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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 25 de julho de 2026

SÃO TIAGO MAIOR, Apóstolo e Protomártir dos Apóstolos - Festa em 25 de julho


Primeira narrativa hagiológica:


O pescador de homens

Tiago, irmão do apóstolo João, é chamado de "o Maior" para distingui-lo do apóstolo de mesmo nome, Tiago, filho de Alfeu. Sua vida muda radicalmente quando ele aceita o convite de Jesus para se tornar um "pescador de homens". Indo além — lemos no Evangelho de Mateus — Jesus "viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, no barco com seu pai Zebedeu, consertando as redes. E imediatamente deixaram o barco e seu pai e o seguiram". De natureza impetuosa, ele e seu irmão são chamados pelo próprio Jesus de "boanerges" (filhos do trovão).


Um dos três Apóstolos escolhidos para assistir à Transfiguração e à Agonia do Senhor:

No Monte da Transfiguração e no Monte da Agonia, Tiago testemunha a glória de Jesus, o evento da Transfiguração: "Jesus", escreve o evangelista Mateus, "levou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os conduziu a um alto monte, à parte. E transfigurou-se diante deles; seu rosto brilhou como o sol, e suas roupas tornaram-se brancas como a luz". O apóstolo também testemunha a agonia de Jesus no Jardim do Getsêmani: "Levou consigo Pedro, Tiago e João", recorda o Evangelho de Marcos, "e começou a sentir medo e angústia".


São Tiago, morto por decapitação
a mando de Herodes Agripa

O primeiro apóstolo a ser martirizado,

Jesus prediz o seu martírio. "Podeis vós", escreve Mateus, "beber o cálice que eu estou para beber?" Tiago e João respondem: "Podemos". A sua morte é descrita nos Atos dos Apóstolos: "Naquele tempo, o rei Herodes começou a perseguir alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João". Após a sua decapitação, segundo a Legenda Áurea do frade dominicano Jacó de Voragine, o seu corpo foi trasladado para Espanha.


O Túmulo de Tiago

Segundo a tradição, em 831, após um prodigioso fenômeno luminoso perto do Monte Líberon, foi descoberto um túmulo com a inscrição: "Aqui jaz Jacó, filho de Zebedeu e Salomé". O local era chamado de Campus Stellae ("campo da estrela"), nome que mais tarde deu origem à cidade de Santiago de Compostela.

Em 1075, iniciou-se a construção da basílica dedicada a ele e, desde a Idade Média, o Santuário tem sido destino de peregrinações, primeiro de toda a Europa e depois de todo o mundo.


O Caminho de Santiago

É uma das rotas mais importantes da história e do cristianismo. O escritor Paulo Coelho (que não era católico, fique aqui bem claro, mas, fez o trajeto do caminho) escreve: “O espírito dos antigos peregrinos da tradição acompanha você em sua jornada. O chapéu protege você do sol e dos maus pensamentos; a capa protege você da chuva e das más palavras; o cajado protege você dos inimigos e das más ações. Que a bênção de Deus, de São Tiago e da Virgem o acompanhe todas as noites e todos os dias.”


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Segunda narrativa hagiológica:


São Tiago é chamado de "o Maior" para distingui-lo do apóstolo de mesmo nome, Tiago, filho de Alfeu (chamado de Menor). Seu papel como peregrino e o primeiro dos Apóstolos a ser martirizado o torna de importância primordial entre os Doze e na Igreja.


Seu perfil é delineado nos Evangelhos.

Nascido em Betsaida, no Lago de Tiberíades, era filho de Zabedeu e Salomé (Marcos 15, 40; c. Mateus 27, 56) e irmão de João Evangelista. Com seu irmão, foi chamado entre os primeiros discípulos de Jesus e estava pronto para segui-lo (Marcos 1, 19-19; Mateus 4, 21-21; Lucas 5, 10).

Ele é sempre colocado entre os três primeiros Apóstolos (Marcos 3, 17; Mateus 10, 2; Lucas 6, 14; Atos 1, 13). De natureza rápida e impetuosa, como seu irmão João, ambos são apelidados por Jesus de "Boanerges" (filhos do trovão) (Mc 3,17; Lc 9,52-56).

Ele está entre os discípulos prediletos de Jesus, juntamente com seu irmão João, e com os irmãos Pedro e André. Com Pedro, eles testemunham a Transfiguração de Jesus no Monte Tabor (Mt 17,1-8; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36), a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37-43; Lc 8,51-56); ele presencia a cura repentina da sogra de Pedro (Mc 1,29-31); e, com os outros três apóstolos, questiona Jesus sobre os sinais dos tempos que prenunciavam o fim (Mc 13,1-8). Finalmente, juntamente com Pedro e João, foi chamado por Jesus para vigiar no Getsêmani na véspera da Paixão (Mc 14,33ss; Mt 27,37ss).

Com zelo intempestivo, pediu que se lançasse fogo sobre os samaritanos que não acolheram Jesus, o que lhe valeu uma repreensão (Lc 9,51-56). Ambiciosamente, almejava os primeiros lugares no Reino, declarando-se pronto para tudo; e isso provocou a reação dos outros apóstolos e o chamado de Jesus a outra primazia: a do serviço e do martírio (Mc 10,35-45; Mt 20,20-28). E Tiago beberá desse cálice: ele é o primeiro apóstolo mártir, na primavera do ano 42. “O rei Herodes (Agripa I) começou a perseguir alguns membros da Igreja e matou à espada Tiago, irmão de João” (Atos 12,1-2).


Evangelizador da Espanha segundo a tradição e a devoção.

Uma tradição que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha narra que Tiago foi à Espanha para difundir o Evangelho. Na época de Tiago, havia um intenso comércio de minerais como estanho, ouro, ferro e cobre da Galiza até a costa da Palestina.

