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domingo, 30 de agosto de 2026

Beato Eustáquio Van Lieshout, Presbítero e Missionário no Brasil (muito querido e venerado pelo povo de Minas Gerais). São dois textos biográficos.


Beato Eustáquio Van Lieshout,
presbítero e missionário no
Brasil. 
Um taumaturgo do século XX. Dotado dos carismas do conselho e da cura, pastor de almas e modelo de pároco, Padre Eustáquio suportou com humildade e fortaleza as muitas incompreensões que sofreu.


"Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé. Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão por ela e curou seus doentes" (Mt 14, 13-14).

Os últimos anos da vida do Beato Eustáquio van Lieshout no Brasil tiveram muita semelhança com essas cenas descritas no Evangelho: multidões que acorriam para lhe pedir ajuda espiritual ou cura de enfermidades, sendo todos atendidos com carinho de pai. E, quando as autoridades eclesiásticas ou seus superiores, temerosos com as repercussões daquele movimento, mandavam-no para outros lugares, logo o povo descobria e acorria atrás de seu "santo".


Foto do Beato quando chegou ao
Brasil. 
Padre Eustáquio desembarca no Rio de Janeiro.

Nascido na Holanda em 3 de novembro de 1890, foi ordenado sacerdote em 1919 na Congregação dos Sagrados Corações. Sua família, profundamente católica, ofereceu à Igreja mais duas vocações: de duas irmãs suas que se fizeram religiosas. Chamado pelo Senhor à missão, o Beato Eustáquio desembarcou no Rio de Janeiro em 12 de maio de 1925. Seu destino: o povoado de Água Suja, no Triângulo Mineiro.

Situado às margens do Rio Bagagem, aquele local sofria dos males comuns às regiões de mineração muito afastadas, sendo marcado por enormes necessidades espirituais e materiais. O farol que iluminava a vida dura dos mineiros era o antigo santuário de Nossa Senhora da Abadia, onde se fixou o padre vindo da Europa.

Nos seus dez anos em Água Suja - cujo nome foi mudado para Romaria - ele iniciou a edificação do Santuário de Nossa Senhora da Abadia, que se tornou um grande centro de peregrinação.



Pai dos pobres e dos enfermos.

Em Romaria, como nas cidades onde atuou depois, dedicou-se com extremo desvelo aos pobres e aos enfermos. Nas suas visitas às casas de seus paroquianos, servia até mesmo de médico e enfermeiro dos doentes.

Certo dia, numa choupana de Romaria, encontrou um menino cujo corpo era todo uma só chaga. Nem a mãe da criança tinha coragem de cuidar do pobrezinho. O Padre Eustáquio assumiu pessoalmente essa incumbência: dava-lhe banho todos os dias, lavava suas roupas, tirava com uma pinça os vermes que lhe corroíam a carne, da qual se exalava um insuportável mau cheiro, e aplicava as pomadas que ele próprio havia preparado. Em pouco mais de um mês, o menino estava curado.

Noutra ocasião, quando o pároco almoçava em companhia de seus auxiliares no modesto refeitório da casa paroquial, a campainha tocou, e um deles foi atender. Voltou pouco depois e sentou-se sem nada dizer.

— O que houve? — pergunta o Beato Eustáquio.
- Nada... Nada de urgente. Estão querendo falar com o senhor... Mandei esperar na sala de visitas.
— Não! Mandar esperar, nunca! O pároco é o escravo de seus paroquianos.

Dizendo isto, deixou na mesa a refeição inacabada e foi atender os visitantes.

Assim comportou-se o Padre Eustáquio durante seus 24 anos de sacerdócio. Com uma diferença: ele era o escravo de todos os necessitados, e não apenas de seus paroquianos.


O carisma da cura: “Saúde e paz”.

Em Romaria, o Padre Eustáquio já fez algumas curas consideradas milagrosas. Mas foi em Poá (SP), para onde foi transferido, tomando posse como pároco em fevereiro de 1935, que esse dom começou a brilhar com maior intensidade, e sua fama de santidade começou a se espalhar irresistivelmente pelo Brasil inteiro. Tinha o costume de abençoar os fiéis com a seguinte saudação: “Saúde e paz”. Muitas vezes, com suas bênçãos, os enfermos saíam absolutamente curados, bem como os corações “sarados” e cheios de paz...

Um dos maiores benefícios que o Padre Eustáquio fez à população daquela região foi vencer o indiferentismo religioso e resgatar numerosas almas que estavam se emaranhando nas teias da seita espírita.

Multidões cada vez maiores procuravam assiduamente o homem de Deus para pedir o alívio de seus sofrimentos espirituais e físicos. A afluência de povo era tão grande que chegaram a passar por Poá cerca de dez mil pessoas por dia.

A autoridade civil e a religiosa se inquietaram com isso. Por intervenção do Arcebispo de São Paulo — arquidiocese à qual pertencia então Poá —, os superiores do Padre Eustáquio se viram obrigados a transferi-lo.

Nosso beato ficou chocado com a notícia. Não conseguia entender como poderia ser impedido de exercer um carisma que claramente Deus lhe havia concedido para o bem do povo. Mas, como pessoa virtuosa que era, obedeceu sem pestanejar.


