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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 18 de julho de 2014

BEATO MARIANO DE LA MATA APARÍCIO, Presbítero Agostiniano - um "santo" na cidade de São Paulo.





O Bem-Aventurado padre Mariano não fez milagres quando era vivo, nem realizou ações extraordinárias, mas levou uma vida aparentemente comum na enorme e dinâmica cidade de São Paulo.

Outrora residência real, a espanhola Palência é uma cidade tranquila. E densamente histórica também, pois ali foi fundada a primeira universidade da Espanha, no longínquo ano de 1208. Entre suas joias arquitetônicas está a catedral - "A Bela Desconhecida" -, pouco visitada por turistas, já que sua austera fachada não deixa transparecer nada de seu esplêndido interior.

Embora sejam numerosos os detalhes encantadores, os monumentos históricos e as obras de arte, a principal riqueza local não é, entretanto, material ou cultural, mas humana: os seus santos - e estes são muitos. "A Igreja de Palência não está edificada sobre arqueologia românica ou pré-românica, mas sobre pedras vivas", disse seu jovem bispo, Dom José Ignacio Munilla Aguirre, referindo- se a esses heróis da fé.
Um deles é o Beato Mariano.


Um santo ao gosto do bondoso povo brasileiro

Ele é uma "pedra viva" também da Igreja de São Paulo, um santo "admirável e imitável", ao gosto do bondoso povo brasileiro. Em sua vida podemos apreciar uma autêntica heroicidade, aquela que tem o amor como motor, até nas mínimas ações.
Mariano nasceu no solar de la Mata, no último dia de 1905, no seio de uma família verdadeiramente católica de quatro irmãos e quatro irmãs. Todos os varões se tornaram agostinianos. Dos casamentos de suas quatro irmãs, nasceram 27 sobrinhos. Destes, três foram sacerdotes e três religiosas missionárias.

Em agosto de 1921, Marianito ingressou como noviço no Seminário Menor dos Padres Agostinianos de Valladolid. Fez a profissão solene em 1927 e recebeu a ordenação sacerdotal no dia 25 de julho de 1930. Partiu para o Brasil em 21 de agosto de 1931.
De 1945 a 1948 foi Superior da Vice Província Agostiniana do Brasil. A partir de 1961, viveu no Colégio-Paróquia Santo Agostinho, em São Paulo, como professor, diretor espiritual das Oficinas de Santa Rita e vigário paroquial.


Impossível conhecer o Pe. Mariano e não conhecer o amor de Deus

Debrucemo-nos sobre o carisma deste genuíno filho de Santo Agostinho.
Algumas pessoas que o conheceram dão testemunho de episódios de sua vida: uma de suas sobrinhas, Irmã María Paz Martín de la Mata AM, o Pe. Pablo Tejedor Fernandez OSA, atual pároco da Igreja de Santo Agostinho, na capital paulista, e muitos outros familiares e irmãos de hábito. De modo especial, o Vice-Postulador da causa de beatificação, o incansável Pe. Miguel Lucas OSA, que narrou sua vida e a estampou em belas pinturas, expondo-o à veneração dos fiéis.
Todos os que privaram com Pe. Mariano são unânimes em reconhecer o que disse lapidarmente sua sobrinha agostiniana, Irmã María Paz: "Conhecer o Pe. Mariano e não conhecer o amor de Deus era impossível. Qualquer pretexto era bom para falar aos outros de Deus, que era o grande motivo e orientação de sua vida. Sempre se esforçava por fazer a vontade de Deus. Todas as suas obras tinham a clara intenção de estender o Reino de Cristo".
Escrever sobre o Pe. Mariano é recordar o "mensageiro da caridade", que percorria as ruas de São Paulo, quer a pé, quer em seu modesto carro azul, para visitar as dezenas de casas das Associações e Oficinas da Caridade de Santa Rita de Cássia, onde se confeccionavam roupas para os pobres. Foi diretor espiritual dessa obra de assistência durante quase 31 anos.
Procurava os recursos com que socorrer os necessitados. Visitava os enfermos. Nas horas de angústia e dor, consolava as viúvas e filhos dos falecidos. Era o "anjo dos enfermos" e um verdadeiro pai para todos.



