Meus
cumprimentos a todos os que lerão o seguinte artigo a respeito da história da
origem do famoso (talvez, um dos mais famosos) título mariano: Nossa Senhora
do Carmo ou Nossa Senhora do Monte Carmelo, bem como a respeito de como praticar
a devoção a esse glorioso e tão popular título mariano.
Durante
uns 4 anos fui membro titular da ABHAGI: Academia Brasileira de Hagiologia, com
sede na cidade de Fortaleza, capital do Ceará.
Atualmente,
sou membro honorário, por razões particulares que me impediam de frequentar regularmente
às reuniões da mesma, coisa que os Estatutos recomendam aos membros que moram
em Fortaleza, bem como em cidades relativamente próximas.
Mas,
mesmo não sendo mais membro titular, louvo à misericórdia e à providência de Deus
nosso Senhor, que me fez ocupar por um bom tempo a cadeira número 12, cuja
Patronesse era, exatamente, Nossa Senhora do Carmo.
Hoje,
dia dedicado à sua honra, nós, carmelitas – pois, pertenço à OCDS: Ordem dos
Carmelitas Descalços Seculares - comemoramos sua Solenidade de maneira muito
festiva, com nossos corações em júbilo filial e devocional. Para nós,
carmelitas, Nossa Senhora do Monte Carmelo não é “apenas” mais um título mariano
(não desmerecendo os outros, até porque, trata-se da mesma Virgem Maria de
Nazaré, Mãe de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo), mas, é nossa Mãe, Rainha,
Senhora e, até mesmo, nossa Irmã (isso mesmo! Nossa Irmã!), pois, em aparição a
São Simão Stock, Padre Geral da Ordem Carmelita no dia da aparição: 16 de julho
de 1251, Maria Santíssima chamou aos carmelitas de “meus irmãos” e à Ordem de “minha
confraternidade”. Imaginem que honra para nós. Que alegria nos invade a alma em
sabermos que a Mãe de Deus se considera também uma “carmelita”!
Espero que a leitura do artigo: que foi minha apresentação à Academia ao assumir a cadeira de membro titular da mesma, seja do agrado e seja muito útil à todos que o lerão. Feliz dia de Nossa Senhora do Carmo! Milhões de “vivas” a Ela no Céu e na Terra!
1.
Nossa Senhora do Carmo
Quem
é Nossa Senhora do Carmo? Esse título remonta ao final do Século XII e ao Monte
Carmelo, donde deriva, por abreviação, o nome “Carmo”. A Santíssima Virgem
Maria, mãe de Deus e nossa mãe, tem centenas de títulos e honrarias. Sua
santidade eminentíssima, nimbada de inúmeras virtudes, a devoção popular,
existente desde os primórdios do cristianismo, bem como várias aparições,
fizeram com que Nossa Senhora tivesse muitos “nomes”. Desnecessário é dizer que
não existem títulos marianos “superiores”, pois todos remontam e referem-se à
mesma Santíssima Virgem, mãe de Jesus, Deus-Homem verdadeiro. No entanto,
parece que algumas devoções galgaram uma “fama” maior que as outras. Por
exemplo, aqui no Brasil, podemos destacar alguns títulos que caíram na simpatia
ou agrado populares: Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Nossa
Senhora de Lourdes, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora da
Conceição e, também, Nossa Senhora do Carmo.
2.O
Monte Carmelo
O
Monte Carmelo é uma cadeia montanhosa, situada na região de Haifa, Israel. Tem
aproximadamente trinta quilômetros de extensão e uns seis a sete quilômetros de
largura. Eleva-se na costa do Mar da Galileia. É um lugar belíssimo, cheio de
muitas espécies de vegetação que praticamente só são encontradas lá.
Caracteriza-se também por ser um “monte florido”, visto que lá também são
encontradas plantas com lindas flores, tanto que o rei e profeta Salomão, em
seu Cântico dos Cânticos, citando o elogio do amante para a amada diz: sua
cabeça é florida como o Carmelo. O nome: “Carmelo”, significa exatamente
isso: jardim florido.
3.
