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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SANTO ALBERTO DE JERUSALÉM, Patriarca Latino de Jerusalém, Bispo e Autor da Regra dos Carmelitas - um pai para o Carmelo. Festa em 17 de setembro.



Ícone representando Santo Alberto
entregando a Regra a São Brocardo.
São João de Acre, cabo norte do golfo de Haifa, 14 de setembro de 1214. O patriarca latino de Jerusalém, Alberto Avogrado, avançava em procissão, rodeado de cônegos do Santo Sepulcro e de outros clérigos. Ele celebrava a festa da Exaltação da Santa Cruz, na qual participava toda a comunidade “franca”, ou seja, os cristãos latinos e outros cidadãos atraídos pelo acontecimento. De repente, uma pessoa da multidão atirou-se contra o patriarca, ferindo-o de morte. O homicida, que era o professor do hospital do Espírito Santo, quis vingar-se por ter sido destituído de sua função por motivos de imoralidade.

Assim morreu o patriarca Alberto, vítima de seu compromisso com uma igreja fiel ao Evangelho. Descendente dos Avogrado, de uma família de classe média, nascera cerca de 60 anos antes, por volta do ano 1150, provavelmente em Castel Gualtieri, na que hoje é província de Reggio Emilia, naquele tempo território piemontês identificado com vários nomes: Lombardia, Itália… Sendo um jovem de 20 anos, depois de acabar os primeiros estudos de direito, optou pela vida religiosa: não por uma carreira eclesiástica cômoda, prometedora e remunerativa, mas pela austera vida comunitária dos Cônegos Regulares de Mortara, que se ocupavam da vida comunitária de pobreza e de oração litúrgica coral unida ao serviço pastoral. Tornou-se um intérprete autorizado de sua regra de vida, até o ponto de obter a confiança de seus superiores e dos irmãos para converter-se em mestre de noviços e, posteriormente, prior, em 1180.

A fama de Alberto cresceu até o ponto de, em 1184, ter sido eleito bispo de Bobbio, onde só permaneceu alguns meses, já que, no ano seguinte, foi destinado a presidir a igreja de Vercelli, onde permaneceu uns vinte anos. 

Este período foi rico em atividade pastoral e diplomática, aspectos fortemente unidos em sua vida. De fato, ele não só presidia a diocese, mas também representava o imperador, em cujo nome governava o condado de Vercelli. 

Sendo bispo, acompanhou a igreja eusebiana na celebração de um sínodo diocesano (1191), no qual nasceram novos estatutos, fruto, ao menos em considerável parte, da clarividência e da competência do próprio bispo. Esta antiga legislação, desafortunadamente desaparecida, esteve em vigor ao menos até o início do século XVII, sendo modelo de concreção e flexibilidade. 

Alberto teve outra preocupação: a formação do clero diocesano. Foi muito valorizado pelos papas, os quais o enviaram como mediador para dirimir desavenças entre os bispos e os capítulos dos cônegos ou entre as dioceses vizinhas. 

Estes foram também anos de intensa atividade política: como bispo-conde, manteve sempre relações cordiais com os imperadores Frederico I “Barbarrocha” e seu filho Henrique IV, a quem acompanhou muitas vezes em suas viagens para a Itália. Não foi fácil a relação com o município de Vercelli, cuja conhecida notoriedade ia crescendo. 

A sabedoria e a competência jurídica de Alberto também se tornaram visíveis por ocasião da reforma dos estatutos dos capítulos dos Cônegos de Biella e Santa Ágata e Santa Maria Maggiore de Vercelli. O bispo também foi requerido para colaborar na revisão das constituições dos Humilhados, a nova ordem religiosa composta por leigos em continência e sacerdotes.

Todas estas atividades, junto com sua fama de homem espiritual, fizeram que os cônegos do capítulo do Santo Sepulcro sugerissem o seu nome ao papa para ser patriarca de Jerusalém. Inocêncio III (1198-1216) acolheu a proposta e, depois de vencer sua resistência como candidato, enviou-o como patriarca de Jerusalém e legado papal para a província da Terra Santa. 

Nos primeiros meses de 1206, Alberto permaneceu em São João de Acre, sede provisória do patriarcado, por estar impedida a entrada e a residência em Jerusalém, que estava em mãos dos sarracenos. Em seguida, ocupou-se em melhorar a situação da Igreja latina na Terra Santa. Como legado papal, interveio no nomeamento de bispos e fomentou o diálogo com os sarracenos e entre os diversos grupos e autoridades cristãs.

Nessa ocasião, o reino latino de Jerusalém se limitava a pouco mais da costa do golfo de Haifa aos territórios libaneses e à ilha de Chipre. Depois da batalha de Hattin (1187), o domínio sarraceno fora restabelecido em quase toda a Terra Santa. Entre os territórios dominados pelos “francos” ficou o promontório do Carmelo. Justamente em sua vertente ocidental sul, no vale do Peregrino (la Wadi ‘ain es Siah), nas ruínas da antiga capela bizantina, depois de 1189, estabeleceu-se um grupo de peregrinos latinos que se propuseram viver como eremitas em santa penitência.

Formavam uma das muitas comunidades que surgiram durante aqueles anos em uma terra fecunda, caracterizada por uma sociedade em movimento e uma Igreja em efervescência, repleta de interrogantes sobre a essencialidade, a simplicidade e a radicalidade de vida. 

A sociedade ocidental estava em profunda transformação: as antigas estruturas feudais, fechadas e baseadas numa agricultura de subsistência com mínimas mudanças sociais, iam dando espaço a novas aglomerações urbanas cujo centro vital era o mercado, o bispado, a administração municipal e inclusive a universidade. 

Novos grupos sociais compostos por mercadores, artesãos, profissionais, iam substituindo as antigas estratificações sociais dos cavaleiros e camponeses. Inclusive na própria Igreja, pululavam os movimentos de opção pela pobreza e os “evangélicos”, que eram pregadores populares que com frequência percorriam amplas regiões, alimentando a fome da Palavra de Deus; além desses, ainda havia os eremitas solitários e em grupo, que se estabeleciam em lugares desérticos, passando a ser um atrativo para muita gente. 

