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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

terça-feira, 19 de junho de 2018

Beatos Sebastião Newdigate, Walter Pierson, Guilherme Exmew, João Houghton e companheiros, monges cartuxos e mártires (perseguição na Inglaterra).


Beato Sebastião Newdigate













Dezoito monges cartuxos de Londres morreram mártires entre 1535 e 1537, durante a perseguição desencadeada pelo rei Henrique VIII da Inglaterra após o cisma. Por se recusarem a repudiar a autoridade do papa, os monges Guilherme Exmew, João Houghton, Onofre Middlemore, Sebastião Newdigate e seus companheiros foram presos, torturados e finalmente, em 19 de junho de 1535, martirizados. O papa Leão XIII os beatificou em 09 de dezembro de 1886 junto com outros mártires da mesma perseguição.


Na grande perseguição dos católicos, decretado pelo rei Henrique VIII na Inglaterra, em cada Ordem religiosa, juntamente com o clero diocesano, ele deixou um saldo de sangue e martírio em defesa da Igreja e da Fé Católica. Todos lembram, pelos livros de história o que houve naqueles tempos: o rei, querendo divorciar-se de sua legítima esposa, a rainha Catarina de Aragão, para casar-se com sua amante, Ana Bolena, exigiu do papa da época, Clemente VII, que o mesmo legitimasse seu intento. Como o papa recusou-se terminantemente a fazer tal absurdo, até porque contraria à santíssima Lei de Deus, o rei, irado e rancoroso, resolveu romper com a Igreja Católica e ordenou que todo o reino o fizesse, fundando a chamada “igreja da Inglaterra” ou “igreja anglicana”. As primeiras vítimas de seu ódio ao papa e à Igreja Católica foram seu próprio primeiro ministro, Tomás More, e o arcebispo de Canterburry, João Fisher, que foram condenados à decapitação em praça pública e martirizados.
Mesmo os cartuxos, por serem monges, portanto, não dedicados a qualquer atividade política, contribuíram para esse testemunho da Igreja Católica pelo martírio. Os monges da Cartuxa de Londres também receberam a visita dos funcionários do rei que de acordo com o decreto, exigiam a todos os adultos, inclusive aos clérigos e religiosos, que aprovassem o repúdio à determinação do papa, aceitassem o divórcio do rei com sua esposa, a rainha Catarina de Aragão e depois a aceitassem como soberana a Ana Bolena.


Os inocentes homens de Deus, por sua fidelidade à Igreja Católica e sua
doutrina, foram condenados às mais terríveis torturas e morte. 



O então superior da Cartuxa acabou na prisão por ter-se, a princípio, oposto à legalidade do divórcio, mas, depois de um mês, convencido de que este juramento não tocava à sua fé, chegou a jurar a favor do rei e em seguida foi liberado. Voltou para a Cartuxa e convenceu os outros monges de seus argumentos e, assim, em 25 de maio de 1534, juraram aos funcionários, que haviam retornado acompanhados pelos soldados. Um parêntese aqui: o que os monges fizeram não foi dizer que o ato do rei era legítimo, que não seria um pecado pessoal do rei: o de adultério. O que eles entenderam é que o rei, separando-se de Catarina de Aragão, sua esposa, e casando-se, mesmo ilicitamente com Ana Bolena, esta poderia ser tida como rainha da Inglaterra. Como era algo apenas na esfera civil, não contrariava a fé católica.
Bem: a paz não durou muito tempo...  No final de 1534, um novo decreto do rei e do parlamento inglês afirmou que todos os cidadãos ingleses tinham de negar a autoridade do papa e reconhecer o rei como chefe da Igreja Anglicana, também nas coisas espirituais e quem não o fizesse era culpado de crime lesa majestade.




Muitos eram tirados ainda vivos da forca e eviscerados e esquartejados. 


Tendo recebido a notícia, o prior João Houghton reuniu todos os cartuxos e lhes comunicou a ordem do rei. Todos se declaram dispostos a morrer pela Igreja Católica Apostólica Romana. No Cartuxa tinham chegado dois superiores de outras casas (fora da Inglaterra). Foram alertados sobre a situação perigosa dos monges ingleses, mas, em união com os religiosos daquela casa, permaneceram solidários à resolução eles. Os monges da Cartuxa de Londres pediram ao emissário do rei, Tomás Cromwell, que tentasse persuadir Henrique VIII que não os punisse, o que não foi aceito pelo mesmo.
Os dois priores foram presos pelo infame Cromwell e conduzidos à Torre de Londres como rebeldes e traidores. Depois de uma semana passaram por um processo onde, em Westminster, reafirmaram a sua rejeição e, em seguida, foram condenados à morte, novamente presos, e lá, na prisão, juntaram-se a outros dois religiosos condenados pela mesma razão.
Em 04 de maio de 1535 os priores Lourenço Robert e Agostinho Webster, juntamente com o prior Ricardo Reynolds da Ordem de Santa Brígida e o padre João Haile, pároco de Isleworth, vestidos com hábitos religiosos desgastados foram amarrados, deitados em esteiras e arrastados pelas pedras e lama das ruas que levavam a Tyburn, o local notório de execuções.
O padre João Houghton, prior de Londres, também preso e condenado, primeiro subiu à forca e, sem resistência alguma, mas, em suma paz interior, colaborou com o carrasco para ser enforcado, proferindo palavras de perdão e confiança em Deus; mas, ele ainda não havia sufocado quando um dos presentes cortou a corda fazendo com que o padre caísse no chão. O carrasco o despiu, lhe rasgou o ventre e o peito com uma faca e puxou suas entranhas ainda vivo para mostrar seu coração aos conselheiros do rei; seguiu a execução dos outros quatro e seus corpos foram rasgados em pedaços e expostos ao povo para incitar o terror aos "papistas".



Os carrascos os esquartejavam ou retiravam-lhe as
vísceras estando ainda vivos, para causar terror aos "papistas", isto é,
aos católicos fiéis à Santa Sé de Roma.