Nas viagens de retorno, objetos ornamentais, placas de mármore, especiarias e outros produtos de grande importância comercial, adquiridos em Alexandria e outros portos ainda mais a leste, eram trazidos de volta.

Acredita-se que o Apóstolo tenha feito a viagem da Palestina para a Espanha em um desses navios, desembarcando na costa da Andaluzia, terra onde iniciou sua pregação.

Ele continuou sua missão evangelizadora em Coimbra e Braga, passando, segundo a tradição, por Iria Flavia, na Hispânia, onde prosseguiu com sua pregação.

No Breviário dos Apóstolos (final do século VI), a evangelização da Hispânia e das regiões ocidentais é atribuída a São Tiago pela primeira vez, enfatizando seu papel como um instrumento extraordinário para a difusão da tradição apostólica e mencionando seu sepultamento na Arca Marmárica.

Mais tarde, na segunda metade do século VII, um monge inglês erudito, São Beda, o Venerável, menciona novamente este evento em sua obra e, com surpreendente precisão, indica a localização na Galiza onde se diz que o corpo do Apóstolo se encontra.



A aparição da Virgem Maria e o Retorno à Terra Santa:

O retorno à Terra Santa ocorreu pela estrada romana que partia de Lugo, atravessando a Península Ibérica, passando por Astorga e Saragoça, onde, desanimado, Tiago recebeu a consolação e o conforto da Virgem (* nota: que ainda vivia aqui na terra), que lhe apareceu (segundo a tradição, em 02 de janeiro de 40 d.C.), às margens do rio Ebro, sobre uma coluna romana de quartzo, e lhe pediu que ali construísse uma igreja.

Este evento serviu de inspiração para a fundação da Igreja de Nossa Senhora do Pilar em Saragoça, hoje uma basílica e um importante santuário mariano no catolicismo espanhol. Partindo desta terra, atravessando o Ebro, São Tiago provavelmente seguiu para Valência, para então embarcar num porto na província de Múrcia ou na Andaluzia e retornar à Palestina entre 42 e 44 d.C.


Os Últimos Anos na Palestina

Nessa época na Palestina, Tiago, juntamente com o grupo dos "Doze", tornou-se um dos pilares da Igreja Primitiva de Jerusalém, desempenhando um papel fundamental na comunidade cristã da Cidade Santa.

Em um clima de grande agitação religiosa, onde o desejo de erradicar o cristianismo nascente crescia a cada dia, sabemos que os Apóstolos foram proibidos de pregar.

Tiago, porém, desafiando essa proibição, proclamou sua mensagem evangelizadora a todo o povo, entrando nas sinagogas e discutindo a palavra dos profetas. Sua grande habilidade de comunicação, sua eloquência e sua personalidade cativante fizeram dele um dos Apóstolos mais populares em sua missão evangelizadora.

Herodes Agripa I, rei da Judeia, para apaziguar os protestos das autoridades religiosas, agradar aos judeus e desferir um duro golpe na comunidade cristã, escolheu-o como uma figura altamente representativa e o condenou à morte por decapitação. Assim, ele se tornou o PRIMEIRO MÁRTIR DO COLÉGIO APOSTÓLICO.

Este martírio de São Tiago Maior é o último relato do Novo Testamento. Segundo a tradição, o escriba Josias, encarregado de conduzir Tiago à execução, testemunhou o milagre da cura de um paralítico que invocou o Santo. Josias, perturbado e arrependido, converteu-se ao cristianismo e implorou perdão ao apóstolo. O apóstolo pediu-lhe um vaso com água como última graça e o batizou. Ambos foram decapitados no ano 44 d.C..


Tradição popular e o culto às suas relíquias.

A tradição popular indica a presença do corpo de São Tiago nos picos próximos ao Vale do Padrón, onde existia o culto da água. No século XVI, Ambrosio de Morales, em sua obra A Santa Viagem, escreve: "Subindo a montanha, a meio caminho da encosta, há uma igreja onde dizem que o Apóstolo orou e celebrou Missa, e sob o altar-mor, brota da igreja uma rica nascente de água, a mais fria e delicada que já provei na Galiza." Este lugar ainda existe e recebeu o carinhoso nome de "O Santiaguiño do Monte".

Um dos autores dos sermões reunidos no Códice Calixtino, referindo-se à pregação de São Tiago na Galiza, afirma que "aquele a quem o povo vem venerar, Tiago, filho de Zebedeu, a terra da Galiza envia aos céus estrelados".

Reza a lenda que dois discípulos de São Tiago, Atanásio e Teodoro, recolheram seu corpo e cabeça e os transportaram de navio de Jerusalém para a Galiza. Após sete dias de navegação, chegaram à costa da Galiza, em Iria Flavia, perto da atual cidade de Padrón. No relato lendário do sepultamento dos restos mortais de São Tiago, surge Lupa, uma rica e influente senhora pagã que então vivia no Castelo de Lupario, ou Castelo de Francos, a uma curta distância da atual Santiago.

Os discípulos, procurando um terreno para sepultar seu mestre, pediram à nobre permissão para enterrá-lo em seu feudo. Lupa encaminhou o assunto ao governador romano Filotro, que residia em Dugium, perto de Fisterra. Longe de compreender seus motivos, o governador romano ordenou sua prisão.

Segundo a tradição, os discípulos foram milagrosamente libertados por um anjo e fugiram, perseguidos por soldados romanos. Quando chegaram à Ponte Ons, ou Ponte Pías, sobre o rio Tambre, e a atravessaram, esta desabou providencialmente, permitindo-lhes escapar. A rainha Lupa, fingindo uma mudança de opinião, levou-os ao Monte Iliciano, hoje conhecido como Pico Sacro, e ofereceu-lhes bois selvagens que vagavam livremente e uma carroça para transportar os restos mortais do Apóstolo de Padrón a Santiago. Os discípulos aproximaram-se dos animais que, diante dos olhos atônitos de Lupa, aceitaram de bom grado o jugo. Após essa experiência, a rainha decidiu abandonar suas crenças e converter-se ao cristianismo.

