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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Beato Nicolau (Nicolò) Rusca, presbítero e mártir - 4 de setembro.

       

         Ele nasceu na vila de Bedano, no Ticino, então sob domínio milanês, filho de Giovanni Antonio Rusca e Daria Quadrio, ambos membros de famílias nobres das regiões de Laria e Ticino.

Estudou em Pavia, depois em Roma, e em seguida transferiu-se para o Colégio Suíço em Milão, sob a tutela de São Carlos Borromeu.

Conta-se que o então arcebispo Borromeu, impressionado com o jovem seminarista, disse-lhe: "Meu filho, lute uma boa guerra, complete sua carreira. Uma coroa da justiça está reservada para você, que fará de você um juiz justo naquele dia”.

Ordenado sacerdote em 23 de maio de 1587, o bispo de Como, Gianantonio Volpi, designou-o primeiro para a vila de Sessa e depois o nomeou arcipreste de Sondrio.

Era o ano de 1590, uma época de grande turbulência, tanto pelo conflito entre católicos e “reformados” (nota do tradutor: prefiro  o termo: “revoltosos”) — na sequência da disseminação das “reformas” zwinglianas e calvinistas nos Grisões, às quais Valtellina, Chiavenna e Bormio estavam sujeitas — quanto pelo acentuado declínio das instituições eclesiásticas tradicionais.

Rusca era um sacerdote de profunda cultura e generosa dedicação pastoral: liderava a comunidade católica de Sondrio com grande equilíbrio e moderação, influenciando toda a Valtellina.

Isso não o impediu, contudo, de se tornar uma vítima inocente dos crescentes conflitos, especialmente dentro da República das Três Ligas, entre as diversas facções políticas e religiosas.

Nicolò Rusca foi preso em 1618 e encarcerado em Thusis, para onde todos os católicos acusados ​​de crimes políticos costumavam ir. Foi julgado por um tribunal parcial, representando um determinado grupo político e religioso.


O julgamento, na época, também incluiu uma quantidade considerável de tortura, e Rusca sofreu tanto que não sobreviveu à mesma.

Ele é lembrado por sua famosa frase: "Odeie o erro, não o errante", e pelo apelido pelo qual é conhecido hoje: "pastor bonus", ou seja, o "bom pastor" que morreu pela salvação de seu rebanho.

Tendo morrido sob a tortura do carrasco quando a religião católica era minoritária em sua terra natal, é natural que seja considerado digno de beatificação: e, de fato, a primeira proposta nesse sentido data de 8 de novembro de 1927.

O processo canônico, contudo, sofreu longas interrupções, para só ser retomado com maior vigor em 1996, quando um novo processo diocesano sobre o assunto foi concluído em Sondrio.

Quando Nicolò Rusca estava vivo, a região política em que vivia era a Récia: um belo nome latino, que é lembrado junto com outros topônimos do Império Romano e, sobretudo, que se encontra na expressão "Alpes Réticos". De fato, a Récia ainda é reconhecida como a fusão da Engadina suíça e da Valtellina italiana, dois vales. Vales alpinos com uma orientação incomum de leste a oeste, "horizontal", numa orografia (nota: estudo de “relevos da terra”) habituada a vales que se estendem na direção norte-sul.

Unidos pelo estreito Val Poschiavo e pelo Passo Muretto em Valmalenco, no início do século XVII, constituíam quase um laboratório político, representando uma única unidade política habitada por duas religiões distintas: uma maioria protestante na Engadina e uma maioria católica na Valtellina.

Maiorias, porém, não totalidades; em ambos os vales existiam minorias da fé não predominante, e a Europa como um todo — então muito sensível à convulsão geopolítica da Reforma (“revolta”) — observava com curiosidade esta coexistência de diferentes crenças. A já mencionada morte por tortura do arcipreste de Sondrio prenuncia que esta coexistência certamente não era pacífica nem tranquila.

De fato, se ouvirmos todos os lados, descobrimos que, ainda hoje, Nicolò Rusca, quase um santo para os católicos, é visto sob uma luz muito diferente pelos protestantes: sua morte por tortura na prisão de Thusis parece ser o único ponto em que as versões católica e protestante concordam.

Além disso, os retratos que temos de Nicolò Rusca não poderiam ser mais diferentes: um santo e mártir para um lado, um instigador fanático de assassinatos para o outro.

Infelizmente, porém, há outros pontos em que os relatos coincidem, e isso se refere à descrição do que aconteceu nos meses que se seguiram à morte de Rusca.

No julgamento de Thusis pela tentativa de assassinato de pastores protestantes, além de Rusca, os irmãos Planta e Giacomo Robustelli também foram condenados.

Este último conseguiu, dois anos depois, retornar a Valtellina e organizar o que, em termos cruéis, mas muito apropriados, foi posteriormente chamado de "Massacre Sagrado de Valtellina".

Os restos mortais de Rusca permaneceram em Pfäfers de 1619 a 1838.

No verão de 1619, durante uma noite, os ossos do pároco de Sondrio foram exumados e transportados secretamente para a Abadia de Pfäfers, ao norte de Chur, onde permaneceram até 1838, quando a abadia foi suprimida.

Os restos mortais de Rusca foram então para a biblioteca municipal, onde permaneceram até 1845, quando o bispo de Como, Carlo Romanò, obteve autorização para transferi-los para Valtellina, para o Santuário de Sassella, nos arredores de Sondrio.

Graças à nulla osta recebida, entretanto, da Santa Sé, em 1852, as relíquias foram finalmente transportadas por Antonio Maffei, arcipreste de Sondrio, para a Igreja Colegiada dos Santos Gervásio e Protásio em Sondrio, onde permanecem até hoje objeto de veneração popular.

A cerimônia de beatificação foi celebrada em Sondrio em 21 de abril de 2013.

SANTA ROSÁLIA DE PALERMO, Virgem e Eremita - 4 de setembro.


  Rosália Sinibaldi viveu no período feliz de renovamento católico que se restabelecera na Sicília após a expulsão dos árabes, que haviam permanecido na região de 827 a 1072. Foi possível então a difusão dos mosteiros basilianos e beneditinos. Naquela atmosfera de fervor e renovação religiosa se inseriu a vocação eremítica desta Santa.
Rosália nasceu no ano de 1125 em Palermo, na Sicília, Itália. O nome Rosália resulta da contração dos nomes "Rosa" e "Lilia" (Lilium). Era filha de Sinibaldo, rico senhor de Quisquinia e das Rosas, na província de Agrigento, então chamada Girgenti, e de Maria Guiscarda, sobrinha do rei normando Rogério II. Segundo a tradição, ela pertencia a uma nobre família normanda descendente de Carlos Magno.
Durante a adolescência, foi dama da corte da Rainha Margarida, esposa do Rei Guilherme I da Sicília, que apreciava sua companhia amável e generosa. Porém, ela não se sentia atraída por nada disso, pois sabia que sua vocação era servir a Deus e ansiava pela vida monástica.
Aos catorze anos, levando consigo apenas um crucifixo, Rosália abandonou de vez a corte e se refugiou numa gruta que pertencia ao feudo paterno e era um local ideal para a reclusão monástica, pois ficava próximo do convento dos beneditinos, que possuía uma pequena igreja anexa. Mesmo vivendo isolada, Rosália podia receber orientação espiritual e seguir as funções litúrgicas.

