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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 17 de outubro de 2026

SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA, Bispo e Mártir, discípulo direto do Apóstolo São João - 17 de outubro.


        Memória de Santo Inácio, bispo e mártir, que, discípulo de São João Apóstolo, governou a Igreja de Antioquia como segundo em comando depois de São Pedro. Condenado às feras pelo imperador Trajano, foi levado a Roma e ali coroado com um glorioso martírio.

Durante a viagem, enquanto experimentava a ferocidade dos guardas, semelhante à de leopardos, escreveu sete cartas a diversas igrejas, nas quais exortava seus irmãos a servirem a Deus em comunhão com os bispos e a não impedirem seu sacrifício como vítima por Cristo.


Apresentação:

Ele é um dos mais importantes testemunhos do cristianismo entre a era apostólica e a primeira organização das Igrejas no século II. Bispo da comunidade de Antioquia, na Síria, foi levado prisioneiro para Roma, onde a antiga tradição situa seu martírio por feras. Durante a viagem, compôs sete cartas dirigidas a comunidades cristãs na Ásia Menor, à Igreja de Roma e ao bispo Policarpo de Esmirna. Essas cartas destacam a centralidade da pessoa histórica de Jesus Cristo, a celebração da Eucaristia, a relação entre bispo, sacerdotes e diáconos, e a preocupação com a unidade eclesial. As cartas constituem uma fonte direta de valor excepcional, embora sua datação exata e alguns aspectos de sua transmissão textual ainda sejam debatidos pelos estudiosos. Sua memória litúrgica em latim é celebrada em 17 de outubro. Ele é venerado como mártir e um dos Padres Apostólicos, enquanto muitos detalhes de sua vida antes da prisão permanecem desconhecidos.


Relato hagiológico:

Inácio foi bispo da Igreja de Antioquia, um importante centro urbano na Síria romana e um local crucial para a disseminação do cristianismo primitivo. Os Atos dos Apóstolos atestam a importância da comunidade antioquena na missão aos não judeus; contudo, não fornecem informações biográficas sobre Inácio. Sua família, local de nascimento, educação e a data de sua ascensão episcopal são desconhecidos com certeza. O apelido grego Teóforo, comumente interpretado como "portador de Deus", acompanha seu nome em suas cartas. Isso, por si só, não prova a veracidade de relatos posteriores sobre sua infância.

Eusébio de Cesareia o coloca na sucessão episcopal de Antioquia e o associa à era de Trajano. As tradições referentes à numeração dos primeiros bispos não são uniformes: a relação com Pedro e Evódio também depende de como os primórdios do episcopado local são reconstruídos. Sua qualificação como discípulo direto do apóstolo João, repetida na tradição eclesiástica, não é corroborada por testemunhos contemporâneos independentes. As sete cartas permanecem como a principal via de acesso à personalidade e à atividade de Inácio.


Prisão e transferência para Roma.

Quando o encontramos por meio de seus escritos, Inácio já era um prisioneiro aguardando execução em Roma. As circunstâncias precisas de sua prisão e sentença não podem ser reconstruídas a partir de suas cartas. Não há registro do julgamento nem descrição completa da viagem. A transferência de um condenado de Antioquia para a capital imperial faz parte da estrutura narrativa dos antigos testemunhos, mas os detalhes fornecidos por relatos posteriores de martírio não têm o mesmo valor histórico.

Em Esmirna, Inácio teve contato com a comunidade liderada por Policarpo e com delegações de Éfeso, Magnésia e Tralli. Desta cidade, ele enviou cartas às três igrejas e aos cristãos de Roma. Continuando em direção a Trôade, escreveu aos filadelfianos, aos esmirnenses e a Policarpo. A correspondência revela que o prisioneiro continuou a exercer influência pastoral além dos limites de sua própria sé, mantendo relações com bispos, padres, diáconos e fiéis de diversas cidades.

Em sua carta aos Romanos, Inácio pede insistentemente à comunidade que não intervenha para impedi-lo de cumprir sua sentença. Sua disposição para o martírio é expressa por meio de imagens eucarísticas e do desejo de se conformar à Paixão de Cristo. Em seus escritos, teria dito: "Sou trigo de Deus. Convém que eu seja triturado pelos dentes das feras para ser transformado em pão alvo no Céu".  

O local tradicional da morte é Roma; a identificação precisa do edifício onde ocorreu não está documentada por testemunhos da época, porém, a tradição transmitida refere que Santo Inácio foi morto devorado por leões famintos em uma arena romana. 


As Sete Cartas e as Comunidades Cristãs.

A obra epistolar de Inácio inclui as cartas aos Éfesianos, Magnésios, Tralianos, Romanos, Filadelfianos, Esmirnenses e Policarpo. As três primeiras, juntamente com as cartas aos Esmirnenses e a Policarpo, abordam questões da vida comunitária, disciplina e ensino; a carta aos Romanos concentra-se particularmente no destino do prisioneiro. Inácio não escreve um tratado sistemático, mas responde a situações concretas, usando uma linguagem rica em imagens bíblicas e fórmulas incisivas.

Um tema recorrente é a comunhão da comunidade com seu bispo, juntamente com o colégio de presbíteros e diáconos. Essa articulação dos ministérios emerge claramente nas cartas e constitui um valioso testemunho para a história das instituições cristãs. Isso não significa, porém, que todas as igrejas da época já possuíssem uma estrutura idêntica: a obra epistolar documenta, sobretudo, o ambiente e as comunidades às quais Inácio se dirigiu.

