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terça-feira, 21 de abril de 2015

SANTO ANSELMO DE CANTERBURY (Cantuária), Bispo e Doutor da Igreja. Grande defensor da ortodoxia católica e dos direitos da Igreja no Séc. XI.



Primeiros anos
Santo Anselmo nasceu em Aosta, parte do Reino de Arles, por volta de 1033. Sua família tinha fortes relações com a poderosa Casa de Sabóia e era muito rica. Seu pai, Gundulfo, era lombardo de nascimento. Sua mãe, Ermemberga, que foi descrita como prudente e virtuosa, veio duma antiga família burgúndia.

Aos quinze anos, Anselmo desejava entrar para um mosteiro, mas não conseguiu o consentimento do pai e acabou sendo recusado pelo abade. O desapontamento aparentemente provocou-lhe uma doença psicossomática. Depois de se recuperar, Anselmo desistiu de estudar e passou a viver despreocupadamente; neste período, sua mãe morreu. Aos vinte e três, Anselmo saiu de casa, cruzou os Alpes e viajou por toda a Borgonha e a França.

Atraído pela fama de seu conterrâneo Lanfranco (que era o prior da beneditina Abadia de Bec), chegou à Normandia em 1059. No ano seguinte, depois de algum tempo em Avranches, Anselmo finalmente entrou para a abadia como noviço aos vinte e sete. Ao fazê-lo, submeteu-se à Regra de São Bento, um evento que reformularia todo o seu pensamento na década seguinte.


Anselmo é escolhido para ser Abade de seu mosteiro. 




Santo Anselmo como monje
Abade de Bec
Em 1063, Lanfranco foi nomeado abade de Caen e Anselmo foi eleito prior em Bec, um cargo que manteve por quinze anos antes de tornar-se abade depois da morte de Herluin, o fundador da abadia, em 1078. Foi consagrado abade em 22 de fevereiro de 1079 pelo bispo de Évreux, o que foi acelerado por que, na época, a Arquidiocese de Ruão (a quem se subordinava Bec) estava vaga. Se Anselmo tivesse que ser consagrado pelo arcebispo de Ruão, teria sido pressionado a jurar obediência, o que comprometeria a independência de Bec.

Sob o comando de Anselmo, Bec tornou-se o principal centro de ensino na Europa, atraindo estudantes de toda a França, Itália e outras regiões. Foi durante esta época que escreveu suas primeiras obras filosóficas, o "Monológio" (1076) e o "Proslógio" (1077–8). A elas se seguiram "Os Diálogos sobre a Verdade", "Livre Arbítrio" e "A Queda do Diabo". Neste período, Anselmo também lutou para manter a independência da abadia tanto dos poderes seculares quanto do arcebispo. Posteriormente, Anselmo teve que lutar ainda contra Roberto de Beaumont, conde de Leicester.

Anselmo ocasionalmente visitava a Inglaterra para supervisionar as propriedades da abadia lá e também para visitar Lanfranco que, a partir de 1070, havia sido nomeado arcebispo de Cantuária, de quem era considerado o sucessor natural. Com a morte dele em 1089, porém, Guilherme II da Inglaterra tomou as propriedades e as rendas da Sé e não nomeou um novo arcebispo. Em 1092, a convite de Hugo de Avranches, 1º conde de Chester, Anselmo cruzou o Canal da Mancha. Na Inglaterra, permaneceu envolvido em assuntos da abadia por quase quatro meses e então foi proibido de voltar a Bec pelo rei. Guilherme ficou seriamente doente de forma súbita em Alveston no ano seguinte e, movido por um desejo de compensar por seus atos pecaminosos que acreditava serem a causa de sua doença, permitiu que Anselmo fosse nomeado para a Sé de Cantuária (Canterbury) em 06 de março de 1093.




Arcebispo de Canterbury (Cantuária) 

Nos meses seguintes, Anselmo tentou recusar o posto alegando estar velho e doente. Em 24 de agosto, apresentou a Guilherme as condições nas quais estaria pronto a aceitar o posto. Elas eram parte de uma agenda de Reformas Gregorianas: 1. Guilherme deveria devolver as terras da Sé que havia tomado; 2. Deveria aceitar a preeminência dos conselhos espirituais de Anselmo e 3. Deveria reconhecer Urbano II como Papa (e não Clemente III, o antipapa). As recusas de Anselmo ajudaram a melhorar sua posição na barganha enquanto os termos eram discutidos com o rei, que estava profundamente relutante em aceitar as condições impostas por ele. Guilherme cederia apenas à primeira. Alguns dias depois, Guilherme tentou voltar atrás até mesmo nisso e suspendeu a investidura de Anselmo, mas, pressionado pela população, foi obrigado a seguir adiante com a nomeação. No fim, Anselmo e Guilherme concordaram que a devolução das terras de Cantuária seria a única condição aceita. Finalmente os bispos ingleses colocaram-lhe nas mãos o báculo e o levaram para igreja para ser investido. Anselmo em seguida prestou homenagem a Guilherme e, em 25 de setembro de 1093, recebeu de volta as terras de sua nova Sé. Ele foi entronado no mesmo dia, depois de receber a dispensa de suas obrigações na Normandia. Por fim, foi consagrado arcebispo de Cantuária em 4 de dezembro.
Tem se discutido sobre se a relutância de Anselmo em assumir a Sé teria sido ou não sincera. Estudiosos como Southern defendem que sua preferência teria sido permanecer em Bec. Porém, a relutância em aceitar postos importantes era um costume medieval. Vaughn afirma que Anselmo não poderia ter expressado um desejo pela posição sem correr o risco de ser visto como um carreirista ambicioso. Ela afirma ainda que Anselmo percebeu a situação política e os objetivos de Guilherme e agiu no exato momento que lhe daria a melhor condição de negociar pelos interesses de sua futura Sé e do movimento reformista. Por outro lado, a vida de eremita era uma das opções que Anselmo considerou antes de aceitar o conselho do arcebispo de Ruão e entrar para o mosteiro. William Kent acreditava que não havia razão para suspeitar da sinceridade de sua resistência. Naturalmente atraído pela vida contemplativa, Anselmo não tinha atração alguma por este tipo de cargo mesmo em períodos de paz e, assim, teria ainda menos em tempos conturbados. Anselmo sabia bem o que o esperava na função.