Mais tarde, a ermitã se transferiu para uma gruta no alto do Monte Pellegrino, que lhe fora doada pela amiga, a Rainha Margarida. Ali já existia uma pequena capela bizantina e, nos arredores, outro convento de beneditinos. Eles acompanharam, testemunharam e documentaram a vida eremítica de Rosália, que viveu em oração, solidão e penitência. Atraídos pela fama de santidade da ermitã, os habitantes do povoado subiam o monte para vê-la.
Rosália faleceu no dia 4 de setembro de 1160 na sua gruta no Monte Pellegrino, em Palermo.

No início de 1600, o seu culto havia caído quase no esquecimento, sendo ela, entretanto, ainda venerada; no Monte Pellegrino, em grutas vizinhas à que ela, segundo a tradição, habitara, alguns ermitões viviam e eram conhecidos como os “solitários de Santa Rosália”.
Em 26 de maio de 1624, Jeronima Gatto, uma doente terminal, viu em sonho uma jovem vestida de branco que lhe prometia a cura se fosse ao Monte Pellegrino para agradecê-la. A mulher, ardendo de febre, foi ao monte acompanhada de duas amigas. Após beber a água que escorria da gruta, sentiu-se curada e caiu em um torpor repousante. A jovem de branco apareceu-lhe de novo, dizendo-se ser Santa Rosália, e lhe indicou o local onde estavam sepultadas as suas relíquias.
O fato foi referido aos frades franciscanos do convento vizinho, cujo superior deles, São Benedito (1526-1589), já havia tentado encontrar as relíquias, sem sucesso. Eles então retomaram as buscas e, em 15 de julho de 1624, encontraram, a quatro metros de profundidade, uma urna de cristal de rocha de seis palmos de comprimento por três de largura, na qual estavam aderidos ossos.
Levada para a cidade, a urna foi examinada por teólogos e médicos, que chegaram à conclusão de que os ossos podiam pertencer a mais de uma pessoa. Não convencido, uma segunda comissão foi nomeada pelo Cardeal Arcebispo de Palermo, Giannettino Doria.

Entrementes, uma terrível epidemia grassou na cidade de Palermo, fazendo milhares de vítimas. O Cardeal reuniu na catedral povo e autoridades, e todos juntos pediram a ajuda de Nossa Senhora, fazendo voto de defender o privilégio da Imaculada Conceição, tema de debates na Igreja de então, e de declarar Santa Rosália padroeira principal de Palermo, venerando suas relíquias quando elas fossem reconhecidas. Após a promessa, a epidemia cessou.
Em 25 de agosto de 1624, quarenta dias após a descoberta dos ossos, dois pedreiros, que executavam trabalhos no convento dos dominicanos de Santo Estêvão de Quisquinia, acharam numa gruta uma inscrição latina muito antiga que dizia: "Eu, Rosália Sinibaldi, filha das rosas do Senhor, pelo amor de meu Senhor Jesus Cristo, decidi morar nesta gruta de Quisquinia." Confirmando, assim, as tradições orais da época. Um santuário foi edificado na gruta onde seus restos mortais foram encontrados.
Em 11 de fevereiro de 1625, uma comissão científica comprovou a autenticidade das relíquias e da inscrição, e, em 1630, o Papa Urbano VIII incluiu as duas datas no Martirológio Romano. Estes fatos reacenderam o culto à Santa Rosália.

Santa Rosália é festejada em 15 de julho, data em que suas relíquias foram encontradas, e em 4 de setembro, data de seu falecimento. Anualmente acontece em Palermo, na noite de 14 para 15 de julho, uma grande festa religiosa denominada Festino di Santa Rosalia. A procissão das relíquias da Santa, de pompa extraordinária, percorre as ruas da cidade entre orações, cânticos e aclamações. E, a cada ano, no dia 4 de setembro, renova-se a tradição de caminhar, com os pés descalços, de Palermo até o Monte Pellegrino.
A urna contendo os restos mortais de Santa Rosália pode ser venerada no Duomo de Palermo. Os palermitanos a chamam de "a Santuzza" (a santinha). Santa Rosália é venerada como padroeira de Palermo desde 1666 e é tida como protetora contra doenças infecciosas.

Beata Maria de Santa Cecília Romana (Maria Dina Bélanger), Virgem e Mística - memória em 4 de setembro.


Quebec, Canadá, 30 de abril de 1897 – Sillery, Quebec, 4 de setembro de 1929.

 

A beata canadense Maria di Santa Cecilia Romana (nascida Dina Bélanger), virgem professa da Congregação das Religiosas de Jesus e Maria, sofreu uma grave enfermidade durante muitos anos, confiando sempre somente em Deus. João Paulo II a beatificou em 20 de março de 1993.

Ela viveu apenas 32 anos, mas foram anos intensos, repletos de dons místicos, de suportar o mal cruel, de se entregar a Deus na vida consagrada e também de se dedicar à arte da música.

Maria Dina Adelaide Bélanger nasceu em 30 de abril de 1897, em Quebec, Canadá. Filha de Ottavio Bélanger e Serafina Marte, era praticamente filha única, pois seu irmão mais novo, nascido 17 meses depois dela, faleceu quando ela tinha cerca de três meses de idade.

Em sua família e entre seus pares, era sempre chamada de Dina. De natureza sensível e até mesmo violenta, foi criada pelos pais com métodos de ensino eficazes e sábios. A família tinha uma situação financeira confortável, então, sendo filha única e sem problemas financeiros, ela poderia ter se tornado egoísta e caprichosa.

Mas o exemplo edificante de seus pais piedosos a educou para se comportar de maneira diferente. Como Dina relatou em sua autobiografia, eles eram dotados de grande generosidade, ajudando discretamente os pobres e distribuindo secretamente grandes somas de dinheiro. Elas consolavam os necessitados com palavras de encorajamento e piedade, e com visitas frequentes e sem pressa. Ainda criança, Dina acompanhava a mãe em suas visitas de caridade.

Aos seis anos, começou a frequentar a escola das Irmãs de Notre-Dame e, depois, para o ensino secundário, a escola Jacques Cartier. Aos 10 anos, em 2 de maio de 1907, fez a Primeira Comunhão e recebeu a Crisma; sobre aquele dia, escreveu: "Jesus estava em mim e eu nele".

Mais tarde, ao escrever sua autobiografia, Dina Bélanger descreveu as várias etapas de sua jornada espiritual, que a levariam a uma união mística com Cristo, e citaremos aqui algumas de suas anotações de tempos em tempos.