Monte do Profeta Elias.
Considerado
como o “monte de Elias”, tanto por indicação das Sagradas Escrituras quanto
pela tradição local, o Monte Carmelo sempre foi cercado por devoção e por uma
“espiritualidade oracional” ali presente. Foi no Carmelo que o profeta Elias,
após três anos de dura seca, avistou a nuvenzinha do tamanho de uma mão
(conferir em I Reis 18, 44): que se ergueu do mar e que se transformou em chuva
torrencial. Piedosa tradição local sempre atribuiu a esta “nuvenzinha” a uma
prefiguração da Virgem Maria, a pobre e simples jovem de Nazaré que traria ao
mundo a “chuva copiosa” da redenção da humanidade: Cristo Jesus.
Assim,
graças a essa dupla devoção e tradição: eliana e mariana, o Monte Carmelo
sempre foi considerado um lugar especial de encontro com Deus. Assim como
outros montes em Israel, era considerado “santo” ou “sagrado”.
4.Os
elianos
Antiga
tradição, relatada no livro “História dos Primeiros Monges”, afirma que o Monte
Carmelo sempre foi um lugar muito procurado por aqueles que desejavam uma vida
de oração e recolhimento.
Por
causa de uma peculiar característica de sua geografia: ter rochas calcárias
porosas cheias de grutas naturais, o lugar desde os tempos do profeta Elias
abrigou homens que buscavam ali o recolhimento e solidão necessários para a
oração e, portanto, para estar em contato com Deus. Essa tradição atravessou
séculos: do século V antes de Cristo (época do profeta Elias) até os séculos VI
e VII da era cristã.
Estes
piedosos homens seguiam o estilo de vida do profeta Elias. Viviam em contínua
oração, praticavam jejuns e penitências austeras, entregando suas vidas a Deus.
Por causa disso, eram conhecidos como “elianos”, ou “filhos do profeta”.
5.Tempos
sombrios do islamismo.
Os
séculos VII e VIII da era cristã assistiram ao surgimento do Islã e das guerras
“santas” perpetradas pelas diversas tribos árabes unidas pela religião fundada
por Maomé. Judeus ou cristãos que por
ventura ali habitavam foram expulsos, presos ou até mesmo mortos. Toda a região
foi dominada pelos muçulmanos, comandados por seus líderes político-religiosos.
Até o Século XII, portanto, o Monte Carmelo ficou praticamente “abandonado”,
visto que o cristianismo foi banido daqueles lugares santos.
6.Os
novos eremitas do Monte Carmelo.
Com
o advento das Cruzadas e após significativas vitórias dos exércitos cristãos na
II Cruzada, aquelas terras voltaram à pertença cristã. Muitos cruzados, nobres
e plebeus, cheios de religiosidade e piedade, resolveram não mais voltar para a
Europa e se estabeleceram na Terra Santa. Algumas dezenas deles dirigiram-se ao
Monte Carmelo e ali ficaram, habitando algumas grutas como se fossem “celas”,
surgindo assim um movimento eremítico naquele lugar.
Como
já havia dito tudo era propício: o lugar era lindo, calmo, silencioso,
propiciando a contemplação, alimento para a alma, além de ter água em
abundância (a “fonte de Elias”) e condições de serem plantadas leguminosas que
garantiam o sustento de seus corpos. Estavam felizes. Eram homens realmente
muito religiosos, como a grande maioria dos cruzados, que vieram à Terra Santa
com o santo propósito de libertá-la das mãos dos muçulmanos, que durante
séculos dominavam aquelas terras que eles veneravam com todo ardor. O homem
medieval era bem diferente do homem moderno. Sua cultura e pensamento eram
“teocêntricos”. Eles realmente se importavam (ou se incomodavam?) com o fato de
os lugares onde Jesus e Maria viveram estarem sob o domínio de inimigos de
Cristo e da cristandade.
7.Surge
uma nova família religiosa: os Irmãos da Bem- Aventurada Sempre Virgem Maria do
Monte Carmelo.