Conflitos com Guilherme II
Anselmo continuou a combater por suas reformas e pelos interesses de Cantuária. Sua visão sobre a Igreja era de uma Igreja universal, com sua própria autoridade interna, capaz de conter a visão de Guilherme de controle real sobre o Estado e sobre a Igreja. Por isso, tem sido descrito ora como um monge contemplativo ora como um homem politicamente engajado, determinado a defender os privilégios da Sé Episcopal de Cantuária. Um dos primeiros conflitos com Guilherme irrompeu já no seu primeiro mês. O rei preparava-se para combater seu irmão mais velho, Roberto II Curthose, duque da Normandia, e precisava de dinheiro. Anselmo estava entre os nobres de quem se esperava ajuda e ele ofereceu £500, mas Guilherme recusou exigindo mais. Posteriormente, um grupo de bispos convenceu Guilherme a aceitar a quantia original e foram até Anselmo, que afirmou ter doado o dinheiro aos pobres. Neste episódio, Anselmo foi cuidadoso e conseguiu evitar tanto acusações de simonia quanto mostrar-se um líder generoso.
As leis da igreja determinavam que os bispos metropolitanos não poderiam ser consagrados sem que antes recebessem o pálio das mãos do Papa. Anselmo, portanto, insistiu em ir à Roma para receber o seu, mas Guilherme não autorizou. O antipapa Clemente III estava lutando contra Urbano II, que havia sido reconhecido pela França e pela Normandia. Não parece que Guilherme fosse partidário de Clemente, mas claramente desejava fortalecer seus próprios interesses colocando-se na posição de decidir entre os dois rivais. Assim, quando Anselmo pediu permissão para ir ver o Papa, o rei afirmou que ninguém na Inglaterra deveria reconhecer nenhum dos dois papas antes que ele, o rei, se decidisse. Em 25 de fevereiro de 1095, os bispos e nobres da Inglaterra realizaram um concílio no castelo de Rockingham para discutir o tema no qual os bispos se alinharam ao rei, com Guilherme de Saint-Calais, o bispo de Durham, chegando ao ponto de recomendar ao rei que depusesse Anselmo. Os nobres, por outro lado, escolheram a posição de Anselmo e a conferência terminou num impasse.
Logo depois, Guilherme enviou mensageiros em segredo para Roma. Eles convenceram Urbano a enviar um legado (Gualtério de Albano) até o rei levando consigo o pálio arcebispal e os dois imediatamente deram início às negociações secretas. Guilherme concordou em reconhecer Urbano como Papa e assegurou para si o direito de autorizar que membros do clero recebessem cartas papais e as obedecessem; Gualtério, negociando em nome de Urbano, concedeu que Urbano não enviaria legados à Inglaterra sem que eles fossem antes convidados pelo rei. O maior desejo de Guilherme era que Anselmo fosse deposto e outro recebesse o pálio, ao que Gualtério respondeu que "...há boas razões para que se espere um bom resultado de acordo com os desejos do rei". Guilherme então reconheceu publicamente Urbano, mas Gualtério se recusou a depor Anselmo. Enfurecido, Guilherme tentou extorquir dinheiro de Anselmo em troca do pálio, também sem sucesso. Depois, tentou entregar-lhe o pálio pessoalmente, o que também não lhe foi permitido. Finalmente, o rei cedeu e Anselmo recebeu o pálio no altar de Cantuária em 10 de junho de 1095.
No decorrer dos dois anos seguintes, não se conhece nenhuma disputa aberta entre Anselmo e Guilherme. Porém, o rei bloqueou todos os esforços do arcebispo em suas reformas. A tensão finalmente explodiu em 1097, depois que Guilherme esmagou uma revolta galesa. Ele acusou Anselmo de ter lhe fornecido um número insuficiente de cavaleiros para a campanha e tentou multá-lo. Anselmo decidiu seguir para Roma para se aconselhar com o Papa, pois Guilherme se recusava a cumprir sua promessa de ajudar na reforma da igreja, mas o rei não lhe permitiu. As negociações terminaram com Guilherme declarando que se Anselmo partisse, tomaria de volta a Sé de Cantuária e jamais o receberia de volta como arcebispo. Por outro lado, se Anselmo resolvesse ficar, seria multado e teria que jurar que jamais apelaria novamente a Roma: "Anselmo recebeu a opções de se exilar ou de se submeter completamente".


Primeiro exílio
Exilado, Anselmo partiu para Roma em outubro de 1097. Guilherme imediatamente se apoderou das receitas da Sé e as manteve até morrer, embora Anselmo tenha permanecido titular da Sé. Ele escolheu o exílio para defender sua visão da Igreja universal, sublinhando os pecados de Guilherme em relação a ela. Embora ele tenha de fato prestado homenagem a Guilherme, Anselmo a desqualificou frente ao seu dever para com Deus e o Papa. Ele foi recebido com grandes honras por Urbano durante o cerco de Cápua, durante o qual foi muito elogiado pelas tropas sarracenas de Rogério I da Sicília (r. 1071–1101). Num grande concílio provincial realizado em Bari em 1098, que contou com a presença de 183 bispos, Anselmo recebeu a incumbência de defender a cláusula Filioque e o uso do pão ázimo durante a Eucaristia contra representantes da Igreja Ortodoxa. Em 1099, Urbano renovou a proibição da investidura secular do clero e do clero prestar homenagem a poderes seculares. No mesmo ano Anselmo se mudou para Lyon.


Conflitos com Henrique I
A vitória de Anselmo marcou o sucesso da Igreja Católica contra os monarcas ingleses na Questão das Investiduras.
Guilherme foi morto em 02 de agosto de 1100. Seu sucessor, Henrique I, convidou Anselmo de volta, escrevendo que se comprometia a ouvir os conselhos do arcebispo. Henrique cortejava Anselmo por que precisava de seu apoio para se consolidar no trono, uma vez que o arcebispo poderia a qualquer momento declarar seu apoio ao irmão mais velho de Henrique. Quando Anselmo retornou, Henrique exigiu que ele lhe prestasse homenagem em relação às propriedades de Cantuária e recebesse dele sua investidura em seu posto de arcebispo. Como o papado havia recentemente proibido o clero de fazer as duas coisas, a relação de Anselmo com Henrique já começou em conflito.
O rei se recusou a desistir do privilégio desfrutado por seus predecessores e propôs que o tema fosse levado ao Papa. Duas embaixadas foram enviadas ao Papa Pascoal II sobre a legitimidade da investidura de Henrique; ambas receberam a confirmação da ordem papal anterior. Neste ínterim, Anselmo ajudou Henrique, que estava ameaçado pela invasão de seu irmão, Roberto Curthose, e Anselmo publicamente apoiou-o, convencendo os barões ainda indecisos e ameaçando Curthose com a excomunhão.
Na festa de São Miguel de 1102, Anselmo realizou um concílio em Londres no qual ele proibiu o casamento e o concubinato aos membros das ordens sagradas36 (além de condenar a simonia e reformando os regulamentos de sobriedade e vestuário do clero). Ele estava entre os primeiros a opinar publicamente contra o tráfico de escravos em 1102, num concílio na igreja de São Pedro em Westminster, e conseguiu aprovar uma resolução contra a prática de vender homens como gado.
Por outro lado, Henrique concedeu a Anselmo autoridade sobre toda a Igreja na Inglaterra e concordou em obedecer ao Papa. Porém, como Pascoal havia reafirmado as regras sobre a investidura e as homenagens seculares, Henrique se voltou novamente contra Anselmo. Em 1103, o próprio arcebispo e um enviado real, Guilherme Warelwast, partiram novamente para Roma. Furioso, Pascoal excomungou os bispos investidos por Henrique.