Fator de harmonia no convívio

O Pe. José Luiz Martínez conviveu com nosso Beato durante vários anos e testemunha que ele era "um exemplo de sacerdote trabalhando com os leigos, com as associadas das Oficinas de Santa Rita. Seu amor à Ordem Agostiniana era demonstrado em seu costume de trajar sempre o hábito de religioso. Cultivava constantemente a oração. Vivia em harmonia e concórdia com os demais companheiros, até nos momentos mais difíceis. Sua presença era desejada, porque significava um elemento de equilíbrio e de paz".
E continua: "Quando em 1980 celebrou Missa de jubileu de ouro sacerdotal, disse: ‘Meus queridos paroquianos, quero dizer a todos aqui presentes, e aos que não puderam vir, que se eu, nesses cinquenta anos de sacerdote, ofendi a alguém, hoje lhes peço perdão’".
De caráter reto, irrepreensível, conciliador, às vezes alguém o enganava, ou melhor, ele se deixava enganar, desde que isso servisse para ganhar os outros para Deus. Nunca falava mal do próximo, nem comentava os defeitos alheios. Relacionava-se tão bem com os pobres quanto com os ricos ou as autoridades.
Pe. Mariano tinha uma alma expansiva e jovial, e uma simplicidade contagiante e acolhedora. Nunca se vangloriava de suas qualidades, mesmo quando exercia cargos importantes. Como professor, era muito querido tanto por seus alunos quanto por seus colegas, porque sabia fazer de cada pessoa um amigo. Estava sempre disposto a sacrificar seus direitos, contanto que a unidade não se desfizesse. Muito extrovertido, mostrava-se sempre pronto a festejar os sucessos dos outros.



Sacerdote exemplar, protetor da inocência e educador de esportistas

Alma inocente, por isso muito amigo das crianças, de quem se via sempre rodeado. No seu bolso nunca faltavam caramelos que distribuía às mancheias. Suas conversas com elas eram preciosos diálogos cheios de transparente ingenuidade; sabia captar-lhes a atenção, adaptava-se aos seus interesses, misturava-se aos seus festejos, deleitando-se como elas francamente.
Tinha verdadeira paixão pelas plantas, especialmente pelas flores. Entre suas puras mãos, no caixão, podia-se ver, além do santo Rosário, uma orquídea de cor lilás, símbolo da América, mais precisamente do Brasil. Demonstrava afeição também por selos, moedas e fotos. Ainda hoje se conserva sua coleção de 25 álbuns, com temáticas especiais: Nossa Senhora, Vaticano, Espanha e Brasil.
Distribuía santinhos e medalhas de Santo Agostinho e Santa Rita entre os operários de uma grande construção próxima à sua igreja. Levava-lhes também alguma comida e, sobretudo, muita fé e coragem.

Era um sacerdote cumpridor ao máximo de suas obrigações religiosas e ministeriais. Madrugava muito. Pouco depois das seis horas, já se podia vê-lo a preparar o altar para as missas. Tinha uma devoção acrisolada à Eucaristia. Quando alguma pessoa aflita lhe pedia orações, invariavelmente acrescentava: "Tenha fé, vai alcançar a graça".
Cecília Maria de Queiroz, secretária da Igreja de Santo Agostinho, declara: "Pe. Mariano falava muito da devoção ao terço. Vi-o muitas vezes caminhar de um lado para o outro, rezando seu breviário e seu terço. Era um sacerdote piedoso. Recomendava- nos orar muito e sempre. Edificava vê-lo no altar, ou participar de suas celebrações eucarísticas. Punha as coisas de Deus sempre em primeiro lugar".

Nunca ia à Espanha, de férias, sem visitar o Santuário do Pilar. A devoção a Maria era seu ambiente ideal. Quando passava por uma capela ou ermida a Ela dedicada, sempre entrava para rezar uma Salve Rainha ou cantar-lhe um hino próprio.

Pode ser considerado um santo protetor dos esportistas, não só porque organizava, orientava e motivava os jovens, mas, sobretudo, pelos sábios conselhos que costumava dar antes da competições. Por exemplo, esta do dia 9 de novembro de 1960, num programa radiofônico em São José do Rio Preto: "Durante os jogos, uma coisa é obrigatória: o cavalheirismo. É preciso aprender a ganhar ou a perder com fidalguia. Eis a lição primordial que a todos obriga sobremaneira. Esquecê-la por uns instantes sequer é uma falta que é preciso fazer desaparecer das competições esportivas. Os jogos, além de enrijecer os músculos do corpo, fortalecem a vontade, fomentam o companheirismo, reanimam o coração nas lutas que se apresentam e oferecem descanso ao intelecto que reclama algumas horas de lazer".

No capítulo epistolar, as numerosas cartas circulares, ofícios, atas ou simples missivas refletem sua obediência imaculada aos superiores, sua caridade fraterna com os irmãos de hábito, seu amor perfeito à Ordem Agostiniana e seu ardor infatigável na conquista de novas vocações religiosas. As cartas dirigidas aos familiares demonstram ternura de alma, uma fortaleza que não teme sacrifícios, pitadas de saudável humor e muito amor fraternal.


