Ele nasceu na vila de Bedano, no Ticino, então sob domínio milanês, filho de Giovanni Antonio Rusca e Daria Quadrio, ambos membros de famílias nobres das regiões de Laria e Ticino.
Estudou
em Pavia, depois em Roma, e em seguida transferiu-se para o Colégio Suíço em
Milão, sob a tutela de São Carlos Borromeu.
Conta-se
que o então arcebispo Borromeu, impressionado com o jovem seminarista,
disse-lhe: "Meu filho, lute uma boa guerra, complete sua carreira. Uma
coroa da justiça está reservada para você, que fará de você um juiz justo
naquele dia”.
Ordenado
sacerdote em 23 de maio de 1587, o bispo de Como, Gianantonio Volpi, designou-o
primeiro para a vila de Sessa e depois o nomeou arcipreste de Sondrio.
Era
o ano de 1590, uma época de grande turbulência, tanto pelo conflito entre
católicos e “reformados” (nota do tradutor: prefiro o termo: “revoltosos”) — na sequência da
disseminação das “reformas” zwinglianas e calvinistas nos Grisões, às quais
Valtellina, Chiavenna e Bormio estavam sujeitas — quanto pelo acentuado
declínio das instituições eclesiásticas tradicionais.
Rusca
era um sacerdote de profunda cultura e generosa dedicação pastoral:
liderava a comunidade católica de Sondrio com grande equilíbrio e moderação,
influenciando toda a Valtellina.
Isso
não o impediu, contudo, de se tornar uma vítima inocente dos crescentes
conflitos, especialmente dentro da República das Três Ligas, entre as diversas
facções políticas e religiosas.
Nicolò Rusca foi preso em 1618 e encarcerado em Thusis, para onde todos os católicos acusados de crimes políticos costumavam ir. Foi julgado por um tribunal parcial, representando um determinado grupo político e religioso.
Ele
é lembrado por sua famosa frase: "Odeie o erro, não o errante",
e pelo apelido pelo qual é conhecido hoje: "pastor bonus", ou
seja, o "bom pastor" que morreu pela salvação de seu rebanho.
Tendo
morrido sob a tortura do carrasco quando a religião católica era minoritária em
sua terra natal, é natural que seja considerado digno de beatificação: e, de
fato, a primeira proposta nesse sentido data de 8 de novembro de 1927.
O
processo canônico, contudo, sofreu longas interrupções, para só ser retomado
com maior vigor em 1996, quando um novo processo diocesano sobre o assunto foi
concluído em Sondrio.
Quando
Nicolò Rusca estava vivo, a região política em que vivia era a Récia: um belo
nome latino, que é lembrado junto com outros topônimos do Império Romano e, sobretudo,
que se encontra na expressão "Alpes Réticos". De fato, a Récia ainda
é reconhecida como a fusão da Engadina suíça e da Valtellina italiana, dois
vales. Vales alpinos com uma orientação incomum de leste a oeste,
"horizontal", numa orografia (nota: estudo de “relevos da terra”)
habituada a vales que se estendem na direção norte-sul.
Unidos
pelo estreito Val Poschiavo e pelo Passo Muretto em Valmalenco, no início do
século XVII, constituíam quase um laboratório político, representando uma única
unidade política habitada por duas religiões distintas: uma maioria protestante
na Engadina e uma maioria católica na Valtellina.
Maiorias,
porém, não totalidades; em ambos os vales existiam minorias da fé não
predominante, e a Europa como um todo — então muito sensível à convulsão
geopolítica da Reforma (“revolta”) — observava com curiosidade esta
coexistência de diferentes crenças. A já mencionada morte por tortura do
arcipreste de Sondrio prenuncia que esta coexistência certamente não era
pacífica nem tranquila.
De
fato, se ouvirmos todos os lados, descobrimos que, ainda hoje, Nicolò Rusca,
quase um santo para os católicos, é visto sob uma luz muito diferente pelos
protestantes: sua morte por tortura na prisão de Thusis parece ser o único
ponto em que as versões católica e protestante concordam.
Além
disso, os retratos que temos de Nicolò Rusca não poderiam ser mais diferentes:
um santo e mártir para um lado, um instigador fanático de assassinatos para o
outro.
Infelizmente,
porém, há outros pontos em que os relatos coincidem, e isso se refere à
descrição do que aconteceu nos meses que se seguiram à morte de Rusca.
No
julgamento de Thusis pela tentativa de assassinato de pastores protestantes,
além de Rusca, os irmãos Planta e Giacomo Robustelli também foram condenados.
Este
último conseguiu, dois anos depois, retornar a Valtellina e organizar o que, em
termos cruéis, mas muito apropriados, foi posteriormente chamado de
"Massacre Sagrado de Valtellina".
Os
restos mortais de Rusca permaneceram em Pfäfers de 1619 a 1838.
No
verão de 1619, durante uma noite, os ossos do pároco de Sondrio foram exumados
e transportados secretamente para a Abadia de Pfäfers, ao norte de Chur, onde
permaneceram até 1838, quando a abadia foi suprimida.
Os
restos mortais de Rusca foram então para a biblioteca municipal, onde
permaneceram até 1845, quando o bispo de Como, Carlo Romanò, obteve autorização
para transferi-los para Valtellina, para o Santuário de Sassella, nos arredores
de Sondrio.
Graças
à nulla osta recebida, entretanto, da Santa Sé, em 1852, as relíquias
foram finalmente transportadas por Antonio Maffei, arcipreste de Sondrio, para
a Igreja Colegiada dos Santos Gervásio e Protásio em Sondrio, onde permanecem
até hoje objeto de veneração popular.
A
cerimônia de beatificação foi celebrada em Sondrio em 21 de abril de 2013.
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