Em 20 de março de 1908, portanto, aos 11 anos, numa Quinta-feira Santa, teve sua primeira conversa com Jesus: "Foi a primeira vez que entendi tão bem a sua voz, internamente, é claro, uma voz doce e melodiosa que me inundou de felicidade".

Em 1911, e durante dois anos, ela aperfeiçoou sua formação cultural no Convento Pensionário Bellevue das Irmãs de Notre-Dame; obteve o primeiro lugar nos exames; na primeira sexta-feira de outubro de 1911 (portanto, com apenas 14 anos de idade), quis consagrar sua virgindade ao Senhor, pois já então sentia em seu coração um forte desejo de se entregar a Ele.

Possuía uma notável aptidão para a música e, desde os oito anos de idade, estudava piano; em janeiro de 1914, obteve o diploma de "classe superior" e, em junho do mesmo ano, o de professora de piano, obtendo logo em seguida a habilitação para o ensino.

Devido ao seu talento musical excepcional, Dina Bélanger, aos 19 anos, mudou-se para Nova York em outubro de 1916, para viver com as Irmãs de Notre-Dame e aprimorar seus estudos no Conservatório, de piano, harmonia e composição; as notas do Conservatório a seu respeito trazem a menção "Excelente".

Como tantas almas escolhidas que, nos primeiros dias de sua vocação religiosa, experimentaram o tormento da dúvida e a "noite passiva dos sentidos", Dina também passou por essa fase, que durou seis longos anos, a partir de março de 1917. Suas lutas interiores eram terríveis; o tentador maligno desencadeava sua violência, instilando continuamente dúvidas e desespero, mas Dina, agarrando-se ao Coração de Jesus, confiava Nele para superar esse período.

Em 1918, ela retornou para sua família e matriculou-se em um curso por correspondência de piano e harmonia, que cursou por três anos. Alternava seus estudos com concertos beneficentes. Seu nome constava nos programas como artista, e os aplausos em suas apresentações eram calorosos.

Durante esses anos dedicados a estudos avançados e concertos públicos e privados, Dina nunca deixou de se concentrar em sua vida ascética, entrelaçada com notas místicas, sem se permitir distrair de seu desejo ardente original de se entregar a Cristo.

E em 11 de agosto de 1921, ela decidiu ingressar na "Congregação das Irmãs de Jesus e Maria" em Quebec; uma instituição fundada em 1818 em Lyon, França, por Santa Claudine Thévenet (30 de março de 1774 – 3 de fevereiro de 1837).

Após concluir seu postulantado, em 15 de fevereiro de 1922, recebeu o hábito religioso, adotou o nome de "Irmã Maria de Santa Cecília de Roma" e iniciou seu noviciado em Sillery.

Apenas um mês depois, em 25 de março de 1922, foi-lhe concedido o privilégio de fazer votos privados de pobreza, castidade e obediência. A alegria sentida pela Irmã Maria de Santa Cecília foi imensa, pois finalmente pôde consagrar-se ao Senhor, sem a menor reserva, totalmente e sem hesitação. Sua profissão pública de votos, feita em 15 de agosto de 1923, foi nada mais que a confirmação da alegria que já sentira intensamente com sua profissão privada.

Devido às suas qualificações acadêmicas, foi posteriormente designada para lecionar música nos conventos de São Miguel e Sillery; porém, sua saúde frágil e a doença que se agravava a obrigaram a passar longos períodos na enfermaria.

Foi durante esse período que a superiora local, impressionada por sua espiritualidade, pediu-lhe que escrevesse sua autobiografia; Irmã Maria aceitou por obediência e, a partir de março de 1924, começou a escrever as anotações que nos permitiram penetrar em uma vida interior ricamente enriquecida.

Em 15 de agosto de 1924, ouviu o Senhor lhe dizer: “Você fará sua profissão e, um ano depois, em 15 de agosto, festa da Assunção de Minha Mãe, Eu virei buscá-la com a morte”.

Irmã Maria pensou em morte física, mas, em vez disso, foi uma morte mística; de fato, a partir daquele 15 de agosto, sentiu-se absorta em Deus. “Deus absorveu todo o meu ser; aniquilado em Cristo Jesus, vivo para Ele na Adorável Trindade, a vida da eternidade; Ele, Cristo Jesus, vive em meu lugar na terra.”

De 1923 a 1927, ela escreveu dez composições musicais que expressam suas experiências de união mística. Em 9 de abril de 1926, retomou o ensino de música e, em 10 de julho, foi para São Miguel para um período de retiro e repouso. Contudo, a tuberculose que a afligia a debilitou em janeiro de 1927, obrigando-a a retornar à enfermaria.

Mesmo assim, foi admitida aos votos perpétuos, que pronunciou em 15 de agosto de 1928. A espiritualidade da jovem Irmã Maria de Santa Cecília Romana harmonizava-se perfeitamente com a da Congregação de Jesus e Maria, uma espiritualidade cristocêntrica e mariana, que tem sua origem no amor ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria e que se centra na Eucaristia.

Entre os altos e baixos característicos de sua doença e breves períodos na comunidade, a Irmã Maria finalmente deu entrada na enfermaria em 30 de abril de 1929, onde permaneceu até sua morte. Ela viveu uma vida de perfeita união com Deus, suportando todo sofrimento, resignada ao Senhor. Enquanto pôde, continuou a aconselhar professores de música de sua cama, compondo e transcrevendo partituras.

Faleceu em 4 de setembro de 1929, no Convento Jésus-Marie em Sillery, Quebec, com apenas 32 anos de idade, oito dos quais dedicados à vida religiosa, cercada por uma reputação de santidade e virtude incomum. Seu corpo foi sepultado na igreja do referido convento.

Dina Bélanger (Irmã Maria de Santa Cecília Romana) foi proclamada Beata em 20 de março de 1993 pelo Papa João Paulo II; no dia seguinte, a fundadora de sua Congregação, Claudine Thévenet, foi canonizada.

Ela havia prometido às suas irmãs: “No céu serei uma pequena mendiga de amor; esta é a minha missão e eu a começo imediatamente: darei alegria.”





Fonte:

Site: "Santi, Beati e Testimoni" 

(Traduzido do italiano para o português, com algumas correções necessárias ao texto). 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

SÃO GREGÓRIO I, o "Magno", Papa e Doutor da Igreja - memória em 3 de setembro.

          

       Ele foi um dos maiores Padres da história da Igreja, um dos quatro Doutores do Ocidente: o Papa São Gregório, que foi Bispo de Roma entre 590 e 604, e que tradicionalmente recebeu o título de Magno/Grande.

Gregório foi verdadeiramente um grande Papa e um grande Doutor da Igreja! Ele nasceu em Roma, por volta de 540 d.C., em uma rica família patrícia que se distinguia não apenas por sua nobre linhagem, mas também por sua devoção à fé cristã e seu serviço à Sé Apostólica.

Desta família vieram dois Papas: Félix III (483-492), trisavô de Gregório, e Agapito (535-536).

