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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

terça-feira, 14 de abril de 2026

SANTA LIDUÍNA DE SCHIEDAM, Virgem, Mística e Alma Vítima. Patrona dos Enfermos Crônicos - 14 de abril.

Schiedam, Holanda, 18 de março de 1380 – 14 de abril de 1433.

                                                                    Sua história de vida:


Liduína ou Ludovina, como também é conhecida, nasceu na Holanda, em 1380, numa família humilde e caridosa. Ainda criança recolhia alimentos e roupas para os pobres e doentes abandonados. Aos doze anos, recusara um casamento arranjado por parentes (segundo o costume da época). Já pensava em pertencer unicamente a Jesus, em virgindade consagrada. Até os 15 anos, Liduína era uma menina como todas as demais.

Porém, no inverno daquele ano, sua vida mudou completamente. Com um grupo de amigos foi patinar no gelo e, em plena descida da montanha, um deles se chocou violentamente contra ela. Ficou quase morta, com muitas lesões graves. Após o acidente, outras doenças surgiram, numa infeliz sucessão que deixou os médicos impotentes. Ela não se recuperou, não morreu, a dor piorou e Liduina estava à beira do desespero.

Apesar dos esforços, os médicos declararam que sua enfermidade não tinha cura e que o tratamento seria inútil, só empobrecendo ainda mais a família. Ela ficaria, portanto, o resto da vida (depois do acidente, foram trinta e oito anos) presa a uma cama.

Um padre,  João de Pot, veio em seu auxílio com serenas palestras sobre o sofrimento inocente de Jesus Cristo; injusto, mas redentor. Da mesma forma, disse-lhe ele, a fratura e seus outros problemas de saúde não eram uma desgraça sem sentido. Pelo contrário, são uma tarefa que lhe foi confiada pelo Senhor: agora, de seu leito, ela pode colaborar na Redenção; cada sofrimento que suporta traz salvação a outros.

Liduína diz sim: se o sofrimento tem esse significado e propósito, ela o aceita. Ela simplesmente pede algo, um sinal divino — como fizeram certas figuras do Antigo Testamento — que confirme a vontade de Deus. E ela o recebe, escrevem seus biógrafos, citando testemunhos: a Hóstia Eucarística aparece resplandecente sobre sua cabeça. Parentes e vizinhos também a veem, mas se recusam a dar ouvidos ao pároco, que também corre até ela e fala de "fraude do diabo". Em vez disso, apelam ao bispo, que envia outro padre a Schiedam.

Liduína, então, nunca mais pediu que Deus lhe aliviasse os sofrimentos, mas que lhe desse amor para sofrer pela conversão dos pecadores. Do seu leito de enferma ela recebeu de Deus o dom da profecia e da cura pela oração aos enfermos. Após 12 anos de enfermidade também começou a ter êxtases espirituais, recebendo mensagens de Deus e da Virgem Maria.

Seus sofrimentos eram imensos. As dores que sentia eram excruciantes. Se hoje em dia, com o avanço da Medicina, ainda há quem sofra atrozmente de dores na coluna, imaginemos naqueles tempos, cujos "remédios" eram muito rudimentares. Mas, Deus, em sua misericórdia e demonstrando grande afeto por sua santa serva, permitiu que seu Anjo da Guarda lhe aparecesse e a consolasse em seu leito de dor, dirigindo-lhe palavras de ânimo e consolando-a com belíssimos cantos celestes. 

Ela só se alimentava da Sagrada Eucaristia e das orações. Sua enfermidade a impossibilitava de comer e de beber, e nada podia explicar tal prodígio. Nos últimos sete meses de vida, seu sofrimento foi terrível.

Após o ocorrido, e com a divulgação "boca a boca" do evento, é natural que pessoas de cidades vizinhas afluam à sua casa: rumores de um milagre atraem a atenção. Com o tempo, outros chegam de Rotterdam, de vários lugares do Condado da Holanda, então sob o domínio dos Wittelsbach da Baviera. Em seguida, começam a afluir “visitantes” (peregrinos), vindos de Flandres, da Alemanha, até mesmo da Inglaterra.

Eles não vêm mais pelo milagre daquele dia. Vem por ela, porque ela agora é o milagre. E sua casa é um lugar de esperança. Sua voz guia a oração e direciona a vida daqueles que a procuram: os doentes e os sãos, os bons cristãos e os libertinos, os ricos e os pobres; alguns se disfarçam ou se escondem para não serem reconhecidos pelos outros, mas diante dela, revelam-se como são. Santa Liduína acolhe a todos: ela escuta, fala, sofre, aconselha, e eles saem de sua casa como se saíssem de uma festa: a mulher em fase terminal liberta os sãos de seus males secretos.

Sua obra se conclui na Semana Santa de 1433, quando lhe é sobrenaturalmente predita sua morte iminente, que chega na terça-feira após a Páscoa. Seu caixão é leve, porque Liduina passou dias e dias sem comer, reduzida a uma “sombra e uma voz”.  Em 1890, o Papa Leão XIII autorizou o culto em sua honra.


Gravura antiga representando o seu acidente. 

Pintura retratando seu acidente que a manteria 38 anos
restrita em seu leito de dores. 


Visões Místicas de Santa Liduína, conduzida por seu Anjo da Guarda.



Fontes: 

          1.  Site: www.santiebeati.it (traduzido do italiano para o português)

          2. Trechos de texto do Portal A 12. 

domingo, 12 de abril de 2026

ORAÇÃO A JESUS, VERBO ENCARNADO, PEDINDO PERDÃO E MISERICÓRDIA

(Para ser rezada diante do Santíssimo Sacramento ou de uma Imagem Sagrada do Senhor)


Santíssimo Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Verbo Eterno do Pai, Encarnado no seio puríssimo e imaculado de Maria, para minha salvação e a de toda a humanidade, aqui estou eu humildemente, pobre pecador, aos vossos pés.

Vede, Senhor meu, em que miséria me encontro e quão sujo estou! Não sou digno, Senhor, de estar em vossa santíssima presença.

Ao Vos contemplarmos aqui (presente na Santíssima Eucaristia ou representado em vossa santa imagem), tremo de horror em vista dos meus muitos pecados e lamento profundamente não ter sido sempre fiel a Vós.

