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quarta-feira, 14 de maio de 2014

SÃO BARTOLO LONGO, Leigo e Fundador: grande apóstolo da devoção a Nossa Senhora do Rosário.


São Bartolo Longo: de devoto do demônio a apóstolo do Rosário.

Um dos poucos casos em que um simples leigo é fundador de uma comunidade religiosa, ele legou à Igreja uma obra grandiosa. O Papa São João Paulo II o qualificou de "verdadeiro apóstolo do Rosário".


Numa manhã de outubro de 1872, um homem ainda jovem, profundamente preocupado, passeia pelos arredores de Pompéia. Nada lhe importam as históricas ruínas da cidade sepultada pela erupção do Vesúvio no ano de 79. Uma dúvida o atormenta: “Depois de uma vida péssima, arrependi-me e encetei o caminho da conversão. Mas... conseguirei salvar minha alma”?
Em determinado momento, uma voz interior lhe fala no fundo da alma: “Se queres salvar-te, propague a devoção do Rosário. É uma promessa da Virgem Maria”.
Num sobressalto de júbilo, ele levanta o rosto e as mãos para o Céu e brada: “Ó Maria, se é verdade que prometeste a São Domingos que quem difunde o Rosário se salva, eu me salvarei, porque não sairei desta terra de Pompéia sem ter aqui propagado essa santa devoção”.
Nesse instante soa o velho sino da igreja próxima, para o Ângelus de meio dia. O homem ajoelha-se, reza e chora. Chora de alegria, pois compreende que a Rainha dos Apóstolos acabava de lhe dar uma grande missão.
No coração de Bartolo (pronuncia-se “bártolo”) Longo estava plantada a semente do futuro Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, centro internacional de irradiação dessa devoção mariana, e sede de várias obras de beneficência e de formação da juventude.


Vivacidade, inteligência e piedade

São Bartolo Longo nasceu em 10 de fevereiro de 1841, em Latiano (Itália), e foi batizado três dias depois. Sua infância decorreu piedosa e feliz. Desde tenra idade, manifestou-se muito inteligente, de caráter ardente e decidido. Ele mesmo se definiu como “um menino vivaz, impertinente e quase travesso”. Sabia imitar na perfeição os gestos, os sotaques e outras características das pessoas que conhecia.

A par disso, dava mostras de verdadeira piedade. Ouvindo tocar o sino anunciando a hora do Ângelus, interrompia imediatamente qualquer brinquedo e corria para rezá-lo junto de sua mãe. Quando fez a Primeira Comunhão, ficou imóvel durante uma hora e meia, agradecendo essa graça inapreciável. Uma pessoa indiscreta quis interrompê-lo e recebeu esta resposta: “A ação de graças a Jesus, que chega pela primeira vez, deve ser bem feita”!


Deixou de rezar... rolou no extremo do mal

Com todas essas qualidades, concluiu de forma brilhante seus estudos primários e secundários, recebendo aos 17 anos o diploma que o credenciava ao curso superior.
Todavia, nele se realçava, sobretudo, o temperamento apaixonado. Bartolo não era homem de meios-termos. Sua estrutura psíquica o conduziria ou ao extremo do bem, ou ao do mal.
Decidiu estudar direito em Nápoles. Longe de ser propícia à fé católica, a época era de negação e até mesmo de luta aberta contra a Santa Igreja. O racionalismo e o anticlericalismo faziam devastações no meio da juventude. Professores ímpios usavam as cátedras universitárias para difundir filosofias ateias.


Nessa conjuntura, Bartolo dedicou-se com ardor aos estudos, às diversões, à música (tocava piano). Inteligente, elegante e de boas maneiras, vivia cercado de muitos amigos.
Não lhe sobrava tempo para a oração... Deus, a Virgem Maria, foram-se apagando até desaparecer de sua memória. Quando terminou seu curso de Direito, em 1864, estava inteiramente desorientado pelas teorias filosóficas do materialismo e do racionalismo.
Não parou aí. A perda da fé na divindade de Jesus criou em sua alma um vazio que ele procurou preencher recorrendo ao espiritismo. Extremista por natureza, tornou-se inimigo acirrado da Santa Igreja. Pronunciava conferências anticlericais e organizava manifestações públicas contra a religião.
Tal era seu ódio que decidiu fazer-se "sacerdote" do espiritismo e submeteu-se a um duro regime de jejuns e mortificações corporais, com o objetivo de fazer uma consagração radical ao demônio.


Uma Confissão bem feita

Entretanto, por paradoxal que seja, durante todo esse negro período o jovem Bartolo não cessou de rezar o Rosário e, fato mais extraordinário ainda, conservou a virtude da castidade.
Se falsos amigos o arrastaram à perda da Fé, amigos autênticos foram instrumentos da Providência para reconduzi-lo à Casa Paterna.
Um destes, o Prof. Vincenzo Pepe – que Bartolo qualifica como “o amigo de minha alma, que o Senhor pôs a meu lado em todos os momentos críticos e decisivos de minha vida” – não hesitou em, numa hora oportuna, admoestar severamente o jovem advogado por sua péssima vida.
Fecundada pela graça, essa advertência surtiu efeito. Bartolo decidiu procurar o confessionário para se reconciliar com Deus. Dirigiu-se à Igreja do Rosário, em Nápoles, onde foi atendido pelo Pe. Alberto Radente, religioso dominicano. Era dia da festa do Sagrado Coração de Jesus, em 1865.
O ex-inimigo da Igreja confessou-se com profundo arrependimento. O Pe. Radente ficou maravilhado ante o poder da graça nessa alma, mas só lhe deu a absolvição depois de um mês de encontros para direção espiritual. São Bartolo pôde, então, receber a Sagrada Eucaristia. Em seus escritos, ele contará depois: “Foi como fazer de novo a Primeira Comunhão, foi como se eu tivesse recebido um segundo Batismo”!
Em 25 Março de 1871, São Bartolo Longo entrou para a Terceira Ordem Dominicana, pelo Padre Radente, ocasião em que foi dado o nome de “irmão Rosário”, por causa de seu grande amor pelo Rosário e à Virgem Maria.