Piedosa tradição conta que, em uma
das batalhas contra os muçulmanos,
São Tiago apareceu reluzente, montado
em um formidável cavalo e, com grande
bravura lutou contra os inimigos da 
Espanha e da Cristandade. 
Reza a lenda que os bois iniciaram sua jornada sem qualquer guia, pararam, sedentos, e começaram a cavar o chão com os cascos, fazendo jorrar água pouco depois. Essa era a atual Fonte Franco, perto do Colégio Fonseca, local onde mais tarde seria construída a pequena capela do Apóstolo em sua memória, na atual Rua del Franco.

Os bois continuaram seu caminho e chegaram a um terreno pertencente a Lupa, que o doou para a construção do monumento funerário. Nesse mesmo local, séculos mais tarde, foi construída a catedral, o centro espiritual que preside a cidade de Santiago.

Quando a Espanha caiu em mãos árabes (século IX), na angústia da ocupação, os cristãos espanhóis dedicaram-se a São Tiago com uma devoção fervorosa e apaixonada, tornando-o o protetor dos oprimidos e até mesmo um lutador invencível, bem diferente do Tiago evangélico (às vezes confundido com o outro apóstolo, Tiago de Alfeu).

A fé em sua proteção foi um tremendo incentivo naquelas duras provações. E tudo isso teve repercussões na Europa cristã, que iniciou peregrinações a Compostela já no século X. O que atraía os peregrinos não eram as antigas e incontroláveis ​​tradições sobre o santo na Espanha, mas a realidade apaixonada daquela fé, daquela esperança em meio às lágrimas, da qual o lugar permanece um símbolo fascinante desde então.

Em 1989, São João Paulo II fez uma peregrinação a Santiago de Compostela e o Papa Bento XVI seguiu o exemplo em 06 de novembro de 2010, por ocasião, como seu antecessor, do Ano Santo de Compostela, que é declarado sempre que o dia 25 de julho cai em um domingo.


Padroeiro de muitas cidades  e seu Emblema:

São Tiago é o padroeiro e protetor de inúmeras cidades e vilas, incluindo Pisa, Pesaro, Pistoia, Compostela, Espanha, Portugal e Guatemala.

Considerado o padroeiro dos peregrinos, viajantes e mendigos, farmacêuticos, merceeiros, chapeleiros e trabalhadores de meias, ele é invocado contra o reumatismo e para o bom tempo. Seus atributos principais são o cajado e a cabaça; atributos secundários podem incluir um odre e uma bolsa de peregrino, uma túnica e um chapéu de peregrino e uma concha.






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Terceira narrativa hagiológica: 


Ele é um dos primeiros apóstolos de Jesus e é chamado de Maior para distingui-lo do outro apóstolo, Tiago Menor. Filho de Zebedeu e Maria Salomé e irmão do apóstolo João Evangelista, Tiago era um pescador da Galileia quando foi escolhido por Jesus para ser um de seus doze apóstolos. Tiago abandona seu trabalho para seguir Jesus sem hesitar, participando dos eventos mais significativos de sua vida.


Após a morte e ressurreição do Filho de Deus, segundo a tradição não comprovada por documentos históricos, Tiago se muda para a Espanha, onde realiza uma grande obra de evangelização. Ele é morto entre 42 e 44 d.C. por ordem do rei dos judeus, Agripa I (chamado Herodes por ser neto de Herodes, o Grande).

No ano de 813, um monge eremita espanhol afirma ter testemunhado um espetáculo: do céu, sobre uma colina na Galícia, no noroeste da Espanha, ele vê uma estrela cadente durante dias. O eremita sonha com São Tiago, que revela estar sepultado exatamente na colina onde viu a estrela cair.

O monge acredita no sonho e, cavando na colina indicada pela estrela, encontra o suposto túmulo do santo, cujos vestígios se perderam por séculos. Nesse local, em 1075, foi construída uma catedral dedicada a Sancti Jacobi (do latim "São Tiago"), que rapidamente se tornou um destino de peregrinação para cristãos de todo o mundo.

Uma cidade surgiu ao redor da igreja, chamada Santiago de Compostela, termo criado pela junção de Sancti Jacobi (em espanhol, Sant-Yago) e Campus Stellae (do latim "Campo da Estrela").

Todos os anos, milhares de jovens percorrem o famoso Caminho de Santiago para chegar a pé ao célebre santuário. Declarado Patrimônio Mundial da UNESCO, o percurso tem 800 km de extensão e a peregrinação leva cerca de um mês.

Em diversas representações, São Tiago é retratado com um cajado e uma bolsa de viajante, um chapéu de peregrino para protegê-lo do sol e da chuva, e uma concha de vieira, ainda hoje símbolo daqueles que fazem a peregrinação a Santiago de Compostela, provavelmente usada para beber água das fontes.

Proclamado padroeiro da Espanha, Tiago Maior protege peregrinos, viajantes, farmacêuticos, merceeiros, chapeleiros e fabricantes de meias. Ele é invocado para curar o reumatismo e trazer bom tempo.



Fonte de pesquisa:

Site: Vatican News

Site “Santi, Beati e Testimoni”

(traduzido do italiano)

Autores: Padre Luca Roveda e Mariella Lentini

quinta-feira, 23 de julho de 2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA, MÃE DA DIVINA GRAÇA - memória na Ordem Carmelita Descalça - 23 de julho.