Segundo exílio
Anselmo se refugiou em Lyon depois disso e aguardou os próximos passos de Pascoal. Em 26 de março de 1105, o Papa excomungou o principal conselheiro de Henrique, Roberto de Meulan, por ter convencido Henrique a continuar com as investiduras seculares, os prelados investidos por Henrique e outros conselheiros, ameaçando o próprio rei com o mesmo destino. Em abril, Anselmo ameaçou excomungá-lo pessoalmente, provavelmente para forçar a mão de Henrique nas negociações. Como resposta, o rei arranjou um encontro com Anselmo e eles conseguiram chegar numa solução de compromisso em Laigle em 22 de julho de 1105. Parte do acordo era que as excomunhões de Roberto e de seus associados fossem revogadas (dado que eles agora aconselharam o rei a obedecer ao Papa); Anselmo fê-lo por sua própria autoridade, um ato que depois teve que explicar a Pascoal. Outras condições do acordo foram que Henrique deveria abandonar a investidura secular se Anselmo obtivesse de Pascoal permissão para que clérigos prestassem homenagem aos seus nobres; que as receitas da Sé de Cantuária fossem devolvidas a Anselmo; e que os sacerdotes fossem proibidos de casar. Anselmo então insistiu em ter o acordo de Laigle sancionado por Pascoal antes de aceitar voltar para a Inglaterra. Por carta, Anselmo também pediu ao Papa que aceitasse o compromisso de prestar homenagem ao rei, pois seria um pequeno preço a pagar por uma vitória maior, o fim do conflito sobre as investiduras seculares. Em 23 de março de 1106, Pascoal escreveu a Anselmo aceitando a solução, embora ambos vissem o acordo como um compromisso temporário e pretendiam continuar pressionando pelas reformas gregorianas, incluindo o fim das homenagens.

Mesmo depois disso, Anselmo continuou se recusando a voltar para a Inglaterra. Henrique viajou para Bec e encontrou-se com ele em 15 de agosto de 1106. Lá, o rei fez mais algumas concessões, restaurando a Anselmo todas as igrejas que havia tomado. Ele prometeu ainda que nada mais seria tomado das igrejas, que prelados que haviam pago seu controverso imposto (que havia começado como um imposto sobre clérigos casados) seriam isentados de impostos por três anos e, finalmente, que tudo o que havia sido levado de Cantuária durante o exílio de Anselmo seria devolvido. Anselmo finalmente aceitou voltar depois de reforçar ainda mais a posição da igreja frente à do rei.
Já em 1107, a longa disputa sobre as investiduras estava finalmente resolvida. A Concordata de Londres anunciou os compromissos de Anselmo e Henrique em Bec. Os dois anos finais da vida de Anselmo foram tranquilos e dedicados às suas funções em Cantuária. Como arcebispo, viveu à altura de seus ideais monásticos, que incluíam zelo, prudência e instrução adequada ao seu rebanho, além de oração e contemplação.  Anselmo morreu na Quarta-Feira Santa, 21 de abril de 1109, em Cantuária, e foi enterrado na Catedral de Cantuária.

Obras
Anselmo se situa entre Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino e é chamado “O Pai do Escolasticismo". Ele preferia defender a fé pelas razões intelectuais do que pelos argumentos das Escrituras.
Anselmo dedicou-se à filosofia, aplicando a razão em vez do apelo à autoridade das Escrituras ou da patrística para estabelecer as doutrinas da fé cristã. Estilisticamente, os tratados de Anselmo assumem duas formas, diálogos, de cunho pedagógico, e meditações. Seu grande predecessor, João Escoto Erígena, foi mais especulativo e místico em suas obras.
O mote de Anselmo era "fides quaerens intellectum" ("fé em busca de entendimento") que, para ele, significava "um ativo amor de Deus em busca de um conhecimento mais profundo de Deus". Ele escreveu "Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam. Nam et hoc credo, quia, nisi credidero, non intelligam." ("Nem busco entender para que possa acreditar, mas acredito que possa entender. Por isso, também, acredito que, a não ser que eu primeiro acredite, não serei capaz de entender"). Esta frase foi possivelmente inspirada por Santo Agostinho ("Dez Homilias sobre a I João", tratado XXIX sobre João 7:14-18, §6): "Portanto, não busque entender para que acredite, mas acredite para possa ser capaz de entender". Anselmo defendia que a fé precede a razão e que a razão pode expandir a fé.
A obra-prima sobre a teoria do conhecimento de Anselmo é o tratado "De Veritate", no qual afirma a existência de uma verdade absoluta da qual todas as verdades participam. Esta verdade absoluta, argumenta ele, é Deus, que é a base ou princípio de tudo e do pensamento. A visão de mundo de Anselmo era, grosso modo, a do neoplatonismo, que herdou de seu grande influenciador, Santo Agostinho, assim como de Dionísio Areopagita, possivelmente, de Escoto. Ele também herdou sua forma racionalista de pensar de Aristóteles e de Boécio.