Inicia-se a grande missão

São Bartolo Longo – homem de decisões radicais, como já foi dito – recusou vantajosas propostas de casamento, abandonou a carreira advocatícia e se dedicou às obras de caridade e ao estudo da Religião.
Tornou-se, com isso, alvo de grosseiras chacotas daqueles mesmos que antes aplaudiam e estimulavam suas atividades antirreligiosas. Mas elas produziram como único resultado um ato de reparação: “Devo reparar pelos meus pecados”, dizia o convertido.
Bartolo deseja fazer algo para corrigir os erros do passado e começou a pregar contra o ocultismo em locais onde os estudantes frequentavam. Vendo a terrível pobreza ele queria de algum modo ajudar, e teve a inspiração de que o Rosário seria a chave.
Sofrendo com o mal que tinha feito quando fazia parte do culto, Bartolo tentou reparar o terrível dano que fez às almas daqueles que ele tinha encontrado e convencido a levar uma vida diabólica.
São Bartolo Longo ainda visitou uma sessão espírita e, erguendo a medalha da Virgem Maria, gritou: “eu renuncio o espiritismo porque não é nada senão um labirinto de erro e falsidade”.
Lembrando aonde ele foi exposto pela primeira vez a esses pensamentos perigosos e mortais, ele foi para as universidades!
Juntou-se aos jovens em festas e se se misturou com eles nos cafés, partilhando como ele tinha sido levado a deixar tudo o que lhe era querido – Jesus Cristo e a Igreja Católica.
Da mesma forma brilhante que ele arrastou muitos estudantes inocentes para longe da Verdade, ele levou muitos de volta ao Lar de Jesus e da Igreja.
... Eles eram fascinados por suas palavras e testemunho, e muitas conversões surgiram. Mas ele não estava satisfeito, ele queria fazer mais, tocar muitos – por Jesus e por Maria. O padre Radente aconselhou: “Se você está procurando por salvação, propague o Rosário. É a promessa de Maria. Aquele que propaga o Rosário será salvo.”
Algum tempo depois, travou relações com uma nobre dama napolitana, Santa Catarina Volpicelli, fundadora das Servas do Sagrado Coração de Jesus. Esta o pôs em contato com outras pessoas de grande fervor, entre as quais a Condessa Mariana Fonseca, viúva do Conde de Fusco, proprietária de terras no Vale de Pompéia.
Por esse meio, a Virgem Maria o foi conduzindo para a realização da grande missão para a qual o havia escolhido. Em 1872 a Condessa de Fusco confiou-lhe a administração de suas propriedades nos arredores de Pompéia. Lá chegando, ele ficou profundamente chocado ante a miséria humana e religiosa dos pobres camponeses da região. Nada havia ali, a não ser uma pequena igreja, já muito arruinada e tão pobre que não tinha uma imagem sequer.
Sem tardança, dedicou-se à tarefa nobre e humilde de lhes ensinar o Catecismo, e à divulgação do Santo Rosário. Era a reconquista espiritual do Vale de Pompéia que se iniciava.
Bartolo e Mariana, a viúva do Conde di Fusco, construíram outras obras de caridade e instituições que se tornaram a Cidade da Caridade ou a "Cidade de Maria".

Ele fundou uma escola para os Filhos dos Prisioneiros, crianças cujos pais estavam na prisão, e a colocou sob a direção dos Irmãos das Escolas Cristãs, também fundada por ele. O sucesso da escola foi tal que, em 1922 ele fundou outra Escola de Moças, para as filhas de criminosos.
Como Bartolo e Mariana trabalharam muito tempo juntos, havia várias especulações que os dois estariam envolvidos romanticamente. Para prevenir que o bom trabalho deles fosse manchado pelas especulações eles se casaram em abril de 1885, mas viveram juntos como irmãos, em celibato, guardando os votos de castidade.
Entretanto isto não foi o bastante para alguns e no início do século XX ele foi acusado de adultério, corrupção, desonestidade e até mesmo de insanidade. Em 1906 o Papa Pio IX pediu a São Bartolo que se retirasse da direção da "Cidade" a bem da mesma e ele assim o fez, passando a direção para o papado e passou a ser um simples empregado comum da Cidade de Maria.
Mais tarde, em 1925 ele recebeu o titulo de “Cavaleiro da Guarda do Santo Sepulcro”.



Uma obra grandiosa

 
Cresceu o número dos fiéis, a igrejinha tornou-se insuficiente, tornara-se necessário construir uma maior e mais acolhedora. Por sugestão do Bispo de Nola, a cuja diocese pertencia Pompéia, Bartolo Longo começou uma campanha de coleta de contribuições. A pedra fundamental foi colocada em maio de 1876.
Choveram as doações, inicialmente de várias cidades italianas, depois, de quase todas as partes do mundo, deixando espantado até mesmo o São Bartolo. Nos arquivos do Santuário, conservam-se cinco volumes com quatro milhões de nomes de doadores!
Em 1894, ainda faltando alguns arremates de construção, o templo foi consagrado. Com o aumento constante do número de peregrinos, foi ampliado alguns anos depois.
Fruto da fé e da caridade de um santo, e das contribuições de milhões de fiéis, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, tornou-se um foco de irradiação da devoção mariana.
Quando, em 05 de outubro de 1926, com 85 anos de idade, faleceu São Bartolo Longo, vítima de uma pneumonia, sua obra tinha já atingido proporções grandiosas. O Santuário tornara-se um centro internacional de propagação do Rosário, e fora elevado à categoria de Basílica Pontifícia, para onde os peregrinos acorriam aos milhões. E em torno dele estava construída uma cidade mariana, com numerosos institutos de beneficência.
São Bartolo Longo é um dos poucos casos na história da Igreja em que um simples leigo é o fundador de uma comunidade religiosa. Em 1897 ele fundou as Filhas do Rosário de Pompéia, sujeitas à regra da Ordem Terceira de São Domingos, para dedicar-se ao cuidado dos meninos e das jovens. E perto já de terminar sua carreira nesta terra, fundou em 1922 o Instituto Feminino Sagrado Coração.

Na cripta do Santuário pode ser visto o corpo do Santo, posto numa urna de vidro, revestido da capa dos Cavaleiros de Malta.

No dia 19 de outubro de 2025, domingo, na Praça de São Pedro, foi solenemente canonizado por Sua Santidade o Papa Leão XIV, junto com outros seis beatos (agora Santos e Santas para toda a Igreja Católica). 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Serva de Deus TERESA NEUMANN, Mística e Estigmatizada (muito famosa em sua época)

Teresa Neumann
Teresa Neumann (em alemão, pronuncia-se: "nóiman") nasceu em Konnersereuth, Baviera, em 09 de abril de 1898. Até a sua morte em 1962, aconteceram em sua vida, surpreendentes fenômenos como os estigmas (misteriosas chagas nos pés, mãos e costas). Chagas resistentes a todas as curas possíveis, que se abriam todas as quintas feiras. Também outros fenômenos maravilhosos como o conhecimento dos segredos do coração e a bilocação. Porém, o mais extraordinário de todos, era o fenômeno eucarístico: durante 32 anos nada comeu nada bebeu, pesando sempre 55 kg e isto apesar de perder a cada ano, através de suas feridas, cinco litros de sangue. Sua força estava na comunhão diária.
 A partir do Natal de 1922, deixou de se alimentar com alimentos sólidos e depois do Natal de 1926, abandonou os líquidos. Apenas um pequeno gole por dia, para melhor engolir a Sagrada Hóstia.
 No dia 30 de setembro de 1927, aniversário de morte de Santa Teresinha do Menino Jesus, recebeu a visita da santa que diz a Teresa: “De agora em diante não necessitarás de nenhum alimento terrestre”.

