catacumbas. Ali ele meditava sobre a fé dos mártires, admirava a atitude deles e venerava suas relíquias.



Jerônimo batizado.

Jerônimo recebeu o santo batismo na idade adulta. Ele foi batizado pelo Papa Libério. Já como cristão batizado, ele fez uma viagem de estudos pelas Gálias. Para acompanhá-lo, levou consigo seu irmão de leite, Bonoso.

Nessa viagem, em Treveris, ele decidiu entregar-se ao serviço de Deus e, depois de conhecer ali uma das mais afamadas academias que existiam no Ocidente, ele continuou sua viagem. Foi primeiramente para a Grécia, depois visitou parte do Oriente Médio. Ali, numa região desértica perto de Antioquia, viveu alguns anos em plena solidão.

Por essa ocasião, ele já tinha começado a dirigir seus estudos para outros pontos do saber humano, fora dos clássicos. Então, ele aproveitou seu tempo para estudar hebraico com um judeu convertido. Sua intenção era poder estudar as Sagradas Escrituras em seu idioma original. Isso não foi fácil: só o fim a que agora destinava seus estudos e o seu constante desejo de conhecimento lhe mantiveram nesse intento.

Ele chega a afirmar que “as fadigas que isto me causou e os esforços que me custaram, só Deus sabe. Quantas vezes desanimei e quantas voltei atrás e tornei a começar pelo desejo de saber; sei-o eu que passei por isso, e sabem-no também os que viviam na minha companhia. Agora dou graças ao Senhor, pois colho os saborosos frutos das raízes amargas dos estudos" (Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial Apostolado da Oração, Braga, 1987, vol. III, p. 104. )


Jerônimo: tentações e consolo.

Nesse período, as dificuldades e cansaços que estes estudos lhe traziam não eram todo o sofrimento pelo qual ele teve que passar. Para ele, foi necessário enfrentar um inimigo mais sutil, inteligente e mau.

Deus permitiu que o demônio o torturasse. A cada instante o maligno o assaltava com tentações e desejos imundos contra o sexto mandamento. Para combatê-los, Jerônimo entregava-se à oração e à penitência. Eram jejuns que, às vezes, duravam semanas inteiras. Mas Deus não o abandonava!

Em meio às tentações, o Senhor o consolava: “depois de chorar muito e contemplar o céu, sucedia-me, por vezes, ser introduzido dentro dos coros dos anjos. Louco de alegria, eu cantava: “... (Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial Apostolado da Oração, Braga, 1987, vol. III, p. 105)




Cristão, não: ciceroniano!
(A visão do “juízo particular” de São Jerônimo)

Jerônimo quis visitar Jerusalém. Queria caminhar pela Terra Santa, venerar os lugares que foram santificados pela presença de Nosso Senhor. Aproveitou a ocasião de sua estada em Jerusalém para aprofundar seus conhecimentos da língua hebraica; ele desejava ter um meio a mais para conhecer melhor as Sagradas Escrituras. Assim, poderia ter mais segurança nas respostas às questões que o Papa São Dâmaso lhe fazia constantemente a respeito de passagens difíceis dos Livros Sagrados.

No entanto, ler a Sagrada Escritura não lhe trazia prazer. Para Jerônimo, o texto bíblico era simples demais e não tinha ornato... Ele tinha sido formado na leitura dos clássicos latinos e gregos e se acostumara com a "eloquência" e "elegância" da literatura de estilo pagão. Ele sentia muita aridez na leitura da Bíblia. Apesar de ser um sábio para o mundo, um conhecedor com ampla visão das ciências de então, continuava cego para as coisas mais elevadas, as coisas divinas.

Para que ele mudasse de vida, foi necessário que o próprio Deus chamasse sua atenção. Jerônimo, anos mais tarde, contou em carta a uma de suas discípulas, Santa Eustóquia, o que se passou com ele:

Era o ano 374; ele estava na Antiópia e fazia austeras penitências. Estando em oração, Jerônimo teve uma visão. Ele tinha sido arrebatado aos céus e se via diante do Juízo de Deus. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo presidia o Tribunal e perguntava sobre seu estado de alma e sua fé.

- Sou cristão. Responde Jerônimo. Ao que o Juiz lhe replicou com severidade:

- Mentira!... Você não é cristão, mas ciceroniano...

Isso seria o mesmo que dizer: “Não sois de Cristo, sois de Cícero”.



O Juiz mandou que ele fosse açoitado. Os assistentes pediram clemência, argumentando que ele ainda era jovem e poderia corrigir-se, arrepender-se e salvar-se. Diante do que lhe acontecia, Jerônimo reconheceu o estado de alma em que se encontrava e, nessa situação, tomou a única atitude que lhe seria conveniente: reconheceu seu erro, pediu perdão.