Provas teístas
O "Monológio", escrito em 1077, inclui uma defesa da existência de Deus, mas também muitas discussões sobre os atributos divinos e sua economia, além de algumas sobre a mente humana. A obra começa assim:
“Se alguém não sabe, seja por que não ouviu ou por que não acredita, que há uma natureza, suprema sobre todas as coisas existentes, que sozinha é autossuficiente em sua felicidade eterna, que através de sua bondade onipotente concede e faz com que todas as coisas existam ou tenham algum tipo de bem-estar, e uma grande quantidade de outras coisas que devemos acreditar sobre Deus ou sua criação, penso que este devia pelo menos se convencer da maior parte destas coisas pela simples razão se for moderadamente inteligente ”.
Nos primeiros capítulos, apresenta a defesa da bondade em todas as coisas que só podem existir pela presença da bondade "em si". A prova do Monológio argumenta a partir da existência de muitas coisas boas em direção a uma unidade da bondade, uma única coisa através da qual todas as outras coisas são boas. Ele continua explicando que "coisas" são chamadas de "boas" em graus e formas variadas que seriam impossíveis se não houvesse algum padrão absoluto e alguma bondade "em si", da qual toda bondade relativa é parte. O mesmo vale para adjetivos como "grande" ou "justo", por meio do qual coisas tem uma certa medida de grandeza e justiça. Anselmo usa este raciocínio para afirmar que a própria existência de coisas seria impossível sem algum único Ser através do qual elas passam a existir. Este Ser absoluto, esta bondade, justiça e grandeza, é Deus. Anselmo não se satisfaz completamente com este raciocínio, porém, por que começa a partir de bases a posteriori, ou seja, é um raciocínio indutivo e não uma dedução como preferia.
Em seu Proslógio, Anselmo tentou encontrar um único argumento que não precisava de nada além de si próprio como prova, que seria suficiente em si mesmo para mostrar que Deus realmente existe; que ele é a bondade suprema dependente de nada mais, mas do qual tudo depende para existir ou para seu bem-estar. Estudiosos medievais chamaram-no de "ratio Anselmi" ("argumento de Anselmo"). Immanuel Kant posteriormente chamou-o de "argumento ontológico". Anselmo definia sua crença na existência de Deus utilizando a frase "aquele que não se pode conceber nada que seja maior". Ele argumentava que, se "aquele que não se pode conceber nada que seja maior" existisse apenas no intelecto, ele próprio não seria "aquele que não se pode conceber nada que seja maior", uma vez que se pode conceber que exista na realidade, que é maior que o intelecto apenas. Segue daí, segundo Anselmo, que "aquele que não se pode conceber nada que seja maior" deve existir na realidade. A maior parte do "Proslógio" é dedicada à tentativa de Anselmo de estabelecer a identidade "daquele que não se pode conceber nada que seja maior" como sendo Deus, estabelecendo assim que Deus existe de fato.
A prova ontológica de Anselmo tem sido objeto de controvérsia desde que foi publicada pela primeira vez na década de 1070. Ela foi combatida na época pelo monge Gaunilo em sua "Liber pro Insipiente", onde argumentava que humanos não podiam passar do intelecto para a realidade. A resposta de Anselmo veio em sua "Responsio". A crítica de Gaunilo foi depois repetida muitas vezes por filósofos posteriores, entre eles Tomás de Aquino e Kant. Anselmo escreveu diversos outros argumentos para a existência de Deus baseados em argumentos cosmológicos e teleológicos.

Outras obras
Deus Pai e a Virgem Maria, dois temas explorados por Anselmo em sua teologia.
Em suas demais obras, Anselmo luta para afirmar a base racional das doutrinas cristãs da criação e da Trindade, que ele discutiu primeiro afirmando que seres humanos não poderiam conhecer Deus em si, mas apenas através de uma analogia. A que ele utilizou foi a da autoconsciência do homem.
A peculiar dupla natureza da consciência - memória e inteligência - representam a relação do Pai com o Filho. O amor mútuo entre os dois, que procede de uma relação que eles mantém entre si, é o Espírito Santo. As demais doutrinas teológicas sobre o homem, como o pecado original e o livre arbítrio, foram desenvolvidas no "Monológio" e em outros tratados.
A visão da satisfação na teoria da Expiação foi formulada por Anselmo em seu obra "Cur Deus Homo" ("Por que Deus foi feito Homem?"). Ele tentou ali explicar a necessidade racional do mistério cristão da expiação. O ponto central do argumento é que o ser humano pode compensar pelo pecado humano contra Deus, mas sendo a compensação impossível para qualquer ser humano individual, ela só poderia ser feita por Deus. Um ato assim só seria possível para Jesus Cristo, o Filho, que é tanto Deus quanto homem. A expiação é alcançada através da morte de Cristo, que tem valor infinito. Em última instância, na interpretação de Anselmo sobre a expiação, a justiça e a misericórdia divina em seus sentidos mais amplos se mostram completamente compatíveis. Melhor explicando: se Deus desejasse meramente perdoar os pecados do homem Sua misericórdia teria se conflitado com Sua justiça. Para reconciliar misericórdia e justiça era necessário um oferecimento maior que a desobediência do homem. Somente Deus poderia fazer este oferecimento, mas somente o homem deveria fazê-lo, assim somente o Deus-homem-Jesus poderia fazer, como realmente O fez na Cruz.
De acordo com esta visão, o pecado seria um débito frente à justiça divina que precisa ser pago de alguma forma. Assim, nenhum pecado, segundo Anselmo, pode ser perdoado sem uma devida "satisfação". Porém, o débito incorreto é algo muito maior que um ser humano é capaz de pagar. Todo serviço que uma pessoa pode oferecer a Deus já está alienado por conta de outros débitos para com Deus. A única forma pela qual se pode dar a satisfação - para que o homem se livre de seus pecados - seria pela vinda de um "Redentor" que fosse também tanto homem quanto Deus. Ele próprio teria que ser livre de todo pecado e, portanto, não ter nenhum débito incorrido. Sua morte seria então maior do que todos os pecados incorridos pela humanidade e corresponderia a uma superabundante "satisfação" à justiça divina.
Anselmo negou a crença que no que atualmente chamamos de Imaculada Conceição, embora sua forma de pensar tenha lançado as bases para o desenvolvimento da doutrina no ocidente. Em "De virginali conceptu et de peccato originali" ("Do Conceito de Virgindade e o Pecado Original"), Anselmo propôs dois princípios que se tornariam fundamentais na discussão. O primeiro é que seria adequado que Maria fosse tão pura que nenhum outro ser mais puro pudesse ser imaginado, com exceção de Deus. O segundo, que abriu caminho para o dogma no futuro, foi sua compreensão sobre o pecado original.  Anselmo afirmou que o pecado original seria nada mais do que a natureza humana desprovida da justiça divina e que seria transmitida (no nascimento) por que os pais não podem conceder a justiça divina por que eles próprios não a têm. O pecado original seria portanto a transmissão da decadência da natureza humana. Em contraste, os contemporâneos de Anselmo defendiam que a transmissão do pecado original teria relação com a natureza lasciva do ato sexual. Anselmo foi o primeiro a separar o pecado original do desejo sexual.