Vós, no entanto, sempre me amais e sois fiel a mim. Deste-me a vida, a oportunidade de ter sido batizado no grêmio da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, de vos ter conhecido nas Sagradas Escrituras e Evangelhos, de vos ter recebido sacramentalmente na Santa Comunhão e de ter sentido vossa presença em vários momentos de minha vida. No entanto, Senhor meu, como tenho sido infiel a Vós! Foram tantos os desleixos e negligências, tantas as indiferenças e tibieza e tantos os pecados que cometi e ainda cometo perante vossos augustíssimos olhos!

Ó Senhor Jesus, sei quanto horror eu não devo ter causado aos santos e aos anjos por causa das minhas iniquidades! No entanto, Senhor meu, sei o quão bom sois e quão grande é a vossa imensa e incompreensível Misericórdia, fruto do amor que tendes pela Pessoa de Deus Pai, de nossa santíssima Encarnação, de vossa Paixão e Morte na cruz, bem como, de vossa presença real no Santíssimo Sacramento do Altar!

Sei também, Senhor Jesus, o quanto vos agrada, acalenta e repara o olhar, as preces, o amor, o Coração Imaculado e as lágrimas da Santíssima Virgem Maria, vossa e nossa Mãe, que constante e incessantemente roga por mim e por todos os pecadores!

Ó Jesus meu, amor humano e divino infinitos, doce 

Salvador e Redentor do mundo, Juiz amável, justo e misericordioso, tente piedade, tende piedade de mim!

Coloco-me, Senhor, dentro de vossas santíssimas, sangrentas e gloriosas Chagas, para lá ficar protegido de vossa não menos infinita justiça. Sei que, apesar de justo, gostais muito mais de exercer a vossa Misericórdia do que os rigores de vossa Justiça! Por isso que me escondo em vossas Chagas. Se meu procurais, Senhor, certamente tereis que olhar para vossas Chagas e a vista e lembrança delas certamente aplacará vossa justiça!

Ó Senhor Jesus, Verbo Humanado! Ó Emanuel santíssimo! Tenho confiança em Vós! Socorrei-me! Socorrei-me Médico divino! Sede meu Eterno Mediador, meu Salvador e meu Redentor! Tende piedade de mim como tivestes de tantos coxos, paralíticos, cegos, surdo mudos, leprosos, possessos e pecadores! Tende piedade de mim como o tivestes do ladrão Dimas que estava crucificado ao vosso lado! Tende piedade de mim, Senhor! Lembrai-vos de mim, Senhor, em vosso Reino de Misericórdia e Amor! Piedade! Misericórdia! Perdão!

Possa eu dar-vos doravante mais alegria do que tristeza! Possa eu consolar-Vos e não agravar-Vos! Possa eu ser vosso servo e amigo fiel e não uma pedra de tropeço para Vós! Jesus! Jesus! Jesus! Doce Jesus! Amém! 

 

 

 

(Giovani Carvalho Mendes, em 30 de junho de 2013)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

SANTA MADALENA DE CANOSSA, Virgem, Fundadora, Educadora e Apóstola da Caridade - 10 de abril.

          Creio que muitos são os católicos que conhecem Santa Josefina Bakhita, sequestrada ainda criança por mercadores de escravos, vindo a ser "comprada" por patrões italianos e indo morar na Itália, se tornando "cuidadora" ou "dama de companhia" da filha de seus patrões. 

          Movida por um sentimento íntimo de que havia um Deus verdadeiro, Criador de todas as coisas (que depois ela viria a chamar, humilde e carinhosamente de "meu Patrão"), conheceu a Fé Católica, fez-se catecúmena, foi batizada e, depois, movida mais uma vez pela Graça, fez-se religiosa entre as irmãs Canossianas. 

          Pois bem... Já que muitos conhecem a história dessa querida Santa, que tal conhecermos, agora, a história de sua "mãe fundadora": Santa Madalena de Canossa, cuja memória é comemorada anualmente no dia 10 de abril (especialmente neste ano: 2026, por ser a "oitava" da Páscoa, não o foi)... 



Primeira narrativa biográfica:

Por que uma nobre rica e famosa do século XVIII abriria mão de uma vida de luxo para acolher meninas pobres e abandonadas em seu castelo principesco?

Guiada por seu coração, ela decide ajudar meninas desesperadas, forçadas a viver nas ruas, sem ninguém para guiá-las. Ela quer oferecer-lhes educação, uma formação cristã e a oportunidade de aprender um ofício honesto; quer ajudá-las a se emanciparem cultural e humanamente de uma sociedade que as relega a papéis subordinados. Ela quer que elas se tornem protagonistas de suas próprias vidas.

Madalena Gabriella, a Marquesa de Canossa, nasceu em Verona em 1774. Aos cinco anos, perdeu o pai. Sua mãe casou-se novamente e a "abandonou" aos cuidados de uma governanta rigorosa. A jovem marquesa está triste, mas seu coração é generoso.

Contra a vontade de seus parentes, aos dezessete anos, ingressou nos mosteiros carmelitas de Trento e Conegliano Veneto (Treviso). A vida monástica, porém, não era para ela. Assim, ela retornou ao seu castelo, provando ser uma administradora excepcional. Enquanto isso, Madalena cuidava dos doentes e ensinava catecismo a crianças pobres.

Sonho de Santa Madalena 
de Canossa: sobre como seria
o hábito das religiosas e quais
obras realizariam... 

Em Verona, a chamavam de "anjo". Um sonho permaneceu gravado em sua memória: ela viu seis meninas aos pares, cada uma usando um xale e um gorro pretos, cada par desempenhando uma tarefa: educação religiosa, escolaridade e cuidados hospitalares.

Em 1801, duas meninas desgarradas bateram à sua porta. Madalena compreendeu que seu sonho estava se tornando realidade. Essa era a missão para a qual o Senhor a chamava: acolher meninas pobres e oferecer-lhes uma oportunidade através da educação.

Assim, o Castelo de Canossa (que periodicamente hospedava o Imperador da França, Napoleão, e o Czar da Rússia, Alexandre I) abriu seus aposentos para meninas resgatadas da pobreza.