É certo que ele percebeu que havia sido perdoado e, naquele instante, fez o firme propósito de se emendar, saindo do arrebatamento cheio de compunção, muito arrependido e pleno do amor de Deus.

"Desde aquela hora eu me entreguei com tanta diligência e atenção a ler as coisas divinas, como jamais havia tido nas humanas", conclui o Santo em sua carta a Santa Eustóquia. (Pe. Ribadaneira, em La Leyenda de Oro, op. cit., p. 644)



Jerônimo convive com Santos.

Ele foi, então, para Chalcis, no deserto da Síria, e lá passou quatro anos. Tinha uma vida de monge e aproveitou o tempo para aprofundar seus conhecimentos de hebraico e estudar os escritos de São Paulo de Tebas. Jerônimo deixou o ambiente monacal e dirigiu-se a Constantinopla. Ele queria ver e ouvir São Gregório Nazianzeno. Devido à sua oratória e erudição, esse Santo era conhecido como "o Teólogo".

Durante três anos ele ali permaneceu estudando com São Gregório. Foi ele quem lhe abriu o espírito ao amor pela exegese das Sagradas Escrituras. Foi nessa ocasião também que Jerônimo teve oportunidade de fazer uma grande e profunda amizade com dois outros luzeiros que brilhavam na Igreja do Oriente: São Basílio e seu irmão São Gregório de Nissa.



Jerônimo, sacerdote.

Ele esteve algum tempo também na Antioquia da Síria. Ali prestou serviços ao Bispo Paulino, que o incentivou a receber o sacramento da Ordem.

Estava com mais de trinta anos quando se tornou sacerdote. Ele obteve condições especiais de vida sacerdotal. Poderia continuar sua vida como monge e não estar sujeito à jurisdição de nenhuma diocese. Quase nunca exerceu o ministério sacerdotal. Tornou-se um monge para quem o isolamento monacal seria ocasião para dedicação total ao estudo, à reflexão, à oração, tendo em vista a difusão do cristianismo.

Ele pôde, nessa ocasião, com muita dificuldade, estudar hebraico e aperfeiçoar seus conhecimentos do grego, tendo em vista poder compreender melhor as escrituras em suas línguas originais.

Jerônimo pensou em ir para o deserto a fim de penitenciar-se de seus pecados. Ele pensava especialmente em sacrificar-se para afastar de si as fortes tendências e os grandes desejos que o impeliam para a sensualidade. Naquele lugar de silêncio e isolamento, ele rezava. Jejuava muito e passava noites sem dormir, em oração e sacrifícios. Ali, porém, ele não encontrou a paz. Deus reservava para ele o encontro com uma descoberta: sua missão não era viver na solidão. Jerônimo voltou para Roma.


Jerônimo, secretário do Papa.

Por causa do modo de ser e da mentalidade dos povos orientais, na Igreja do Oriente havia vários ambientes onde os erros doutrinários encontravam terreno propício para germinarem. As heresias se difundiam e causavam confusão em todo o corpo social.

Era tal a situação que se tornou necessária uma reação da autoridade espiritual e da temporal. Elas tinham que se unir para defender-se dos erros que ali pululavam. Para isso, o Imperador Teodósio e o Papa São Dâmaso resolveram convocar um sínodo em Roma.

O secretário do evento deveria ser Santo Ambrósio, porém, o culto e famoso bispo de Milão adoeceu gravemente. Para substituí-lo, o Papa convidou Jerônimo. Ele desempenhou esse cargo com muita eficiência e sabedoria. Reconhecendo em São Jerônimo seus dotes extraordinários e seu grande saber, o Papa São Dâmaso quis tê-lo junto de si e o nomeou como seu secretário, assim que terminou o sínodo.

Como secretário, Jerônimo tornou-se o encarregado de redigir as cartas enviadas pelo Pontífice. Era dele uma outra atribuição muito importante dentro do governo da Igreja: "responder a todas as questões que se referissem à religião, de esclarecer as dificuldades das Igrejas particulares [dioceses], das assembleias sinodais, de prescrever àqueles que voltavam das heresias o que eles deveriam crer ou não, e de estabelecer, para isso, regras e fórmulas" (Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d'après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo XI, p. 565)



Jerônimo e as Escrituras Sagradas

O Papa desejava ter uma tradução da Bíblia que fosse o mais fiel possível aos textos originais.

Os textos bíblicos até então existentes tinham imperfeições de linguagem e imprecisões de traduções. O Papa percebia a necessidade de uma tradução que pudesse funcionar como texto único e uniforme para servir de base para a liturgia, os estudos e as orações dos fiéis. As versões populares eram imperfeitas e passíveis de criar confusão entre os fiéis.