Como
o Monte Carmelo, por tradição, era um monte eliano e mariano, os eremitas,
liderados por Brocardo e Bertoldo, ambos ex-cruzados, eram muito devotos de
Nossa Senhora, além de serem imitadores do profeta Elias, vivendo em uma vida
de oração e penitência austeras. Foi quando eles tiveram uma “ideia”: pedir ao
então patriarca latino de Jerusalém, dom Alberto de Vercelli, santo bispo
italiano, uma “Regra” de vida que os ajudasse a viverem não mais como
“eremitas”, mas, como “cenobitas”, isto é, partilhando juntos a Santa Missa, a
Liturgia das Horas e as refeições. Isso foi feito. Surgiu, então, no começo do
Século XIII, por volta de 1210 – 1214, a Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada
Sempre Virgem Maria do Monte Carmelo, ou Ordem dos Carmelitas, que dura até os
dias de hoje. Os santos irmãos veneravam um belíssimo ícone estilo bizantino,
que eles chamavam de “a Senhora do Lugar”, que atualmente é venerado na Itália,
na igreja dos Carmelitas, em Nápoles, carinhosamente chamado de “La Bruna”,
devido à tez morena da Virgem Maria. A Regra, alguns anos mais tarde, foi
aprovada pelo papa Inocêncio IV.
8.Expulsão
da Terra Santa e migração da Ordem dos Carmelitas para a Europa.
Providencialmente,
pois, até do mal Deus sabe tirar um bem maior, os irmãos carmelitas foram
obrigados a deixar o Monte Carmelo, devido ao retorno e nova invasão das tropas
muçulmanas na Terra Santa. Às pressas, retornaram à Europa. Vinham em navios e
barcos pelo Mar Mediterrâneo. Alguns grupos ficaram na Sicília. Outros foram
para a França e Inglaterra, possivelmente por causa de sua nacionalidade.
Mas,
infelizmente, a chegada à Europa daqueles novos religiosos, quase
desconhecidos, não foi nada tranquila. A
Ordem Carmelita, recentemente vinda da Terra Santa, encontrou sérios obstáculos
para se estabelecer na Europa. Muitos bispos e também superiores de outras
Ordens já existentes, como, por exemplo, os Dominicanos, os Franciscanos, os
Mercedários e os Trinitários, se opunham que uma nova Ordem religiosa viesse
para seus países e terras, temerosos, talvez, que os escassos recursos de seus
benfeitores fossem “drenados” para essa nova Ordem até então desconhecida.
9.A
grande aparição de Nossa Senhora do Carmo
Em meados do século XIII, era padre geral da Ordem São Simão Stock, sacerdote muito santo e devotíssimo da Virgem Maria. A pressão junto à Santa Sé era muito grande. O risco de extinção da Ordem era iminente. São Simão Stock voltou-se com todas as suas forças para a Virgem Maria, mãe, patrona e fundadora da Ordem. Dia e noite, com lágrimas e jejuns, implorou a assistência e amparo de Nossa Senhora: criou, para isso, belíssima oração/poema, que ainda hoje os carmelitas rezam e cantam com devoção: o “Flos Carmeli”:
“Flos carmeli, vitis
florigera. Esplendor coeli, Virgo puerpera: singularis.
Mater mitis, sed viri nescia. Carmelitis, esto propicia. Stela maris”! (…)
“Flor
do Carmelo, videira florida, esplendor do céu, virgem puérpera: singular!
Mãe suave, mas, desconhecida pelos homens*. Aos carmelitas, sê propícia, Estrela do Mar”!
*
Neste caso, os que não conheciam ainda a
invocação ou título de Nossa Senhora do Carmo.
Foi
quando, segundo piedosa tradição na Ordem, no dia 16 de julho de 1251, a Virgem
Maria, em esplêndida aparição, cercada por uma multidão de anjos, apareceu.
Trazendo em sua mão o escapulário do hábito dos carmelitas, assim falou ao
santo frade:
Eis
aqui o Escapulário de vossa Ordem, sinal de minha confraternidade e de minha
aliança sempiterna com meus irmãos carmelitas. Todo aquele que morrer revestido
com ele não padecerá o fogo eterno.