Quando Madalena se mudou para Veneza, deparou-se com uma realidade miserável: meninas famintas nas ruas, jovens órfãos forçados ao crime para sobreviver, doentes sem assistência, pessoas com deficiência sem futuro, como surdos-mudos. Para elas, a Marquesa fundou a Congregação das Irmãs "Filhas da Caridade" (Canossianas). Graças aos seus recursos, foram abertos lares para educação gratuita em diversas cidades: Verona, Veneza, Milão, Bergamo, Trento, Brescia e Cremona. Madalena de Canossa faleceu em Verona em 1835. Hoje, em todo o mundo, as freiras "Canossianas" continuam o trabalho iniciado em 1808 por uma nobre de coração de ouro.

 

Segunda narrativa biográfica:

Ela é descendente de longa data da famosa Matilde da Toscana, Senhora de Canossa. Sua família estava entre as mais ilustres da Itália na época, mas não teve muita sorte: Madalena e seus quatro irmãos perderam o pai ainda jovens, e sua mãe casou-se novamente e os abandonou.

Aos cinco anos, foi entregue aos cuidados de uma governanta que detestava; depois disso, adoeceu diversas vezes. Aos 17 anos, foi admitida no convento carmelita de Trento contra a vontade de seus parentes, e depois, brevemente, no de Conegliano (Treviso), mas essa não era a vida para ela.

Ao retornar para casa, ela surpreende a todos com seu talento como administradora. Mas o casamento está fora de cogitação. E em 1801, duas meninas pobres aparecem no Palazzo Canossa, e ela as acolhe: essa é a revelação de sua vocação.

Ela não "reinará" no palácio da família, que hospedou Napoleão e Alexandre I da Rússia. Sua vocação são os pobres. A acolhida das duas meninas foi apenas um primeiro auxílio, mas ela não quer mantê-las ali como estranhas, para sempre em situação de inferioridade. Elas precisam ter seu próprio lar (as duas e inúmeras outras como elas), onde possam se sentir em casa, serem educadas e se realizarem ao lado de seus professores; e ao lado dela, a fundadora, que em 1808 obterá de Napoleão o antigo convento das freiras agostinianas de Verona, iniciando ali sua vida comunitária.

Nascem as Filhas da Caridade: as freiras que educam os pobres. Madalena redigiu as regras em 1812, em Veneza: ela foi chamada por Antonangelo e Marcantonio Cavanis (dois irmãos patrícios, ambos sacerdotes) para fundar outra instituição educacional para meninas, enquanto eles próprios já haviam estabelecido escolas gratuitas para meninos.

Madalena obteve a aprovação papal inicial para seu trabalho de Pio VII, pouco depois da queda de Napoleão. O imperador Francisco I de Habsburgo reinava então sobre a Lombardia-Vêneto e, em 1816, visitou Verona com sua terceira esposa, Maria Ludovica d'Este. Foi em Verona que a soberana adoeceu e morreu: sua capela mortuária foi erguida em um aposento do Palácio Canossa.

Contudo, Maddalena deixou de frequentar o palácio com frequência. Ela viajou de Veneza para Milão, depois para Bergamo e Trento, para fundar novas filiais e escolas. Sua residência patrícia em Verona acolheu uma soberana, e os lares que ela criou acolheram as filhas dos súditos mais pobres, resgatadas da pobreza e capacitadas para conduzir suas próprias vidas.


Entretanto, trabalhava no longo processo para a aprovação final de seu instituto e preparava-se para abrir outras filiais em Brescia e Cremona. Mas a morte a surpreendeu em sua Verona natal, aos 61 anos: já "em odor de santidade", como a descreviam as crônicas da época, que a descreviam como "muito caridosa a ponto de ser prodigiosa". Mas, acima de tudo, ela se entregou por completo, dedicando-se à obra, que continuaria a crescer após sua morte. No final do século XX, o Instituto contava com mais de 2.600 freiras, atuando em todo o mundo.


São João Paulo II a proclamou Santa em 2 de outubro de 1988. O dia de sua memória pela Igreja Universal é 10 de abril, enquanto o dia 8 de maio é comemorado pelo Instituto das Filhas da Caridade — conhecidas como Irmãs Canossianas —, pelos Filhos da Caridade e pelos Leigos Canossianos, pois 8 de maio de 1808 é a data oficial da fundação do Instituto Canossiano.

Sua memória também é celebrada em 8 de maio na Diocese de Bergamo, enquanto a Diocese de Milão a comemora em 9 de maio.

 

Fonte: site www.santiebeati.it

Autores: Mariella Lentini e  Domenico Agasso

 

terça-feira, 31 de março de 2026

SÃO JOSÉ, O MAIOR DOS SANTOS.

    Despedimo-nos do mês de março (publico esta matéria hoje, dia 31 de março de 2026). Já estamos com saudades. Eu, de forma particular, pois, comemoro nesse mês: tanto meu aniversário natalício, quanto o de Batismo, pois, fui feito filho de Deus e membro da Santa Igreja Católica Apostólica Romana dois dias após meu nascimento. 
          Tenho saudades, porém, e, principalmente, porque é um mês dedicado a São José: o Esposo Castísssimo e Virginal de Maria, pai nutrício e putativo de Jesus, chefe da Sagrada Família, defensor e provedor de Jesus e de Maria, patrono dos moribundos e Patrono de toda a Igreja Católica (Universal). 
          Não poderia me despedir deste mês sem publicar o arquivo texto abaixo: São José, o Maior dos Santos, que dá uma "leve ideia" (que só teremos plenamente no Paraíso), da grande santidade e importância desse homem, escolhido por Deus para uma das maiores missões possíveis a um ser humano: ser o guardião do Mistério da Encarnação, protetor da Virgindade Perpétua de Maria e aquele que, na terra, fez às vezes do próprio Pai Eterno, acolhendo como seu Filho "legítimo" Àquele que é o próprio Deus feito homem: eterno em sua Pessoa e Natureza divinas e gerado no tempo, no seio de Maria, por obra do Espírito Santo, em sua natureza humana. 

Não se pode escrever um livro sobre a Santíssima Virgem sem falar da predestinação de São José, de sua eminente perfeição, do caráter próprio de sua missão excepcional, de suas virtudes e de seu atual papel na santificação das almas, de sua preeminência sobre todos os outros santos, cada vez mais afirmada na Igreja.

