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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Venerável Servo de Deus Rodolfo Komórek, Presbítero Salesiano


Venerável Rodolfo Komórek, sacerdote salesiano polonês que viveu no Brasil

Rodolfo Komorek nasceu em Bielsko, na Silésia polonesa, então austríaca, no dia 11 de agosto de 1890. Foi o terceiro de sete filhos de João e Inês Goch, pais verdadeiramente cristãos.
Aos 19 anos entrou no seminário, e ali era comparado a São Luís. Aos 24 anos foi ordenado sacerdote na diocese de Breslavia. Durante a primeira guerra mundial trabalhou como capelão militar no hospital e, a seu pedido, também na frente de batalha. Exerceu por três anos o ofício de pároco em Frystak, onde testemunhou a pobreza, a oração e o zelo apostólico. O seu confessionário estava sempre cheio. P. Rodolfo foi amado e respeitado por todos, sobretudo pelas crianças.

Com 32 anos pediu para entrar na Congregação Salesiana e, em 1922, iniciou o noviciado. Aspirava ser missionário. Por isso, em outubro de 1924 foi destinado a São Feliciano, no Brasil, para cuidar da pastoral dos poloneses imigrantes e sem assistência religiosa. Distinguiu-se como evangelizador e confessor de exceção. Chamavam-no “o padre santo”. Foi exemplar na vivência do voto de pobreza tão amado por Dom Bosco. Vivia em união com Deus na presença do Senhor. Diziam dele: “Nunca se viu visto um homem rezar tanto”. E ainda: “A sua genuflexão valia por uma pregação e a sua compostura quando estava ajoelhado no chão persuadia-nos do seu extraordinário espírito de piedade e de mortificação”.

Passou por várias paróquias e comunidades salesianas. Foi enviado como confessor ao estudantado salesiano de Lavrinhas, onde se distinguiu pela santidade. Dava 28 aulas por semana. A casa de saúde de São José dos Campos foi a última etapa dos seus 25 anos de missão.
Em São José, o padre foi examinado pelo médico Nelson D'Avila, que teria se surpreendido com a gravidade de sua doença e recomendado repouso absoluto. O médico teria dado a ele três meses de vida, mas ele viveu ainda nove anos.
Contrariando as ordens médicas, padre Rodolfo realizava todos os dias uma procissão particular pela cidade, oferecendo assistência aos doentes e realizando missas na capela do sanatório Vicentina Aranha. O padre teria realizado curas milagrosas e outros sinais, que acenderam a hipótese sobre sua santidade.
Vivia contente, nos últimos oito anos de vida, por consumir-se lentamente e oferecer a Deus, até o fim, o respiro de seus pulmões doentes de tuberculose. Assistia os demais doentes exercendo durante o dia todo o ministério sacerdotal. Dormia sobre três tábuas.



Passou os últimos dias em contínua oração. Queria que os remédios, já inúteis, fossem dados aos pobres que não conseguiam comprá-los. Não quis aceitar nem oxigênio nem água. Morreu aos 59 anos, no dia 11 de dezembro de 1949. Está sepultado em São José dos Campos, onde a sua profunda piedade – sobretudo o amor pela Eucaristia –, o seu serviço incansável ao próximo e o seu espírito de contínua penitência formaram e continuam a formar gerações de crentes.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

São Rafael Arnáiz Barón, monge


 A heroicidade de um apagamento total


O grande êxito de sua vida foi aceitar o aparente fracasso de seu ideal, conformando-se inteiramente à vontade divina. Nada foi aos olhos humanos, mas foi santo aos olhos de Deus, que julga pelo coração, e não pelas aparências.

Rafael Arnáiz Baron era rico, de nobre família, inteligente, elegante, simpático e alegre. Tinha alma de artista e dotes de poeta, aprimorados por uma esmerada educação. Cursava em Madri a Escola Superior de Arquitetura, apreciava os magníficos concertos do Palácio da Música e freqüentava os bons restaurantes madrilenhos. Diante de si, abria-se a perspectiva de uma carreira brilhante.

Aos 22 anos, ele ouviu o convite de Jesus no interior de sua alma: “Renuncia a tudo isso, vem e segue-Me”. Bem ao contrário do “moço rico” do Evangelho, atendeu com prontidão e generosidade a esse chamado. Em sua curta vida, elevou-se a um alto grau de santidade e deixou aos católicos uma importante mensagem: “Deus não exige de nós mais do que simplicidade por fora e amor por dentro”.




Um menino privilegiado

Rafael Arnáiz Barón nasceu em Burgos, Espanha, a 09 de abril de 1911, numa aristocrática família. Seus pais, católicos fervorosos, educaram- -no com esmero na prática dos Mandamentos e no amor à virtude. Aos 10 anos, vendo-se impossibilitado de acompanhar seus colegas à Missa de domingo, por estar enfermo, suplicou a um sacerdote que lhe levasse o Santíssimo Sacramento. Impressionado com a piedade daquela criança, o padre acedeu e, a partir daí, Rafael nunca mais abandonou a comunhão dominical.

Diante do olhar profundo do jovem Rafael, seu futuro se descortinava em tons róseos e azulados. Sua inteligência penetrante, a vivacidade de sua conversa e seu trato ameno conquistavam-lhe todas as simpatias e aumentavam o atrativo natural que exercia sobre os que dele se aproximavam. Um marcado pendor artístico veio completar o encanto de sua pessoa.