Foi então que o Papa São Dâmaso encarregou São Jerônimo de verter o texto das Escrituras Sagradas para o latim. O Papa sabia que seu secretário teria condições para levar a cabo esse importante projeto. Ele já tinha provas do profundo conhecimento que Jerônimo tinha dos textos bíblicos. Sua fama de latinista erudito e poliglota consumado era sabida por todos. Além do latim, ele conhecia bem o grego e o hebraico, e ainda entendia bem o aramaico; línguas muito ligadas aos textos Sagrados.

O trabalho de São Jerônimo abrangeu praticamente sua vida toda. Ele escrevia com elegância clássica o latim e traduziu a Bíblia inteira. Daí foi que surgiu o texto da Bíblia conhecido como "Vulgata", que significa "de uso comum". Essa tradução foi usada largamente em quase quinze séculos. Seu texto tornou-se oficial com o Concílio de Trento e só cedeu o lugar nos últimos tempos, depois de estudos linguísticos exegéticos mais recentes.

No trabalho deixado por São Jerônimo, ele mostra seu agudo senso crítico, um amor extraordinário à Palavra de Deus e uma grande riqueza de informações sobre tempos, usos e lugares relativos à Bíblia Sagrada. O Papa Clemente VIII afirmou que São Jerônimo, nesse trabalho de suma importância, foi assistido e inspirado pelo Espírito Santo.

A dedicação extraordinária que São Jerônimo teve na tradução das Escrituras Sagradas só pode ter, de fato, um motivo de origem sobrenatural. E é o que se confirma ao ver as explicações que ele mesmo deu ao justificar seu empenho nesse importantíssimo trabalho: "Cumpro o meu dever, obedecendo aos preceitos de Cristo que diz: ‘Examinai as Escrituras e procurai e encontrareis' para que não tenhais de ouvir o que foi dito aos judeus: ‘Estais enganados, porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus'. Se, de fato, como diz o Apóstolo Paulo, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que não conhece as Escrituras não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria. "Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo." (Pe. José Leite, op. Cit., p. 106.)



Jerônimo perseguido em Roma.

Até a morte de São Dâmaso, em 384, Jerônimo permaneceu em Roma. "Todos acorriam a ele, e cada qual procurava ganhar-lhe a vontade: alguns louvavam sua santidade, outros a doutrina, outros sua doçura e trato suave e benigno, e finalmente todos tinham postos os olhos nele como em um espelho de toda virtude, de penitência, e oráculo de sabedoria". Pe. Ribadaneira, op. cit., p. 645.)

Em Roma, criou-se em torno de Jerônimo amplo círculo de amizades, sobretudo de matronas da alta sociedade, que o ajudavam com seus recursos para custear seus trabalhos e que o orientavam nos ásperos caminhos da santidade de cunho monástico.

Porém, os altos cargos que exercia, a dureza com a qual tinha que corrigir os defeitos existentes no seio da alta classe social lhe trouxeram também todo tipo de invejas. Em Roma, onde não aceitavam seu modo enérgico de correção, Jerônimo sentia-se incompreendido e caluniado. Após a morte do Papa São Dâmaso, os inimigos de São Jerônimo iniciaram uma verdadeira campanha de difamação e perseguição contra ele.




Jerônimo troca Roma por Belém.

Tal era o ambiente que se criou em Roma contra Jerônimo que ele decidiu afastar-se da Cidade Eterna, indo, definitivamente, para a Terra Santa. Estabeleceu-se em Belém, onde ficou com Santo Eustáquio, Santa Paula e sua filha Eudóxia, e outros mais seguidores, pregando na Palestina e no Egito.

Várias das ricas senhoras romanas que haviam se convertido por meio de seus ensinamentos e conselhos o acompanharam e foram morar junto à Gruta do Presépio, sob sua orientação espiritual. Fundaram, sob a direção do Santo, um mosteiro masculino e um feminino, este dirigido por Santa Paula. Estas senhoras haviam vendido tudo que tinham em Roma. Com o dinheiro obtido, ajudaram São Jerônimo na construção de um convento para homens e três para mulheres, além de construir uma casa para atender peregrinos que chegavam de todas as partes do mundo para visitar o lugar onde havia nascido Jesus.

São Jerônimo, porém, levava vida como monge de penitências rígidas. Seus últimos 35 anos ele os passou em uma grande cova, próxima à Gruta do Presépio. Ali continuou, até a morte, seus estudos e trabalhos bíblicos e, com muita energia, ainda escrevia contra os hereges que se atreviam a negar as verdades da Santa Igreja Católica, entre eles Helvídio e Joviano.



São Jerônimo e Santo Agostinho

Houve um princípio de polêmica entre os dois grandes Doutores da Igreja, Santo Agostinho e São Jerônimo. Tudo, porém, foi explicado: tratava-se de um mal-entendido entre esses dois luminares do cristianismo. Tudo foi explicado, as coisas se puseram em seu devido lugar e uma amizade que nunca havia se rompido continuou cheia de respeito. Eles continuaram unidos até a morte; melhor seria dizer até no Céu.