Predestinada desde a eternidade junto com a Encarnação do Verbo divino como Mãe de Deus, por desígnio da Providência divina, a bem-aventurada Virgem Maria foi nesta terra a sublime Mãe do Redentor, singularmente mais que os outros, sua generosa companheira e humilde serva do Senhor. Ela concebeu, gerou, nutriu a Cristo e apresentou-o ao Pai no templo, sofreu com seu Filho que morria na cruz. Assim, de modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, Ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por tal motivo Ela se tornou para nós Mãe na ordem da Graça (Constituição Dogmática Lumem Gentium 61)



Por que Maria Santíssima pode ser chamada com o título "Mãe da Divina Graça"?

1. Nas Sagradas Escrituras, Maria é a Mãe de Jesus, Verbo Humanado, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se fez homem em seu santíssimo e imaculado ventre. Por que merece também esse tão belo título: "Mãe da Divina Graça"? A "Graça" (no singular) é algo bem diferente de "graças". Infelizmente, pela grande maioria de nossos irmãos e irmãs católicos, os dois conceitos ou realidades são confundidos.

2. Claro que Deus - Uno e Trino: Pai, Filho e Espírito Santo - é a Origem e Fonte de tudo que existe, tanto das realidades visíveis, quando as invisíveis. Mas, desde toda a eternidade, Deus - Uno e Trino - sempre existiu: nunca teve começo e nunca terá fim. Não há origem em Deus, pois, desde sempre, Ele é a Origem e bastava-Se a Si mesmo, na "Família Divina" da Trindade. O Pai gera, desde sempre o Filho, sem tê-lO criado e continuará O gerando por toda a eternidade, pois, a geração do Filho é um ato eterno e contínuo da Pessoa do Pai. O Filho - Verbo Eterno, Palavra Única do Pai, sua Sabedoria Infinita e "objeto" de todo o seu infinito Amor e Benevolência, é gerado continuamente pelo Pai. Como Ele mesmo disse: "Sim, eu vim do Pai e entrei no mundo, e agora deixo o mundo e volto para o Pai" (João 16, 28) e, em outra passagem: "Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?. Assim, o Amor que o Pai tem por seu Filho Unigênito, que tem a sua mesma substância: a divina, é de tal forma infinito que é, por Si, uma Terceira Pessoa: o Espírito Santo: a Personificação do Amor do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai e responsável por nos fazer amar o Pai e o Filho, buscá-los, amá-los e servi-los.

3. Portanto, podemos sim dizer que na Trindade: tanto em sua única Essência divina como em cada uma das Três Pessoas, existe e sempre existiu a Graça, o dom dos dons de Deus, juntamente com a Misericórdia. Jesus mesmo revelou à Santa Maria Faustina Kowalska que Deus é infinito em todos os seus atributos divinos, porém - pelo menos de uma maneira que dá para entendermos "parcialmente" - dentre as infinitudes dos atributos divinos o "maior" (como pode haver uma coisa maior entre outras que são, igualmente, infinitas? Um grande mistério...) é sua Misericórdia, que é, ao mesmo tempo, a sua Graça.

4. Nas aparições da Santíssima Virgem Maria no Monte Guarda, localizada no vilarejo de Cimbres, pertencente ao município e diocese de Pesqueira, Pernambuco, no mês de agosto de 1936 a duas meninas: Maria da Luz e Maria da Conceição (a primeira que se tornou "Irmã Adélia", que está em processo de beatificação), a Mãe de Deus se identificou às humildes meninas como "Eu sou a Mãe da Graça".

5. Em alguns santuários, catedrais e basílicas esse título é honrado de forma especial. A diocese de Parnaíba, Piauí, é consagrada a Nossa Senhora da Graça. Assim como a catedral e basílica da arquidiocese de Benevento, na Itália. As imagens que representam essa invocação e título marianos vem com a Virgem Mãe com o seio esquerdo (lado de seu Imaculado Coração) discretamente à mostra, dando de mamar ao Menino Jesus. Isso tem um duplo e belíssimo significado: o leite imaculado de Maria é a própria Graça que é dado à Graça encarnada, seu Filho Jesus.

6. Mas, por que podemos afirmar sim que Jesus é a própria Graça encarnada, já que esse atributo divino existe, desde toda eternidade, no seio da Trindade? Será que o Pai também não é a Graça? E o Espírito Santo? Não é Ele a própria Graça e nEle não há a Graça? Claro que sim! Mas, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Eterno do Pai, que se encarnou no ventre puríssimo e imaculado de Maria, é a Graça de forma toda especial.

7. Mas, por que? Porque por causa da futura existência de Jesus, Deus e homem verdadeiro, Deus em essência e Pessoa, também assumiu a natureza humana, unindo-se a ela hipostaticamente: de forma perfeita, plena e perpétua. Nada existiria fora de Deus (“ad extra”) se não fosse a prevista (desde toda a eternidade) Encarnação do Verbo no seio puríssimo e imaculado de Maria. Tudo que passou a existir, fora da eternidade e do seio inacessível da Santíssima Trindade, que sempre existiu, que nunca teve origem e nunca terá fim, passou a existir graças à Encarnação do Verbo Eterno do Pai, que assumiu a natureza humana, permanecendo Deus em sua Pessoa e, também, em sua natureza divina. Assim o afirma o Apóstolo São Paulo ao dizer: “O qual (Jesus) é imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda a criação; porque nEle foram criadas todas as coisas: que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por Ele e para Ele. E Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele. E Ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude (seu Poder, Graça, Glória, Misericórdia e Majestade) nEle habitasse, e que, havendo por Ele feito a paz pelo Sangue da sua Cruz, por meio dEle reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus (Colossenses 1, 15-20).