Influência
As obras de Anselmo foram copiadas e disseminadas ainda durante a sua vida e exerceram grande influência sobre os escolásticos posteriores como Boaventura, Tomás de Aquino, João Duns Escoto e Guilherme de Ockham. Seu tratado sobre a processão do Espírito Santo ajudou a guiar as especulações escolásticas sobre a Trindade, "Cur Deus Homo" iluminou o caminho para a teoria da Expiação e sua obra antecipou muito do que seria discutido nas futuras controvérsias sobre o livre arbítrio e a predestinação.


Reconhecimento
O aniversário da morte de Anselmo, em 21 de abril, é celebrado pela Igreja Católica, pela maior parte da Comunhão Anglicana e por algumas correntes do luteranismo. Sua canonização foi solicitada por Tomás Becket em 1163 e é possível que tenha sido formalmente canonizado em algum momento antes da morte deste em 1170, mas nenhum registro oficial sobreviveu, apesar de, a partir daí, Anselmo ter sido incluído no rol dos santos em Cantuária e em outros lugares. Alguns estudiosos defendem que a canonização de Anselmo só teria sido executada em 1494 pelo Papa Alexandre VI. Foi proclamado Doutor da Igreja em 1720 por Clemente XI. Em 21 de abril de 1909, 800 anos depois de sua morte, São Pio X emitiu uma encíclica, "Communium Rerum", elogiando Anselmo, sua carreira eclesiástica e suas obras. Seu símbolo na hagiografia é um navio que representa a independência espiritual da Igreja.


Famosa Oração de São Anselmo;
“Oh, meu Senhor e meu Deus, nos dê a graça de desejar a Vós com todo nosso coração, porque desejando-O , iremos procura-Lo procurando-O , iremos encontra-Lo, encontrando- O, iremos ama-Lo, amando- O, iremos odiar aqueles pecados que Vós nos redimistes na Cruz”!

Frases famosas de Santo Anselmo:
“Não quero saber para crer, mas crer para saber”
“Acreditamos que vós (Deus) sois algo que nada se pode conceber que vos seja maior”.




segunda-feira, 20 de abril de 2015

Venerável Servo de Deus Atílio Giordani, Colaborador Salesiano (1913 - 1972)



Atílio Giordani nasceu em Milão no dia 3 de fevereiro de 1913. Distingue-se desde os primeiros anos por sua grande paixão pelo Oratório e, já aos dezoito anos, pela sua dedicação aos jovens oratorianos.
Por decênios é catequista diligente e animador constante e genial, com muita simplicidade e serena alegria. Cuida da liturgia, da formação, do jogo, do tempo livre, das férias dos seus jovens, do teatro. Ama a Deus com todo o coração e encontra na vida sacramental, nas orações e na direção espiritual os recursos para a vida na graça.
Durante o serviço militar que começa em 1934 e termina, com fases alternadas, em 1945, demonstra senso apostólico entre seus companheiros de arma. Emprega-se na indústria Pirelli de Milão onde também espalha alegria e bom humor, com o mais profundo senso do dever.
Na própria família é um marido rico de grande fé e de serenidade, com uma desejada austeridade e pobreza evangélica em favor dos mais necessitados. Todos os dias, é fiel à meditação, à Eucaristia e ao Rosário.
Atento às vicissitudes de sua família (os três filhos já estavam no Brasil para um período de voluntariado missionário) decide ele próprio - de acordo com a sua Noemi - partirem juntos, marido e mulher, para partilhar totalmente a sua paternidade e a vocação dos filhos ao voluntariado. Também no Brasil ele continua a ser catequista e animador.

Um dia, em 18 de dezembro de 1972, em Campo Grande, durante uma reunião, está falando com entusiasmo e com ardor do dever de dar a vida pelos outros, quando imprevistamente se sente desfalecer. Há tempo apenas para dizer ao filho: “Pier Giorgio, agora continue você” e morre fulminado por um enfarte. O seu corpo transportado para a Itália repousa na Igreja de Santo Ambrósio em Milão.

São Carlo Acutis, o anjo da juventude. A comovente história do menino que, no leito de morte, ofereceu sua vida pela Igreja e pelo Santo Padre





Algumas pessoas saem da vida para entrar na história; outras, para entrar no céu. Em 12 de outubro de 2006, falecia o jovem Carlo Acutis, vítima de uma grave leucemia. No leito de morte, desejou ardentemente que seus sofrimentos fossem oferecidos a Deus pela Santa Igreja e pelo Papa. O testemunho do rapaz, de apenas 15 anos, comoveu toda a Itália, tornando-o modelo de santidade, sobretudo para a juventude. No momento, a Diocese de Milão, à qual Acutis pertencia, trabalha na sua causa de beatificação.





São Carlo Acutis nasceu em Londres, na Inglaterra, a 03 de maio de 1991. Os primeiros dias de vida foram também os primeiros de sua jornada para Deus. Com uma fé católica profundamente arraigada, os pais, André e Antônia, não tardaram a lhe providenciar o batismo, preparando para a ocasião um pequeno bolo em formato de cordeiro, como forma de agradecimento ao Senhor pela entrada do filho na comunidade cristã. Um simbolismo profético. A exemplo do Cordeiro de Deus, o pequeno Acutis também se faria tudo para todos, a fim de completar na própria carne - como diz o Apóstolo São Paulo, ao explicar o valor salvífico do dor - o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja.

Crescendo em Milão, o pequeno Carlo demonstrou as virtudes cristãs desde a infância. Era uma criança alegre, de comportamento suave, que cativava a todos - principalmente as babás - com o seu entusiasmo contagiante. E se algum amiguinho aprontava-lhe uma maldade, sabia colocar a caridade acima do instinto: "o Senhor não seria feliz se eu reagisse violentamente". Aos 12 anos de idade, a Santa Missa já lhe era o bem mais precioso. Comungava diariamente, haurindo da Eucaristia a graça para uma vida santa.

Tamanha espiritualidade chamava a atenção dos mais próximos. Certa vez, preferiu participar de uma peregrinação a Assis, Itália, a visitar outros lugares para diversão. O comportamento do garoto levava os parentes a considerarem-no uma "vítima dos pais". Mas não era nada disso. Como confidenciaria a seu diretor espiritual, poucos dias antes de sua derradeira páscoa, Assis era o lugar onde mais se sentia feliz. Juntamente com Nossa Senhora de Fátima, São Francisco era-lhe o grande santo de devoção, principalmente por sua pequenez e humildade.