Três outros cartuxos Umbrido Middlemore, Guilherme Exmew e Sebastião Newdigatede, nobre nascimento, foram presos, torturados e martirizados 19 de junho de 1535. Dois outros que se mudaram de Londres para a Cartuxa de Hull foram denunciados, presos e enforcados em 11 de maio de 1537.
Ainda mais dez cartuxos foram presos em 29 de maio de 1537 em Newgate e vieram a morrer de fome e maus tratos em um curto espaço de tempo, com exceção de um: Guilherme Horn, que sobreviveu à prisão, tendo sido enforcado e esquartejado em 4 de novembro de 1540.
Na Cartuxa, foram dezoito os monges que na esperança de salvar o mosteiro haviam aderido ao juramento, mas, depois de presos, foram expulsos de seu amado mosteiro, posteriormente vendido a particulares.
Os 18 mártires cartuxos de Londres, juntamente com outros 35 mártires daquele período, foram beatificados pelo Papa Leão XIII em 09 de dezembro de 1886.
Alguns mártires daquele período foram canonizados pelo Papa Paulo VI no dia 25 de outubro de 1970, inclusos um grupo de 40 mártires da mesma perseguição inglesa (p.ex.: os citados San Tomás More e João Fisher, São Roberto Campion, etc) A memória litúrgica comum é em 4 de maio, porém, também são lembrados de forma particular em seus respectivos aniversários do martírio.



Fonte de pesquisa: site "Santi e Beati" (www.santiebeati.it)


quinta-feira, 7 de junho de 2018

SÃO FIDÉLIS DE SIGMARINGEN, presbítero e mártir capuchinho - morto por calvinistas



Primeiro Texto Biográfico (Pequena Biografia)


Ele nasceu numa família de nobres em 1577, na cidade de Sigmaringen, na Alemanha, e foi batizado com o nome de Marcos Reyd. Na Universidade de Friburgo, na Suíça, estudou filosofia, direito civil e canônico, onde se formou professor e advogado em 1601. Durante alguns anos, exerceu a profissão de advogado em Colmar, na Alsácia, recebendo o apelido de ‘advogado dos pobres’, porque não se negava a trabalhar gratuitamente aos que não tinham dinheiro para lhe pagar.
Até os trinta e quatro anos, não tinha ainda encontrado seu caminho definitivo, até que, em 1612, abandonou tudo e se tornou sacerdote. Ingressou na Ordem dos Frades Menores dos Capuchinhos de Friburgo, vestindo o hábito e tomando o nome de Fidélis. Escreveu muito, e esses numerosos registros o fizeram um dos mestres da espiritualidade franciscana.
Como era intelectual atuante, acabou assumindo missões importantes em favor da Igreja e, a mando pessoal do papa Gregório XV, foi enviado à Suíça, a fim de combater a heresia calvinista. Acusado de espionagem a serviço do imperador austríaco, os calvinistas tramaram a sua morte, que ocorreu após uma missa em Grusch, na qual pronunciara um fervoroso sermão pela disciplina e obediência dos cristãos à Santa Sé. Em suas anotações, foi encontrado um bilhete escrito dez dias antes de sua morte, dizendo que sabia que seria assassinado, mas que morreria com alegria por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando foi ferido, por um golpe de espada, pelos inimigos, pôs-se de joelhos, perdoou os seus assassinos e, rezando, abençoou a todos antes de morrer, no dia 24 de abril de 1622. O papa Bento XIV canonizou são Fidélis de Sigmaringen em 1724.



Segundo texto biográfico

São Fidélis, capuchinho e mártir, nasceu no ano de 1577, em Sigmaringa, pequena cidade da Alemanha, na Suábia. Seu pai chamava-se João Rey. Fez os primeiros estudos na universidade de Friburgo, na Suíça. Aplicou-se sobremaneira à jurisprudência e formou-se doutor em direito. Levou uma vida mortificada, não bebendo vinho e trazendo sempre o cilício. As virtudes que praticou, entre outras a modéstia e a doçura, valeram-lhe a estima e a veneração de todos os que o conheceram.
Em 1604, partiu com três jovens gentis-homens, que foram enviados a viajar pelas diferentes partes da Europa. Fidélis procurou principalmente inspirar-lhes os mais vivos sentimentos de religião. Sem cessar, dava-lhes exemplo da piedade mais terna. Não deixava passar nenhuma grande festa sem se aproximar da santa comunhão. Em todas as cidades que se encontravam no caminho a ser por ele percorrido, visitava as igrejas e os hospitais e ajudava os pobres, segundo as possibilidades. Chegou até, algumas vezes, a se despojar das próprias roupas, para vestir os indigentes. Após essas viagens, obteve em Colmar, na Alsácia, um lugar na magistratura, cargo que exerceu com muito êxito. A justiça e a religião eram a regra invariável de todo o seu modo de agir.


Interessava-se vivamente pelos indigentes, fato que lhe valeu o cognome de advogado dos pobres. Algumas injustiças que não pode impedir lhe inspiraram desgosto pelo cargo que ocupava. Temendo não ter forças para resistir às ocasiões de pecados, resolveu abandonar o mundo e retirar-se para o convento dos capuchinhos de Friburgo. Vestiu o hábito no ano de 1612 e recebeu do superior o nome de Fidélis. Deu os bens que possuía à biblioteca e ao seminário do bispo, a fim de poder ajudar os jovens clérigos, que não eram suficientemente favorecidos pela fortuna. Todos os outros bens foram distribuídos entre os pobres.
Desde o momento em que se fez religioso, não sentiu ardor senão pelas humilhações e austeridades da penitência. Renunciou à própria vontade, para fazer apenas o que os superiores lhe ordenassem. As tentações que o assaltaram não conseguiram desencorajá-lo. Venceu-as, confiando-se ao diretor espiritual, cujos conselhos seguia com docilidade. As mortificações prescritas pela regra não eram suficientes ao fervor que o dominava.


No advento, na quaresma e nas vigílias das festas, comia apenas pão, frutas secas e tomava água. Nada era capaz de interromper-lhe o recolhimento da alma. Nas orações, pedia sobretudo a graça de não cair nem no pecado nem na tibieza.
Não havia ainda terminado o curso de teologia, e o encarregaram de pregar a palavra de Deus, e de ouvir as confissões dos fiéis. Desempenhou ambos os encargos com grande êxito. Superior do convento de Weltkirch, operou prodígios de conversão nessa cidade e nos lugares vizinhos, descerrando o véu que cobria os olhos aos calvinistas. A notícia dos frutos que acompanhavam seus trabalhos apostólicos chegou até Roma.
A congregação da Propaganda, então, o nomeou para ir pregar aos grisões. Foi o primeiro missionário a ser enviado a esse povo, desde que abraçara o calvinismo.Associaram-lhe oito religiosos de sua ordem, os quais deviam trabalhar sob sua direção. Não se deixou bater nem pelas fadigas nem pelas ameaças que lhe fizeram de lhe tirar a vida. Converteu dois gentis-homens calvinistas, nas primeiras conferências. Em 1622, penetrou no cantão de Prétigout e converteu muitos hereges, fato que se atribui menos à palavra que pregou do que ao fervor e à continuidade das orações.