A doutrina segundo a qual São José é o maior dos santos depois da Virgem Maria tende a tornar-se uma doutrina comumente aceita na Igreja, que não teme declarar o humilde carpinteiro superior em graça e em beatitude aos patriarcas, a Moisés, aos maiores dos profetas, a São João Batista, e também aos apóstolos, a São Pedro, a São João, a São Paulo, e por mais forte razão superior em santidade aos maiores mártires e aos maiores doutores da Igreja. O menor, por sua profunda humildade, é em razão da conexão das virtudes, o maior pela elevação da caridade: “Qui minor est inter vos, hic major est” (Lc 9, 48).

Essa doutrina é ensinada por Gerson[1] e por São Bernardino de Sena[2]. A partir do século XIV, torna-se cada vez mais corrente, é admitida por Santa Teresa, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, que parece ter escrito o primeiro tratado sobre São José[3], por São Francisco de Sales, por Suárez[4], mais tarde por Santo Afonso Maria de Ligório[5], mais recentemente pelo cônego Sauvé[6], pelo cardeal Lepicier[7]e por M. Sinibaldi[8]; essa doutrina está bem exposta no Dicionário de Teologia Católica, no artigo Joseph (saint), por A-M. Michel.

Além disso recebeu a aprovação de Leão XIII na encíclica Quanquam pluries, de agosto de 1899, escrita para proclamar o patrocínio de São José sobre a Igreja universal.

Ele diz: “Certamente a dignidade da Mãe de Deus é tão alta que nada pôde ser criado acima dela. No entanto, como José foi unido à bem-aventurada Virgem pelo laço conjugal, não se pode duvidar que ele se tenha aproximado, mais do que ninguém, dessa dignidade supereminente pela qual a Mãe de Deus ultrapassa tanto todas as naturezas criadas.

A união conjugal é, com efeito, a maior de todas; em razão de sua própria natureza, ela acompanha-se da comunicação recíproca dos bens dos dois esposos.

Se, pois, Deus deu à Virgem José como esposo, certamente não somente o deu como apoio na vida, como testemunho de sua virgindade, guarda de sua honra, mas o fez também participar, pelo laço conjugal, da eminente dignidade que ela recebeu.”[9]

Tendo Leão XIII afirmado que São José se aproximou mais do que ninguém da dignidade supereminente da Mãe de Deus, segue-se que, na glória, ele está acima de todos os anjos?

Não o poderíamos afirmar com certeza; contentemo-nos em exprimir a doutrina cada vez mais aceita pela Igreja, dizendo: De todos os santos, José é o mais elevado no céu depois de Jesus e Maria; ele está entre os anjos e os arcanjos.


A Igreja, na oração A cunctis, nomeia-o imediatamente depois de Maria e antes dos apóstolos Se não está mencionado no Cânon da missa,[10] não só tem um prefácio especial mas todo o mês de março lhe é consagrado como o protetor e defensor da Igreja universal.

A ele, em sentido real, ainda que oculto, é particularmente confiada a multidão de cristãos de todas as gerações que se sucedem.

É o que exprimem as belas ladainhas aprovadas pela Igreja que lhe resumem as prerrogativas: “São José, ilustre filho de Davi, luz dos patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, guarda da Virgem pura, nutrício do Filho de Deus, zeloso defensor de Cristo, chefe da Sagrada Família, José justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amador da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida doméstica, custódia das virgens, amparo das famílias, alivio dos miseráveis, esperança dos enfermos, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor da santa Igreja.” Nada é tão grande depois de Maria.

 

A razão dessa supereminência

Qual é o principio dessa doutrina cada vez mais admitida desde há cinco séculos?

O princípio invocado, e cada vez mais explicitado por São Bernardo, São Bernardino de Sena, Isidoro de Isolanis, Suárez e autores mais recentes, é um principio tão simples quanto elevado; foi formulado por Santo Tomás a propósito da plenitude da graça em Jesus e da santidade de Maria. Ele se exprime assim: uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcionada.

Esse princípio explica por que a santa alma de Jesus, estando unida pessoalmente ao Verbo, na fonte de toda a graça, recebeu a plenitude absoluta da graça, que devia transbordar sobre nós, segundo a palavra de São João (1, 16): “De plenitude eius omnes accepimus.”[11]

É também a razão por que Maria, tendo sido chamada para ser a Mãe de Deus, recebeu desde o instante de sua concepção uma plenitude inicial de graça, que já ultrapassava a graça final de todos os santos reunidos. Mais, perto da fonte de toda a graça, ela devia beneficiar-se disso mais do que qualquer outra criatura[12].

Foi também por essa razão que os Apóstolos, mais perto de Nosso Senhor que os santos que viriam em seguida, conheceram mais perfeitamente os mistérios da fé.

Para pregar infalivelmente o Evangelho no mundo, eles receberam em Pentecostes uma fé eminentemente esclarecida e inabalável, princípio de seu apostolado[13].

Esse mesmo princípio explica a preeminência de São José sobre qualquer outro santo.




Para compreender bem este ponto, é preciso notar que as obras de Deus que são feitas diretamente por Ele são perfeitas. Não se poderia encontrar nelas nem desordem nem imperfeição sequer.

Assim foi a obra divina no dia da criação, desde as mais altas hierarquias angélicas até as criaturas mais ínfimas[14].

Ainda é assim para os grandes servidores que Deus mesmo escolhe excepcionalmente e diretamente, sem intermediação de alguma escolha humana, ou que são suscitados por ele para restaurar a obra divina perturbada pelo pecado.

No princípio enunciado mais acima, todas as palavras devem ser pesadas: “Uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcionada”.

Aqui não se trata de missão humana, por mais alta que seja, nem de missão angélica, mas de missão propriamente divina, e não missão divina ordinária, mas tão excepcional que no caso de São José é de fato única no mundo em todo o decorrer dos tempos.

Percebe-se melhor ainda a verdade desse principio, tão simples quanto elevado, quando se considera, por contraste, como procede muitas vezes a escolha humana.Muitas vezes os homens escolhem para altas funções de um governo difícil pessoas incapazes, medíocres, imprudentes. O que leva um país à ruína se não houver uma reação salutar.

Não se poderá encontrar nada de parecido nos que são diretamente escolhidos por Deus mesmo e preparados por ele para ser ministros excepcionais na obra da Redenção. O Senhor lhes dá uma santidade proporcionada, pois Ele opera tudo com medida, força e suavidade.