Maria garantia, assim, que Ela não era apenas a mãe ou patrona da Ordem, mas, a irmã dos frades carmelitas. Abençoando o Escapulário, tornou-o não mais somente uma espécie de “avental” do hábito, mas, a partir de então, um sacramental, um sinal de sua especial proteção e assistência à Ordem.
10.O
Santo Escapulário de Nossa Senhora do Carmo
Muitas
graças, sinais e até milagres começaram a acontecer por meio das orações e
presença do escapulário do hábito dos carmelitas: curas físicas, mentais e
espirituais ocorriam às centenas, aos milhares! O povo, graças à presença e
pregação dos carmelitas passou a ter grande devoção pela Virgem Maria que eles
veneravam sob o título de Nossa Senhora do Monte Carmelo ou, abreviando, Nossa
Senhora do Carmo. Muitos jovens pediam para ser admitidos à Ordem. Aos muitos
leigos, desejosos de usar aquele maravilhoso sacramental, foi permitido que
usassem um escapulário de tamanho reduzido. Graças de conversão, libertação,
salvação e muitas curas continuaram a se realizar através do santo “bentinho”,
carinhoso nome dado ao objeto religioso.
11.A
Ordem do Carmo começou a prosperar na Europa.
As
comunidades religiosas cresciam e multiplicavam-se, devido à grande procura das
vocações à vida religiosa entre os frades. Os prelados e as demais Ordens
viram-se obrigados a reconhecer que havia sobre aquela Ordem vinda da Terra
Santa uma especial assistência da Mãe de Deus. Novos conventos foram
construídos. Os frades, além da ação pastoral, como pregadores itinerantes, que
percorriam as cidades, vilas e vilarejos, também dedicavam-se aos estudos de
filosofia e teologia. Muitos se tornaram grandes mestres nas principais
universidades da Europa medieval, como, por exemplo o Beato Batista Spagnolli
ou Mantovano, renomado e exímio teólogo, talvez tanto quando os egrégios Santo
Tomás de Aquino e Beato João Duns Scotus.
12.O
Privilégio Sabatino
Setenta
anos depois, no reinado do papa João XXII, grande devoto de Nossa Senhora, a
Virgem Maria veio do Céu mais uma vez confirmar a devoção ao Escapulário do
Carmo. Estava o Santo Padre em oração quando Maria Santíssima lhe apareceu. Na
ocasião, disse-lhe:
João,
meu filho, és-me devedor da grande dignidade que eu lhe alcancei de meu amado
Filho. Quero que confirmeis e aproveis a Ordem dos Irmãos Carmelitas,
especialmente consagrada e dedicada a Mim.
E prometo que, no sábado seguinte à sua morte, retirarei do Purgatório aos
irmãos carmelitas que ali encontrar.
Surgiu,
assim, o chamado “Privilégio Sabatino”, também muito divulgado pela Ordem.
Uma
observação: Como a aparição acima foi de caráter particular
ao Papa e não é dogma de fé – portanto de credibilidade facultativa – a Igreja
hoje em dia não fala mais em: “sábado seguinte à sua morte, mas, que “o mais
brevemente possível” a Virgem tirará do Purgatório as almas de seus irmãos carmelitas
que lá encontrar.
Assim, com o passar dos anos, a Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, tomou crescente impulso, sendo uma das Ordens religiosas mais importantes e influentes da História da Igreja. Muitos foram os santos e santas, frades, monjas e seculares, pertencentes a essa santa Ordem. Como não citar alguns cujos nomes são eminentíssimos? São Simão Stock, Santo Alberto de Trápani, São Pedro Tomás (bispo), Santo André Corsini (bispo), Santa Maria Madalena de Pazzi (grande mística), Beato Batista Spagnolli ou Mantovano (grande teólogo), Santa Teresa de Jesus ou de Ávila (doutora da Igreja), São João da Cruz (doutor da Igreja), Santa Teresinha do Menino Jesus (doutora da Igreja e patrona das missões), Beata Josefa Naval Girbés, Beato Francisco Palau, Santa Teresa Benedita da Cruz, Beato Tito Brandsma, Santa Teresa de Los Andes, Santa Maria Maravilhas de Jesus, Santa Elisabete da Trindade, Santa Maria de Jesus Crucificado e tantos outros!