E tudo veio do Pai, por obra do Espírito Santo, movido pelo Amor infinito que há na Trindade, desde toda a eternidade. O próprio São João Evangelista afirma isso ao dizer: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3, 16). Esse Amor de Deus, pois, Deus é Amor (I João 4, 16b): quis “extravasar” ao decidir fazer suas criaturas, visíveis e invisíveis, em previsão da futura existência do homem Jesus, Deus e homem verdadeiros, a Primícia da criação divina, o único que amaria o Pai da maneira mais perfeita possível, com um amor puríssimo e infinito, mesmo que sua natureza humana, em si, seja “limitada” a um corpo e alma humanas, também criaturas. O homem Jesus foi e sempre será o ser mais perfeito, em santidade e em semelhança a Deus que já existiu, existe e existirá, pois, após sua Paixão e Morte de Cruz, ressuscitou e está eternamente sentado à direita do Pai. Até mesmo a Virgem Maria, a Imaculada Conceição, a “gratia plena” (a cheia de graça), também obra prima de Deus, da qual a natureza humana de Cristo foi toda formada – unicamente dEla – é inferior à natureza humana do Filho, pois, unida a essa natureza humana está unida a natureza divina e sua única Pessoa: divina.




Conclusão:

Por isso que a Santíssima Virgem Maria, Mãe de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, pode e deve ser chamada de Mãe da Divina Graça, pois, Ela é a Mãe da maior Graça que Deus deu ao mundo: Jesus Cristo, o Filho de Deus, Deus-homem verdadeiro, Rei do Universo.

Maria mesma, conforme narrado no Evangelho de São Lucas é apontada como “a Mãe do Senhor” (Deus): “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?(Lucas 1, 43) e seu acesso à Graça (Jesus, seu Filho), é pleno, ao ponto de até mesmo “mudar ou alterar” o que seria desígnio seu desde toda a eternidade: “Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: Mulher (título que, para no hebraico tem conotação de “senhora”, não de uma “simples mulher”, como no português) isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que ele vos disser” (Maria tinha plena certeza que Jesus, por amor a Ela, iria realizar o que Ela lhe pedia. Deus nada nega a quem nada lhe nega, quando Ele lhe pede: o que era o caso de Maria, perfeitíssima discípula de Jesus). Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: ‘Enchei as talhas de água’. Eles encheram-nas até em cima. ‘Tirai agora’ – disse-lhes Jesus – ‘e levai ao chefe dos serventes’. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: ‘É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho me­lhor até agora’. Esse foi o primeiro milagre de Jesus (feito a pedido, melhor, após uma mera ‘sugestão’ de Maria); realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (João 2, 1-11).

Que Maria Santíssima, Mãe da Divina Graça, a segunda invocação mariana mais querida e honrada pelos carmelitas, derrame essa Graça, seu próprio Filho Jesus Cristo, nos corações e nas almas: justamente onde Ele deseja ardentemente, conforme revelou a muitos santos e santas (particularmente às Santas Margarida Maria Alacoque e Faustina Kowalska) deseja viver e reinar… Sim! Isso mesmo. Para o Amor infinito da Graça, Jesus, não lhe bastam os Céus, com seus Anjos e Santos e bem-aventurados: Ele deseja ser amado, honrado, servido e adorado por todas as almas e corações humanos, objetos de sua Misericórdia e Graça: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem(Lucas 2, 14).





Autor do artigo:

Giovani Carvalho Mendes

(Irmão João Maria da Encarnação, ocds) 

domingo, 19 de julho de 2026

SANTA MACRINA, Viúva e Religiosa, dita "a Jovem" , irmã de São Basílio Magno e de São Gregório de Nissa - memória em 19 de julho.


Macrina era a mais velha de dez filhos de Basílio e Emélia, uma família do Ponto, na Grécia, uma família abençoada por Deus, pois entre seus filhos, além de Santa Macrina, estavam São Basílio Magno, bispo de Cesareia, São Gregório, bispo de Nissa, e Pedro, sacerdote e monge.

Macrina, chamada "a Jovem", por ter o nome de sua avó paterna, também santa, Macrina, "a Velha", foi educada nas Sagradas Escrituras desde tenra idade e, desde a adolescência, foi agraciada com uma beleza singular, de modo que muitos pretendentes a cortejaram; seu pai, como era costume, escolheu para ela o mais adequado; mas esse noivo foi arrebatado do coração da jovem por uma morte prematura.

Macrina, então, fingiu considerar seu noivado um verdadeiro casamento e jurou fidelidade ao jovem falecido, como uma noiva que aguarda a longa ausência do marido.

Permanecendo em casa, ela auxiliou muito sua mãe no cuidado e na educação de todos os seus irmãos, especialmente porque havia ficado viúva após o nascimento de seu décimo filho.

Assim que todos os seus filhos estavam devidamente estabelecidos e independentes, Macrina convenceu sua mãe a se retirar com ela para a solidão de Annesi, perto de Hore, no Ponto, às margens do rio Íris, para fundar um mosteiro onde seus servos as seguiriam.

Macrina teve grande influência sobre seu irmão Basílio, que abandonou a vida mundana de erudito para abraçar a vida monástica por volta de 356.

Ele então se tornou bispo de Cesareia em 370, retornando para ver sua irmã no mosteiro em 376. Ordenou seu irmão mais novo, Pedro, que vivia em um mosteiro próximo ao de sua irmã, como sacerdote; Basílio morreu em 1º de janeiro de 379.

Após a morte de sua mãe em 373, Macrina tornou-se superiora do mosteiro. Ao retornar do Concílio de Antioquia em 379, Gregório, já bispo de Nissa, quis passar por Annesi para visitar sua irmã, mas a encontrou em seus últimos momentos de vida; puderam apenas ter uma última conversa de elevada espiritualidade e, após uma magnífica oração a Deus, Macrina faleceu (380), aos 53 anos de idade. Sua vida e espiritualidade foram narradas em importantes obras escritas pelo próprio irmão, São Gregório de Nissa.

Seu corpo foi sepultado na igreja dos "40 mártires de Sebaste", a poucos metros do mosteiro onde já repousavam os corpos de seus pais; uma grande multidão de fiéis compareceu ao funeral, na presença do bispo local.