Assim como a alma de Jesus recebeu, desde o instante de sua concepção, a plenitude absoluta de graça, que não aumentou em seguida; como Maria, desde o instante de sua concepção imaculada, recebeu uma plenitude inicial de graça que era superior à graça final de todos os santos e que não cessou de aumentar até sua morte; assim, guardadas as devidas proporções, São José deve ter recebido uma plenitude relativa de graça proporcionada à sua missão, já que foi diretamente e imediatamente escolhido não pelos homens, por nenhuma criatura, mas por Deus mesmo e unicamente por Ele para essa missão única no mundo.

Não se poderia precisar em que momento teve lugar a santificação de São José, mas o que temos direito de afirmar é que, em razão de sua missão, ele foi confirmado na graça desde seu casamento com a Santíssima Virgem.[15]




A que ordem pertence a missão excepcional de José?

É evidente que ela ultrapassa a ordem da natureza, não somente a da natureza humana, mas, a da natureza angélica.

Será somente da ordem da graça como a de São João Batista, que prepara as vias da salvação, como a missão universal dos Apóstolos na Igreja para a santificação das almas ou como a missão particular dos fundadores de ordens?

Se a olharmos de perto, vê-se que a missão de São José ultrapassa a própria graça, e que confina por seu termo com a ordem hipostática constituída pelo próprio mistério da Encarnação. Mas é preciso compreendê-lo bem, evitando qualquer exagero como qualquer diminuição.

A ordem hipostática limita-se à missão única de Maria, a maternidade divina, e também em certo sentido à missão escondida de São José. Esse ponto de doutrina é afirmado por São Bernardo, por São Bernardino de Sena, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, por Suárez e, cada vez mais, por vários autores recentes.

São Bernardo de Claraval diz de José: “Ele foi o servidor fiel e prudente que o Senhor constituiu como o sustentador de sua Mãe, o pai nutrício de sua carne, e o único cooperador fidelíssimo na terra do grande desígnio da Encarnação.”[16]

São Bernardino de Sena escreve: “Quando Deus escolhe alguém para uma missão muito elevada, confere-lhe todos os dons necessários para essa missão. É o que se verifica eminentemente com São José, pai nutrício de Nosso Senhor Jesus Cristo e esposo de Maria…”[17]

 

Isidoro de Isolanis chega a pôr a vocação de São José acima da dos Apóstolos. Ele nota que a vocação dos Apóstolos tem por fim pregar o Evangelho, esclarecer as almas, reconciliá-las, mas que a de José é mais diretamente relativa ao próprio Cristo, já que é o esposo da Mãe de Deus, o pai nutrício e defensor do Salvador[18].

 

Suárez também diz: “Alguns ofícios saem da própria ordem da graça santificante, e, no gênero, os Apóstolos tiveram a graça mais elevada, e também tiveram necessidade de mais socorro gratuito que os outros, sobretudo no que concerne aos dons gratuitamente dados e à sabedoria.

Mas há outros ofícios que confinam com a ordem da união hipostática, em si mais perfeita, como se vê claramente na maternidade divina da bem-aventurada Virgem Maria; é a essa ordem de ofícios que pertence o ministério de São José.”[19]

 

Há alguns anos Mons. Sinibaldi, bispo titular de Tiberíades e secretário da Sagrada Congregação dos Estudos, especificou este ponto de doutrina.

Observou que o ministério de São José pertence, em certo sentido, por seu termo, à ordem hipostática: não que São José tenha intrinsecamente cooperado, como instrumento físico do Espírito Santo, na realização do mistério da Encarnação; deste ponto de vista seu papel é muito inferior ao de Maria, Mãe de Deus; mas, enfim, ele foi predestinado a ser, na ordem das causas morais, o guarda da virgindade e da honra de Maria e ao mesmo tempo o pai sustentador e protetor do Verbo feito carne.

 

Sua missão pertence, por seu fim, à ordem hipostática não por uma cooperação intrínseca, física e imediata, mas por uma cooperação extrínseca, moral e mediata (por Maria), o que é ainda, no entanto, verdadeira cooperação”[20].

 

A predestinação de José nada mais é que o próprio decreto da Encarnação. O que acabamos de dizer aparecerá mais claramente ainda se considerarmos que o decreto eterno da Encarnação não se refere apenas à Encarnação em geral, abstração feita às circunstâncias de tempo e de lugar, mas à Encarnação hic et nunc, quer dizer, a Encarnação do Filho de Deus que, em virtude da operação do Espírito Santo, deve ser concebido em tal instante pela Virgem Maria, unida a um homem da casa de Davi que se chama José: “Missus est angelus Gabriel a Deo in civitate Galileæ, cui nomem Nazareth, ad virginem desponsatam viro, cui nomem erat Joseph, de domo David – Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão, que se chamava José, da casa de Davi.” (Lc 1, 26-27).

Tudo leva a crer que José foi predestinado a ser o pai adotivo do Verbo feito carne antes de ser predestinado à glória.

A razão é que a predestinação do Cristo como homem à filiação divina natural é anterior à de qualquer homem eleito, pois o Cristo é o primeiro dos predestinados[21].

Ora, a predestinação do Cristo à filiação divina natural não é outra senão o próprio decreto da Encarnação, o qual se refere à Encarnação hic et nunc.

Esse decreto implica por si mesmo a predestinação de Maria à maternidade divina, e a de José a ser pai adotivo e protetor do Filho de Deus feito homem.

Assim como a predestinação do Cristo à filiação divina natural é superior à sua predestinação à glória e a precede, como admitem os tomistas (in IIIam.,q. 24, a. 1 e 2); e como a predestinação de Maria à maternidade divina precede (in signo priori) sua predestinação à glória, como vimos no principio desta obra; assim a predestinação de José a ser pai adotivo do Verbo feito carne precede para ele a predestinação à glória e à graça.

Em outros termos, José foi predestinado ao mais alto grau de glória depois de Maria e, em seguida, ao mais alto grau de graça e de caridade, porque seria chamado a ser o digno pai adotivo e protetor do Homem Deus.

Vê-se por aí a elevação de sua missão, única no mundo, já que sua predestinação primeira pertence ao próprio decreto da Encarnação. É o que se diz correntemente quando se afirma que José foi criado e posto no mundo para ser o pai adotivo do Verbo feito carne, e, para que fosse digno pai, Deus quis para ele um altíssimo grau de glória e de graça.