Inácio insiste na realidade da encarnação, paixão e ressurreição de Cristo, opondo-se a ensinamentos que tendiam a reduzir sua experiência humana a meras aparências. O termo "doceticismo" é comumente usado por historiadores para descrever tais posições, mas as controvérsias refletem situações locais que não devem ser confinadas a uma única escola organizada. Em outras passagens, o autor polemiza contra práticas e interpretações religiosas que considera incompatíveis com a fé cristã que professa.

A celebração da Eucaristia e a harmonia comunitária ocupam um lugar central. A Carta aos Esmirnenses contém um dos mais antigos registros sobreviventes da expressão "Igreja Católica", referindo-se à Igreja em sua plenitude e universalidade. O significado da fórmula deve ser compreendido no contexto do texto antigo, sem identificá-la automaticamente com todos os desenvolvimentos institucionais e confessionais dos séculos subsequentes. 


      A data do martírio e as evidências antigas:

A tradição mais difundida situa o martírio sob o reinado de Trajano, geralmente por volta de 107 d.C. Essa data deriva de reconstruções cronológicas antigas, especialmente de Eusébio, e não de um documento de execução datado. Discussões modernas também propuseram datas posteriores para a composição das cartas e para a morte de Inácio. A autenticidade do núcleo epistolar e sua datação são questões relacionadas, mas distintas; a maioria dos estudiosos reconhece a autenticidade das sete cartas da chamada recensão média, embora não concordem em todas as questões cronológicas.


São Policarpo, em sua carta aos Filipenses, menciona Inácio e outros prisioneiros, bem como uma coleção de suas cartas. 

Santo Irineu de Lyon menciona, sem nomeá-lo, um mártir condenado às feras, ecoando uma formulação da carta aos Romanos. 

Orígenes e, posteriormente, Eusébio atestam a fama do autor e seu martírio. A História Eclesiástica de Eusébio, no livro III, capítulo 36, também apresenta uma lista das sete cartas. Esses testemunhos são essenciais para a compreensão da transmissão das cartas, mas não resolvem por si só todas as controvérsias sobre a data exata.


Memória e Recepção:

A veneração de Inácio como mártir consolidou-se na antiga tradição eclesiástica. Relatos posteriores sobre sua morte expandiram a narrativa com episódios e detalhes não encontrados em correspondências autênticas. A memória das relíquias e suas traduções também se desenvolveu no âmbito dos cultos antioqueno e romano. As informações referentes a traduções individuais exigem uma avaliação separada daquela de suas cartas, que permanecem um testemunho muito mais próximo dos eventos.

A importância de Inácio na história cristã não depende apenas de seu martírio. Suas cartas oferecem uma visão sobre uma rede de comunidades na Ásia Menor e suas reflexões sobre autoridade, liturgia, doutrina e solidariedade entre as Igrejas. Sua influência permanece viva na teologia, na historiografia e na leitura litúrgica, enquanto o culto ocidental o comemora hoje, em 17 de outubro.

 

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Informações adicionais:

A Transmissão das Cartas

As cartas atribuídas a Inácio circularam em diferentes formas textuais. A chamada recensão média preserva as sete cartas listadas por Eusébio e é geralmente considerada a forma mais confiável do corpus autêntico. Uma recensão longa contém interpolações e cartas adicionais consideradas espúrias; uma versão siríaca abreviada preserva excertos de três cartas. A história das edições e os estudos filológicos, especialmente entre os séculos XVII e XIX, permitiram-nos distinguir esses diferentes níveis da tradição manuscrita. Mesmo no debate contemporâneo, persistem propostas minoritárias quanto à sua datação ou autenticidade.

 

Culto e Calendário:

A memória de Inácio é celebrada em diferentes datas nas tradições litúrgicas. O calendário romano atual celebra o santo em 17 de outubro; o calendário romano anterior à reforma litúrgica o comemorava em 1.º de fevereiro; nas tradições orientais, a celebração geralmente ocorre em 20 de dezembro. Essas datas fazem parte da história do culto e não comprovam, por si só, a data de sua morte. A tradição das relíquias liga o mártir tanto a Antioquia quanto a Roma, mas a reconstrução material do destino de seus restos mortais carece da mesma certeza que os testemunhos epistolares.

 

Curiosidades

- O apelido Teóforo é atestado na tradição textual das cartas e geralmente significa "portador de Deus".

- A expressão "Igreja Católica" aparece na Carta aos Esmirnenses, um de seus mais famosos testemunhos linguísticos.

- A Carta aos Romanos se destaca das demais por ser dirigida a uma comunidade que Inácio temia que pudesse intervir para impedi-lo de ser condenado.

 

Cronologia

- Século I - Nascimento de Inácio, local e data desconhecidos.

- Entre o final do século I e a primeira metade do século II — Episcopado em Antioquia; datas cronológicas não precisamente estabelecidas.

- Provavelmente na primeira metade do século II, Inácio foi transferido como prisioneiro para Roma, onde compôs as sete cartas.

- Tradicionalmente sob Trajano (98-117); Martírio em Roma; ano exato debatido.

- Século II - Testemunhos relativos a Inácio na carta de Policarpo aos Filipenses e na obra de Irineu.

- Século IV - Eusébio de Cesareia lista as sete cartas e coloca Inácio na sucessão dos bispos de Antioquia.


Fontes e bibliografia essenciais.

- Inácio de Antioquia, Cartas aos Efésios, Magnésios, Tralianos, Romanos, Filadelfianos, Esmirnenses e Policarpo, revisão mediana.

- Policarpo de Esmirna, Carta aos Filipenses, capítulo 13.

