Soccavo,
Nápoles, 16 de novembro de 1826 – Casoria, Nápoles, 3 de setembro
de 1886.
Infância:
Maria
Velotti nasceu em Soccavo, hoje um bairro de Nápoles, mas na época
um município independente, ainda parte da Diocese de Pozzuoli, em 16
de novembro de 1826, e foi batizada no mesmo dia na igreja paroquial
de São Pedro e São Paulo.
Sua
infância foi marcada pela perda de seus pais, Francesco Velotti e
Teresa Napoletano, trabalhadores simples, honestos e profundamente
religiosos. Maria, aos dois anos e meio, foi acolhida por uma tia
solteira chamada Caterina, que morava em Sirico, perto de Nola (hoje
um povoado de Saviano). Seu irmão Giovanni, filho do primeiro
casamento de seu pai, permaneceu em Soccavo, então eles praticamente
nunca se conheceram: foi somente na vida adulta que descobriram, por
acaso, que eram irmãos.
Maria,
portanto, cresceu na casa de sua tia, que lhe proporcionou sua
educação inicial, cultivando desde cedo o amor por Cristo e
dedicando grande parte do seu tempo à oração. Em vez disso, ela
recebeu sua educação primária do padre local: como as escolas
públicas, estabelecidas em 1860, ainda não existiam, essa era a
única opção no campo.
Maltratada
pela tia, mas obediente.
Com
o tempo, a tia Caterina mudou de atitude em relação a ela: havia
sido instigada por parentes, que se ressentiam de ver parte de sua
herança dada à sobrinha. Os anos de sua infância e juventude
foram, portanto, todos difíceis para Mariella (como era apelidada),
porque sua tia começou a maltratá-la.
Por
exemplo, tirou-lhe os sapatos extras, de modo que a menina, quando ia
à igreja, tinha que andar um longo caminho descalça, para só
calçar o único par que lhe restava assim que entrava. Para
impedi-la de dedicar tempo à oração, também lhe dava tarefas de
casa para fazer dentro e fora de casa ao longo do dia, que ela
inexplicavelmente completava em cerca de duas horas.
Quando
a situação se tornou insuportável, apesar da mansidão e
obediência de Maria, ela foi providencialmente acolhida como filha
por um casal de vizinhos, Lorenzo Sabatino e Giuseppa Tuzzolo, que
não tinham filhos.
Uma
jornada espiritual à maneira franciscana.
Em
29 de abril de 1849, Maria recebeu o Sacramento da Confirmação. Nessa época,
teve seu primeiro contato com o franciscanismo, por meio de um frade
mendicante do convento de Sant'Angelo al Palco, em Nola, da Ordem dos
Frades Menores Reformados. Após diversas conversas com ele,
sentiu-se compelida a ir até lá e se dirigir ao sacerdote que
encontraria no confessionário.
Ela
percorreu os dez quilômetros entre Sirico e Nola, entrou na igreja
do convento, ajoelhou-se diante do Santíssimo Sacramento e depois
foi ao confessionário. Lá, conheceu o Padre Filippo Antonio de
Domicella, com quem embarcou numa longa jornada espiritual. O Padre
Domenico Piciocchi, pároco de Sirico, que a havia guiado até então,
concordou em confiá-la aos seus cuidados, como ela havia pedido,
especialmente porque ele havia sido nomeado cônego da catedral de
Nola.
Seu
desejo de pertencer à família franciscana nunca a abandonou,
tornando-se mais forte a cada dia. Finalmente, após confirmar sua
disposição espiritual, o Padre Filippo Antonio a vestiu com o
hábito franciscano na igreja do convento de San Giovanni Evangelista
em Taurano e lhe deu o nome de Irmã Maria Luísa Pascoal do
Santíssimo Sacramento. Era o dia 2 de fevereiro de 1853.
Uma
"freira doméstica", então no Retiro de Capodimonte.