 

O caráter próprio da missão de São José

Esse ponto é admiravelmente bem exposto por Bossuet no seu primeiro panegírico desse grande santo (3° ponto), quando diz: “Entre todas as vocações, chamo a atenção para duas que, nas Escrituras, parecem diametralmente opostas: a primeira, a dos Apóstolos, a segunda a de São José.

Jesus foi revelado aos Apóstolos para anunciá-lO por todo o universo; foi revelado a José para calá-lO e para escondê-lO. Os Apóstolos são as luzes para mostrar Jesus Cristo ao mundo. José é um véu para cobri-lO; e sob esse véu misterioso se esconde a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas… Aquele que glorifica os Apóstolos com a honra da pregação glorifica José pela humildade do silêncio.” A hora da manifestação do mistério da Encarnação não chegara ainda; essa hora deve ser preparada por trinta anos de vida escondida.

A perfeição consiste em fazer aquilo que Deus quer, cada um segundo a sua vocação; mas no silêncio e na obscuridade a vocação de José ultrapassa a vocação dos Apóstolos, porque toca mais de perto o Mistério da Encarnação Redentora. José, depois de Maria, foi quem esteve mais próximo do autor da Graça, e, no silêncio de Belém, durante a estada no Egito e na casinha de Nazaré, recebeu mais graça do que nenhum outro santo jamais recebeu.


Sua missão foi dupla

Em relação a Maria, ele preservou-lhe a virgindade contratando com ela um verdadeiro casamento, porém absolutamente santo. O anjo do Senhor lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber Maria como esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo” (Mt1, 20; Lc 2, 5). Maria é sua esposa, é um verdadeiro casamento, como explica Santo Tomás (IIIª, q. 29, a. 2) mostrando suas conveniências: nenhuma suspeita devia surgir, por menor que fosse, quanto à honra do Filho e à de sua Mãe; se alguma vez essa honra estivesse em causa, José, o testemunho mais autorizado e menos suspeito, estaria lá para atestar-lhe a integridade.

Além disso, Maria encontrava em José ajuda e proteção. Ele a amou com o amor mais puro, mais devotado, um amor teologal, pois a amava em Deus e por Deus.

Era a união sem mancha mais respeitosa com a criatura mais perfeita que jamais existiu, no mais simples contexto, o de um pobre operário de aldeia. Assim, José se aproximou mais intimamente do que qualquer santo daquela que é a Mãe de Deus e a Mãe espiritual de todos os homens, dele mesmo, José, e a distribuidora de todas as graças.

A beleza de todo o universo não é nada ao lado da sublime união dessas duas almas, união criada pelo Altíssimo, que enche de admiração os anjos e alegra o próprio Senhor.

Em relação ao Verbo feito carne, José velou por Ele, protegeu-O, contribuiu para sua educação humana.

Chamam-no pai nutrício, ou melhor, pai adotivo, mas esses nomes não podem exprimir plenamente essa relação misteriosa e cheia de graça.

É acidentalmente que um homem se torna pai adotivo, ou alimentador de uma criança, ao passo que não foi por acidente que José se tornou o pai adotivo do Verbo feito carne; ele foi criado e posto no mundo para isso; esse é o objeto primeiro de sua predestinação e a razão de todas as graças que recebeu.

Bossuet exprime-o admiravelmente[22]: “Quando não é a natureza que dá um pai paternal, onde encontrar um coração paternal? Em uma palavra, São José, não sendo pai natural, como teria um coração de pai por Jesus?

É aí que é preciso entender que o poder divino age nessa obra. É por um efeito desse poder que José tem um coração de pai, e, se a natureza não lho dá, Deus lhe faz um com suas próprias mãos.

Pois é d’Ele que está escrito que dirige como quer as inclinações…

Ele faz um coração de carne em alguns quando os enternece pela caridade…

E não faz em todos os fiéis um coração não de escravo, mas de criança, quando lhes envia o Espírito de seu Filho? Os Apóstolos tremiam ao menor perigo, mas Deus lhes deu um coração novo, e sua coragem tornou-se invencível…

Pois, foi essa mesma mão que deu um coração de pai a São José e um coração de filho a Jesus. Por isso Jesus obedecia a São José, e José nele mandava sem temor.

E de onde vem essa ousadia de mandar em seu Criador? É que o verdadeiro pai de Jesus Cristo, esse Deus que o engendra desde toda a eternidade, tendo escolhido ao glorioso São José para servir de pai, no meio dos tempos, a seu Filho único, fez de alguma maneira correr no seio de José um raio ou um brilho desse amor infinito que Ele tem por seu Filho; foi o que lhe mudou o coração, foi o que lhe deu um amor de pai; de tal modo, que o justo José, que sente em si mesmo um coração paternal, formado de uma vez pela mão de Deus, sente também que Deus lhe ordena usar de autoridade paternal, e ousa assim comandar aquele que reconhece ser o seu mestre. Quer dizer, José foi predestinado primeiramente para “servir de pai ao Salvador, que não podia ter um aqui em baixo”, e depois todos os dons lhe foram concedidos para que ele fosse o digno protetor do Verbo feito carne.

Ademais, há que dizer com que fidelidade José guardou o triplo depósito que lhe fora confiado: a virgindade de Maria, a Pessoa de Jesus Cristo e o segredo do Pai Eterno, o da Encarnação de seu Filho, segredo para ser guardado até que chegasse a hora da manifestação desse mistério[23].

O Papa Pio XI, em discurso pronunciado na sala do consistório no dia da festa de São José, em 19 de março de 1928, dizia, após ter falado da missão de São João Batista e da de São Pedro: “Entre essas duas missões aparece a de José: recolhida, tácita, quase despercebida, desconhecida, que não devia iluminar-se senão alguns séculos mais tarde, um silêncio a que devia suceder, sem dúvida, mas muito tempo depois, um esplendoroso cântico de glória.

E, de fato, lá onde é mais profundo o mistério, onde mais espessa é a noite que o cobre, e maior o silêncio, é justamente lá que está a mais alta missão, mais brilhante o cortejo de virtudes requeridas e de méritos chamados, por uma feliz necessidade, a lhe fazer eco.