Sua memória litúrgica aparece em todos os calendários e martirológios orientais em 19 de julho, enquanto no Ocidente é mencionada em alguns e em outros não, até ser definitivamente inserida no "Martirológio Romano", sempre em 19 de julho, com o anúncio: "Na Capadócia, Santa Macrina, irmã dos Santos Basílio Magno e Gregório de Nissa".

sexta-feira, 17 de julho de 2026

SANTA CARLOTA DA RESSURREIÇÃO, uma das Virgens e Mártires de Compiègne, guilhotinadas na terrível perseguição aos católicos na Revolução Francesa.

 

Martirológio Romano:

Em Paris, França, Santa Teresa de Santo Agostinho (Martha Madeleine Claudine) Lidoine e quinze companheiras, virgens do Carmelo de Compiègne e mártires, que durante a Revolução Francesa foram condenadas à morte por terem observado fielmente a disciplina monástica e, ao chegarem ao cadafalso, renovaram suas promessas batismais de fé e votos religiosos.

Seus nomes são:

  1. Santa Mariana Francisca de São Luís Brideau

  2. Santa Mariana de Jesus Crucificado Piedcourt

  3. Santa Carlota da Ressurreição (Ana Maria Madalena) Thouret (cuja história é mais esmiuçada nesta página)

  4. Santa Eufrásia da Imaculada Conceição (Maria Cláudia Cipriana) Brard

  5. Santa Henrique de Jesus (Maria Gabriela) de Croissy

  6. Santa Teresa do Coração de Maria (Marianne) Hanisset

  7. Santa Teresa de Santo Inácio (Maria Gabriela) Trézelle

  8. Santa Júlia Luiza Julia de Jesus (Rose) Chrétien de Neufville

  9. Santa Marie Henrique da Providência (Ana) Pelras

  10. Santa Constance (Maria Genoveva) Meunier

  11. Santa Maria do Espírito Santo (Angélica) Roussel

  12. Santa Maria de Santa Marta Dufour

  13. Santa Elisabete Júlia de São Francisco Vérolot

  14. Santa Catherine Soiron

  15. Santa Thérèse Soiron


Uma Conversão na Juventude:

Anne-Marie Thouret nasceu em Mouy, no departamento francês de Oise, em 16 de setembro de 1715. Em sua juventude, era muito vivaz e empreendedora: buscava todas as oportunidades para se divertir e adorava dançar.

Aos dezesseis anos, durante uma dessas festas, algo aconteceu que a perturbou profundamente. Ela nunca revelou os detalhes e as circunstâncias precisas, mas sentiu um repúdio instantâneo pela vida que levava. Imediatamente deixou aquele lugar, determinada não apenas a abandonar a dança, mas também a deixar o mundo para trás.

Em 18 de março de 1736, assim que atingiu a idade apropriada, ingressou no Carmelo da Anunciação em Compiègne. Recebeu o hábito em 17 de julho de 1739, tornando-se Irmã Charlotte da Ressurreição. Em 22 de agosto de 1741, após um longo noviciado, professou seus votos.

Entre as Carmelitas Descalças de Compiègne, ela ocupou quase todos os cargos no convento, incluindo o de vice-priora, de 1764 a 1778; nunca foi eleita superiora. Encontrou realização sobretudo como enfermeira, cuidando das irmãs mais frágeis e debilitadas. Em particular, dedicou-se com afinco a uma irmã com múltiplas feridas gangrenosas, suportando o mau cheiro.

Ela própria contraiu a doença. Sua saúde foi especialmente prejudicada pelo uso de verniz em trabalhos de manutenção. Somente após dois anos, graças também às orações das outras freiras, conseguiu se recuperar dos danos neurológicos, que pareciam irreversíveis.

Durante a Revolução Francesa, em 26 de agosto de 1789, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte, que havia tomado o poder na França. Poucos meses depois, veio a proibição de fazer votos religiosos, considerada uma violação da liberdade individual, e, ao mesmo tempo, a supressão das ordens religiosas, a começar pelas contemplativas.

Quando a priora do convento carmelita de Compiègne, Madre Teresa de Santo Agostinho, soube disso, estava pronta para aceitar a vontade de Deus. Quase simultaneamente, as prioras de três mosteiros carmelitas franceses enviaram uma mensagem ou "discurso" à Assembleia Nacional: "Na base de nossos votos está a maior liberdade: em nossas casas reina a igualdade mais perfeita; confessamos diante de Deus que somos verdadeiramente felizes".


A chegada dos perseguidores.

A resposta veio com o envio de funcionários municipais aos vários mosteiros para oferecer, em sua visão, liberdade às freiras. Em Compiègne, na época, a comunidade era composta por quinze freiras professas (doze membros do coro e três irmãs leigas), mais uma noviça membro do coro e duas irmãs leigas (as irmãs Soiron), chamadas “rotare” ou “torriere”.

As autoridades invadiram o claustro e se instalaram na sala capitular. Colocaram guardas nas duas entradas do salão, bem como nos claustros e perto das entradas de cada cela, para impedir que as freiras se comunicassem entre si e, principalmente, que falassem com a priora. Em 5 de agosto de 1790, as freiras foram convocadas individualmente, enquanto um secretário registrava suas respostas.


O ato de oferta de toda a comunidade

Enquanto isso, a revolução continuava, chegando a assumir o tom de uma perseguição contra a Igreja da França, com o objetivo de separá-la de Roma. Por exemplo, foi aprovada a Constituição Civil do Clero, à qual os sacerdotes eram obrigados a se submeter, sob pena de morte. Muitos, porém, preferiram entrar na clandestinidade, para permanecer em comunhão com o Papa.

As freiras carmelitas de Compiègne também desempenharam seu papel. Na Páscoa de 1792, Madre Teresa propôs às suas companheiras freiras que quantas delas desejassem se oferecessem com ela "em holocausto, para aplacar a ira de Deus e para que esta paz divina que seu divino Filho veio trazer ao mundo seja restaurada à Igreja e ao Estado".