Rafael, porém, parecia feito mais para a contemplação das coisas celestes que para as banalidades da vida terrena. Levava uma vida semelhante à dos outros moços de sua idade, mas seu olhar voava com facilidade até Deus. Dir-se-ia que sua nobre alma experimentava o exílio deste vale de lágrimas e ardia em desejos de horizontes sublimes. A resposta da Providência a tais anseios, plantados por Ela mesma naquele inocente jovem, não se faria esperar.


São Rafael Arnáiz Barón antes
de entrar na vida monástica 
Na juventude, o despontar da vocação

Aos 19 anos, estando na casa de seu tio em Ávila, foi solicitado a levar uma carta ao abade do mosteiro cisterciense de San Isidro de Dueñas. Essa visita seria para ele a clarinada reveladora de sua vocação.

"Aquilo que vi e passei na Trapa, escreveria ele mais tarde, as impressões que tive nesse santo mosteiro, não podem ser explicadas; pelo menos eu não sei explicá-las, somente Deus o sabe. [...] O que mais me impressionou foi o canto da Salve Regina, ao escurecer, antes de irem deitar-se. [...] Aquilo foi algo sublime.1 "

Com efeito, desde a época de São Bernardo, era costume nos mosteiros cistercienses cantar a Salve Regina em gregoriano logo após as Completas, em homenagem à Santíssima Virgem. Diante da unção daquele hino entoado por mais de 50 religiosos revestidos de brancos hábitos, Rafael sentiu-se convidado a imitá-los. Nesse dia, o projeto de dar-se à vocação monacal começou a germinar em sua mente.

Ele continuou a levar sua vida comum. Dados os seus dotes para o desenho, estudou dois anos na escola de arquitetura, em Madri. Entretanto, a graça operara em seu interior uma verdadeira transformação, como ele mesmo descreve: "Ali [na Trapa] a sós com Deus e a própria consciência, muda-se o modo de pensar, o modo de sentir e, o mais importante, o modo de agir nos atos do mundo.2 "


A decisão de abraçar a vida religiosa

Em 1933, estando de novo em Ávila, Rafael surpreendeu seu tio com uma notícia: estava resolvido a abandonar o mundo e ingressar na Ordem de Cister, sem mesmo avisar seus pais, residentes ao norte do país, na cidade de Oviedo. Assim descreve seu tio a impressão que lhe causou a decisão do sobrinho:

Rafael "era débil fisicamente, mas a fortaleza que faltava a seu corpo tinha em sua alma medida completa e transbordante. [...] Sua vontade era de aço; eu tinha a firme convicção de que aquela determinação era de Deus; não era um capricho, nem uma impressão, nem um engano; era o fruto divino de uma correspondência à graça, que o Espírito Santo dignava-Se sustentar com um de seus mais preciosos dons: o da fortaleza.3 "

Para demovê-lo de sua resolução de não ir antes a Oviedo, seu tio recorreu ao Núncio Apostólico, que se encontrava em Ávila. Ante o desejo da autoridade religiosa, Rafael dobrou-se, por amor à obediência, reconhecendo naquela ordem o primeiro passo rumo à cruz, que desejava abraçar.

Partiu para Oviedo e lá, após comemorar o Natal numa aparente alegria, comunicou a seus pais a decisão que tomara. Estes, como bons cristãos, acolheram- na com verdadeira emoção, agradecendo a dádiva que o Senhor lhes concedia.


Uma nova etapa na vida do jovem Rafael

Para o jovem Rafael começava uma nova etapa: deixava para trás as comodidades, o carinho familiar, os passatempos mundanos, as promessas de um brilhante porvir. Sobretudo, renunciava àquilo que a criatura humana possui de mais arraigado: a vontade própria. Doravante esta se acharia inteiramente conformada à vontade divina.

No dia 15 de janeiro de 1934, as portas de Cister abriam-se para o jovem postulante. Seu coração estava cheio de bons propósitos, que ele resumiu com estas palavras escritas poucos dias antes: "Quero ser santo, diante de Deus, e não dos homens; uma santidade que se desenvolva no coro, no trabalho, sobretudo, no silêncio; uma santidade conhecida somente de Deus e da qual nem mesmo eu me dê conta, pois, então, já não seria verdadeira santidade.4 "

Essa santidade seria alcançada em meio a indizíveis sofrimentos e provações, na aparente inutilidade, sem em nada manifestar-se exteriormente.

O primeiro período de vida religiosa foi para Rafael um verdadeiro paraíso. Se os jejuns e as mortificações por vezes arrancaram-lhe algumas lágrimas, sua alma sentia-se inundada de consolações. A humildade que demonstrava ao acusar-se de suas faltas no capítulo de culpas e sua atitude estática diante do tabernáculo impressionavam favoravelmente a comunidade, que logo se lhe afeiçoou.


A dura prova da enfermidade

Para Rafael, o rompimento com o mundo já ficara definitivamente para trás. Porém, não eram estes os desígnios divinos. Gozava de grande felicidade espiritual quando, em maio, sentiu os primeiros sintomas da doença que o levaria à morte. O abatimento de suas forças obrigou-o a ser transferido para a enfermaria. Pouco tempo depois, o médico diagnosticava uma diabetes sacarina que progredia de forma alarmante e exigia um tratamento apropriado, que só poderia ser-lhe ministrado fora do mosteiro...

Começava para ele a subida ao calvário, a aceitação submissa do cálice que lhe era oferecido. Via-se obrigado a voltar para o mundo, ao qual tão generosamente havia renunciado!

