São João da Cruz é muito mais conhecido por suas obras de espiritualidade, recheadas com sua iminente sabedoria e vida mística. Ainda hoje é objeto de estudos em faculdades de filosofia e de teologia e até mesmo por pensadores e cientistas não católicos e até não cristãos. Suas obras principais: Subida ao Monte Carmelo, Noite Escura da Alma, Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor encantam pela doutrina espiritual sólida, profunda, pungente e até - poderíamos dizer - "misteriosa", pois, para um místico é muito difícil descrever em palavras suas experiências místicas, vividas em seu relacionamento íntimo com o Amado Deus.
Muitos são os que acham que São João da Cruz é "difícil" de ser entendido. Que seus escritos são "complicados" de serem lidos. E, por causa disso, julgam que era um homem austero e duro com os outros, porém, ele era exatamente o contrário: era dulcíssimo, uma alma humilde e cândida, de ótima convivência fraterna e muito querido por seus confrades, bem como por Santa Teresa e as demais monjas que tiveram a graça de ouvir suas preleções, serem atendidas em confissão por ele ou serem dirigidas espiritualmente por ele.
Hoje, o site: Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus traz uma visão nova do Santo: sua ternura e sua caridadade fraterna, pouco conhecidas...
A ternura escondida de São João da Cruz
Na vida de São João da Cruz há um fio silencioso que atravessa seus dias com uma luz especial: o cuidado dos frades doentes. Não foi para ele uma tarefa secundária nem um gesto ocasional de bondade, mas um lugar privilegiado onde amar Deus em carne viva. Na doença de seus irmãos, Frei João reconheceu um altar discreto, e lá se inclinou com uma delicadeza que surpreendia aqueles que apenas conheciam sua fama de homem austero.
Este procedimento não foi por acaso. João tinha bebido profundamente do espírito da Madre Teresa, que insistia com firmeza — e ternura — que as doentes deviam ser cuidadas com todo amor, sem poupar atenção nem sacrifícios. A Santa não tolerava uma observância que esquecesse a caridade, e Frei João, fiel discípulo, traduziu esse desejo em gestos concretos e quotidianos. Em seus conventos, a atenção aos doentes tornou-se uma prioridade silenciosa e constante.
Quando alguém adoecia, o Prior tornava-se servidor. Deixava livros, encomendas e preocupações para entrar na cela do doente com um passo leve e olhar atento. Não estava com pressa nem com gravidade impostada, mas com uma proximidade simples que fazia o doente sentir-se olhado e amado. Testemunhas lembram-se de como ele próprio preparava a comida, adaptando-a ao gosto e à fraqueza do irmão: um caldinho macio, um peito bem cozido, algo que pudesse acontecer sem esforço. Arrumei a cama, ajustei o cobertor, abria a janela se o ar estivesse pesado. Fazia tudo como quem cumpre um dever sagrado, sem aspavientos, sem esperar agradecimentos.
Diz-se que quando uma epidemia de constipação e febres se espalhou por Baeza, Frei Juan redobrou a sua presença entre os doentes. Não se limitava a dar ordens: entrava, sai, perguntava, observava, e não raramente esfregava panelas ou varria, para que nada faltasse aqueles que estavam acamados. Aquele pedido concreto era o seu modo de viver a reforma: uma reforma feita de amor prático.
Tinha um dom especial para acompanhar o sofrimento. Sabia quando falar e quando calar. Às vezes sentava-se junto à cama e começava uma conversa simples, quase quotidiana, para distrair o irmão da sua dor. Outras vezes, contava uma anedota engraçada ou um estalinho oportuno, convencido de que um sorriso podia aliviar mais do que muitos raciocínios. Há testemunhos que lembram como ele pediu que levasse música aos doentes, porque — dizia — o coração também precisa de conforto, não apenas do corpo. Essa delicadeza revela um conhecimento profundo da alma humana, tão afinado quanto sua doutrina espiritual.
São João da Cruz não era apenas o Santo da vida mística,
mas, o Santo da caridade fraterna.
Os frades diziam que, nesses momentos, Frei Juan parecia outro: não o mestre exigente da noite escura, mas um pai amável, quase maternal. Sua presença infundia paz. O doente sentia que não era um fardo, que sua fragilidade tinha um lugar na comunidade. Frei Juan não tratava a doença como um estorvo para a vida religiosa, mas como uma forma diferente de vivê-la, mais nua, mais verdadeira, em plena sintonia com o que Teresa tinha sonhado para suas casas.
Nos seus gestos se transparentava uma fé sem discursos. Não prometia curas nem adoçava o sofrimento com palavras vazias. Ensinava a confiar. Lembrei-me suavemente que Deus estava perto, até — e talvez mais — na fraqueza. Seu jeito de cuidar falava de um Deus que não foge da dor humana, mas se inclina sobre ele com amor paciente, como o bom samaritano do Evangelho.
Mesmo quando ele próprio estava cansado ou doente — e não foram poucas as suas doenças — ele não se desentendia dos outros. Sua caridade não dependia da força do momento, mas de uma decisão profunda: amar até o fim. Para seus frades, aquele cuidado silencioso foi uma lição indelével. Aprenderam que a santidade nem sempre se manifesta em grandes gestos nem em palavras sublimes, mas em uma sopa quente levada a tempo, numa visita repetida, numa visita repetida sem cansaço, numa noite velada ao lado do irmão sofrendo.
Assim foi São João da Cruz com seus doentes: um pai pequeno que soube curvar-se, um discípulo fiel da Madre Teresa na caridade concreta, um místico que encontrou Deus não só na noite luminosa da fé, mas também na fragilidade tremida de seus irmãos. E talvez ali, nessas celas humildes e silenciosas, ardeu uma das chamas mais puras do seu amor.
Fonte de referência:
José Vicente Rodriguez, San Juan de la Cruz. A biografia, Editorial San Pablo, Madrid 2012.
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