Quase todas as irmãs professas aderiram à oferta, exceto as duas mais velhas, Irmã Carlota e Irmã de Jesus Crucificado, que se sentiram repelidas pela ideia de morrer sob a lâmina sangrenta da guilhotina; naquela mesma noite, porém, elas também concordaram. A partir daquele momento, todas as freiras renovaram sua oferta diariamente durante a celebração da Missa.


A Expropriação do Convento

No início de setembro de 1792, em Paris, no antigo convento carmelita, agora usado como prisão, duzentos e cinquenta padres foram mortos, de um total de mil e seiscentas vítimas. Nesse momento, alguns parentes das freiras apelaram a Madre Teresa para que elas retornassem para casa. Quase todas decidiram ficar.

Poucos dias depois, em 12 de setembro de 1792, as carmelitas receberam ordens para deixar o mosteiro imediatamente. Madre Teresa, porém, havia alugado quartos em quatro casas no mesmo bairro de Sant'Antonio: mudou-se para lá com as freiras, todas vestidas com hábitos seculares.

Na casa onde ela e quatro freiras mais velhas moravam, preparavam a comida, que era então distribuída às demais. Por meio de visitas mútuas e do envio de bilhetes, elas permaneceram unidas no espírito e na observância da Regra. As freiras se sustentavam fazendo pequenos trabalhos que diversas mulheres da cidade lhes ofereciam. Bordavam também escapulários e pintavam imagens do Sagrado Coração.

Após a queda da monarquia, Madre Teresa e suas filhas fizeram o juramento de Liberdade-Igualdade. A priora também obteve um certificado de serviço cívico e pagava os impostos exigidos pelo Estado. De modo geral, procurava obedecer às leis que não ofendiam a religião.

As tentativas de passar despercebidas, contudo, foram em vão: os jacobinos parisienses denunciaram as freiras ao Comitê de Salvação Pública, sob a "Lei das Suspeitas", que estipulava que a mera suspeita era suficiente para justificar a pena capital.

Em 21 de junho de 1794, uma busca foi realizada nas casas das freiras, onde foram encontrados objetos que, para os revolucionários, eram "um sinal de ligação com os conspiradores": uma relíquia de Santa Teresa de Ávila; cartas mencionando padres, novenas e direção espiritual; imagens e um hino ao Sagrado Coração de Jesus.

Três dias depois, as carmelitas foram trancadas no que havia sido o Mosteiro da Visitação. Elas puderam então retomar a vida comunitária em um ambiente mais íntimo. No momento da prisão, três freiras estavam ausentes: Irmã Enrichetta Emanuela Stanislaus da Providência, Irmã Teresa de Jesus e Irmã Maria da Encarnação.


A Transferência para Paris

Em 12 de julho de 1794, por volta da hora do almoço, as freiras carmelitas souberam que seriam transferidas para Paris, por volta das duas da tarde. Conseguiram se abraçar uma última vez, encorajando-se mutuamente ao martírio. Em seguida, tiveram as mãos amarradas nas costas e foram colocadas em duas carroças, escoltadas por soldados e gendarmes, enquanto eram insultadas pela multidão.

Chegaram à prisão da Conciergerie em Paris por volta das 15h do dia 13 de julho, mais uma vez cercadas pela multidão. A Irmã Carlota, que normalmente andava com muletas, ficou triste ao ver que nenhuma de suas companheiras freiras podia ajudá-la a descer.

Nesse momento, alguns dos homens da escolta subiram no veículo e a jogaram no chão. Levantando-se, com o rosto ensanguentado por ter batido a cabeça, a freira comentou: "Acredite, não guardo rancor; na verdade, sou grata por você não ter me matado. Se eu tivesse morrido por sua causa, teria sido privada da glória e da felicidade do martírio... que minhas irmãs e eu ousamos esperar da infinita bondade do Redentor."

Mesmo na Conciergerie, as Carmelitas viviam seguindo a Regra e as orações diárias, sempre o máximo possível, inclusive durante a noite.


A sentença de morte

Em 17 de julho, as dezesseis Carmelitas (embora seja impróprio chamá-las assim, visto que as duas guardiãs da torre, as irmãs Soiron, eram leigas) compareceram perante o tribunal: por volta das seis da tarde, foram condenadas à morte por decapitação, a ser executada em vinte e quatro horas.

Subiram nas carroças, esmagadas pelos outros condenados, que, naquele dia, somavam quarenta. Eles começaram imediatamente a cantar o Salmo 50, o Miserere, seguido da Salve Regina. De forma incomum, a multidão acompanhou a procissão em silêncio.

Elas continuaram cantando mesmo quando se aproximaram da Plaza de la Nación, onde a guilhotina havia sido erguida, entoando o Te Deum. Ao desembarcarem de seus veículos, por volta das cinco da tarde, a multidão, ainda em silêncio, ouviu-as cantar o Veni Creator Spiritus.


Martírio:

Madre Teresa pediu e lhe foi concedido morrer por último, enquanto a primeira foi a noviça Irmã Costanza, que se ajoelhou diante dela para pedir obediência, ou seja, permissão, para ir ao encontro da morte.

Nas mãos da priora, as freiras renovaram seus votos e, em seguida, beijaram, assim como a noviça, uma estatueta da Virgem que segurava na mão. Uma a uma, subindo os degraus do cadafalso, completaram o canto do Laudate Dominum, iniciado pela Irmã Costanza. Irmã Carlota morreu aos setenta e oito anos e dez meses. Seu corpo e os das outras foram lançados em uma vala comum cavada em um areal a cerca de um quilômetro de distância, local do futuro cemitério parisiense de Picpus.


A causa da beatificação.