Seu confessor, Pe. Teófilo Sandoval, narra a cena de sua partida do mosteiro:

"Os suspiros e as lágrimas do angustiado Rafael faziam-me ver que em seu interior se desenrolava uma tremenda crise espiritual que lhe oprimia o coração. Quando deixei o mundo - dizia-me - despedi-me de todos até a eternidade, e pela imprensa, Astúrias inteira soube que a graça havia triunfado em mim, sobre a natureza... Agora volto para lá desfeito, inútil, com a mortalha dentro da mala... O que dirá o mundo, tão propenso a se escandalizar? Eu quero morrer aqui, quisera que esta noite fosse a última de minha vida! Diante dessas expressões, compreendi que Rafael havia penetrado na terrível noite escura do sentido, do coração.5 "

Rafael voltou para sua casa. Em poucas semanas verificou-se uma melhora em sua saúde e pôde retomar a vida normal. Exteriormente aparentava ser o mesmo Rafael de antes, com sua alegria contagiante e sua sensibilidade artística. Uma profunda mudança, porém, efetuara-se em sua alma, modelando-a por inteiro. Experimentava outra alegria, aquela que só às almas amantes da cruz é dado conhecer.

Assim escreveu ele a um de seus superiores, alguns dias depois de sua saída do mosteiro: "Quando fui para a Trapa, entreguei-Lhe [a Deus] tudo quanto tinha e tudo quanto possuía: minha alma e meu corpo... Minha entrega foi absoluta e total. Justo é, pois, que Deus agora faça de mim o que Lhe pareça e o que Lhe agrade, sem queixa alguma de minha parte, movimento algum de rebeldia. [...] Deus não somente aceitou meu sacrifício, quando deixei o mundo, mas pediu-me maior sacrifício ainda, o de voltar a ele... Até quando? Deus tem a palavra. Ele dá a saúde, Ele a tira.6 "

Essas palavras refletem bem o espírito de obediência com o qual acolhia a prova enviada pela Providência. Um ano e meio haveria de durar aquele exílio, durante o qual seu amor a Deus não fez senão crescer e sublimar-se. Ao ingressar na Ordem Cisterciense, despojara-se de tudo, mas conservava ainda o desejo de chegar a ser um bom trapista, de se tornar sacerdote; buscava-se a si mesmo, como mais tarde afirmaria. Deus, como Pai boníssimo, educava-o de forma a purificar sua alma daquelas asperezas tão legítimas, mas ainda humanas.

Por fim, Rafael implorou ser readmitido na Trapa na qualidade de oblato, uma vez que seu estado de saúde não lhe permitia adaptar-se ao regime da vida monacal.

Em janeiro de 1936, entrou por segunda vez. Lá o esperavam novas tribulações: isolado na enfermaria, sujeito a um regime alimentício que provocava críticas dos companheiros, sofrendo incompreensões de alguns de seus superiores, Rafael sentia-se inteiramente só. Dada sua debilidade física, proibiram-lhe até de participar do cântico do Ofício na igreja. A esses sofrimentos juntavam-se terríveis tentações que lhe sugeriam a ideia de ter errado de vocação. Ele tudo enfrentava com vigor de espírito e um inalterável sorriso nos lábios.

Ainda por duas vezes a enfermidade o tiraria de sua amada abadia, mas novamente a ela voltaria, convencido de ser aquele o lugar que lhe designara a vontade divina, apesar dos obstáculos que esta mesma parecia lhe opor.


Os últimos meses de vida

Os derradeiros meses da vida de Rafael foram os últimos passos até o cimo do calvário que se propusera galgar, como o refletem os escritos dessa época, embebidos de intensa espiritualidade e amor à perfeição.

Sua alma atingia aquela indiferença recomendada por Santo Inácio, pela qual o homem nada deseja para si e deixa-se levar pelo beneplácito divino. Uma única paixão dominava- lhe o coração: Deus!

"Tudo o que faço, é por Deus. As alegrias, Ele as manda; as lágrimas, Ele as dá; o alimento, tomo-o por Ele; e quando durmo, faço-o por Ele. Minha regra é Sua vontade, e Seu desejo é minha lei; vivo porque a Ele apraz, morrerei quando Ele quiser. Nada desejo fora de Deus. [...] Quisera que o universo inteiro - com todos os planetas, os astros todos, e os inúmeros sistemas siderais - fosse uma imensa superfície lisa onde eu pudesse escrever o nome de Deus. Quisera que minha voz fosse mais potente que mil trovões, e mais forte que o ímpeto do mar, e mais terrível que o fragor dos vulcões para só dizer ‘Deus'. Quisera que meu coração fosse tão grande quanto o Céu, puro como o dos Anjos, simples como a pomba para nele ter a Deus.7 "

Entretanto, a enfermidade progredia a passos rápidos. Rafael padecia fome - o irmão enfermeiro não lhe proporcionava os alimentos que a doença exigia - e, sobretudo, sede... Uma sede insaciável e devoradora que o acompanharia até os últimos instantes. Ele, porém, nada deixava transparecer no exterior, dando a todos a impressão de encontrar-se melhor.

No fim do mês de abril já não pôde mais ocultar seu alarmante estado. Aos delírios da febre sucediam-se instantes de lucidez, durante os quais manifestava-se sereno e resignado. Recebeu a unção dos enfermos no dia 25, mas Deus pediu-lhe o sacrifício de ver-se privado do viático. Às palavras alentadoras que lhe dirigiam os monges, procurando infundir-lhe a esperança da cura, Rafael respondia estar convencido de que logo partiria para o Céu.

Faleceu na manhã do dia 26 de abril de 1938, em consequência de um coma diabético. Sua fisionomia plácida e seu sorriso refletiam a glória de que sua alma já gozava na eterna bem-aventurança.