- Irineu de Lyon, Adversus haereses, V, 28, 4.

- Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, III, 36.

- Enciclopédia Italiana, verbete 'Inácio de Antioquia'.

- Jonathon Lookadoo, 'A Data e a Autenticidade das Cartas Inacianas: Um Esboço das Discussões Recentes', Currents in Biblical Research, 2020.

- T.D. Barnes, 'A Data de Inácio', The Expository Times, 2008.



sexta-feira, 16 de outubro de 2026

SÃO GERARDO MAJELA, Religioso Redentorista e grande Taumaturgo - 16 de outubro.


São Geraldo Majela, Gerardo Majela ou ainda Gerardo Maiela (na Itália é chamado de Gerardo Maiella), é um santo muito querido na Itália. A congregação à qual pertencia, a dos Redentoristas, encarregou-se de divulgar sua vida repleta de fatos maravilhosos. Também aqui em Fortaleza há uma paróquia e um bairro a ele consagrados: o bairro de São Gerardo e a paróquia de mesmo nome.
Trago aqui um resumo de sua vida. Foi um grande santo, um grande místico e um grande taumaturgo. Os milagres que Deus dignou-se a fazer por meio de seu servo foram tão grandes que parecem até "histórias de pescador" de tão inacreditáveis; no entanto, a história os atesta, visto que foram vistos por várias testemunhas.
Espero que esse resumo de sua vida desperte a devoção e a veneração de todos aqueles que lerão essas linhas e que eles se sintam estimulados a lerem mais sobre esse grande santo. Na internet é fácil achar (pelos sites de busca) uma biografia mais completa de São Geraldo Majela. Uma boa leitura!

Geraldo nasceu em Muro, no sul da Itália, no dia 6 de abril de 1726. Nasceu de uma família pobre de bens, mas rica de bênçãos. Domingos Majela e Benedita Majela foram os seus pais. O pai Domingos, era alfaiate. A mãe Benedita, era lavadeira. Os dois se amavam com um amor imenso. Deste amor puro e santo nasceu-lhes o Geraldo. O filho Geraldo, tinha o jeito de anjo. Era bom. Era uma graça. Era de paz.

    Ele foi batizado no mesmo dia em que nasceu. Seus pais entendiam que Deus, em seus planos, não deixa ninguém nascer à toa. Quem nasce é para ser gente; é para sentir-se amado e saber-se capaz de amar. É neste sentido que está certo quem disse: "Amar a vida é mais do que construir catedrais!" 

O menino Geraldo era franzino de corpo. De espírito, porém, era robusto. Deus lhe deu uma inteligência brilhante. Os professores logo viram nele um prodígio.   

    Em geral, as crianças são egoístas e cheias de manhas. Por incrível que pareça, Geraldo, com apenas 7 anos, já sabia quem eram os outros para ele. Que beleza quando, na família, os pais ensinam o evangelho aos filhos com a vida! Foi dos pais que Geraldo aprendeu desde pequeno o amor ao trabalho e a sabedoria da oração. Daí floriu a sua vocação.   

Conforme o testemunho de suas próprias irmãs, ele era muito dedicado às devoções, também se confessava todos os dias e se disciplinava diariamente. 
 
O Menino Jesus aparece a São Geraldo Majela,
trazendo-lhe um "pãozinho".

Aos sete anos, em vista da pobreza da família, dirigia-se à ermida de Capodigiano, onde recebia um pãozinho branco que o Menino Jesus lhe entregava e com quem ele brincava. Somente mais tarde, quando já na Congregação, Geraldo compreende quem era aquele Menino.  


O Arcanjo São Miguel aparece ao santo menino,
trazendo-lhe a Santíssima Eucaristia.

Entregava-se à oração. Sua mãe encarregava-se de educá-lo na fé. Conforme ele mesmo conta, como tivesse muita vontade de comungar e que, por causa de sua idade, não lhe fosse possível, São Miguel apareceu-lhe de noite para lhe dar a comunhão. Assim como — afirma posteriormente — também fazia o próprio Menino Jesus.


Juventude
    Por causa da necessidade do lar, sua mãe o mandou à alfaiataria do senhor Martin Pannuto, mestre alfaiate, para que Geraldo aprendesse uma profissão e assim pudesse ajudar nas despesas da casa. Aí sua bondade de vida e sua simplicidade eram interpretadas como estupidez, e todos zombavam dele, insultavam-no, chegando até a maltratá-lo. Mas sua resposta era sempre: "Meu Deus, que se faça a tua vontade". Ali, no esforço diário, foi assimilando o mistério da Cruz de Cristo.


     Trabalhando para o bispo. 

  Quando tinha 14 anos, chegou Dom Albino à cidade de Muro e lhe administrou o sacramento da crisma, que deverá ser o sinal da fortaleza e do valor que marcarão toda a sua vida. Dom Albino era natural de Muro.   

   Com o Bispo, lá se foi Geraldo para ser seu empregado. Nesse ofício precisou praticar verdadeiro heroísmo. Um sacerdote contemporâneo deixou por escrito, sob juramento, esta declaração: "O bispo irascível se irritava por qualquer coisinha. Impacientava-se com tudo. Se nunca chegou a bater em Geraldo, contudo, não lhe poupou toda classe de censuras." 

    Dom Albino cria-se no direito de fazer o que bem entendesse com seu jovem empregado. Fazia-o trabalhar sem descanso e reprovava-o sempre por não fazer tudo o que devia e por fazê-lo mal. Era impossível agradá-lo. Geraldo, por sua parte, tinha para com ele grande respeito e dedicação. Seu espírito de mortificação e penitência encontrou ali um bom lugar de realização. 