O desejo espiritual de uma vida cristã mais substancial e baseada no Evangelho mesclou-se com a explosão demográfica, o crescimento da riqueza e, como causa disto, as diferenças sociais. 

O aumento da cultura universitária, a mobilidade social e outros fatores provocaram uma imponente marcha à Terra Santa, o que levou às Cruzadas. O desejo de trasladar-se àquela Terra para encontrar o Senhor, visitando os lugares de sua vida terrena, provocara efetivamente um movimento intenso no povo, que se transformou na peregrinação armada chamada cruzada.

Neste contexto nasceu a comunidade dos Irmãos Eremitas do Carmelo. Alberto lhes escreveu a Fórmula de Vida, autêntica coluna vertebral da vida carmelitana, que passou a ser a Regra Carmelita. Uma breve carta na qual se descrevia em poucas linhas seu propósito, ou seja, a vida e a fisionomia pelas quais o grupo se decidira. Pretendiam ser uma fraternidade de eremitas obedientes ao prior, reunidos em torno de Jesus Cristo, em contínua e orante meditação de sua Palavra, alimentados pela Eucaristia, em silêncio, trabalho, pobreza, discernimento e diálogo fraterno.

Nela aparece, pela primeira vez, o "DNA" do grupo, ou seja, o carisma. Este era formado por dois elementos essenciais da vida cristã e religiosa, porém combinados de uma maneira original. Caridade, oração, centralidade de Cristo, serviço e outros elementos da vida espiritual estavam articulados de maneira harmoniosa. Isso proporciona ao grupo e aos seus membros a graça de permanecerem em constante busca do rosto de Cristo, para serem transformados pelo Espírito e viverem em plena comunhão com o Pai e com os irmãos. O ícone ideal da primeira comunidade de Jerusalém, como é descrito nos Atos dos Apóstolos (2,42-47; 4,32-35; 5,12-16), constituía a firme referência estrutural dos primeiros Carmelitas. É difícil saber se a ideia foi sugerida por eles ou por Alberto, porém é certo que a composição da Fórmula de Vida e a articulação dos elementos são do patriarca.


Alberto, sem que saibamos de que modo, porém certamente em diálogo com os próprios irmãos, conseguiu harmonizar as diversas aspirações que aparecem na Fórmula de Vida. Antes de tudo, aparece o forte chamado a seguir Jesus, justamente ali onde ele viveu, consumou seu sacrifício e ofereceu a vida por sua ressurreição: este era o ideal da peregrinação a Jerusalém, contido na tradição cristã. Tratava-se de um caminho de transformação contínua, que conduzia os eremitas a fazer a experiência de ressuscitar da morte, a passar da vida carnal à espiritual. 

Deste modo, os carmelitas se fizeram irmãos, capazes de construir uma comunidade na qual é possível encontrar o Senhor e estar dispostos para servir os irmãos e irmãs do povo de Deus. Tinham o desejo de seguir Jesus na pobreza apostólica, como sinal da essencialidade da vida e da radical dependência de Deus, próprio de muitos movimentos do tempo que optavam pela pobreza. Havia um chamado à solidão do deserto, mesmo que mitigado por elementos comunitários e cenobíticos, que expressava o desejo de buscar o Senhor como o absoluto, para permanecer na intimidade com Ele. 

Havia a exigência da luta espiritual expressa no convite a revestir-se da armadura espiritual (Ef 6,11-17): uma instigante releitura da mentalidade do momento, imbuída dos ideais cavalheirescos e do espírito da cruzada. O desejo de contribuir com a reforma da Igreja se expressou na escolha por venerar a Maria, a Mãe do Senhor, a Senhora do Lugar. Ou seja, do próprio Carmelo e da Terra Santa, conquistada pelo sangue de seu Filho. A ela foi dedicada a capela construída no meio das celas dos irmãos. 

Esta devoção mariana inicial continha todos os elementos que se desenvolveram ao longo da multissecular história da Ordem. Assim como foi escolhida a figura do profeta Elias, o lugar onde se estabeleceram os eremitas estava unido a essa escolha – “junto à fonte”, conhecida popularmente como Fonte Elias. A devoção mariana passou a ser motivo de identificação e chamado à dimensão profética, ou seja, ao anúncio livre e visível do quanto Deus quer para a história humana.

Alguns autores têm tentado definir a contribuição específica de Alberto e seu papel na fundação do Carmelo; porém são somente hipóteses baseadas em provas frequentemente frágeis e não sempre suficientemente verificadas. Embora seja plausível atribuir a Alberto a redação da carta que contém a Fórmula de Vida (isto nunca foi posto em dúvida pelas fontes), e também se possa atribuir a ele as citações bíblicas diretas ou indiretas (são tantas que alguém chegou a dizer que a Fórmula de Vida se apresenta como fruto de uma lectio divina), não se pode afirmar com certeza quais partes ou conselhos são fruto exclusivo da mente e do coração do patriarca e quais são influenciados pelo desejo dos próprios eremitas. De fato, estes já viviam no Carmelo e haviam dado uma forma inicial a seu propositum (Regra 3). Ainda assim, creio que se pode atribuir à experiência de Alberto, cônego da Santa Cruz de Mortara, ao menos a indicação de São Paulo como modelo (Regra 20): um dom específico do patriarca Alberto aos Carmelitas. A menção do apóstolo foi, de maneira mais ou menos consciente, de grande ajuda para os irmãos na hora de orientar-se para o apostolado explícito e direto, sem que por isso fosse desprezada a dimensão contemplativa carismática, originária e própria. Por outra parte, o mesmo Paulo foi também um místico (cfr. 2 Cor 12,1-10) e um homem de profunda oração (Rom 16,25-27; 2 Cor 2,1; Ef. 3,14-21). Da mesma maneira, pode-se manter que é uma herança de Alberto a forte dimensão eclesial que percorre o texto da Fórmula de Vida, a qual conservou em todo tempo o esforço dos Carmelitas a favor da vida eclesial e da evangelização.