A casa onde Gregório cresceu ficava no Clivus Scauri, cercada por edifícios solenes que testemunhavam a grandeza da Roma antiga e a força espiritual do cristianismo. Inspirando-o com elevados sentimentos cristãos, estavam os exemplos de seus pais, Gordiano e Sílvia, ambos venerados como santos, e os de suas duas tias paternas, Emiliana e Tarsília, que viviam em sua casa como virgens consagradas, em uma trajetória compartilhada de oração e ascetismo.

 

TEXTO HAGIOGRÁFICO:

Gregório iniciou cedo uma carreira administrativa, seguindo o exemplo do pai, e em 572 atingiu seu ápice, tornando-se prefeito da cidade.

Essa posição, complicada pelos tempos difíceis, permitiu-lhe dedicar-se amplamente a todos os tipos de problemas administrativos, extraindo dela conhecimentos para futuras missões. 

Em particular, ele manteve um profundo senso de ordem e disciplina: ao se tornar Papa, aconselhou os bispos a demonstrarem a diligência e o respeito pela lei típicos dos funcionários civis na administração dos assuntos eclesiásticos. 

Essa vida, contudo, não o satisfez, pois pouco tempo depois decidiu abandonar todos os deveres civis, retirar-se para sua casa e iniciar a vida monástica, transformando a casa da família no mosteiro de Sant'Andrea al Celio. Esse período de vida monástica, uma vida de diálogo constante com o Senhor e escuta da Sua Palavra, deixaria nele uma nostalgia duradoura, que se manifestaria cada vez mais em suas homilias. Em meio às pressões do cuidado pastoral, ele o recordaria repetidamente em seus escritos como um tempo de alegre recolhimento em Deus, dedicação à oração e imersão pacífica no estudo. Foi assim que ele adquiriu o profundo conhecimento das Sagradas Escrituras e dos Padres da Igreja que mais tarde utilizou em suas obras.

 


Mas o retiro de Gregório na clausura não durou muito. A valiosa experiência que adquirira na administração civil durante um período repleto de graves problemas, as relações que desenvolvera nesse cargo com os bizantinos e a estima universal que conquistara levaram o Papa Pelágio a nomeá-lo diácono e enviá-lo a Constantinopla como seu "apocrisário" — hoje seria chamado de "Núncio Apostólico" — para ajudar a resolver os últimos resquícios da controvérsia monofisista e, sobretudo, para obter o apoio do imperador em seus esforços para conter a pressão lombarda. Sua estadia em Constantinopla, onde retomara a vida monástica com um grupo de monges, foi crucial para Gregório, pois lhe proporcionou a oportunidade de vivenciar em primeira mão o mundo bizantino, bem como de lidar com o problema dos lombardos, que mais tarde testaria severamente sua capacidade e energia durante seu pontificado. Após alguns anos, foi chamado de volta a Roma pelo Papa, que o nomeou seu secretário. Foram anos difíceis: chuvas constantes, rios transbordando e a fome assolaram muitas regiões da Itália e a própria Roma. Por fim, a peste eclodiu, ceifando inúmeras vidas, incluindo a do Papa Pelágio II. O clero, o povo e o Senado foram unânimes na escolha de Gregório como seu sucessor na Sé de Pedro. Ele tentou resistir, chegando a tentar fugir, mas em vão: no fim, foi forçado a ceder. Era o ano de 590.

Reconhecendo a vontade de Deus no ocorrido, o novo Pontífice imediatamente pôs mãos à obra com energia. Desde o início, revelou uma visão notavelmente clara da realidade que tinha de enfrentar, uma extraordinária capacidade de trabalho tanto em assuntos eclesiásticos quanto civis, e um equilíbrio constante nas decisões, mesmo as corajosas, que o cargo lhe exigia. Uma extensa documentação do seu governo foi preservada graças ao Registro de suas Cartas (mais de 800), que refletem o confronto diário com as complexas questões que inundavam sua mesa. Essas questões vinham de bispos, abades, clérigos e até mesmo autoridades civis de todas as esferas. Entre os problemas que afligiam a Itália e Roma naquela época, um era de particular importância tanto na esfera civil quanto na eclesiástica: a Questão Lombarda. A essa questão, o Papa dedicou todas as energias possíveis na busca de uma solução verdadeiramente pacífica. Ao contrário do imperador bizantino, que considerava os lombardos meramente indivíduos rudes e predadores a serem derrotados ou exterminados, São Gregório via esse povo com os olhos de um bom pastor, ansioso por proclamar-lhes a palavra da salvação, estabelecendo relações fraternas com eles na expectativa de uma futura paz fundada no respeito mútuo e na coexistência pacífica entre italianos, imperiais e lombardos. Ele se preocupava com a conversão dos jovens e com a nova ordem civil da Europa: os visigodos da Espanha, os francos, os saxões, os imigrantes na Grã-Bretanha e os lombardos foram os privilegiados destinatários de sua missão evangelizadora. Ontem celebramos a memória litúrgica de Santo Agostinho de Cantuária, líder de um grupo de monges enviados por Gregório à Grã-Bretanha para evangelizar a Inglaterra.

Para alcançar uma paz efetiva em Roma e na Itália, o Papa trabalhou incansavelmente — ele era um verdadeiro pacificador — empenhando-se em intensas negociações com o rei lombardo Agilulfo. Essas negociações levaram a um período de trégua que durou aproximadamente três anos (598-601), após o qual foi possível estipular um armistício mais permanente em 603. Esse resultado positivo também foi alcançado graças aos contatos paralelos que o Papa mantinha com a rainha Teodelinda, uma princesa bávara e, diferentemente dos líderes dos outros povos germânicos, uma católica fervorosa. Uma série de cartas do Papa Gregório para essa rainha sobreviveu, nas quais ele demonstra sua estima e amizade por ela. Teodelinda gradualmente conseguiu converter o rei ao catolicismo, abrindo assim o caminho para a paz. O Papa também fez questão de enviar relíquias para a Basílica de São João Batista, que ela havia construído em Monza, e também lhe enviou felicitações e preciosos presentes para a mesma catedral de Monza por ocasião do nascimento e batismo de seu filho Adalold. A história desta rainha é um belo testemunho da importância das mulheres na história da Igreja. Em última análise, Gregório concentrou-se consistentemente em três objetivos: conter a expansão dos lombardos na Itália; libertar a rainha Teodolinda da influência dos cismáticos e fortalecer sua fé católica; e mediar entre os lombardos e os bizantinos com vistas a alcançar um acordo que garantisse a paz na península e, simultaneamente, permitisse a evangelização entre os próprios lombardos. Seu foco constante ao longo deste complexo conflito foi, portanto, duplo: promover o entendimento diplomático e político e difundir a mensagem da verdadeira fé entre o povo.

