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quarta-feira, 24 de junho de 2026

São João da Cruz e a "lebre" - um conto que remete a um fato real que aconteceu na vida do Santo.

 


Eu fui aquela lebre...

Eu era pequena, apenas uma sombra cinzenta correndo entre as ervas secas da Peñuela, uma criatura acostumada a ouvir a linguagem secreta dos campos: o murmúrio das árvores quando a noite cai, o suspiro do vento entre as oliveiras, o batimento invisível da terra que guarda tantos mistérios. Meu mundo era simples: fugir do perigo, procurar alimento, esconder-me das garras que espreitam e seguir o rasto da vida onde Deus tinha semeado silêncio.


Mas naquele dia o silêncio foi quebrado.

O céu encheu-se de fumo e a terra começou a queimar. As chamas avançavam como animais furiosos, devorando os rastos secos, levantando línguas vermelhas que pareciam querer alcançar até as mesmas portas do céu. Eu corria sem saber para onde. Minhas patas pequenas batiam na terra quente, meus olhos se enchiam de medo e meu coração minúsculo procurava um lugar onde a morte não me encontrasse.

Corri entre o fogo, entre o barulho e o desespero dos homens que assistiam aquele incêndio sem saber como parar. Eu não entendia suas vozes, mas compreendia seu medo. Vi-os agitarem-se, buscar água, olharem para o céu como perguntando por uma resposta. E então vi-o a ele.

Era um homem diferente dos outros.

Não era grande nem forte como as árvores da montanha, nem tinha a voz poderosa do trovão. Era pequeno de figura, vestido com um hábito simples, com sandálias gastas pelas estradas e um rosto onde parecia habitar uma paz que não pertencia apenas a este mundo. Aquele homem caminhava em direção ao fogo enquanto todos recuavam.

Eu não sabia seu nome na altura, mas depois percebi que aquele homem era Frei Juan.

 

Os outros estavam vendo chamas. Ele via um teste de Deus.

Os outros estavam vendo destruição. Ele via uma ocasião para confiar.

Lembro-me de como ele parou no incêndio, como a sua alma parecia maior do que aquele fogo todo. Antes tinha levado seus irmãos para o lugar onde encontrava sua força: diante do Sacramento, diante da presença silenciosa daquele que amava. Não queria demonstrar poder, queria abandonar-se. Sua confiança não nascia de se sentir superior à natureza, mas de se sentir unido à mão amorosa do Criador.

 

Depois voltou para as chamas.

 

E eu, pequena e assustada, segui-o. Não sei explicar o que senti naquele momento. Os animais conhecem coisas que os homens às vezes esquecem. Sabemos quando um coração é perigoso e quando um coração é abrigo. Perto daquele frade não senti medo. Senti uma calma antiga, como se tivesse voltado para o primeiro jardim onde nenhuma criatura fugia de outra, onde tudo respirava em harmonia.

 

Escondi-me debaixo da capa dele.

Seu hábito áspero foi para mim mais suave do que qualquer toca. Ali, debaixo daquele pobre tecido marrom, encontrei um lugar onde o fogo não podia me tocar. Encontrei mais do que proteção: encontrei ternura. Aquele homem que escrevia versos sobre o amor divino, que buscava Deus nas alturas do espírito, também sabia se inclinar para uma criatura pequena que tremia nas suas mãos.

 

Porque para ele nada era pequeno demais para ser amado.

Os homens tentaram tirar-me de lá. Talvez pensassem que eu era apenas uma lebre assustada, um animal sem importância. Mas eu voltava para ele vezes sem conta. Voltei a esconder-me no seu hábito porque tinha reconhecido algo que não se vê com os olhos: bondade.

Frei João não me olhava como uma possessão, mas como uma criatura irmã. Ele me deixou ir quando eu pude, porque o amor verdadeiro nunca fecha. O amor verdadeiro abre a porta e deixa cada ser voltar ao seu caminho.

Com o passar dos anos, percebi quem era aquele homem.

Era o mesmo que nas noites escuras encontrava canções. O mesmo que tinha conhecido a prisão e transformado em nascimento interior. O mesmo que falava com Deus no silêncio e que ouvia a música escondida nas coisas simples. Era um homem que podia escrever os versos mais altos da alma e ao mesmo tempo parar para salvar uma criatura tremendo.

 

Diziam que era pequeno de corpo.

Mas eu vi o contrário. Vi uma alma imensa. Vi um homem caminhando pela terra com os pés nus e o coração cheio de céu. Vi um santo que não precisava se desviar da criação para encontrar Deus, porque encontrava Deus em cada criatura: na água que canta, na árvore que permanece, no pássaro que voa e até em uma lebre assustada procurando abrigo.

 

Naquele dia o fogo não se apagou apenas nos campos.

Também se apagou algo dentro de mim: medo. Porque aprendi que existem almas que são como pequenos santuários onde os fracos podem descansar. Aprendi que a verdadeira grandeza não está em dominar, mas em proteger. Que a santidade nem sempre carrega grandes sinais, mas que às vezes veste um hábito humilde, caminhe devagar e abra o seu coração para uma criatura que foge.

 

Eu fui aquela lebre.

Aquela que correu do incêndio para a paz.

Aquela que encontrou sob a capa de Frei João um pedaço do céu.E desde então, quando a noite cai sobre a Peñuela e o vento move as oliveiras, ainda me lembro dos seus passos se afastando entre as estradas. E parece-me ouvir uma voz suave que fala com a terra inteira:

"Tudo é de Deus, tudo volta para Deus, e até a menor criatura pode se esconder no amor infinito".

 

Nota:

Este relato relembra um episódio tradicional da vida de São João da Cruz  no convento da Peñuela, situado no que hoje é La Carolina (Jaén), na Serra Morena, onde se narra como um incêndio provocado num olival próximo se espalhou rapidamente e chegou a ameaçar o convento. Diante da situação, São João da Cruz veio para a oração e abençoou o lugar com água benta, após o qual o fogo começou a parar até se apagar sem alcançar o mosteiro. No meio do evento, uma lebre assustada com as chamas se refugiou sob o seu hábito e, embora os frades tentassem afastá-la pegando-a pelas orelhas, ela sempre voltava novamente para São João da Cruz .

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