Tantas conversões fizeram com que os calvinistas entrassem em estranho furor, chegando a tomar armas contra o imperador. Resolveram acabar com elas, desfazendo-se daquele que lhes era o principal causador. O santo missionário, informado das decisões, preparou-se para o que desse e viesse. No dia 24 de Abril de 1622, confessou-se a um dos companheiros, rezou missa e pregou na aldeia de Gruch. O sermão desse dia foi mais ardente do que os anteriores. Predisse sua morte a várias pessoas e, desde então, passou a assinar as cartas da seguinte forma: “Irmão Fidélis, que deve, em breve ser pasto dos vermes”. De Gruch foi pregar em Sevis, onde exortou com veemência os católicos a permanecerem firmemente presos à fé.
Um calvinista procurou alvejá-lo na igreja. Inutilmente os fiéis lhe rogaram que se retirasse. Respondeu que não temia a morte, que estava pronto a sacrificar a vida pela causa de Deus. Enquanto o santo retornava a Gruch, caiu nas mãos de uma tropa de soldados calvinistas, que estavam sendo chefiados por um ministro. Trataram-no de sedutor e quiseram forçá-lo a abraçar o calvinismo. “Que me propondes? Disse Fidélis. Vim ao vosso meio para refutar erros e não para adotá-los. A doutrina católica é a fé de todos os séculos e não vejo por que renunciá-la. De resto, sabei que não temo em absoluto a morte”.

Um do grupo o atirou por terra. Levantando-se, pôs-se, de joelhos e fez a seguinte oração: “Senhor, perdoai meus inimigos. Cegos pela paixão, não sabem o que fazem. Senhor Jesus, tende piedade de mim! Santa Maria, Mãe de Jesus, assisti-me!” Terminada essa oração, recebeu a segunda pancada que o atirou ao chão banhado em sangue. O furor dos soldados não se satisfez com isso. Furaram-lhe o corpo com punhaladas e cortaram-lhe a perna esquerda. A bem-aventurada morte aconteceu-lhe em 1622. Estava com quarenta e quatro anos de idade e dez de profissão.
Os católicos o enterraram no dia seguinte. Algum tempo depois, os imperiais desfizeram os calvinistas, de acordo com uma profecia do santo. O ministro que se colocara à frente dos soldados ficou tão comovido com o fato, que se converteu e abjurou publicamente a heresia.
O corpo do santo missionário se encontra na igreja dos capuchinhos de Weltkirch. A perna esquerda e a cabeça, que tinham sido separadas do tronco, estão na catedral de Coire. A transladação delas se fez com muita solenidade. Grande número de milagres foi operado por intercessão do servidor de Deus.
Foi beatificado por Bento XIII, em 1729, e canonizado por Bento XIV, em 1746. Seu nome foi inscrito no Martirológio Romano, para ser celebrado no dia 24 de Abril.

Fonte: http://www.padrerodrigomaria.com.br/santo-do-dia-24-de-abril-sao-fidelis-de-sigmaringen/


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Beato Stanley Francis Rother, Presbítero Missionário e Mártir norte-americano


O Beato que ora apresentamos nasceu nos Estados Unidos da América, mas serviu como missionário na Guatemala. Rezemos pela Guatemala que recentemente sofreu uma erupção vulcânica, o que atingiu muitas pessoas e suas famílias. Que Nossa Senhora ajude nossos irmãos guatemaltecas.




       Stanley Francis Rother nasceu em 27 de março de 1935, em uma pequena cidade chamada Okarche, localizada no estado de Oklahoma, no centro-sul dos Estados Unidos, onde a religião, a educação e as granjas eram os pilares da sociedade. Ele era o mais velho dos quatro filhos de Franz Rother, de origem alemã, e Gertrude Smith. Ele foi batizado dois dias após seu nascimento na igreja da Santíssima Trindade em Okarche, a paróquia que mais tarde ele frequentou com sua família.
Trabalhou quando criança no trabalho agrícola e estudou na escola católica de seu país. Serviu na igreja como ministro e também foi muito envolvido em esportes. Ele recebeu a Primeira Comunhão em 22 de abril de 1942 e foi confirmado em 4 de abril de 1948.
Em sua juventude teve uma vida simples e trabalhava na granja da sua família. Rodeado de sacerdotes, sentiu o chamado de Deus e entrou no seminário. Ali começaria a verdadeira aventura de sua vida. No seminário tinha dificuldades nos estudos, assim como São João Maria Vianney, o Cura D’Ars. A autora da biografia do Pe. Stanley, Maria Scaperlanda, disse que “ambos eram homens simples que sentiram o chamado ao sacerdócio e alguém tinha que autorizá-los para que completassem os seus estudos e se tornassem sacerdotes. Eles trouxeram consigo bondade, simplicidade e um coração generoso em tudo o que faziam”.
Enquanto cursava o ensino médio, Stanley começou a questionar sua própria vocação. Após um tempo de discernimento, ele entrou no Seminário San Giovanni em San Antonio, Texas, em setembro de 1953. Ele continuou seus estudos em setembro de 1956 no Seminário da Assunção, novamente em San Antonio. No entanto, ele era muito mais propenso a questões práticas do que aos estudos, enfrentando assim vários problemas. Para piorar a situação, na época os ensinamentos eram dados exclusivamente em latim, uma língua que ele não conseguia dominar. Então, como suas notas eram muito baixas, ele foi convidado a deixar o seminário.
Após consulta com o monsenhor Victor Reed, bispo da então Diocese de Oklahoma City e Tulsa, Stanley tem uma segunda chance: ele foi internado no St. Mary Seminary Monte em Emmitsburg, Maryland, a partir de setembro de 1959. Ele foi ordenado subdiácono em 2 de junho de 1962 e diácono no dia 15 de setembro seguinte. Finalmente, em 25 de maio de 1963, foi ordenado sacerdote na Catedral de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Oklahoma.
Por cinco anos, padre Stanley serviu como vigário paroquial: de 1963 a 1965, na paróquia de San Guglielmo em Durant. Ele foi lembrado como um homem quieto e pacífico, que frequentemente convidava os coroinhas para cortar a grama e se dedicar a vários pequenos trabalhos. Muitas vezes ele ia comer em famílias e participava de acampamentos de verão. De 1965 a 1966 ele foi designado para a paróquia de São Francisco Xavier em Tulsa. Em 1966 foi nomeado vigário paroquial da Catedral da Sagrada Família em Tulsa, mas em setembro de 1966 foi designado para a paróquia de Corpus Christi em Oklahoma.
Quando Stanley ainda estava no seminário, o então Papa João XXIII pediu às dioceses dos Estados Unidos que enviassem assistência e estabelecessem missões na América Central. Foi assim que as dioceses de Oklahoma City e Tulsa estabeleceram uma missão em Santiago Atitlán, uma comunidade indígena muito pobre na Guatemala. Poucos anos depois de ordenado, Pe. Rother aceitou o convite de se unir a esta equipe missionária, onde passaria os 13 anos seguintes de sua vida.
Padre Stanley logo estabeleceu uma conexão com a população de Santiago Atitlán. Como seu primeiro nome próprio era difícil de entender, ele se chamou o segundo: Francisco em espanhol, Apla na adaptação na língua tz'utujil. Apesar de suas dificuldades anteriores com o latim, ele se comprometeu a aprender espanhol e a língua indígena, para se comunicar com seus fiéis e por essa razão, ele escolheu morar com uma família local. Ele aprendeu tão rapidamente que terminou a tradução do Novo Testamento iniciada por seu predecessor e, mais tarde, do Lecionário e do Missal, para que ele pudesse celebrar a Missa em tz'utujil.