Vibrante, apaixonado pela vida, tinha no apostolado o fim último de toda a sua ação. Entendera cedo o "chamado universal à santidade". Daí a disponibilidade para com todos, fazendo-se amigo de qualquer um, mesmo dos mais tímidos. "Ele acreditava no diálogo íntimo com o Senhor - conta um dos colegas - e rezava o rosário todos os dias. Após a morte de Carlo voltei para a Igreja e acho que isso pode ser mérito de sua intercessão".

No Instituto Liceo Classico Leão XIII, onde iniciou o ensino médio, desenvolveu sua paixão por computadores. Carlo criou um site dedicado aos milagres eucarísticos e à vida dos santos. "Decidi ajudá-los - dizia o jovem na página da internet - compartilhando alguns dos meus segredos mais especiais para aqueles que desejam rapidamente alcançar o objetivo da santidade". Carlo Acutis insistia na Missa diária, na récita do rosário, na lectio divina, na confissão e no apego aos santos. "Peça ao seu Anjo da Guarda para ajudá-lo continuamente, de modo que ele se torne seu melhor amigo", recomendava.

Em 2006, com apenas 15 anos, Carlo Acutis descobriria uma grave doença: a leucemia. Confundida inicialmente com uma inofensiva "caxumba", o mal acabou se alastrando rapidamente, mesmo com os vários tratamentos, causando-lhe a morte em apenas um mês. Às 06h45minh de 12 de outubro de 2006, o Senhor o levava para a vida eterna. Perto de falecer, confidenciou aos pais: "Ofereço todos os sofrimentos desta minha partida ao Senhor, ao Papa e à Igreja, para não fazer o Purgatório e ir direto para o Paraíso."

A postuladora para a causa dos Santos da Arquidiocese de Milão, Francesca Consolini, afirma que a fé de Carlo Acutis era "singular": "levava-o a ser sempre sincero consigo mesmo e com os outros (...) era sensível aos problemas e as situações de seus amigos, os companheiros, as pessoas que viviam perto a ele e quem o encontrava dia a dia". O testemunho do rapaz pode ser encontrado na sua biografia, "Eucaristia, minha rodovia para o céu", escrita por Nicola Gori, articulista do L'Osservatore Romano.

O corpo de Carlo Acutis foi sepultado em Assis, cidade de São Francisco, por sua especial devoção ao santo. 


Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Observações: 
Foi Beatificado pelo Papa Francisco, em 2020 e
    Foi  dia 07 de setembro de 2025 pelo Papa Leão XVI 

São Carlo Acutis. Adolescente que comove a Itália ao oferecer sua vida pela Igreja e pelo Papa.


Carlo Acutis, um adolescente moderno
a caminho dos altares.
Em outubro de 2006, São Carlo Acutis tinha 15 anos de idade e sua vida se apagou por uma agressiva leucemia. O adolescente, oriundo de Milão, comoveu familiares e amigos ao oferecer todos os sofrimentos de sua enfermidade pela Igreja e pelo Papa. Seu testemunho de fé, que em alguns anos poderia valer o início de um processo de beatificação, sacode nestes dias a Itália, com a publicação de sua biografia.

"Eucaristia. Minha Rodovia para o Céu. Biografia de Carlo Acutis" é o título do livro escrito por Nicola Gori, um dos articulistas de L’Osservatore Romano, e publicado pelas Edições São Paulo.

Segundo os editores, Carlo "era um adolescente de nosso tempo, como muitos outros. esforçava-se na escola, entre os amigos, era um grande apaixonado por computadores. Ao mesmo tempo era um grande amigo de Jesus Cristo, participava da Eucaristia diariamente e se confiava à Virgem Maria. Morto aos 15 anos por uma leucemia fulminante, ofereceu sua vida pelo Papa e pela Igreja. Sua vida suscitou profunda admiração em quem o conheceu. O livro nasce do desejo de contar a todos sua simples e incrível historia humana e profundamente cristã".

"Meu filho sendo pequeno, e sobre tudo depois de sua Primeira Comunhão, nunca faltou à celebração cotidiana da Santa Missa e do Terço, seguidos de um momento de Adoração Eucarística", recorda Antonia Acutis, mãe de Carlo.

"Com esta intensa vida espiritual, Carlo viveu plena e generosamente seus quinze anos, deixando em quem o conheceu um profundo traço. Era um moço especialista em computadores, lia textos de engenharia informática e deixava a todos estupefatos, mas este dom o colocava a serviço do voluntariado e o utilizava para ajudar seus amigos", adiciona.

"Sua grande generosidade o fazia interessar-se em todos: os estrangeiros, os portadores de necessidades especiais, as crianças, os mendigos. Estar próximo a Carlo era esta perto de uma fonte de água fresca", assegura sua mãe.

Antonia recorda claramente que pouco antes de morrer Carlo ofereceu seus sofrimentos pelo Papa e pela Igreja. Certamente o heroísmo com a qual confrontou sua enfermidade e sua morte convenceram a muitos que verdadeiramente era alguém especial. Quando o doutor que o acompanhava perguntava se sofria muito, Carlo respondeu: “Há gente que sofre muito mais que eu”!



"Fama de santidade"

Francesca Consolini, postuladora para a causa dos Santos da Arquidiocese de Milão, acredita que no caso de Carlo há elementos que poderiam levar a abertura de um processo de beatificação, quando se fizerem cinco anos de sua morte, como o pede a Igreja.

"Sua fé, singular em uma pessoa tão jovem, era poda e segura, levava-o a ser sempre sincero consigo mesmo e com os outros. Manifestou uma extraordinária atenção para o próximo: era sensível aos problemas e as situações de seus amigos, os companheiros, as pessoas que viviam perto a ele e quem o encontrava dia a dia", explicou Consolini.

Para a especialista, Carlo Acutis "tinha entendido o verdadeiro valor da vida como dom de Deus, como esforço, como resposta a dar ao Senhor Jesus dia a dia em simplicidade. Queria destacar que era um moço normal, alegre, sereno, sincero, voluntarioso, que amava a companhia, que gostava da amizade".

São Carlo "tinha compreendido o valor do encontro cotidiano com Jesus na Eucaristia, e era muito amado e procurado por seus companheiros e amigos por sua simpatia e vivacidade", indicou.

