"Eis o Coração que tanto amou os homens... e, em reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão desprezos, ingratidões e indiferença"... (Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque)
A preocupação do Senhor com a ovelha perdida é relembrada na liturgia do Sagrado Coração de Jesus. O bom pastor tem todo o seu coração voltado para as suas ovelhas, não para si mesmo. Ele provê as suas necessidades, cura as suas feridas e protege-as dos animais selvagens. Ele conhece cada ovelha pelo nome e, quando as conduz ao pasto, chama-as uma a uma. Ele cuida especialmente da ovelha perdida, não poupando esforços pela alegria de a encontrar. Uma ovelha perdida está completamente indefesa; pode cair num fosso ou ficar presa em sarças. Mas é precisamente nesse momento, em meio ao perigo, que descobre o quão precioso é o seu pastor: depois de a encontrar, ele a carrega alegremente de volta ao aprisco nos ombros. Se um lobo se aproxima, o bom pastor não foge, mas arrisca até a própria vida pelas suas ovelhas. Nesses momentos, o coração do bom pastor se revela.
Doce Coração do meu Jesus, fazei-me amar-Vos cada vez mais!;
Ó Jesus, ardendo de amor, que eu jamais Vos tenha ofendido!
Estas
são algumas das muitas orações jaculatórias amorosas e devotas que foram e são
recitadas pelos católicos ao longo dos séculos em honra do Sagrado Coração de
Jesus. Em sua poesia simples, expressam gratidão pelo amor infinito de Jesus
pela humanidade e, ao mesmo tempo, o desejo de retribuir, expresso pelas
muitas almas em chamas e apaixonadas por Cristo.
A
Igreja Católica presta homenagem ao Sagrado Coração de Jesus com a
"latria" (adoração somente a Deus, a Jesus Cristo e à Eucaristia),
honrando assim: I. o Coração de Jesus Cristo, um dos órgãos que
simbolizam a Sua humanidade, que, por sua íntima união com a Divindade, merece
adoração; II. o amor do Salvador pela humanidade, simbolizado pelo Seu
Coração.
Esta
devoção, já praticada na antiguidade cristã e na Idade Média, difundiu-se no
século XVII através da obra de São João Eudes (1601-1680) e, especialmente, de
Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690). A festa do Sagrado Coração foi
celebrada pela primeira vez na França, provavelmente em 1685.
Santa
Margarida Maria Alacoque, uma freira francesa, ingressou no convento das
Visitandinas de Paray-le-Monial (Saône-et-Loire) em 20 de junho de 1671. Ela
viveu sua experiência religiosa com grande simplicidade e misticismo, e faleceu
em 17 de outubro de 1690, com apenas 43 anos de idade.
Sob essa aparente uniformidade, porém, jazia uma das grandes vidas do século XVII. De fato, no ambiente simples do claustro da Visitação, ocorreram as principais etapas da ascensão espiritual de Margarida, que se tornou mensageira do Coração de Jesus na era moderna.
Mesmo antes de entrar para o convento, ela já possuía dons místicos que foram acentuados por sua nova condição de freira. Ela teve inúmeras manifestações místicas, mas em 1673 começaram as grandes visões que a tornaram famosa; Houve quatro grandes revelações, além de inúmeras outras de menor importância.
A
primeira visão ocorreu em 27 de dezembro de 1673, festa de São João
Evangelista. Jesus apareceu a ela, e Margarida sentiu-se “completamente
envolvida pela presença divina”. Ele a convidou a ocupar o lugar que São João
ocupara durante a Última Ceia e disse-lhe: “Meu divino Coração está tão
apaixonadamente cheio de amor pela humanidade que, não podendo mais conter em
si as chamas de sua ardente caridade, precisa espalhá-las. Eu a escolhi para
cumprir este grande plano, para que tudo seja feito por mim”.
Uma
segunda visão lhe apareceu no início de 1674, talvez numa sexta-feira. O divino
Coração manifestou-se num trono de chamas, mais radiante que o sol e
transparente como cristal, rodeado por uma coroa de espinhos simbolizando as
feridas infligidas pelos nossos pecados e encimado por uma cruz, porque desde o
primeiro momento em que foi formado, já estava repleto de toda amargura.
Novamente
em 1674, uma terceira visão lhe apareceu, desta vez numa sexta-feira após a
festa de Corpus Christi. Jesus apareceu à santa, resplandecente de glória, com
suas cinco chagas brilhando como sóis, e chamas emanavam daquela sagrada
humanidade por todos os lados, mas especialmente de seu maravilhoso peito, que
lembrava uma fornalha. Quando o abriu, ela descobriu seu amoroso e amável
Coração, a verdadeira fonte daquelas chamas.