Ficou imediatamente claro que as freiras carmelitas de Compiègne haviam sido perseguidas e mortas por ódio à fé e a tudo o que ela representava, num contexto histórico permeado por ideologias abertamente anticristãs.

Mais de um século depois do ocorrido, em 19 de março de 1896, o Cardeal François-Marie-Benjamin Richard, Arcebispo de Paris, diocese onde as freiras e seus companheiros leigos haviam falecido, estabeleceu o Tribunal Eclesiástico para coletar e examinar o material disponível.

Em 16 de dezembro de 1902, com a assinatura do Papa Leão XIII no decreto que instaurava a causa, iniciou-se a fase romana; segundo a legislação da época, as candidatas aos altares foram declaradas Veneráveis. O processo apostólico, portanto, ocorreu de 22 de junho de 1903 a 27 de janeiro de 1904. Nesse ínterim, também se espalhou certa notoriedade a respeito delas.


A beatificação:

Tendo obtido parecer favorável da Sagrada Congregação dos Ritos, órgão então responsável pelas causas de beatificação e canonização, o Papa São Pio X, em 24 de junho de 1905, reconheceu oficialmente as freiras carmelitas de Compiègne como mártires, promulgando o decreto sobre o martírio.

A decisão papal foi ratificada em 14 de novembro de 1905, com o decreto pelo qual a Sagrada Congregação dos Ritos resolveu prosseguir com a beatificação. A palavra final do Santo Padre foi dada em 4 de dezembro de 1905.

No domingo, 27 de maio de 1906, ocorreu a solene beatificação na Basílica de São Pedro, em Roma, presidida pelo Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro, arcipreste da Basílica Vaticana. A memória litúrgica das dezesseis mártires foi marcada para 17 de julho, dia de sua ascensão ao Céu.


Sua fortuna literária.

Em 1931, Gertrud von Le Fort adaptou o relato histórico da vida e do martírio das freiras carmelitas de Compiègne, embora com algumas liberdades, para o romance "A Última no Cadafalso". A primeira tradução italiana do romance foi publicada em 1939.

O padre dominicano Raymond-Léopold Bruckberger, ao lê-lo, inspirou-se a fazer um filme. Em 1937, ele confiou os diálogos ao escritor Georges Bernanos, que começou o trabalho dez anos depois, mas não conseguiu concluí-lo porque faleceu em 5 de julho de 1948.

A obra foi publicada postumamente em 1949, com o título "Os Diálogos das Carmelitas". Foi imediatamente adaptada para o teatro por Albert Beguin, com considerável sucesso. Francis Poulenc adaptou-a para uma ópera, que estreou em janeiro de 1957 no Teatro alla Scala, em Milão.

O filme que o Padre Bruckberger tanto desejava, dirigido por ele próprio e por Philippe Agostini, foi lançado em 1959, também intitulado "Os Diálogos das Carmelitas", uma coprodução ítalo-francesa.


Um Exemplo para Outros Santos

As freiras carmelitas de Compiègne foram, acima de tudo, um exemplo para muitos outros fiéis que se inspiraram em suas escolhas, mesmo que não tenham sofrido o mesmo destino que as mártires, e, como elas, foram posteriormente oficialmente propostas como modelos a seguir.

Por exemplo, Santa Júlia Billart (canonizada em 1969) visitava frequentemente o mosteiro de Compiègne quando jovem, e a conversa com as freiras alimentou seu desejo de oração e sacrifício. Tendo se tornado a fundadora da Congregação de Nossa Senhora de Namur, ela apresentou as mártires como exemplos de fidelidade e fortaleza em tempos de perseguição.

Santa Madalena Sofia Barat, fundadora da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus (canonizada em 1925), nasceu quatro anos após a execução delas. Sua admiração pelo exemplo delas foi fomentada pelo Padre de Lamarche, seu diretor espiritual, e também pelo já mencionado Julie Billart, que, durante o Terror, serviu como capelão das freiras, arriscando a própria vida.


As freiras carmelitas de Compiègne e Santa Teresa do Menino Jesus

Finalmente, dentro da própria Ordem das Carmelitas Descalças, as dezesseis freiras de Compiègne exerceram grande influência sobre Teresa Martin, religiosamente conhecida como Irmã Teresa do Menino Jesus, título ao qual mais tarde acrescentou "da Sagrada Face" (canonizada em 1925, declarada Doutora da Igreja em 1997).

Ela era profundamente devota delas, como demonstra o fato de guardar algumas de suas imagens em seus livros de orações. No primeiro aniversário do martírio delas, em 17 de julho de 1894, ela, juntamente com outras freiras do Carmelo de Lisieux, criou os estandartes para a capela de Compiègne, com a qual seu mosteiro mantinha estreita ligação.

Finalmente, em setembro de 1896, um ano antes de sua morte, ela ficou emocionada ao assistir a uma conferência sobre elas. A conferência foi realizada no Mosteiro Carmelita de Lisieux por Monsenhor Roger de Teil, então vice-postulador da causa delas e posteriormente responsável pela causa da Irmã Teresa.


Em direção à canonização equipolente:

Dada a reputação duradoura de santidade das Irmãs Carmelitas de Compiègne, ainda mais reforçada pelas obras literárias e artísticas já mencionadas, a Conferência Episcopal Francesa, com o auxílio da Ordem das Carmelitas Descalças, apresentou um pedido oficial de canonização à Sé Apostólica.

Em 1º de fevereiro de 2022, a Congregação para as Causas dos Santos anunciou a intenção do Papa Francisco de prosseguir nesse sentido, trilhando assim o caminho da canonização equipolente, que ocorreu em 18 de dezembro de 2024.


Fonte:

Site: “Santos, Beatos e Testemunhas” (traduzido do italiano)

Autora: Emilia Flocchini

Nota: Para mais informações: Gabriele Della Balda "As Carmelitas de Compiègne. Da Guilhotina ao Céu" Ed. OCD