Paralelamente ao seu trabalho puramente espiritual e pastoral, o Papa Gregório também se envolveu ativamente em diversas atividades sociais. Com os rendimentos do considerável patrimônio que a Sé Romana possuía na Itália, especialmente na Sicília, ele comprou e distribuiu grãos, auxiliou os necessitados, ajudou padres, monges e freiras que viviam na pobreza, pagou resgates por cidadãos mantidos em cativeiro pelos lombardos e negociou armistícios e tréguas. Além disso, ele realizou uma cuidadosa reorganização administrativa tanto em Roma quanto em outras partes da Itália, emitindo instruções precisas para garantir que os bens da Igreja, essenciais à sua subsistência e à sua obra evangelizadora em todo o mundo, fossem administrados com absoluta integridade e de acordo com os princípios da justiça e da misericórdia. Exigiu que os agricultores fossem protegidos dos abusos daqueles que concediam concessões às terras da Igreja e, em caso de fraude, fossem prontamente indenizados, para que a imagem da Esposa de Cristo não fosse maculada por lucros desonestos.

Gregório desempenhou essa intensa atividade apesar de sua saúde frágil, que muitas vezes o obrigava a permanecer na cama por dias a fio. Os jejuns que praticava durante sua vida monástica lhe causavam sérios problemas digestivos. Além disso, sua voz era muito fraca, de modo que muitas vezes era obrigado a confiar a leitura de suas homilias a um diácono para que os fiéis reunidos nas basílicas romanas pudessem ouvi-lo. Ele se esforçava ao máximo, porém, para celebrar a Missa Solene nos dias de festa, e então se encontrava pessoalmente com o povo de Deus, que o amava muito, vendo nele uma fonte de segurança e autoridade: não é por acaso que logo lhe foi concedido o título de Cônsul de Deus. Apesar das condições extremamente difíceis em que se encontrava, conseguiu conquistar a confiança dos fiéis, graças à santidade de sua vida e à sua rica humanidade, alcançando resultados verdadeiramente magníficos para seu tempo e para o futuro. Ele era um homem imerso em Deus: o desejo por Deus sempre esteve vivo nas profundezas de sua alma, e precisamente por isso ele sempre esteve muito próximo do seu próximo, das necessidades das pessoas do seu tempo. Em tempos desastrosos, até mesmo desesperadores, ele soube criar paz e dar esperança. Este homem de Deus nos mostra onde residem as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a verdadeira esperança, e assim se torna um guia para nós também hoje.

Apesar dos muitos compromissos inerentes ao seu ofício como Bispo de Roma, ele nos legou numerosas obras, das quais a Igreja se valeu abundantemente nos séculos subsequentes. Além de sua considerável correspondência — o Registro que mencionei em minha última catequese contém mais de 800 cartas — ele nos deixou principalmente escritos exegéticos, entre os quais se destacam o Comentário Moral sobre Jó — conhecido pelo título latino Moralia in Iob —, as Homilias sobre Ezequiel e as Homilias sobre os Evangelhos. Existe também uma importante obra hagiográfica, os Diálogos, escrita por Gregório para a edificação da rainha lombarda Teodelinda. A principal e mais conhecida obra é, sem dúvida, a Regra Pastoral, que o Papa redigiu no início de seu pontificado com objetivos claramente programáticos.

Ao analisarmos brevemente essas obras, devemos observar, em primeiro lugar, que, em seus escritos, Gregório jamais parece se preocupar em delinear "sua própria" doutrina, sua própria originalidade. Em vez disso, ele busca ecoar o ensinamento tradicional da Igreja; simplesmente deseja ser o porta-voz de Cristo e de sua Igreja no caminho que devemos trilhar para alcançar Deus. Seus comentários exegéticos são exemplares nesse sentido. Ele era um leitor apaixonado da Bíblia, à qual se aproximava com intenções que iam além da mera especulação: acreditava que os cristãos deveriam extrair das Sagradas Escrituras não tanto conhecimento teórico, mas sim alimento diário para suas almas, para suas vidas como seres humanos neste mundo. Nas Homilias sobre Ezequiel, por exemplo, ele enfatiza fortemente essa função do texto sagrado: aproximar-se das Escrituras simplesmente para satisfazer o desejo de conhecimento significa ceder à tentação do orgulho e, assim, expor-se ao risco de cair na heresia. A humildade intelectual é a regra primordial para quem busca penetrar as realidades sobrenaturais do Livro Sagrado. A humildade, naturalmente, não exclui o estudo sério; Mas para que isso seja espiritualmente frutífero, permitindo penetrar verdadeiramente nas profundezas do texto, a humildade permanece indispensável. Somente com essa atitude interior é possível escutar de verdade e finalmente perceber a voz de Deus. Por outro lado, quando se trata da Palavra de Deus, o entendimento nada vale se não levar à ação. Nessas homilias sobre Ezequiel, encontramos também aquela bela expressão segundo a qual "o pregador deve molhar a pena no sangue do seu coração; assim, ele também poderá alcançar os ouvidos do seu próximo". Lendo essas homilias, vemos que Gregório realmente escreveu com o sangue do seu coração e é por isso que ele ainda nos fala hoje.

Gregório também desenvolve esse discurso em seu Comentário Moral sobre Jó. Seguindo a tradição patrística, ele examina o texto sagrado em suas três dimensões: a literal, a alegórica e a moral, que são dimensões do único significado das Sagradas Escrituras. Gregório, contudo, dá clara precedência ao sentido moral. Nessa perspectiva, ele apresenta seu pensamento por meio de vários pares significativos — saber-fazer, falar-viver, saber-agir — nos quais evoca os dois aspectos da vida humana que deveriam ser complementares, mas que frequentemente acabam sendo antitéticos. O ideal moral, comenta ele, consiste sempre em alcançar uma integração harmoniosa entre palavra e ação, pensamento e compromisso, oração e dedicação aos deveres do próprio estado: este é o caminho para alcançar a síntese pela qual o divino desce ao homem e o homem ascende à identificação com Deus. O grande Papa, assim, delineia um plano de vida completo para o verdadeiro crente; por essa razão, o Comentário Moral sobre Jó constituiria uma espécie de Suma Teológica da moral cristã durante a Idade Média.


As homilias sobre os Evangelhos também são de notável importância e beleza. A primeira delas foi proferida na Basílica de São Pedro durante o Advento de 590, poucos meses após sua eleição para o Pontificado; a última foi proferida na Basílica de São Lourenço no segundo domingo após Pentecostes de 593. O Papa pregava ao povo nas igrejas onde se celebravam as "estações" — cerimônias especiais de oração durante os tempos litúrgicos importantes — ou as festas dos mártires titulares. O princípio orientador, que une as diversas intervenções, resume-se na palavra "pregador": não apenas o ministro de Deus, mas também todo cristão, tem a tarefa de se tornar um "pregador" daquilo que experimentou em seu próprio coração, seguindo o exemplo de Cristo, que se fez homem para levar a mensagem da salvação a todos. O horizonte desse compromisso é escatológico: a expectativa da plenitude de todas as coisas em Cristo é um pensamento constante do grande Pontífice e, em última análise, torna-se a inspiração para todos os seus pensamentos e ações. Dessa fonte derivam seus incessantes apelos à vigilância e ao compromisso com as boas obras.