Tudo isto permitiu à comunidade eremítica do Carmelo não se encerrar em si mesma num narcisismo conservador da própria escolha e do próprio estilo de vida. Os irmãos se abriram ao mundo e à história, sem perder, por isso, as próprias origens, seu DNA. Instigados pelo aumento de membros da comunidade,  pela pressão sarracena e pela insegurança do lugar, decidiram iniciar a migração para o Ocidente, do qual procediam os primeiros peregrinos penitentes. Desta maneira, além das fundações na Terra Santa e em Chipre, formaram-se Carmelos na Sicília e na Itália (Messina e, depois, Pisa), na Inglaterra (Aylesford, em Kent, e Hulne, em Northumberland), em Provença (Les Aygalades e Valenciennes) e na Alemanha (Colônia).
A Fórmula de Vida de Santo Alberto continuou modelando a vida dos irmãos e passou a ser Regra reconhecida e aprovada, com alguns importantes acréscimos e modificações do papa Inocêncio IV (1 de outubro de 1247). A essencialidade, a flexibilidade e o dinamismo deste tesouro fizeram dele uma referência capaz de oferecer alimento e inspiração a muitos grupos de fiéis, religiosos e leigos, que constituem a Família Carmelitana.
A carta entregue por Alberto aos irmãos eremitas que viviam junto à fonte de Elias completa agora mais de 800 anos, porém não perdeu absolutamente seu frescor. Como um fruto em tempos de mudança, conseguiu adaptar-se a situações sempre novas, abertas à esperança de Deus para os homens.


Por Pe. Giovanni Grosso, O.Carm.
Fonte: http://fradescarmelitas.org.br/santo-alberto-de-jerusalem-um-pai-para-o-carmelo/


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SÃO JOÃO MACIAS, Irmão Leigo Dominicano - memória em 16 de setembro.

 Ribera del Fresno, Espanha, 2 de março de 1585 - Lima, Peru, 16 de setembro de 1645.

 

Juan Macías, um frade leigo dominicano, nasceu em Ribera del Fresno, Espanha, em 2 de março de 1585. Órfão, passou a adolescência com seus tios, dedicando-se à criação de ovelhas. Em 1619, embarcou para as Américas e, após quatro meses e meio de viagem, chegou a Lima, no Peru. Depois de trabalhar para um comerciante atacadista de carne, Juan decidiu consagrar-se ao Senhor: aos trinta e sete anos, ingressou na Ordem Dominicana da Madalena. 

Distinguiu-se na oração, no aconselhamento e no carisma, promovendo obras de caridade e criando uma rede de auxílio que se estendeu até Quito, Bogotá e Cuzco. Faleceu em Lima, em 16 de setembro de 1645. Foi beatificado, juntamente com seu amigo Martín de Porres, em 1837 pelo Papa Gregório XVI.


       1º Texto Hagiológico: 

São João Macías, canonizado em 28 de setembro de 1975, frade leigo dominicano, nasceu em Ribera del Fresno, Espanha, em 2 de março de 1585. Quando criança, perdeu os pais e passou a adolescência e a juventude morando com uma irmã mais nova e seus tios, dedicando-se à criação de ovelhas.

Por volta dos vinte anos, vagou pela região da Extremadura (Guadalcanar, Jerez, Sevilha, etc.) em busca de trabalho, apesar do forte desejo de se consagrar a Deus. Retornou à sua cidade natal em 1613 para receber a certidão de batismo.

Em 1619, finalmente embarcou para as Novas Terras e, após uma árdua viagem de quatro meses e meio, chegou à Cidade dos Reis, Lima. Depois de um breve período trabalhando para um fornecedor atacadista de carne, Giovanni finalmente decidiu sua futura vocação: aos trinta e sete anos, ingressou na Ordem Dominicana da Madalena, na Província de São João Batista. Ele professou seus votos em 1623, dedicando-se até a morte à generosa prática da caridade, servindo como porteiro do convento. Distinguiu-se na oração, no aconselhamento e no carisma da caridade, por meio dos quais promoveu importantes obras de caridade, unindo pessoas de diferentes classes sociais e criando uma rede de auxílio que se estendeu até Quito, Bogotá e Cuzco.

Faleceu em Lima em 16 de setembro de 1645.

Foi beatificado, juntamente com seu amigo Martinho de Porres, em 1837 pelo Papa Gregório XVI.

Foi solenemente canonizado por São Paulo VI em 28 de setembro de 1975.

O que podemos dizer sobre esta nova canonização? Por que este novo santo? Ouçamos as palavras do postulador da causa, Tarcisio Piccari:

João (Juan) Macías é proclamado um “santo”. Há dois pontos principais em seu currículo: primeiro, ele foi um emigrante; depois, tornou-se um religioso. 

Ele não era um emigrante religioso, mas um emigrante “típico”: “religioso”, no sentido leigo, secular e íntimo que damos ao termo. Ele é chamado de “emigrante” porque emigrou da Espanha para o Peru, não por motivações de trabalho ou por maiores aspirações econômicas. Ele não era um soldado mercenário contratado nem uma figura política indesejada fugindo da Extremadura. 

Era um espanhol saudável e honesto; mudou-se para trabalhar, não para ser um aventureiro; ganhou dinheiro e enviou parte de suas economias para sua irmã, que morava em seu país; devolveu o restante aos peruanos pobres e doou à Igreja local, quando se tornou dominicano. 

Em Macías, a razão da migração (...) foi determinada pela resposta pessoal ao fardo missionário de ser cristão. E, respondendo ao imperativo da fé, ele compreendeu o poema e decidiu. Ele viveu isso compartilhando o destino de seus irmãos "mais distantes", descobertos na caridade de Cristo e da Igreja. Ele os via com uma nova perspectiva, diferente da de imigrantes como ele, que haviam deixado sua terra natal principalmente em busca de fortuna. 