A população vivia em cabanas de um só cômodo e mantinha o que podiam cultivar em minúsculos lotes de terra. Padre Stanley, explorando seu passado camponês, ajudou pessoalmente nos campos, introduzindo várias culturas e construindo um sistema de irrigação. Mais tarde, ele também iniciou uma cooperativa agrícola.
Ele constantemente visitava seus fiéis, comia com eles e tratava os doentes, para quem ele abrira um pequeno hospital. Outra realização foi uma rádio que transmitiu programas educacionais e a celebração dominical da missa.
Por sua parte, Pe. Stanley percebeu que tudo o que havia aprendido quando era jovem, na granja da sua família, serviria muito neste novo local, pois como sacerdote missionário, foi chamado não só para celebrar a Missa, mas para ajudar em tarefas simples dos camponeses. “O Padre Stanley tinha uma disposição natural a compartilhar o trabalho com eles, a partilhar o pão e a celebrar a vida com eles, o que fez com que a comunidade na Guatemala dissesse que o Padre Stanley ‘era nosso sacerdote’”, comentou Scaperlanda.





Nos anos de serviço do padre Stanley, a guerra civil assolou a Guatemala. O governo dos presidentes Fernando Romeo Lucas García e Efraín Ríos Montt não fez distinção entre guerrilheiros e assistentes sociais: por isso, milhares de católicos foram mortos por causa de sua missão de promoção humana. Por algum tempo a violência foi restringida às cidades, mas logo chegou também às montanhas. Muitos catequistas desapareceram, enquanto outros fiéis foram encontrados mortos, com sinais de tortura, ao lado das estradas. Até a rádio fundada pelo Padre Stanley foi demitida e seu empresário torturado e morto. Muitas vezes a população, em busca de refúgio, vinha dormir nas igrejas. O chefe dos catequistas Santiago Atitlán, Diego Quic 'Apuchan, apareceu em uma das listas de pessoas a serem eliminadas que circulou no país no final de 1980, sendo sequestrado na noite de 05 de janeiro de 1981, sob os olhos pai Stanley e dos outros trabalhadores paroquianos.
Nos anos de 1980 e 1981, a violência chegou a um ponto quase insuportável e o sacerdote via como seus amigos e paroquianos eram sequestrados ou assassinados. Inclusive o seu nome estava na lista negra. Na carta enviada à sua família em seu último Natal, disse que não queria abandonar a aldeia e estava disposto a entregar a sua vida.
Em suas cartas daquele período, o padre Stanley registrou sua crescente angústia. Na de julho de 1980, destinada a seu amigo Frankie Williams, já voluntário na Guatemala, ele escreveu: “Houve outro padre morto na Quiche enquanto eu estava fora. São três desde o começo de maio. Outro foi sequestrado, ele provavelmente está morto. E o que devemos fazer nesta situação? Não podemos fazer nada além de continuar nosso trabalho, seguir adiante com a cabeça baixa, pregar o evangelho do amor e da não-violência e assim por diante”. Embora preocupado com o impacto real de sua pregação e de outros missionários, ele concluiu na mesma carta: “Deus cuidará dos seus, se estivermos nesse grupo. Nada vai acontecer, exceto o que deve acontecer. Tudo faz parte de seus desígnios”.
Em dezembro de 1980, dois jornais diocesanos relataram a última carta de Natal do padre Stanley. Continha um apelo que também era uma declaração de intenções: “Devemos ter cuidado para onde vamos e o que dizemos a alguém. Um belo elogio me foi feito recentemente quando um suposto chefe da Igreja e da cidade estava reclamando que `O padre está defendendo pessoas´”. Ele quer me deportar pelos meus pecados. Esta é uma das razões pelas quais tenho que ficar apesar do dano físico. O pastor não pode escapar ao primeiro sinal de perigo. Rogai por nós para que sejamos um sinal do amor de Cristo por estas pessoas, para que nossa presença entre elas as fortaleça ao suportar estes sofrimentos, preparando-nos para a vinda do Reino ".
No início de 1981, o nome do padre Stanley apareceu nas listas de proscrição. Por esta razão, ele procurou refúgio de uma casa para outra, mas, para maior segurança, ele foi forçado a retornar aos Estados Unidos por algum tempo. Familiares e amigos gostariam que ele ficasse mais tempo, mas muitas vezes o surpreendiam na janela, com os olhos perdidos no horizonte. Para seu irmão Tom, ele reiterou o conceito que já havia expressado: “Eu só tenho que voltar. O pastor não pode escapar”. Finalmente, com a permissão de seu bispo, o missionário poderia retornar a Santiago Atitlán a tempo da Semana Santa de 1981.
Na noite de 28 de julho de 1981, por volta de uma hora, três homens armados entraram silenciosamente na casa paroquial e dirigiram-se ao quarto do padre Stanley, no andar de cima. Eles encontraram a sala vazia, em seguida, começaram a procurar pelo padre dentro da casa, até que apareceu Bocel Francisco, o jovem irmão de Pedro Bocel, colaborador do missionário. Os invasores pediram que ele os levasse até o padre Stanley ou iriam matá-lo. O menino, aterrorizado, fez o que lhe foi dito. Ele conduziu os três homens armados até o primeiro andar e bateu em uma porta perto das escadas. Padre Stanley saiu da cama e, com toda a probabilidade, examinou brevemente a situação: poderia ter escapado da janela, mas, se o fizesse, Francisco teria morrido. Imediatamente depois, ele abriu a porta. Quando Francisco subiu correndo as escadas, ouviu ruídos de luta e o missionário exclamou: Mate-me aqui. Instantaneamente, foi disparado um tiro primeiro, depois outro.