Uma alma enamorada de Cristo

Sob o ponto de vista humano, sua curta vida parece ter sido um monumental fracasso: não completou a carreira, não se projetou na sociedade, não realizou seus sonhos de sacerdócio, nem mesmo teve o consolo de observar a regra trapista e emitir os votos.

Não foi assim aos olhos de Deus, que não julga pelas aparências, mas sim segundo o coração. Rafael praticou uma forma de santidade peculiar: sua alma enamorada de Deus atingiu a heroicidade das virtudes em meio ao silêncio, à dor e ao apagamento mais completos.

Sirva-nos seu exemplo de humildade e de caridade ardente para, também nós, aceitarmos com alegria aquilo que a Divina Vontade quiser nos mandar.

"Dei-me conta de minha vocação. Não sou religioso... não sou leigo..., nada sou... Bendito seja Deus, não sou nada mais que uma alma enamorada de Cristo. [...] Vida de amor, eis minha Regra... meu voto... Eis a única razão de viver.8 "

1) RAFAEL. Obras Completas. Preparadas por Fray Maria Alberico Feliz Carbajal. 4. ed. Burgos: Editorial Monte Carmelo, 2002, pp. 23-31.
2) Idem, ibidem, p.47.
3) Idem, ibidem, p. 92.
4) Idem, ibidem, p. 123.
5) Idem, ibidem, pp. 193-194.
6) Idem, ibidem, pp. 200-201.
7) Idem, ibidem, pp. 788 e 831-832.
8) Idem, ibidem, pp.795-796.

(Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP)



Apêndice

Voto de amar sempre a Jesus  (São Rafael Arnáiz Barón)
 “Na oração desta manhã fiz um voto. Fiz o voto de amar sempre a Jesus.

Me dei conta de minha vocação. Não sou religioso..., não sou leigo..., não sou nada... Bendito Deus, não sou nada mais que uma alma enamorada de Cristo. Ele não quer mais que meu amor, e me quer desprendido de tudo e de todos.

Virgem Maria, ajuda-me a cumprir meu voto!

Amar a Jesus, em tudo, por tudo e sempre... Só amor. Amor humilde, generoso, desprendido, mortificado, em silêncio… Que minha vida não seja mais que um ato de amor.

Bem vejo que a vontade de Deus é que não faça os votos religiosos, nem seguir a Regra de São Bento. Hei de querer, eu, o que não quer Deus?

Jesus me manda uma enfermidade incurável; é sua vontade que humilhe minha soberba ante as misérias de minha carne. Deus me envia a enfermidade. Não hei de amar tudo o que Jesus me envie?

Beijo com imenso carinho a mão bendita de Deus que dá a saúde quando quer e a tira quando Lhe apraz.

Dizia Jó, que depois recebemos com alegria os bens de Deus. Por que não havemos de receber assim também os males? Mas acaso tudo isso me impede de amar-Lhe?... Não, com loucura devo fazê-lo.

Vida de amor, eis aqui minha Regra..., meu voto... Eis aqui a única razão de viver.

Começa o ano de 1938. Que me prepara Deus nele? Não sei... Talvez não importe?... Fora ofender-Lhe tudo o mais dá no mesmo... Sou de Deus, que faça comigo o que quiser. Eu hoje Lhe ofereço um novo ano, no qual não quero que reine mais que uma vida de sacrifício, de abnegação, de desprendimento, e guiada somente pelo amor a Jesus, por um amor muito grande e muito puro.

Quisera meu Senhor, amar-Te como ninguém. Quisera passar esta vida tocando o chão somente com os pés, sem deter-me em olhar em mim tanta miséria, sem deter-me em nenhuma criatura, com o coração abrasado de amor divino e sustentado pela esperança.

Quisera, Senhor, olhar somente ao céu, onde Tu me esperas, onde está Maria, onde estão os santos e os anjos, bendizendo-Te pela eternidade e passando pelo mundo somente amando tua lei e observando teus divinos preceitos.

Ah, Senhor, quanto quisera amar-Te!.... Ajuda-me, minha Mãe!.
Hei de amar a solidão, pois Deus nela me põe.
Hei de obedecer às cegas, pois é o que Deus me ordena.
Hei de mortificar continuamente meus sentidos.
Hei de ter paciência na vida de comunidade.
Hei de exercitar-me na humildade.
Hei de fazer tudo por Deus e por Maria”.

domingo, 27 de abril de 2014

Beata Maria Antônia Bandrés y Elósegui, Virgem e Religiosa da Congregação das Filhas de Jesus


      Foi a primeira flor de santidade a desabrochar na Congregação das Filhas de Jesus fundada por Santa Cândida Maria de Jesus Cipitria em Salamanca, em 1871.
     Maria Antonia Bandrés y Elósegui nasceu em Tolosa (Guipúzcoa, Espanha), no dia 6 de maio de 1898, a segunda de 15 filhos do advogado Raimundo Bandrés e de Teresa Elósegui, em família era chamada Antoninha.

     Naquele lar a fé e a caridade eram vividas com empenho. Dona Teresa era uma mulher exemplar e santa que soube ajudar seus filhos a crescer em tudo, porém especialmente no amor a Deus, a Maria Santíssima e aos pobres e necessitados.

     A saúde de Antoninha era um pouco frágil; seus pais tiveram com ela cuidados especiais. A debilidade e o excessivo zelo dos seus parentes ajudaram a acentuar naquela menina um caráter sensível até a suscetibilidade, que nos primeiros anos chegou a preocupar Dona Teresa: “Que menina fastidiosa! Quanto vai sofrer com esse caráter”! E sofreu mesmo, porém sem que o sorriso se apagasse de seus lábios.