Um "imigrante típico", ele não se limitou a interesses coloniais motivados por comportamento egoísta; mostrou genialidade em se colocar a serviço dos outros sem cálculos humanos e acabou revelando a virtude enérgica do Evangelho que eleva a condição humana e forja laços de solidariedade. Ele era um espanhol que conquistou a simpatia universal pela benevolência que expressou de mil maneiras para com os peruanos. Como imigrante, quando decidiu escapar do mundo, emigrou em espírito, alistando-se no estado religioso. 

Descobriu sua vocação dominicana no desejo de maior união com Deus, para o bem de seus irmãos; do convento, lar de seu espírito, não abandonou os pobres. Por vinte anos, a portaria da Maddalena seria o ponto de desembarque de mil misérias. Quase habitualmente, como demonstrado em centenas de textos de O Julgamento (inaugurado três anos após sua morte), ele se tornou um instrumento carismático de serviço diário para centenas de pobres. 

A última aventura "migratória" de Macías, a mais recente, ocorreu em 23 de janeiro de 1949, em Olivenza (Extremadura), onde ele ajudou milagrosamente os pobres que haviam perdido seu alimento diário. Qual é, então, sua mensagem atual? O fenômeno migratório é atual hoje, não apenas em nível regional dentro das fronteiras de um mesmo país; ele se desenvolve e se contrai em escala internacional e intercontinental, com repercussões e implicações para os equilíbrios e desequilíbrios demográficos, econômicos, sociais e políticos. 

Devemos nos perguntar se, e como, em igual medida, a Igreja, ao estender a evangelização, animou a experiência humana das primeiras migrações com virtude divina. João Macías oferece uma resposta que chama a atenção para esse aspecto do problema. 

A personalidade deste "emigrante e imigrante típico" deve ser situada no contexto hispano-peruano do século XVII, de modo a destacar as condições sociais em que atuava. Macías operava num clima de tensão [...], com liberdade de espírito e de maneira altamente eficiente, prática e santa, extraindo o segredo de sua prodigiosa atividade do fato de jamais negar a seus irmãos o tributo do serviço que descobrira em ser cristão. De fato, ele acreditava tanto em sua pertença a Cristo e à Igreja que se apoiava na onipotente Providência divina, que lhe concedeu o carisma da caridade.

 

Queremos também recordar as palavras que o Pontífice pronunciou durante a mensagem do Angelus de domingo, nas quais podemos discernir o lema do Ano Santo, "Cada homem é meu irmão". Ao sublinhar a virtude da pobreza em São Paulo VI, ele destaca a relação que deve existir entre o homem e os bens terrenos:

"E veremos então que esta relação com os bens deste mundo nos torna capazes de alargar o nosso compromisso do egoísta para o social; tornam-se dignos de serem procurados para uma distribuição que estenda o benefício a outros, que, ao receberem tais benefícios, se tornam irmãos, criando um circuito de interesse, simpatia e amor, que se chama caridade, isto é, um reflexo religioso, de facto divino, na nossa vida, mesmo material e sensível." O pão dado em nome de Cristo realiza esta sublimação".

 

       2º TEXTO HAGIOGRÁFICO

Órfão desde menino, com uma irmã mais nova, trabalhou como pastor nas terras de seus tios por alguns anos, depois tornou-se lavrador, mudando-se de uma fazenda para outra. Aos 34 anos, embarcou para o Novo Mundo, atraído pela vasta América do Sul que, assim como seu país natal, estava sob o domínio do Rei da Espanha, "senhor do mundo", como o poeta Lope de Vega o chamava. Já não tão jovem, partiu, como muitos outros espanhóis, para aquelas terras distantes, onde os sonhos de conquista, riqueza e poder pareciam ao alcance de todos. E certamente tinha em mente os feitos de dois de seus famosos compatriotas: Hernán Cortés, um estudante pobre da Universidade de Salamanca e mais tarde conquistador do México; e Francisco Pizarro, o homem analfabeto que se tornou senhor do Peru.

Mas Giovanni, após quase cinco meses de viagem por mar e terra, chegou novamente a Lima para trabalhar para um patrão. Um verdadeiro emigrante: sozinho, sem recursos ou apoio, disposto a qualquer dificuldade por um salário melhor. Ele encontra um emprego bem remunerado em um matadouro e consegue enviar alguma ajuda para sua irmã, que vive na pobreza na Espanha. Enquanto isso, ele descobre a pobreza de Lima. Fundada por Pizarro em 1535, a cidade é a capital de todas as possessões espanholas na América, sede do vice-rei e da primeira universidade fundada no Novo Mundo, a Universidade de San Marcos. Mas, ao redor dos palácios e shoppings, existe um "cinturão" de pobreza, com peruanos, espanhóis e mulatos unidos pela miséria, competindo pelos mesmos empregos precários e compartilhando as mesmas doenças.

O frade coadjutor dominicano Martinho de Porres (filho de uma peruana e um espanhol) dedicou sua vida a essas pessoas em Lima, no Convento de Nossa Senhora do Rosário. Fundou hospitais e orfanatos, cuidou pessoalmente dos doentes, até sua morte em 1639 por tifo, uma doença que afligia os pobres. João Macías também se tornou dominicano, no Convento de Santa Madalena, como irmão coadjutor em 1623, aos 38 anos. Um trabalhador contratado nessa idade certamente não poderia ficar perambulando pelos púlpitos das catedrais. Foi-lhe confiada a portaria, e aquele era verdadeiramente o seu lugar, pois tudo passava por ali: pessoas, vozes, problemas, desespero e até mesmo oportunidades. Ali, ele ouvia os pobres que já conhecia; era seu conselheiro, o inspirador de esperança. E ali, ao mesmo tempo, atuava como porta-voz deles junto às autoridades superiores, pressionando os órgãos públicos, intervindo com propostas e projetos. 

O sapador espanhol, dia após dia, escreve uma história diferente da dos conquistadores. Ele é o espanhol que os peruanos consideram um irmão, pois cada uma de suas intervenções muda a vida de alguém, e muitas delas, para melhor. Com sua humilde posição na Ordem, ele consegue fundar hospitais e orfanatos em Lima, Bogotá e Quito, salvando milhares de pessoas desfavorecidas da pobreza e das doenças.

