A história dela é uma história de violência cotidiana. E de resistência extraordinária: não tanto, ou não apenas, para defender sua dignidade como mulher, mas sobretudo os valores em que acredita e que nunca escondeu.
Isabel
Cristina Mrad Campos nasceu em Barbacena, Brasil, em 29 de julho de 1962, e em
sua família foi imbuída de uma fé genuína que se traduziu em atos concretos de
caridade. Seu pai era presidente da paróquia de São Vicente, e toda a família
seguia seu exemplo, especialmente Isabel, que vivia o espírito de "São
Vicente" e adotava seu estilo.
Por
isso, na escola, notavam que "Cris" (como gostava de ser chamada)
tinha uma marcada predileção pelos colegas mais pobres ou aqueles com maiores
dificuldades de aprendizagem; na paróquia, observavam que ela estava sempre à
frente de todos os eventos de caridade; e em São Vicente, testemunhavam sua
disposição em cuidar de crianças com deficiência e se comoviam com a ternura e
o carinho com que as alimentava e cuidava delas.
Cris
tem grandes sonhos, como qualquer jovem, mas talvez não seja coincidência que
ela imagine um futuro como médica, formada para cuidar dos mais vulneráveis.
Ela até tem um namorado, com quem planeja um futuro juntos, mas eles terminam
de comum acordo em julho de 1982, quando ela percebe que ele não é tão
religioso.
De
qualquer forma, eles vivem seu relacionamento renunciando, ainda que com
sacrifício, à tentação de "dar uma mordidinha" no amor antes do
casamento, esperando para vivenciá-lo plenamente depois. "Sorria, Jesus te
ama" é o seu lema de vida, que ela tenta colocar em prática diariamente.
Em
abril de 1982, ela se mudou para Juiz de Fora para cursar a universidade e,
inicialmente, dividiu um apartamento com alguns amigos; apenas alguns meses
depois, quando seu irmão se juntou a ela, ela e ele procuraram um lugar mais
tranquilo, mais propício aos estudos, que tentaram mobiliar com o mínimo
necessário.
Acima
de tudo, Cris busca imediatamente em sua nova cidade: o "Cenáculo",
onde a Eucaristia está permanentemente exposta e onde ela pode passar longos
períodos de adoração diária. A oração, pessoal, e a participação na Eucaristia
tornam-se cada vez mais cruciais e guiam sua jornada, sempre de forma tão
discreta e sem ostentação que familiares e amigos só percebem e comentam após
sua morte.
Em
30 de agosto, um jovem operário, Maurílio Almeida Oliveira, entra em seu
apartamento para montar um guarda-roupa e faz comentários obscenos e sugestões
pouco veladas, que Cris rejeita e prontamente relata ao irmão e aos amigos, com
decepção e irritação.
Sem
ter terminado a montagem, o operário retorna ao apartamento em 1º de setembro,
mas com intenções bem diferentes. Ele as deixa claras desde o início, mas,
quando ela se recusa categoricamente, ele recorre à violência, espancando-a
brutalmente e amarrando-a, não sem antes aumentar o volume do rádio e da
televisão ao máximo para abafar os gritos de socorro de Cris.
Em
meio à tortura, a jovem reza o terço, usando-o como anel, recusando-se a ceder
ao seu algoz, que é forçado a matá-la com quinze facadas antes de fugir, talvez
aterrorizado pela devastação infligida àquele corpo frágil, que, no entanto,
provou ser mais forte do que sua fúria assassina. De fato, ele não conseguiu
subjugá-la, como a autópsia demonstrará, revelando também a castidade que ela
manteve mesmo durante o noivado.
A
voz do povo, como sempre, precede o pronunciamento da Igreja, considerando esta
jovem de 20 anos uma mártir e santa em pé de igualdade com Maria Goretti. Na
paróquia e diocese de Mariana, desde o dia seguinte à sua morte, referiam-se a
ela como "sua" mártir e recorriam de bom grado à sua intercessão,
como se fosse a de uma jovem santa.
Seus
restos mortais foram trasladados em 26 de agosto de 2009 para a Igreja de Nossa
Senhora da Misericórdia em Barbacena, a paróquia onde recebeu o Batismo e a
Primeira Comunhão. Diante de sua urna, os fiéis rezam como se estivessem diante
das relíquias de antigos mártires. Os jovens, em particular, deixam mensagens
em pedaços de papel: de invocação, de ajuda, mas também de admiração e louvor
por seu excepcional testemunho cristão.
A
autorização para sua causa de beatificação e canonização data de 18 de novembro
de 2000. A investigação diocesana, aberta em 26 de janeiro de 2001 na diocese
de Mariana, foi concluída em 1.º de setembro de 2009. Os testemunhos coletados
desde 1989, sete anos após o assassinato, foram obtidos como material
extrajudicial. Os documentos da investigação diocesana foram validados em 3 de
dezembro de 2010.
Para
comprovar suficientemente o alegado martírio, foi necessária uma investigação
complementar, também realizada em Mariana, de 4 a 19 de fevereiro de 2013, que
obteve a validação legal dos documentos em 6 de dezembro do mesmo ano.
Após a apresentação da "Positio super martyrio" em 2016, realizou-se o Congresso Especial de Consultores Teológicos em 10 de janeiro de 2019 e a Sessão Ordinária dos cardeais e bispos membros da Congregação para as Causas dos Santos em 6 de outubro de 2020.
Todos concordaram que Isabel Cristina morreu defendendo sua virgindade, de acordo com os ensinamentos da Igreja, e que seu agressor agiu contra sua pessoa, mas também contra a tenacidade que ela demonstrara em permanecer fiel à sua vocação religiosa e moral.
Em
27 de outubro de 2020, em audiência com o Prefeito da Congregação para as
Causas dos Santos, Dom Marcello Semeraro, o Papa Francisco autorizou o decreto
que reconhece Isabel Cristina Mrad Campos como mártir.
A
Missa de Beatificação foi celebrada em 10 de dezembro no Parque de Exposições
Barbacena, presidida pelo Cardeal Raymundo Damasceno Assis, Arcebispo Emérito
de Aparecida. A memória litúrgica da Beata Isabel Cristina foi marcada para 1.º
de setembro, dia de sua ascensão ao Céu.
Após
a beatificação, seus restos mortais foram trasladados para a Capela dos
Sagrados Corações de Jesus e Maria, que desde então lhe foi dedicada, na Igreja
de Nossa Senhora da Misericórdia.
Estátua confeccionada após sua beatificação.