São Jerônimo dizia que Santo Agostinho era "seu filho em idade, e seu pai em dignidade", uma vez que era bispo. Por seu lado, o Bispo de Hipona escreveu-lhe: "Li dois escritos vossos que me caíram nas mãos, e achei-os tão ricos e plenos que não quereria, para aproveitar em meus estudos, senão poder estar sempre a vosso lado". (7 - Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V, p. 307.)

No dia 30 do mês de setembro do ano 420, falece São Jerônimo. Estava avançado em idade e crescido em virtude; faleceu. No mesmo dia, em visão, ele aparecia a Santo Agostinho e descrevia como era o estado das almas bem-aventuradas no Céu...



* * * * * * * * *

O Leão de São Jerônimo
(Uma história maravilhosa)

Numa certa tarde, como faziam todos os dias nas horas canônicas, os monges estavam reunidos ouvindo as lições do dia. São Jerônimo estava entre eles e ouvia atento. De repente, todos perceberam que um leão se aproximava. Foi uma correria geral. São Jerônimo manteve a calma; foi o único. Ele levantou-se e foi encontrar-se com aquele hóspede não convidado...

Era um animal enorme que usava somente três patas para caminhar. A quarta pata ele a trazia levantada. Claro que o leão não poderia falar, mas dava a impressão de querer comunicar alguma coisa e ofereceu a Jerônimo a pata que trazia levantada. O monge a examinou e percebeu que o animal estava gravemente ferido.

Jerônimo chamou o menos medroso dos monges para ajudá-lo a limpar e cuidar do ferimento, que estava em carne viva, infeccionado e ainda cheio de espinhos. Jerônimo tratou do animal, retirou-lhe os espinhos e o medicou com unguentos. O animal sarou.

Os cuidados oferecidos ao animal amansaram a "besta fera". O leão passou, então, a caminhar pacificamente pelo mosteiro. Onde estivesse São Jerônimo, junto estava o animal que se comportava como um animal doméstico.

Jerônimo mostrou aos monges uma primeira lição do episódio: "Pensem sobre isto e vocês poderão encontrar lições de vida. Eu creio que não foi tanto para a cura de sua pata que Deus o enviou até nós, pois o leão se curaria sem a nossa ajuda. Deus nos enviou esse leão para mostrar o quanto a Providência estava ansiosa para nos prover do que necessitamos para nosso bem."



O jumento foi roubado ou comido pelo leão?

Os monges sugeriram então que o leão fosse usado para acompanhar e proteger o jumento que carregava a lenha para o mosteiro. E, por muito tempo, assim foi: o leão guardava o jumento enquanto este trabalhava.

Um dia, porém, o leão dormiu enquanto o jumento pastava e alguns mercadores que por ali passavam roubaram o jumento. O leão acordou e passou a procurar o jumento. Procurou todo o dia, sem encontrá-lo. Voltou para o mosteiro e ficou diante do portão. Parecia ter consciência de sua culpa: não tinha mais o andar imponente que parecia quando caminhava ao lado do burrico.

Alguns monges concluíram que o leão tinha comido o jumento. E se recusaram a alimentá-lo, enviando-o de volta para comer o resto de sua vítima. Será que havia sido o leão que dera cabo do jumento? Jerônimo mandou que procurassem a carcaça do jumento. Eles não encontraram nada e não viram sinais de violência.

Ao saber disso, São Jerônimo disse: "Eu fico triste com a perda do asno, mas não façam isto com o leão. Tratem dele como antes, deem comida para ele. Ele fará o serviço do jumento: deverá trazer em seu lombo a lenha que necessitamos". E assim aconteceu.




Um leão que cumpre a vontade de Deus.

O leão regularmente fazia a sua tarefa, mas continuava a procurar o seu velho companheiro. Um dia, do alto de uma colina, viu na estrada homens montados em camelos e um deles montando um jumento.

O leão foi ao encontro deles. Aproximando-se, reconheceu o seu amigo e começou a rugir. Os mercadores assustados correram, deixando para trás o jumento, os camelos e a carga que traziam. Como faria um cão pastor, o leão conduziu os animais para o mosteiro.

Quando os monges viram aquele desfile inusitado, correram até São Jerônimo. E foi até os portões e os abriu, dizendo: "Tirem a carga dos camelos e do jumento, lavem suas patas e deem comida para eles. Esperemos para ver o que Deus queria mostrar a este seu servo quando nos deu o leão".



Confie na sua ovelha.

Os monges seguiram as instruções de Jerônimo. O leão começou a rugir de novo e a balançar sua cauda, alegremente. Pesarosos por causa do que pensaram sobre o Leão, relembraram um pensamento conhecido na região: "Irmão, confie na sua ovelha, mesmo que por um tempo ela pareça um ganancioso rufião. Deus fará um milagre para curar o seu caráter."

