Predestinada desde a eternidade junto com a Encarnação do Verbo divino como Mãe de Deus, por desígnio da Providência divina, a bem-aventurada Virgem Maria foi nesta terra a sublime Mãe do Redentor, singularmente mais que os outros, sua generosa companheira e humilde serva do Senhor. Ela concebeu, gerou, nutriu a Cristo e apresentou-o ao Pai no templo, sofreu com seu Filho que morria na cruz. Assim, de modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, Ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por tal motivo Ela se tornou para nós Mãe na ordem da Graça (Constituição Dogmática Lumem Gentium 61)
Por que Maria Santíssima pode ser chamada com o título "Mãe da Divina Graça"?
1. Nas Sagradas Escrituras, Maria é a Mãe de Jesus, Verbo Humanado, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se fez homem em seu santíssimo e imaculado ventre. Por que merece também esse tão belo título: "Mãe da Divina Graça"? A "Graça" (no singular) é algo bem diferente de "graças". Infelizmente, pela grande maioria de nossos irmãos e irmãs católicos, os dois conceitos ou realidades são confundidos.
2. Claro que Deus - Uno e Trino: Pai, Filho e Espírito Santo - é a Origem e Fonte de tudo que existe, tanto das realidades visíveis, quando as invisíveis. Mas, desde toda a eternidade, Deus - Uno e Trino - sempre existiu: nunca teve começo e nunca terá fim. Não há origem em Deus, pois, desde sempre, Ele é a Origem e bastava-Se a Si mesmo, na "Família Divina" da Trindade. O Pai gera, desde sempre o Filho, sem tê-lO criado e continuará O gerando por toda a eternidade, pois, a geração do Filho é um ato eterno e contínuo da Pessoa do Pai. O Filho - Verbo Eterno, Palavra Única do Pai, sua Sabedoria Infinita e "objeto" de todo o seu infinito Amor e Benevolência, é gerado continuamente pelo Pai. Como Ele mesmo disse: "Sim, eu vim do Pai e entrei no mundo, e agora deixo o mundo e volto para o Pai" (João 16, 28) e, em outra passagem: "Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?. Assim, o Amor que o Pai tem por seu Filho Unigênito, que tem a sua mesma substância: a divina, é de tal forma infinito que é, por Si, uma Terceira Pessoa: o Espírito Santo: a Personificação do Amor do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai e responsável por nos fazer amar o Pai e o Filho, buscá-los, amá-los e servi-los.
3. Portanto, podemos sim dizer que na Trindade: tanto em sua única Essência divina como em cada uma das Três Pessoas, existe e sempre existiu a Graça, o dom dos dons de Deus, juntamente com a Misericórdia. Jesus mesmo revelou à Santa Maria Faustina Kowalska que Deus é infinito em todos os seus atributos divinos, porém - pelo menos de uma maneira que dá para entendermos "parcialmente" - dentre as infinitudes dos atributos divinos o "maior" (como pode haver uma coisa maior entre outras que são, igualmente, infinitas? Um grande mistério...) é sua Misericórdia, que é, ao mesmo tempo, a sua Graça.
4. Nas aparições da Santíssima Virgem Maria no Monte Guarda, localizada no vilarejo de Cimbres, pertencente ao município e diocese de Pesqueira, Pernambuco, no mês de agosto de 1936 a duas meninas: Maria da Luz e Maria da Conceição (a primeira que se tornou "Irmã Adélia", que está em processo de beatificação), a Mãe de Deus se identificou às humildes meninas como "Eu sou a Mãe da Graça".
5. Em alguns santuários, catedrais e basílicas esse título é honrado de forma especial. A diocese de Parnaíba, Piauí, é consagrada a Nossa Senhora da Graça. Assim como a catedral e basílica da arquidiocese de Benevento, na Itália. As imagens que representam essa invocação e título marianos vem com a Virgem Mãe com o seio esquerdo (lado de seu Imaculado Coração) discretamente à mostra, dando de mamar ao Menino Jesus. Isso tem um duplo e belíssimo significado: o leite imaculado de Maria é a própria Graça que é dado à Graça encarnada, seu Filho Jesus.
6. Mas, por que podemos afirmar sim que Jesus é a própria Graça encarnada, já que esse atributo divino existe, desde toda eternidade, no seio da Trindade? Será que o Pai também não é a Graça? E o Espírito Santo? Não é Ele a própria Graça e nEle não há a Graça? Claro que sim! Mas, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Eterno do Pai, que se encarnou no ventre puríssimo e imaculado de Maria, é a Graça de forma toda especial.
7.