Teresa era uma simples "campesina", isto é,
uma pobre "moça do campo", pobre e inculta.
Daquele momento até sua morte em 1962, nunca mais comeu ou bebeu nada. Cessaram também, por completo, as necessidades físico-biológicas de um corpo humano. No início, tentaram alimentá-la à força, porém, ela vomitava tudo que lhe davam. Os médicos mais famosos da época controlaram seu jejum e tentaram explicações, mas se renderam a evidência do sobrenatural.
 Dr. Ludovico Kannmüller, de Passavia, escreveu no jornal "Del Danubio":” A ciência não pode explicar o jejum da estigmatizada de Konnersereuth.”.
Dr. Weissel, médico de Berlim, interrogou Teresa  a fim de conseguir explicar algo, porém, diante da afirmação dela que não sentia nenhum apetite e nem vontade de comer nada, perguntou: como se explica? E ela concluiu: é a vontade de Deus. Só a Comunhão Eucarística me basta.
Teresa era uma pessoa muito simples, feliz e
simpática, apesar dos sofrimentos atrozes.
O Bispo de Ratisbona acompanhava Teresa e a submeteu a uns rigorosos controles. Durante quinze dias, esteve internada numa clínica sob os olhares vigilantes de quatro pessoas que a vigiavam, sob a orientação de Dr. Seidl Waldsassen. Revistaram tudo quanto onde ficaria. Minuciosamente era pesada na balança, constantemente. O controle deu resultado e o bispo publicou o resultado no jornal da Diocese. Não obstante tão extremo rigor, Teresa não ficava fraca e nem doente; ao contrário, seu corpo tinha força e vigor que a permitiam realizar normalmente os serviços caseiros, e atender os visitantes.
Durante o tempo em que as Sagradas Espécies permaneciam em seu corpo, Teresa estava ótima, mas, se ultrapassasse 24 horas sem comungar, perdia as forças e parecia que chegava ao fim da vida. Apenas comungava e as forças voltavam. 

Abaixo, alguns momentos nos quais Teresa vertia sangue em abundância pelos estigmas (mãos, corpo e face) e até pelos olhos (lágrimas de sangue):










Teresa passava por temporadas de fortes sofrimentos e ela tudo aceitava pela conversão dos pecadores.
Certa vez, encontrava-se longe de sua casa, era noite e se sentia mal por causa dos sofrimentos expiatórios; os presentes temiam por sua vida e o sacerdote pensava que seria melhor dar-lhe a Comunhão. Perto da casa onde estava, havia uma pequena capela particular onde estava guardada uma Sagrada Partícula, com a intenção de Teresa comungar no dia seguinte. Em seu leito de dor, Teresa tinha um desejo ardente de receber Jesus. Sem que fosse necessário o sacerdote, Jesus passou do Sacrário para o coração da enferma. Quando Teresa disse ao sacerdote no dia seguinte que havia comungado, este correu para a Capela, porém, não encontrou a Hóstia lá. Numerosos presentes testemunharam este fato.
Outros fenômenos aconteciam com Teresa Neumann que geralmente eram acompanhados do ato de receber a Comunhão. Às vezes recebia o sacramento em  êxtase e nestas ocasiões, quando a Hóstia era depositada em sua língua, desaparecia instantaneamente. Padre Fahsel atesta ao desaparecimento da Hóstia desta maneira, o que foi confirmado por outros sacerdotes. Padre Fahsel atesta que não havia o menor movimento de deglutição por parte de Teresa. Só quando  não estava em êxtase é que se podia ver o movimento da deglutição. Em Teresa Neumann a duração da Sagrada Eucaristia demorava, às vezes, 24 horas ou mais. Esta duração era menor quando ela pedia a Deus sofrimentos especiais, pela conversão de alguém. Apenas cessava a prece, seu corpo entrava em sofrimentos. Isto era observado nas quintas feiras santas quando os fiéis não podiam comungar, a Eucaristia demorava 48 horas em Teresa para ser dissolvida. Foram muitas as pessoas que a visitaram: muitos acreditavam, outros incrédulos, porém, todos ficavam admirados diante destes fatos.
Corpo de Teresa Neumann em suas exéquias. 

 O Papa Pio XII pediu ao famoso Dr. Padre Gemelli, Reitor magnífico da Universidade Católica de Milão, que observasse Teresa, ao que o sábio sacerdote concluiu:
“Aqui está à mão de Deus."



Nota do publicador do blog:
A Serva de Deus Teresa Neumann foi muito famosa em sua época. Muita gente aqui no Brasil pôs o nome de suas filhas de "Teresa Neuma", "Teresa Nilma" ou "Teresa Norma", em homenagem a essa mística alemã, talvez mesmo sem conhecer direito sua história. O que se sabia, naquela época, é que era uma pessoa que havia recebido as “chagas de Cristo” e isso bastava.
Uma coisa que pouca gente sabe é que quando um (a) pretenso (a) candidato (a) aos altares tenha sido um (a) “estigmatizado (a)” ao invés de ajudar, isso muito "atrapalha" no processo de beatificação do (a) mesmo (a). Isso porque tais indivíduos quase sempre foram e são alvo de críticas, desconfianças ou até mesmo calúnias durante suas vidas e até mesmo após sua morte. Como a Sagrada Congregação Para a Causa dos Santos é muito prudente, ela sempre averigua com bastante cuidado a vida da pessoa e se seus estigmas eram legítimos e não fruto de uma fraude. Além disso, ela estuda como o (a) candidato (a) se “comportava” com o fato de ter estigmas: se era uma pessoa simples, humilde e até mesmo “envergonhada” por ter estigmas e não uma pessoa que se “orgulhava” disso. Não é nada fácil para a Igreja decidir uma causa de um santo. Muita gente acha que a Igreja “cria” santos ou os “inventa”. Nada disso! Nos anos e anos de duração de um processo, a Igreja estuda, reestuda, avalia, reavalia, pesquisa, interroga e coloca o máximo de esforço para realmente ter certeza das virtudes do (a) candidato (a); e tem que ser virtudes HERÓICAS!
Além do mais, ainda tem o caso dos (as) candidatos (as) que foram grandes místicos e almas vítimas.  Geralmente, como foram pessoas que salvaram muitas almas através de suas orações e sofrimentos atrozes, vivendo humildes e escondidas, satanás e seus demônios tem um especial ódio dessas almas. Assim, o que eles puderem fazer para atrapalhar o processo de beatificação/canonização irão fazer, não tenham dúvida.

É por isso que às vezes a gente não entende como tem muita gente verdadeiramente santa que está “na fila” do processo e de lá não sai há anos, décadas e, às vezes, séculos! Rezemos e aguardemos que as “barreiras” no processo desta grande mística possam ser superadas e, se as mesmas forem fruto de artimanhas diabólicas, que sejam plenamente dispersas pela Providência divina. Claro que tudo que acontece é permissão de Deus. Ele sabe o tempo certo para tudo. Amém. 

domingo, 11 de maio de 2014

Beata Maria Assunta Marchetti, Virgem e Missionária Scalabriniana no Brasil - memória em 01 de julho.