Edificante morte

A manifestação de santidade de uma pessoa cresce ao longo de sua vida e, por assim dizer, atinge o auge nos momentos derradeiros. Aquele que com tanta dedicação se entregara aos doentes, foi visitado pela doença. Numa tarde de 1983, Pe. Mariano sentou-se numa escada do Colégio, fato absolutamente inusitado para quem mantinha sempre uma postura composta, sem afetação.
Perguntado por que ele se sentara ali, respondeu: "Estou sentindo como se um gato me arranhasse o estômago..." Era o câncer.
Aceitou e suportou a doença com grande resignação. Sofria grandes dores, mas esquecia-se de si, para preocupar-se apenas com os outros doentes do Hospital do Câncer, onde fora internado. Apesar dos atrozes sofrimentos, conservava uma constante alegria. Seus gestos de amor para com os visitantes, o pessoal de serviço e os demais enfermos, eram causa de admiração para todos eles.

Na Quinta-Feira Santa, recebeu a visita dos confrades da Ordem, dos amigos e de Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal-Arcebispo de São Paulo. A todos correspondia com extenuadas forças e franca amabilidade. Insistiu muito com sua sobrinha, Ir. María Paz, que acabara de chegar da Espanha, para ir visitar a unidade de crianças com câncer. Como era "o dia do amor", pediu que todos fossem celebrar juntos a Eucaristia.

Passou tranquilo a noite. Na manhã seguinte teve muita dificuldade em falar. À tarde, já não falava, e assim permaneceu no Sábado Santo e no Domingo de Páscoa. Na segunda-feira, por volta das oito horas da manhã, partiu para celebrar no Céu a Páscoa eterna: sem nenhum movimento, nem o mínimo gesto, simplesmente parou de respirar, inclinando suavemente a cabeça para o lado direito...
Pe. Mariano faleceu aos 78 anos de idade, no dia 5 de abril de 1983.
As exéquias foram a mais clara manifestação de como era querido aquele homem de Deus. A igreja estava coberta de flores. O desfile diante do féretro foi impressionante. Uma mulher simples e decidida cortou um pedacinho de seu hábito, para guardar como relíquia. "Um fato surpreendente - conta sua sobrinha - revelou a admiração que a gente tinha pelo Pe. Mariano: em um abrir e fechar de olhos, desapareceram de seu quarto todos os seus objetos de uso pessoal. A enfermeira ainda teve tempo de ficar com o rosário, pois tudo o mais já tinha sido levado".

O MILAGRE

No dia 26 de abril de 1996, João Paulo Polotto, de seis anos de idade, aluno do colégio agostiniano de São José do Rio Preto (SP), foi atropelado por um caminhão que o projetou a vários metros de distância. Sofreu fratura no osso parietal direito e lesão na base do osso temporal esquerdo. Seu estado era gravíssimo, com sangramentos na região do ouvido esquerdo, nariz e boca. O médico, Dr. Odérzio Marcato, constatou também um afundamento do crânio.  João Paulo entrou no hospital de Jaú (SP) com o diagnóstico de traumatismo crânio encefálico grave, paralisia esquerda, batimentos cardíacos lentos, respiração vagarosa até parar, globo ocular projetado para a frente.
Enfim, estava em estado de coma. Alguns minutos após o acidente, os padres do colégio agostiniano e vários familiares começaram a pedir a intercessão do Pe. Mariano, para obter o estabelecimento do menino.  E este se recuperou tão rapidamente que, dez dias depois, o médico que o tinha atendido no hospital foi visitá-lo e o encontrou perfeito, brincando com os colegas, andando de patins, sem nenhuma sequela do trágico desastre, como se nada tivesse acontecido. Está hoje com 24 anos.

BEATIFICAÇÃO

Durante a Missa de 5 de novembro, na Catedral de São Paulo lotada de fiéis, realizou-se a cerimônia de beatificação do Pe. Mariano de la Mata. Após o Kyrie, o Cardeal Cláudio Hummes deu início ao solene ato:

"Com alegria e simplicidade, eu, Cláudio Hummes, primeiro servidor na Arquidiocese de São Paulo, pedi humildemente ao Sumo Pontífice Bento XVI que inscrevesse no número dos beatos o venerável Servo de Deus Mariano de La Mata Aparício."

A estas palavras, o Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, respondeu fazendo a leitura da Carta Apostólica do Papa Bento XVI: "Nós, acolhendo o desejo do nosso irmão Cláudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, (...) com nossa Autoridade Apostólica concedemos que o venerável Servo de Deus Mariano de la Mata Aparício, presbítero da Ordem de Santo Agostinho, que consagrou sua existência no ministério pastoral a serviço das crianças, dos pobres e enfermos, de agora em diante , seja chamado Beato."

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