     Recebeu os primeiros estudos com as irmãs de seu confessor o Pe. Ilario Oscoz. Frequentou depois o Colégio das Filhas de Jesus, fundado em Salamanca em 6 de janeiro de 1874 pela Madre Cândida Maria de Jesus.

     Maria Antonia foi um admirável exemplo de virtude especialmente para seus numerosos irmãos mais novos. A família usufruía de todo conforto, mas ela sentia como suas as preocupações e as necessidades dos pobres. Assim sendo, desde muito jovem dedicou-se a um trabalho voluntário nos subúrbios de Tolosa, e ao trabalho social e de evangelização junto aos operários, bastante raro naqueles dias.


Santa Cândida Maria e beata Maria Antônia, a funda-
dora e sua filha espiritual. Foram
 beatificadas  no mesmo dia. 
     Em 1913, durante um retiro em Loyola, ela se lembrou do que alguns anos antes Madre Cândida lhe havia dito: “Tu serás Filha de Jesus” e, em seguida, tomou a decisão de ser integral e inteiramente de Nosso Senhor.

     Ingressou na Congregação das Filhas de Jesus no dia 8 de dezembro de 1915 aos 17 anos e em 31 de maio de 1918 fez os votos religiosos em Salamanca. Antoninha sentia um profundo amor por seus pais e irmãos, e ao ingressar no noviciado separar-se deles lhe custou muito, por isto ouviram-na dizer: “Só por Deus eu os deixei”.

     Pouco tempo depois a sua saúde, que já não era boa, começou a enfraquecer ainda mais. As várias biografias não dizem qual era a doença, mas logo se soube que era inexorável.

     A evolução do mal foi acompanhada pelo Dr. Filiberto Villalobos, que confessou ficar “comovido por aquela serenidade de espírito e por aquela fé que a faziam tão feliz em suas últimas horas de vida”.

     Segundo seu depoimento, o médico confidenciou suas impressões a dois amigos intelectuais agnósticos, exclamando: “Quão errada é nossa vida! Isto sim que é morrer”, provocando na mente daqueles homens um impacto emocional vendo Maria Antonia morrer, na idade de apenas 21 anos, com a certeza de quem “sabe para onde vai".

     Poucos meses antes, movida por um impulso do Espírito Santo, Irmã Maria Antonia havia oferecido sua vida pela salvação de seu tio, padrinho de batismo, que começou a trilhar um mau caminho. Ele havia manifestado desacordo quando ela entrou no noviciado, por ter uma postura agnóstica. Entretanto, esse tio, entendendo a espiritualidade da sobrinha, num momento de graça voltou ao bom caminho.

     Irmã Maria Antonia faleceu no dia 27 de abril de 1919, em Salamanca, dia da festa de Nossa Senhora de Montserrat, um ano depois de sua profissão.  Ela morreu invocando Maria, Mãe de Misericórdia. Nos últimos instantes, foram-lhe concedidas graças de paz e de consolação. Ela exclamou: “Isto é morrer? Que doce é morrer na vida religiosa! Sinto que a Virgem está a meu lado, que Jesus me ama e eu O amo”...

     Ela foi beatificada em 12 de maio de 1996 juntamente com a Fundadora, Madre Cândida Maria de Jesus. Sua celebração litúrgica é 27 de abril.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

SANTA TERESA DE LOS ANDES, Carmelita Descalça (Padroeira da Juventude da América Latina)


Quais eram os anseios mais profundos de Juanita Fernandez del Solar, essa moça carinhosa e bela, que nos deleita com seu trato afetuoso e alegre? Sua alma, excessivamente pura para ficar no mundo, ansiava se converter em esposa mística de Cristo.



Observe, leitor, a fotografia ao lado de Juanita Fernández del Solar. É uma jovem de 18 anos, nas vésperas de entrar para um austero convento carmelita no qual tomou o nome de Irmã Teresa de Jesus. Viveu santamente nesse convento durante nove meses apenas. Morreu aos 19 anos, como vítima expiatória pelos sacerdotes, por sua família, pela sociedade em que brilhara. E hoje é conhecida e venerada em todo o mundo como Santa Teresa de los Andes.
Numa primeira vista, sua fisionomia agrada. Ela é bela e acolhedora. Em seu rosto, ainda muito jovem, destacam-se luminosamente seus lindos olhos azuis. Embora aristocráticos e altivos, cientes de seu próprio valor, eles não rejeitam quem está diante de si. Pelo contrário, parecem nos acolher, nos introduzir na presença desta jovem, não de uma forma protocolar como quem diz: "Prazer em conhecê-lo", mas envolvendo-nos com um afeto suave e discreto de tal forma que, após alguns segundos contemplando-a, nos sentimos como se ela já fizesse parte de nossa vida.
A fotografia denota uma pureza alcandorada, uma inocência reluzente. Juanita até dá a impressão de que a Providência a tenha limpado do pecado original já nos primeiros instantes de sua vida. Como todas as impressões, estas têm algo de pessoal, mas por certo o efeito que esta fotografia produz em nós tem muito a ver com a jovem por ela representada.