    A tudo isso ia unindo seus jejuns e uma intensa vida de oração. O tempo que passava numa capela da vizinhança era algo que se repetia diariamente. Mas o bispo adoeceu. E Geraldo, depois de cuidar dele como se fosse seu próprio pai, após a sua morte, teve de deixar Lacedônia. 


      Trabalhando na alfaiataria.

    Em 1745, com 19 anos, voltou para Muro, onde montou uma alfaiataria. Seu negócio prosperou, mas ele não ganhou muito dinheiro. Praticamente dava tudo para os outros. Guardava o que era necessário para sua mãe e suas irmãs e dava o resto aos pobres ou para Missas em sufrágio das almas do purgatório. Geraldo não passou por uma conversão repentina e espetacular, apenas foi crescendo constantemente no amor de Deus. Durante a Quaresma de 1747, ele resolveu ser completamente semelhante a Cristo, o quanto lhe fosse possível. Fez penitências mais severas e procurava explicitamente a humilhação, fazendo-se passar por louco e sentindo-se feliz quando riam dele nas ruas. Sua preocupação com os pobres e necessitados era grande, ao ponto de se privar do necessário quando via alguém sofrendo penúria.  




São Geraldo trabalhando como alfaiate.


Buscando sua vocação.

Mas Geraldo sentia que o Senhor tinha escolhido para ele um outro lugar. Assim, entra em contato com os capuchinhos, mas em vão solicita ser admitido, mesmo na condição de empregado. Não é aceito, dada sua saúde precária e sua aparência doentia. Para Geraldo, esse golpe foi terrível. Contudo, entrega-se à oração, pedindo a Deus que o encaminhasse para a vida religiosa. 
Mas, tendo chegado a Muro, seu amigo Luca Valpiedi, antigo condiscípulo, parte com ele para ajudá-lo em seu colégio, no cuidado das crianças. Ali encontrou um novo calvário. Naquele tempo, caiu-lhe em mãos certa obra de Antônio de Olivedi, intitulada: "O ano doloroso de Jesus Cristo". Cada palavra daquele escrito foi um dardo penetrante no coração do nosso jovem Geraldo. Sentiu crescer extraordinariamente suas ânsias de sofrer mais e mais para assemelhar-se ao Redentor.
 
Vocação
Quando tinha 22 anos, chegaram a seu povoado alguns missionários. Eram os Redentoristas, e entre eles achava-se o irmão Onofre, que contou a Geraldo como era sua vida. Mas, percebendo que o jovem estava entusiasmado, mudou de assunto, dizendo-lhe que ele não resistiria àquele tipo de vida. 
      Pouco tempo depois voltaram os missionários. Entre eles estava o padre Paulo Cáfaro, que, depois de muito vaivém e oposições, lhe permite que o acompanhe ao convento. "Meu filho, diz-lhe, você me venceu. Recebo-o como religioso, e que Deus lhe dê saúde e forças para perseverar até a morte." 
Enviou-o para Iliceto com uma carta ao superior. Na carta, ele dizia: "Aí vai um irmão inútil para o nosso trabalho. Ele não tem saúde. É fraco. Mas eu não pude rejeitar sua admissão sem dar-lhe uma chance. Ele insistiu até cansar-me, e é grande a consideração que lhe têm os moradores de Muro". Geraldo vibrou. Deixar a casa, sua mãe e as irmãs foi um drama para Geraldo. Teve de fugir. Deixou-lhes apenas um bilhete, no qual dizia: "Querida mamãe e irmãs, fugi. Já estou com os redentoristas. Não se preocupem. Vou tornar-me santo. Esqueçam-me. Adeus! 


Vida Religiosa
No dia 17 de maio de 1749, Geraldo partia radiante de alegria para a casa de noviciado de Iliceto. Em novembro desse mesmo ano, vestia a batina redentorista e começava sua interiorização na vida religiosa.  



São Geraldo em afazeres "domésticos"
na cozinha de seu convento.

       O Padre Cáfaro seria o seu mestre de noviciado e também seu diretor espiritual. E, sendo esse sacerdote tão severo, contudo, teve de se esforçar por moderar para que Geraldo não se consumisse pelas penitências. 


Homem de oração e de profundo amor
e intimidade com Jesus Eucarístico.
       Desde o começo, passou a ser na comunidade um modelo de abnegação e serviço. Trabalhador como só ele, muito dedicado à oração, exemplo de virtudes. Tudo isso fez com que ganhasse logo a simpatia e estima de seus confrades. No dia 16 de julho de 1752, fez sua profissão religiosa. 

      Já religioso, sua vida desenvolvia-se no cuidado constante de seus deveres comunitários, de um modo especial, prestando serviços a seus irmãos, e na preocupação pelo seguimento de Cristo missionário, anunciando aos pobres a palavra divina. Sua vida era a concretização das Regras. O respeito por seus coirmãos e, em particular, pelos superiores (nos quais encarnava a vontade de Deus), atingia os limites de heroicidade. Pense­mos como soube calar-se diante de Santo Afonso quando foi caluniado...



Atividades do Irmão Geraldo.
       No convento de Iliceto, realizavam-se retiros espirituais  para sacerdotes e leigos no decorrer do ano. Para Geraldo, era uma ocasião propícia para extravasar o seu zelo. Muitos pecadores, que nem sempre se comoviam com as palavras dos pregadores, rendiam-se às exortações e súplicas do zeloso Irmão. Até padres renitentes no mal, tocados pelas humildes considerações de Geraldo, mudavam de vida. 