Sentindo-se um indesejado,

Com ar de muito abatimento, deixou sua querida Poá no dia 13 de maio de 1941, sem nem sequer despedir-se das pessoas mais chegadas.

Teve de viver algum tempo oculto na cidade de São Paulo, numa situação humilhante, sob a vigilância de seus superiores, sendo até mesmo proibido de visitar seus amigos.

Desde a saída de Poá, a vida do Beato Eustáquio foi como a de um migrante. Onde quer que estivesse, havia pessoas que o procuravam para lhe pedir ajuda, consolo e cura. Logo as multidões se lhe punham ao encalço, e isso causava desagrados e incompreensões. Quase invariavelmente, pouco depois era convidado a se retirar do local. É verdade que também recebeu mostras de carinho, como do Arcebispo de Campinas. Mas, a par disso, houve cenas constrangedoras, como quando foi obrigado a se retirar sem demora do Rio de Janeiro, ocasião em que nem lhe queriam dar tempo de rezar o breviário.

De volta a Minas Gerais.

Em Belo Horizonte se conservam diversos pertences do Pe. Eustáquio, como a batina e o porta-hóstia usados nas visitas aos doentes. Chamado pelo jovem superior da comunidade da Congregação, em Patrocínio, Padre Eustáquio pôde finalmente encontrar sossego. Havendo chegado à cidade em outubro de 1941, ele sentiu-se de fato aliviado, pois seus companheiros de hábito, além de não lhe colocarem obstáculos, ainda o ajudaram nos seus labores apostólicos. Ali ele recebeu a comunicação de que o Arcebispo de Belo Horizonte queria sua presença em sua arquidiocese.

Na capital de Minas, aonde chegou em 3 de abril de 1942, Padre Eustáquio assumiu a paróquia dos Sagrados Corações, na qual permanecerá até 30 de agosto de 1943, dia de sua morte.
Após um início com algumas restrições, que fizeram temer a volta das sanções já aplicadas em outros lugares, o Beato pôde exercer com toda a liberdade os carismas da cura e do conselho, cumprindo a vocação para a qual o Senhor o destinara.

Zeloso pastor de almas, Padre Eustáquio ia ao encontro de quem necessitasse de sua caridade pastoral, mesmo em lugares longínquos.
É de difícil acesso. Na foto, o padre utilizando-se de um cavalo para
chegar a vilarejos distantes. 



Acima de tudo, pastor de almas.

Esse sacerdote exemplar, que sempre procurava remediar os males corporais, nunca se esquecia de que sua principal missão era salvar almas. E, nesse apostolado, "chegou a resultados que fazem lembrar os tempos da Igreja primitiva", escreve seu biógrafo, o Pe. Venâncio SSCC.

Repercutiram sensacionalmente na imprensa os milagres atribuídos ao Padre Eustáquio e há documentos de várias curas para as quais a ciência não tem explicação. Mas ele operou "milagres" muito mais importantes, e numa quantidade que de fato "fazem lembrar os tempos da Igreja primitiva": a conversão de milhares de pecadores.

Passava seis horas por dia atendendo confissões. Não tinha dotes oratórios, mas possuía em alto grau o dom da palavra ardente que move ao arrependimento e à mudança de vida. Na paróquia de Poá, muitas vezes três coadjutores eram insuficientes para atender os penitentes que faziam fila diante dos confessionários após ouvir uma recomendação desse homem de Deus.

Durante um tríduo de pregações na maior igreja de Belo Horizonte, nos três dias verificou-se um fato inédito: terminado o sermão, centenas de homens de todas as classes e idades corriam ao confessionário, disputando o privilégio de serem os primeiros a se reconciliarem com Deus. Movimentação ainda maior ocorreu na Páscoa dos funcionários públicos: mais de cinco mil pessoas obrigaram doze sacerdotes a o socorrerem no atendimento de confissões.

De onde lhe vinha esse poder de arrastar os pecadores à conversão? Do esplendor de sua santidade...



Vida interior exemplar.

O Beato Eustáquio sabia que a alma de todo apostolado é a vida interior. Por isso, mesmo quando passava a noite em claro, começava o dia às cinco da manhã, para não se privar da hora de meditação quotidiana. Rezava o Rosário. Passava horas em adoração diante de Jesus Eucarístico. Nunca se dispensava de fazer seu exame de consciência nem de rezar o breviário.

Em certa ocasião, após um dia estafante, era noite alta e ele tinha de partir de viagem imediatamente. Vendo seu enorme cansaço, disse-lhe um bispo:

- Pe. Eustáquio, eu o dispenso de rezar o breviário hoje.

— Não posso, Excelência. O dia inteiro trabalhei para os outros, agora preciso pensar um pouco em mim mesmo.

Para esse religioso exemplar, a oração não era uma obrigação enfadonha, mas sim o alimento restaurador das energias. Fortalecido por ela, pôde ele realizar o empolgante lema de sua Congregação dos Sagrados Corações: "Para mim o trabalho, para o próximo a utilidade, para os Sagrados Corações a honra e a glória".