Em carta enviada pelo secretário de Estado do Vaticano, Monsenhor Angelo Becciu, será realizado no dia 25 de outubro de 2014, em São Paulo o Rito de Beatificação de Madre Assunta.


A Superiora Geral, Irmã Neusa de Fátima Mariano, relatou o significado desta notícia para a Congregação. “Acolhemos esta notícia com grande alegria e júbilo, pois é uma graça para a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo (Scalabrinianas). Acreditamos que a Beatificação será portadora de muitos frutos de santidade e de renovação espiritual para todos os membros do Instituto e ao mesmo tempo em que é portadora de novo vigor na vivência de nossa consagração religiosa no serviço aos migrantes” disse.

Para Irmã Neusa, esta Celebração será um momento de visibilidade à presença compassiva das missionárias junto aos migrantes a exemplo da Serva de Deus.  Além de ressaltar a santidade de vida e coragem missionária de Madre Assunta, é perceber como as Irmãs Missionárias Scalabrinianas encarnam no dia a dia, o projeto missionário do Bem-aventurado Dom João Batista Scalabrini, fundador da Congregação, o qual nos interpela a continuar com ousadia, fidelidade criativa, profecia e esperança a missão que recebemos como herança carismática, em meio aos migrantes, nos vários desafios da mobilidade humana.

Na cidade de Camaiore-Itália, onde Madre Assunta nasceu e viveu até a juventude, a notícia teve grande repercussão. Ao tomar em conhecimento da beatificação por meio dos jornais, a população organizou imediatamente junto ao pároco de Camaiore, um coro em homenagem à Serva de Deus.

“As pessoas aqui em Camaiore receberam a notícia da beatificação lendo os jornais e através do pároco, que, do altar, contou aos fiéis. Foi fundado um coral composto de muitas pessoas, das mais variadas idades que cantam nas missas. O coral foi intitulado ‘Coral de Madre Assunta’. A beatificação dela é uma grande alegria para nós e para a comunidade de Camaiore, que precisa de um exemplo assim tão lindo”, disse em entrevista a jovem e educadora infantil, em Camaiore, Beatrice Marchetti, 24, cuja avó,senhora  Osvalda Tabarrani ajudou a fundar o museu de Madre Assunta naquela cidade, e diz ter recebido um milagre por intercessão da beata.

Ao receber um grupo de Irmãs brasileiras em Camaiore, no mês de maio de 2013, a senhora Osvalda concedeu esta entrevista naqual ela conta a sua experiência de fé com Madre Assunta Marchetti.


Para a sobrinha, a santidade da tia não é novidade

A sobrinha, filha caçula da irmã mais nova de Madre Assunta, residente no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, capital, Marta Maria Luiza Marchetti Zioni, aos seus 80 anos se recorda da tia com emoção. “A minha mãe tinha a titia Assunta mais como mãe do que Irmã, por ser 20 anos mais velha. O papai, ao qual ela chamava de Giuseppino,  a respeitava muito porque na simplicidade, no jeito de olhar, de falar, sabia impor respeito. Quando ela vinha nos visitar, era uma alegria”, conta.

Sobre a santidade de Madre Assunta disse: “Sabe, a santidade dela para nós não é novidade, porque sempre estivemos acostumados com o jeito de ser da titia: bondosa, meiga, atenciosa. Para nós, não é agora que ela se torna santa, entende?”

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Quem foi Maria Assunta Caterina Marchetti

Maria Assunta Caterina Marchetti nasceu em Lombrici di Camaiore, província de Lucca, na região da Toscana, Itália, em 15 de agosto de 1871, e foi batizada no dia seguinte na paróquia Santa Maria Assunta ao lado da casa da família. De acordo com os documentos históricos, os pais Ângelo Marchetti e Carolina Ghilarducci eram moleiros. O trabalho da moagem garantia o sustento da família como também a moradia. Os pais sempre confiaram na ajuda de Assunta para o cuidado dos outros 10 irmãos, uma vez quea mãe tinha saúde frágil.



A compaixão pelos imigrantes italianos muda os rumos da vocação

Conforme relata a história, Assunta desejava ardentemente se tornar uma religiosa contemplativa, mas Deus havia traçado outros caminhos para ela através do pedido de seu irmão sacerdote, José Marchetti que ingressou no Seminário de Lucca, que se tornou sacerdote em 1892.

Nesse período os italianos deixavam em massa a Itália e rumavam para as Américas, especialmente para o Brasil. Padre José Marchetti, pároco em Compignano, diocese de Lucca, viu maioria dos paroquia nos deixarem a Itália em busca de sobrevivência. Não teve dúvidas. De sacerdote diocesano passou a ser missionário de São Carlos, ordem fundada em 1887 pelo Bispo de Piacenza, o beato João Batista Scalabrini que, compadecido dos imigrantes italianos, organizou um grupo de missionários e fundou a ordem para acompanhar os imigrantes nas suas viagens nada fáceis.

Padre José passou a ser missionário de bordo e durante as viagens da Itália para o Brasil atendia os imigrantes com o sacramento da confissão, do casamento, e fazia rituais de exéquias para os que morriam e eram lançados ao mar.

Em uma dessas viagens um pai desesperado deixou, aos cuidados de padre Marchetti, um bebê, de quem o sacerdote assumiu a responsabilidade de cuidar. Ao desembarcar no Brasil o padre  imediatamente providenciou um orfanato onde colocou a criança. A partir dali entendeu que sua missão não era a de ser missionário de bordo, mas cuidar dos tantos órfãos filhos de imigrantes italianos e africanos, que viviam na cidade de São Paulo.

A Beata Maria Assunta na cozinha do orfanato feminino da Vila Prudente, São Paulo

Em 1895, padre José construiu dois orfanatos em São Paulo, um no alto do Ipiranga e outro na Vila Prudente. Com tantos órfãos para cuidar, voltou à Itália e convenceu Assunta a vir com ele para cuidar dos órfãos.

Ela queria ser carmelita, ficar afastada do mundo, mas aconteceu o oposto: não só teve que enfrentar o mundo como também teve que socorrer as pessoas em ambiente hostil (na época São Paulo era marcada por outras religiões como a maçonaria, por exemplo) e, no entanto, não criava problemas com ninguém, respeitava o sentimento e a religião dos outros”, relata sua sobrinha que vive em São Paulo, Marta Maria Luiza Marchetti Zioni.

Em 25 de outubro daquele mesmo ano que ela, seu irmão padre José e suas duas amigas emitiram os primeiros votos religiosos, nas mãos do Bem Aventurado Dom João Batista Scalabrini, fundador da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, Scalabrinianas. E em 27 de outubro de 1895, partiram para o Brasil, como missionária para os migrantes e nunca mais retornaram à Itália, fazendo de sua pátria o Brasil. Padre José Marchetti morreu aos 27 anos, vítima da febre tifoide, muito comum entre os imigrantes naquele período.