Missão única, altíssima, a de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo, a missão de guardar a virgindade, a santidade de Maria, a missão única de entrar em participação no grande mistério escondido aos olhos dos séculos e de cooperar assim na Encarnação e na Redenção!”

O que quer dizer que foi em vista dessa missão única que a Providência concedeu a José todas as graças que ele recebeu; em outros termos: José foi predestinado primeiramente a servir de pai ao Salvador, depois à glória e à graça que convinham a tão excepcional vocação.


As virtudes e os dons de São José

As virtudes de São José são sobretudo as virtudes da vida escondida, em grau proporcionado ao da graça santificante: a virgindade, a humildade, a pobreza, a paciência, a prudência, a fidelidade, que não pode ser abalada por nenhum perigo, a simplicidade, a fé esclarecida pelos dons do Espírito Santo, a confiança em Deus e a caridade perfeita.

Ele guardou o depósito que lhe foi confiado com uma fidelidade proporcionada ao valor desse tesouro inestimável. Cumpriu o preceito: Depositum custodi.

Sobre essas virtudes da vida escondida Bossuet faz este apanhado geral[24]: “Um vício ordinário nos homens é dar-se inteiramente às coisas de fora e negligenciar as de dentro; trabalhar para se mostrar e para aparecer, desprezar o efetivo e o sólido; sonhar muitas vezes com o que querem parecer e não pensar no que devem ser.

É por isso que as virtudes que são estimadas são aquelas que se misturam nos negócios e que entram no comércio dos homens; ao contrário, as virtudes escondidas, interiores, onde o público não toma parte, onde tudo se passa entre Deus e o homem, não só não são seguidas mas nem sequer compreendidas. E no entanto é nesse segredo que consiste todo o mistério da verdadeira virtude…

É preciso considerar um homem em si mesmo, antes de meditar qual o lugar que se lhe dará entre os outros; e, se não trabalharmos sobre esse fundo, todas as outras virtudes, por mais brilhantes que sejam, não passarão de virtudes de vitrina… elas não fazem o homem segundo o coração de Deus.

Ao contrário, José, homem simples, procurou Deus, José, homem retraído, encontrou Deus.”

A humildade de José deve ser confirmada pelo pensamento da gratuidade de sua vocação excepcional.

Ele devia perguntar-se: Por que o Altíssimo me deu seu filho único para guardar, a mim, José, e não a qualquer outro homem da Judéia, da Galiléia, ou de qualquer outra região ou de outro século?

Foi unicamente pelo livre agrado de Deus, prazer que é em si mesmo sua razão, e pelo qual José foi livremente preferido, escolhido, predestinado desde toda a eternidade antes de tal ou qual outro homem, a quem o Senhor poderia ter concedido os mesmos dons e uma mesma fidelidade a fim de o preparar para essa excepcional missão.

Vemos nessa predestinação um reflexo da gratuidade da predestinação do Cristo e da de Maria.

O conhecimento do valor dessa graça e de sua gratuidade absoluta, longe de prejudicar a humildade de José, confirmou-a. Pensava em seu coração: “O que tens que não recebestes?”

José aparece como o mais humilde de todos os santos depois de Maria, mais humilde do que qualquer dos anjos; e, se é o mais humilde, é por isso mesmo o maior de todos, pois, sendo conexas as virtudes, a profundeza da humildade é proporcionada à elevação da caridade, como a raiz da árvore é tanto mais profunda quanto mais alta é a árvore: “Aquele dentre vós todos que é o menor”, disse Jesus, “este será o maior” (Lc 9, 48).

Como nota ainda Bossuet: “Possuindo o maior tesouro, por uma graça extraordinária do Pai eterno, José, longe de se vangloriar dos seus dons ou de mostrar suas vantagens, esconde-se tanto quanto pode aos olhos dos mortais, gozando pacificamente com Deus do mistério que lhe foi revelado, e das riquezas infinitas que Ele lhe deu para guardar.”[25] – “José tem em casa o que atrairia os olhos de toda a terra, e o mundo não o conhece; possui um Deus-Homem, e não diz palavra; é testemunha de um grande mistério, e saboreia-o em segredo, sem o divulgar.”[26]

Sua fé é inabalável apesar da obscuridade do inesperado mistério. A palavra de Deus transmitida pelo anjo esclarece acerca da concepção virginal do Salvador: José poderia ter hesitado em crer em coisa tão extraordinária; acreditou firmemente com a simplicidade de seu coração. Por sua simplicidade e sua humildade ele ascende às alturas de Deus.

A obscuridade não tarda a reaparecer: José era pobre antes de ter recebido o segredo do Altíssimo; torna-se mais pobre ainda, observa Bossuet, quando Jesus vem ao mundo, pois vem com seu despojamento e desapegado de tudo para unir-se a Deus.


Não há lugar para o Salvador na última das hospedarias de Belém. José deve ter sofrido por não ter nada para dar a Maria e seu Filho.

Sua confiança em Deus manifesta-se na provação, pois a perseguição começa pouco depois do nascimento de Jesus. Herodes quer matá-lo.

O chefe da Sagrada Família deve esconder Nosso Senhor, partir para um país longínquo, onde ninguém o conhece e onde não sabe como poderá ganhar a vida.

Ele parte, pondo toda a confiança na Providência.

Seu amor de Deus e das almas não cessa de crescer na vida escondida de Nazaré, sob a constante influência do Verbo feito carne, lar de graças sempre novas e sempre mais altas para as almas dóceis que não põem obstáculo naquilo que Ele lhes quer dar.

Dissemos mais acima, a propósito do progresso espiritual de Maria, que a ascensão dessas almas é uniformemente acelerada, quer dizer, elas voltam-se tanto mais ligeiramente para Deus quanto mais d’Ele se aproximam ou quanto mais são atraídas por Ele.

Essa lei da gravidade espiritual das almas justas se realiza em José; a caridade não cessa de crescer nele cada vez mais prontamente até a morte; o progresso de seus últimos anos foi muito mais rápido do que o dos primeiros anos, pois, encontrando-se mais perto de Deus, era mais fortemente atraído por Ele.

Com as virtudes teologais cresceram também incessantemente nele os sete dons do Espírito Santo, que são conexos com a caridade.

Os dons de inteligência e de sabedoria tornaram-lhe viva a fé viva, e, cada vez mais encantada, sua contemplação voltava-se para a infinita bondade do Altíssimo, de modo muito simples, mas muito elevado.