Morte serena em meio a lancinantes dores.

No dia 20 de agosto de 1943, atendendo a um doente que sofria de tifo exantemático, o Pe. Eustáquio contraiu essa grave enfermidade, então incurável.

Em dez dias partiria para a eternidade. Prostrado no leito do hospital, caminhando para a morte – que, aliás, ele mesmo profetizara – permaneceu sempre sereno em meio a sofrimentos atrozes, de tal modo que seus últimos dias foram dos mais edificantes de sua vida.

Várias vezes foi visto rezando a oração que ele mesmo costumava ensinar aos outros:

"Ó meu Jesus, eu Vos amo. Eu Vos amo com a vossa Cruz, com o vosso sofrimento, com o vosso amor imenso. Ó Jesus, pelo sangue que derramastes e pelas lágrimas de vossa Mãe Santíssima, dai vista aos cegos, andar aos paralíticos, saúde aos enfermos, paz a todos os que sofrem e padecem. Meu Jesus, vossos passos quero seguir, vossas palavras falar, vossos pensamentos pensar, vossa cruz carregar, vosso Corpo comer, vosso Sangue beber, o pecado detestar e o Céu alcançar”.

Nos seus derradeiros momentos, renovou os votos religiosos e só deu o último suspiro depois de ver entrar em seu quarto, chorando e cansado por uma longa e estafante viagem, seu superior provincial, com quem queria estar de qualquer modo antes de morrer. Era o dia 30 de agosto de 1943.

O Sr. arcebispo de Belo Horizonte e vários sacerdotes do clero vieram
encomendar o corpo do "santo" sacerdote, amado e querido por seu povo.



E Deus o glorificou...

Suas exéquias foram uma apoteose nunca antes vista na capital mineira. Todos os jornais e emissoras de rádio lhe dedicaram grande espaço, comentando seus dons e transcrevendo sua biografia. Pode-se dizer que a quase totalidade da população compareceu para prestar-lhe as últimas homenagens. Sua tumba tornou-se desde logo local de peregrinação. Em 1949, seus restos mortais foram transladados para o interior da igreja que começara a construir.

Infinitamente mais importante, porém, é a glória com que foi recebido no Céu, à qual a Santa Igreja acrescenta a glorificação dos altares, ao beatificá-lo. Assim, o apresenta como modelo para os fiéis do mundo inteiro, especialmente os párocos e os religiosos.


A cerimônia de beatificação foi presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, Presidente da Congregação para as Causas dos Santos, concelebrada por Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Luiz Mancilha Vilela, Arcebispo de Vitória, e numerosos outros bispos e sacerdotes, e contará certamente com a assistência de muitos milhares de fiéis.

(Revista Arautos do Evangelho, julho/2006, n. 54, p. 31 a 33)



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Segundo texto biográfico:

 Humberto van Lieshout nasceu em Aarle Rixtel, Holanda, em 3 de novembro de 1890. Educado por pais dedicados e bons cristãos, e na convivência de seus oito irmãos, Humberto desenvolveu-se como rapaz generoso e piedoso.

Painel da beatificação de Padre Eustáquio.
O exemplo arrasta...

Um dia caiu-lhe nas mãos a biografia do famoso missionário Padre Damião de Veuster, o apóstolo da caridade cristã entre os asilados leprosos da Ilha de Molokai (já canonizado pelo Papa Bento XVI). Quis imitá-lo e, por isso conseguiu matricular-se no Seminário dos Padres dos Sagrados Corações, mas encontrou bastante dificuldade em seus estudos. Seu abnegado esforço, firmeza de vontade e persistência venceram a fraqueza de seus talentos intelectuais.

No noviciado, trocou o seu nome de batismo pelo de Eustáquio e fez sua profissão religiosa em 27 de janeiro de 1915. Dedicando-se muito à oração e aos estudos, agora com menos dificuldade, no dia 10 de agosto de 1919, foi ordenado sacerdote. Em sua imensa felicidade, pedia às suas duas irmãs religiosas que fossem para ele, no seu sacerdócio, como Moisés na montanha, rezando pelo bom êxito do seu apostolado.

Foto do Beato Eustáquio ladeado por duas irmãs suas que eram religiosas.


Por quatro anos exerceu diversos ministérios na Holanda, onde ganhou fama de caridoso e santo. Foi condecorado "Cavaleiro da Coroa" pelo Rei Alberto da Bélgica, pelo seu trabalho junto aos refugiados belgas.

Em terras brasileiras

Em 1925, finalmente, viu completar-se seu ideal, vindo ao Brasil como missionário, com mais dois companheiros. O então bispo de Uberaba, o Venerável Servo de Deus Dom Antônio de Almeida Lustosa (que depois foi arcebispo de Fortaleza, capital do Ceará), convidou sua congregação para vir à sua diocese. Foi assim fundada a primeira casa da Congregação dos Sagrados Corações no Brasil, em Água Suja, MG, onde assumiram o Santuário de Nossa Senhora da Abadia.