Exemplo dos grandes milagres que aconteciam
com  o santo, um dia, passando próximo ao mar,
vendo um barco que estava em perigo de afundar
nas ondas revoltas, o santo caminha sobre as águas
e arrasta tranquilamente  o barco para a praia.
O milagre foi testemunhadopor muitas pessoas. 




Era muito comum o santo ser flagrado em
êxtase e levitando. 


       Nesta quadra de sua existência, a fama de sua santidade ia crescendo sempre mais e inúmeros foram os prodígios a ele atribuídos, como curas de muitos doentes. Sempre que podia, Geraldo continuava sua assistência aos pobres e necessitados; tanto é verdade que tempo é questão de opção. Ele nem falhava nas tarefas que os superiores lhe davam, nem na oração na qual vivia imerso, e ainda tinha como ir ao encontro dos indigentes e doentes. Isto se deu sobretudo quando, diante das dificuldades do Convento, foi escalado para recolher esmolas.


Os êxtases e levitações do Santo eram comuns e, 
muitas vezes, assistidos por várias testemunhas. 



  A Grande Provação
      A santidade verdadeira deve sempre ser testada pela cruz, e assim, em 1754, Geraldo precisava sofrer uma grande provação, aquela que bem pode ter merecido a ele o poder especial para assistir às mães e a seus filhos. Uma das suas obras de apostolado era a de encorajar e assistir às moças que queriam entrar para o convento. Muitas vezes ele até garantiu o necessário dote para alguma moça pobre que, de outra forma, não poderia ser admitida numa ordem religiosa.

Um dia o santo foi injustamente caluniado. São Geraldo
sem protestar ou defender-se, humildemente se ajoelha
de Santo Afonso de Ligório para receber sua
"reprimenda" e penitência.


   Néria Caggiano era uma das moças assistidas desta forma por Geraldo. Porém, ela achou desagradável a vida do convento e, dentro de três semanas, voltou para casa. Para explicar sua atitude, Néria começou a espalhar mentiras sobre a vida das freiras, e, quando o povo de Muro recusou-se a acreditar em tais histórias a respeito de um convento recomendado por Geraldo, ela resolveu salvar sua reputação destruindo o bom nome do seu benfeitor. Para isto, numa carta dirigida a Santo Afonso, o superior de Geraldo, ela o acusou de pecados de impureza com a jovem de uma família em cuja casa muitas vezes Geraldo ficava nas suas viagens missionárias.
        Geraldo foi chamado por Santo Afonso para responder à acusação. Mas, em vez de se defender, permaneceu em silêncio, seguindo o exemplo do seu divino Mestre. Diante deste silêncio, santo Afonso nada pôde fazer senão impor ao jovem religioso uma severa penitência: foi negado a Geraldo o privilégio de receber a santa Comunhão e foi-lhe proibido todo contato com os de fora.
          Não foi fácil para Geraldo renunciar aos trabalhos pelo bem das almas, mas este era um sofrimento leve em comparação com a proibição de comungar. Sentiu isto tão profundamente que chegou a pedir para ficar livre do privilégio de ajudar na Missa, receando que a veemência do seu desejo de receber a comunhão o fizesse arrancar a Hóstia consagrada das mãos do padre no altar. Algum tempo depois, Néria ficou gravemente enferma e escreveu uma carta a Santo Afonso, confessando que as suas acusações contra Geraldo não passavam de invenção e calúnia. O santo ficou cheio de alegria ao saber da inocência do seu filho. Mas, Geraldo, que não ficou deprimido no tempo da provação, também não exultou indevidamente quando foi justificado. Em ambos os casos, sentiu que a vontade de Deus tinha sido cumprida, e isto lhe bastava.

  Últimos dias.
        Geraldo tinha exigido de seu corpo mais do que ele podia dar. Sua saúde estava destruída. A anemia consumia-o e seus pulmões já não trabalhavam como deviam. Contudo, continuou esforçando-se em servir os outros e em enfraquecer sua pessoa. 

        Em 1755, Geraldo sai para pedir esmolas para a construção do convento de Caposele. Sente-se mal. É a tuberculose. Estava com 29 anos. Ao morrer, diz ao superior: "Meu leito é a vontade de Deus. Ele e eu somos uma só coisa".



Santa Morte de São Geraldo Majela. A Santíssima
Virgem Maria lhe aparece para consolá-lo em seus
últimos momentos.
 
 No dia 16 de outubro de 1755, com apenas 29 anos de idade, e somente 7 na Congregação, entregou a Deus seu espírito. Seus funerais foram grandiosos e soleníssimos. De Caposele e de todos os povoados vizinhos, a multidão acorreu, atropelando-se para despedir-se do santo e solicitar graça por sua intercessão. E como em vida realizou tantos prodígios, maiores foram os milagres que realizou depois da morte. E a piedade popular, que por ele sente a Itália e muitos outros lugares, é com justa razão.


São Geraldo Majela partindo para a glória do Céu.

A canonização

      Embora a fé no santo fosse muito grande, contudo, somente em abril de 1839 foi aberto em Muro o processo, recolhendo os testemunhos daqueles que o tinham conhecido e daqueles que tinham recebido alguma graça por meio dele.
      Em 1847, Sua Santidade Pio IX concedeu-lhe o título de Venerável e em 1893, o Papa Leão XIII o declarou beato. Finalmente, no dia 11 de dezembro de 1904, o Papa Pio X canonizou Geraldo Majela em meio a uma magnífica cerimônia, como é costume em tais ocasiões. 