Jerônimo, sabendo o que iria acontecer, disse: "Meus irmãos, preparem boa água, refrescos e frutas, pois chegarão novos hóspedes que deverão ser bem tratados". Tudo aconteceu como o Santo pediu. E logo um grupo de mercadores estava diante do portão. Embora tivessem sido bem recebidos pelos monges, correram até São Jerônimo e prostraram-se a seus pés, pedindo perdão e agradecendo o acolhimento.

Jerônimo ainda disse aos monges: "deem os refrescos a eles e deixem partir com os seus camelos e suas cargas". Através do Leão, Deus supre as necessidades do mosteiro.

Os mercadores, como retribuição e gratidão, ofereceram metade do óleo que os seus camelos carregavam para que fosse usado nas lâmpadas do mosteiro e ainda deixaram alimentos para os monges. Então, o chefe dos mercadores ainda disse: “Nós daremos todo o óleo que vocês precisarem durante todo o ano e nossos filhos e netos serão instruídos a também seguirem esta ordem: nada de sua propriedade será jamais tocado por qualquer de nós”.

São Jerônimo aceitou a oferta e os mercadores, de sua parte, aceitaram os refrescos e partiram com a bênção do Santo, voltando alegres para o seu povo.

São Jerônimo, tirando uma lição de toda essa história, respondeu à pergunta que ele mesmo havia feito anteriormente: "Vejam, meus irmãos, o que Deus tinha em mente quando nos mandou o seu leão!"

Esta narração foi adaptada por nós. Ela procura dar uma breve explicação do porquê a iconografia costuma apresentar São Jerônimo com um leão junto dele.

No livro "Vita Divi Hieronymi" (Migne. P.L., XXII, c. 209ff.), traduzido para o inglês por Helen Waddell em "Beasts and Saints" (NY: Henry Holt and Co., 1934), é onde podemos encontrar essa narração por inteiro. (JSG)

Fontes:
http://www.acidigital.com/santos/santo.php?n=96
http://www.franciscanos.org.br/carisma/artigos/saojeronimo.php
http://evangelizacaoefe.blogspot.com/2009/10/vida-de-sao-jeronimo.html


SÃO FRANCISCO DE BORJA, Presbítero Jesuíta e segundo sucessor de Santo Inácio na Companhia de Jesus - 30 de setembro.




Decidido a nunca mais servir um soberano que pudesse morrer, o Duque de Gandia abandonou a corte para se pôr nas mãos de Santo Inácio. Na Companhia de Jesus, haveria de ser grande na santidade, no governo e na dor.


A Imperial Toledo trocou as habituais vestes festivas pelo negro de luto naquele 1º de maio de 1539. A morte viera bater às portas de suas muralhas, ceifando a preciosa vida da imperatriz Isabel, cujo passamento deixou no esposo, Carlos V, e em todo o povo espanhol, uma tristeza inconsolável.
O formoso semblante da mais bela soberana das cortes europeias não mais encantaria a nobreza e a plebe. Só cabia sepultá-la junto a seus avós, Fernando e Isabel, os Reis Católicos. Partiu, pois, para Granada, um faustoso préstito conduzindo seus restos mortais.
O imperador confiou os cuidados do traslado a um homem da máxima confiança, para que nenhum imprevisto viesse aumentar sua dor, de si já tão grande. Era ele, Francisco de Borja, Marquês de Lombay, dedicado vassalo da mais alta linhagem, o qual lastimava como ninguém o fato de a imperatriz ter deixado esta vida no auge de sua esplendorosa existência. Silencioso e reflexivo, avançava à testa do cortejo que cruzou quase metade do país, chegando a Granada, onde o aguardava o monarca.



"Nunca mais servirei um senhor que possa vir a morrer!"

O longo trajeto propiciou ao jovem marquês graves e profundas meditações sobre o fim último do homem, semeando nobres propósitos em seu interior, pois não em vão promete o Eclesiástico: "Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente" (Eclo 7, 40). O acontecido fez evanescer a seus olhos as esperanças até então depositadas nas honras e dignidades deste mundo, uma vez que à sua senhora de nada serviram quando Deus a chamou para junto de Si.

Mas o instante decisivo ainda estava por vir. Com efeito, "depois de morta, a imperatriz pagou os serviços que lhe prestara em vida o marquês; estando viva, nunca fez a nosso Dom Francisco tão grande bem como fez sendo já defunta, como se verá pelo que em seguida aconteceu".

Ao chegar a Granada, precisava o marquês testemunhar perante os notários ser realmente aquele o corpo da soberana. Mas, ao abrir-se o caixão, espalhou-se no mesmo instante por todo o recinto o pior dos odores e constatou-se ser impossível reconhecer naquele cadáver, já putrefato, os traços daquela cuja beleza fora objeto da admiração geral.