Fiel ao carisma de sua Congregação, o Beato Eustáquio era muito devoto.
do Sagrado Coração de Jesus, sendo um ardoroso apóstolo da devoção
ao Coração do Senhor Jesus, rico em misericórdia. Essa sua devoção ao
Amor misericordioso do Senhor fez dele um sacerdote que amava 
as almas, dedicando seu ministério ao pastoreio delas, trabalhando
e rezando pela salvação eterna das almas a ele confiadas. 

Em 1926 tornou-se vigário de três paróquias, com muitas capelas anexas. Seus paroquianos eram pessoas simples, sem instrução religiosa. No começo, custou-lhe ganhar a simpatia daquele povo desconfiado. Visitava os doentes nas choupanas, distribuía roupas e alimentos aos necessitados, acudia aos problemas familiares. Era pai, amigo, advogado e piedoso pastor das almas.

Reabriu a escola rural, moralizou as festas da Padroeira, pregou missões populares em todas as três paróquias. Iniciou a construção do novo Santuário, tão conhecido hoje por todo o povo do Triângulo Mineiro. Conquistou assim toda a região e ganhou fama de santo e milagreiro.

Por onde andava, onde chegava, Padre Eustáquio atraía multidões, ávidas
de suas palavras de conforto e de esperança, assim como por receber sua
tradicional bênção: "Saúde e Paz", que operou curas e milagres em 
muitos fiéis, que já o tinham por "santo". 


Quando foi transferido para Poá, SP, o povo não permitiu a sua saída. Somente dois meses depois, quando as coisas acalmaram, ele pôde assumir essa nova paróquia recém-criada.


Poá fazia parte da zona suburbana da capital de São Paulo, e a maioria da sua população trabalhava nas fábricas e indústrias de São Miguel e São Paulo. Sendo vigário da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, atendia várias outras paróquias vizinhas com seus dois padres coadjutores. Iniciou seu apostolado e as pregações em toda a região. Após uma viagem à Holanda e a Lourdes, na França, de onde trouxe não só muitos donativos, mas também muita água da fonte milagrosa, erigiu ao lado da igreja uma imitação da gruta de Lourdes.

Suas pregações e bênçãos logo criaram fama e projetaram o seu nome pelo estado e até Brasil afora... Passou a ser conhecido como o "Vigário de Poá". 

A notícia das curas do ‘santo’ Pe. Eustáquio fez afluir muita gente à sua procura. Milhares de pessoas se apinhavam nas ruas da pequena cidade de Poá, que não comportava tanto movimento de gente. A todos, o bom padre procurava sempre atender ou dar sua bênção.

Em maio de 1941, a situação tornou-se insustentável e Pe. Eustáquio teve que ser transferido. Por onde passava, as multidões acorriam e, assim, não conseguia mais descansar.

Ricos e pobres. Crianças, jovens, adultos e idosos, de todas as classes, 
sociais e/ou culturais: todos eram almas sedentas por se achegarem
ao Beato Padre Eustáquio para ouvir-lhe suas palavras, 
confessarem-se com ele, assistirem às suas Missas e receberem sua
benção: "Saúde e Paz", que curou a muitos! 

Após algumas transferências, foi empossado como vigário da Paróquia de São Domingos em Belo Horizonte, MG, em 7 de abril de 1942. Por ordem dos superiores, somente no confessionário podia atender os não paroquianos, em número reduzido, em horários fixos. Assim podia conduzir o seu apostolado na paróquia como um vigário normalmente faria.

A pedido do bispo, realizou inúmeras atividades em outras paróquias da capital mineira, como retiros, conferências e confissões; o mesmo aconteceu em outras cidades do interior. Era incansável no trabalho pastoral e assim consumiu sua robustez física.


Para a Casa do Pai...

De repente, a notícia alarmante: Pe. Eustáquio adoecera gravemente, picado por um carrapato perigoso, em suas andanças pelas vilas abandonadas de sua paróquia. Contraíra tifo exantemático, mal para o qual não havia tratamento adequado naquele tempo. Diversas vezes havia predito sua morte próxima. Em julho de 1942, quando atendeu a uma senhora acamada havia anos e que pedia a Deus ir para o céu, disse: "A senhora viverá, ainda, por muitos anos. Sou eu quem vai morrer no ano que vem".

Sofreu terrivelmente, mas aguardou a morte com calma e alegria. Dia 30 de agosto de 1943, sua bela alma descansou definitivamente na paz de Deus. Dia 31 foi decretado luto oficial no município de Belo Horizonte, e toda a cidade acorreu para o último adeus.

Em suas exéquias, grande multidão fez fila para se despedir.
do bondoso Padre Eustáquio, querido e amado pelos
fiéis devotos que já o veneravam como um "santo".


Padre Eustáquio era amado e venerado não apenas pelos fiéis, mas, por
todo o clero arquidiocesano de Belo Horizonte. 


Durante cinco anos seu túmulo foi constantemente visitado por gente de todo o Brasil e, em 1949, foi feita a exumação e trasladação para a sepultura definitiva na Igreja dos Sagrados Corações, cuja construção ele mesmo iniciara em 13 de maio de 1943.