Alma contemplativa

Juanita com aproximadamente 02 anos. 
Primeira santa carmelita latino-americana, Santa Teresa de los Andes nasceu em Santiago do Chile, em 13 de julho de 1900, numa família católica e aristocrática. “Jesus não quis que eu nascesse como Ele, pobre. E nasci no meio das riquezas, mimada por todos” - escreve em seu diário.
Seus biógrafos coincidem em ressaltar que ela era sempre o centro das atenções onde estivesse, pela sua amabilidade, graça e simpatia. Era alegre e comunicativa, mas também séria e de um temperamento enérgico.
Suas brincadeiras eram animadas e entusiasmadas. À sua casa acorriam muitos parentes e amigos. Uma tarde anunciou a todos os seus irmãozinhos e primos que presenciariam algo nunca visto por olhos humanos. Eles teriam o privilégio de assistir à Assunção da Santíssima Virgem. Os meninos se puseram diante de uma mesa sobre a qual estava uma imagem de porcelana da Virgem Maria, com uma coroa de metal. Juanita escondeu-se atrás de um biombo e "magicamente" a imagem começou a subir, ante a admiração dos pequenos, até desaparecer por trás de um cortinado. O "milagre" tinha sido operado por Juanita por meio de um delgado fio amarrado na coroa da imagem.
Quando se tratava de brincar, era a primeira de todas, a mais animada, a mais alegre, a mais ativa. Na fazenda Chacabuco, de seus pais, andava a cavalo montada de lado como uma grande dama. Era difícil ultrapassá-la nos passeios a galope com seus irmãos e primos. Nas férias, no balneário de Algarrobo, perto de Valparaíso - num ambiente de pudor e compostura hoje difícil de imaginar - era ela uma ousada nadadora. Jogava tênis. Fazia caminhada com as amigas.
Juanita em sua Primeira Comunhão
Mas sobretudo contemplava. Em carta a uma amiga, escrevia: “Não podes imaginar paisagens mais bonitas que as que víamos... colinas cobertas de árvores e no fundo uma abertura onde se via o mar, sobre o qual se refletiam nuvens de diversas cores. E, por trás, o sol ocultando-se. Não podes imaginar coisa mais bela, que faz pensar em Deus, que criou a terra tão formosa. Que será o Céu? - pergunto-me muitas vezes”.
E à Madre Priora do Carmelo que a iria acolher, contava: “O mar, em sua imensidade, me faz pensar em Deus, na sua infinita grandeza. Sinto então uma sede do infinito”.  Estando já no Carmelo, e sabendo que sua mãe passaria férias de novo na mesma praia, lhe escrevia: “Cada vez que a senhora olhar o mar, ame a Deus por mim, mãezinha querida”.


Teresa de los Andes (a primeira, à esquerda, sentada)
 com um grupo de jovens (amigos e parentes seus) 


Festejada por todos

Suas companheiras de aula a descrevem como sendo uma moça alegre e amável, suave no trato, de maneiras muito finas, firme e constante na ação. Entretida e divertida por seu caráter alegre e sem complicações. Muito bonita, com belos olhos azuis, nariz bem cortado, tez branca, bastante alta. Todas a festejavam. Tinha uma bela voz de contralto e sempre lhe pediam que cantasse.
Durante as férias na fazenda, muito cedo se dirigia à capela para saudar o Senhor Sacramentado e tocar o harmônio como forma de oração. Durante as tardes, após o rosário em família, pediam-lhe para tocar também o harmônio, o que ela fazia com encanto de todos, mas sobretudo de Deus. Escrevia muito bem, e no colégio obtinha as melhores notas em literatura, história, religião e filosofia. Suas colegas sempre procuravam sua companhia e a chamavam carinhosamente de Mater admirabilis.



O afeto e o carinho familiar que uma sociedade perdeu

Teresa de los Andes com sua irmã,
Rebeca, que um dia também será
carmelita descalça. 
Na vida hostil, impura e materialista de nossos dias, é difícil entender o que era o afeto existente nas famílias católicas, há poucas décadas. Vejamos, a título de amostra, alguns trechos de uma carta que Juanita escreveu a seu pai, o qual ficara no campo trabalhando, enquanto a família passava férias de verão no balneário de Algarrobo. Depois de narrar-lhe belos passeios e exercícios de natação, Juanita manifesta a seu pai seu filial carinho: "Como o senhor vê, paizinho, não falta mais que o senhor para sermos felizes. Enquanto nós nos divertimos aqui, o senhor está trabalhando, de sol a sol, para nos proporcionar comodidade. Não temos, paizinho, meio de lhe pagar, pois é grande demais seu sacrifício. Mas nós, seus filhos, compreendemo-lo e o enchemos de carinho e cuidados, pois achamos que esta é a melhor maneira de agradecer a um pai. Por que não vem aqui pelo menos por uns dias? Não sabe a tristeza que me dá quando vejo as outras meninas felizes com seus papais. Por favor, venha, pois nós o temos tão pouco durante o ano!"
Em outra carta, assim se despede do pai: "Receba, paizinho, abraços e beijos de mamãe e de meus irmãos, mais mil beijos e carinhos desta sua filha que mais lhe quer e que se lembra a cada momento de seu paizinho querido.”.
O Pai, por sua vez, mostra a reciprocidade do afeto, numa carta escrita depois de a ter autorizado a entrar no Carmelo:

“Minha filhinha querida, recebi as duas cartas pelo que muito te agradeço, embora me façam tanto sofrer, ao pensar que quem me escreve e que me toca desta forma a alma vai se separar de mim para sempre. Mas o sacrifício está feito e eu o ofereci a Deus para que me perdoe por aquilo em que eu O tenha ofendido na minha vida. E como o sacrifício é tão grande, Ele o vê e o terá em conta. Minha querida filhinha, não sabes o bem tão grande que tuas cartas me fazem, não só agora, mas antes mesmo de tua resolução, porque via nelas tanto carinho e ternura. Elas me deram nova vida e desejo de trabalhar por teus irmãos (...) Feliz, tu, mil vezes, minha filhinha, que te consideras feliz e sentes essa paz de alma que tão poucos podem sentir e que há tanto tempo foge de mim. Só desfruto algo dela depois das férias que passamos juntos na intimidade (...) Não creias em nenhum momento, minha querida filhinha, que me tenha arrependido de haver-te dado meu consentimento. Muito pelo contrário. Pois creio que as preces de uma alma tão pura como a tua serão ouvidas por Deus, e elas me acompanharão o resto de minha vida e serão meu melhor refúgio para me preservar dos muitos perigos. E não te esqueças jamais que meu pensamento te acompanhará noite e dia (...) Que Deus me mande todas as provas e sofrimentos e os afaste de ti. Não te canses, minha filhinha, de continuar pedindo por teu pobre papai... Para ti, um milhão (de beijos e abraços) de teu pai que não te esquece um instante”.

Única foto de Teresa como noviça, vestida
com o hábito das noviças. Alguém deve
ter conseguido essa foto em um momento
de distração da superiora e da santa. 
As graças místicas iluminaram toda a sua vida

Aos dez anos a pequena Juanita fez sua Primeira Comunhão. Desde então, como ela revelou a seu confessor, o padre Antônio Falgueras, SJ, “Nosso Senhor me falava depois de comungar; dizia-me coisas das quais eu não suspeitava. E quando eu Lhe perguntava, me revelava coisas que iam suceder e que de fato aconteciam. Mas eu achava que ocorria o mesmo com todas as pessoas que comungavam”.

Em carta a seu pai, pedindo permissão para ser carmelita, narra: “Desde pequena amei muito a Santíssima Virgem, a quem confiava todos os meus assuntos. Só com Ela me desafogava. Ela correspondeu a esse carinho; protegia-me, e escutava sempre o que eu lhe pedia. E Ela me ensinou a amar Nosso Senhor (...) Um dia (...) ouvi a voz do Sagrado Coração que me pedia que eu fosse toda d'Ele. Não creio que isso tenha sido uma ilusão, porque nesse mesmo instante me vi transformada: aquela que procurava o amor das criaturas, não desejou senão o de Deus”.

Já no Carmelo de Los Andes, escreve ao Padre Colom, SJ: “Também Nosso Senhor se apresenta a mim, às vezes, interiormente e me fala. Durante aproximadamente uma semana, vi-O na agonia, mas de uma maneira tal como jamais teria sonhado. Sofri muito, porque essa imagem me aparecia constantemente e me pedia que O consolasse. Depois foi o Sagrado Coração, no tabernáculo, com o rosto muito triste. E, por último, no dia do Sagrado Coração, apresentou-Se a mim com uma ternura e beleza tal que minha alma se abrasava em seu amor”.


Foto de Teresa, vestida como monja, antes de entrar
para o Carmelo. No seu tempo, era proibido tirar foto
das monjas carmelitas descalças. A candidata se vestia
de monja e a família tirava uma foto da moça para ter
a foto como recordação sua. 
Escrava de Maria, grandes provações

A jovem Juanita ingressou no convento de Los Andes no dia 7 de maio de 1919, tomando o nome de Irmã Teresa de Jesus. Recebeu o hábito de noviça em 14 de outubro do mesmo ano. No dia 8 de dezembro, consagrou-se como escrava de Maria, segundo o método ensinado por São Luís Grignion de Montfort. Doravante, seus atos e sacrifícios seriam todos para Nossa Senhora. “Combinei com a Santíssima Virgem que Ela passasse a ser meu sacerdote, que me oferecesse a cada momento pelos pecadores e pelos sacerdotes, mas banhada com o sangue do Coração de Jesus”...  - escreveu.

No curto tempo passado por Juanita no convento, sua superiora, com um extraordinário senso das almas, determinou que continuasse seu apostolado por meio de cartas à sua família e às suas amigas. Os resultados não se fizeram esperar. Sua mãe se fez terciária carmelita. Sua irmã menor, Rebeca, ingressou no mesmo convento, meses após a morte da Irmã Teresa. Várias de suas amigas, moças da melhor sociedade, tinham por ela tal estima e admiração que decidiram também consagrar suas vidas a Jesus, no Carmelo ou em outros institutos religiosos. Atravessando crises e ambientes adversos, perduram até hoje os efeitos de seu bom exemplo, atraindo muitas jovens para a vida contemplativa e para as atividades de apostolado leigo na sociedade.
No dia 1º de abril de 1920, a Irmã Teresa adoeceu gravemente. Ante a iminência de sua morte, e dada a santidade de sua vida, a superiora permitiu que fizesse os votos de carmelita professa e Esposa de Cristo, in articulo mortis, no dia 07 desse mês.
Mas estavam por vir as grandes provações espirituais que uma vítima expiatória costuma receber. Quis Deus que ela, como outros santos, sofresse a terrível sensação de ter sido não só abandonada mas condenada por Ele. Assim, ardendo em febre, fazia esforços para retirar seu escapulário e afastar os objetos de piedade que a rodeavam. Num tom de voz acabrunhador, exclamou: “Nunca pensei que a Santíssima Virgem fosse me abandonar”! Depois de certo tempo de luta terrível, foi-se acalmando aos poucos, até que num momento disse sorrindo, como se tivesse uma visão: “Meu esposo”! ... Morreu suavemente três dias depois, em 12 de abril de 1920.