Três anos após sua morte, um coro de vozes peruanas narrará, no processo canônico, as "realizações" do Irmão João, salvador dos pobres e educador de muitos ricos, a quem ensinou, da portaria de sua igreja, para que deveria ser usado seu dinheiro. Paulo VI, ao proclamá-lo santo em 1975, resumiu seus ensinamentos da seguinte forma: "Aquilo que chamamos de bens deste mundo torna-se digno de ser buscado para uma distribuição que estenda seu benefício a outros, que, ao receberem tais bens, tornam-se irmãos."

 

Fontes:      

Site: "Santi, Beati e Testimoni"
(Traduzido do italiano, com algumas correções no texto)  

Família cristã

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Mater Dolorosa - Mãe Dolorosa - Memória no Dia 15 de setembro de 2026.



SOBRE ELA

O desespero não era característica dela. Afinal, uma alma que foi forjada pelo Espírito Santo sabe encontrar paz até no caos. Ela não fugiu da missão. Ficou ali, de pé, aos pés da cruz. Depois segurou nos braços o Corpo frio daquele Menino que Ela gerou e que embalou para dormir tantas noites.

Maria sentiu tudo. A espada atravessou a Alma dela de verdade! Isso não é rebuscamento de texto. Ela viu tudo sendo cortado por dentro. Mesmo assim, não desmoronou, porque sabia, com uma certeza que vai além da lógica, que é necessário ter fé para crer e que a dor não define o destino de quem a sente.

Quando olho para essa cena, penso em muitas mulheres fortes e corajosas. Mulheres que encontrei na vida, algumas que conheci de perto e outras das quais eu nem sei o nome. Penso nas mulheres que engolem o choro antes de responder ao bom dia dos filhos, que sustentam o queixo enquanto por dentro tudo está desabando, que aprenderam a carregar coisas pesadas demais com uma maestria que às vezes é apenas sobrevivência. 

Penso naquelas que perderam seus filhos para o crime, para as drogas, para a violência, para a fome, para o suicídio, para doenças incuráveis ou para a guerra... Penso nas que tem filhos (as) desaparecidos (as) e dos (as) quais nunca mais tiveram notícias e que nem mesmo um sepultamento digno puderam lhes dar... 

Maria foi tudo isso. Ela não é um símbolo distante para mim. É a Mulher que viu Aquele que Ela mais amava: Jesus - seu Filho e seu Deus - ser dilacerado, coberto de injúrias, blasfêmias, escarros, feridas, chagas, sangue, suor e lágrimas, e, mesmo assim, continuou ali. A Mulher que ficou em silêncio não porque não tinha o que dizer, mas porque havia coisas que só Deus e Ela sabiam.

Aprendi tanto com ela. Ser forte não quer dizer não sentir nada. Ser forte é ser atravessado (a) pela dor e mesmo assim não se perder de quem se é.

O caminho que Ela aponta não é fácil, porque é o caminho da Cruz. Mas a cruz não é o destino final, e Ela sabia disso melhor do que ninguém. Ela ficou de pé no pior momento. Esperou quando não havia mais o que esperar.

Com Ela, consigo crer que todas as coisas são possíveis. Não porque Ela esteja acima de Jesus ou porque resolve o que você não consegue, mas porque, quando você olha para aquela Mulher de pé, percebe que é possível aguentar mais do que imaginamos. A nossa força não vem de nós mesmos, mas vem dAquele (Deus) em quem cremos.

Aprendi que a dor pode até atravessar a minha vida e a sua vida, mas ela não define a nossa história. Porque, se tem dor e tem crucificação, eu não tenho dúvidas de que também tem ressurreição.

Ela é a Mater Dolorosa!




 

 

NOSSA SENHORA DAS DORES, Festa - em 15 de setembro.

     


 O dia 15 de setembro é a festa da Bem-Aventurada Virgem Maria das Dores, aquela que experimentou o mais puro martírio, consumida momento a momento e terrível no instante final da Cruz. Assim, adornada com a Coroa do Martírio, ela é gloriosamente invocada pela Igreja com o título de "Rainha dos Mártires".
 

 

Primeira meditação sobre as Dores de Maria: 

Porque o martírio de Maria veio de Jesus...

Este título de Rainha dos Mártires não parece honrar Maria, assim como não honraria a rosa chamar-se "Rainha dos Espinhos". Contudo, tendo feito do martírio de Jesus o seu próprio, Maria coroou-se com os Seus espinhos e foi tingida com o Seu divino Sangue.

E, assim como é glória de Jesus ser o Rei dos Mártires, também o é orgulho de Maria ser a sua Rainha. Ela possui esta grande supremacia sobre todos os mártires por muitas razões poderosas.

A primeira é: porque toda a razão do seu martírio veio de Deus. Todos os outros mártires foram atormentados por tiranos e carrascos, que dilaceraram seus corpos com espadas e machados; enquanto Maria foi supremamente afligida por Deus em sua alma, que sente uma dor muito maior do que o corpo. E, como seu amor por Jesus foi o instrumento de seu sofrimento, segue-se que, como o amor de Jesus era infinito, assim como o amor de Maria por Ele era supremo, também o era sua dor.

A dor de Maria foi muito maior do que a dor dos outros mártires, assim como a dor causada por um Deus crucificado é maior do que a provocada por um homem que crucifica, pela mão de Deus mais do que pela mão do homem, por um Sujeito (o Verbo Eterno) Encarnado mais do que por um sujeito terreno. Portanto, o seráfico São Boaventura chega a preferir a dor de Maria à dor do próprio Cristo! Pois as chagas divididas no Corpo de Jesus foram, em vez disso, unidas e, portanto, mais intensamente dolorosas no Coração de Maria.