Oração

SENHOR JESUS, nosso Bom Pastor, vós que um dia manifestastes imensa compaixão pelo povo, vendo-o como um rebanho sem pastor, nós vos agradecemos o bom pastor que nos destes na pessoa de vosso servo e amigo Pe. Eustáquio. Ele compreendeu vosso exemplo de total amor ao Pai e aos irmãos, ouviu vosso chamado e realizou-o com generosidade.
Senhor, vós o fizestes um sacerdote e missionário, filho dos Sagrados Corações, que se destacou pela dedicação em celebrar os sacramentos, pela paciência no aconselhamento espiritual, pelo zelo no anúncio do Evangelho e pela compaixão com os sofredores e aflitos. Assim, ele viveu sua especial consagração, tornando-se, por vossa graça e por seu esforço, um homem de Deus e do povo, honra para vós e exemplo para todos que continuais a chamar para vossa própria missão. Por isso, conforme vossa vontade, fazemos uma súplica pelos padres, religiosos, missionários e leigos atuantes em nossas comunidades. Que sejam santos, fiéis e numerosos.
Mais ainda, Senhor: nós vos pedimos com humildade e confiança que glorifiqueis vosso servo Pe. Eustáquio, dando à vossa Igreja, e em especial à Igreja do Brasil, a alegria de invocá-lo oficialmente como santo. Para que a fama e a verdade de suas virtudes sempre mais se acentuem entre nós, rogamos, por meio dele, a graça que tanto desejamos...
Ó Bom Pastor, que a abundância da vossa misericórdia não se detenha aí, mas concedei também que nossas vidas sejam animadas por um grande amor para convosco e para com os nossos irmãos, assim como foi a vida do Pe. Eustáquio, que afirmou: "Ganhar almas, aliviar dores e sofrimentos: eis meu grande ideal inspirado por Deus". QUE ASSIM SEJA! AMÉM.




Endereço do Santuário onde estão o túmulo e as relíquias do Beato Padre Eustáquio Van Lieshout:

Santuário da Saúde e da Paz

Rua Padre Eustáquio, 2405 - Padre Eustáquio, Belo Horizonte - MG, CEP 30720-100.


Imagem gerada por IA


 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SANTA MÔNICA, Viúva e Mãe de Santo Agostinho, Santa Mulher - memória em 27 de agosto.


Tagaste, atual Song-Ahras, Argélia, 331 - Ostia, Roma, 27 de agosto de 387.

Nascida em 331 em Tagaste (atual Argélia), em uma família cristã, ela se casou com Patrício, um pagão de personalidade difícil. Com paciência e dedicação, conseguiu convertê-lo antes de sua morte.

Viúva aos 39 anos, criou seus filhos sozinha, incluindo Agostinho, um homem inteligente, porém rebelde. Ele a fez sofrer ao rejeitar a educação cristã e adotar uma religião oriental.

Mônica nunca deixou de rezar por ele, mesmo quando ele partiu para a Itália, deixando-a para trás. Ela o perdoou e se juntou a ele.

Em Milão, graças em parte ao seu encontro com Santo Ambrósio, Agostinho mudou de vida. Mônica, finalmente em paz, viu seu filho se converter e ser batizado.

Antes de retornar à África com ele, pararam em Óstia, onde Mônica adoeceu e morreu em 387. Agostinho diria dela: "Tu, mãe, me deste à luz duas vezes".

Santa Mônica é hoje a padroeira das mães, viúvas e mulheres casadas.

 

       Primeiro texto hagiográfico: 

Costuma-se dizer que, ao lado de todo grande homem, há uma grande mulher. Essa afirmação é amplamente confirmada pelo vínculo entre Santa Mônica e seu filho, Santo Agostinho.

Nascida em 331 em Tagaste, na Numídia romana, ela deixou uma marca fundamental na história do cristianismo, não apenas como mãe do grande Agostinho de Hipona, mas também por sua personalidade, sua vivacidade e exuberância, sua inteligência, sua força, sua determinação, sua sensibilidade, sua tenacidade, sua mansidão, sua fé inabalável...

Mônica soube moldar sua natureza e aceitar humildemente a vontade de Deus.

Nascida em uma família rica, teve permissão para estudar e dedicou-se com grande paixão à leitura das Sagradas Escrituras. 

Casou-se ainda adolescente com Patrício, um oficial imperial, um homem de temperamento explosivo, mas Mônica conseguiu domar seu temperamento com ternura e bondade. Patrício foi batizado em seu leito de morte

Viúva ainda jovem, criou seus três filhos sozinha. Ela sonhava com um futuro brilhante para Agostinho, mas o jovem a decepcionou com suas escolhas. 

Aos dezoito anos, ele teve Adeodato, um filho que amava profundamente, fruto de seu relacionamento com uma jovem de posição social inferior à sua. A mentalidade da época o impediu de regularizar a situação. Ele nunca revelou o nome da moça, sempre se referindo a ela como "Illa", e viveu com ela por cerca de quinze anos. 

Mônica ficou profundamente triste com o comportamento dele. Após concluir seus estudos em Cartago, Agostinho decidiu ir com a família para Roma. Sua mãe havia decidido acompanhá-lo, mas ele a deixou em Cartago. Mônica, inconsolável, passou a noite chorando no túmulo de São Cipriano.