Muitos
outros santos e santas, que não foram religiosos carmelitas, mas, da Confraria
do Carmo ou da Ordem Terceira, deram exemplo e foram grandes apóstolos da
devoção à Virgem do Carmo: Santo Afonso Maria de Ligório, São João Bosco, São
Pompílio Maria Pirroti, São João Maria Vianney (o cura d’Ars), Santo Henrique
de Ossó y Cervelló, São Vicente Pallotti, São George Preca, São Josemaría
Escrivá de Balaguer y Albás, São João Paulo II etc. Este último, de saudosa e
santa memória, em carta dirigida aos padres gerais da Ordem Carmelita da Antiga
Observância (pe. Joseph Chalmers) e da Ordem dos Carmelitas Descalços (pe.
Camilo Maccise), por ocasião dos 750 anos (1251 – 2001) do aniversário do
Escapulário do Carmo, disse: Também eu levo no meu coração, desde há muito
tempo, o Escapulário do Carmo!
Por ocasião da exumação dos despojos mortais dos bem-aventurados São João Bosco e Santo Afonso Maria de Ligório, perceberam os que fizeram o reconhecimento de seus corpos que suas vestes haviam se desgastado totalmente, com a exceção dos escapulários de Nossa Senhora do Carmo que ambos traziam consigo, que haviam se conservado absolutamente intactos, como novos.
Como
praticar, então, a devoção a Nossa Senhora do Carmo?
Ser
devoto da Virgem do Carmo exige algo bem prático:
1.Consagrar-se
à Virgem Maria, com a imposição solene do Escapulário do Carmo,
feito por um sacerdote, em ritual próprio, aprovado pela Igreja.
2.Usar
devotamente o Escapulário*, não como “amuleto”, mas, como um
sinal de pertença a Nossa Senhora. O escapulário tem o sentido de “veste”:
estar “revestido” com o manto de Maria.
3.Ser
um (a) católico (a) praticante: a Santa Missa ao menos
aos domingos e dias santificados, frequentar os sacramentos (Confissão e
Eucaristia), amar e respeitar a Santa Igreja: sua hierarquia, sua doutrina,
mandamentos e normas.
4.Praticar
alguma devoção a Nossa Senhora: rezar o Santo Terço ou
ao menos alguma oração a Nossa Senhora, diariamente.
5.Antes
de tudo, a verdadeira devoção à Virgem Maria consiste em tentar imitar sua
virtudes. Evitar o pecado, amar e praticar o bem. Confiar
nossa vida inteiramente a Ela, entregando-Lhe tudo que somos e tudo que temos,
pois Ela é nossa Rainha, Senhora e Mãe (conferir em João 19, 26-27)
Observação:
O
Escapulário do Carmo, após ser recebido na imposição, poderá ser substituído
por um medalha chamada “supletória”. A medalha deverá conter: uma efígie
de Nossa Senhora (qualquer invocação) de um lado e uma efígie do Sagrado
Coração de Jesus do outro. A medalha deverá ser usada em casos especiais, se o
uso do Escapulário não for possível por justos motivos.
14.O
Simbolismo do Santo Escapulário de Nossa Senhora do Carmo
O
Escapulário de Nossa Senhora do Carmo tem em si um belo simbolismo. Nele
podemos contemplar e meditar vários aspectos, que remontam ao porquê de usá-lo
com devoção e fidelidade.
I
– Veste
O
Escapulário do hábito dos carmelitas era usado como uma espécie de “avental”,
que protegia a túnica do hábito de se sujar durante os trabalhos na ermida ou
no convento. Foi a partir da aparição da Virgem Maria a São Simão Stock que
Nossa Senhora conferiu-lhe um caráter sacramental, de sinal de sua especial
proteção.
Como
é feito de pano e passa por cima dos ombros (“escápulas”) é que recebe o nome
de escapulário. Ele cobre a parte anterior e posterior da túnica do frade ou da
monja.