Ela
mal sabia ler e escrever, mas mantinha conversas profundamente
espirituais com seu erudito confessor; ela não gozava de boa saúde,
mas oferecia continuamente seu sofrimento a Deus. Passou a viver na
casa dos religiosos sabatinos como reclusa dedicada à oração; saía
apenas quando precisava ir à igreja, como as outras freiras
domésticas da época. Em 22 de fevereiro de 1854, professou a Regra
da Ordem Terceira de São Francisco, para se sentir mais unida a
Jesus e uma verdadeira filha do Pobrezinho de Assis.
Contudo,
a vida em casas de leigos não lhe era adequada. Assim, em julho de
1854, o Padre Filippo Antonio identificou um retiro em outra região
de Nápoles, Capodimonte, dirigido pela Madre Maria Michela Russo,
que acolheu com alegria a Irmã Maria Luísa. Como não lhe era mais
possível acompanhá-la de perto, encaminhou-a ao Padre Cherubino da
Casalnuovo, que vivia no convento de Miano, mais próximo de
Capodimonte.
Fenômenos
estranhos.
Enquanto
isso, já em 1853, a Irmã Maria Luíza começou a vivenciar
fenômenos sobrenaturais: visões de Jesus na cruz, da Virgem Maria e de
São Francisco, e êxtases, por um lado, tormentos demoníacos, por
outro, combinados com dores excruciantes, a ponto de confiná-la ao
leito por dias.
Outro
evento incomum ocorreu em 13 de abril de 1854: ela foi encontrada
dentro do nicho da estátua de São Francisco na igreja de San
Giovanni in Taurano, com o vidro à frente hermeticamente fechado. O
próprio Padre Filippo Antonio esteve presente em muitas dessas
manifestações, como a crucificação mística.
Seu
estilo espiritual:
A
Irmã Maria Luísa orava ao Senhor para que lhe transmitisse as
doenças e os sofrimentos dos enfermos que a procuravam; Ele
profetizou que um dia seu corpo se encolheria em uma massa de dor.
Ela
frequentemente usava um cilício e outros instrumentos de ferro para
se autoflagelar à noite. Apesar de sua constituição robusta, mas repleta de dores, comia muito pouco; tomava apenas alguns goles de
água sem saciar a sede, oferecendo esses sofrimentos a Deus e
imitando a sede de Jesus na cruz.
Era
a mestra das noviças, instruindo-as no amor a Deus, na fervorosa
adoração à Cruz e no respeito pelas suas companheiras freiras e
por si mesmas. Queria praticar o conceito de pobreza e exigia-o
também das noviças e da Madre Maria Michela, proprietária do
retiro (espécie de "beatério"), que se recusava a doar seus bens à comunidade e a tornar-se
pobre e necessitada; isso criou um conflito entre as duas, que causou
grande sofrimento à Irmã Maria Luísa.
A
fama de sua santidade a acompanhou de Sirico a Capodimonte, a ponto
de muitos fiéis acorrerem ao retiro para vê-la e pedir orações.
Até mesmo o Cardeal Sisto Riario Sforza, Arcebispo de Nápoles
(Venerável desde 2012), a acompanhou para encontrá-la, repetindo a
visita diversas vezes.
O
encerramento do Retiro de Capodimonte.
A
Irmã Maria Luigia permaneceu no retiro por dez anos, até seu
fechamento em 1867, por dois motivos: a discórdia entre as freiras e
o clima desfavorável aos institutos religiosos, que resultou na
supressão legal dos mesmos e na confiscação de seus bens pelo
Estado italiano.
Gravemente
doente, foi acolhida pelas freiras teresianas na rua Materdei, em
Nápoles, onde sua fama e virtudes a acompanharam, atraindo todas as
freiras. Nessa ocasião também teve que trocar de diretora
espiritual, para seu desgosto. Passou então a ser cuidada pelo Padre
Michelangelo da Marigliano (venerável desde 2008), confessor de
muitas freiras enclausuradas e das Irmãs Teresianas.
O
Encontro com Eletta Albini.
Entre
elas, a Irmã Maria Luís conheceu uma viúva, Eletta Albini.