Então,
lamentando a ingratidão dos homens e sua negligência para com seus esforços em
lhes fazer o bem, Jesus pediu-lhe que compensasse isso. Exortou-a a receber a
Comunhão na primeira sexta-feira de cada mês e a prostrar-se com o rosto no
chão das onze horas até a meia-noite, na noite entre quinta e sexta-feira.
Assim
foram estabelecidas as duas principais devoções: a Comunhão na primeira
sexta-feira de cada mês e a Hora Santa de Adoração.
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| As promessas feitas pelo Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida. |
A
quarta, mais maravilhosa e decisiva revelação, ocorreu em 16 de junho de 1675,
durante a oitava de Corpus Christi. Nosso Senhor disse-lhe que se sentia ferido
pela irreverência dos fiéis e pelos sacrilégios dos ímpios, acrescentando: "O
que me comove ainda mais é que são os corações consagrados a Mim que fazem
isso".
Jesus
também pediu que a sexta-feira após a oitava de Corpus Christi fosse dedicada a
uma festa especial em honra do Seu Coração e com Comunhões para reparar as
ofensas recebidas d'Ele. Ele também nomeou o diretor espiritual de Margarida, o
jesuíta São Cláudio de la Colombière (1641-1682), superior da casa jesuíta de
Paray-le-Monial, como o responsável por difundir essa devoção.
Margarida Maria Alacoque, proclamada santa em 13 de maio de 1920 pelo Papa Bento XV, obedeceu ao chamado divino feito por meio de visões e tornou-se a apóstola de uma devoção que levaria os fiéis a adorar o Divino Coração, fonte e centro de todos os sentimentos que Deus nos mostrou e de todas as graças que nos concedeu.
As duas primeiras cerimônias em honra ao Sagrado Coração, com a presença do santo místico, ocorreram no Noviciado de Paray em 20 de julho de 1685 e, em seguida, em 21 de junho de 1686, com a participação de toda a comunidade Visitandina. Apartir
dessa data, o movimento nunca cessou, apesar de todas as adversidades que
surgiram, especialmente no século XVIII, em relação ao objeto dessa devoção.
Em
1765, a Sagrada Congregação dos Ritos declarou o coração de carne como símbolo
do amor; os jansenistas interpretaram isso como um ato de idolatria,
acreditando que somente o culto ao coração era possível, não um culto real, mas
metafórico.
O
Papa Pio VI (1775-1799), em sua bula papal "Auctorem fidei",
confirmou a expressão da Congregação, observando que se venera o coração
"inseparavelmente unido à Pessoa do Verbo".
Em
6 de fevereiro de 1765, o Papa Clemente XIII (1758-1769) concedeu à Polônia e à
Arquiconfraria Romana do Sagrado Coração a festa do Sagrado Coração de Jesus.
Na visão do Papa, essa nova festa tinha o propósito de difundir por toda a
Igreja os principais pontos da mensagem de Santa Margarida, que havia sido o
instrumento privilegiado para a propagação de um culto que sempre existira na
Igreja sob diversas formas, mas que, ainda assim, lhe conferia uma nova
direção.
Com
ela, não se tratava mais apenas de uma contemplação amorosa e adoração daquele
"Coração que tanto amou", mas também de uma reparação pelas
ofensas e ingratidão recebidas, por meio do aperfeiçoamento de nossas vidas.
A
santa dizia que "o amor conforma as almas", ou seja, o Senhor deseja
inspirar nas almas um amor generoso que, correspondendo ao Seu próprio amor, as
assimila interiormente ao modelo divino.
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| Imagem (estátua) tradicional em honra do Sagrado Coração de Jesus. |
A
devoção ao Sagrado Coração triunfou no século XIX, e o convento de
Paray-le-Monial tornou-se um destino de peregrinações constantes; em 1856, com
o Papa Pio IX, a festa do Sagrado Coração tornou-se universal em toda a Igreja
Católica.
Na
esteira da devoção que então abrangia todo o mundo católico, capelas,
oratórios, igrejas, basílicas e santuários dedicados ao Sagrado Coração de
Jesus surgiram por toda parte; um deles é o Santuário do Sagrado Coração em
Montmartre, Paris, iniciado em 1876 e concluído após 40 anos; todas as classes
sociais e militares da França contribuíram para os enormes gastos.