Portanto,
como é um sacramental, passou a ter o sentido de “veste” mariana. Quem usa o
Escapulário do Carmo com devoção está “revestido de Maria”, isto é, se coloca
debaixo de seu “manto” protetor, de sua especial benevolência e amparo.
II
– Armadura ou Couraça
Pelo
fato de cobrir a parte anterior e posterior do corpo, lembra também uma
“couraça” ou “armadura”. O próprio apóstolo São Paulo na carta aos Efésios diz:
Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus
e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alertas, à
cintura cingidos com a verdade, o corpo revestido com a couraça da justiça, e
os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo,
embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do
Maligno (Efésios 6, 13-16)...
Portanto,
se usado de forma correta, com devoção, como sinal visível de nossa consagração
(que é invisível) à Virgem Maria, o Santo Escapulário é verdadeira couraça, que
nos defende dos ataques de satanás e seus demônios, bem como serve de lembrança
a nós mesmos de nossa fidelidade a Deus e à Igreja, por Maria.
III
– Cor marrom.
A
cor do Carmelo é marrom, nos diz nosso confrade Luciano
Dídimo em belíssimo poema. A cor marrom é a cor da terra, do barro, do húmus.
Deve nos lembrar de nossa condição humana, temporária e mortal. Um dia iremos
todos “voltar ao pó”, como diz o salmista: Reduzis o homem à poeira, e
dizeis: filhos dos homens, retornai ao pó (Salmo 89,3). Se desviais o
rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó
donde saíram (Salmo 103,9).
A
cor marrom do Escapulário nos recorda esta grande verdade: “somos todos pó e ao
pó haveremos de retornar”. Portanto, para que servem a vanglória, a arrogância,
a petulância ou qualquer espécie de soberba? Até mesmo o mais rico, o mais
poderoso e o mais sábio dentre os homens não passa de pó e barro. Um dia
morrerá e seu corpo servirá de pasto para os vermes da terra...
Assim,
o devoto de Nossa Senhora do Carmo deverá se conservar sempre humilde e
consciente de sua fraqueza, de sua pequenez, de sua pobreza e da finitude de
sua vida, mesmo que seja o homem mais rico da terra.
15.Ligação
da devoção a Nossa Senhora do Carmo com a devoção às Benditas Almas do
Purgatório.
Não
poucas imagens de Nossa Senhora do Carmo a associam às benditas almas do
purgatório. Na igreja matriz da Paróquia do Carmo, em Fortaleza – CE, por
exemplo, no teto por sobre o altar-mor, existe uma bela pintura do famoso
pintor Raimundo Ramos de Paula Filho (1871-1916), conhecido por Ramos Cotôco,
por lhe faltar o braço direito, que representa Nossa Senhora do Carmo
entronizada em nuvens, com o Menino Jesus ao colo, socorrendo algumas almas do
purgatório.
Maria Santíssima prometeu ao papa João XXII especial assistência “aos irmãos carmelitas” que encontrasse no purgatório quando o visitasse aos sábados. Ficou assim antiga tradição de recorrer à Virgem do Carmo especial assistência em favor das almas que possam ainda estar no fogo purificador do purgatório expiando suas penas temporais.
16. Iconografia
de Nossa Senhora do Carmo
A
iconografia de Nossa Senhora do Carmo está entre as mais variadas. Diferentemente da iconografia de Nossa
Senhora de Lourdes, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora de Fátima,
Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Piedade e muitas outras que se
conservam praticamente incólumes, as representações da Virgem do Carmo são
muito variadas.