A morte do padre Stanley, com quarenta e seis anos, deixou os habitantes de Santiago Atitlán chocados. Muitos se reuniram espontaneamente, na praça da igreja, orando em silêncio. A autópsia em seu corpo descobriu que uma bala havia perfurado sua mandíbula, mas o golpe fatal atingiu a têmpora direita. Os hematomas em suas mãos indicavam que ele realmente lutara antes de ser morto.
A notícia de sua morte chegou à sua família alguns dias depois. O funeral aconteceu em Oklahoma e seu corpo foi enterrado no cemitério da Santíssima Trindade em Okarche. Seu coração e um pequeno frasco de seu sangue, no entanto, foram enterrados na igreja de San Giacomo em Santiago Atitlán, enquanto o quarto onde ele foi morto se transformou em uma capela.

A causa da beatificação

A fama do martírio do padre Stanley permaneceu viva e ativa tanto na Guatemala quanto em sua terra natal, Oklahoma. Por essa razão, decidiu-se abrir a causa para sua beatificação, a fim de verificar se sua morte poderia ter realmente acontecido em ódio à fé católica.

A diocese de Sololá-Chimaltenango, em cujo território Santiago Atitlán está localizado, não poderia estar disponível para o início da fase diocesana. A permissão foi então obtida em 3 de setembro de 2007, para que isso acontecesse na diocese de Oklahoma.
Um mês depois, em 3 de outubro, começou a fase diocesana, que terminou em 20 de julho de 2010; Nesse meio tempo, em 25 de novembro de 2009, a autorização da Santa Sé havia chegado. O decreto que validou os documentos do inquérito diocesano tem data de 16 de março de 2012.
A “Positio” sobre o martírio, entregue em 2014 à Congregação para as Causas dos Santos, foi examinado pelos consultores teólogos. Finalmente, em 1 de Dezembro de 2016, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto com o qual o Padre Stanley Rother seria verdadeiramente declarado um mártir.
Em 10 de maio de 2017 os restos mortais do missionário foram exumados do cemitério da Santíssima Trindade em Okarche, submetido ao reconhecimento canônico e, finalmente, enterrados em uma capela no cemitério da Ressurreição, na região noroeste de Oklahoma.
A beatificação foi celebrada em 23 de setembro de 2017 no Centro de Convenções em Oklahoma. O cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia como delegado do Santo Padre.
Padre Stanley acaba por ser o primeiro mártir americano oficialmente reconhecido, e o primeiro homem nomeado para os altares de nacionalidade norte-americana.


















terça-feira, 5 de junho de 2018

Santos e Beatos que foram médicos


A medicina foi para eles uma das tramas com a qual o Espírito Santo teceu a sua santidade, tornando-os cada vez mais semelhantes a Deus-Amor à medida que se doavam às pessoas fragilizadas e feridas.

São Lucas, padroeiro dos médicos


Sejam homens ou mulheres, leigos ou ministros ordenados, muitos cristãos viveram o exercício da profissão de médicos como um serviço ao próximo que testemunha o amor e o cuidado de Deus. A medicina foi para eles uma das tramas com a qual o Espírito Santo teceu a sua santidade, tornando-os cada vez mais semelhantes a Deus-Amor à medida em que se doavam às pessoas fragilizadas e feridas. Conheça alguns deles, cuja santidade foi reconhecida pela Igreja:


São José Moscati



José (Giuseppe) Moscati nasceu em Benevento, na Itália, em 1880, mas mudou-se com a família para Nápoles aos quatro anos de idade. Ele se doutorou em medicina em 1903, com uma tese sobre a ureogênese hepática. Ele atuou incansavelmente na pesquisa, no atendimento aos doentes e em inspeções de saúde pública quando Nápoles sofreu uma epidemia de cólera em 1911. Permaneceu célibe, fazendo de toda a sua vida uma doação aos doentes e necessitados e à pesquisa científica – foi responsável por pesquisas pioneiras sobre as reações químicas do glicogênio. Não só não cobrava dos mais pobres, como costumava colocar dinheiro dentro do envelope em que lhes dava a receita. Em 1922, conquistou a livre-docência. Morreu em 1927, no meio de um dia de trabalho, depois de atender alguns pacientes.


Beato Lucas Dochier


Nascido em 1914 no município francês de Bourg-de-Péage, Paul Dochier já era médico quando decidiu entrar em um mosteiro trapista (Notre-Dame d’Aiguebelle) em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, adotando o nome de Lucas (Luc). Devido ao conflito, mesmo como monge ele continuou a atender os doentes e feridos, sem nunca cobrar nada. Transferido para o mosteiro de Tibhirine, na Argélia, em 1946 – em 1938 ele já tinha prestado serviço militar no Marrocos –, permaneceu exercendo a medicina, atendendo a população, majoritariamente muçulmana. Em março de 1996, ele foi sequestrado junto com outros seis monges trapistas, durante a Guerra Civil Argelina, depois que a comunidade decidiu permanecer na abadia mesmo diante das ameaças. Ele ficou em cativeiro por cerca de dois meses e ao fim desse período foi martirizado. Ele será beatificado neste ano, junto com outros 18 mártires imolados na Argélia entre 1994 e 1996.

Santa Gianna Beretta Molla


Nascida em 1922, em Magenta, perto de Milão, Gianna formou-se médica aos 27 anos e em seguida especializou-se em pediatria. Ela desejava tornar-se leiga missionária no Brasil, onde estava o seu irmão, o frei Alberto Beretta, para cuidar dos necessitados. Na oração, porém, discerniu sua vocação ao matrimônio. Casou-se aos 33 anos com o engenheiro Pietro Molla, com quem teve quatro filhos. Membro da Sociedade de São Vicente de Paulo e da Ação Católica, ela considerava o exercício da sua profissão um verdadeiro dom recebido de Deus, ao qual correspondia a sua missão. Todas as suas gestações foram difíceis, mas a última teve uma complicação a mais: a descoberta de um tumor no útero. Gianna recusou-se a abortar e submeteu-se a uma delicada cirurgia, que teve sucesso. Sua filha nasceu com saúde, mas a mãe acabou morrendo uma semana depois de dar à luz, em 1962 – em uma oferta da própria vida que o Beato Paulo VI chamou de “meditada imolação”.