Descendente de uma nobre família napolitana, ela vivia como freira,
apesar de não ter vestido o hábito franciscano, novamente devido ao
clima adverso no jovem Reino da Itália. Impressionada com sua
espiritualidade e seu plano de fundar, o mais breve possível, uma
congregação religiosa dedicada à adoração da Cruz, ela concordou
em ajudar, por ser rica.
Após
quatro anos, as duas deixaram as Irmãs Teresianas e foram viver como
eremitas em uma casa alugada em Miano, onde permaneceram por dezoito
meses, refletindo constantemente sobre como realizar seu projeto,
antes de retornarem ao centro de Nápoles.
Nascimento
das Irmãs Adoradoras da Santa Cruz:
Após
diversas mudanças e a profissão de Eletta Albini na Ordem Terceira
como Irmã Maria Francisca, elas se estabeleceram em 1875 no palácio
Melillo, no largo San Gennariello a Materdei, para onde, três anos
depois, se mudaram as jovens que haviam começado a segui-las.
Assim
nasceram as Irmãs Adoradoras da Santa Cruz: cinco freiras e seis
postulantes, além da Irmã Maria Luísa e da Irmã Maria Francisca.
Elas haviam recebido a aprovação tanto do arcebispo quanto do
Ministro Geral dos Frades Menores, Padre Bernardino da Portogruaro
(também Venerável desde 2008).
A
mudança para Casoria.
Após
seis anos na Villa Melillo, o número de Irmãs Adoradoras da Cruz
havia crescido e a casa tornou-se insuficiente. Em 1884, após várias
dificuldades, todas se mudaram para Casoria, na província de
Nápoles, para uma nova casa chamada Ritiro di Santa Maria. Uma
escola também foi aberta para as meninas internas de Casoria, para
ensiná-las a ler, escrever e trabalhar.
Ali
também, a Irmã Maria Luísa do Santíssimo Sacramento, agora a
madre fundadora, atraía as pessoas com seu carisma, chegando a
realizar curas; por isso, era chamada de "a santa freira".
Em 5 de janeiro de 1885, o Padre Bernardino da Portogruaro informou-a
de que havia recebido a minuta da Regra da congregação, que ela
havia redigido.
Outras
figuras santas de Nápoles na época recorreram à sua sabedoria
espiritual. Entre elas, três fundadoras cujas obras começaram em
Casoria e que hoje são veneradas como santas: Madre Júlia Salzano
(canonizada em 2010), Padre Luís de Casoria, nascido Arcangelo
Palmentieri (em 2014), e Madre Maria Cristina da Imaculada Conceição,
nascida Adelaide Brando (em 2015).
Morte:
Em
1886, alguns anos após sua chegada a Casoria, o estado de saúde da
Madre Maria Luigia agravou-se: ela estava pele e osso, coberta de
bandagens. Por vários anos, estivera confinada a uma cadeira de
rodas, agora paralisada.
As
freiras comunicaram a notícia ao Padre Bernardino por telegrama. Em
2 de fevereiro de 1886, o frade respondeu: "Abençoo-a de todo o
meu coração, mas gostaria de vê-la novamente". Quase como em
resposta a essa obediência final, após ser declarada morta naquele
mesmo dia, a fundadora recuperou-se. O padre Bernardino pôde
visitá-la em agosto daquele ano.
No
mês seguinte, às 9h da manhã de 3 de setembro de 1886, Madre Maria
Luísa faleceu; faltavam três meses para completar sessenta anos.
Seu corpo foi sepultado no cemitério de Casoria e, de lá,
transferido, em 26 de dezembro de 1926, para a capela do Retiro de
Santa Maria.
A
causa de beatificação prosseguiu até o decreto de virtudes
heroicas.
Para
verificar se a reputação de santidade que gozava desde a vida era
genuína, iniciou-se sua causa de beatificação. O processo
informativo sobre a natureza heroica de suas virtudes foi aberto na
diocese de Nápoles em setembro de 1927 e concluído em 1934.