Proliferaram
pinturas e gravuras representando o Sagrado Coração flamejante, quase sempre
colocado sobre o peito de Jesus, que o aponta para a humanidade; organizou-se a
piedosa prática da primeira sexta-feira do mês, cujos adeptos usam um
escapulário com a imagem do Coração; compuseram-se as maravilhosas
"Ladainhas do Sagrado Coração"; o mês de junho foi dedicado à sua
devoção.
Para que o culto ao Coração de Jesus, iniciado na vida mística das almas, se difundisse e penetrasse a vida social dos povos, por exortação do Papa Pio IX em 1876, iniciou-se todo um movimento de "Atos de Consagração ao Coração de Jesus", partindo da família e estendendo-se a nações inteiras, realizado por Conferências Episcopais, mas também por governos esclarecidos e devotos; cito, entre outros, o presidente do Equador, Gabriel García Moreno (1821-1875).
O fervor dedicado à devoção ao Sagrado Coração foi tão grande ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX que, como consequência, surgiram inúmeras congregações religiosas, tanto masculinas quanto femininas. Entre as principais, destacam-se: a "Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração", fundada em 1874 pelo Beato Leão Dehon (Dehonianos); os "Filhos do Sagrado Coração de Jesus" ou Missões Africanas de Verona, congregação fundada em 1867 por São Daniel Comboni (Combonianos); as "Damas do Sagrado Coração", fundada em 1800 por Santa Madalena Sofia Barat; e as "Servas do Sagrado Coração de Jesus", fundada em 1865 pela Beata Catarina Volpicelli. Diversos institutos femininos também levam o mesmo nome.Atualmente,
a festa do Sagrado Coração de Jesus é celebrada na sexta-feira seguinte à
solenidade de Corpus Christi, visto que esta foi transferida para o domingo. O
sábado seguinte é dedicado ao Imaculado Coração de Maria, como sinal de devoção
compartilhada aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, inseparáveis pelo
grande amor que dedicaram à humanidade.
Num
papiro egípcio de cerca de 4.000 anos atrás, encontramos a expressão desse
anseio compartilhado por amor: "Procuro um coração sobre o qual
repousar a cabeça, e não o encontro; não há mais amigos!".
O
poeta egípcio desconhecido entristeceu-se com isso, mas nós somos mais
afortunados, pois temos esse coração e esse amigo, como São João Evangelista,
que repousou fisicamente a cabeça sobre o peito e o coração de Jesus.
Podemos ter plena confiança em tal amigo; Ele, vivendo em perfeita intimidade com o Pai, sabe e pode nos revelar tudo o que é necessário para o nosso bem.
"Meu Divino Coração está tão apaixonado de Amor pelos homens, e inflamados com chamas ardentes desse Amor, que é preciso que as espalhes por teu intermédio e lhos reveles..."
Ato de Desagravo ao Sagrado Coração de Jesus
Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é por eles tão ingratamente correspondida com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados diante do vosso altar, para vos desagravarmos com especiais homenagens da insensibilidade tão insensata e das nefastas injúrias com que é de toda a parte alvejado o vosso amorosíssimo Coração.
Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que
também nós, mais de uma vez, cometemos as mesmas indignidades, para nós, em
primeiro lugar, imploramos a vossa misericórdia, prontos a expiar não só as
próprias culpas, senão também as daqueles que, errando longe do caminho da
salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não vos querendo como pastor e
guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da
vossa santa Lei.
De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, nós queremos hoje desagravar-vos, mas particularmente da licença dos costumes e imodéstias do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, das execrandas blasfêmias contra Vós e vossos Santos, dos insultos ao vosso Vigário e a todo o vosso clero, do desprezo e das horrendas profanações do Sacramento do divino amor, e, enfim, dos atentados e rebeldias oficiais das nações contra os direitos e o magistério da vossa Igreja. Oh, se pudéssemos lavar, com o próprio sangue, tantas iniquidades!
Entretanto, para reparar a honra divina ultrajada, vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os Santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação que Vós oferecestes ao Eterno Pai sobre a cruz, e que não cessais de renovar todos os dias sobre nossos altares.
Ajudai-nos, Senhor, com o auxílio da vossa graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a viveza da Fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da lei e caridade evangélica, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nossos próximos, impedir por todos os meios novas injúrias de vossa divina Majestade e atrair ao vosso serviço o maior número de almas possível.
Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria
Santíssima Reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo e
concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes até a morte no fiel
cumprimento dos nossos deveres e no vosso santo serviço, para que possamos
chegar todos à pátria bem-aventurada, onde vós, com o Pai e o Espírito Santo,
viveis e reinais, Deus, por todos os séculos dos séculos.
Assim seja.
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