Diante do cadáver putrefato da rainha, destituído agora de
toda beleza, o piedoso duque tomou a firme decisão: 
"nunca mais servirei um senhor que possa vir a morrer!" 


Ali mesmo, depois de cumprir sua dolorosa obrigação, Francisco de Borja consumou com uma resolução concreta as inspirações vindas da graça. Uma famosa sentença, tantas vezes repetida pelos seus biógrafos, teria selado essa decisão: "Nunca mais servirei um senhor que possa vir a morrer!".

E assim como Isabel perecera para esta vida, o futuro Duque de Gandia estava, dali em diante, morto para o mundo. Continuou ainda, é verdade, desempenhando suas obrigações e frequentando a corte, porque as circunstâncias o impediam de abandoná-la, mas isso seria apenas uma questão de tempo.

Tal mudança decisiva de espírito deu-se quando ele contava 28 anos, dividindo sua existência em duas fases bem distintas. O cristão exemplar que fora até então transformou-se interiormente no santo religioso cuja virtude "lavaria a mancha que outros tinham lançado sobre o seu nome de família".



Homem de confiança do imperador.

Francisco de Borja y Aragón-Gurrea nasceu em 28 de outubro de 1510, no palácio que a família possuía em Gandia, a uns 60 km de Valência. Era filho primogênito do terceiro Duque de Gandia e estava aparentado por linha materna com o Rei Católico, Fernando I de Aragão. Ainda menino, perdeu a progenitora e conviveu muito pouco com o pai, homem intensamente dedicado aos assuntos do Estado.

Após ter recebido a mais completa educação que o século de ouro espanhol podia oferecer, foi enviado a servir como pajem na corte, onde desempenhou brilhante papel. Não tardou o imperador Carlos em perceber o valor desse jovem, no qual estavam reunidas todas as qualidades que se poderia esperar de alguém de sua linhagem, sustentadas e sublimadas por notável humildade.

Aos 18 anos, por conselho da imperatriz, Francisco contraíra núpcias com uma das mais nobres e virtuosas damas da corte: Dona Leonor de Castro Melo e Menezes. Com ela teve oito filhos, todos educados segundo seu exemplo de justiça e piedade.

Por ocasião desse casamento, Carlos V outorgou-lhe o título de Marquês de Lombay e nomeou-o Cavalariço-Mor da imperatriz. E, pouco depois da morte da soberana, confiou-lhe o encargo extremamente árduo e delicado de Vice-Rei da Catalunha, porque "julgou Borja competente para começar pelo governo mais difícil".

Não eram poucas nem de pouca monta as obrigações que o espinhoso cargo lhe impunha. Porém, em meio a todas elas, o Marquês mantinha-se assíduo na oração e cultivava o costume da Comunhão diária, séculos antes de este se tornar comum entre os fiéis.


Antes mesmo de se tornar religioso, Francisco de Borja era
um católico piedoso e fervoroso, cumpridor fiel cumpridor
de seus deveres cristãos. Era chamado de "o duque santo". 


"O Duque Santo"

Com o falecimento de seu pai, em 1543, Francisco de Borja tornou-se o novo Duque de Gandia, título que trazia anexa a dignidade de Grande de Espanha, da qual desfrutavam apenas os 25 principais nobres do reino. Logo perceberam seus súditos como eram beneficiados em todos os sentidos pelo invulgar governante e passaram a chamá-lo de "o Duque Santo". Transparecia nele a bondade de sua alma "harmoniosa, serena, digna e delicada", qualidades para as quais contribuíam "sua nobre educação, sua fervorosa, implacável e constante ascese".

Mas o anseio de abandonar o mundo falava em seu coração mais forte do que todas as grandezas terrenas. E a morte da esposa em 1546, quando ele contava apenas 36 anos, veio possibilitar a realização de seus desejos de entregar-se por inteiro à vida de perfeição.

Um fato ocorrido bem mais tarde, quando esteve em visita a Portugal, já como membro da Companhia de Jesus, ilustra o impacto provocado por essa decisão. Convidado de improviso a pregar na Catedral de Évora, o santo lamentou não estar preparado para tanto e pediu licença para não fazê-lo. O Cardeal Infante Dom Henrique, contudo, saiu-se com esta réplica: "Para sermão, basta verem minhas ovelhas no púlpito, um homem que deixou tanto por Deus".


Admitido em segredo na Companhia.

Nessa época, outro espanhol de nobre estirpe, que tudo abandonara para dedicar-se exclusivamente ao serviço de Deus, consolidava em Roma a sua providencial fundação, alicerçando com sabedoria uma obra iniciada com audácia: era Inácio de Loyola expandindo a Companhia de Jesus.