O
decreto que validou o processo informativo e a investigação
complementar foi promulgado em 14 de dezembro de 2007; três anos
depois, a "Positio super virtutibus" foi encaminhada à Sagrada Congregação (agora chamada de "dicastério") para as Causas dos Santos.
A
reunião dos consultores históricos, em 12 de abril de 2011, e a dos
consultores teológicos, em 28 de outubro de 2014, emitiram parecer
favorável quanto ao heroísmo da Madre Maria Luigia no exercício
das virtudes cristãs. Ao receber o prefeito da Congregação para as
Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, em 21 de janeiro de 2016, o
Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que a declara
Venerável.
O
milagre que levou à beatificação:
Entre
os numerosos testemunhos de graças singulares atribuídas à sua
intercessão, foi selecionado um ocorrido em 1926 a um pai de
Casoria. Em 19 de dezembro, o homem voltou para casa com febre muito
alta. O médico de Casoria diagnosticou-lhe pleuropneumonia do lado
direito com toxemia gripal. O diagnóstico foi confirmado por um
especialista em Nápoles.
Naquela
época, não existiam antibióticos, e essa doença frequentemente
levava à morte. O paciente recebeu, portanto, apenas o tratamento
necessário para aliviar o esforço imposto ao seu coração. Ao
contrário do que às vezes acontecia, a doença não se resolveu
após sete dias; aliás, no oitavo dia, surgiram complicações,
incluindo nefrite tóxica e claros sinais de septicemia.
O
médico, após administrar os Sacramentos da Exéquias ao paciente,
aconselhou a esposa do homem a pedir a intercessão de Madre Maria
Luísa. Além disso, o translado do corpo havia ocorrido no dia
anterior, após o exame em que o médico atuara como perito; e, a
propósito, ele era muito devoto a ela.
A
mulher foi imediatamente ao túmulo e começou a rezar em voz alta,
chorando e batendo na lápide. As Irmãs Franciscanas Adoradoras da
Santa Cruz, ao ouvirem aqueles sons, correram até ela e, comovidas
com o que viram, rezaram com ela.
Ao
retornar para casa, a mulher ouviu o marido pedindo algo para beber.
Seu estado melhorou rapidamente, tanto que o médico que o atendeu
emitiu imediatamente um atestado declarando que o paciente havia se
recuperado excepcionalmente.
Beatificação:
Em
11 de dezembro de 2019, ao receber em audiência o Cardeal Giovanni
Angelo Becciu, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, o
Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto pelo qual a cura
de 1926 passou a ser considerada um milagre atribuído à intercessão
da Madre Maria Luigia.
Assim,
abriu-se o caminho para sua beatificação, inicialmente marcada para
16 de maio de 2020, em Nápoles. Devido à emergência sanitária
causada pelo novo coronavírus, a celebração foi adiada para 26 de
setembro de 2020, novamente em Nápoles. O Cardeal Crescenzio Sepe,
Arcebispo de Nápoles, presidiu o rito como delegado do Santo Padre.
Sua
festa litúrgica foi marcada para 2 de setembro, um dia antes de seu
nascimento, para evitar coincidir com a festa obrigatória de São
Gregório Magno.
As
Irmãs Franciscanas Adoradoras da Santa Cruz hoje:
As
Irmãs Franciscanas Adoradoras da Santa Cruz somam atualmente cerca
de 300, das quais 90 são estrangeiras. Elas se dedicam à educação
e instrução de crianças, adolescentes e jovens, bem como ao
cuidado de idosos, enfermos e deficientes, e ao auxílio às
paróquias.
Possuem
vinte e cinco casas na Itália e cinco no exterior, especificamente
nas Filipinas, Indonésia e Brasil. A casa-mãe permanece em Casoria,
na Via Nuova Padre Ludovico, 28, enquanto a casa geral foi
transferida para Roma.
Fonte:
Site: "Santi, Beati e Testimoni"
(Traduzido do italiano para o português, com correções no texto)