Mas, por que? Porque por causa da futura existência de Jesus, Deus e
homem verdadeiro, Deus em essência e Pessoa, também assumiu a
natureza humana, unindo-se a ela hipostaticamente: de forma perfeita,
plena e perpétua. Nada existiria fora de Deus (“ad extra”)
se não fosse a prevista (desde toda a eternidade)
Encarnação do Verbo no seio puríssimo e imaculado de Maria.
Tudo que passou a existir, fora da eternidade e do seio inacessível
da Santíssima Trindade, que sempre existiu, que nunca teve origem e
nunca terá fim, passou a existir graças à Encarnação do Verbo
Eterno do Pai, que assumiu a natureza humana, permanecendo Deus em
sua Pessoa e, também, em sua natureza divina. Assim o afirma o
Apóstolo São Paulo ao dizer: “O qual (Jesus)
é imagem do Deus invisível, o Primogênito
de toda a criação; porque nEle foram
criadas todas as coisas: que há nos céus e na terra, visíveis e
invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados,
sejam potestades. Tudo foi criado por Ele e para Ele.
E Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas
subsistem por Ele. E Ele é a cabeça do
corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos,
para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai
que toda a plenitude (seu Poder,
Graça, Glória, Misericórdia e Majestade) nEle
habitasse, e que, havendo por Ele feito a paz pelo Sangue
da sua Cruz, por meio dEle reconciliasse
consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as
que estão nos céus (Colossenses 1, 15-20).
E tudo veio do Pai, por obra do Espírito Santo, movido pelo Amor infinito que há na Trindade, desde toda a eternidade. O próprio São João Evangelista afirma isso ao dizer: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3, 16). Esse Amor de Deus, pois, Deus é Amor (I João 4, 16b): quis “extravasar” ao decidir fazer suas criaturas, visíveis e invisíveis, em previsão da futura existência do homem Jesus, Deus e homem verdadeiros, a Primícia da criação divina, o único que amaria o Pai da maneira mais perfeita possível, com um amor puríssimo e infinito, mesmo que sua natureza humana, em si, seja “limitada” a um corpo e alma humanas, também criaturas. O homem Jesus foi e sempre será o ser mais perfeito, em santidade e em semelhança a Deus que já existiu, existe e existirá, pois, após sua Paixão e Morte de Cruz, ressuscitou e está eternamente sentado à direita do Pai. Até mesmo a Virgem Maria, a Imaculada Conceição, a “gratia plena” (a cheia de graça), também obra prima de Deus, da qual a natureza humana de Cristo foi toda formada – unicamente dEla – é inferior à natureza humana do Filho, pois, unida a essa natureza humana está unida a natureza divina e sua única Pessoa: divina.
Conclusão:
Por isso que a Santíssima Virgem Maria, Mãe de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, pode e deve ser chamada de Mãe da Divina Graça, pois, Ela é a Mãe da maior Graça que Deus deu ao mundo: Jesus Cristo, o Filho de Deus, Deus-homem verdadeiro, Rei do Universo.
Maria mesma, conforme narrado no Evangelho de São Lucas é apontada como “a Mãe do Senhor” (Deus): “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Lucas 1, 43) e seu acesso à Graça (Jesus, seu Filho), é pleno, ao ponto de até mesmo “mudar ou alterar” o que seria desígnio seu desde toda a eternidade: “Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher (título que, para no hebraico tem conotação de “senhora”, não de uma “simples mulher”, como no português) isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que ele vos disser” (Maria tinha plena certeza que Jesus, por amor a Ela, iria realizar o que Ela lhe pedia. Deus nada nega a quem nada lhe nega, quando Ele lhe pede: o que era o caso de Maria, perfeitíssima discípula de Jesus). Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: ‘Enchei as talhas de água’. Eles encheram-nas até em cima. ‘Tirai agora’ – disse-lhes Jesus – ‘e levai ao chefe dos serventes’. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: ‘É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora’. Esse foi o primeiro milagre de Jesus (feito a pedido, melhor, após uma mera ‘sugestão’ de Maria); realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (João 2, 1-11).
Que Maria Santíssima, Mãe da Divina Graça, a segunda invocação mariana mais querida e honrada pelos carmelitas, derrame essa Graça, seu próprio Filho Jesus Cristo, nos corações e nas almas: justamente onde Ele deseja ardentemente, conforme revelou a muitos santos e santas (particularmente às Santas Margarida Maria Alacoque e Faustina Kowalska) deseja viver e reinar… Sim! Isso mesmo. Para o Amor infinito da Graça, Jesus, não lhe bastam os Céus, com seus Anjos e Santos e bem-aventurados: Ele deseja ser amado, honrado, servido e adorado por todas as almas e corações humanos, objetos de sua Misericórdia e Graça: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lucas 2, 14).
Autor do artigo:
Giovani Carvalho Mendes
(Irmão João Maria da Encarnação, ocds)
Nenhum comentário:
Postar um comentário