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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Almas do Purgatório (um fato real): Frei João ao deixar de recitar orações às almas do Purgatório, prescrito pela regra, teve que expiar no Purgatório

A História da Origem da Ordem Seráfica,  menciona um santo religioso, chamado Frei João de Via, que morreu piedosamente num convento nas Ilhas Canárias. O seu enfermeiro, Frei Ascensão, estava a rezar na cela e a encomendar a alma do falecido a Deus, quando subitamente viu diante de si um religioso da sua ordem, mas que parecia transfigurado: estava radiante e enchia a cela com uma luz suave. O irmão, desnorteado, não reconheceu o Frei João, mas teve a ousadia de lhe perguntar quem era e qual o propósito da sua visita. 

— “Eu sou”, respondeu a aparição, “o Irmão João de Via. Agradeço-te pelas orações que envias ao céu em meu nome e venho pedir-te mais um ato de caridade. Sabe que, graças à misericórdia divina, estou no lugar da salvação, entre os predestinados à glória: a luz que me rodeia é prova disso. Contudo, ainda não sou digno de ver a face do Senhor por causa de uma falta que devo expiar.

Durante a minha vida mortal, por minha própria culpa, deixei repetidamente de recitar o Ofício dos Mortos, quando prescrito pela regra.

Imploro-te, meu irmão, pelo amor que tens por Jesus Cristo, que assegures que a minha dívida seja paga neste assunto, para que eu possa gozar da vista do meu Deus.”

O Irmão Ascensão correu ao Padre Guardião, contou-lhe o que acontecera e os serviços solicitados foram prontamente realizados. Então, a alma do bem-aventurado Irmão João de Via apareceu novamente, mas ainda mais radiante: estava em plena bem-aventurança.

Com efeito, vemos:

À primeira vista, que o religioso piedoso, já salvo e destinado ao Céu, ainda precisasse de purificação por ter omitido repetidamente o Ofício dos Mortos prescrito pela regra religiosa. No entanto, é precisamente aí que está a beleza do ensinamento: Deus não julga apenas os grandes pecados, mas também leva a sério as responsabilidades que livremente assumimos diante d'Ele. Em especial, o que era prescrito na regra religiosa da ordem. 

Assim, como faltou tal reparação por parte do Frei João, foi-lhe necessário passar pelo estado de purificação (purgatório), antes de adentrar no céu, pois ainda permanecia uma dívida de falta de amor a ser reparada. O relato nos recorda que a santidade não consiste apenas em evitar o mal, mas também em cumprir fielmente o bem que Deus nos pede, neste caso pra ele, foi o cumprimento prescrito na regra religiosa que faltou. Pois, como é de saber da Sagrada Escritura:

"A obediência vale mais do que os sacrifícios." — (1 Samuel, 15,22)

Muitas vezes, a santidade consiste em cumprir fielmente aquilo que nos foi confiado. Uma oração rezada por dever de amor pode agradar mais a Deus do que grandes mortificações escolhidas por nós mesmos. Quantas vezes somos tentados a procurar práticas extraordinárias enquanto negligenciamos os deveres diários: a Missa dominical, a oração cotidiana, os compromissos familiares, o trabalho bem feito, a caridade para com o próximo? 

Por isso, a história de Frei João ensina que a verdadeira devoção está em obedecer com fidelidade. E o Purgatório não é um sinal de rejeição, mas da justiça e misericórdia de Deus, que purifica os seus filhos para que possam contemplá-Lo face a face. Como ensinava São João Maria Vianney:

"O Purgatório é o hospital do Céu."

Pois, no céu, o próprio Livro do Apocalipse afirma:

"Nela jamais entrará coisa alguma impura." — (Apocalipse 21,27)

E outra lição que possamos tirar é: rezemos pelos falecidos, sejamos fiéis às nossas obrigações espirituais e sociais, nunca desprezemos os pequenos deveres de cada dia. Aquilo que hoje parece pequeno pode ter grande peso na eternidade.

Abbé François-Xavier Schouppe,s.j. (1823-1904) Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières - Part. I, cap. XVIII]

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