Foi, em sua simplicidade, a contemplação sobrenatural mais alta depois da de Maria.

Essa contemplação amorosa lhe era muito doce, mas lhe pedia a mais perfeita abnegação e o mais doloroso sacrifício, quando se lembrava das palavras do velho Simeão: “Essa criança será um sinal de contradição”, e das que disse a Maria: “E a vós uma espada vos traspassará a alma.” A aceitação do mistério da Redenção pelo sofrimento aparecia a José como a consumação dolorosa do mistério da Encarnação, e ele precisava de toda a generosidade de seu amor para oferecer a Deus, em sacrifício supremo, o Menino Jesus e sua santa Mãe, aos quais ele amava incomparavelmente mais do que a sua própria vida.

A morte de São José foi uma morte privilegiada; como a da Santíssima Virgem, foi, como diz São Francisco de Sales, uma morte de amor[27]. Ele admite também, com Suárez, que José estaria entre os santos que, segundo São Mateus (27, 52 e ss), ressuscitaram depois da ressurreição do Senhor e se manifestaram na cidade de Jerusalém; e sustenta que essas ressurreições foram definitivas e que José entrou no céu de corpo e alma.

São Tomás é muito reservado quanto a este ponto: depois de ter admitido que as ressurreições que se seguiram à de Jesus foram definitivas (in Mt 27, 52, e IV Sent., 1, IV, dist. 42, q. 1, a. 3), mais tarde, examinando as razões inversas dadas por Santo Agostinho, achou que estas eram muito mais sólidas (cf. IIIª, q. 53, a. 3, ad. 2).

 

O atual papel de São José na santificação das almas

Tanto o humilde carpinteiro teve uma vida escondida na terra quanto é glorificado no céu. Aquele a quem o Verbo feito carne foi submisso aqui em baixo conserva no céu um poder de intercessão incomparável.

Leão XIII, na encíclica Quamquam pluries, encontra na missão de São José em relação à Sagrada Família “as razões por que ele é o Padroeiro e Protetor da Igreja Universal

Assim como Maria, Mãe do Salvador, é Mãe espiritual de todos os cristãos… assim a José lhe foi confiada a multidão dos cristãos…

Ele é o defensor da Santa Igreja, que é verdadeiramente a casa do Senhor e o reino de Deus na terra.”

O que impressiona nesse papel atual de São José até o fim dos tempos é que ele une admiravelmente prerrogativas aparentemente opostas.

Sua influência é universal sobre toda a Igreja, que ele protege, e no entanto, a exemplo da Providência, se estende aos menores detalhes; “modelo dos operários”, interessa-se por cada um que lhe implora.

É o mais universal de todos os santos pela sua influência e faz encontrar um par de sapatos a um pobre que os esteja precisando.

Evidentemente, sua ação é sobretudo de ordem espiritual, mas estende-se também às coisas temporais; é o “sustentáculo das famílias, das comunidades religiosas, a consolação dos infelizes, a esperança dos doentes”.

Vela pelos cristãos de todas as condições, de todos os países, pelos pais de família, pelos esposos, como pelas virgens consagradas; pelos ricos, para lhes inspirar uma distribuição caridosa de seus bens, como pelos pobres, para socorrê-los.

Está atento aos maiores pecadores como às almas mais avançadas. É o padroeiro da boa morte, o das causas desesperadas, é terrível para com os demônios que parecem triunfar, e é também, diz Santa Teresa, o guia das almas interiores nas vias da oração.



Ele tem em sua influência um reflexo maravilhoso da “Sabedoria divina que atinge com força de uma à outra extremidade do mundo e dispõe tudo com doçura” (Sb 8, 1).

O esplendor de Deus esteve e permanece eternamente sobre ele; a graça não cessou de frutificar nele, e ele quer que dela participem todos os que aspiram verdadeiramente à “vida escondida em Deus com Cristo” (Col 3, 3).

 

 

Fontes:

Site da Editora Cléofas.

Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O.P

(Capítulo VII do livro A Mãe do Salvador e seu amor por nós. Tradução: PERMANÊNCIA)

[1] Sermo in Nativitatem Virginis Mariæ, IVª consideratio.

[2] Sermo I de S. Joseph, c. III. Opera, Lion, 1650, t. IV, p. 254.

[3] Summa de donis S. Joseph, 1522, nova edição do p. Berthier, Roma, 1897.

[4] In Summam S. Thomæ, IIIª, q. 29, disp. 8, sect. I.

[5] Sermone de S.Giuseppe. Discorsi morali, Nápoles, 1841.

[6] Saint Joseph intime, Paris, 1920.

[7] Tractatus de S. Joseph,Paris, s.d. (1908).

[8] La Grandezza di San Giuseppe, Roma,1927, pp. 36 ss.

[9] Epist. Encíclica “Quanquam pluries”, 15 de agosto de 1899.

[10] Ainda não o estava na época em que este livro foi escrito. [N. do T.]

[11] Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 7ª, 9.

[12] Cf. ibidem, q. 27, a. 5.

[13] Cf. ibidem, IIª IIæ, q. 1, a. 7, ad. 4.

[14] Cf. Santo Tomás, Iª, q. 94, a. 3.

[15] Cf. Dic. Teol. Cat., art. José (São), col. 1518.

[16] Homil. II super Missus est, prope finem.

[17] Sermo I de S. Joseph.

[18] Summa de donis sancti Joseph (obra muito louvada por Bento XIV), Paris IIIª, c. XVIII. Todo esse capítulo expõe a superioridade da missão de São José sobre a dos Apóstolos. – Ver também ibidem, c. XVII: “De dono plenitudinis gratiæ (in S. José).”

[19] In Summum S. Thomæ, IIIª, q. 29, disp. 8, s. 1.

[20] Cf. Mons. Sinibaldi, La grandessa di San Giuseppe, Roma, 1927, pp. 36 ss.

[21] Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 24, a. 1, 2, 3, 4.

[22] Primeiro panegírico de São José, 2° ponto, ed. Lebarcq, t. II, pp. 135 ss.

[23] Cf. Bossuet, ibidem, preâmbulo.

[24] Segundo panegírico de São José, preâmbulo.

[25] Primeiro panegírico de São José, preâmbulo.

[26] Segundo panegírico de São José, 3° ponto.