         Iconografia de São Geraldo Majela: 



























SANTA MARIA MARGARIDA ALACOQUE, Virgem, Mística e Vidente do Sagrado Coração de Jesus - memória em 16 de outubro.







Santa Margarida Maria Alacoque nasceu na aldeia de Lautecour, na Borgonha, no dia 22 de julho de 1647, no seio de uma família religiosa, honesta, de boa posição, reputação e de seriedade. Seu pai, Claude Alacoque, era notário real. Sua mãe, Philiberte Lamyn, era filha também de um notário do rei, François Lamyn.



Horror ao pecado.

Os seus pais perceberam logo o horror que Margarida Maria tinha pelo pecado quando ainda era pequena, de três anos. Bastava lembrar-lhe que um ato qualquer ofendia a Deus para que a menina se afastasse horrorizada. Nas suas memórias, a Santa afirma que Deus lhe fez ver “o grande horror do pecado, o que me horrorizou tanto que a mais mínima mancha resultava para mim num tormento insuportável.” (1)
A essa aversão ao pecado acrescentou-se logo um agrado muito grande pela oração e pela penitência, juntamente com uma tendência enorme para ajudar os pobres. “Deus, escreve a Santa, deu-me um amor tão terno pelos pobres que eu teria desejado só ter contato com eles. Ele incutiu-me uma compaixão tão grande pelas suas misérias que, se estivesse em meu poder, abandonaria tudo por eles. Quando tinha dinheiro, dava-o aos pobres para estimulá-los a aproximarem-se de mim e então lhes ensinava o Catecismo e a rezar.” (2)
Dos quatro aos sete anos, ou seja, entre 1652 e 1655, seguindo um costume comum na época, foi morar no castelo de sua madrinha, Madame de Corcheval, dama nobre da região. Ali, num ambiente sereno e austero, começou a sua formação.
Duas senhoras ocupavam-se da sua educação. Uma era simpática e gentil. Margarida Maria, porém, fugia dela. A outra era severa e impertinente. Curiosamente Margarida sentia atração por esta última. Ninguém conseguia compreendê-lo. Mais tarde perceberam que este fato era mais um sintoma de que a proteção divina pairava sobre a menina. A primeira senhora levava uma vida irregular; a segunda era de uma conduta sem mancha. Nisto se manifestava o seu horror instintivo ao pecado.
A sua educação teve de ser interrompida quando morreu Madame de Corcheval. A sua afilhada tornou à casa paterna. Mas, em 1655, no mesmo ano da morte de sua madrinha, falece também o seu pai. A mãe, com o objetivo de melhorar a situação patrimonial que o marido deixara complicada, e não dispondo do tempo necessário para providenciar a educação da filha, mandou-a como pensionista para um convento de Clarissas, o que era muito frequente então.
No silêncio dos claustros, refletindo durante longas horas no recolhimento e observando a modéstia e o espírito de oração das irmãs, Margarida sentiu o chamamento à vida religiosa. Foi ali onde, por volta dos nove anos, recebeu pela primeira vez Jesus Sacramentado. A partir de então, as graças na oração e o seu gosto pelo recolhimento aumentaram sensivelmente.

A jovem Margarida Maria tinha de completar junto às Clarissas a educação que recebia habitualmente uma menina de sua condição para ser mãe de família e também dama de sociedade. Isto significava uma sólida formação moral, na qual se punha especial cuidado nos hábitos de modéstia, discrição e domínio de si mesma.
Tal educação completava-se com o ensino da arte da conversa, música, pintura, dança... que desenvolviam a delicadeza, o tato, o bom gosto. Dessa forma, florescia nas pensionistas o sentido da proporção, da naturalidade bem educada, ao mesmo tempo em que recebiam uma capacidade de julgar as pessoas e os fatos.



Judiciosa, sensata e caritativa.

O seu espírito equilibrado e alguns traços da educação recebidos por Santa Margarida Maria foram entendidos mais tarde pela Madre Greyfié, uma das suas superioras em Paray-le-Monial, que a descreveu assim: “Era naturalmente judiciosa, sensata e tinha um espírito bom, humor agradável e o coração mais caritativo que se possa imaginar; numa palavra, pode dizer-se que era uma criatura das mais aptas para ter êxito em tudo.” (3)
No pensionato das Clarissas, Margarida Maria contraiu uma doença grave, pelo que foi preciso reenviá-la à casa da mãe. Ali permaneceu cerca de quatro anos prostrada na cama, sem conseguir levantar-se. Deus, Nosso Senhor, visitava-a com o sofrimento. Só em 1661 recuperou a saúde depois de fazer um voto à Santíssima Virgem.
Na sua casa, outra situação muito dolorosa a aguardava. Sua mãe tinha transferido a gestão do patrimônio a um cunhado, Toussaint Delaroche, homem avaro e de temperamento irritável. A Santa suportou durante anos a quase escravidão a que a submetiam as injustiças do tio. Às vezes tinha de mendigar pão ao vizinho. A casa materna transformou-se então numa prisão torturante. “Não tínhamos já nenhum poder em casa e não ousávamos fazer nada sem seu consentimento”, escreveu a Santa. Passava horas num canto do jardim a rezar ou refugiava-se na capela da aldeia. Mas nem sequer lá encontrava repouso: o tio acusava-a de sair de casa para ver os rapazes. “Às vezes os pobres da aldeia, por compaixão, davam-me um pouco de pão, de leite ou alguma fruta na parte da tarde”. (4)


Reparação, desagravo, amor à Cruz.