Madre Maria Assunta (primeira, à esquerda), com coirmãs e suas amadas órfãs


 O trabalho missionário em São Paulo

Ao chegarem a São Paulo dedicaram-se ao cuidado dos órfãos e dos imigrantes italianos, afetados pela cólera tifoide e pela difteria. O orfanato tinha como objetivo ser um ambiente familiar para os pequenos que haviam perdido os pais nos trajetos da imigração e no trabalho nas fazendas de café. Eram órfãos italianos, africanos... todos eram bem acolhidos. Assunta se dedicou ao próximo com heroísmo e não media esforços quando se tratava de atender o mais necessitado.


“O primeiro doente da Santa Casa de Monte Alto -SP foi um homem negro, mendigo. Madre Assunta se compadeceu dele porque estava sozinho na enfermaria, enquanto não havia ainda os enfermeiros. Colocou uma cama no fundo do corredor, do lado oposto do doente e, dormiu aí algumas noites para poder atendê-lo logo que chamasse. Via Cristo no irmão pobre, sofrido ou doente”, contou Irmã Afonsina Salvador que conviveu com Madre Assunta ainda quando fora superiora geral pela primeira vez. “Tudo o que acontece é bom, porque vem de Deus, sempre dizia Assunta, como que fazendo ecoar o mesmo pensamento de seu irmão José que em todos os acontecimentos dizia: Deo gratias"!

As Irmãs Missionárias Scalabrinianas têm em Madre Assunta um modelo de incansável missionariedade e corajosa dedicação no serviço da caridade. Um grave ferimento na perna provocado durante o atendimento a um enfermo originou longos anos de sofrimento.
Madre Assunta passou os últimos meses de sua vida em uma cadeira de rodas, mas sempre atenta em servir o próximo. Morreu em 1ºde julho de 1948, em meio aos órfãos, no orfanato da Vila Prudente - SP, hoje, “Casa Madre Assunta Marchetti”, onde se encontram seus restos mortais.


O milagre 

Aconteceu em 1994, no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, RS. Diagnosticado com morte cerebral, o senhor Heráclides Teixeira Filho recobrou os sentidos, ressuscitou sem nenhuma sequela de suas funções vitais e intelectuais. Esse milagre se deve ao fato de a esposa e uma de suas irmãs terem invocado a intercessão de Madre Assunta.


No dia 19 de dezembro 2011 aconteceu a promulgação do Decreto das Virtudes Heroicas de Madre Assunta Marchetti, reconhecidas pelo Papa Bento XVI. No dia 09 de fevereiro de 2012 foi aprovado o ‘milagre’ atribuído a Venerável Madre Assunta por parte da equipe dos médicos da Congregação da Causa dos Santos, no Estado do Vaticano. Em 17 de dezembro de2013, a Secretária de Estado do Vaticano, através de carta assinada por Dom Angelo Becciu, comunicou oficialmente à Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos a aprovação da beatificação de Madre Assunta. 

domingo, 4 de maio de 2014

Beata Maria Ràfols Bruna, Virgem e Fundadora, heroína da nação espanhola - 30 de agosto



Beata Maria Ràfols Bruna, Virgem: “o heroísmo do silêncio”.


Realmente eu gosto muito da vida dessa beata espanhola! Trago hoje ao blog Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus mais um relato sobre a vida e obra dessa grande "santa" (as aspas referem-se ao fato de a mesma ser ainda uma beata), famosa naquele país tanto por sua santidade como por seu heroísmo: a beata Maria Ràfols Bruna, a fundadora da Congregação das Irmãs da Caridade de Santa Ana.
Uma filósofa espanhola, Concepción Arenal, uma vez pronunciou uma grande frase que diz: "as grandes obras de caridade tem sempre pequenos princípios, como se necessitassem, em sua origem, do selo da humildade e da modéstia, sem os quais não podem viver".
Esta frase se aplica perfeitamente à vida de Maria Ràfols, que nasceu em Vilafranca de Penedès (Girona), em 05 de novembro de 1781, em Molí d'En Rovira, lugar simples e humilde, filha de agricultores catalães: Cristòfol Ràfols e Margarida Bruna.
Pouco depois de seu nascimento e batismo, em 07 de novembro, a família se translada a outro moinho, o Molì de Mascaró, em Bleda, onde a menina passou sua infância. Não se sabe muito sobre esse período, porém, é provável que fosse pobre e humilde, como qualquer outra menina camponesa.
Muitos testemunhos falam de sua candura e piedade. Em 1794, quando tinha apenas nove anos de idade, morreu seu pai e sua mãe contraiu novo matrimônio com Josep Marcer de Vilanova, pelo que a família se trasladou a Garraf. A situação econômica parece que melhorou, pois há registro de que Maria Ràfols estudou interna em um colégio de Barcelona (Colégio de l'Ordre de Nostra Senyora). Em 1804, morre sua mãe em Vilanova.
Maria devia ter conhecimentos e formação como enfermeira, pois trabalhava nesta função, como voluntária, no Hospital de La Santa Creu de Barcelona – o cargo das Irmãs Hospitaleiras de São João de Deus – quando a encontrou o padre Juan Bonal. Este sacerdote era capelão do hospital e estava buscando religiosos para abastecer o Hospital de Gracia de Zaragoza, que carecia de pessoal adequado para atender aos enfermos, e, requerido pela junta de Zaragoza, reuniu doze homens e doze mulheres que lhe ajudaram em sua tarefa. Já então devia ver em Maria o talento e a personalidade necessárias para tal tarefa, pois ela, com apenas 23 anos, se converteu na superiora desta recém-nascida congregação.
Como e onde tomaram hábito estas doze mulheres? Não se sabe. É provável que fosse o próprio Juan Bonal quem as orientara, lhes dera hábitos e as admitira com os habituais votos de pobreza, obediência e castidade. Porém, estamos falando, pela primeira vez, de uma congregação religiosa feminina que exercerá o apostolado e que terá um atividade fora das paredes do convento. Neste sentido, Maria Ràfols foi uma pioneira deste apostolado feminino, numa época em que as religiosas ainda não haviam deixado a clausura e que o apostolado até então era negado às mulheres.
A viagem de Barcelona a Zaragoza a realizaram em uma "carroça", com todos os inconvenientes e incomodidades da época, chegando em 28 de dezembro de 1804. Nesse mesmo dia vão a prostrar-se diante à Virgem do Pilar (Padroeira principal de todo o mundo hispânico), à qual imploraram sua proteção. O caminho que se apresentava a Maria era duríssimo: tinha apenas 23 anos e devia organizar àquela comunidade e por ordem no Hospital de Gracia, um "mundo de dor", onde se amontoavam enfermos, dementes, meninos abandonados e todo tipo de misérias, com uma dotação instrumental lamentável e deficiente, e sendo mal recebidos pelo pessoal do hospital, que fizeram tudo quanto puderam para amargar-lhes a existência, maltratando-os continuamente. De fato, após 03 anos, os homens, cansados da dura experiência, abandonaram. Porém, as religiosas não o fizeram. As mulheres, paradoxalmente conhecidas como "sexo frágil", seguiram adiante, com Maria à cabeça.
Intitulei o presente artigo pondo como lema “o heroísmo do silêncio”, porque de Maria não se conhecem grandes frases. Segundo as crônicas, tudo que fez o fez “com muita prudência e discrição”, sabendo que se arriscava e que não era apreciada em seu entorno. Tudo que fez deve ter feito bem, pois, em pouco tempo, o número das religiosas aumentava. Ela mesma, com algumas irmãs, se apresenta ao exame de “flebotomia”, organizado pela Junta, para demonstrar sua habilidade na prática da sangria, intervenção habitual na medicina de então. Algo impensável para a mulher daqueles tempos, à qual não se permitia intervir diretamente sobre o enfermo.
O estalido da Guerra do Francês – ou Guerra da Independência – causará um terrível golpe para a cidade de Zaragoza, que, como sabemos, padeceu um terrível sítio (1808 – 1809). É aqui onde a madre Ràfols dará mostra de seu heroísmo, onde levará a cabo suas grandes ações, sempre me silêncio, sempre sem que dela se conheçam grandes discursos. No primeiro sítio, as tropas francesas bombardeiam a cidade, e o Hospital da Graça é destruído e incendiado. Foi necessário organizar o traslado dos enfermos e feridos a um recinto menor, com todo o caos e a aglomeração que era de se supor. Entre balas, canhões e ruínas, expôs uma e outra vez sua vida para salvar aos enfermos e aos feridos, acompanhada por umas poucas irmãs, pedindo esmola e alimento, com grande dificuldade para manter o hospital. Chegou a privar-se do próprio alimento para que o mesmo fosse dado a seus pacientes, porém, não bastava para todos (havia mais de 6000 internos no hospital).
O segundo sítio de Zaragoza foi ainda pior, chegando-se a uma situação desesperadora. Maria tomou uma resolução admirável: foi até ao acampamento do inimigo para pedir ajuda. Os franceses, ao mando do marechal Lannes, estavam acampados no atual bairro de Torrero. Ainda que ela e as religiosas que a acompanharam sofreram, em um primeiro momento, as piadas e insultos dos soldados, finalmente lograram ser atendidas pelo general, homem de reconhecido mau caráter e impiedade, que, porém, ficou comovido pelo ato da madre. Assim o descreve José Maria de Javierre:
“Escolheu a duas irmãs acompanhantes, tomaram em suas mãos uma bandeira de trapo branco, sinal da paz, e percorreram a rua tomando o caminho das portas de Santa Engrácia diretamente até as posições francesas, sem preocupar-se com bombas nem disparos... Quisera eu poder ter contemplado o rosto dos atiradores sitiados quando as viram passar sem deter-se; o rosto dos soldados franceses quando as viram chegar: três freiras com seu hábito negro empunhando uma bandeira branca. Jamais nas batalhas europeias presenciaram tal espetáculo”.