"Depois de sua morte muitos sentiram a necessidade de escrever uma própria lembrança dele e outros comentaram que vão pedir sua intercessão em suas orações: isto fez com que sua figura seja vista com particular interesse" e em torno de sua lembrança está se desenvolvendo o que se chama "fama de santidade", explicou.

A apresentação do livro foi redigida por Dom Michelangelo Tiribilli, Abade Geral dos Beneditinos do Monte Oliveto, e se inclui o testemunho do sacerdote Gianfranco Poma, o pároco de Carlo.


Para mais informação sobre o livro escrito em italiano, pode-se visitar http://www.libreriauniversitaria.it/eucaristia-minha-autostrada-céu-biografia/libro/9788821560385




Notas: 
Foi beatificado pelo Papa Francisco em 2020, graças ao reconhecimento de um milagre ocorrido no Brasil (a cura de uma criança em risco de morte com pângreas anelar). 
Foi canonizado pelo Papa Leão XIV no dia 07 de setembro de 2025 (junto com São Pier Giorgio Frassati) graças à cura milagrosa de jovem atropelada, com traumatismo craniano grave, com perda de massa encefálica, que ou morreria ou ficaria comatosa, gravemente sequelada.  

Venerável Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico, Virgem e Fundadora (do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada)


Em 08 de janeiro de 1972, há 42 anos, a serva de Deus, Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico deixava o mundo para habitar a Casa do Pai. Conheça a história da missionária e fundadora do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, mais uma candidata aos altares do nosso Brasil. 

Dulce Rodrigues dos Santos nasceu em São Paulo, em 1901. Ainda jovem, nutria o desejo de dedicar-se à vida religiosa, porém sua saúde era frágil e aos 21 anos, com tuberculose, mudou-se com sua mãe para São José dos Campos.

Mesmo tento um físico frágil e delicado, Dulce não abandonou o seu anseio por seguir a Deus e abraçou a vontade do Senhor. Durante sua recuperação, a jovem Dulce preocupava-se com a saúde daqueles que chegavam às pensões em busca de tratamento. Assim, já restabelecida, começou a oferecer aos doentes um pouco de conforto, visitando-os, levando-lhes boas leituras e sua caridade.

Outras jovens uniram-se à Dulce na missão, surgindo, assim, um pequeno pensionato, no qual os doentes encontravam não apenas o tratamento para sua enfermidade, mas também o calor e alegria advindos da Palavra de Deus.

Dom Epaminondas Nunes D’ávila e Silva, bispo da Diocese de Taubaté, a qual pertencia São José dos Campos, soube, através do Padre Ascânio Brandão, de santa memória, dos trabalhos realizados pelas jovens e chamou Dulce para uma conversa. Ali, ambos entenderam que compartilhavam o mesmo desejo de servir a vontade do Senhor.

Então, Dom Epaminondas pede a Dulce que escreva seus propósitos e o entregue. Aos pés da Virgem, a jovem escreveu o que seria mais tarde a espiritualidade e a maneira de ser da Pequena Missionária.

Em 15 de agosto de 1932, para que a obra se concretizasse e perdurasse pelo tempo, Dom Epaminondas transformou-a na Associação Pia e autorizou as jovens a usarem um uniforme. Na época, a associação contava com cinco associadas, entre eles a Dulce.

Mais tarde, em 08 de dezembro de 1934, as missionárias receberam seus hábitos religiosos e a Associação Pia passou a chamar-se Congregação Religiosa. As constituições escritas por Dulce, a qual as irmãs já chamavam de Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico, foram enviadas a Roma.

A Santa Sé, pela voz do papa Pio XI, concede a aprovação pelo Decreto de Beneplácito. Assim, em 08 de novembro de 1936, o segundo bispo de Taubaté, Dom André Arcoverde de Albuquerque Cavalcante, faz a Ereção Canônica da Congregação.

Em 21 de novembro do mesmo ano, Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico, confirmada como a Mãe do Instituto, faz seus votos perpétuos. Em 06 de dezembro, a Madre é empossada no cargo de superiora geral e impõe o véu às noviças que deviam iniciar o noviciado canônico. As primeiras irmãs do Instituto, nas mãos da Madre, são dispensadas no noviciado. Assim, a congregação, já inserida na Igreja, segue sua trajetória.


APROVAÇÃO PONTIFÍCIA
Muitas vocações foram chegando e as Irmãs foram solicitadas para novas fundações. Instalaram-se novas comunidades em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e mais recentemente, após o falecimento de sua fundadora, no Distrito Federal e Santa Catarina, além de duas Comunidades em Portugal.

Sempre na vanguarda de sua pequena grei, Madre Maria Teresa foi uma alma de mãe, de pastora, de apóstola. Viu espalhar-se para a glória de Deus a sua Congregação. Em 11 de fevereiro de 1952, Madre Teresa teve a alegria que é dada a poucos fundadores: ver concedido à Congregação o Decreto de Louvor, tornando-a Pontifícia. E ainda mais: em pleno Concílio Vaticano II, aos 08 de dezembro de 1964, recebeu de Sua Santidade o Papa Beato Paulo VI a aprovação definitiva do Instituto, como confirmação de que a Congregação, seu espírito, suas obras, suas atividades e objetivos estão perfeitamente dentro do espírito da Igreja e atingem as necessidades atuais do mundo e as exigências da evangelização.


TESTAMENTO DA FUNDADORA

A vida de Madre Teresa é uma busca constante da intimidade com Deus, principalmente na Adoração da Eucaristia, fonte de força para anunciar o Reino.
Seu amor para com Nossa Senhora, Maria Imaculada, torna-a uma propagadora incansável da devoção à Mãe de Jesus e nossa Mãe.
A espiritualidade de Madre Teresa, centrada no mistério Eucarístico, leva-a a ter um amor todo especial pelos Sacerdotes, herança bem presente no coração de cada Pequena Missionária.

Aos setenta anos, cansada no corpo, cheia de entusiasmo no espírito, tendo dedicado toda a sua vida à Igreja, à sua Congregação e ao anúncio do Evangelho, percorrendo a Pequena Via de Santa Teresinha, morreu em 08 de janeiro de 1972, após um período curto de enfermidade. Assim, parte para a casa do Pai. tendo cumprido fiel e amorosamente sua missão.

Seu testamento, deixado poucas horas antes de morrer, diz da certeza de um ideal conquistado: “Sejam santas! Sejam fiéis ao Papa, à Igreja e às Constituições! Amem muito o Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora! Sejam unidas e assim serão felizes”!