Talvez o texto mais coerente de Gregório Magno seja a Regra Pastoral, escrita nos primeiros anos de seu pontificado. Nela, Gregório se propõe a esboçar a figura do bispo ideal, mestre e guia de seu rebanho. Para tanto, ele ilustra a gravidade do ofício de pastor da Igreja e os deveres que ele acarreta. Portanto, aqueles que não são chamados a essa tarefa não devem buscá-la superficialmente, enquanto aqueles que a assumiram sem a devida reflexão devem sentir uma necessária apreensão brotar em seus corações. Retomando um tema predileto, ele afirma que o bispo é, antes de tudo, o "pregador" por excelência; como tal, ele deve, acima de tudo, ser um exemplo para os outros, para que seu comportamento possa constituir um ponto de referência para todos. A ação pastoral eficaz exige que ele conheça seus destinatários e adapte suas intervenções à situação de cada indivíduo. Gregório se empenha em ilustrar as diversas categorias de fiéis com anotações perspicazes e precisas, o que pode justificar a avaliação daqueles que consideraram esta obra um tratado psicológico. Disso compreendemos que ele realmente conhecia seu rebanho e conversava sobre tudo com as pessoas de seu tempo e de sua cidade.

O grande Pontífice, contudo, insiste no dever do Pastor de reconhecer diariamente suas próprias misérias, para que o orgulho não anule, perante os olhos do Juiz Supremo, o bem realizado. Por essa razão, o capítulo final da Regra é dedicado à humildade: "Quando alguém se alegra por ter alcançado muitas virtudes, é bom refletir sobre suas próprias falhas e se humilhar: em vez de considerar o bem realizado, deve-se considerar o bem negligenciado". Todas essas valiosas reflexões demonstram a elevada visão de São Gregório sobre o cuidado das almas, que ele definiu como "ars artium", a arte das artes. A Regra fez tanto sucesso que, algo bastante raro, logo foi traduzida para o grego e o anglo-saxão.

Outra obra significativa, os Diálogos, é aquela em que Gregório demonstra o contrário ao seu amigo e diácono Pedro, que estava convencido de que a moral havia se corrompido a tal ponto que os santos não poderiam mais surgir como em tempos passados: a santidade é sempre possível, mesmo em tempos difíceis. Ele prova isso narrando as vidas de pessoas contemporâneas ou recentemente falecidas que poderiam muito bem ser chamadas de santos, mesmo que não canonizadas. A narrativa é acompanhada por reflexões teológicas e místicas que fazem do livro um texto hagiográfico único, capaz de cativar gerações inteiras de leitores. O material se baseia nas tradições vivas do povo e visa edificar e educar, chamando a atenção do leitor para uma série de questões como o significado dos milagres, a interpretação das Escrituras, a imortalidade da alma, a existência do inferno e a representação da vida após a morte — todos temas que exigiam esclarecimentos adequados. O Livro II é inteiramente dedicado à figura de São Bento de Núrsia e é o único testemunho antigo sobre a vida do santo monge, cuja beleza espiritual é evidente no texto.

Na estrutura teológica que Gregório desenvolve em suas obras, passado, presente e futuro são relativizados. O que mais lhe importa é o arco completo da história da salvação, que continua a se desdobrar nos recônditos obscuros do tempo. Dessa perspectiva, é significativo que ele situe o anúncio da conversão dos anglos no meio de seu Comentário Moral sobre Jó: a seus olhos, o evento constituiu um avanço do Reino de Deus, do qual as Escrituras falam; portanto, poderia ser corretamente mencionado em um comentário sobre um livro sagrado. Em sua visão, os líderes das comunidades cristãs devem se esforçar para reinterpretar os eventos à luz da Palavra de Deus: nesse sentido, o grande Pontífice sente o dever de guiar pastores e fiéis na jornada espiritual de uma lectio divina iluminada e concreta, inserida no contexto de suas próprias vidas.

Antes de concluir, é necessário dizer algo sobre as relações que o Papa Gregório cultivou com os Patriarcas de Antioquia, Alexandria e Constantinopla. Ele sempre teve o cuidado de reconhecer e respeitar os direitos deles, prevenindo qualquer interferência que pudesse limitar sua legítima autonomia. Contudo, se São Gregório, no contexto de sua situação histórica, se opôs ao título "ecumênico" assumido pelo Patriarca de Constantinopla, não o fez para limitar ou negar sua legítima autoridade, mas sim por sua preocupação com a unidade fraterna da Igreja universal. Acima de tudo, o fez por sua profunda convicção de que a humildade deveria ser a virtude fundamental de todo bispo, ainda mais do que a de um Patriarca. Gregório permanecera um monge simples de coração e, portanto, opunha-se decididamente a títulos pomposos. Ele queria ser — esta é a sua expressão — servus servorum Dei. Esta palavra que ele cunhou não era uma fórmula piedosa em seus lábios, mas a verdadeira manifestação de seu modo de vida e ação. Ele era profundamente tocado pela humildade de Deus, que em Cristo se tornou nosso servo, que lavou e continua a lavar nossos pés sujos. Portanto, ele estava convencido de que um bispo, acima de tudo, deveria imitar essa humildade de Deus e, assim, seguir a Cristo. Seu verdadeiro desejo era viver como um monge em constante diálogo com a Palavra de Deus, mas, por amor a Deus, ele soube se tornar servo de todos em um tempo repleto de tribulações e sofrimentos; soube se tornar um "servo dos servos". Precisamente por ser assim, ele é grande e nos mostra a medida da verdadeira grandeza.

 

Autor: Papa Bento XVI (Audiência Geral, 4 de junho de 2008)

Beata Maria Luísa do Santíssimo Sacramento (Maria Velotti), Virgem, Mística, Alma Vítima, Terciária Franciscana e Fundadora - memória em 3 de setembro.

Soccavo, Nápoles, 16 de novembro de 1826 – Casoria, Nápoles, 3 de setembro de 1886.


Infância:

Maria Velotti nasceu em Soccavo, hoje um bairro de Nápoles, mas na época um município independente, ainda parte da Diocese de Pozzuoli, em 16 de novembro de 1826, e foi batizada no mesmo dia na igreja paroquial de São Pedro e São Paulo.

Sua infância foi marcada pela perda de seus pais, Francesco Velotti e Teresa Napoletano, trabalhadores simples, honestos e profundamente religiosos. Maria, aos dois anos e meio, foi acolhida por uma tia solteira chamada Caterina, que morava em Sirico, perto de Nola (hoje um povoado de Saviano). Seu irmão Giovanni, filho do primeiro casamento de seu pai, permaneceu em Soccavo, então eles praticamente nunca se conheceram: foi somente na vida adulta que descobriram, por acaso, que eram irmãos.

Maria, portanto, cresceu na casa de sua tia, que lhe proporcionou sua educação inicial, cultivando desde cedo o amor por Cristo e dedicando grande parte do seu tempo à oração. Em vez disso, ela recebeu sua educação primária do padre local: como as escolas públicas, estabelecidas em 1860, ainda não existiam, essa era a única opção no campo.