Contudo, é mais correto concordar com o Doutor Angélico de que a dor de Cristo foi maior, visto que Ele sofreu em sua Alma e em seu corpo, para reparar a Justiça divina e o pecado de toda a humanidade. Maria sofreu imensamente, mas, em união com as dores de Cristo, atuou como “corredentora” ou “colaboradora”, “partilhando” com Ele seus padecimentos e sofrimentos, tanto exteriores quanto interiores; no entanto, o único Redentor e Salvador é Cristo.

A Carne e a Alma Santíssimas de Jesus, isto é, sua Santíssima e Imaculada Natureza Humana, unida à Natureza Divina do Verbo, sofreram imensamente. Porém, essa “carne de Jesus” era a mesma carne de Maria, isto é: toda a genética da humanidade de Cristo foi formada pela genética de Maria. Maria, portanto, sofreu também (muito mais que muitos santos e santas estigmatizados) em sua carne, mas padeceu ainda mais — muito mais — em sua alma santíssima e imaculada, que é mais nobre que seu próprio santíssimo corpo e, portanto, mais sensível; e sofreu a ponto de ser privada da vida: Eius dolor fuit maximum inter dolores praesentis vitae. Ah, Maria! E quem poderá compreender tuas dores, se estas devem ser medidas de alguma forma pelas forças da Onipotência divina que quis que fosses afligida, e se são tais que, por assim dizer, rivalizam com as próprias dores de Cristo!

...e foi a mais próxima da de Jesus.

Como Maria, aqui na terra, foi a mais semelhante em virtude ao seu Divino Filho, e como no Céu ela se senta mais perto dele em glória (In regni solio – diz São Jerônimo – sublimata post Christum gloriosa resedit), ela também foi a mais próxima dele nas dores de um cruel martírio.

Assim como Jesus foi coroado com um diadema de dores pela sua “madrasta” sinagoga, sua Mãe Maria também veio depois dele, coroada de dores.

E assim se cumpre a profecia de Joel (cap. 2): O sol se transforma em trevas e a lua em sangue; ambos se escurecem porque o mesmo eclipse da Paixão, que obscureceu o verdadeiro Sol da justiça, Jesus, encheu a lua mística, Maria, de trevas e sangue.

Assim, se Jesus empalideceu, a Mãe definhou; se Jesus foi ferido, Maria desmaiou; se Jesus foi crucificado, Maria permaneceu crucificada. Em suma, Jesus e Maria tinham dois Corações em tão bela harmonia que os mesmos afetos que Um concebia, o outro também concebia: In corde, et corde loquuti sunt.

Somente a Virgem era santa de dois Corações, isto é, de um Coração dado a Ela por Deus Criador e de um Coração dado a Ela por Cristo Redentor. Assim, sua dor era ao mesmo tempo regulada por seu próprio Coração e pelo Coração de Cristo, que a penetrava.

Portanto, visto que Maria foi mártir com Cristo e fez do martírio d'Ele o seu próprio, o seu martírio foi mais nobre do que todos os outros; e ela é justamente invocada como Rainha dos mártires. Ah, Maria! Teu martírio é tão ilustre que não sei se devo contemplá-lo ou invejá-lo.


...tudo foi por Jesus, da maneira mais nobre e dolorosa.

Santo Ildefonso, ao falar das dores de Maria, não hesitou em afirmar que estas foram maiores do que todos os tormentos de todos os mártires juntos. E a verdade do que foi dito pode ser comprovada por muitas razões:

1) Porque todos os mártires sofreram no corpo e Maria sofreu em seu corpo santíssimo e imaculado, porém, mais ainda, em sua santíssima alma;

2) Porque, como argumenta Santo Antonino, Arcebispo de Florença, o martírio é tanto mais nobre e doloroso quanto mais nobre for a vida dada por Deus. Portanto, visto que Maria sacrificou a vida de seu Filho, que era ao mesmo tempo a mais nobre de todas e amada por ela mais do que a sua própria, segue-se que a coroa de Maria foi maior do que a de todos os outros, tornando-a Rainha de todos os mártires;

3) Porque os outros mártires sofreram apenas durante o tempo em que foram torturados pelos tiranos, enquanto o martírio de Maria durou toda a sua vida;

4) Porque Maria amava seu Filho mais do que a si mesma. Consequentemente, os tormentos e a morte de seu Filho foram muito mais dolorosos para ela do que os tormentos e a sua própria morte, como afirma o Beato Amadeu. E, finalmente, porque, como diz Alberto Magno, Maria sofreu uma dor tão grande que foi suficiente para matá-la várias vezes; e, portanto, ela foi fortalecida por Deus com um milagre para suportar um tormento insuportável para a vida humana. Assim, ele conclui que Maria merece, com justiça, preeminência sobre todos os mártires: "Portanto, ela recebeu a graça do martírio e a coroa dos mártires, e sua coroa era maior do que a coroa de todos os outros mártires." Ah, Maria! Já que você é mártir, mais do que mártir, e Rainha dos mártires, só você é digna de ser mais digna de compaixão do que todos os mártires juntos.

Quantas belas coroas de glória brilham sobre tua cabeça, ó Maria! Tu és Rainha do Céu e da Terra; és Rainha dos Anjos e dos Santos; e és até Rainha dos mártires. Mas parece-me que este diadema doloroso te adorna de maneira especial; sim, porque te torna mais semelhante a Jesus, Rei dos mártires; sim, porque o Sangue de um Deus Crucificado, aspergido sobre teu manto no Calvário, te deu uma púrpura mais bela que o manto ensolarado que usas no Céu.

Salve, então, augusta Rainha! Eu te felicito de coração, pois não és menos gloriosa em teus sofrimentos do que em tuas alegrias. Eu te suplico que intercedas por mim com constância cristã nas cruzes deste mundo, para que eu seja reconhecido como teu súdito mais parcial em teu império doloroso.


Segunda meditação sobre as Dores de Maria:

Entre os muitos títulos e celebrações marianas, o mais comovente, por ser o mais próximo da realidade humana, é o da Bem-Aventurada Virgem Maria das Dores.