Deus permitia esses sofrimentos para prepará-la para a vida de renúncia e expiação que depois abraçaria com entusiasmo. Santa Margarida Maria devia pregar a devoção da reparação ou do desagravo ao Sagrado Coração de Jesus; precisava ser um modelo dessa atitude de alma. Os sofrimentos desta etapa da sua vida, aceitos com paciência exemplar, fortificaram-na para a vida de reparação que a Providência tinha escolhido para ela. Durante este período, a Santa recebeu graças místicas extraordinárias. Além disso, já desde muito pequena, teve um trato muito familiar com Nosso Senhor. “(O Salvador) sempre estava presente sob a figura do crucificado ou do Ecce Homo a carregar a Cruz, o que me produzia tanta compaixão e amor ao sofrimento, que todos os meus sofrimentos pareciam leves em comparação com o desejo que experimentava de sofrer para me conformar com o meu Jesus sofredor.” (5)
Tal compreensão do valor do sofrimento na vida espiritual foi crescendo nela e será uma das características da sua santidade. Mais tarde, já visitandina, esta pioneira dos caminhos de Deus dirá: “Deus deu-me tanto amor à Cruz que não consigo viver um momento sem sofrer: mas sofrer em silêncio, sem consolo, alívio ou compaixão; e morrer com este Soberano da minha alma, sob o peso de toda sorte de opróbrios, dores, humilhações, esquecimentos e desprezos...” (6)
O amor à Cruz foi característico em Santa Margarida Maria e é também condição indispensável de qualquer forma de santidade: “Jesus disse então aos discípulos: se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua Cruz e siga-me.” (Mt. 16,24)



Provações familiares

A sua família, de início, quis encaminhá-la para um convento de Ursulinas, onde já vivia uma prima. Santa Margarida Maria – que era muito afeiçoada a essa prima, deu-lhe uma resposta gentil em que transparece o seu grande desejo de perfeição: “Olha, se entro no teu convento, será por amor a ti. Mas quero ir a um convento onde não tenha parentes nem conhecidos para ser religiosa só por amor a Deus.” (7)
Uma voz interior tinha-lhe advertido: “Não te desejo lá, mas em Santa Maria”, que era o nome do convento de Paray-le-Monial. (8) Estava claro que o Senhor a destinara para a Congregação das Irmãs da Ordem da Visitação, e isto já era prefigurativo de como ela iria glorificar o Senhor na propagação do Coração de Jesus. As palavras do fundador da Ordem da Visitação, São Francisco de Sales, quando escreveu à Santa Joana Francisca de Chantal em 10/06/1611, demonstravam já a devoção da congregação aos Corações de Jesus e Maria: "Realmente, a nossa pequena congregação é uma obra do Coração de Jesus e de Maria". Devoção correlatada por São Joana de Chantal: "As Irmãs da Visitação são bem humildes e fiéis a  Deus, e terão o Coração de Jesus como residência e estada neste mundo".  
Entretanto, as pressões familiares para que optasse pelas Ursulinas continuavam. Mas uma doença da mãe e também de um irmão forçaram-na a prolongar os seus planos de vida religiosa.
Numa certa altura, um sacerdote franciscano hospedou-se na casa dos Alacoque durante uma missão. Santa Margarida Maria aproveitou a ocasião para fazer uma confissão geral. Ao conhecer o alto grau de virtude e os desejos de vida religiosa da jovem, o padre julgou que devia seguir a sua vocação. O religioso falou com o irmão e o convenceu a mudar de atitude. A prova em casa acabava. Outras cruzes, mais dolorosas, viriam no Convento da Visitação de Paray-le-Monial, aonde foi ter em seguimento de uma clara inspiração da Providência.
A nossa Santa foi ali aceita como noviça a 20 de junho de 1671; vestiu o hábito a 25 de agosto do mesmo ano e fez a profissão solene a 06 de novembro de 1672. Assim ficava preparado o quadro para a mensagem do Sagrado Coração de Jesus.


Santa Margarida e o Sagrado Coração de Jesus.

Santa Margarida foi acolhida no convento das Irmãs da Visitação de Paray-le-Monial. Ali mesmo o Senhor se manifestaria a ela em revelações distintas, relativas à difusão da consagração e amor ao Seu Coração. Apareceu-lhe por numerosas vezes e deu a conhecer que seria ela o instrumento para arrebanhar o maior número de pessoas ao Amor de Seu Coração. A essência da mensagem, porém, agrupa-se em três revelações:

1) A primeira ocorreu em 27 de dezembro de 1673, conforme relatou Santa Margarida: “Diversas vezes, diante do Santíssimo Sacramento”... “encontrei-me inteiramente investida desta divina presença”... Eu abandonei-me ao Seu Divino Espírito, por força do Amor, o Seu divino Coração... Ele me fez repousar de forma extrema e por um longo tempo sobre o Seu divino peito, onde pude descobrir as maravilhas do Seu amor e os segredos mais profundos e inexplicáveis do Sagrado Coração... Ele me disse: "O Meu divino Coração transborda de amor para os homens, de modo especial por você, que não poderá mais conter para si a luz das chamas da brilhante caridade; é necessário que seja difundida aos homens, e que lhes seja manifesto para enriquecê-los dos preciosos tesouros que te revelei..." 