O marechal não só lhes deu alimento e remédios para as vítimas do sítio, como também lhes proporcionou um salvo conduto para que regressassem quantas vezes necessitassem para pedir mais recursos.  E assim foi: Maria regressou uma e outra vez para trazer remédios, ataduras e os restos de comida que não queriam os franceses, para reparti-los em seu hospital. Inclusive chegou a interceder por alguns prisioneiros e lograr sua liberação.
O cântaro que se enchia milagrosamente
de água.

Neste contexto de guerra, se conta um milagre da beata: o chamado “prodígio do cântaro”. Havendo-se ficado os pacientes do hospital sem água, Maria não duvidou em ir à capela e pegar um cântaro de barro onde se guardava a água benta e dar de beber a todo aquele que o necessitou. Quando foi devolver o cântaro à capela e o deixou em seu lugar, comprovou maravilhada, que voltava a estar cheio de água, tal e qual o havia pegado.

Não lhe faltaram mais dificuldades. A Junta do hospital, de nova nomeação por parte do governo francês, interferiu notadamente na vida da nascente Congregação. O padre Juan Bonal foi eleito e se impuseram as normas redigidas pelo bispo Miguel Suárez de Santander, mas afeito aos franceses, o que obrigou a Maria a demitir-se como “presidente”. Porém, em 1824, uma nova norma foi redigida. A associação passou a ser formalmente uma Congregação Religiosa e Maria voltou a ocupar o cargo de Superiora até sua renúncia em 1829.

Este é o papel que Maria desempenhou na guerra: um exemplo de amor, caridade e entrega ao próximo, por cima de sua própria vida. No entanto, esse heroísmo humilde e silencioso não seria reconhecido em vida. Não seria até muito depois de sua morte, durante o primeiro centenário dos Sítios de Zaragoza (1908) quando se reconheceria seu impressionante trabalho, sendo proclamada Heroína dos Sítios de Zaragoza. Título que, por certo, ostenta outra mulher, a catalã Agustina Zaragoza i Domènech, dita “Agustina de Aragón”, que se fez famosa por manejar ela sozinha um canhão contra as tropas francesas. Dizem que as comparações são odiosas, porque, enquanto Agustina se fez “heroína” mediante um ato de violência, Maria se fez com um ato de entrega e amor. Em todo caso, além da reflexão que suscita semelhante comparação, as duas dão um bom exemplo do ridículo que resulta sempre qualificar as mulheres como “sexo frágil”. Tanto uma como a outra dão mostra, em seu campo, os ápices aos quais pode chegar o valor e a fortaleza de um ser humano.
Porém, voltemos a Maria. Acabada a guerra, em 1815, se retira a descansar durante dois escassos meses a Villafranca, seu povoado natal. Deste 1813 até 1834, se põe à frente da Inclusa, departamento de órfãos do hospital, onde permanecerá quase toda sua vida. Os meninos órfãos, os abandonados, serão seu novo campo de atuação. Vigiava os meninos que viviam ao relento, em condições lamentáveis, se ocupava dos meninos da rua, resgatava os recém-nascidos abandonados, os ilegítimos e os filhos de mães solteiras, protegendo-os, defendendo-os, dando-os em adoção ou, inclusive, acolhendo-os ela mesma quando via que não estavam recebendo o tratamento adequado.

Porém, em 1834, se viu golpeada pelo contexto das guerras carlistas. Aquela que havia servido ao próximo e à cidade de Zaragoza, de pronto se viu metida em uma conspiração e foi acusada de alta traição. Como é possível? Tudo foram calúnia e conspiração contra ela. A existência de uma prancha de chumbo que ela usava para bordar flores na roupa, serviu para acusa-la. Duas pessoas, debaixo de falso testemunho, declararam que o sacerdote do hospital, o capelão Nerin, usava essa prancha para fabricar cartuchos e balas, e que era a madre Ràfols quem a havia dado a ele. Acusada de conspirar contra a rainha, Maria foi encarcerada e passou dois meses na prisão da Inquisição, para monjas dominicanas, onde se encerrava por motivos políticos. Apesar de sofrer com resignação ao cárcere e que tenha sido declarada inocente ao comprovar-se que tudo era montagem, incompreensivelmente foi condenada ao exílio:

[...] havendo-se visto pela Real Sala do Crime a causa em se inculpou à madre Ràfols, ainda que não se tenha chegado a cumplicidade alguma, se a desterra à região onde nasceu [...].