A dor está presente em nossas vidas desde o nascimento, com o primeiro choro angustiado do recém-nascido, que deixa a segurança do ventre materno para se projetar em um mundo desconhecido, já não ligado à mãe e presa do medo e do pavor.

Depois, a dor nos acompanha com maior ou menor intensidade, com maior ou menor constância, em seus diversos aspectos — físico, moral, espiritual — ao longo da vida, para reencontrá-la no fim da jornada, na separação final e definitiva deste mundo.

A dor de Maria, criatura privilegiada, é mais compreensível, sim, mas ainda assim é uma criatura como nós. Isso ocorre porque também a experimentamos, ainda que em condições e graus diferentes. Ao contrário de outras prerrogativas que lhe são exclusivas — a Anunciação, a Maternidade Divina, a Imaculada Conceição, a Assunção ao Céu, as Aparições, etc. — que exigem um ato de fé de nossa parte para serem consideradas.

Para uma mãe, ver um Filho morrer é a maior dor que existe. Não há palavras que possam, pois, naturalmente, ela esperava morrer após ter concebido, criado e educado o herdeiro e continuador de sua humanidade, mas vê, em vez disso, seu filho morrer enquanto ainda vive — aquele filho a quem ela gostaria de ter dado a vida cem vezes, talvez até mesmo substituí-lo em sua morte.

Milhões de mães que suportaram essa imensa dor ao longo do tempo recorreram a ela em busca de apoio e consolo. Maria viu seu Filho morrer de forma atroz, consciente de sua inocência, sofrendo com a malícia, a incompreensão e a perversidade desencadeadas contra ele, a personificação da Bondade infinita.

Mas não foi apenas a sentença de morte repentina; a dor que Maria experimentou foi o culminar de um longo, silencioso e implacável sofrimento, guardado em seu coração, iniciado pela profecia do ancião Simeão, proferida durante a Apresentação de Jesus no Templo: "E uma espada traspassará a tua própria alma".

Maria é consolo, socorro e alívio para
 todos os que sofrem. 

Assim, todos aqueles que sofrem na carne e na alma voltam seus olhares para Maria, consoladora de todas as dores. As dores são resultantes da doença, da deficiência, da injustiça, da pobreza, da perseguição, da violência física e mental, da perda de entes queridos, da traição, da falta de segurança, da solidão e assim por diante. Tendo sofrido tanto mesmo antes da Paixão de Cristo, ela pode ser a luz que nos guia ao suportarmos nossas próprias dores e ao demonstrarmos compreensão pelos sofrimentos de nossos irmãos e irmãs, nossos companheiros de jornada nesta peregrinação terrena.

Mas Nossa Senhora é também corredentora da humanidade pela Graça, pois participa do sofrimento e da auto-oferta de Cristo. Por isso, como mãe, não se rebelou contra o trágico destino de seu Filho; sofreu indizivelmente, mas também ofereceu seu sofrimento a Deus pela Redenção da humanidade.

E, assim como a Paixão, Morte e Sepultamento de Jesus conduziram à Ressurreição triunfante e salvadora, também Maria, cooperadora na Redenção, se alegrou com essa imensa consolação. Portanto, é a mais indicada para nos mostrar o caminho da salvação e da alegria, passando pelo crisol do sofrimento em todas as suas formas. Do qual, porém, não podemos nos libertar, pois é legado do pecado original.

Nossa Senhora do Escolial (Virgem
de Los Dolores de El Escorial).
Aparições ocorridas na Espanha na 
década de 80 e começo da de 90. 
    O culto
    A devoção a Nossa Senhora das Dores tem suas origens em passagens dos Evangelhos que falam da presença da Virgem Maria no Calvário. Ela assumiu uma forma particular a partir do final do século XI e foi precursora da celebração litúrgica que foi instituída posteriormente.

O "Liber de passione Christi et dolore et planctu Matris eius", de autor desconhecido (erroneamente atribuído a São Bernardo), constitui o início de uma literatura que levou à composição, em várias línguas, do "Lamento da Virgem".

Prova dessa devoção é o popular "Stabat Mater" em latim, atribuído a Jacopone da Todi, que também compôs o famoso "Laudi" em vernáculo; dessa devoção originou-se a festa das "Sete Dores de Maria".

No século XV, ocorreram as primeiras celebrações litúrgicas da "compaixão de Maria" aos pés da Cruz, realizadas durante o Tempo da Paixão.

Em meados do século XIII, em 1233, a Ordem dos "Servos de Maria" foi fundada em Florença pelos Sete Santos Fundadores, inspirados pela Virgem.

A Ordem, cujo nome já definia a devoção à Mãe de Deus, distinguiu-se ao longo dos séculos pela intensa veneração e difusão do culto a Nossa Senhora das Dores. Em 9 de junho de 1668, a Sagrada Congregação dos Ritos permitiu à Ordem celebrar a Missa votiva das Sete Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria. No decreto, mencionava-se que os frades servitas usavam o hábito preto em memória da viuvez de Maria e da dor que ela sofreu durante a Paixão de seu Filho.

Posteriormente, em 9 de agosto de 1692, o Papa Inocêncio XII autorizou a celebração das Sete Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria no terceiro domingo de setembro.

Mas a celebração continuou a evoluir à medida que o culto se espalhava. Em 18 de agosto de 1714, a Sagrada Congregação aprovou a celebração das Sete Dores de Maria na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos. Em 18 de setembro de 1814, o Papa Pio VII estendeu a festa litúrgica do terceiro domingo de setembro a toda a Igreja, inserindo-a no calendário romano.

Finalmente, o Papa Pio X (1904-1914) fixou a data definitiva de 15 de setembro, imediatamente após a celebração da Exaltação da Santa Cruz (comemorada ontem), não mais comemorando as "Sete Dores", mas sim, mais apropriadamente, como "Bem-aventurada Virgem Maria das Dores".

 


As devoções (vide quadros abaixo, na postagem)

As Sete Dores de Maria correspondem a outros tantos episódios narrados no Evangelho:

1) A profecia do ancião Simeão, quando Jesus foi levado ao Templo: "E uma espada traspassará a tua alma".

