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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Beata Madre Maria Celeste Crostarosa, Virgem, Religiosa e Fundadora da Ordem do Santíssimo Redentor (Monjas Redentoristas)


Crostarosa possuía dotes para o governo, era firme nas decisões, entusiasta no empreendimento de sua obra; com notável capacidade de análise e síntese, coragem, e um ardor que se acentuava mais nas dificuldades e obstáculos, encontrava meios geniais para não desistir de realizar o que o Senhor lhe pedia.


        Nascida em Nápoles, no dia 31 de outubro de 1696, foi tomada pelo belo sol mediterrâneo e pelo irradiante Cristo Sol a ponto de dizer: “Ele é meu solo e meu sol”. Pequena em tamanho, mas de estatura humana e espiritual. É uma pérola escondida. Era a décima entre doze filhos de uma família cristã e nobre, de alta magistratura. Eram cinco irmãos e sete irmãs. Seu pai foi o Dr. José Crostarosa; laureado em ambos os direitos e revestidos de alto grau de magistratura na capital; sua mãe foi Paula Batista, da nobre família Caldari.

          No dia 1º de Novembro de 1696, festa de “Todos os Santos”, na Igreja Paroquial, foi batizada e recebeu o nome de Giulia Marcela Santa. Era uma criança normal em suas brincadeiras na convivência com seus irmãos. Era de natureza tipicamente napolitana: sensível, alegre, viva e de inteligência precoce. Também era atenta às leituras da vida dos Santos, feitas em família. 

Aos vinte e um anos de idade, Júlia, juntamente com sua irmã mais velha, Úrsula, entra no Carmelo de Marigliano, em abril/maio de 1718. Dois anos mais tarde sua irmã mais jovem, Joana, faz o mesmo. No dia 21 de novembro de 1718, festa da “Apresentação de Maria ao Templo”, as duas primeiras, recebem o hábito religioso; Júlia passa a chamar-se Ir. Maria Cândida do Céu e no ano seguinte faz a Profissão Religiosa. 

Deus reservava para Júlia, um caminho todo especial. Cada vez mais, Cristo vai conduzindo-a para Ele, no interior de si mesma. Neste processo evolutivo, descobre o mistério de Cristo, vivendo em sua alma. Pouco tempo depois de sua tomada de hábito, escreve uma Regra de candura para si mesma, dada pelo Espírito da Verdade. Deus a introduzia na vida espiritual, confiava-lhe suas aspirações divinas e a acostumava-a, pela sua familiaridade, à vida íntima com Ele.

Assim, certo dia, depois da Santa Comunhão, penetrada pelo Olhar Divino, teve uma grande luz interior e o Senhor lhe disse: “Quero fazer-te mãe de muitas almas que desejo salvar por teu intermédio”.

O Carmelo em que vivia, no entanto, ia desaparecer: sua fundadora – a duquesa de Marigliano – Isabel Mastrilli, tomara tal autoridade sobre o Mosteiro que reduziu as pobres Carmelitas a incríveis tribulações. Foi tal a situação que o Bispo aconselhou a fechar o Mosteiro e que as religiosas procurassem ouro lugar para viver.

As três Irmãs Crostarosa, a conselho do Pe. Thomaz Falcóia, já relacionado com as carmelitas, como pregador de retiro e diretor espiritual, resolveram ingressar no Mosteiro de Scala, que era dirigido por este religioso e seu Superior.

Em novembro, as três irmãs Crostarosa entram no Mosteiro de Scala; quinze dias depois, recebem o hábito de Visitandinas. Júlia recebe o nome de Ir. Maria Celeste do Santo Deserto.

Em 25 de abril de 1725, Ir. Maria Celeste, no silêncio da oração percebe como experiência forte de fé, que Deus deseja uma nova família religiosa na Igreja, que faça presente no meio da humanidade a expressão do Amor que Ele tem por seus filhos. Compreendeu que um novo Instituto seria fundado por seu intermédio, e que as Regras e leis que nele se devia observar, seriam uma imitação de Jesus.  Ele devia ser a Pedra Fundamental; os conselhos evangélicos de Sua Divina Doutrina, seriam o cimento; o coração dela devia ser a terra em que se elevaria este edifício; e o Divino Pai, seria o obreiro.

          “O Pai escolheu este Instituto para que seja para o mundo recordação viva de tudo que seu filho Unigênito operou para sua salvação”.

          Maria Celeste, fazendo-se eco a voz que, com clareza, percebe em seu interior, revela-nos o porque deste projeto religioso: “O Pai escolheu este Instituto para que seja para o mundo recordação viva de tudo que seu filho Unigênito operou para sua salvação”. É o que, em sua Regra, ela denomina “O Desígnio do Pai Eterno”.

Monja Redentorista
          Sem perder tempo, Irmã Maria Celeste escreveu as Regras como Nosso Senhor colocara em seu coração. Pe. Falcóia examinou o manuscrito das Regras e, sem perda de tempo, comunicou que iria a Scala examinar o caso.

          Enquanto as religiosas de Scala e o Pe. Falcóia lutavam com as dificuldades, Nápoles se edificava com a admirável piedade de um jovem sacerdote, que vivia dentro de seus muros. Todos repetiam a história desse advogado que renunciara ao fórum para se retirar ao seminário dos chineses. Era ele: Afonso Maria de Ligório que, a 21 de dezembro de 1726, fora ordenado sacerdote.

          Dada a celebração da consagração Episcopal de Pe. Falcóia, sua estadia aí se prolongaria; por isso resolveu enviar a Scala seu amigo Afonso de Ligório, como confessor e pregador dos exercícios espirituais. As Religiosas poderiam dirigi-se a este com inteira liberdade e confiança.

          Pe. Afonso aceitou o encargo e dirigiu-se ao Mosteiro em Setembro de 1730.  Essa foi a primeira e decisiva entrevista do Santo Doutor com a Beata. Ela nada ocultou, e Santo Afonso compreendeu essa alma e os desígnios de Deus sobre ela.

          Ali em Scala, cada um em seu momento, descobriu a vocação à qual eram chamados: dar à Igreja uma família religiosa que, seguindo o Redentor, se convertesse em Memória Viva de sua vida e sua obra durante os anos em que peregrinou pelos caminhos do mundo. 

          Maria Celeste, assessorada por Santo Afonso, deu forma a uma comunidade que se esforça para viver plenamente o Evangelho de Cristo em todas as dimensões de sua  vida humana e religiosa, para ser  na Igreja e no mundo um testemunho visível e um memorial vivo do Mistério Pascal da Redenção no qual o Pai realizou seu desígnio de amor pelo Cristo e no Espírito Santo.

Escritora y fundadora en Nápoles - Panorama Católico
         Terminado o exame da proposta de Maria Celeste, Santo Afonso declarou a todas as Religiosas que a nova Regra tinha sido dada por Deus, e com a graça do Senhor a 13 de Maio de 1731, dia de Pentecostes, deu-se finalmente princípio ao novo Instituto, com o nome de “Ordem do Santíssimo Salvador”, e aos 06 de Agosto, festa da “Transfiguração do Senhor” do mesmo ano de 1731, as irmãs receberam o hábito da ordem.


          Paralelamente à Ordem, Santo Afonso fundou, em 1732, a Congregação do Santíssimo Redentor para os homens, os missionários. Por suas origens, por seu nome e sua espiritualidade, a Ordem do Santíssimo Redentor, está ligada à Congregação do Santíssimo Redentor. Os Institutos são chamados a realizar um fim comum de maneira complementar. Ambos tem por missão, ser testemunhas fiéis do amor do Pai e continuar assim, com a graça do Espírito Santo, o Mistério do Cristo Jesus, nascido da Virgem Maria, para a salvação da humanidade.

          Como Jesus, a vida de Maria Celeste foi sempre cheia de sofrimentos e dificuldades. Por dificuldades com o bispo Falcoia e a comunidade, foi expulsa do mosteiro de Scala. Indo para Pareti, com sua irmã. Ali de 1733 -1735, a pedido do Bispo,  reforma o Convento da Anunciação. De 1735-1738, com sua irmã, inicia o “o convento Mater Domini”, no qual vivem, tanto quanto possível, as normas e estilo de vida da revelação de Scala.

          Dali vai para Foggia onde dia 09 de março de 1738, ocupando provisoriamente o Colégio de Orti, dos Padres Jesuítas. No dia 04 de Outubro de 1739,  Madre Maria Celeste, sua irmã Iluminata e 6 jovens, vão para o Mosteiro definitivo em Foggia. Ali mantém grande amizade com São Geraldo que era diretor espiritual do Mosteiro. Aí escreveu a autobiografia e completa os manuscritos que manifestam bem claramente sua evolução espiritual.

           No dia 14 de Setembro de 1755, Madre Maria Celeste, com a idade de 59 anos, faleceu  às 15h. No dia 14 de dezembro de 2015 foi promulgado o decreto sobre o milagre ocorrido por intercessão de Madre Maria Celeste. No dia 18 de junho de 2016 realizou-se a beatificação da Beata Maria Celeste Crostarosa, em Foggia, pelo Cardeal D’Amato, enviado do Papa Francisco. Sua festa litúrgica é lembrada no dia 11 de setembro.
          
          Em Itu-SP há um mosteiro dessa ordem, o Mosteiro da Imaculada Conceição e em São Fidélis-RJ, o Mosteiro da Santa Face e do Puríssimo e Doloroso Coração de Maria. O de São Fidélis segue a regra antiga, e as monjas usam o hábito azul. 

          Ela recebeu a missão de aprofundar o Evangelho na dimensão de transformação e de gerar uma nova família religiosa que se funda no amor recíproco que faz dela uma viva memória.

          Sua contribuição para a espiritualidade está na linha do ser viva memória de tudo o que Cristo fez para nossa salvação em sua vida terrestre. O Redentor continua em nós e, por nós, sua obra de salvação para ser o que Paulo ensina: “Já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Fundadora das Monjas Redentoristas é beatificada na Itália - A12.com          Maria Celeste tem uma espiritualidade feminina que ensina a mulher a se relacionar com Deus e com os outros como mulher. Ensina a todos a respeitar a própria condição e torná-la meio de santificação. As inspirações que levou adiante têm caráter evangélico, compreendidas na dimensão mística. Contou com o apoio de Santo Afonso e de São Geraldo.

          A congregação que fundou, a Ordem do Santíssimo Redentor (Monjas Redentoristas) tem mais de 400 religiosas em diversos países. É oportuno o conhecimento sempre maior dessa que continua sua missão entre nós.

          Maria Celeste é uma verdadeira mestra da vida espiritual e religiosa. “Exercício” e “Memória” são termos seus, cheios de sabedoria e experiência contemplativa. A “Memória” (pensamento permanentemente em Cristo) sem “Exercícios” (prática evangélica) é vazia e os “Exercícios” sem “Memória”, são infecundos e tornam a vida individual e comunitária artificial e difícil.

          A base da vida espiritual ela a coloca no conhecimento pleno e experimental do Cristo, não tanto como exemplo de virtudes a praticar, mas como “mistério”, isto é, “acontecimento histórico-salvífico” da caridade de Deus. Para ela, pela comunhão de vida pessoal e comunitária com o Cristo, tudo se torna existencialmente “memória” teologal, eclesial, eucarística, salvífica. Todo o Instituto torna-se também, pela vida atuante e transparente, Instituto do Santíssimo Redentor.

Urna com as relíquias da Beata


Heroinas da Cristandade: Beata Maria Celeste Crostarosa, Monja ...
Pintura que retrata a Beata Maria Celeste e Santo Afonso






Fontes:https://www.a12.com/redentoristas/santos-e-beatos/serva-de-deus-maria-celeste-crostarosa
http://www.provinciadorio.org.br/noticia/exibir/1144/Beata-Maria-Celeste-Crostarosa.html
http://heroinasdacristandade.blogspot.com/2019/09/beata-maria-celeste-crostarosa-monja.html


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Beato Valentino Paquay, presbítero da Ordem dos Frades Menores, modelo de pastor de almas e apóstolo do confessionário.



Primeiro texto biográfico
Valentino Paquay – Ludovico (ou Louis) era o seu nome de batismo – , da Ordem dos Frades Menores, nasceu em Tongeren (Bélgica).

Quando era jovem, sentiu-se profundamente tocado pela misericórdia divina, durante um sermão a que assistiu. Surgiu assim a sua vocação sacerdotal e religiosa. Procurou então seguir o exemplo dos Santos, tendo sempre diante dos olhos figuras como são João Berchmans e são Luís Gonzaga.

Desejava também ele obedecer de coração à vontade de Deus, ser a vontade de Deus realizada completamente na medida da graça divina e da generosidade de um coração jovem. Transcorreu quase toda a sua vida, como religioso, em Hasselt.

Nos seus sermões, o tema principal era o amor de Deus por todos nós. Mesmo quando falava de assuntos como o pecado e o inferno, a sua consideração final referia-se constantemente à misericórdia de Deus, que é sempre maior que o coração humano. Pregou muitos retiros sobre este tema. A sua vocação específica era o confessionário. No clima do seu amor, todos se sentiam livres de confessar os seus pecados.

Permanecia muito tempo durante a noite na igreja a rezar por estes homens de boa vontade, assumindo sobre si uma parte da penitência pelos seus pecados. Sentia grande amor pela Sagrada Escritura. Mostrava de maneira viva a atualidade das palavras de Jesus, convidando assim os fiéis a um encontro verdadeiro com o próprio Senhor.

Faleceu em 1905, depois de uma vida simples, transcorrida na penumbra do confessionário e na sua cela, que era muito simples: uma cama de madeira, um genuflexório alto, uma mesinha e uma cadeira. A um irmão que se lamentava porque lhe tinha sido tirada a sua cadeira, respondeu: "Tenho presente uma boa cadeira", e deu-lhe a sua.

Desta forma, Padre Valentino queria ser o mais pequenino, o menor face a qualquer outro indivíduo. O seu ideal missionário aproxima-se do santo Cura d'Ars e da pequena santa Teresa de Lisieux. No centro da sua Província, o pequeno padre, enfermo, frágil, vítima da varíola, foi conforto para o seu povo atormentado de Hasselt, visitando os doentes, sempre em comunhão espiritual com os seus irmãos de hábito e com toda a Ordem dos Frades Menores. Dedicou toda a sua vida à escuta dos corações e das almas, evitando qualquer manifestação de privilégio, qualquer louvor desmedido, querendo assemelhar-se cada vez mais a são Francisco de Assis, consciente dos limites e debilidades características de todos os seres humanos.


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Segundo texto biográfico
O Beato Frei Valentino Paquay nasceu em Tongres, na Bélgica, em 17 de novembro de 1828, filho de Henry e Anna Neven,  casal profundamente religioso, quinto de onze filho. Recebeu o nome de Louis (ou Ludovico) no Batismo. Depois de concluir as aulas do ensino fundamental, ingressou na faculdade de Tongres dos Cânones Regulares de Sant'Agostino para continuar seus estudos literários; em 1845, foi admitido no pequeno seminário de St-Trond para cursos de retórica e filosofia.

Com a morte precoce de seu pai, ocorrida em 1847, após obter o consentimento materno, ingressou na Ordem dos Frades Menores da província belga e, em 3 de outubro de 1849, iniciou o noviciado no convento de Thielt. Em 04 de outubro do ano seguinte, fez sua profissão religiosa nas mãos do padre Ugolino Demont, guardião do convento e, imediatamente depois, foi a Beckheim para assistir ao curso teológico que terminava no convento de St-Trond. Ordenado sacerdote em Liège, em 10 de junho de 1854, foi designado pelos superiores a Hasselt, onde permaneceu por toda a vida, cobrindo também os cargos de vigário e guardião. Em 1890 e 1899, foi eleito definidor provincial.

Com a orientação de são João Berchmans (de quem era muito devoto), a quem chamava de “meu professor favorito, padre Valentino - escreve Agostino Gemelli - se envolve na espiritualidade franciscana, ensinando-nos a virtude de todos os momentos, a valorização das coisas mínimas, sob o aspecto da humildade mais franca e imediata" (cf. I. Beaufays, P. Valentino Paquay, o "Santo Padre" de Hasselt, Milão, Ed. Vita e Pensiero, 1947, Apresentação).

O trabalho de Padre Valentino foi incansável no campo do apostolado. Ele pregava quase continuamente e, devido à sua palavra simples e persuasiva, era muito estimado, especialmente nos círculos populares e institutos religiosos. Ele era acima de tudo assíduo no confessionário, imitando o santo Cura d'Ars, com quem às vezes era comparado. Muitas vezes, dava prova de também possuir o dom de penetrar de maneira extraordinária nas consciências dos penitentes, que vinham até ele mesmo de longe.

O beato Valentino tinha uma devoção singular à Santíssima Eucaristia e, com seu apostolado de meio século a favor da comunhão frequente, foi o precursor ativo do famoso decreto do Papa são Pio X. Devoto do Sagrado Coração de Jesus, de quem nunca deixou de meditar e ampliar as excelências da perfeição, difundiu seu culto, principalmente entre as irmãs da Fraternidade da Ordem Franciscana Secular de Hasselt, que ele dirigiu espiritualmente por 26 anos.

Antiquíssima imagem de Maria, Virga Jesse, venerada
em Hasselt, Bélgica.
Ele sempre manteve viva a memória da Paixão de Jesus, praticando diariamente o exercício piedoso da Via Sacra. Muito devoto da Virgem Maria, ele a venerava desde muito jovem, na igreja paroquial de Tongres, sob o título de Causa Nostræ Lætitiæ, e sob o título de Virga Jesse no santuário de Hasselt. Mas, como um bom franciscano, ele preferia entre todos os títulos de Maria o da Imaculada Conceição. Apesar de já estar bastante fraco e doente queria comemorar, com grande exultação, o cinquentenário da proclamação do dogma, que coincidia com seu jubileu de sacerdócio.
Padre Valentino Paquay faleceu em sua amada Hasselt em 1º de janeiro de 1905, aos setenta e sete anos. A heroicidade de suas virtudes foi reconhecida por são Paulo VI com um decreto de 04 de maio de 1970. Foi beatificado por são João Paulo II em 9 de novembro de 2003.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

SANTA MARIA BERTILLA BOSCARDIN, Virgem e Religiosa, Protetora das vítimas do câncer


Camponesa, empregada doméstica, enfermeira e religiosa, dedicou sua vida ao cuidado dos doentes. Vítima de um câncer, é também invocada como protetora contra o câncer.

É humilde camponesa — disse dela Pio XII, por ocasião da beatificação, a 8 de junho de 1952. Figura puríssima de perfeição cristã, modelo de recolhimento e de oração. Nem êxtases, nem milagres durante a vida, mas uma união com Deus sempre mais profunda no silêncio, no trabalho, na oração, na obediência. Daquela união vinha a especial caridade que ela demonstrava para com os doentes, médicos, superiores, enfim, para com todos”.


Resultado de imagem para maria bertilla boscardinSeu nome de batismo era Anna Francesca Boscardin. Nasceu na periferia de Brendola, Itália, no dia 6 de outubro de 1888. Filha de pobres camponeses, passou sua infância e adolescência trabalhando nas lavouras, ajudando seus pais. Este era o caminho para qualquer menina vêneta, antes que as indústrias chegassem. Além disso, trabalhava também como empregada doméstica para ajudar a família. Filha de família católica, desde pequena desenvolveu um grande amor por Nossa Senhora. Sempre que podia, dedicava-se à oração.
Instruída pela mãe, cuja doçura devia compensar a violência do marido, aliás bom homem, Aninha gostava de rezar muito tempo de joelhos diante dum quadro de Nossa Senhora que se encontrava dependurado na cozinha. Isto desde a idade dos cinco anos. Ajudava a mãe nos cuidados da casa e o pai nos trabalhos do campo.
Sendo tão piedosa, conseguiu, coisa não fácil nessa altura:fazer a primeira comunhão com a idade de nove anos. Aos treze, fez voto de castidade. Muito tímida, com inteligência lenta e fraca memória, era chamada na aldeia a ignorante e a pata, mas ela não se ofendia. E estava sempre cheia de boa vontade. Quando manifestou ao pároco o desejo secreto de entrar na vida religiosa, este respondeu-lhe: “Aninhas, tu não serves para nada. Quaisquer religiosas não saberiam que fazer duma aldeã ignorante como tu és”. Ela afastou-se, muito desgostosa. Mas o padre surpreendeu o olhar entristecido da rapariga, arrependeu-se da sua recusa e no dia seguinte, de manhã, chamou-a.
Ao completar 16 anos, a 08 de abril de 1905, ingressou na Congregação das Mestras de Santa Dorothea, Filhas do Sagrado Coração, na capital de sua região, cidade chamada Vicenza. Trabalhou por um bom período como cozinheira do convento, ao mesmo tempo em que estudava enfermagem. Assim, viveu uma vida simples, dedicada à oração e ao trabalho.
Resultado de imagem para maria bertilla boscardinSã e robusta, foram-lhe entregues os trabalhos mais custosos, o forno e a lavandaria. Fez o segundo ano de noviciado no hospital de Treviso. A Superiora Geral destinava-a para o cargo de enfermeira. Mas a superiora do hospital, Irmã Margarida, pensou diferentemente: que esperar de bom dessa noviça tímida, com rosto pastoso e inexpressivo? Pô-la na cozinha como ajudante de uma freira idosa e enferma, encarregada de a vigiar e formar.
A 8 de Dezembro de 1907, foi a profissão solene da jovem religiosa, com a presença dos pais na casa-mãe de Vicenza. A Superiora geral decidiu pela segunda vez que ela seria enfermeira e mandou-a de novo para o hospital de Treviso. “Tu de novo aqui! - exclamou ao vê-la a Irmã Margarida. Preciso de enfermeiras para a cirurgia e para as doenças contagiosas, e mandam-me gente desta!” E a boa religiosa voltou às suas panelas.
No dia seguinte, por falta de pessoal, foi preciso colocá-la na seção de crianças atacadas de difteria ou garrotilho. Como por encanto, a sua imperícia desapareceu. Dum momento para o outro, manifestou-se enfermeira inteligente e hábil. Impunha respeito e inspirava confiança. Embora não tivesse em seu favor senão três anos de escola primária, preparou exames que superou com brilho.
Ali, descobriu sua vocação e realizou-se como pessoa dedicando-se a cuidar dos doentes. Cuidou, especialmente, de crianças e de vítimas da primeira guerra mundial, que afetou profundamente a Itália. Cuidando de seus amados doentes, nunca deixava de levar a mensagem de Jesus Cristo.
Conseguiu o diploma de enfermeira para se tornar mais útil aos doentes, que assistia também de noite, tomando a vez de suas coirmãs. “Quero ser a serva de todos — escreveu no seu diário — quero trabalhar, sofrer e deixar toda a satisfação aos outros’”. E ainda: “Devo considerar-me a última de todas, portanto contente em ser passada para trás, indiferente a tudo, tanto às reprovações como aos elogios, melhor, preferir as primeiras; sempre condescendente às opiniões alheias; nunca desculpar-me, também se penso ter razão; nunca falar de mim mesma; os encargos mais baixos sejam sempre os meus, pois é isso que mereço”. As ocasiões de sofrimentos nunca lhe faltaram.
Resultado de imagem para maria bertilla boscardinNo hospital, logo ficou conhecida como um exemplo de amor cristão, conquistando a simpatia de todos. Sempre tinha uma palavra de conforto e esperança para aqueles que sofriam em seu leito de dor. Sua caridade no trato com os doentes levou muitos à conversão.
No ano de 1910, quando tinha apenas 22 anos, foi diagnosticada com um câncer. Submetida a uma cirurgia, passou um bom tempo se recuperando. A partir desse momento, viveu em sua própria pele os sofrimentos de uma enfermidade e compreendeu mais ainda os enfermos. Por isso, tão logo melhorou, voltou a cuidar de “seus” doentes, dedicando-se a eles com todo amor possível.
Por causa dos contínuos bombardeios, os doentes foram transportados para Brianza e irmã Bertilla os seguiu. Mas em Viggiù foi designada para a lavanderia, sofrendo e chorando às escondidas: “Estou contente — escreveu — porque faço a vontade de Deus’’.
Assim, trabalhou em Treviso e no hospital de Viggiú. Sua caridade conseguia cada vez mais conversões. Amparava os desenganados e ajudava-os a morrer, proporcionando-lhes a assistência espiritual de um padre. Assim, muitos faleceram em paz, reconciliados com Deus, sob seus cuidados. O hospital era seu grande campo de missão.
Dedicando-se aos doentes, ela descobriu-se novamente doente. Metástases originárias do câncer anterior apareceram em seu corpo depois de algum tempo. Por causa disso, teve que suportar inúmeros sofrimentos, tornando-se cada vez mais fraca. Seu maior sofrimento, porém, foi quando não pôde mais cuidar dos doentes. Foi submetida a uma segunda cirurgia, mas não obteve sucesso. Assim, no dia 20 de outubro de 1922, Santa Maria Bertilla Boscardin entregou sua alma a Deus, tendo apenas 34 anos de idade, depois de converter, com a sua agonia resignada e serena, o médico-chefe do hospital.
Santa Bertila3Embora tendo falecido jovem, Santa Maria Bertilla Boscardin deixou um grande legado de caridade cristã e de dedicação aos enfermos. Aqueles que se converteram à fé graças à sua caridade, nunca se esqueceram dela. Por causa de sua fama de santidade, muitos foram – e ainda vão – rezar em seu túmulo e grandes graças aconteceram por sua intercessão. Por causa disso, ela foi beatificada pelo Papa Pio XII no dia 8 de junho de 1952 e canonizada pelo Papa João XXIII no dia 11 de maio de 1861. Sua festa passou a ser celebrada no dia 20 de outubro, dia de sua morte.
Ana Boscardin teve a sorte de ter uma mãe extraordinária. Ante a pobreza que sempre rondou o seu lar, ante a iracunda do marido, ante o mal-estar ambiente, ante as dificuldades de toda a vida, Maria Teresa Benetti cala-se, tem paciência, reza muito, e os filhos veem tudo isto. Veem e escutam dos seus lábios palavras sempre suaves, que lhes falam da fé, de Deus, do céu e da paciência.



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           Oração a Santa Bertilla

Ó Pai, Vós que inspirastes Santa Bertilla a se dedicar aos doentes e, depois, para que ela fizesse da dor e do sofrimento, um motivo de louvor a Vós, dai-nos, paciência e sabedoria, para que também nós possamos fazer, de nossas dores, um instrumento de redenção. Por intercessão de Santa Bertilla, que enfrentou o cêncer, pedimos a graça (...) Por Nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo, amém! Santa Bertilla, rogai por nós.”



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Gabrielle Bossis, Mística Francesa - Testemunha da Fé



Gabrielle Bossis (Nantes, 26 de fevereiro de 1874 — 9 de junho de 1950) atriz e escritora católica francesa e uma grande mística do século XX.

Resultado de imagem para gabrielle bossisGabrielle Bossis nasceu numa família francesa abastada, em Nantes, a 26 fevereiro de 1874. Pertencia à nobreza francesa e foi educada num ambiente culto e refinado. Seu pai chamava-se Auguste Bossis, um rico capitalista, sua mãe Clémence Barthélemy e os seus irmãos eram Auguste, Clémence e Marie. Foi enfermeira da Cruz Vermelha na primeira guerra mundial.
Foi escritora, diretora e atriz de teatro de sucesso. Por toda a existência levou uma vida de devoção e piedade intensa assistindo à Missa diariamente, visitas frequentes ao Santíssimo Sacramento, Hora Santa às quintas-feiras, reza do Santo Rosário diariamente, prática frequente de mortificações corporais e interiores.
Segundo ela própria, em 1936, começou a ter "locuções interiores" que durariam até a sua morte, e anotou-as em dez cadernos manuscritos, que viriam a constituir os sete fascículos da sua obra principal, “Lui et moi” (“Ele e eu”). Em 1949 uma parte desta obra foi publicada, com a condição de se manter a autoria no anonimato. A obra foi prefaciada pelo bispo de Nantes e pelo decano da Faculdade de Teologia do Instituto Católico de Paris, que não se pronunciaram sobre a origem divina das locuções, mas afiançaram a inteira ortodoxia católica do seu conteúdo bem como a utilidade da obra.
Faleceu no dia 9 de junho de 1950, em consequência de um câncer e foi sepultada em Fresne.
"ELE E EU - VIVER COM DEUS" - trata-se de uma pequena joia da espiritualidade, uma grande obra mística, que pode fazer muito bem às almas sedentas.

Mais sobre Gabrielle Bossis

Gabrielle Bossis (1874-1950) era até pouco tempo desconhecida no Brasil. Foi uma católica francesa, natural de Nantes, onde sempre viveu, mais exatamente em Fresne sur Loire, a cerca de 60 quilômetros daquela cidade. Leiga, permaneceu solteira, apesar de numerosos pedidos de casamento. De família abastada, sempre teve um bom padrão de vida, vivendo de rendimentos deixados pelos pais, o que lhe permitiu também muitas obras de caridade. Sua família era muito religiosa e ela estudou num colégio de freiras. Era a mais moça de quatro irmãos. Em 1898 perdeu o pai, passando a morar com a mãe e uma irmã, igualmente solteira. 
Resultado de imagem para gabrielle bossisMuito viva e expansiva, era extraordinariamente dotada para todas as formas de arte: pintura, música escultura, canto, trabalhos manuais, dança. Gostava dos esportes da época: bicicleta e equitação. Não era de uma beleza clássica, mas tinha muito charme, sendo inteligente, dinâmica e alegre. Conciliava seus sentimentos religiosos com uma vida social um pouco refinada. Em 1908 morreu sua mãe e em 1912 faleceu a irmã. Passou a morar sozinha. Trabalhou num atelier de decorações litúrgicas para as Missões, que ela ajuda com importantes contribuições. Ensinou regularmente catecismo e participou em outras atividades paroquiais. Obteve o diploma de enfermeira, que exerceu durante a Primeira Guerra Mundial.
Em 1923 Gabrielle está com quase 50 anos. Eis que o pároco de Fresne, que a conhecia desde a adolescência e tinha seguido seu crescimento espiritual, lhe pede que escreva uma peça teatral para os jovens. É um tipo de apostolado meio desconhecido no Brasil, mas muito difundido na época na França: peças teatrais edificantes, em nível paroquial. Ela escreve uma peça em que ela própria vai atuar, cantando e dançando com vários jovens paroquianos, atores improvisados. 
A representação conquista o público e o pároco organiza diversas outras representações e empresta a "troupe" a outras paróquias, tendo sempre um grande sucesso. Come­ça a missão de Gabrielle de escritora e atriz. De 1923 a 1936 vai compor 16 comédias em três atos e 14 "saynètes" ou balets. Todas têm um sentido moral e reflexões espirituais, sendo apresentadas em teatros paroquiais e de movimentos religiosos. Ela sempre atua nos espetáculos. Vai ficando famosa e viaja com seu grupo amador por toda a França, até 1948, quando pela idade e por seu estado de saúde tem que parar. As peças teatrais são editadas e os livros tornam-se um grande sucesso de venda, recebendo vários prêmios. Os constantes deslocamentos a obrigavam muitas vezes a dormir nos trens ou num banco nas estações ferroviárias, tinha que renunciar ao sono e a refeições regulares, suportar o calor tórrido e o frio glacial. Tudo visava o apostolado. As despesas eram todas pagas com seu bolso. E sabia conciliar o intenso trabalho com uma vida de oração constante.
Resultado de imagem para gabrielle bossisEm 1936, após 13 anos de apostolado em cena, com 62 anos de idade, Gabrielle aceita um convite para apresentações no Canadá. Até então ela não tinha nenhum diário, era muito impetuosa e dinâmica para se observar e se descrever. Eis que na viagem de ida num grande transatlântico, começa a escrever um diário da viagem. É aí que irrompe com muita naturalidade uma Voz sobrenatural em sua vida. Ela se põe à escuta da Voz e começa o diálogo, que coloca no papel. "Ele e eu". É o diálogo de Jesus com Gabrielle. Certas descobertas recentes parecem revelar que estes diálogos com a Voz divina são de fato anteriores a 1936, mas neste ano é que os diálogos se acentuaram e passaram a ser habituais. Neste momento é que seus escritos se transformam em mensagens, em autêntica missão:
"Eu não te peço se não isso: "escrever". Não é muito difícil? Eu estou contigo. Seja Minha fiel. Eu sou teu Fiel".
"Quanta doçura nos primeiros diálogos transcritos por Gabrielle", diz Lúcia Barocchi, biógrafa de Gabrielle Bossis. "É a época em que qua­se que o Senhor a "corteja", em que quer conquistar todo lugar no seu coração para ligá-la a Ele. Ternamente responde às suas perguntas, participa de seus problemas, entra quase que na ponta dos pés nas situações humanas mais humildes. É comovedor perceber esta divina sensibilidade no timbre cheio de benevolência e delicado, que Gabrielle registra". Depois a pressão torna-se cada vez maior, mais exigente, busca conduzi-la para uma vida sempre mais profunda, ávida de união eterna. De página em página o Interlocutor invisível dispensa uma delicada lição de Amor que orienta Gabrielle no caminho das virtudes fundamentais e a encoraja a tentar os esforços decisivos para seu crescimento interior. 
O Senhor que a deseja longe do mundo e das distrações "mundanas", a lança contudo no mundo do apostolado teatral, em que sua atenção era toda para Ele, para que ela lhe traga almas. Ele a exorta sempre à vida de oração - e mesmo no turbilhão de sua vida com muitas viagens ela será fiel à via-sacra cada manhã, uma hora de adoração, a Hora santa nas quintas-feiras, visitas repetidas ao Santíssimo Sacramento, o Angelus e o Rosário, a Missa diária, o que a obriga por vezes a grandes sacrifícios (estando na Córsega, teve um domingo que precisou caminhar sete quilômetros a pé para poder ir à missa):
"... Eu oferecia os perfumes intensos desta terra Córsega à Santíssima Virgem, e como não sentisse a fadiga da subida contínua, Ele me disse: Vês que tudo é fácil no Amor. E eu sentia Sua Presença à minha esquerda."
A Voz divina exorta igualmente Gabrielle à mortificação do espírito e da carne, "cilícios" em todos os sentidos.
O diário vai sempre prosseguindo. Ela não fala quase dos acontecimentos de sua vida, ignorando acontecimentos que se passam em volta, como a Segunda Guerra Mundial, registra quase que apenas diálogos espirituais. Muita coisa escreve de joelhos durante a Hora Santa semanal na igreja paroquial. A salvação das almas, a paixão pelos pecadores, a vida sacramental, a caridade, tudo está lá na lição deste Mestre que ensina o amor e pede o amor. Ele a todo momento manifesta sua ternura. Há páginas de muita profundidade e simplicidade. Há algo com Santa Teresa do Menino Jesus - nascida um ano antes dela - e seu caminho da infância espiritual.
Mas será mesmo Cristo que fala a Gabrielle? Ela mesma tem momentos de dúvida, considerando sua indignidade. Mas a própria Voz vence suas dúvidas:
"O pensamento de tua indignidade te faz duvidar que seja Eu que te fala? Não teme, se verá bem que não é por causa de teus méritos que Eu te falo, mas pela necessidade de Minha misericórdia.
Duvidas que seja Eu? Faz como se fosse verdade... Que é que escreverias se eu não te ditasse?"
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Patrick de Laubier, professor da Universidade de Genebra, membro leigo do Pontifício Conselho Justiça e Paz (nos últimos anos foi orde­nado sacerdote), autor de várias obras, entre as quais "Jesus, mon Frère", ensaio sobre as conversas espirituais de Gabrielle Bossis, observa que ela, sem formação teológica particular, teria sido incapaz por si mesma de tratar, como trata, de pontos de ordem espiritual e teológica particularmente importantes, recebendo uma notável iluminação. "Como escrever mil e cento e quatro páginas de conversações sobre tantos assuntos sem cometer nenhum erro teológico, com uma felicidade de expressão e uma profundidade espiritual tão original, sem o atribuir Àquele que lhe fala? Se notará, aliás, a dificuldade para Gabrielle Bossis de crer em sua missão e de medir a extraordinária vocação à qual foi chamada". Laubier vê no diário de Gabrielle Bossis como mensagem particularmente importante o Amor universal de Cristo e diz que a particularidade mais revolucionária de Ele e Eu reside na constante tensão "missionária" de Cristo, que quer quase "ultrapassar" o limite para se unir a nós, para nos converter. Gabrielle não é tanto aquela que recebe, mas a que retransmite as mensagens ardentes que Cristo lança a cada um de nós.
De fato, as mensagens de Cristo não são dirigidas unicamente a Gabrielle e ele a partir de 24 de outubro de 1944 começa a pedir a publicação delas em livro. Gabrielle concorda, desde que seu nome não aparecesse. Um papel importante na publicação da obra terá o Pe. Alphonse de Parvillez, SJ (1881 -1970), autor espiritual conceituado, colaborador da revista "Études", conhecido por sua ligação com o grande escritor Daniel-Rops (colaborou para a sua volta à Igreja e o orientou para a História da Igreja). Ele é amigo de Gabrielle desde 1929 e fica encarregado de encontrar um editor. Os tempos difíceis da guerra impedem isso. Só em 1948 o Pe. de Parvillez vai encontrar a editora, a conhecida Beauchesne. Nesse ínterim, o próprio bispo de Nantes, Mons. Villepelet, mostra interesse e mesmo impaciência pela publicação. Quando ela recebe as provas do livro, o Interlocutor divino abre-se numa comovedora efusão, "uma das mais belas páginas do diário" para Lúcia Barocchi:
"Sim, fica muito alegre e reza para que cada uma destas li­has tenha sua ressonância de passos nas almas. Oh, Minha Filha, podes saber o caminho que terá este livrinho? Pede-me para ir aos mais miseráveis, estes paralíticos espirituais, estes desolados sem esperança, estes mudos diante de Deus, estes possuídos do desejo de dinheiro. Pede que Eu passe por intermédio deste livrinho como Eu passava outrora, curando, atraindo a Mim.. (...) Ah! Que venham se alimentar nele e respirar mais forte!".
A obra sai em julho de 1949 com prefácio do bispo Mons. Villepelet, apresentação do Pe. Jules Lebreton, SJ, antigo decano da Faculdade de Teologia do Instituto Católico de Paris e introdução do Pe. de Parvillez, SJ. Nenhum dos três se pronuncia sobre a origem divina das locuções, mas garantem a perfeita ortodoxia e utilidade dos textos. O Pe. Lebreton nota que Gabrielle, tendo se perguntado se as palavras que anotava vinham do Senhor ou dela mesma, Cristo lhe responde: "Mas mesmo que estas palavras saíssem de teu natural humano, não sou eu que criou este natural? Não deves tu tudo tornar a levar a mim? De mim, a raiz de teu ser. Minha pobre filhinha". E o Pe. Lebreton acrescenta: "A dúvida era legítima; mas a resposta foi boa. É preciso acrescentar que Deus, que criou a alma, a santifica e a move por sua graça. Mais a vida espiritual se desenvolve, mais esta ação é poderosa, mais também ela é manifesta. O termo ao qual aspira o cristão que quer ser inteiramente fiel à graça, é descrito em toda verdade por São Paulo: "Não sou eu mais que vivo, é Cristo que vive em mim". O Pe. de Parvillez explica por sua vez a natureza da obra: "São "palavras interiores", percebidas por uma alma como vindas de Cristo, e notadas por ela logo. Nada de aparições, nem de audição externa; tudo se passa além do mundo dos sentidos, numa região mais profunda".
Resultado de imagem para gabrielle bossisEnfim, o livro alcança bastante sucesso e Gabrielle começa - ainda convalescendo de uma cirurgia para a retirada de um tumor no seio - a preparar logo um volume II com o material de seus cadernos. Ela está com 76 anos. Sente-se fatigada. Em março de 1950 os médicos descobrem que o tumor atingiu os pulmões. Gabrielle Bossis morre, depois de muitos sofrimentos, mas de forma muito consciente, num dia significativo: na noite da festa de "Corpus Christi, 9 de junho. É sepultada com o hábito de terciária franciscana, num túmulo por ela escolhido anos antes e no qual mandara gravar a seguinte inscrição: "Oh, Cristo, meu irmão \ trabalhar junto de Ti \ sofrer contigo \ morrer contigo \ sobreviver em Ti".
O II volume de "Ele e Eu” sairá em dezembro de 1950, com um belo prefácio de Daniel Rops (que consta da antologia publicada agora em português pela Quadrante). Os volumes III a VII foram saindo gradualmente, até 1953, organizados pelo Pe. de Parvillez, a partir dos dez cadernos deixados por Gabrielle. O vol. VI é precedido de uma biografia de Gabrielle por sua amiga, a sra. Pierre de Bouchaud.
De 1953 para cá a obra de Gabrielle Bossis tem feito seu caminho, embora sem muito estrondo. A autora vai se tornando conhecida. O conceituado "Dictionnaire de Spiritualité" a menciona no verbete "Palavras interiores" ("Paroles intérieures"), de André Derville, que lembra outras místicas do séc. XX e a compara a Santa Brígida da Suécia, Santa Gertrudes Magna, Santa Catarina de Sena, Santa Margarida Maria Alocoque, Marina de Escobar, Maria di Agreda. Em 1999 Patrick de Laubier publica seu ensaio teológico, que acima mencionamos, "Jesus mon frère", e em 2005 sai na Itália uma biografia mais completa de Gabrielle, "Luit e Gabrielle Bossis", de Lúcia Barocchi, figura conhecida do laicato italiano (o cardeal Camillo Ruini escreve o prefácio do livro). Está agora surgindo na França uma "Associação Gabrielle Bossis", montando um site (www.gabriellebossis.fr) em que se pede orações pela beatificação de Gabrielle.
Para concluir, percorramos alguns dos textos de "Ele e Eu - Viver com Deus" (Quadrante):

20  de janeiro de 1939. Soissons. "Difunde a alegria por onde quer que passes". Na minha solidão, pensava comigo mesma: "Ah, se Ele estivesse comigo neste vagão". Ele: "Tu não me vês, mas estou aqui. Sempre estou contigo" (p. 14).
13 de janeiro de 1939. "Aumenta, aumenta a intensidade dos teus sentimentos de Fé, de Esperança e de Caridade! Pensas que, se me pe­disses com frequência que te faça santa, Eu poderia deixar de atender-te? Exercita-te na esperança e na reparação, pois não há arte que se possa adquirir sem exercício" (p. 16).
19 de dezembro de 1936. "Há momentos em que duvidas de que seja Eu quem te fala, tão simples e tuas próprias te parecem as minhas palavras. Mas por acaso não somos tu e Eu uma e a mesma coisa?" (p. 17).
Argel, 23 de abril de 1937. "Não te canses de Mim. Eu não me canso de ti" (p. 20).
1937.  Admirava-me de que Ele me tivesse cumulado de tantos bens durante toda a minha vida, ao passo que a outras... Enfim disse-me com suma delicadeza: "Perdoas-me por ter-te amado tanto?" (p. 21).
1938.  "Diz-me bom dia a cada amanhecer, logo que acordares. Como se estivesses entrando no céu" (p. 26).
21  de maio de 1938. Nantes, de volta a casa. "Que se possa julgar a tua alma pela ordem da tua casa" (p. 36).
1937.   "Quando recebes com um sorriso as pequenas contrariedades da vida diária, curas as minhas chagas" (p. 41).
12 de maio de 1937. "Eu ando à procura de sofrimentos que se queiram unir aos meus" (p. 42).
1938.   Eu pensava na morte e me perguntava: "Que farei [nessa hora]? Serei capaz, ao menos, de dizer bom dia ao meu Deus? Ele, com vivacidade: "Serei Eu quem te desejará bom dia" (p. 45).
1 de abril de 1938. No metrô: "Fala comigo, fala comigo!" (p. 51).
25 de maio de 1937. Renne, no trem: "Por que haverias de viver na solidão, se Eu quero que vivas em público? E depois, com muito carinho: "Minha filhinha tão amada leva-me, leva-me aos outros. Sobrenaturaliza" (p. 52).
1938. "Com os outros, podes falar pensando em outra coisa, mas comigo, não!" (p. 55).
1940. Na bela igreja do século XIII. "Evita pensar que Eu exijo que as almas sejam perfeitas para recebê-las no meu Coração. Dai-vos a mim com todas as vossas misérias e negligências e com as vossas faltas de cada momento. Reconhecei-as aos meus pés e pedi perdão por elas, e estai seguros de serdes os filhos queridos do meu Amor" (p. 60).
19 de abril de 1940. "A Eucaristia é o presente do céu; nada tem valor neste mundo fora dela" (p. 65).

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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Beata Liduina Meneguzzi, Religiosa Missionária das Irmãs de São Francisco de Sales (Salésias)


«A mensagem que a Beata Liduina Meneguzzi traz hoje à Igreja e ao mundo, é uma mensagem de esperança e de amor: uma esperança que resgata o homem do seu egoísmo e das formas aberrantes de violência; um amor que se torna convite à solidariedade, à partilha e ao serviço, conforme o exemplo de Jesus que veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de todos». (Decreto sobre a heroicidade das virtudes)

Resultado de imagem para santa liduína meneguzziElisa Ângela Meneguzzi, (a futura irmã Liduina), nasce aos 12 de Setembro de 1901, em Santa Maria de Ábano, na província de Pádua, Itália. A família é de lavradores muito modestos, mas ricos de fé e de honestidade, valores que a pequena assimila muito cedo.
Revela um vivo espírito de oração: participa todos os dias à santa Missa, não obstante tenha de percorrer a pé dois quilômetros; frequenta a Catequese e, mais tarde, ela também se torna Catequista. À noite, antes de dormir, reza com a família e se sente feliz de falar de Deus aos irmãos.
Aos catorze anos, a fim de ajudar economicamente os seus, inicia a trabalhar fora de casa, prestando serviço nas famílias abastadas e nos hotéis de Ábano, onde numerosos hóspedes procuram alívio nas águas termais.
De caráter manso, sempre disponível, faz-se amar e estimar em toda a parte. Desejosa de consagrar toda a vida ao Senhor, aos 5 de Março de 1926, entra na Congregação das Irmãs de São Francisco de Sales— ou SALÉSIAS—, cuja Casa Mãe encontra-se em Pádua. Aqui ela realiza o seu ideal de total oferta a Deus e continua a espalhar em volta de si os tesouros do seu grande coração.
Desempenha com amor os seus trabalhos quotidianos, como roupeira, enfermeira e sacristã, entre as meninas do colégio Santa Cruz que sempre encontram em irmã Liduina uma amiga boa, capaz de escuta, de ajuda nos seus problemas, por meio de bons conselhos. Em todas elas, deixa impressões indeléveis de ternura, de encorajante serenidade, de paciência a toda a prova.
Em 1937, irmã Liduina vê finalmente realizar-se o grande sonho, desde então cultivado no seu coração: partir para a terra de missão e levar a fé, o amor de Cristo a tantos irmãos que ainda não O conhecem.
Pelos Superiores, irmã Liduina é enviada como missionária à Etiópia, em Dire Dawa, cidade cosmopolita pela presença de povos de costumes, origens e língua diferentes. É aqui, em tal semelhante mosaico de raças e de religiões, que a humilde freira se dedica, com fervor, à sua tarefa missionária. Ela não tem uma profunda cultura teológica, mas sim uma grande riqueza interior, alimentada do contato profundo com Deus.
Trabalha como enfermeira, no hospital «Parini» que, durante a guerra, vem a tornar-se hospital militar, onde são, portanto, acolhidos os militares feridos, para os quais irmã Liduina é verdadeiramente «um Anjo de caridade». Com carinho e dedicação incansável, trata os males físicos, pois vê, em cada irmão que sofre, a imagem de Cristo.
Resultado de imagem para santa liduína meneguzziEm breve tempo, o seu nome ressoa nos lábios de todos; por isso todos a procuram, A chamam e a invocam como uma bênção. Os indígenas a chamam «Irmã Gudda», ou seja, «grande». Durante o enfurecer dos bombardeamentos sobre a cidade e o hospital, de cada boca sai um único grito: «Socorro, irmã Liduina!». E Ela, sem preocupar-se do perigo, transporta os feridos para o refúgio e depressa acorre para ajudar os outros. Aproxima-se dos moribundos para lhes sugerir um ato de contrição e com a sua inseparável garrafinha de água, tenta batizar as crianças agonizantes.
O seu doar-se não se limita somente aos italianos, aos cristãos; mas com verdadeiro coração ecumênico, ela vai em socorro dos brancos e negros, dos católicos e coptas, dos muçulmanos e pagãos.
Irmã Liduina ama, sobretudo, conversar sobre a bondade de Deus Pai, do bonito Paraíso, preparado para todos nós, seus filhos. Os indígenas, na maioria muçulmanos, ficam seduzidos e experimentam uma simpatia nova para com a religião católica.
A nossa Freira é também chamada «chama ecumênica», porque, muito antes do Concílio Vaticano II, vive um dos aspectos mais recomendados do Ecumenismo. As almas de Deus costumam preceder os tempos; são como faróis luminosos que indicam a direção certa, embora a estrada não esteja ainda muito clara.
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No entanto, porém, o mal incurável que ameaça há tempo a sua saúde, faz-se sentir mais forte. Ela acolhe serenamente e com paz, a sua nova situação. Sofre e vai-se gastando exercendo corajosamente, até ao fim, a sua preciosa obra de amor entre os irmãos doentes.
Aceita, enfim, submeter-se a uma delicada e difícil intervenção cirúrgica que no início parece bem sucedida, mas em seguida apresenta complicações e uma paralisia intestinal que deu cabo da sua existência. Era o dia 2 de Dezembro de 1941.
Irmã Liduina morre santamente, com 40 anos de idade, conscientemente abandonada à Vontade de Deus, oferecendo a sua jovem vida, para a paz do mundo inteiro. Um médico presente afirma: «Nunca me aconteceu de ver alguém morrer com tanta serenidade e beatitude».
Os militares que a choram como se fosse uma pessoa de família, desejam e obtém que seja sepultada na parte do cemitério a eles reservado. Passados vinte anos, no mês de Julho de 1961, os restos mortais de irmã Liduina, são transportados para Pádua, numa Capela da Casa Mãe, onde, devotos e amigos costumam visitá-la e invocar a sua intercessão junto de Deus.
Beatificada em 20 de outubro de 2002, Irmã Liduina Meneguzzi tornou-se um autêntico espelho de humildade e caridade cristãs, manifestando a misericórdia de Deus com os pobres, doentes e feridos.
“Famílias dos povos aclamai ao Senhor! Aclamai a glória e o poder do Senhor!" (Sl 96, 7). As palavras do Salmo responsorial exprimem muito bem a aspiração missionária, que invadia a Irmã Liduina Meneguzzi, das Religiosas de São Francisco de Sales. No breve mas intenso período da sua existência, a Irmã Liduina dedicou-se aos irmãos mais pobres e vítimas do sofrimento, em particular no hospital da missão de Dire-Dawa, na Etiópia.
Com ardente zelo apostólico, procurava fazer com que todos conhecessem o nosso único Salvador, Jesus Cristo. Na escola daquele que era ‘manso e humilde de coração’ (cf. Mt 11, 29), ela aprendeu a defender a caridade, que brota de um coração puro, ultrapassando toda a mediocridade e a inércia interiores.” Homilia de beatificação - Papa João Paulo II