No início, talvez ela tenha sido insistente e intrometida demais com o filho, mas, gradualmente, compreendeu que deveria permanecer ao seu lado com respeito e discrição. A Irmã Elisabetta Turchi afirma: Agostinho floresceu quando ela deixou de ser uma presença "excessiva" ao seu lado.

Ela sofreu muito por causa da adesão do filho à heresia maniqueísta. O que sabemos sobre ela — certos aspectos de seu caráter, suas fraquezas, alguma desobediência na adolescência e seu relacionamento com o filho — é relatado pelo grande santo em suas "Confissões" (sua obra-prima). 

Agostinho também nos conta que tentou, sem sucesso, convencê-la a seguir a filosofia maniqueísta, da qual era um convicto adepto.

Agostinho, concordando com Cícero, afirmou que a verdadeira felicidade reside na sabedoria, na verdade e na virtude. Ele havia se desiludido com a leitura da Bíblia, e a religião de sua mãe lhe parecera uma "superstição pueril". 

Mas, mais tarde, compreendeu que, para se aproximar do Mistério, era preciso tornar-se humilde e pequeno, como uma criança. 

A heresia maniqueísta, que negava a liberdade humana, o fascinara profundamente: segundo essa corrente filosófica, o bem e o mal, isto é, a luz e as trevas, opõem-se, dominando a alma humana; portanto, toda ação depende da predominância de uma força, ora da outra. Essa concepção libertou Agostinho de qualquer sentimento de culpa; não havia responsabilidade pelos erros que cometia, pois tudo dependia do princípio do mal que o dominava.

Durante sete anos, aderiu a essa heresia, mas, pouco a pouco, Agostinho aproximou-se do cristianismo e iniciou uma acalorada controvérsia com os maniqueus.

Com o apoio de Aurélio Símaco, obteve uma cátedra de retórica em Milão. A influência, a humildade e a sabedoria bíblica do bispo Ambrósio ajudaram Agostinho a se distanciar da heresia

Sua mãe, Mônica, que depositara sua esperança e confiança no santo bispo para que ele pudesse converter seu filho, juntou-se a ele em Milão. Em suas "Confissões", Agostinho escreveu: "Minha indignação contra os maniqueus transformou-se em piedade por sua ignorância dos nossos mistérios".

Em abril de 387, durante a Vigília Pascal, Agostinho foi batizado por Ambrósio (juntamente com seu filho Adeodato, seu irmão Navígio e seu amigo Alípio). Mônica, radiante, estava presente na cerimônia. Ela havia derramado rios de lágrimas pela conversão do filho. Vendo-a tão aflita, o bispo de Milão disse-lhe um dia: "Não é possível que o filho de tantas lágrimas pereça!".

Agostinho observa: "Minha mãe me deu à luz duas vezes: a primeira vez na carne para esta vida terrena, a segunda vez me deu à luz com seu coração para a vida eterna".

No "Tratado sobre a Felicidade", no parágrafo "O Desejo Universal de Felicidade"Agostinho relata o seguinte:

Santa Mônica não tinha estudos, mas 
Era uma mulher cheia de sabedoria.
divina, que nela foi derramada em
abundância. Tudo fruto de sua vida.
de contínua oração e união com Deus. 

...retomando a discussão, afirmei: "Desejamos ser felizes". Mal havia expressado esse princípio quando o aceitaram unanimemente. (A família de Agostinho estava presente na discussão.) "Vocês acham", acrescentei, "que alguém que não possui o objeto de seu desejo é feliz?" Disseram que não. "Então, quem alcança o objeto de seu desejo é feliz?" Minha mãe interveio: "Se ele deseja e alcança o bem, é feliz; se, então, deseja o mal, mesmo que o alcance, é infeliz". E eu, sorrindo para ela com uma expressão de alegria, disse: "Minha mãe, você certamente atingiu o ápice da filosofia".

E novamente o filho expressou toda a sua admiração pela mãe, observando: "Ela é uma mulher de fé viril, de gravidade sensível, de piedade cristã e caridade maternal... Ela cuidava não só dos filhos, mas como se fosse a mãe de todos!"

Um dia, Santo Agostinho escreveu: 
"Sim, meu Deus, se hoje eu sou 
vosso filho. Devo isso porque me
Destes, por mãe, a uma de vossas
 humildes servidoras. 

Após receber o Batismo, Agostinho retirou-se para Óstia com Mônica, e os dois tornaram-se inseparáveis, trocando conversas de grande intensidade espiritual que Agostinho transcreveu e que representam um guia insubstituível para aqueles que buscam a Deus.

Os dois, em constante oração, viveram uma experiência mística singular, "um êxtase platônico" (isto é, ao mesmo tempo). 

Faltavam apenas alguns dias para a morte dela e, enquanto conversavam, faziam planos para o seu futuro espiritual, refletiam sobre como seria a vida eterna dos bem-aventurados e "abriram seus corações à Fonte da Vida".