Beato Ladislau Batthyány-Strattmann


Ladislau (László) nasceu na Hungria em 1870, mas a sua família – de origem nobre – se mudou para a Áustria quando ele tinha apenas 6 anos. Teve uma infância conturbada: seu pai abandonou a família durante a infância, se tornou protestante e casou com outra mulher. Sua mãe morreu quando ele tinha 12 anos. Formou-se em medicina aos 30 anos, depois de tentar agricultura, química, filosofia e música. Dois anos antes, havia se casado com a condessa Maria Teresa zu Coredo und Starkenberg, com quem teve 13 filhos – além de uma filha com outra mulher, antes de se casar. Aos 32, Ladislau abriu um hospital na cidade de Kittsee – que ainda está em operação e desde 2004 leva o seu nome. Em 1914, herdou um castelo em Körmend, na Hungria, e se mudou para lá no ano seguinte, transformando uma ala do castelo em uma clínica. Ficou conhecido por não cobrar nada das pessoas necessitadas – acabou sendo chamado pelo povo de “o médico dos pobres”. Ladislau morreu em 1931, em Viena, onde ficou internado por 14 meses devido a um câncer na bexiga.



Beato Jacques-Désiré Laval


Quando jovem, Laval tinha dúvidas se entrava para o seminário ou estudava medicina. Nascido em 1803, na cidade francesa de Croth, acabou se doutorando em medicina aos 27 anos, com uma tese sobre a artrite reumatoide. Exerceu a profissão por quatro anos, mas percebeu que estava vivendo-a mal, buscando a própria glória, e redirecionou sua caminhada após um acidente de cavalo que quase o matou. Entrou para o seminário e foi ordenado aos 35 anos. Dois anos depois, decidiu entrar na congregação dos espiritanos e foi enviado em missão para as Ilhas Maurício. Ali, seu conhecimento em medicina o ajudou a cuidar da população, que era formada majoritariamente por ex-escravos. Laval ainda ajudou a comunidade local a se desenvolver na agricultura e no saneamento. Ele compartilhava da pobreza do povo, jejuando para repartir seu alimento e dormindo em uma caixa de madeira. Morreu devido a um AVC em 1864 e se tornou conhecido como o Apóstolo de Maurício.

Fonte: https://www.semprefamilia.com.br/acreditamosnoamor/5-santos-que-foram-medicos/


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Dom Bosco e a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora

Dom Bosco foi percebendo com lucidez sempre maior a iniciativa de Deus na sua vida de fundador, mas teve também a certeza de ser em tudo conduzido e guiado pela mão de Maria: “Maria Santíssima é a fundadora e será a sustentação da nossa obra”. “Maria é a mãe e o sustentáculo da Congregação”. E dizia no retiro de Lanzo de 1871: “Só no céu é que havemos de compreender, maravilhados, aquilo que Maria fez por nós... e o havemos de agradecer por toda a eternidade” (MB X, 1078).



Sua espiritualidade nasceu da paixão pela vida, do amor a Deus pela vida bem vivida em sua graça, com todo o entusiasmo, pela alegria das pessoas dos jovens, na convivência feliz sob a proteção do manto materno de Maria, de Maria Auxiliadora. Disponibilidade e muita alegria, encantado pela vida dos jovens na graça de Deus, continuamente reportava a Deus e à proteção e presença de Maria em sua vida.
Maria Santíssima foi sempre a minha guia” exclamava Dom Bosco com frequência (MB V, 155; XVIII, 439). E tal convicção era uma das características da devoção mariana no Oratório.
Em alguns sonhos, Maria Santíssima já havia mostrado a Dom Bosco o campo de trabalho ao qual Deus o destinava. As narrativas de inúmeros sonhos traziam uma mensagem de conforto que intensificava a confiança e a certeza da presença de Maria que a todos protegia como mãe carinhosa.

Sonhos
Sempre é apresentada como mãe e protetora de todos nos perigos. Sempre a figura de Nossa Senhora foi mostrada em sua função de mãe querida que intercede e indica os caminhos da santidade e da salvação para todos. Essa certeza passava pelo coração devoto de Dom Bosco, pelos dos salesianos e se espalhava pelos corações simples e abertos dos jovens.
Já no sonho dos nove anos, Jesus o confia à mestra e esta, a Virgem Maria, mostrando-lhe o campo de seu trabalho lhe disse: “Torna-te humilde, forte e robusto”. Grande é a mensagem de espiritualidade, o roteiro pedagógico embrionário no relato do sonho dos nove anos. As disposições necessárias indicadas para seguir o chamado de Deus, a devoção a Nossa Senhora, a indicação de seu futuro campo de trabalho e a maneira de se relacionar com os jovens, tudo estava contido nesse sonho.
Ele dirá aos seus jovens no famoso sonho do caramanchão de rosas, acontecido em 1847, mas contado em 1864: “Para que cada um de vós tenha a garantia de que é a Bem-aventurada Virgem que quer a nossa Congregação, vos contarei não já a descrição de um sonho, mas também o que a própria Bem-aventurada Mãe se dignou de me fazer ver. Ela quer que depositemos nela toda a confiança”. (A. S. FERREIRA, Acima e Além os sonhos de Dom Bosco, pp. 24-25).
E diz Pietro Stella: “Nossa Senhora foi a Pastorinha, guia, rainha e mãe, a Senhora dos sonhos é um dos elementos que caracterizavam a devoção mariana do Oratório. A persuasão de Dom Bosco tornava-se persuasão de todos, jovens e salesianos. Dom Bosco e suas obras eram protegidos, de modo especialíssimo, pela Virgem Santíssima. Nada se fizera sem a prova palpável de que a Virgem Maria interviera para sugerir soluções, aplainar dificuldades ou proteger das insídias diabólicas (...) Garantiam que todos os que viviam com Dom Bosco, participavam dessa proteção (carisma) especial” (Pietro STELLA, D. Bosco nella storia della religiosità cattolica, II, p. 115).



Devoção
A devoção a Maria – afirmam testemunhas autorizadas – estava no vértice de seus pensamentos. Parecia não viver senão para ela: “Como é realmente boa Nossa Senhora! Quanto nos quer bem!” (Pietro BROCARDO, Dom Bosco: profundamente homem, profundamente santo, p. 160-161; MB XIII, 547). E Dom Bosco vai descobrir que Aquela que aparece como seu amparo, dos seus rapazes e dos seus salesianos, não é outra senão a Auxiliadora dos cristãos.
Mãe, Imaculada, Auxiliadora, é esta a Nossa Senhora que Dom Bosco coloca no vértice de sua pedagogia e da sua ação sacerdotal, apostólica e missionária. É ela quem sustenta o clima espiritual mariano que se vive no Oratório – e também nas outras obras – e se exprime nas formas mais variadas e sinceras de uma genuína piedade popular.
O exemplo partia do santo, que sempre, especialmente nas encruzilhadas mais decisivas de sua vida, se voltava para ela com a familiaridade e a confiança próprias de um filho para com a mãe.
No recordar as maravilhas operadas por Nossa Senhora, além de satisfazer à necessidade de um desafogo ao seu imenso afeto para com a Virgem, ele queria reavivar em todos uma confiança ilimitada nela que, no meio das angústias, das tribulações, dos erros, dos perigos desta pobre vida mortal era e seria sempre a amorosa e poderosa Auxiliadora dos Cristãos (MB VIII, 367).
Pois bem, os últimos 25 anos da vida de Dom Bosco são assinalados por uma presença mais viva, mais comprometida de Maria, a “Mãe amorosíssima” e “a poderosa Imaculada”, como ele não cansará de dizer, mas agora venerada e sentida, de maneira quase totalizante, na sua função de Auxiliadora, quer dos indivíduos, quer da comunidade cristã. Maria Auxilium Christianorum.



Auxiliadora
A devoção à Auxiliadora fora reavivada pelas aparições de Spoleto, onde a Virgem manifestara o desejo de ser invocada com esse título.
Para Pietro Stella, “sem Spoleto, provavelmente Dom Bosco não se teria tornado o apóstolo da Auxiliadora; sem Dom Bosco, porém, a flama de Spoleto talvez tivesse sido um episódio característico do decênio 1860-1870, em clima de um escatologismo mariano, de messianismo antes da queda do Estado Pontifício. Dom Bosco, correlacionando à sua pessoa e às suas instituições o culto da Auxiliadora, conseguiu dar uma dimensão grandiosa e mundial à devoção a Maria Auxiliadora” (Pietro STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, II, p. 173).
Dessa forma, com a Basílica, a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora une todas as casas salesianas do mundo todo.
Raras vezes aconteceu que um título mariano se difundisse com tanta rapidez, entre os católicos, como o de Maria Auxiliadora. Provam-no os inumeráveis quadros, altares e igrejas dedicados ao seu culto em todo o mundo. A presença de Maria no trabalho de Dom Bosco e dos salesianos perdura até hoje como a segurança materna de uma proteção especial. Em contrapartida, os salesianos lhe devotam um carinho especial, são seus filhos realmente (cf. carta Lasagna-Bosco 05/12/1877, em Mons. Luigi Lasagna, Epistolario, I, p. 159.23-24).
Há duas razões fundamentais para a escolha desse título, para além de outros motivos implícitos e explícitos: a primeira, pela lúcida intuição da atualidade do culto de Maria Auxiliadora na Igreja de seu tempo. O recurso a Maria Auxiliadora se impôs em virtude das extraordinárias dificuldades em que a Igreja se debatia então. A segunda, pelo alcance, dificilmente calculável que virá a ter na história salesiana a construção e a existência da Basílica de Maria Auxiliadora em Valdocco.
A basílica de Valdocco é um santuário – entendido como lugar que oferece, por sua natureza, uma presença incisiva de Deus, de Cristo, como também de Maria – de repercussão não só para a cidade de Turim, mas nacional e mundial, aberto às exigências espirituais e apostólicas da Igreja.
Na origem estão a piedade, a intuição e a energia realizadora de Dom Bosco, padre educador e fundador religioso, profundamente convencido da importância da Auxilium Christianorum em tempos calamitosos para a Igreja e não menos difíceis para a firmeza da fé de seus membros. Ela podia se constituir em uma singular reserva para a vida espiritual dos jovens e de seus educadores.
Essa opção expressa de forma muito condizente e ilustrativa o modo ou o processo de decisão do educador Dom Bosco. Tratava-se de uma oferta para os salesianos se ampararem na presença de Maria Auxiliadora como Mãe e Mestra. Porém essa escolha revela um processo de Dom Bosco inteiramente inserido no tempo. Acolhe o que lhe parece o melhor para integrar em seu processo educativo, considera as perspectivas e revela ou acentua as possibilidades futuras e as torna um lema e uma realidade.
A consciência popular não tardou em descobrir a maravilhosa aliança entre Maria Auxiliadora e Dom Bosco, a incindível ligação que os unia: Dom Bosco era verdadeiramente o “santo de Maria Auxiliadora” e Maria Auxiliadora era realmente a “Nossa Senhora de Dom Bosco”. Essa denominação, nascida da intuição de fé dos crentes, passou para a história.





O título de Nossa Senhora Auxiliadora está ligada à batalha de Lepanto, na qual a Igreja lutou contra os infiéis, que queriam invadir a cristandade. Dom Bosco escolheu esta devoção porque num tempo no qual se ensina muitas coisas erradas, heresias, doutrinas contrárias à Igreja, nós precisamos de Nossa Senhora Auxiliadora para que ela nos mantenha na verdadeira fé.
Portanto, em tempos de incertezas, nos quais a Igreja é atacada com heresias e falsas doutrinas, nos apeguemos a Nossa Senhora Auxiliadora, à celebração da Eucaristia e aos ensinamentos do Santo Padre, o Papa, como fez e ensinou Dom Bosco. Em tempos de crise de fé, a vida mística de São João Bosco nos recorda a importância da oração, da penitência, do sacrifício em nossas vidas. Como Dom Bosco, nestes tempos difíceis em que vivemos, nos confiemos à proteção de nossa Mãe, Nossa Senhora Auxiliadora: Nossa Senhora, Auxiliadora dos Cristãos, rogai por nós! Nos confiemos também a São João Bosco: Dom Bosco, educai-nos para a santidade!



A devoção mariana na família de Dom Bosco

Dom Bosco desde pequeno aprendeu com sua mãe a ter grande confiança em Nossa Senhora. Mamãe Margarida sempre interrompia o pesado trabalho no campo para saudar a Virgem Maria. A hora do Ângelus, para a campesina matriarca da família Bosco, era um momento de encontro com Deus e de memória da Anunciação de Maria.
A história sagrada de Maria associada aos mistérios da vida de Jesus eram para João Bosco e toda a sua família, uma perene interpelação acerca da autenticidade da vida cristã. A Visitação de Maria a sua prima Isabel ensina que a relação humana cristã pode constituir-se em uma visita de Deus e uma experiência com Cristo, como aconteceu com Isabel, segundo o Evangelho de Lucas (Lc, 39-56). A historia da salvação sempre esteve presente na educação cristã de Joãozinho Bosco e ele refletia desde a mais tenra idade que, quem tem Jesus vivo em seu coração, não pode deixar de interessar-se pelo bem do próximo, especialmente dos mais pobres e necessitados.
Segundo Peraza (p.357) a imagem de Nossa Senhora das Dores, a mãe que assume e sofre a paixão e a morte de seu filho Jesus, evocava em Joãozinho Bosco o sofrimento de sua própria mãe:- Mamãe Margarida que havia assumido a viuvez e feito a opção de não se casar novamente, educando e sustentando sozinha e cristãmente os seus filhos.
Em 1824, quando tinha nove anos (como ele mesmo conta em suas memórias), teve o primeiro sonho profético, em que lhe foi manifestado o campo do seu futuro apostolado. Neste sonho, o menino Joãozinho ouviu a voz misteriosa do Senhor que dizia: "DAR-TE-EI A MESTRA." e logo, apareceu uma Senhora de aspecto majestoso. Sem saber de quem se tratava, Joãozinho perguntou quem era ela e obteve a resposta: “Eu sou Aquela que sua mãe ensinou a saudar três vezes ao dia”. Intensifica-se aí a devoção dele àquela senhora celestial, que lhe disse palavras animadoras e que foi considerada Aquela que Tudo Fez na Congregação Salesiana.
Na adolescência, na casa da família Moglia era diante do quadro de Nossa Senhora que João Bosco, por encargo da dona da casa, dirigia as orações. Enfim, em toda a sua vida foi grande a relação de amor filial de Dom Bosco para com Nossa Senhora.
Com quinze anos, quando João Bosco chega a cidade de Chieri, chama-lhe a atenção a catedral de Nossa Senhora da Assunção (ou Santa Maria de La Scala) com seus quadros, vitrais, estátuas, altares, portas, batistério… que evocavam a presença Mariana. Além de evidências da presença de Nossa Senhora no dia a dia, também à noite, nos sonhos de Dom Bosco, ela aparecia frequentemente e foi a estrela do seu apostolado. Ele a chamava Mãe e Auxiliadora, aquela que socorria a Congregação Salesiana todas as vezes que precisava de auxílio extraordinário para atender as necessidades (materiais e espirituais) dos meninos do Oratório.
No ano de 1862, as aparições de Maria Auxiliadora na cidade de Spoleto marcam um despertar mariano na piedade popular italiana. Nesse mesmo ano, Dom Bosco iniciou a construção, em Turim, de uma grande Basílica, que foi dedicada a Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos. “Nossa Senhora deseja que a veneremos com o título de AUXILIADORA: vivemos em tempos difíceis e necessitamos que a Santíssima Virgem nos ajude a conservar e defender a fé cristã”, disse Dom Bosco ao clérigo Cagliero.
Além de Mamãe Margarida, o Pe. Cafasso (São José Cafasso) contribuiu para que Dom Bosco vivesse uma profunda experiência mariana. Este sacerdote, devoto da virgem, dizia sempre aos seus discípulos: “Se familiarizem com Maria, com Ela conversem, confiem a ela os seus segredos e as suas necessidades e dividam com ela suas alegrias. A Virgem conhece as suas fadigas e os seus temores.”
Dom Bosco seguiu propagando esta devoção. Em Valdocco, com a presença materna de Mamãe Margarida havia uma imagem de Nossa Senhora da Consolata, colocada por Dom Bosco na Capela Pinardi para que os rapazes do Oratório pudessem sentir a sua presença e cultivar a devoção mariana, assim, o conceito religioso da Virgem adquire um sentido real, de particular realismo para aqueles meninos e jovens que viviam longe de suas mães terrenas pelo abandono, pela distância física ou pela orfandade.
Com a construção da Basílica de Maria Auxiliadora de Turim, Dom Bosco quis erguer um monumento eterno do seu amor e gratidão (e também de todos os salesianos (as), à Virgem Mãe Auxiliadora. Maria Santíssima é minha Mãe – ele dizia. Ela é minha tesoureira. Ela foi sempre a minha guia.
Em suas conferências Dom Bosco procurava demonstrar a importância da presença materna de Nossa Senhora. Fazia com que refletissem que é importante que ela seja honrada porque é Mãe de Deus, Mãe de Jesus Cristo e nossa mãe. Deve ser invocada porque, como modelo imaculado de todas as virtudes, nos ensina com o seu exemplo a imitar ao seu Divino Filho Jesus. A obediência, a humildade, a pureza de coração de Maria eram sempre evidenciadas por Dom Bosco que difundia a devoção a Nossa Senhora, em uma perspectiva eclesial e missionária.
De acordo com Lemoyne (p.398) quando morre Mamãe Margarida, em 25 de novembro de 1856, em Valdocco, Dom Bosco, enquanto ela é velada com orações, velas e cantos, dirige-se à Igreja da Consolata, ajoelha-se aos pés da Virgem e rezando lhe diz: “Sabes que agora estamos órfãos, meus filhos e eu, seja, tu a nossa mãe!”. Tanto nos momentos de alegrias, quanto de angústia, era a ela que ele recorria e o auxílio dela jamais o faltou!
Dom Bosco ensinou aos membros da família Salesiana a amarem Nossa Senhora, invocando-a com o título de AUXILIADORA. Vários dos seus escritos retratam o amor por Maria Santíssima: “Recomendai constantemente a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora e a Jesus Sacramentado”. “A festa de Maria Auxiliadora deve ser o prelúdio da festa eterna que deveremos celebrar todos juntos um dia no Paraíso”. “Sê devoto de Maria Santíssima e serás certamente feliz”. “Devoção e recurso frequente a Maria Santíssima. Jamais se ouviu dizer no mundo que alguém tenha recorrido com confiança a essa mãe celeste sem que não tenha sido prontamente atendido”. “Diante de Deus declaro: Basta que um jovem entre numa casa salesiana para que a Virgem Santíssima o tome imediatamente debaixo de sua especial proteção”. Dom Bosco confiou à Família Salesiana a propagação dessa devoção, que é, ao mesmo tempo, devoção à Mãe de Deus, à Igreja e ao Papa.
Em 28 de janeiro de 1888, próximo a expirar, aos setenta e dois anos e cinco meses, Dom Bosco clama em dialeto piamontês pela Madre Mãe Auxiliadora. Antes de despedir-se de seus jovens, com a promessa de encontrar-se com eles no paraíso, repete ininterruptamente: “Oh, Maria! Oh, Maria”!
Durante toda a sua vida Dom Bosco foi incansável em fazer com que a devoção a Nossa Senhora fosse propagada. Para ele, na congregação salesiana FOI ELA QUEM TUDO FEZ! Cultivemos pois esta devoção mariana, deixada a nós como herança religiosa de nosso fundador.



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