Francisco de Borja admirava essa nova família espiritual, então, nos seus primeiros anos de existência. Certo dia de 1541, na qualidade de vice-rei da Catalunha, escreveu a Inácio uma carta. Tendo-a em mãos, o santo fundador proferiu um surpreendente vaticínio: "Quem acreditaria que, com o tempo, este senhor entrará na Companhia e virá governá-la em Roma?".6

Cerca de sete anos depois, o Duque de Gandia — já viúvo e ignorando essa previsão — procurava saber em qual Ordem religiosa Deus o queria. Na dúvida, consultou seu confessor, o franciscano Frei João Texeda, o qual lhe respondeu: "Vossa Senhoria deve entrar na Companhia de Jesus".7 O conselho realmente vinha de encontro às suas aspirações interiores, fato que o levou a escrever a Santo Inácio, e este o admitiu logo na Ordem Jesuíta. Recomendou-lhe, porém, manter por enquanto tudo em segredo até que estivesse livre das obrigações inerentes ao ducado de Gandia e à sua família.

Assim, ele fez a profissão em fevereiro de 1548, dando mostras de impressionante compenetração, mas continuou a exercer suas importantes funções públicas. Em agosto de 1550, recebeu o doutorado, finalizando os estudos preparatórios para o sacerdócio, assinou seu testamento e transferiu provisoriamente o governo do Ducado de Gandia ao seu herdeiro, Dom Carlos.



Encontro com Santo Inácio.

Gozando agora da plena liberdade dos filhos de Deus, Francisco dirigiu-se a Roma, a fim de conhecer Inácio de Loyola. Partiu com sobrenatural sofreguidão por chegar logo, mas não pôde esquivar-se de uma ilustre comitiva de clérigos e nobres. Em fins de outubro, chegava à porta da Casa Professa dos Jesuítas, onde o esperava Santo Inácio, à frente de toda a Comunidade. Os dois santos prostraram-se de joelhos um diante do outro, e Francisco osculou repetidas vezes as mãos de seu fundador.

De Roma, escreveu ao imperador Carlos V, em 10 de janeiro de 1551: "Tendo, pois, após a morte da Duquesa, pesado minha escolha, e tendo pensado durante quatro anos, e tendo feito orar, por esta intenção, diversos servos de Deus, e crescendo cada dia o meu desejo e desaparecendo as trevas do meu coração, embora eu não merecesse ser empregado na vinha do Senhor, sobretudo chegando tão tarde e limitando-se até agora a minha tarefa de arrancar as vides, que outros plantavam; mesmo assim, sendo sem medida a bondade divina e sua clemência um oceano imenso, aprouve-lhe decidir seus servos da Companhia de Jesus a admitir-me em sua Ordem, na qual desde há muito eu desejo viver e morrer".

Um mês depois, em carta a Guilherme de Prat, Bispo de Clermont, demonstrou o quanto estava convicto do importante papel da Ordem Jesuíta naqueles que foram os anos mais candentes da Contrarreforma: "A divina sabedoria prodigalizou, noutros tempos, outros meios de prover às necessidades da Igreja; hoje parece ter escolhido esta Companhia para que, pela palavra, pelo exemplo e por todas as obras de caridade, ela socorra a sua Esposa".


De joelhos, São Francisco de Borja pede
a benção a Santo Inácio de Loyola.
Convívio com o fundador.

Certamente quis Deus compensar os dissabores sofridos por Santo Inácio nos primeiros anos da Ordem recém-fundada, ao mandar-lhe este filho de ouro. Todos em Roma mostravam-se assombrados com sua despretensão. Esta o levava, por exemplo, a servir a mesa e a lavar as vasilhas com a mesma naturalidade com a qual pouco antes governava a Catalunha. E nada podia encantar mais os circunstantes do que ouvi-lo falar sobre Nossa Senhora, pois, quando o fazia, tinha o dom de aumentar a devoção dos ouvintes.

Intensos e fecundos foram os meses passados junto ao fundador. Como São Francisco Xavier, foi este outro Francisco um daqueles que mais profundamente conheceu seu coração e, de modo mais integral, soube espelhá-lo no próprio. Seguindo o exemplo de fidelidade a Santo Inácio dado pelo Apóstolo das Índias, Francisco de Borja foi confidente e, mais tarde, executor dos grandes anseios do fundador, pois se sabe que, neste período inicial, "os dois santos se comunicaram longamente seus projetos".10 Ao longo de algum tempo de convívio, pôde ele receber o carisma inaciano em sua pureza e plenitude.



Grande também na hora da dor.

De volta à Espanha, o Duque de Gandia renunciou perante tabelião público a todos os seus Estados, títulos e bens, revestiu-se do traje jesuíta e foi ordenado sacerdote em 23 de maio de 1551.