Aceitando sem protesto a injusta condenação, Maria tão somente solicitou que a trasladassem a uma casa que sua Congregação tinha em Huesca, petição que lhe foi concedida.
No exílio passou seis anos. A situação econômica do hospital de Huesca era também lamentável e apenas havia recursos para subsistir. Neste clima depauperado, a saúde de Maria foi se deteriorando lentamente. Em 1891, temendo encontrar-se próxima a morrer, pede para regressar de novo a Zaragoza e isto lhe é novamente concedido. Não por caridade, nem por compaixão, senão por um motivo estritamente político: a mudança de governo ocorrido com o exílio da regente Maria Cristina e a nova regência do general Espartero. Em Zaragoza, retorna à Inclusa e se entrega de novo aos meninos órgãos e abandonados, porém, a enfermidade vai agravando-se e, por fim, morre em 30 de agosto de 1853, rodeada de suas filhas espirituais.
Faltava-lhe pouco para completar 72 anos de idade e 49 como Irmã da Caridade. Sua morte foi como sua vida: cheia de serenidade, paz, carinho e agradecimento a todos os que a haviam rodeado. Não chegou a ver aprovada a Congregação que a mesma havia fundado, porém, seus alicerces eram sólidos. Em 1858, com a autorização e ajuda da rainha Isabel II, se expande até estar presente, na atualidade, em todos os continentes.
Logo após sua morte, começa a crescer a fama de sua santidade. Em 1908, como já foi dito, é proclamada Heroína dos Sítios de Zaragoza. O corpo é trasladado, em 1925, à capela do que hoje é o noviciado da Congregação em Zaragoza, onde atualmente repousa. Um ano mais tarde, se inicia seu processo de beatificação, que, em 1944, é paralisado pelo Papa Pio XII devido à existência de um texto incômodo: “As Profecias da Madre Ràfols”, que fazem referência a uns acontecimentos ocorridos 50 anos depois de sua morte e que ela havia anunciado em vida. Isto gerou uma aura mística e superstição que incomodou consideravelmente ao papado e ao Vaticano, que decidiu paralisar o processo e recomendar silêncio. No entanto, se demonstrou que os escritos atribuídos à madre eram totalmente falsos, e, em 1980, o arcebispo de Zaragoza, dom Elias Yanes, acompanhado pela maioria dos bispos espanhóis, pediram ao Papa João Paulo II a revogação da suspensão do processo, coisa que ele fez. Catorze anos depois, em 16 de outubro de 1994, este mesmo papa beatificava a Maria Ràfols, dizendo que ela era o verdadeiro símbolo de que a “a caridade não morre, não passa jamais: a grande lição de uma caridade sem fronteiras, vivida na entrega de cada dia”.
A história de Maria Ràfols é de uma mulher que fez grandes coisas através do silêncio e a da humildade, feita toda caridade e em pobreza, tanto material como espiritual. A sociedade da época a pagou com o desprezo, o cárcere e o desterro. Teve que esperar a sua morte para se começasse a reconhecer o valor de sua existência. Sua Congregação, atualmente expandida por todo o mundo, se dedica à educação, ao apostolado e à saúde, campos nos quais a mesma se destacou.
Uma cristã autêntica e sublime, porém, também uma mulher forte, valente, empreendedora, de comportamento exemplar com os feridos da guerra, os enfermos do hospital e os meninos da Inclusa. Através do silêncio e a humildade, somente mediante suas obras, reivindicou pela primeira vez na Espanha um papel que a sociedade e a Igreja havia negado até esse momento à mulher: o apostolado da ação e a atenção sanitária. Uma autêntica heroína em silêncio.

Oração à beata Maria Ràfols Bruna:
Damos-te graças, Senhor, porque enriquecestes a beata Maria Ràfols com teus dons e virtudes e a chamaste a exercer a caridade, principalmente com os mais pobres e necessitados.
Concedei-nos, por sua intercessão, e para seu enaltecimento, a graça que agora te pedimos: _______
Assisti-nos com teu Espírito, para que possamos aceitar na fé a tua vontade, compreender a dor do irmão, imitar à tua serva na caridade e lograr com nossas atitudes na vida um mundo mais humano e mais de Cristo. Amém.


OS DOIS MILAGRES DE LIVRAMENTO DA MORTE

Não poderia encerrar a história da beata Maria Ràfols sem relatar dois grandes prodígios que lhe ocorreram: as duas vezes que escapou de ser assassinada por fuzilamento. São relatos tão impressionantes que parecem obra de ficção, mas, foram testemunhadas por pessoas idôneas.

Primeiro prodígio
Na primeira vez, vinha a beata pelas ruas de Zaragoza quando soldados inimigos com fuzis apontados para ela, ameaçaram atirar. Nossa heroína correu na tentativa de escapar da morte quando tiros foram disparados. Um projétil atingiu o crucifixo que trazia à cintura e ricocheteou, outro passou pelo pano do hábito bem na região da axila direita, outro, porém, atingiu-lhe em cheio as costas, transpassando seu tórax. Ao invés de cair imediatamente morta, milagrosamente, ao ser atingida pelo disparo, sentiu-se forte, revigorada e invadida por uma grande alegria e intenso júbilo. Saiu correndo ainda mais velozmente e conseguiu escapar dos soldados. No peito, não ficou a não ser uma cicatriz como lembrança do grandioso milagre.

 Segundo prodígio
     Outra vez, vinha ela com duas companheiras quando foram abordadas por um pelotão de soldados franceses. O comandante do pelotão ordenou que fossem fuziladas imediatamente. A beata calmamente começou a rezar e a entregar sua alma a Deus quando, à ordem de “fogo!”, os fuzis dos soldados, como que movidos por uma força, caíram todos no chão. Atônitos, sem entender o que estava acontecendo, deixaram que fossem embora. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Beata Irene Stefani, Virgem da Congregação das Missionárias da Consolata, a "mãe misericordiosa" dos Quenianos.



Resumo Biográfico
Nascida em Anfo, norte da Itália, em 1891, a missionária da Consolata foi uma das primeiras religiosas a entrar na congregação, tendo sido recebida pelo próprio fundador, o beato José Allamano. Logo após o noviciado, partiu para o Quénia, em 1915, onde se dedicou aos doentes e à formação das jovens quenianas. Faleceu a 31 de Outubro de 1930, com apenas 39 anos, deixando um exemplo de dedicação que lhe rendeu o título de "mãe misericordiosa" - "Nyaatha" na língua kikuyu. 