O santo corpo de Teresa de los Andes
sendo velado. Observem a serenidade do rosto 
De forma inesperada, o povo da cidade de Los Andes acorreu em grande número ao velório dessa até então desconhecida freira, que vivera apenas onze meses no Carmelo. Todos pediam para tocar seus objetos de piedade no corpo da "santa", todos recebiam graças de paz, de benquerença, de afervoramento e de piedade.

Em 3 de abril de 1987, S.S. João Paulo II beatificou a Irmã Teresa. Sua fama de santidade cresceu de forma impressionante no Chile e em todo o mundo, sem que ninguém se preocupasse em difundi-la. Por fim, o mesmo Papa a canonizou, no dia 21 de março de 1993. Um imponente santuário foi construído em sua honra, tendo como fundo de quadro uma grandiosa vista da Cordilheira dos Andes.

(Revista Arautos do Evangelho, Fev/2003, n. 14 e Março/2003, n. 15)


Foto do painel de sua canonização


Santuário de Santa Teresa de Los Andes, no
Carmelo onde passou seus últimos meses de vida. 


Túmulo de Teresa de Los Andes


Rebeca, irmã de Teresa de Los Andes, que
que também se tornou carmelita descalça.

domingo, 20 de abril de 2014

Beata Clara Bosatta, Virgem da Congregação das Filhas de Santa Maria da Providência


No dia 27 de maio de 1858, em Pianello Lario (Como, Itália), nasceu a última dos 11 filhos de Alexandre e Rosa Mazzuchi. Deram-lhe o nome de Dina.
     Aos três anos ficou órfã de pai, um pequeno industrial da seda. A menina foi educada pela irmã mais velha, Marcelina, e desde cedo aprendeu a arte de fiar. Mas, Marcelina, jovem piedosíssima, que sob a orientação do Beato Luís Guanella, será cofundadora do Instituto das Filhas de Santa Maria da Providência, convenceu os irmãos a enviá-la ao Instituto das Irmãs Canossianas de Gravedona para que continuasse os estudos, prestando ao mesmo tempo serviços domésticos.
     Ali permaneceu por seis anos, que a marcaram profundamente. Dina admirava a vida das Irmãs, impregnou-se de seu espírito, viveu dias de intensa piedade. Acreditava ser chamada para a vida religiosa, conforme o programa de Santa Madalena de Canossa, que proclamava: "Deus só!" Devido, entretanto, ao seu caráter tímido e reservado, inclinado ao silêncio e à contemplação, mais do que a ação, foi considerada inapta para aquele Instituto e voltou para a família.
     Entrementes, em Pianello Lario, o pároco, Padre Carlos Coppini, havia agrupado jovens numa Pia União de Filhas de Maria, sob a proteção de Santa Úrsula e Santa Ângela Merici (10 de julho de 1871), e Marcelina se tornara superiora da obra. Com algumas daquelas jovens foi possível ao pároco inaugurar, em outubro de 1873, um providencial albergue para velhos e crianças abandonadas.
     Regressando a terra natal, o pároco aconselhou Dina a ingressar no albergue. Ela o fez sem muito entusiasmo, pois aquela piedosa casa, que ela não conhecia muito, lhe parecia imersa em uma grande atividade com as crianças, os anciãos e na ajuda aos necessitados da região, enquanto ela preferia uma casa toda dedicada à oração e à contemplação. Mas, em 27 de outubro de 1878 ela emitiu a profissão religiosa, tomando o nome de Clara.
     Em julho de 1881, o pároco faleceu, vindo substitui-lo o Beato Luís Guanella, que passou a dirigir as religiosas de que fazia parte Clara Bosatta.
     No ano escolar 1881-82 Clara completou a preparação para diplomar-se professora do curso elementar, sem poder prestar os exames. Foram-lhe confiadas as mais variadas tarefas, entre as quais a de Mestra de Noviças. Dedicou-se a educação das órfãs com maternal solicitude.
     O Beato Luís Guanella se dedicou em transformar a Pia União das Ursulinas em uma congregação com o título de Filhas de Santa Maria da Providência. Dedicava-se também à formação das religiosas e foi diretor espiritual de Irmã Clara, guiando-a na via da contemplação mais alta, especialmente da Paixão de Cristo, e fazendo que ela se empenhasse no serviço da caridade com os necessitados.
     Irmã Clara portou-se sempre com humildade, dedicação e abnegação até o heroísmo. Além do intenso trabalho no albergue, ajudava na paróquia ensinando catecismo a crianças e adolescentes, e visitava os doentes em suas casas.
     Em 1885, o Padre Lourenço Guanella, irmão do Beato Luís Guanella, pediu que as Irmãs Marcelina e Clara, com mais uma Irmã, abrissem uma nova casa em Ardenno. Não lhes faltaram trabalhos e sérias dificuldades. Foi uma experiência que preparou Irmã Clara para uma nova tarefa: em maio do ano seguinte, foi-lhe confiada a direção da Casa da Divina Providência, que se tornaria a casa-mãe da obra do Beato Luís Guanella.
     Irmã Clara tornou-se logo o centro propulsor e amoroso daquela casa: das Irmãs, das postulantes, dos hóspedes, dos anciãos necessitados, das jovens operárias na cidade. De saúde delicada, ela trabalhou até ao esgotamento. No outono de 1886 adoeceu dos pulmões. Esperando que o ar da terra natal pudesse ajudá-la, transportaram-na para Pianello, onde faleceu no dia 20 de abril de 1887.

     O próprio Beato Guanella promoveu a abertura da causa de sua beatificação. O processo informativo foi aberto em Como no ano de 1912. Foi beatificada em 21 de abril de 1991. Seu corpo é venerado no Santuário do Sagrado Coração de Como, ao lado do Beato Luís Guanella.