2) A segunda provavelmente deu-se em uma das primeiras sextas-feiras do ano de 1674: "E numa das vezes, entre tantas outras, em que o Santíssimo Sacramento estava exposto, após ser eu retirada do interior de mim mesma... Jesus Cristo, meu suave Mestre, apresentou-me, repleto da sua glória, suas cinco chagas, brilhantes como cinco sóis, e desta sagrada Humanidade saíam chamas de todas as partes, sobretudo do Seu adorável peito, semelhante a uma fornalha; neste instante revelou-me todo o amor e todo o Seu amável Coração e o estado da fonte viva destas chamas. Ele revelou-me as maravilhas inexplicáveis de seu Puro Amor, excessivamente entregue aos homens, dos quais recebia apenas frieza e ingratidão...”. 


3) Na terceira, ocorrida durante o mês de junho de 1675, Jesus exigiu que fosse feita uma festa especial ao Seu Sagrado Coração: “Numa das tantas vezes em que me encontrava diante do Santíssimo Sacramento, revelou-me Deus as graças excessivas de Seu Amor”... Então, mostrando-me Seu divino Coração, disse: “Aí está o Coração que tanto tem amado os homens, a ponto de nada poupar até exaurir-se e consumir-se para demonstrar-lhes o seu amor;”... Eu te exijo mais, que na primeira sexta-feira, de acordo com a oitava do Santíssimo Sacramento, seja dedicada e se junte a esta festa por honra ao Meu Sagrado Coração, fazendo que seja de igual honra àquele dia, a fim de reparar as indignidades e ultrajes durante o tempo em que o viram exposto sobre os altares.



São Cláudio de La Colombière, diretor
espiritual da santa e grande incentivador
e apóstolo da devoção ao Coração de Jesus.
Santa Margarida, porém, enfrentaria  diversos obstáculos na propagação das revelações feitas a ela por Nosso Senhor. Não tardou que fossem levantadas críticas e colocadas em dúvida as suas experiências místicas. Submetida às mais duras provações e intensas humilhações, Deus enviou ao mosteiro um santo sacerdote que, a princípio, passou a estudar minuciosamente os fenômenos relatados. Posteriormente, tornar-se-ia ele propagador e  apóstolo do Sagrado Coração de Jesus: Padre Cláudio de La Colombière.
No último ano da sua vida, Santa Margarida teve a oportunidade de ver a propagação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus; viu também um grande número de críticos e opositores tornarem-se fervorosíssimos propagadores da santa devoção. Deus revelou-lhe o mistério da Santíssima Trindade, durante uma das suas aparições.
Jesus deixou grandes promessas às pessoas que, aproveitando-se da Sua divina misericórdia, participassem das comunhões reparadoras das primeiras sextas-feiras: "Prometo-te, pela Minha excessiva misericórdia e pelo amor todo-poderoso do meu Coração, conceder a todos os que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, a graça da penitência final; não morrerão em minha inimizade, nem sem receberem os sacramentos, e meu divino Coração lhes será seguro asilo nesta última hora".
Tais manifestações divinas sucederam num período em que a heresia jansenista,  retratava um braço do protestantismo a propagar seus erros no seio da Igreja, tentando aniquilar a concepção da misericórdia de Deus e da confiança dos fiéis em relação ao Pai Celeste.  A mensagem misericordiosa de Cristo, que aos poucos foi se impondo no convento da Visitação, acabou se espalhando rapidamente entre as nações e, em seguida, foi instituída a sua prática em toda a Igreja Universal.




"Eis o Coração que tanto amou os
homens"... 
A missão de Santa Margarida Maria Alacoque

Em 1647, quando nasceu Santa Margarida Maria, a devoção ao Sagrado Coração não era muito conhecida, se bem que já existisse. A sua missão foi dar-lhe um impulso e uma difusão universal, precisar o seu espírito, adaptá-lo às necessidades da Igreja nos tempos modernos e fixar as práticas de piedade mais adequadas às novas circunstâncias.
Santa Margarida Maria foi uma simples freira que nunca transpôs os muros do seu convento e morreu antes de completar 45 anos, em 1690. A Providência compraz-se deste modo em realizar um desígnio imenso a partir de uma humilde religiosa que, para fugir do mundo, tinha-se retirado a um obscuro convento da Ordem da Visitação e levou ali uma vida apagada aos olhos dos homens e até das freiras visitandinas com as quais convivia.
O quadro hoje é completamente diverso. Ornato da Ordem da Visitação, a religiosa então apagada foi elevada ao ápice de glória na Igreja e, do alto dos altares, da sua santidade, despede raios de salvação à terra inteira, enquanto a maioria dos homens famosos e importantes da sua época é desconhecida pelos nossos contemporâneos.
O Papa Pio XII, depois de fazer a lista dos Santos que o precederam na prática e difusão da devoção ao Coração de Jesus, diz a este propósito: “Mas, entre todos os promotores desta excelsa devoção, merece um lugar especial Santa Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o Beato Cláudio de la Colombière (hoje santo), e com o seu zelo ardente, obteve, não sem a admiração dos fiéis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.” (9).


1. Bougaud, História de Santa Margarida Maria, citado em Péricles Capanema Ferreira e Melo, membro da Academia Marial de Aparecida, “O Estandarte da Vitória - A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e as necessidades de nossa época”, pg 28.

2. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.52 in Op. Cit. p. 28

3. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p. 456, in Op. Cit. p. 30

4. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p. 40, in Op. Cit. p. 31

5. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.41 in Op. Cit. p. 32

6. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.44 in Op. Cit. p. 33

7. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, p.25 in Op. Cit. p. 33

8. Sainte Marguerite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, p.25 in Op. Cit. p. 33

9. Encíclica Haurietis Aquas, 49.