2) A Sagrada Família é forçada a fugir para o Egito: "José, acordando, tomou o menino e sua mãe, de noite, e fugiu para o Egito".

3) A perda de Jesus e sua procura por três dias — Ele que ficara no Templo. Até que o encontraram: "Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos".

4) Maria, em meio às dores, encontra Jesus carregando a cruz a caminho do Calvário.

5) A Virgem Maria, aos pés da Cruz, em plena submissão à vontade de Deus, participa dos sofrimentos de seu Filho crucificado e moribundo.

6) Maria acolhe em seus braços seu Filho morto, coberto de chagas e de sangue, retirado da Cruz.

7) Maria confia o corpo de Jesus ao túmulo, aguardando a ressurreição. Passando pela experiência mística da "soledade" (a terrível sensação de sofrer a total ausência da presença de Jesus em sua alma por 36 horas). 

A liturgia e a devoção também compilaram a Ladainha de Nossa Senhora das Dores, em que a Virgem é invocada em todas as necessidades, reconhecendo todos os títulos e méritos de seu sofrimento pessoal.

A tradição popular identificou a meditação das Sete Dores na piedosa prática da Via Matris, que, como a Via Sacra, reconta as etapas históricas do sofrimento de Maria. Esses itinerários penitenciais estão surgindo cada vez mais, especialmente perto de santuários marianos, representados por esculturas, cerâmicas, estátuas de madeira e afrescos.


Como não se comover perante as Lágrimas de Dor e de Amor
de uma Mãe tão terna, boa e pura como a Virgem Maria?


As procissões penitenciais, típicas do período da Paixão de Cristo, incluem também a figura da Mãe Dolorosa seguindo o Filho morto, o encontro na subida ao Calvário e Maria aos pés do Crucifixo. Em certos municípios, as procissões devocionais assumem o aspecto de representações verdadeiramente evocativas, especialmente as do encontro entre a imagem de Maria, vestida de luto e pesarosa, e a de Jesus carregando a Cruz, todo ensanguentado e sofrendo.

Em alguns lugares, essas procissões, que na Idade Média também deram origem a representações sacras chamadas "Mistérios", conquistam uma participação popular tão forte que hoje constituem uma atração não só para a devoção e a penitência, mas também para o turismo e o folclore. Entre elas, destaca-se a grande procissão barroca de Sevilha.

Expressões artísticas:

O texto do famoso "Stabat Mater" inspirou músicos ao longo dos séculos; entre os mais ilustres estão Palestrina, Pergolesi, Rossini, Verdi e Dvořák.

A Virgem das Dores foi representada ao longo dos séculos em diversas formas artísticas, especialmente na pintura e na escultura, fruto do trabalho dos maiores artistas que, com seu próprio talento, buscaram expressar o profundo sofrimento de Maria.

A Virgem das Dores é geralmente retratada vestida de preto pela perda de seu Filho, com uma espada ou sete espadas transpassando seu coração.

Outro tema frequentemente representado é a Pietà, o penúltimo ato da Paixão, que ocorre entre a deposição e o sepultamento de Jesus.

Na arte, o termo "Pietà" refere-se à representação dos dois personagens principais, Maria e Jesus, mãe e filho; Maria o ampara deitada em seu colo ou à beira do túmulo junto com São João Apóstolo (Michelangelo e Giovanni Bellini). O "Lamento sobre o Cristo Morto" de Giotto é uma obra-prima que expressa a intensidade da dor dos presentes.

No Santuário de Nossa Senhora das Dores em Castelpetroso (Isernia), segundo a aparição de 1888, Jesus está deitado no chão e Maria, ajoelhada ao seu lado, com os braços estendidos, ambos chorando e oferecendo-o.

Devido à devoção generalizada a Nossa Senhora das Dores, toda cidade e vila possui uma igreja ou capela dedicada a ela; diversas confrarias de caridade e penitência, bem como numerosas congregações religiosas femininas e algumas masculinas, recebem o nome de Nossa Senhora das Dores, especialmente aquelas ligadas à antiga Ordem dos Servos de Maria, bem como a Congregação da Sagrada Paixão e Morte do Senhor, ou, simplesmente, Congregação dos Passionistas, fundada por São Paulo da Cruz

Aparição da Virgem Maria a São Paulo da Cruz,
vestida com o hábito negro, que Ela quer para os Passionistas, sinal
de seu luto pela Paixão e Morte de Cristo.  


O amor e a veneração pela Consoladora dos Aflitos e por sua "compaixão" produziram, sobretudo dentro da Ordem dos Servos, santos esplêndidos. Citamos alguns: os Sete Santos Fundadores, Santa Giuliana Falconieri, São Filipe Benizi, São Pellegrino Laziosi, Santo Antônio Maria Pucci, São Gabriel de Nossa Senhora das Dores (Passionista). Acima de tudo, São João Apóstolo e Evangelista, sempre ao seu lado para confortá-la e compartilhar sua dor indizível, acompanhando-a até o fim de sua vida.

* Nota: aqui no Ceará – Brasil (região Nordeste), mais propriamente na cidade de Juazeiro do Norte, viveu e morreu santamente o famoso Servo de Deus Padre Cícero Romão Batista, grande devoto e apóstolo da devoção a Nossa Senhora das Dores, que é patrona e titular da Igreja Matriz de Juazeiro do Norte, tornada Basílica Menor pelo Papa Bento XVI, de saudosa memória.

O nome Addolorata era amplamente utilizado no sul da Itália, mas, devido ao seu significado óbvio, há agora uma tendência a substituí-lo por seu derivado espanhol, Dolores.

 

Fonte:
Site: “Santi, Beati e Testimoni”.

Autor do primeiro texto: Pe. Libório Siniscalchi.

Autor do segundo texto: Antonio Borrelli.

(Ambos os textos foram traduzidos do italiano, com correções nos textos e acréscimos feitos pelo administrador deste site, para melhor entendimento em língua portuguesa.)


AS SETE PRINCIPAIS DORES E LÁGRIMAS DE MARIA: