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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quinta-feira, 14 de julho de 2016

SANTA VERÔNICA GIULIANI, Virgem e Mística (segundo texto, complementando o texto recém publicado)


"Enquanto se rezava a Missa, vi são Francisco Xavier com uma cruz. Este me deu a conhecer que ela significava o cargo de Abadessa e que seria colocada sobre meus ombros.

"Estais louca? replicou o confessor. Abadessa, uma tonta como vós? Governar um mosteiro, se não sois capaz nem de governar as galinhas? São extravagâncias que vos passam pela cabeça".

Quem seria essa religiosa, de quem o confessor teria, pelo menos na aparência, um conceito tão desfavorável?

Nascida em Mercatello (Itália) -- localidade distante 18 milhas de Città di Castello --, ainda dentro dos imponderáveis natalinos, no dia 27 de dezembro de 1660, Úrsula Giuliani, manteve sempre dentro de si o grande significado da festa máxima da Cristandade: a alegria pelo nascimento dAquele que seria crucificado para redimir os homens.

Essa filha do casal Francisco Giuliani e Benta Mancini, desde a mais tenra idade, osculava as imagens de Nossa Senhora e do Menino Jesus. E quando sua mãe e as irmãs comungavam, não conseguia afastar-se delas para estar perto de Nosso Senhor. No dia de sua Primeira Comunhão confessa que sentia um calor tão grande que a inflamava inteira, especialmente o coração.

Isso não a impedia de levar uma vida como as demais crianças de sua idade, e até em condições de luxo, com servidores e domésticos, em vista da boa situação social e econômica de seu pai, que era Duque.

Porém, nem os presentes e o carinho que aquele lhe devotava, pois a tinha por filha predileta, nem o prazer que sentia naquela vida agradável e sem problemas, impediram que aos 15 anos pedisse a Jesus que lhe desse Seu Coração para ser a morada de sua alma, e Suas penas para viver crucificada como Ele.

Na via de um profundo desprendimento
Em 1677, aos 16 anos de idade, tornou-se religiosa, entrando como noviça no convento de freiras clarissas em Città di Castello, tomando o nome de Verônica. Ela confessa que, em vista de suas apetências naturais para uma vida confortável, todas as coisas no convento se lhe tornavam difíceis. E como não sabia qual a origem dessas dificuldades, percebendo que elas se opunham à sua vocação, decidiu adotar o grande princípio de vida espiritual, o agere contra, e fazer sempre o contrário do que suas apetências naturais pediam: "Eu me propus ir sempre contra a corrente, tanto em matéria de alimentação, como no vestuário e em todas as ações".

Quando ela pensava que devia agir sempre por amor de Deus, tudo tomava sentido. Jesus crucificado deveria ser seu livro e seu guia:

"O lado humano chorava e o espiritual se alegrava no meio das cruzes. Algumas vezes, devido às rebeliões da natureza humana, ficava dias sem saber o que fazia: o hábito, as paredes, tudo que via causavam-me melancolia. Para vencer-me, osculava as paredes, o hábito e tudo aquilo pelo que sentia aversão".

A fidelidade ao agere contra a levou a repudiar sua própria vontade para poder fazer somente o que Deus queria. "Tu nada és e nada fazes", disse-lhe Ele; "desprenda-te de tudo em tudo e então experimentarás os efeitos da minha graça divina".

Sendo fiel à especial vocação para qual Nosso Senhor a chamava, chegou a receber os estigmas da Paixão e a Coroa de Espinhos.


Diante da calúnia de estar possessa pelo demônio: paz de alma
No caminho do sofrimento, Verônica percebeu que as cruzes, as tentações, as desolações, os abandonos e todas as contrariedades constituem a porta e a luz que conduzem a Deus. Incendiada pelo amor à cruz, sentiu desejo ardente de salvar a todos. Fazer penitência para a conversão das almas, passou a ser seu lema.

Quantas vezes sentiu tentações contra a fé, quanto tempo passou na aridez e na desolação! Quantas vezes chamou por Nosso Senhor e não ouviu Sua resposta! Mas uma aspiração permanecia constante em sua alma: o desejo de salvar os pecadores, custasse o que custasse.

Assim, recebeu acusações, por parte de Irmãs malevolentes e caluniadoras, de estar possessa pelo demônio. E outras, menos furiosas, diziam que seus "estados anormais" (leia-se fenômenos místicos com que era favorecida a Santa) vinham de seu desejo de se fazer notar. Apesar das perseguições que sofria, em seu convento, diretamente do demônio ou de suas irmãs de hábito, mantinha-se inalterável na paz interior própria a quem estava abrasada pelo amor de Deus.

Almas que sofrem, jovens isolados, mães desoladas, honestos profissionais dos mais diversos ramos perseguidos ouçam o conselho de Verônica: para entender o que é o amor de Deus é necessário passar longamente sob a prensa do sofrimento. Pedi a mediação dela a fim de obterem as forças necessárias para suportar cristãmente todas as adversidades que a Providência permite que sejam enviadas, com vistas a nosso próprio proveito espiritual.

Domínio perfeito do caráter colérico
Verônica foi eleita abadessa em 5 de abril de 1716, aos 56 anos de idade e 40 de vida religiosa, por unanimidade. Sinal de que mesmo suas adversárias no convento a consideravam perfeitamente digna e capaz de ocupar o elevado cargo.

Mandou então colocar uma imagem de Nossa Senhora sobre o trono abacial, apresentando-A como a nova abadessa: "Sois Vós a abadessa; seguirei Vossas ordens", declarou. Deste modo deu prosseguimento a um hábito que lhe era familiar desde a mais tenra idade: voltar-se para Maria.

Nossa Senhora -- que era a Abadessa de fato -- aconselhou-a que governasse com amor e pelo amor, mas sem amor próprio e respeito humano. E que tivesse a regra na mão para ver tudo; no coração para penetrar tudo e impressa em si mesma para que fosse observada por todas.

Viveu com temor e tremor de que o cargo resultasse na perdição de sua alma. No entanto, segundo um testemunho, era a abadessa ideal, capaz de pôr ordem no mundo inteiro. Tinha essa arte dificílima de se fazer amar e, ao mesmo tempo, incutir um temor filial. Considerava-se mãe amorosa, tratando a todos com a mesma afabilidade, cortesia e benquerença.

Embora se dissesse ter caráter colérico, exercia tal domínio sobre si que isto nunca transparecia. Quando admoestava, corrigia ou dava penitência, jamais irritava as religiosas sobre quem recaíam suas advertências, pois todas sabiam que era para seu próprio bem e faziam prontamente qualquer coisa que mandasse. Com esta atitude conseguiu erradicar a mania que algumas tinham de procurar informar-se de tudo o que se passava fora, levando os assuntos mundanos para as conversas internas, com grave prejuízo para a seriedade que deveria reinar no convento.

O mosteiro floresceu e tornou-se um espelho de todas as virtudes. E com a virtude reinava a união e a paz. Verônica era o sol radiante, a chama que não se apaga, o Anjo que conduz ao Paraíso.


Penetração dos corações e milagres em vida
Verônica penetrava no interior das almas; via suas aflições, seus pensamentos, as graças de que necessitavam.

Certa vez, em meio a uma reunião com as noviças, levantou-se de repente e saiu correndo rumo à cela de uma religiosa. Esta última, talvez por desequilíbrio mental, havia chegado a agredir Verônica pouco tempo antes. Ao chegar à cela, abriu com dificuldade a porta e encontrou a religiosa fora de si, desvairada, querendo matar-se. Verônica a consola, fala de Deus, do inferno, e acaba por devolver a calma a um coração agitado pelo remorso e pelo desespero.

A par do conhecimento das almas, tinha ela também o dom dos milagres, havendo realizado muitos ainda em vida.

Certo dia, um incêndio ameaçava destruir toda a igreja. Verônica, desde o coro, invoca Nossa Senhora e, fazendo um sinal da cruz, faz cessar imediatamente o perigo.

Em outra ocasião, um número incalculável de bichinhos roíam as raízes das hortaliças. Por ordem do confessor, Verônica fez um grande sinal da cruz e todos vieram à superfície. "Ide ao galinheiro", ordenou a santa e todos para lá se dirigiram a alimentar as galinhas, que tiveram nesse dia uma lauta refeição. Foi uma cena de fazer arrepiar muitos partidários da ecologia festiva.

Multiplicou muitas vezes alimentos como queijo, ovos, azeite, frutas e peixe quando eram insuficientes para a pobre mesa do claustro.

Ela mesma declara que todos os dias presenciava milagres da santa obediência. E os via realizados em si mesma, tantas foram as curas inexplicáveis que teve de muitas dores e doenças.





Um crucifixo a chamava para aconselhá-la
Nossa Senhora a chamava de "coração de meu coração; alma de minha alma". Ela lhe aparecia, abraçava, dava conselhos, confortava, andava com a fisionomia de Verônica no meio das religiosas, e lhe prometia uma proteção contínua na vida e na morte.

No Santo Natal, a imagem do Menino Jesus, em seus braços, tomava forma humana. Um crucifixo do mosteiro a chamava para dar conselhos. Os Santos, os Anjos a visitavam. Numa das renovações da profissão dos votos, que fazia uma ou mais vezes ao ano, foi assistida pela Virgem Maria, Santa Clara, São Francisco, São Felipe Neri.

Pediu ao confessor licença para morrer...
Um ano antes de sua morte, como acontecera durante quase toda a vida, conta que estava na obscuridade de espírito, nas trevas e em um mar de tentações, mas sempre obedecendo a Deus.

O despojamento de sua vontade, substituída pela de Deus a levou a ser obediente até para morrer, pedindo permissão ao confessor para passar para a outra vida; obtido o consentimento, no mesmo instante voou para a eternidade. Isto ocorreu em 9 de julho de 1727, no convento onde era abadessa, em Città di Castello.

A notícia de sua morte se espalhou sem que se soubesse como, e uma multidão de damas, nobres, cavaleiros e pessoas do povo dirigiu-se ao mosteiro.

Encontrando-o fechado, golpearam a porta gritando: "Queremos ver a nossa Santa! Abri!"

Tomadas algumas precauções, o Bispo mandou colocar o corpo na porta da igreja, mas foi tal a desordem causada pelo desejo de tocar, conseguir uma relíquia, ou pelo menos olhar pela última vez aquela que foi a mãe querida, a irmã insubstituível, a grande protetora de todos, que o Prelado mandou fechar a porta e enterrar logo o corpo.

Os benefícios de sua virtude e a fama de sua santidade espalharam-se por toda a península italiana. Reis, Príncipes e grandes da Terra pediam sua intercessão junto a Deus para atender suas necessidades ou as de seus súditos.
Monges, sacerdotes e leigos, atingidos por doenças incuráveis em fase terminal, recuperaram instantaneamente a saúde ao simples contato de uma relíquia sua, ou por ter implorado sua ajuda.

Vinte milagres foram arrolados nos processos diocesano e apostólico para sua canonização, a qual se deu mais de cem anos após sua morte.

Pio VII beatificou-a, na presença da Arquiduquesa Maria da Áustria e do Rei Carlos Emanuel da Sardenha, no dia 7 de junho de 1802. E Gregório XVI canonizou-a solenemente em 29 de maio de 1839, festa da Santíssima Trindade.

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Fontes de Referências:

Raffaello Cioni, S. Veronica Giuliani, Libreria Editrice Fiorentina, Florença, 1951.

Sancta Veronica Giuliani, Vitae spiritualis magistra et exemplar tertio ab eius nativitate exeunte saeculo (1660-1960), Institutum Historicum Ord. Fr. Min. Cap., Romae, 1961.


Ctesse. M. de Villermont, Sainte Véronique Giuliani, Librairie Générale Catholique, Maison Saint-Roch, Paris-Couvin, Bélgica, 1910.

Fonte: site Catolicismo 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

SANTA TERESA DE LOS ANDES, Virgem. Primeira Santa Carmelita das Américas e Patrona da Juventude Latino-Americana. - 13 de julho


Quais eram os anseios mais profundos de Juanita Fernandez Solar, essa moça carinhosa e bela, que nos deleita com seu trato afetuoso e alegre? Sua alma, excessivamente pura para ficar no mundo, ansiava se converter em esposa mística de Cristo.


Observe, leitor, a fotografia de “Juanita” Fernández Solar. É uma jovem de 18 anos, nas vésperas de entrar para um austero convento carmelita no qual tomou o nome de Irmã Teresa de Jesus. Viveu santamente nesse convento durante nove meses apenas. Morreu aos 19 anos, como vítima expiatória pelos sacerdotes, por sua família, pela sociedade em que brilhara. E hoje é conhecida e venerada em todo o mundo como Santa Teresa de los Andes.

Numa primeira vista, sua fisionomia agrada. Ela é bela e acolhedora. Em seu rosto, ainda muito jovem, destacam-se luminosamente seus lindos olhos azuis. Embora aristocráticos e altivos, cientes de seu próprio valor, eles não rejeitam quem está diante de si. Pelo contrário, parecem nos acolher, nos introduzir na presença desta jovem, não de uma forma protocolar como quem diz: "Prazer em conhecê-lo", mas envolvendo-nos com um afeto suave e discreto de tal forma que, após alguns segundos contemplando-a, nos sentimos como se ela já fizesse parte de nossa vida.

A fotografia denota uma pureza alcandorada, uma inocência reluzente. Juanita até dá a impressão de que a Providência a tenha limpado do pecado original já nos primeiros instantes de sua vida. Como todas as impressões, estas têm algo de pessoal, mas por certo o efeito que esta fotografia produz em nós tem muito a ver com a jovem por ela representada.


Santa Teresa de Los Andes aos 03 anos. 
Alma contemplativa

Primeira santa carmelita latino-americana, Santa Teresa de los Andes nasceu em Santiago do Chile, em 13 de julho de 1900, numa família católica e aristocrática. "Jesus não quis que eu nascesse como Ele, pobre. E nasci no meio das riquezas, mimada por todos" - escreve em seu diário.

Seus biógrafos coincidem em ressaltar que ela era sempre o centro das atenções onde estivesse, pela sua amabilidade, graça e simpatia. Era alegre e comunicativa, mas também séria e de um temperamento enérgico.

Suas brincadeiras eram animadas e entusiasmadas. À sua casa acorriam muitos parentes e amigos. Uma tarde anunciou a todos os seus irmãozinhos e primos que presenciariam algo nunca visto por olhos humanos. Eles teriam o privilégio de assistir à Assunção da Santíssima Virgem. Os meninos se puseram diante de uma mesa sobre a qual estava uma imagem de porcelana da Virgem Maria, com uma coroa de metal. Juanita escondeu-se atrás de um biombo e "magicamente" a imagem começou a subir, ante a admiração dos pequenos, até desaparecer por trás de um cortinado. O "milagre" tinha sido operado por Juanita por meio de um delgado fio amarrado na coroa da imagem.

*   *   *

Quando se tratava de brincar, era a primeira de todas, a mais animada, a mais alegre, a mais ativa. Na fazenda Chacabuco, de seus pais, andava a cavalo montada de lado como uma grande dama. Era difícil ultrapassá-la nos passeios a galope com seus irmãos e primos. Nas férias, no balneário de Algarrobo, perto de Valparaíso – em um ambiente de pudor e compostura hoje difícil de imaginar – era ela uma ousada nadadora. Jogava tênis. Fazia caminhada com as amigas.

Mas, sobretudo, contemplava. Em carta a uma amiga, escrevia: "Não podes imaginar paisagens mais bonitas que as que víamos... colinas cobertas de árvores e no fundo uma abertura onde se via o mar, sobre o qual se refletiam nuvens de diversas cores. E, por trás, o sol ocultando-se. Não podes imaginar coisa mais bela, que faz pensar em Deus, que criou a terra tão formosa. Que será o Céu? - pergunto-me muitas vezes."

E à Madre Priora do Carmelo que a iria acolher, contava: "O mar, em sua imensidade, me faz pensar em Deus, na sua infinita grandeza. Sinto então uma sede do infinito." Estando já no Carmelo, e sabendo que sua mãe passaria férias de novo na mesma praia, lhe escrevia: "Cada vez que a senhora olhar o mar, ame a Deus por mim, mãezinha querida."


Santa Teresa com sua irmã Rebeca 

(com a cabeça reclinada no 
ombro da irmã) que, mais tarde, 
entraria também no Carmelo
Festejada por todos

Suas companheiras de aula a descrevem como sendo uma moça alegre e amável, suave no trato, de maneiras muito finas, firme e constante na ação. Entretida e divertida por seu caráter alegre e sem complicações. Muito bonita, com belos olhos azuis, nariz bem cortado, tez branca, bastante alta. Todas a festejavam. Tinha uma bela voz de contralto e sempre lhe pediam que cantasse.

Durante as férias na fazenda, muito cedo se dirigia à capela para saudar o Senhor Sacramentado e tocar o harmônio como forma de oração. Durante as tardes, após o rosário em família, pediam-lhe para tocar também o harmônio, o que ela fazia com encanto de todos, mas, sobretudo, de Deus. Escrevia muito bem, e no colégio obtinha as melhores notas em literatura, história, religião e filosofia. Suas colegas sempre procuravam sua companhia e a chamavam carinhosamente de mater admirabilis.


Foto da Santa (primeira, à esquerda, sentada) com amigos e familiares. 



O afeto e o carinho familiar que uma sociedade perdeu

Na vida hostil, impura e materialista de nossos dias, é difícil entender o que era o afeto existente nas famílias católicas, há poucas décadas. Vejamos, a título de amostra, alguns trechos de uma carta que Juanita escreveu a seu pai, o qual ficara no campo trabalhando, enquanto a família passava férias de verão no balneário de Algarrobo. Depois de narrar-lhe belos passeios e exercícios de natação, Juanita manifesta a seu pai seu filial carinho: "Como o senhor vê, paizinho, não falta mais que o senhor para sermos felizes. Enquanto nós nos divertimos aqui, o senhor está trabalhando, de sol a sol, para nos proporcionar comodidade. Não temos, paizinho, meio de lhe pagar, pois é grande demais seu sacrifício. Mas nós, seus filhos, compreendemo-lo e o enchemos de carinho e cuidados, pois achamos que esta é a melhor maneira de agradecer a um pai. Por que não vem aqui pelo menos por uns dias? Não sabe a tristeza que me dá quando vejo as outras meninas felizes com seus papais. Por favor, venha, pois nós o temos tão pouco durante o ano!"

Em outra carta, assim se despede do pai: "Receba, paizinho, abraços e beijos de mamãe e de meus irmãos, mais mil beijos e carinhos desta sua filha que mais lhe quer e que se lembra a cada momento de seu paizinho querido."

O pai, por sua vez, mostra a reciprocidade do afeto, numa carta escrita depois de tê-la autorizado a entrar no Carmelo:

"Minha filhinha querida:
Recebi as duas cartas pelo que muito te agradeço, embora me façam tanto sofrer, ao pensar que quem me escreve e que me toca desta forma a alma vai se separar de mim para sempre. Mas o sacrifício está feito e eu o ofereci a Deus para que me perdoe por aquilo em que eu O tenha ofendido na minha vida. E como o sacrifício é tão grande, Ele o vê e o terá em conta.
Minha querida filhinha, não sabes o bem tão grande que tuas cartas me fazem, não só agora, mas antes mesmo de tua resolução, porque via nelas tanto carinho e ternura. Elas me deram nova vida e desejo de trabalhar por teus irmãos (...)
Feliz, tu, mil vezes, minha filhinha, que te consideras feliz e sentes essa paz de alma que tão poucos podem sentir e que há tanto tempo foge de mim. Só desfruto algo dela depois das férias que passamos juntos na intimidade” (...)
Não creias em nenhum momento, minha querida filhinha, que me tenha arrependido de haver-te dado meu consentimento. Muito pelo contrário. Pois creio que as preces de uma alma tão pura como a tua serão ouvidas por Deus, e elas me acompanharão o resto de minha vida e serão meu melhor refúgio para me preservar dos muitos perigos. E não te esqueças jamais que meu pensamento te acompanhará noite e dia (...) Que Deus me mande todas as provas e sofrimentos e os afaste de ti.
"Não te canses, minha filhinha, de continuar pedindo por teu pobre papai... Para ti, um milhão (de beijos e abraços) de teu pai que não te esquece um instante."

A Santa em sua Primeira Comunhão
As graças místicas iluminaram toda a sua vida

Aos dez anos, a pequena Juanita fez sua Primeira Comunhão. Desde então, como ela revelou a seu confessor, o Pe. Antonio Falgueras, SJ, "Nosso Senhor me falava depois de comungar; dizia-me coisas das quais eu não suspeitava. E quando eu Lhe perguntava, me revelava coisas que iam suceder e que de fato aconteciam. Mas eu achava que ocorria o mesmo com todas as pessoas que comungavam."

Em carta a seu pai, pedindo permissão para ser carmelita, narra: “Desde pequena amei muito a Santíssima Virgem, a quem confiava todos os meus assuntos. Só com Ela me desafogava. Ela correspondeu a esse carinho; protegia-me, e escutava sempre o que eu lhe pedia. E Ela me ensinou a amar Nosso Senhor (...) Um dia (...) ouvi a voz do Sagrado Coração que me pedia que eu fosse toda d'Ele. Não creio que isso tenha sido uma ilusão, porque nesse mesmo instante me vi transformada: aquela que procurava o amor das criaturas, não desejou senão o de Deus”.

Já no Carmelo de Los Andes, escreve ao Padre Colón, SJ: "Também Nosso Senhor se apresenta a mim, às vezes, interiormente e me fala. Durante aproximadamente uma semana, vi-O na agonia, mas de uma maneira tal como jamais teria sonhado. Sofri muito, porque essa imagem me aparecia constantemente e me pedia que O consolasse. Depois foi o Sagrado Coração, no tabernáculo, com o rosto muito triste. E, por último, no dia do Sagrado Coração, apresentou-Se a mim com uma ternura e beleza tal que minha alma se abrasava em seu amor."


Foto da Santa tirada por familiares 

na véspera de sua entrada no Carmelo.
Como nunca mais os familiares iriam 
ver o rosto de Juanita novamente, 
pediram que ela tirasse uma foto 
vestida de carmelita,  para 
guardar de lembrança. 
Escrava de Maria, grandes provações

A jovem Juanita ingressou no convento de Los Andes no dia 7 de maio de 1919. Recebeu o hábito de noviça em 14 de outubro do mesmo ano, tomando o nome de Irmã Teresa de Jesus. No dia 8 de dezembro, consagrou-se como escrava de Maria, segundo o método ensinado por São Luís Grignion de Montfort. Doravante, seus atos e sacrifícios seriam todos para Nossa Senhora. "Combinei com a Santíssima Virgem que Ela passasse a ser meu sacerdote, que me oferecesse a cada momento pelos pecadores e pelos sacerdotes, mas banhada com o sangue do Coração de Jesus" - escreveu.

No curto tempo passado por Juanita no convento, sua superiora, com um extraordinário senso das almas, determinou que continuasse seu apostolado por meio de cartas à sua família e às suas amigas. Os resultados não se fizeram esperar. Sua mãe se fez carmelita descalça secular. Sua irmã menor, Rebeca, ingressou no mesmo convento, meses após a morte da Irmã Teresa. Várias de suas amigas, moças da melhor sociedade, tinham por ela tal estima e admiração que decidiram também consagrar suas vidas a Jesus, no Carmelo ou em outros institutos religiosos. Atravessando crises e ambientes adversos, perduram até hoje os efeitos de seu bom exemplo, atraindo muitas jovens para a vida contemplativa e para as atividades de apostolado leigo na sociedade.

No dia 01 de abril de 1920, a Irmã Teresa adoeceu gravemente. Ante a iminência de sua morte, e dada a santidade de sua vida, a madre superiora permitiu que fizesse os votos de carmelita professa e Esposa de Cristo, in articulo mortis, no dia 7 desse mês.

Mas estavam por vir as grandes provações espirituais que uma vítima expiatória costuma receber. Quis Deus que ela, como outros santos, sofresse a terrível sensação de ter sido não só abandonada, mas condenada por Ele. Assim, ardendo em febre, fazia esforços para retirar seu escapulário e afastar os objetos de piedade que a rodeavam. Num tom de voz acabrunhador, exclamou: "Nunca pensei que a Santíssima Virgem fosse me abandonar!". Depois de certo tempo de luta terrível, foi-se acalmando aos poucos, até que num momento disse sorrindo, como se tivesse uma visão: “Meu esposo”! Morreu suavemente três dias depois, em 12 de abril de 1920.

De forma inesperada, o povo da cidade de Los Andes acorreu em grande número ao velório dessa até então desconhecida freira, que vivera apenas nove meses no Carmelo. Todos pediam para tocar seus objetos de piedade no corpo da "santa", todos recebiam graças de paz, de benquerença, de afervoramento e de piedade.

Em 03 de abril de 1987, S.S. João Paulo II beatificou a Irmã Teresa. Sua fama de santidade cresceu de forma impressionante no Chile e em todo o mundo, sem que ninguém se preocupasse em difundi-la. Por fim, o mesmo Papa a canonizou, no dia 21 de março de 1993. Um imponente santuário foi construído em sua honra, tendo como fundo de quadro uma grandiosa vista da Cordilheira dos Andes.


(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Fev/2003, n. 14 e Março/2003, n. 15)

domingo, 10 de julho de 2016

SANTA VERÔNICA GIULIANI, Virgem e Mística Estigmatizada



Grande mística, participou dos sofrimentos de Nosso Senhor na Paixão, tendo os cinco estigmas de Cristo sido impressos em seu corpo.

A vida extraordinária de Santa Verônica Giuliani nos dá um exemplo do cuidado com o qual a Santa Madre Igreja lida com os fenômenos místicos e com aqueles que os recebem. Suas experiências místicas e as graças sobrenaturais que recebeu figuram no relato que por obediência ela escreveu a seu confessor e nos dados biográficos por este compilados após a morte de sua dirigida.

Verônica nasceu no dia 27 de dezembro de 1660 em Mercatelo, pequena cidade do ducado de Urbino, nos antigos Estados pontifícios, hoje território da Itália. Seu pai foi Francisco Giuliani e sua mãe, Benta Mancini, senhora de rara piedade. Sétima filha do casal, Verônica recebeu no batismo o nome de Úrsula.

Quando Benta esperava por essa filha, foi cumulada com graças de saúde, piedade, paz e confiança em Deus, que pressagiavam o futuro excepcional destinado à criança. Com efeito, nos partos anteriores Benta sempre se sentira fraca, sem coragem e lânguida. Neste, foi tudo ao contrário.

Com um ano e meio Úrsula pronunciou suas primeiras palavras. Foi quando, levada por uma empregada à mercearia, vendo que o vendedor roubava no peso da mercadoria, disse-lhe com voz forte e clara: “Sê justo, pois Deus te vê”.1

Aos três anos de idade, Úrsula já tinha comunicações familiares com Jesus e Maria. Colocava seu almoço num pequeno altar diante de uma imagem da Madona, e convidava o Infante Jesus a dele participar. Comprazida com essa inocência e simplicidade, Nossa Senhora animava sua imagem, e o Menino Jesus descia de seus braços para tomar o alimento com sua pequena serva.

Ao morrer precocemente, Benta legou às suas cinco filhas, como testamento espiritual, as cinco chagas de Nosso Senhor. A Úrsula coube a chaga do lado. Embora ela tivesse somente quatro anos de idade, essa chaga seria objeto especial de sua devoção e fonte de graças e virtudes.

Imperfeições de caráter
Quando sua mãe faleceu, Úrsula passou aos cuidados de um tio. A menina era extremamente caridosa para com os pobres, dando-lhes até parte de seu vestuário quando nada mais tinha. Uma vez deu seus sapatos a uma pequena pedinte, e viu-os depois, engrandecidos, nos pés de Nossa Senhora.

Aos 16 anos, manifestou-se nela uma imperfeição de caráter que precisava ser corrigida. Em seu zelo excessivo, repreendia e até maltratava a quem visse cometendo alguma falta. Assim, deu uma bofetada numa criada a quem viu agindo mal. Quando as pessoas não queriam participar de suas práticas religiosas, ela se tornava ditatorial. Nosso Senhor mostrou-lhe então que seu coração parecia feito de aço. Úrsula também se acusa em seus escritos de ter tido má complacência com o teor mais elevado de vida que passou a ter quando seu pai, nomeado superintendente da fazenda em Placência, levou consigo as filhas.

Francisco Giuliani sonhava para a filha caçula um muito bom casamento. E pretendentes não faltaram. Mas havia muito tempo que Úrsula decidira entregar-se inteiramente a Deus. Depois de muita insistência, obteve licença do pai e entrou no convento das monjas capuchinhas de Città di Castello, onde foi recebida com o nome de Verônica. Tinha ela 17 anos.

Na cerimônia de recepção, presidida pelo bispo, este disse à abadessa do convento: “Eu recomendo esta nova filha ao vosso especial cuidado, porque ela será um dia uma grande santa”. Nunca ele foi tão grande profeta!

Modelo de obediência e humildade
O noviciado da Irmã Verônica foi muito difícil devido aos esforços do demônio para desencorajá-la. As paredes do convento pareciam-lhe muito austeras, do mesmo modo que os rostos das freiras. Nenhuma delas atraía sua simpatia. Mas ela venceu todas essas repugnâncias, fazendo sua profissão religiosa no ano seguinte.

Nos bons tempos, em quase todos os conventos, a noviça era designada para os afazeres mais modestos, a fim de praticar as virtudes da obediência e da humildade. Assim ocorreu com Verônica. Foi sucessivamente faxineira, cozinheira, enfermeira, porteira e sacristã, trabalhando sempre com espírito sobrenatural e unida à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. De tal maneira ela conquistou as outras religiosas, que foi depois escolhida para a delicada função de Mestra de Noviças. Durante os 22 anos em que exerceu esse cargo, Verônica formou muitas religiosas que chegaram a altos graus de perfeição. Foi então escolhida como Abadessa, cargo que exerceu durante os últimos 11 anos de sua vida.

Às voltas com o Santo Ofício
"Parecia que o Senhor plantava sua cruz em meu coração e que assim me fazia compreender o preço dos sofrimentos"
Desde o tempo do noviciado, a união de Verônica com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo crescia a cada dia. De tal modo ela começou a participar da Paixão, que a si mesma chamava “Filha da Cruz”. Ela descreve a experiência mística que teve nesse tempo: “Pareceu-me ver Nosso Senhor que levava a Cruz sobre os ombros, e me convidava a partilhar com Ele essa carga preciosa. Experimentei ardente desejo de sofrer, e parecia que o Senhor plantava sua cruz em meu coração e que assim me fazia compreender o preço dos sofrimentos”.2

Tais sofrimentos foram terríveis. Dolorosas e intermináveis enfermidades, tentações violentas, aridezes e desolações interiores. Santa Verônica afirmou então que a cruz e os instrumentos da Paixão foram impressos de maneira sensível em seu coração. E desenhou num cartão em forma de coração o lugar em que estava cada um. Quando, depois de sua morte, na presença do bispo, do governador da cidade, de professores de medicina e de sete outras testemunhas dignas de fé, abriram o seu coração, constatou-se com estupor que nele estavam desenhados os símbolos da Paixão tal e qual ela havia descrito.

Um dia Verônica pediu a Nosso Senhor para participar de sua coroa de espinhos. O Divino Mestre a colocou em sua cabeça. Verônica experimentou uma tão inaudita dor, como jamais tinha sentido. E essa coroa permaneceu em sua cabeça até o fim de sua vida. Ao intervirem, os médicos aumentaram ainda mais seus padecimentos, aplicando um bastão de fogo na sua cabeça e furando-lhe a pele do pescoço com uma agulha incandescida. Nada conseguindo, foram obrigados a reconhecer que aquela “enfermidade” lhes era desconhecida.

Verônica recebeu também os estigmas, os quais eram visíveis às outras irmãs. Seu confessor ficou assustado. Tantos fenômenos místicos o deixavam desnorteado. Foi falar com o bispo. Este consultou então o Santo Ofício, que o encarregou de pôr à prova a obediência, a humildade e a resignação de Verônica, pois estas constituem a base de toda santidade.

Começaram por destituí-la do cargo de Mestra de Noviças. Ela foi também separada da comunidade e encerrada num quarto da enfermaria com a proibição de ir ao coro, exceto nos dias de preceito para ouvir missa. Não podia ir ao locutório nem escrever cartas, a não ser para suas irmãs também religiosas. Pior ainda, foi designada uma irmã conversa para dirigi-la, com ordem de tratá-la com toda severidade. E o que mais a fez sofrer: proibiram-na de receber a Sagrada Comunhão.

Pode-se dizer que no caso de Verônica Giuliani todas as precauções inspiradas pela prudência humana para bem conhecer a verdade foram então empregadas pelo bispo de Città di Castello orientado pelo Santo Ofício.

Depois de um período de prova, o bispo, D. Lucas Antonio Eustachi, escreveu ao Santo Ofício, em carta de 26 de setembro de 1697: “A Irmã Verônica continua praticando uma exata obediência, profunda humildade e abstinência surpreendente, sem dar o menor sinal de tristeza. Pelo contrário, aparece com uma paz e uma tranqüilidade inalteráveis. É objeto da admiração de suas companheiras, as quais, incapazes de ocultar a grata impressão que lhes produz, falam disso a outras pessoas. Apesar de eu impor penitência às que mais falam, para que não alimentem a curiosidade do povo, que em suas conversações não tratam de outra coisa, custa-me grande trabalho lograr uma moderação”.3

Mística dotada de muito senso prático
Santa Verônica tinha uma caridade ardorosa pela conversão dos pecadores e libertação das almas do purgatório. Foi-lhe revelado que, por suas penitências e orações, ela converteu ao bom caminho inúmeros pecadores e libertou muitas almas das chamas do Purgatório, as quais lhe apareciam para agradecer por essa caridade.

Tendo passado por todas essas provas, Santa Verônica foi eleita abadessa do mosteiro em 1716, começando então para esse setor religioso uma época de grande prosperidade. Pois, apesar de acentuadamente mística e espiritual, Santa Verônica possuía um senso prático muito desenvolvido, a exemplo de outra grande mística, Santa Teresa de Ávila. Mandou fazer todo um sistema de encanamentos para que o convento tivesse água própria, construiu um grande dormitório e uma capela interior, e procurou para a comunidade todas as comodidades compatíveis com o espírito de sua Regra.

Santa Verônica Giuliani faleceu aos 67 anos de idade, no dia 9 de julho de 1727.

E-mail para o autor: catolicismo@terra.com.br

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Notas:
1. Father Cuthbert, Saint Veronica Giuliani, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.
2. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1948, tomo IV, p. 94.

3. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo VIII, p. 223.




sexta-feira, 8 de julho de 2016

SANTA MARIANA DE JESUS PAREDES Y FLORES, Virgem (A "Açucena de Quito).


Prodígio de penitência e mortificação, essa Santa foi dotada do dom dos milagres e da profecia, chegando a ressuscitar duas pessoas. Vítima expiatória, faleceu aos 26 anos, oferecendo sua vida para que Deus livrasse a cidade de Quito da peste e dos terremotos que a abalavam.


Foi na ilustre Quito, então pertencente ao Vice-Reino do Peru, que nasceu Marianita a 31 de outubro de 1618. Oitava filha do Capitão Dom Jerônimo de Paredes y Flores, originário de Toledo, e Dona Mariana de Granobles de Xamarillo, descendente dos primeiros conquistadores do país, que aliavam a nobreza do sangue à das virtudes.

O modo excelente pelo qual praticou as virtudes durante sua vida deve ser altamente admirado, embora não seja de molde a ser imitado pelo comum dos fiéis.

Aos quatro anos perdeu o pai. A mãe, acabrunhada de dor, resolveu passar algum tempo numa casa de campo. Montada numa mula, levava sua filhinha ao colo. Quando foram transpor celeremente um riacho, a mula tropeçou e a criança caiu. Mas seu anjo da guarda a amparou no ar até que fosse recolhida pela aflita mãe.

Pouco tempo depois a menina ficava duplamente órfã, pois faleceu sua virtuosa mãe. Mas, antes, esta a havia confiado à filha mais velha, casada então com o Capitão Cosme de Casso.  Esse jovem casal já tinha três filhas mais ou menos da idade de Mariana, e deu-lhes a mais esmerada formação. De uma inteligência muito viva e alerta, Marianita aprendia com facilidade tudo quanto lhe ensinavam, mas sobressaiu-se sobretudo na música e canto. Dotada de bonita voz, entretanto só queria utilizá-la para entoar cânticos religiosos e louvores de Deus.


De uma piedade precoce, com suas sobrinhas da mesma idade organizava procissões, a Via-Sacra, e rezavam juntas o Rosário. Entretanto, a piedade de Mariana ia mais além. Desde os seis anos, por penitência, deixou de comer carne, peixe e laticínios. Disciplinava-se (castigava-se) com folhas de urtiga, e uma vez sua irmã mais velha descobriu que ela usava um cilício de ásperas folhas.

Um dia em que as quatro crianças brincavam em determinado local do quintal, subitamente Mariana fez com que suas jovens sobrinhas saíssem rapidamente. Apenas tinham-no feito, uma parede desmoronou exatamente onde elas se encontravam.

A irmã e o cunhado, vendo que ela tinha uma piedade muito acima de sua idade, procuraram conseguir com que ela fizesse a Primeira Comunhão aos sete anos, quando o costume era então aos 12. Um jesuíta chamado para examiná-la surpreendeu-se com a maturidade da menina e seu adiantamento na via da virtude. Deu-lhe a Primeira Comunhão e passou a dirigi-la espiritualmente. Foi então que ela acrescentou o nome “de Jesus”, para mostrar que só a Ele pertencia. E, iluminada por uma luz interior, fez o voto de castidade perpétua.

Inflamada pelo amor de Deus, Marianita queria que todos participassem de seu ardor. Nasceu-lhe assim o desejo de evangelizar os índios Mainas, e convenceu suas sobrinhas a segui-la nessa empresa. Tinha já conseguido a chave da casa para saírem à noite, mas, contra seu costume, adormeceu até a manhã seguinte, e o plano gorou.

Pensou então em serem eremitas junto a um oratório abandonado no monte Pichincha, erigido outrora a Nossa Senhora para que Ela preservasse a cidade das erupções desse vulcão. Mas, estando já a caminho, foram detidas por um touro que lhes impediu obstinadamente a passagem.

No próprio lar: reclusão e vida religiosa
Quando Mariana completou 12 anos, seu cunhado e a irmã, vendo o trabalho que a graça operava na menina, quiseram encaminhá-la a um convento onde pudesse desenvolver todos os pendores de sua alma. Ela escolheu o das franciscanas. Por duas vezes, estando o enxoval pronto e, como era costume na época, os parentes convidados para acompanhá-la, circunstâncias imprevistas impediram a realização do plano. Mariana então comunicou a seu confessor que Deus lhe revelara que a queria vivendo recolhida, mas no mundo. O confessor falou com seus responsáveis, que concordaram com isso.

Mais ainda – e isso mostra um aspecto daquela época de fé –, o casal separou três cômodos da casa para a adolescente levar sua vida de reclusa. Isso na idade de 12 anos! E mobiliaram os aposentos de acordo com a posição da família. Mariana, contudo, fez tirar os móveis e mobiliou os aposentos a seu modo: um leito forrado com pranchas de madeira de forma triangular, uma cruz coberta de espinhos, um caixão de defunto com um esqueleto de madeira e uma caveira. Uma das salas foi transformada em capela, colocando ela no altar as imagens do Menino Jesus e da Virgem Maria. Mariana adotou então uma túnica negra do mesmo tecido da batina dos jesuítas, com uma faixa à cintura e a cabeça coberta com um véu de lã também preta.

Depois de se trancar nos novos aposentos, renovou o voto de castidade e fez os votos particulares de obediência e pobreza. Não saía senão para ir à igreja e – a fim de praticar a humildade e mortificação – servir as refeições para a família. Só que não tocava nos delicados pratos servidos, mas dava sua parte aos pobres, contentando-se com água e um pedaço de pão. Algumas vezes passava dias só com a Sagrada Eucaristia.

Mariana não dormia mais que três horas por noite, sendo que às sextas-feiras dormia no caixão.

Levantava-se às 4 horas da manhã, tomava longa disciplina, e depois fazia meditação e recitava parte do Ofício Divino. Dirigia-se então à igreja para confessar-se e assistir à Missa. Muito devota das almas do Purgatório, dedicava-se diariamente, das 8 às 9 da manhã, a ganhar indulgências a favor delas. Recitava depois o terço, fazendo em seguida algum trabalho manual em favor dos pobres. Servia então a refeição da família, e, voltando a seus aposentos, recitava Vésperas e fazia seu exame de consciência. Trabalhava de novo até às 17 horas, quando fazia sua leitura espiritual e depois rezava as Completas. Das 18 horas a 1 da manhã ocupava-se de coisas diversas, em geral fazia outra meditação e leitura da vida dos santos.

Seu amor aos pobres era sem limites. Como não possuía nada pessoal, pediu licença ao cunhado para dar-lhes esmolas com víveres da casa. E o fazia generosamente. Mas como Deus não se deixa vencer em generosidade, à medida que Mariana dava aos pobres, Ele aumentava as provisões da família.

É claro que essa vida tão penitente e o jejum quase contínuo de Mariana deixaram-na muito fraca e macilenta. Isso atraiu o elogio do povinho, que via nela uma santa. Ela suplicou então a Nosso Senhor que lhe mudasse a aparência, para evitar tais comentários. E realmente ficou com aspecto saudável, rosto corado, o que não levava a supor a severidade de suas penitências. Estas, entretanto, não lhe tiravam a alegria, que ela demonstrava tocando sua guitarra e cantando para consolar e distrair os infelizes.

Além das penitências procuradas, Mariana queria sofrer ainda mais por amor de Deus. Recebeu então como dádiva diversas moléstias dolorosas, o que a obrigava a ser sangrada muitas vezes. Uma empregada pegava esse sangue e jogava num buraco no jardim, onde ele permanecia rubro como se estivesse fresco. Depois da morte da santa, nele brotou um lírio de admirável beleza. Mariana, por causa da alta febre, era frequentemente devorada pela sede; mas, para imitar o Divino Mestre, que teve sede na Cruz, passava às vezes até 15 dias sem beber.

 Fachada da bela igreja da Companhia, em estilo jesuítico (gravura do século XIX).

Perseguição diabólica, profecias, milagres e ressurreições.

A esses sofrimentos acrescentem-se as perseguições do demônio, que queria levá-la algumas vezes ao desânimo, outras ao desespero.

Mariana de Jesus fez diversas profecias, que se realizaram tais como ela havia predito. Por exemplo, que a casa de seu cunhado seria transformada em convento, e que o lugar de seu alojamento seria o coro das religiosas. Com efeito, mais tarde as carmelitas descalças ali se estabeleceram.

A Serva de Deus recebeu o dom dos milagres, entre os quais se referem duas ressurreições. Sua sobrinha Joana, viajando, confiou-lhe sua filhinha. Um dia em que a criança brincava perto de umas mulas, uma destas lhe deu um coice na cabeça, fraturando-a mortalmente. Mariana fez com que a levassem à sua cela e rezou sobre ela, restituindo-lhe a vida.

Outro caso aconteceu com a mulher de um índio, empregado da família. Supondo ele injustamente que sua mulher lhe era infiel, arrastou-a para a floresta, surrou-a selvagemente, estrangulou-a e jogou o corpo num precipício. Tudo isto Mariana viu milagrosamente. Chamou um comerciante amigo da família e pediu-lhe em segredo que fosse buscar o corpo e o trouxesse sigilosamente para sua cela. Tendo-o junto a si, começou a esfregar-lhe pétalas de rosa. Imediatamente a índia voltou à vida. Depois revelou que, no meio de seu suplício, viu Mariana dizendo-lhe que tivesse coragem.

Oferecendo-se como vítima, salvou Quito do terremoto e da peste.

Em 1645, uma terrível epidemia abateu-se sobre Quito, fazendo inúmeras vítimas, ao mesmo tempo em que ocorriam terríveis tremores de terra. No dia 25 de março, assistindo à Missa, Mariana ouviu seu confessor referir-se, durante o sermão, à necessidade de se aplacar a cólera de Deus com sacrifícios e penitências. Movida pelo Divino Espírito Santo, fez ela oferecimento de sua vida pela população da cidade.

No dia seguinte, foi atacada por diversas doenças, ao mesmo tempo em que cessavam os tremores de terra e a peste. Mas a população ficou consternada ao tomar conhecimento do estado de saúde desesperador em que se encontrava aquela que veneravam como santa. Todos queriam vê-la, tocá-la, informar-se de seu estado. Mas só o Bispo foi admitido.

Mariana recebeu os últimos Sacramentos com verdadeira alegria, e quis receber a Comunhão de joelhos, apesar da fraqueza em que se encontrava. Para morrer sem nada de seu, pediu para ser transportada ao quarto de sua sobrinha, a fim de morrer em cama emprestada.

No dia 26 de maio de 1645, aos 26 anos, aquela que era chamada em vida a Açucena de Quito entregou sua alma a Deus. Logo uma multidão acorreu para venerar seu sagrado corpo e obter alguma relíquia.

Mariana de Jesus Paredes y Flores foi beatificada por Pio IX em 1850 e canonizada, 100 anos depois, por Pio XII. A República do Equador proclamou-a Heroína Nacional.

(Plinio Maria Solimeo, no site "Catolicismo")

Obras Consultadas:
Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo VI, pp. 229 e ss.
John J. Delaney, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980, p. 445.
Pe. José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, Editorial A. O., Braga, 1987, pp. 147 e ss.