Voltaram-se para a "própria Entidade", elevando-se cada vez mais em admiração às obras divinas, até contemplá-las, compreendendo que o Ser em si "é o Eterno"; não há passado nem futuro, apenas o eterno presente. Assim, por meio da conversa e da contemplação, eles conseguiram apreender "um pouco da eternidade".

Mônica morreu nove dias depois, talvez de febre malárica, em 27 de agosto de 387.

Após a morte de sua mãe, Agostinho retornou à África, foi ordenado sacerdote, fundou um mosteiro, tornou-se bispo de Hipona e se insurgiu contra as heresias da época (pelagianismo, donatismo, maniqueísmo).

A influência de sua mãe, Mônica, foi indelével na vida do grande santo; ela soube aceitar mansamente a vontade de Deus. Seu comportamento ensina às mães de hoje a paciência, a necessidade de esperar que o filho desenvolva livremente sua própria personalidade e vocação. Ela era capaz de "dar vida" não apenas materialmente, mas também espiritualmente. Outra de suas características marcantes era sua oração insistente, confiante, constante e tenaz: ela nunca se cansava de pedir e esperar!

O Papa Francisco exaltou suas virtudes, afirmando que ela também pode ser um grande exemplo para as mulheres de nosso tempo: ela representa poderosamente o "carisma feminino" e é um modelo de "mulher bem-sucedida".

Santa Mônica é a padroeira das mulheres casadas e das mães cristãs. A Serva de Deus Chiara Lubich, fundadora do Movimento Focolares, a chama de "a sede da sabedoria e, ao mesmo tempo, a mãe da casa". 



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SEGUNDO TEXTO HAGIOGRÁFICO: 

Ela nasceu em Tagaste, uma antiga cidade da Numídia, em 331, em uma família abastada e profundamente cristã. Contrariando o costume da época, foi-lhe permitido estudar, e ela aproveitou essa oportunidade para ler e meditar sobre as Sagradas Escrituras.

Em sua juventude, casou-se com Patrizio, um modesto proprietário de terras de Tagaste e membro do Conselho Municipal. Ele ainda não era cristão, mas era bondoso e afetuoso, embora também se irritasse facilmente e fosse autoritário.

Devido ao seu caráter, embora amasse Mônica intensamente, não a poupava de aspereza e infidelidade. Contudo, Mônica conseguiu superar, com bondade e mansidão, tanto o temperamento do marido quanto as fofocas das criadas e a irritabilidade da sogra.

Aos 22 anos, nasceu seu primogênito, Agostinho. Mais tarde, nasceu um segundo filho, Navigio, e uma filha, cujo nome é desconhecido, mas sabe-se que ela se casou. Depois de ficar viúva, tornou-se abadessa do convento de Hipona.

As informações que relatamos são extraídas do grande livro, ainda relevante e procurado nos dias de hoje, as "Confissões", escritas por seu filho Agostinho, que se tornou também seu biógrafo de referência. Como boa mãe, ela efetivamente proporcionou a todos uma profunda educação cristã; Santo Agostinho diz que ele bebeu o nome de Jesus com o leite materno; o recém-nascido foi inscrito entre os catecúmenos, embora, segundo o costume da época, não tenha sido batizado, aguardando-se até atingir a idade adulta. Ela cresceu sob os ensinamentos de sua mãe sobre a religião cristã, cujos princípios permaneceriam impressos em sua alma, mesmo quando estivesse mergulhada no erro.

Mônica orava fervorosamente pelo arrependimento do marido e teve a consolação, um ano antes de sua morte, de vê-lo tornar-se catecúmeno e ser batizado em seu leito de morte, em 369.

Mônica tinha 39 anos e precisou assumir a administração da casa e dos bens, mas sua maior preocupação era com o filho Agostinho, que, embora um bom menino na infância, na juventude buscou os prazeres mundanos desenfreadamente, questionando até mesmo a fé cristã, tão profundamente enraizada nele desde a infância; de fato, ele tentara, sem sucesso, convencer a mãe a abandonar o cristianismo pelo maniqueísmo, conseguindo posteriormente com o irmão Navigio.

O maniqueísmo foi uma religião oriental fundada no século III d.C. por Mani, que fundiu elementos do cristianismo e da religião de Zoroastro. Seu princípio fundamental era o dualismo, ou seja, a oposição constante de dois princípios igualmente divinos, um bom e um mau, que dominam o mundo e até mesmo a alma humana.

Os eventos da vida de Mônica estão intimamente ligados aos de Agostinho, conforme ele próprio os relata; ela permaneceu em Tagaste e continuou a velar por seu filho com apreensão e orações, que havia se mudado para Cartago para estudar. Ao mesmo tempo, ele levava uma vida boa, vivendo mais tarde com uma criada cartaginesa, com quem também teve um filho, Adeodato, em 372.

Depois de tentar todos os meios para trazê-lo de volta ao caminho certo, Mônica finalmente o proibiu de retornar para sua casa. Embora amasse profundamente sua mãe, Agostinho não sentia vontade de mudar de vida e, tendo concluído com sucesso seus estudos em Cartago, decidiu mudar-se com toda a família para Roma, a capital do império, do qual a Numídia era uma província. Mônica também decidiu segui-lo, mas ele a convenceu a deixá-la em Cartago enquanto embarcavam para Roma.