“Acolhia a todos, a qualquer hora do dia ou da noite. Uma força interior impelia-a a ir ao encontro das pessoas mais necessitadas, que tratava com respeito, delicadeza, doçura e afabilidade, sem fazer distinção", afirmou o postulador da causa de beatificação da irmã Irene Stefani, o missionário da Consolata, Gottardo Pasqualetti. “O povo recorda-a como mãe, a boa mãe, aquela que quer bem a todos, a misericórdia personificada: Nyaatha”, explicou o sacerdote que recolheu testemunhos de Irene Stefani em Itália e no Quênia.



      Biografia
Irmã Irene Stefani, no século Maria Mercedes Stefani, nasceu no dia 22 de agosto de 1891 em Anfo, no Val Sabbia (Brescia, Itália).
Em 19 de junho de 1911, aos 19 anos de idade, deixou sua terra natal, Anfo, onde já era conhecida como “o anjo dos pobres”, e se dirigiu a Turim onde o Beato José Allamano, o fundador do Instituto dos Missionários da Consolata, aca­bava de dar inicio também às Missionárias da Consolata. Ele a recebeu no pequeno grupo das primeiras jovens desejosas de entregar a vida a Deus por meio da obra missionária.
Terminada sua preparação, até fins de 1914, com confiança e humilde valentia, aceitou com entusiasmo o mandato para as missões do Quênia, consciente das dificuldades que a esperavam. Seu coração não treme, porque está confiante em Deus. Em 29 de janeiro de 1914, dia de sua consagração a Deus, Irmã Irene condensou em poucas linhas seu programa de vida: “Só Jesus! Tudo com Jesus... Toda de Jesus... Tudo para Jesus... Nada para mim”.
Chegou ao Quênia em janeiro de 1915, experimentou a pobreza extrema, o cansaço, a solidão. Teve que se esforçar para aprender um idioma novo e penetrar em uma cultura muito diferente. Irmã Irene encontrou espaço em seu coração para aquele mundo ao qual se entregava com todo seu ser: é mulher humilde, cheia de fé ardente, de caridade intrépida e esperança inquebrantável para anunciar que Jesus é o Filho de Deus e o Salvador da humanidade.
Em 1915, poucos meses após sua chegada ao Quênia, os efeitos da 1ª guerra mundial são sentidos nas colônias inglesas e alemãs, e envolvem diretamente numerosos missionários presentes na África Oriental.
A partir de agosto de 1916, Irmã Irene exerce a tarefa de enfermeira da Cruz Vermelha no Quênia e na Tanzânia nos hospitais de campo erguidos pelos “carriers”, os trezentos mil e mais indígenas mobilizados pelos ingleses para defender e alargar suas fronteiras. Com piedade e abnegação ela passa dias e noites nas grandes tendas onde se amontoam até dois mil enfermos e feridos. Naquelas condições miseráveis falta tudo, porém Irmã Irene supre a falta de remédios e de assistência médica multiplicando os gestos de caridade e de afeto maternal a cada um desses po­bres jovens. “Essa irmã é um anjo”, eram os comentários.



No fim da guerra Irmã Irene voltou para o Quênia, entre seus Agikuyus, e se entregou totalmente à obra de evangelização com inesgotável espírito apostólico. Ela era mestra, enfermeira, parteira, visitadora familiar e a todos levava amor e gestos concretos de solidariedade. Tanto que as pessoas começaram a chamá-la com carinho “Nyaatha”, que significa “a mãe toda misericórdia”.

Ao completar 39 anos de idade, diante das necessidades incalculáveis da obra missionária e sempre mais consciente de sua pequenez, Irmã Irene sentiu um chamado interior para oferecer a Deus o supremo sacrifício de sua vida para o advento do seu reino. Duas semanas apenas depois do seu oferecimento, assistindo um doente de peste que morreu em seus braços, contraiu a mesma doença que em poucos dias a levou a morte, vítima de sua caridade heroica.
Era o dia 31 de outubro de 1930. Enquanto a dolorosa notícia de sua morte se difundia, as pessoas aturdidas e consternadas acorriam em massa à missão para ver seu rosto pela última vez, superando o temor supersticioso dos mortos, ainda muito arraigado naquele tempo.
Meio século depois, a Igreja de Nyeri (Quênia) e a de Turim pediram à Congregação dos Santos em Roma que sejam reconhecidas as virtudes heroicas de Irmã Irene Stefani, para a glória de Deus e exemplo aos fieis.
Seus restos, exumados em 1995, repousam na igreja da Consolata em Nyeri ­Mathari (Quênia). Ela foi proclamada Venerável em 2 de abril de 2011. Após o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, Irmã Irene Stefani foi beatificada em 23 de maio de 2015.


A água que se multiplicou
O milagre aprovado pela Igreja para sua beatificação é atípico e raro: uma pia batismal utilizada em batismos, com restos de água, misteriosamente não se esgotou nos três dias em que foi consumida por cerca de 250 pessoas escondidas numa igreja de Nipepe (Moçambique), que haviam fugido dos guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).
Irmã Anair Voltolini, catarinense de Blumenau, que foi missionária por oito anos em Moçambique e hoje é a Provincial da Congregação da Consolata em São Paulo, conhece bem o milagre, pois sua missão estava distante apenas 130 km de Nipepe e ainda hoje há inúmeras testemunhas do fato. Ela conta “que apenas havia algumas bolachas para todas as pessoas. Não havia banheiros. Duas salas da igreja foram reservadas para as necessidades fisiológicas dos homens e mulheres. A única água existente eram seis litros que ficaram armazenados num tronco da pia batismal. No domingo anterior tinha havido batizados na paróquia. Durante estes três dias, todas as 250 pessoas tomaram dessa água que nunca secava, inclusive durante o evento nasceu uma criança que foi lavada com a mesma água”.
“Um verdadeiro milagre científico. Depois de três dias, um homem saiu da igreja e foi obrigado a denunciar os demais. Os guerrilheiros entraram no recinto e obrigaram a homens e mulheres a viajar com eles até a base da Renamo, 200 km distante da vila”.
O padre Frizzi estava celebrando a missa quando se deu o ataque. Os guerrilheiros, depois de pilharem a Missão e as casas dos catequistas, obrigaram o missionário a escolher um grupo de homens para carregarem os bens roubados e acompanhá-los até à sua base. O padre se negou proceder a tal escolha e evitou a todo o custo que alguém fosse levado com eles. Segundo a tradição maúa, sentou-se no chão, como sinal de recusa.
Seguiu-se um longo impasse. O missionário negava-se a deixar partir a sua gente e os guerrilheiros não queriam voltar sozinhos. Ao final, alguns ficaram com o padre e as demais famílias com mulheres e crianças foram forçadas a ir para a base. Passados dois meses, todos fugiram e voltaram para Nipepe são e salvos. Um grande milagre da Irmã Irene.

http://www.crbnacional.org.br
Publicado no Jornal digital Parceiros das Missões, n.35, maio de 2015

Postado por Zeni