Originalmente,
Maria era venerada no Monte Carmelo pelos eremitas através de um ícone, estilo
“Mãe da Ternura”, de origem bizantina. É uma imagem muito bela. Neste ícone,
Maria é representada com a pele morena (daí o nome “La Bruna”, isto é, “a
morena”), vestida com túnica vermelha (que representa a caridade de sua
maternidade divina), com manto azul marinho que lhe cobre a cabeça e o corpo
(sinal de sua virgindade perpétua), com uma estrela no ombro direito (sinal de sua
glória no céu), trazendo no colo o Menino Jesus que a acaricia e mantém seu
rosto colado junto ao rosto da mãe. O olho direito da Virgem está levemente
voltado para frente, como a nos olhar e o olho esquerdo voltado para o Menino,
significando que Ela, como nossa mãe, nos contempla e como mãe de Deus,
contempla o Menino Jesus. Jesus está vestido com túnica de pele, sinal da
encarnação do Verbo, que se fez verdadeiro homem em Jesus.
Atualmente
este ícone, trazido da Terra Santa em virtude da migração dos eremitas para a
Europa, é venerado na igreja dos Carmelitas, em Nápoles, Itália.
II
– Estátuas da Virgem do Carmelo
As
imagens com representação de Nossa Senhora do Carmo também são muito variadas.
Pode vir vestida como carmelita ou não, coroada ou não, entronizada ou em pé.
Sempre vem trazendo o Menino Jesus por sobre o braço esquerdo. Na mão direita
traz o Escapulário do Carmo em forma de um “bentinho” (escapulário menor),
podendo ou não trazer um cetro real, sinal de seu poder.
Quando
às vestes de Maria, na maioria das vezes vem vestida com uma túnica, um manto e
um escapulário que lembram o hábito das freiras carmelitas, no entanto, nem
sempre isso acontece, até porque, segundo a tradição, Nossa Senhora do Carmo,
quando apareceu a São Simão Stock, vinha entronizada, cercada de anjos e estava
vestida com vestes esplendentes, de cores branca e dourada, trazendo na mão o
escapulário do hábito dos carmelitas. Essa maneira de representar a Virgem
muitas vezes é usada em estátuas que mostram sua aparição ao santo frade
carmelita.
As imagens de patronas ou padroeiras de basílicas, de catedrais, santuários ou igrejas matrizes, geralmente são ricamente adornadas. As estátuas da Virgem vêm com vestes ricamente adornadas. Algumas, inclusive, com brincos, anéis e colares de ouro e pedras preciosas legítimas, doados por devotos ricos e/ou por autoridades eclesiásticas ou políticas que foram seus devotos. Em alguns lugares, a imagem da Virgem é estilo “santo do pau oco”, isto é, traz cabeça e membros (o tronco é apenas uma armação), vestida com vestidos de verdade, costurados com detalhes em ouro e pedras preciosas, tendo uma “peruca” feita com cabelos de verdade, doados por devotas, como forma de “ex-votos”.
III
– Pinturas
Os
quadros ou pinturas de Nossa Senhora do Carmo também são variados. Na maioria
das vezes ou representam Maria aparecendo a São Simão Stock, ou aparecendo para
as almas do purgatório ou como a Estrela do Mar, outro título mariano ligado à
Virgem do Carmo, em virtude de Maria ser o “porto seguro” para quem “navega”
nos “mares revoltos” deste mundo.
17.Culto
a Nossa Senhora do Carmo pelo mundo
Nossa
Senhora do Carmo é cultuadíssima por todo o mundo. Basta uma simples pesquisa
no site de pesquisas “Google”, por exemplo, para termos uma ideia desse fato.
Fazendo a pesquisa em língua portuguesa, em língua inglesa, espanhola, italiana
ou francesa, para citar as mais comuns, abrem-se diversos sites ou páginas em
referência a basílicas, santuários, igrejas, capelas, colégios e até mesmo
universidades que trazem Nossa Senhora do Carmo como patrona.
Nos
Estados Unidos, na Espanha, no México, no Chile, na Itália e aqui no Brasil,
são muitas as igrejas consagradas a Ela. Na maioria são belíssimos templos, com
decoração barroca ou em rococó e com imagens sacras que extasiam quem as
contempla.
O
Chile, por exemplo, a tem como sua padroeira e rainha. Inclusive, neste país
latino-americano ela é tida como: “Rainha e Patrona do Chile e Generala das
Forças Armadas e Comandante dos Carabineros e da Polícia Investigativa”.