Mônica passou aquela noite em lágrimas junto ao túmulo de São Cipriano; embora enganada, não desistiu e heroicamente continuou seu trabalho pela conversão do filho. Em 385, ela também embarcou e se juntou a ele em Milão, onde Agostinho, desgostoso com as ações contraditórias dos maniqueus em Roma, havia se mudado para assumir a cátedra de retórica.

Ali, Mônica teve a consolação de vê-lo frequentar a escola de Santo Ambrósio, bispo de Milão, e depois se preparar para o batismo com toda a família, incluindo seu irmão Navígio e seu amigo Alípio. Assim, suas orações foram atendidas. O bispo de Milão havia lhe dito: "É impossível que um filho de tantas lágrimas se perca".

Ela permaneceu ao lado do filho, aconselhando-o em suas dúvidas, e finalmente, na noite de Páscoa de 387, pôde vê-lo ser batizado junto com toda a sua família. Agora, um cristão profundamente comprometido, Agostinho não podia permanecer em seu casamento; segundo a lei romana, ele não podia se casar com sua empregada doméstica, pois ela era de classe social inferior. Finalmente, com o conselho de Mônica, já idosa e ansiosa para se estabelecer por causa do filho, decidiram enviar a empregada de volta à África, com o consentimento dela, enquanto Agostinho cuidaria dela e do filho deles, Adeodato, que havia permanecido com ele em Milão.

Nesse momento, Mônica pensou que poderia encontrar uma noiva cristã adequada, mas Agostinho, para sua grande e agradável surpresa, decidiu não se casar novamente, mas retornar à África para viver uma vida monástica, chegando a fundar um mosteiro.

Houve um período de reflexão, passado em retiro em Cassiciacum, perto de Milão, com sua família e amigos, discutindo filosofia e assuntos espirituais. Mônica estava sempre presente, participando com tanta sabedoria das discussões, que seu filho quis transcrever as sábias palavras da mãe em seus escritos, para surpresa de todos, já que as mulheres não tinham permissão para conversar.

Tomada a decisão, partiram com o resto da família, saindo de Milão para Roma e depois para Óstia Tiberina, onde alugaram um lugar para ficar enquanto aguardavam um navio com destino à África.

Em suas "Confissões", Agostinho relata as conversas espirituais com sua mãe, que aconteciam na tranquilidade de sua casa em Óstia, recebendo dela conforto e edificação; agora, mais do que uma mãe, ela era a fonte de seu cristianismo. Mônica, no entanto, também lhe disse que não se sentia mais atraída por este mundo. A única coisa que ela queria era que seu filho se tornasse cristão, o que, de fato, aconteceu. Não só isso, ela o viu comprometido com uma vida consagrada ao serviço de Deus, para que pudesse morrer feliz.

Em cinco ou seis dias, ela ficou acamada com febre, chegando a perder a consciência em alguns momentos. Disse aos seus filhos, consternados, que a enterrassem onde quisessem, sem se preocuparem, mas que se lembrassem dela, onde quer que estivessem, no altar do Senhor. Agostinho, com lágrimas nos olhos, ofereceu-lhe seu afeto, repetindo: "Tu me deste à luz duas vezes".

A doença (talvez malária) durou nove dias e, em 27 de agosto de 387, Mônica faleceu aos 56 anos. Mulher de grande intuição e extraordinárias virtudes naturais e sobrenaturais, era admirada por sua força de espírito singular, inteligência aguçada e profunda sensibilidade, atingindo o ápice da filosofia nos encontros de Cassiciacum.

Respeitosa e paciente com todos, resistiu apenas ao seu amado filho, que queria levá-la ao maniqueísmo; era frequentemente sustentada por visões, que instintivamente distinguia entre celestiais e puramente imaginárias.

Seu corpo permaneceu venerado por séculos na igreja de Santa Aurea, em Óstia, até 9 de abril de 1430, quando suas relíquias foram transferidas para Roma, para a igreja de San Trifone (atual Sant'Agostino), e colocadas em um sarcófago artístico, esculpido por Isaia da Pisa, também no século XV.

Santa Mônica, considerada o modelo e padroeira das mães cristãs, é muito venerada; seu nome está entre os mais comuns entre as mulheres. Sua festa é celebrada em 27 de agosto, um dia antes da de seu grande filho, o bispo de Hipona, Santo Agostinho, que, por uma estranha coincidência, morreu em 28 de agosto de 430 d.C.

 

       Um comentário: 

Poucas figuras na história do cristianismo personificam o carisma feminino como Santa Mônica, a mãe amorosa e tenaz que deu à luz Santo Agostinho, bispo e Doutor da Igreja, e que desempenhou um papel decisivo em sua conversão.

A liturgia a comemora em 27 de agosto, e sua festa precede a de seu ilustre filho em um dia.

Nessa mulher, que viveu em grande parte à margem da sociedade, encontramos mansidão e gentileza, mas também uma extraordinária força de espírito. Sua fé é uma fé que jamais desiste, como se pode imaginar, e que cresceu no exemplo de Maria.