Celebrou sua primeira Missa pública no mês seguinte, perante uma assistência de dez mil fiéis, e todos os que comungaram quiseram receber a Sagrada Eucaristia das suas mãos. Peregrinou ao Castelo de Loyola, em cujo oratório celebrou uma Missa, e por fim se estabeleceu em Onhate, no País Basco, bem longe da corte e dos seus familiares.

Apesar de seus anelos, não conseguiu passar despercebido naquelas paragens, inclusive porque seu apostolado arrastava multidões. Mas o êxito inicial não impediu a chegada de indizíveis sofrimentos que se entrelaçaram num quadro dramático.

Alguns advinham da hostilidade do rei Felipe II, que tinha queixas contra a família Borja (ou "Bórgia"); outros decorriam de problemas internos da Companhia, aos quais vieram somar-se uma longa série de enfermidades. Provando-o assim, a Providência manifestava, por um prisma mais elevado, a predestinação de Francisco, que foi grande em tudo, especialmente na dor.


São Francisco de Borja foi o segundo
sucessor de Santo Inácio no governo
da Companhia de Jesus. 


Sucessor de Santo Inácio.

Após a morte de Santo Inácio, em 1556, o padre Diego Laynez governou a Companhia por nove anos, dois como Vigário Geral e sete como Superior Geral, vindo a falecer em 1565. Em seu leito de morte, fitou longamente o padre Francisco de Borja, numa premonição do futuro que o aguardava. As eleições realizadas nesse mesmo ano confirmaram seu mudo presságio, pois foi ele o escolhido. A unanimidade com que todos se voltaram para o Santo constitui uma prova de estarem convictos do quanto este representava o espírito da Instituição.

Deste período de sua vida chegaram até nós preciosos documentos, como seu diário e cartas. As missivas por ele redigidas enquanto Geral revelam o perfil do santo e do homem de governo: em linguagem clara e direta, oferecem recomendações dadas por quem conhece tanto as agruras dos caminhos quanto a fragilidade do homem que os trilha.

Aos superiores locais, por demais severos com os subalternos, exigia maior brandura e afabilidade. Já aos missionários tentados de desânimo pelas fadigas do apostolado, não escondia o quanto seu coração de pai era sensível à bravura de que vinham dando mostras: "Animem-se ainda pensando na consolação que nós, na Europa, sentimos, louvando o Senhor pela coragem que Ele dá aos que lá longe lutam por seu amor", escreveu em 1568 ao padre Gregório Serrano, em missão no Brasil recém-descoberto.

Entretanto, diante de religiosos empedernidos, sabia valer-se da autoridade facultada por seu cargo e não admitia contemporizações. Em caso de necessidade, comenta um de seus biógrafos: "era enérgico, dizendo que Santo Inácio preferia ver sair da Companhia um sujeito mau a ver entrar nela um bom".


Partida para a glória eterna.

Por sete anos governou a Companhia de Jesus. Neles coube-lhe a grave responsabilidade de formar a primeira geração de religiosos que não conheceu o fundador, tarefa desempenhada com exímia fidelidade. Sob seu generalato, a Ordem adquiriu estabilidade, abriu numerosos colégios e consolidou-se nas missões. Em tão curto período, 66 jesuítas foram martirizados, entre os quais Padre Inácio de Azevedo e seus 39 companheiros.

O falecimento de São Francisco de Borja, ocorrido em Roma, na madrugada de 1º de outubro de 1572, foi uma partida cheia de alegria para a Pátria Eterna, própria de quem deu tudo por Deus e estava prestes a receber d'Ele incomparavelmente mais.


Aguilhão na consciência dos mundanos e poderosos.

Ao gênio inspirado do quarto Duque de Gandia, deve a Santa Igreja dois notáveis benefícios: a instituição das casas de noviciado, adotada por outras ordens e congregações religiosas à vista dos bons resultados colhidos pelos jesuítas, e a fundação da Universidade Gregoriana de Roma.

Num plano menos imediato, que os séculos de distância nos permitem distinguir melhor, vemos nele um expoente da Contrarreforma, cujo exemplo foi um aguilhão na consciência dos mundanos e poderosos de seu tempo, os quais, ao abrirem as portas de suas almas para o fermento neopagão do Renascimento, "já eram os legítimos precursores do homem ganancioso, sensual, laico e pragmático de nossos dias, da cultura e da civilização materialista em que cada vez mais vamos imergindo".

Hoje, embora nosso contexto sociocultural seja diverso daquele no qual viveu este Grande de Espanha e Geral da Companhia de Jesus, sua entusiasmante fidelidade a Cristo e à Igreja nos convida a pedir homens que façam, na época presente e com os métodos atuais, obras ainda maiores às realizadas por ele na sua. Roguemos que, do Céu, São Francisco de Borja nos conduza às mais ousadas e corajosas iniciativas evangelizadoras que a maior glória de Deus tanto merece.


(Revista Arautos do Evangelho, Set/2011. n. 117, p. 32 a 37).