Suas filhas espirituais e continuadoras de sua obra sentem que, em Deus, sua luz que é a do próprio Deus, continua a guiá-las.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

São Dionísio (ou Dinis) de Paris, Bispo e Mártir


São Dionísio de Paris, depois de ter sua cabeça decepada, caminhou ainda seis quilômetros com ela nas mãos, pregando o Evangelho


Dos muitos mártires que a fé em Cristo já gerou ao longo dos séculos, em todos os cantos da terra, a Igreja celebra, hoje, a memória de São Dinis de Paris (Saint Denis), bispo e padroeiro da França.

São Dinis – que também se pode chamar de “Dionísio" – foi morto em meados do século III, durante o curto reinado do imperador romano Décio. Os dois anos em que ficou à frente do Império foram suficientes para que sua crueldade fosse comparada à do terrível Nero. Em pouco tempo, ele fez incontáveis vítimas no meio do clero e entre os próprios fiéis, elevando à honra dos altares nomes como Santa Ágata, São Saturnino e o próprio Papa Fabiano.

Como morreu São Dinis? Durante o seu pontificado, São Fabiano enviou à então província da Gália sete missionários cristãos, dentre eles Saturnino, mandado a Toulouse, e o próprio Dinis, que se fixou na Lutécia, onde atualmente fica a cidade de Paris. A eloquência de Dionísio logo colocou em polvorosa os sacerdotes pagãos do local, que ficaram alarmados pelas várias conversões que ele, por obra de Deus, conseguia. Um edito do imperador Décio, exigindo que todos prestassem o culto a César, tornou fácil a captura de Dinis, que se destacava por sua coragem e fidelidade. Um dia, levaram-no ao alto de um monte e cortaram a sua cabeça e as de seus fiéis companheiros, Rústico e Eleutério.

O mais incrível é que, segundo a tradição, o bispo Dionísio ainda saiu do Montmartre – “monte do mártir", como ficou conhecido o lugar – e caminhou seis quilômetros, carregando a sua cabeça e pregando um sermão sobre o arrependimento, até chegar ao lugar onde foi enterrado. A iconografia cristã geralmente o retrata segurando a sua cabeça, ainda com a mitra. Hoje, o “apóstolo da Gália" é invocado pelo povo cristão contra dores de cabeça e possessões demoníacas, além de ser homenageado como um dos primeiros pais da França.

O seu impressionante testemunho ilustra como nem depois de mortos os santos se calam. Se, nesta terra, com a sua pregação e vida, Dionísio glorificou sumamente a Deus, chegando ao heroísmo do martírio, após a sua morte, ele mesmo encorajou muitos outros homens a darem a vida por Cristo, cumprindo a profecia de Tertuliano, para quem o sangue dos mártires era semente de novos cristãos.

É importante lembrar que as ofertas dos perseguidores para que os cristãos “livrassem a sua pele” eram coisas aparentemente simples. Daniel-Rops conta que os suspeitos de seguirem a Cristo eram “conduzidos ao templo e convidados a sacrificar aos deuses ou, pelo menos, a queimar incenso na frente do altar”. Depois, caso persistisse “a acusação de cristianismo, o acusado era convidado a pronunciar uma fórmula blasfema, na qual renegava Cristo”. Por fim, celebrava-se uma refeição, “uma espécie de comunhão pagã, em que os suspeitos deviam comer carne das vítimas imoladas e beber vinho consagrado aos ídolos” [1]. Se fizessem qualquer uma dessas coisas, os cristãos se safavam e não eram mortos.

Representação da cena do milagre
Diante de uma perseguição como a impetrada por Décio, pode-se imaginar como era grande a tentação de jogar um pouquinho de incenso diante dos ídolos... Afinal, um punhado de incenso, que mal poderia haver? Mas, os santos não se improvisam. “Quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará" (Mt 16, 25). Os carrascos que olhavam para os mártires certamente pensavam em seus corações que se tratavam de loucos, assim como a modernidade comumente pinta as imagens dos primeiros mártires como “suicidas", como se fossem homens desgostosos da vida, à procura da morte. À luz do Evangelho, no entanto, a entrega dessas pessoas não era simplesmente a renúncia da vida, mas a adesão à verdadeira Vida, por amor. O “não” de Dionísio, Rústico e Eleutério à idolatria, à blasfêmia e às carnes sacrificadas pelos ídolos foi, ao mesmo tempo, um belo e glorioso “sim” a Deus, ao Seu nome e à Sua vontade.

Hoje, talvez não nos seja pedida a entrega física dos primeiros mártires, que tiveram suas cabeças, braços e pernas decepados por causa de Cristo. Mas, sem dúvida, é-nos pedida a fidelidade de cada dia, pela qual todo cristão é sempre um mártir:

“Sendo muitas as perseguições, também são numerosos os martírios. Todos os dias és testemunha de Cristo. Foste tentado pelo espírito de fornicação; mas, por temor do futuro juízo de Cristo, julgaste que não devias manchar a pureza da alma e do corpo: és mártir de Cristo. Foste tentado pelo espírito de avareza para assaltar a propriedade do teu inferior ou para violar os direitos da viúva indefesa; todavia, meditando nos preceitos divinos, preferiste prestar ajuda a praticar injustiças: és testemunha de Cristo. (...) Foste tentado pelo espírito de soberba; mas, ao ver o pobre e o necessitado, compadeceste-te piedosamente e preferiste a humildade à arrogância: és testemunha de Cristo."
“Como são numerosos todos os dias os mártires ocultos de Cristo, os que confessam o Senhor Jesus! O Apóstolo conheceu este martírio e este fiel testemunho, ao dizer: É esta a nossa glória e o testemunho da nossa consciência." [2]
Com os santos, aprendemos que “quem começa a servir verdadeiramente o Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a própria vida”, como ensinava Santa Teresa de Ávila. Peçamos a intercessão de São Dionísio, para que nos ajude a sermos testemunhas de Cristo onde for: senão no alto dos montes, nas arenas dos leões ou no madeiro das cruzes, em nossas casas, em nossas escolas e em nossos trabalhos.

São Dionísio, mártir, rogai por nós!

1.    Henri Daniel-Rops. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014.p. 360

2.    Santo Ambrósio, Sermo 20, 47-50: CSEL 62, 467-469



Catedral Basílica de São Dinis em Paris. 

Detalhes do padroeiro no pórtico da Catedral

Interior da magnífica Catedral de Paris