Maltratada pela tia, mas obediente.

Com o tempo, a tia Caterina mudou de atitude em relação a ela: havia sido instigada por parentes, que se ressentiam de ver parte de sua herança dada à sobrinha. Os anos de sua infância e juventude foram, portanto, todos difíceis para Mariella (como era apelidada), porque sua tia começou a maltratá-la.

Por exemplo, tirou-lhe os sapatos extras, de modo que a menina, quando ia à igreja, tinha que andar um longo caminho descalça, para só calçar o único par que lhe restava assim que entrava. Para impedi-la de dedicar tempo à oração, também lhe dava tarefas de casa para fazer dentro e fora de casa ao longo do dia, que ela inexplicavelmente completava em cerca de duas horas.

Quando a situação se tornou insuportável, apesar da mansidão e obediência de Maria, ela foi providencialmente acolhida como filha por um casal de vizinhos, Lorenzo Sabatino e Giuseppa Tuzzolo, que não tinham filhos.


Uma jornada espiritual à maneira franciscana.

Em 29 de abril de 1849, Maria recebeu o Sacramento da Confirmação. Nessa época, teve seu primeiro contato com o franciscanismo, por meio de um frade mendicante do convento de Sant'Angelo al Palco, em Nola, da Ordem dos Frades Menores Reformados. Após diversas conversas com ele, sentiu-se compelida a ir até lá e se dirigir ao sacerdote que encontraria no confessionário.

Ela percorreu os dez quilômetros entre Sirico e Nola, entrou na igreja do convento, ajoelhou-se diante do Santíssimo Sacramento e depois foi ao confessionário. Lá, conheceu o Padre Filippo Antonio de Domicella, com quem embarcou numa longa jornada espiritual. O Padre Domenico Piciocchi, pároco de Sirico, que a havia guiado até então, concordou em confiá-la aos seus cuidados, como ela havia pedido, especialmente porque ele havia sido nomeado cônego da catedral de Nola.

Seu desejo de pertencer à família franciscana nunca a abandonou, tornando-se mais forte a cada dia. Finalmente, após confirmar sua disposição espiritual, o Padre Filippo Antonio a vestiu com o hábito franciscano na igreja do convento de San Giovanni Evangelista em Taurano e lhe deu o nome de Irmã Maria Luísa Pascoal do Santíssimo Sacramento. Era o dia 2 de fevereiro de 1853.


Uma "freira doméstica", então no Retiro de Capodimonte.

Ela mal sabia ler e escrever, mas mantinha conversas profundamente espirituais com seu erudito confessor; ela não gozava de boa saúde, mas oferecia continuamente seu sofrimento a Deus. Passou a viver na casa dos religiosos sabatinos como reclusa dedicada à oração; saía apenas quando precisava ir à igreja, como as outras freiras domésticas da época. Em 22 de fevereiro de 1854, professou a Regra da Ordem Terceira de São Francisco, para se sentir mais unida a Jesus e uma verdadeira filha do Pobrezinho de Assis.

Contudo, a vida em casas de leigos não lhe era adequada. Assim, em julho de 1854, o Padre Filippo Antonio identificou um retiro em outra região de Nápoles, Capodimonte, dirigido pela Madre Maria Michela Russo, que acolheu com alegria a Irmã Maria Luísa. Como não lhe era mais possível acompanhá-la de perto, encaminhou-a ao Padre Cherubino da Casalnuovo, que vivia no convento de Miano, mais próximo de Capodimonte.


Fenômenos estranhos.

Enquanto isso, já em 1853, a Irmã Maria Luíza começou a vivenciar fenômenos sobrenaturais: visões de Jesus na cruz, da Virgem Maria e de São Francisco, e êxtases, por um lado, tormentos demoníacos, por outro, combinados com dores excruciantes, a ponto de confiná-la ao leito por dias.

Outro evento incomum ocorreu em 13 de abril de 1854: ela foi encontrada dentro do nicho da estátua de São Francisco na igreja de San Giovanni in Taurano, com o vidro à frente hermeticamente fechado. O próprio Padre Filippo Antonio esteve presente em muitas dessas manifestações, como a crucificação mística.


Seu estilo espiritual:

A Irmã Maria Luísa orava ao Senhor para que lhe transmitisse as doenças e os sofrimentos dos enfermos que a procuravam; Ele profetizou que um dia seu corpo se encolheria em uma massa de dor.

Ela frequentemente usava um cilício e outros instrumentos de ferro para se autoflagelar à noite. Apesar de sua constituição robusta, mas repleta de dores, comia muito pouco; tomava apenas alguns goles de água sem saciar a sede, oferecendo esses sofrimentos a Deus e imitando a sede de Jesus na cruz.

Era a mestra das noviças, instruindo-as no amor a Deus, na fervorosa adoração à Cruz e no respeito pelas suas companheiras freiras e por si mesmas. Queria praticar o conceito de pobreza e exigia-o também das noviças e da Madre Maria Michela, proprietária do retiro (espécie de "beatério"), que se recusava a doar seus bens à comunidade e a tornar-se pobre e necessitada; isso criou um conflito entre as duas, que causou grande sofrimento à Irmã Maria Luísa.

A fama de sua santidade a acompanhou de Sirico a Capodimonte, a ponto de muitos fiéis acorrerem ao retiro para vê-la e pedir orações. Até mesmo o Cardeal Sisto Riario Sforza, Arcebispo de Nápoles (Venerável desde 2012), a acompanhou para encontrá-la, repetindo a visita diversas vezes.


O encerramento do Retiro de Capodimonte.

A Irmã Maria Luigia permaneceu no retiro por dez anos, até seu fechamento em 1867, por dois motivos: a discórdia entre as freiras e o clima desfavorável aos institutos religiosos, que resultou na supressão legal dos mesmos e na confiscação de seus bens pelo Estado italiano.

Gravemente doente, foi acolhida pelas freiras teresianas na rua Materdei, em Nápoles, onde sua fama e virtudes a acompanharam, atraindo todas as freiras. Nessa ocasião também teve que trocar de diretora espiritual, para seu desgosto. Passou então a ser cuidada pelo Padre Michelangelo da Marigliano (venerável desde 2008), confessor de muitas freiras enclausuradas e das Irmãs Teresianas.


O Encontro com Eletta Albini.

Entre elas, a Irmã Maria Luís conheceu uma viúva, Eletta Albini. Descendente de uma nobre família napolitana, ela vivia como freira, apesar de não ter vestido o hábito franciscano, novamente devido ao clima adverso no jovem Reino da Itália. Impressionada com sua espiritualidade e seu plano de fundar, o mais breve possível, uma congregação religiosa dedicada à adoração da Cruz, ela concordou em ajudar, por ser rica.

Após quatro anos, as duas deixaram as Irmãs Teresianas e foram viver como eremitas em uma casa alugada em Miano, onde permaneceram por dezoito meses, refletindo constantemente sobre como realizar seu projeto, antes de retornarem ao centro de Nápoles.