Obviamente,
não podemos deixar de falar da Basílica que existe no Monte Carmelo (Haifa,
Israel), construída em sua honra sobre a gruta que a tradição diz ter sido a
“gruta de Elias, o tesbita”. Claro que no decorrer dos séculos o local sofreu
muitas alterações, porém, ainda existe parte dessa gruta, que fica debaixo do
altar mor, no qual o peregrino pode venerar o lugar onde Elias, o pai
espiritual do Carmelo, dedicava-se à oração e ao louvor do Senhor. Nesse templo
há uma imagem da Virgem Maria entronizada, com o Menino Jesus à esquerda. Maria
segura um cetro e um escapulário (bentinho), sinais de seu poder como a
onipotência suplicante e de sua especial proteção aos devotos do Santo
Escapulário e aos irmãos e irmãs da Bem-Aventurada Sempre Virgem do Monte
Carmelo.
18.
Devoção a Nossa Senhora do Carmo no Brasil
O
culto à Santíssima Virgem do Carmo, trazido pelos frades carmelitas descalços
que chegaram à Bahia no século XVII e pelos frades carmelitas da antiga
observância no século XVIII, em Recife, rapidamente se espalhou pelo Brasil.
Com certeza os frades (padres e religiosos) esforçaram-se por divulgar a graça
que é pertencer à Virgem Maria através do uso devoto do escapulário. Muitas
confrarias e arquiconfrarias surgiram. Em algumas cidades, como no Rio de
Janeiro, por exemplo, jovens moças que viviam em “beatérios” ou “recolhimentos”
foram admitidas à Ordem na qualidade de monjas, surgindo assim, os primeiros
mosteiros de clausura. Muitas são as paróquias e algumas dioceses consagradas a
Nossa Senhora do Carmo. O próprio Estado de Pernambuco, por exemplo, a tem por
sua padroeira.
Quem
passeia pelas cidades históricas de Ouro Preto, Tiradentes, Mariana e Salvador,
certamente encontrará uma linda igreja consagrada a Nossa Senhora do Carmo.
Tanto os frades carmelitas que por lá passaram como as Confrarias do
Escapulário e a Ordem Terceira do Carmo, muitos deles com personalidades
riquíssimas em suas fileiras, construíram belos templos, com rica decoração,
muitos deles, inclusive, com revestimento de ouro em altares principal e
secundários.
Muitas
são as paróquias que tem um altar ou um nicho que traz a imagem da Virgem do
Carmo, mesmo quando o (a) padroeiro (a) principal é outra invocação de Maria
Santíssima ou de outro (a) santo (a). Até mesmo em nosso amado Canindé de São
Francisco das Chagas, na gloriosa basílica menor erguida em honra do santo, há
uma belíssima imagem de Nossa Senhora do Carmo no altar especialmente dedicado
ao Santíssimo Sacramento.
Em
nossa capital, Fortaleza, temos a Igreja e Paróquia de Nossa Senhora do Carmo,
inaugurada em 1905, de graciosa arquitetura, situada no quarteirão formado pela
Avenida Duque de Caxias e pelas ruas Barão do Rio Branco, Major Facundo e
Clarindo de Queiroz. Como já citado anteriormente, apresenta, por sobre o altar
principal, no teto, bela pintura de Ramos Cotôco, além da linda imagem da
padroeira, com a Virgem e o Menino Jesus coroados.
Fontes para consulta e aprofundamento:
História dos Primeiros Monges (livro tradicional, de autoria desconhecida)
O Carmelo e nossa história,
Frei Ildefonso Moriones, ocd (postulador geral da Ordem na época da
publicação).
Devoção a Nossa Senhora do Carmo, Frei Patrício Sciadini, ocd
O Carmelo é o meu mundo,
Frei Patrício Sciadini, ocd.
Carta do Papa João Paulo II aos Padres Gerais, por ocasião do
750 anos do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo (disponível para pesquisa na internet).
Sites carmelitanos
http://ocdsprovinciasaojose.blogspot.com.br/
http://www.carmelitaniscalzi.com/
(site oficial da Casa Geral dos Carmelitas Descalços)
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