Nascimento das Irmãs Adoradoras da Santa Cruz:

Após diversas mudanças e a profissão de Eletta Albini na Ordem Terceira como Irmã Maria Francisca, elas se estabeleceram em 1875 no palácio Melillo, no largo San Gennariello a Materdei, para onde, três anos depois, se mudaram as jovens que haviam começado a segui-las.

Assim nasceram as Irmãs Adoradoras da Santa Cruz: cinco freiras e seis postulantes, além da Irmã Maria Luísa e da Irmã Maria Francisca. Elas haviam recebido a aprovação tanto do arcebispo quanto do Ministro Geral dos Frades Menores, Padre Bernardino da Portogruaro (também Venerável desde 2008).


A mudança para Casoria.

Após seis anos na Villa Melillo, o número de Irmãs Adoradoras da Cruz havia crescido e a casa tornou-se insuficiente. Em 1884, após várias dificuldades, todas se mudaram para Casoria, na província de Nápoles, para uma nova casa chamada Ritiro di Santa Maria. Uma escola também foi aberta para as meninas internas de Casoria, para ensiná-las a ler, escrever e trabalhar.

Ali também, a Irmã Maria Luísa do Santíssimo Sacramento, agora a madre fundadora, atraía as pessoas com seu carisma, chegando a realizar curas; por isso, era chamada de "a santa freira". 

Em 5 de janeiro de 1885, o Padre Bernardino da Portogruaro informou-a de que havia recebido a minuta da Regra da congregação, que ela havia redigido.

Outras figuras santas de Nápoles na época recorreram à sua sabedoria espiritual. Entre elas, três fundadoras cujas obras começaram em Casoria e que hoje são veneradas como santas: Madre Júlia Salzano (canonizada em 2010), Padre Luís de Casoria, nascido Arcangelo Palmentieri (em 2014), e Madre Maria Cristina da Imaculada Conceição, nascida Adelaide Brando (em 2015).


Morte:

Em 1886, alguns anos após sua chegada a Casoria, o estado de saúde da Madre Maria Luigia agravou-se: ela estava pele e osso, coberta de bandagens. Por vários anos, estivera confinada a uma cadeira de rodas, agora paralisada.

As freiras comunicaram a notícia ao Padre Bernardino por telegrama. Em 2 de fevereiro de 1886, o frade respondeu: "Abençoo-a de todo o meu coração, mas gostaria de vê-la novamente". Quase como em resposta a essa obediência final, após ser declarada morta naquele mesmo dia, a fundadora recuperou-se. O padre Bernardino pôde visitá-la em agosto daquele ano.

No mês seguinte, às 9h da manhã de 3 de setembro de 1886, Madre Maria Luísa faleceu; faltavam três meses para completar sessenta anos. Seu corpo foi sepultado no cemitério de Casoria e, de lá, transferido, em 26 de dezembro de 1926, para a capela do Retiro de Santa Maria.


A causa de beatificação prosseguiu até o decreto de virtudes heroicas.

Para verificar se a reputação de santidade que gozava desde a vida era genuína, iniciou-se sua causa de beatificação. O processo informativo sobre a natureza heroica de suas virtudes foi aberto na diocese de Nápoles em setembro de 1927 e concluído em 1934.

O decreto que validou o processo informativo e a investigação complementar foi promulgado em 14 de dezembro de 2007; três anos depois, a "Positio super virtutibus" foi encaminhada à Sagrada Congregação (agora chamada de "dicastério") para as Causas dos Santos.

A reunião dos consultores históricos, em 12 de abril de 2011, e a dos consultores teológicos, em 28 de outubro de 2014, emitiram parecer favorável quanto ao heroísmo da Madre Maria Luigia no exercício das virtudes cristãs. Ao receber o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, em 21 de janeiro de 2016, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que a declara Venerável.


O milagre que levou à beatificação:

Entre os numerosos testemunhos de graças singulares atribuídas à sua intercessão, foi selecionado um ocorrido em 1926 a um pai de Casoria. Em 19 de dezembro, o homem voltou para casa com febre muito alta. O médico de Casoria diagnosticou-lhe pleuropneumonia do lado direito com toxemia gripal. O diagnóstico foi confirmado por um especialista em Nápoles.

Naquela época, não existiam antibióticos, e essa doença frequentemente levava à morte. O paciente recebeu, portanto, apenas o tratamento necessário para aliviar o esforço imposto ao seu coração. Ao contrário do que às vezes acontecia, a doença não se resolveu após sete dias; aliás, no oitavo dia, surgiram complicações, incluindo nefrite tóxica e claros sinais de septicemia.

O médico, após administrar os Sacramentos da Exéquias ao paciente, aconselhou a esposa do homem a pedir a intercessão de Madre Maria Luísa. Além disso, o translado do corpo havia ocorrido no dia anterior, após o exame em que o médico atuara como perito; e, a propósito, ele era muito devoto a ela.

A mulher foi imediatamente ao túmulo e começou a rezar em voz alta, chorando e batendo na lápide. As Irmãs Franciscanas Adoradoras da Santa Cruz, ao ouvirem aqueles sons, correram até ela e, comovidas com o que viram, rezaram com ela.

Ao retornar para casa, a mulher ouviu o marido pedindo algo para beber. Seu estado melhorou rapidamente, tanto que o médico que o atendeu emitiu imediatamente um atestado declarando que o paciente havia se recuperado excepcionalmente.


Beatificação:

Em 11 de dezembro de 2019, ao receber em audiência o Cardeal Giovanni Angelo Becciu, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto pelo qual a cura de 1926 passou a ser considerada um milagre atribuído à intercessão da Madre Maria Luigia.

Assim, abriu-se o caminho para sua beatificação, inicialmente marcada para 16 de maio de 2020, em Nápoles. Devido à emergência sanitária causada pelo novo coronavírus, a celebração foi adiada para 26 de setembro de 2020, novamente em Nápoles. O Cardeal Crescenzio Sepe, Arcebispo de Nápoles, presidiu o rito como delegado do Santo Padre.

Sua festa litúrgica foi marcada para 2 de setembro, um dia antes de seu nascimento, para evitar coincidir com a festa obrigatória de São Gregório Magno.


As Irmãs Franciscanas Adoradoras da Santa Cruz hoje: 

As Irmãs Franciscanas Adoradoras da Santa Cruz somam atualmente cerca de 300, das quais 90 são estrangeiras. Elas se dedicam à educação e instrução de crianças, adolescentes e jovens, bem como ao cuidado de idosos, enfermos e deficientes, e ao auxílio às paróquias.

Possuem vinte e cinco casas na Itália e cinco no exterior, especificamente nas Filipinas, Indonésia e Brasil. A casa-mãe permanece em Casoria, na Via Nuova Padre Ludovico, 28, enquanto a casa geral foi transferida para Roma.


Fonte:

Site: "Santi, Beati e Testimoni" 

(Traduzido do italiano para o português, com correções no texto)