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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Beata Teresa Bracco, Virgem e Mártir da Pureza.


Nasceu em 24 de fevereiro de 1924, penúltima de sete filhos, em Santa Giulia, no Piemonte, Itália. Mãe e pai – Ângela e Jacobo Bracco - foram para ela um exemplo de fé e fortaleza cristã. Em 1927 sepultaram em apenas três dias dois filhos: um de nove e outro de quinze anos. Uma fé submetida ao cadinho da prova. No fim do dia, o próprio Jacobo dirigia a reza do Rosário em família. O nome de Teresa ela recebera em honra da “pequena santa” de Lisieux, beatificada em 1923.
Teresa só pôde frequentar até o quarto ano do primeiro grau, pois com o seu trabalho de pastorinha procurou contribuir para o sustento da família. Trazia o Terço sempre consigo e no campo nunca parava de rezar.
Teresa era uma jovem extremamente reservada, modesta, delicada no relacionamento com as pessoas, sempre pronta a dar a sua ajuda. Era bela: dois grandes olhos escuros e aveludados sobressaíam num rosto sereno e pensativo, emoldurado por grandes tranças castanhas. Bela, mas sem qualquer vaidade. Sabia atrair a admiração respeitosa dos conterrâneos: “Uma garota assim, eu nunca tinha visto antes e jamais vi depois”, afirmou um deles. “Havia nela algo de diferente das demais garotas”, recorda uma amiga. “Era a melhor de nós todas”, confia sua irmã Ana.
Ginin – como era chamada – sacrificava de boa vontade preciosas horas de sono desde que pudesse comungar. A igreja não ficava tão perto de sua casa, e a Missa era ali celebrada ao alvorecer. Mesmo assim, Teresa jamais renunciava à Santa Missa, por nada no mundo. A Eucaristia, a devoção a Nossa Senhora e a espiritualidade das obrigações, eis o segredo da sua santidade.
Na casa da família Bracco chegava regularmente o Boletim Salesiano. Do número de agosto de 1933, Teresa cortou a terceira página que trazia a figura de Domingos Sávio, filho de camponeses como ela, que havia sido declarado venerável há pouco, e que tinha feito o seguinte propósito: “A morte, mas não o pecado”. A pequena – tinha apenas nove anos – ficou fascinada por ele, e colocou a página na cabeceira da cama. Desde então, o mote de Domingos foi também seu. Declarou guerra ao pecado: “Antes, eu me deixo matar”, escreveu. E manteve o propósito.
Em 28 de agosto de 1944, uma feroz investida alemã chega a Santa Giulia e Teresa, assim como outras mulheres e crianças da região, foi tomada como refém de guerra por soldados alemães. Entendendo as intenções não benevolentes dos oficiais, Teresa tentou fugir indo em direção à floresta, mas foi alcançada por um oficial que, tomado pela raiva, a estrangulou e disparou um tiro de pistola no coração. O soldado ainda chutou o corpo já sem vida de Teresa, provocando a quebra do crânio.





O corpo da jovem foi encontrado na floresta dois dias depois. Teresa tentara inicialmente fugir às atitudes brutais do soldado; depois, vendo a inutilidade de seus esforços, preferiu renunciar à vida a perder a virtude tão ciosamente conservada. O seu sacrifício não foi senão o último de uma vida inteiramente vivida pelo Evangelho. Toda a dinâmica do assassinato foi esclarecida pelo exame dos restos feitos em 10 de maio de 1989, sob a ordem do tribunal eclesiástico.

São João Paulo II beatificou-a em Turim no dia 24 de maio de 1998, memória de Maria Auxiliadora, durante sua peregrinação ao Santo Sudário.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SÃO BARTOLOMEU, Apóstolo e Mártir (esfolado vivo).



São Bartolomeu foi um dos doze discípulos de Jesus Cristo. Seu nome vem da língua aramaica e faz uma referência ao nome de seu pai. Bartolomeu vem de “Bar Talmay” e significa “filho de Talmay”.


São Bartolomeu é Natanael

As narrações bíblicas não enfocam São Bartolomeu de maneira especial. A não ser numa passagem do Evangelho de João, as passagens bíblicas limitam-se a citar seu nome entre os doze escolhidos por Jesus. Sabe-se, porém, através dos Evangelhos, que Bartolomeu é o mesmo apóstolo Natanael, citado em outros trechos evangélicos. Isso fica bastante claro quando se faz uma comparação entre os Evangelhos Canônicos.


Desdenha Nazaré

Natanael é um nome que quer dizer "Deus deu". Este nome ganha um novo sentido se observarmos que Natanael veio de Caná da Galiléia. Lá, ele presenciou o primeiro milagre de Jesus, nas famosas “Bodas de Caná”. Conferir o Evangelho de João 2, 1-11. Como São João evangelista nos conta, o discípulo Filipe contou a Natanael (ou Bartolomeu) que tinha acabado de encontrar o Messias.
E disse-lhe ainda que o salvador vinha de Nazaré. Natanael imediatamente respondeu conforme o conhecimento da época. Ele disse: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" (Jo 1, 46). Essa pergunta de São Bartolomeu mostra claramente que o Messias, ou o Salvador, era esperado como um grande general, vindo de lugares importantes de Israel, e não de um vilarejo perdido na Galileia chamado Nazaré.


O Encontro pessoal com Jesus

Quando São Bartolomeu se encontrou com Jesus, aquele “Messias vindo de Nazaré”, recebeu do Mestre um elogio inesperado. Jesus disse a ele "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jo  1, 47). São Bartolomeu, surpreso, respondeu: "De onde me conheces?" Jesus respondeu revelando a ele sua messianidade: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira".
Sem dúvida, Jesus faz menção a um momento importante na vida de Bartolomeu. Sentindo o olhar do mestre, Bartolomeu percebe que aquele Mestre realmente o conhece. Depois desse momento, Bartolomeu decide seguir o Mestre e faz a sua profissão de fé em Jesus. Ele diz: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel".


São Bartolomeu, discípulo e apóstolo

São Bartolomeu seguiu a Jesus nos três anos de vida pública do Mestre em Israel. Ele presenciou os ensinamentos, as ações, os milagres, a morte e a ressurreição de Jesus. Ele estava em Pentecostes, no nascimento da Igreja, quando o Espírito Santo veio sobre todos e todos se tornaram missionários corajosos da Boa Nova pelo mundo.
Bartolomeu conheceu pessoalmente Nossa Senhora, e dela certamente aprendeu mais sobre os ensinamentos do Mestre. Assim, cheio do Espírito de Deus, depois de ter sido discípulo de Jesus, ele passou a ser Apóstolo, palavra grega que quer dizer “Enviado”. Ele foi enviado, Apóstolo, em nome de Jesus. E fez maravilhas pelo Reino de Deus em terras longínquas.

Missão de São Bartolomeu

A Tradição da igreja e fontes históricas nos dizem que São Bartolomeu foi anunciar Reino de Deus até ao distante país da Índia. Há outra tradição, ela afirma que São Bartolomeu foi pregar o Evangelho onde é hoje a Europa Oriental. Lá, ele realizou uma maravilhosa missão acompanhada de conversões sinceras que confirmavam a pregação da Palavra de Deus.


Martírio

Depois dessa frutuosa missão em que muitos se converteram a Jesus Cristo e onde várias comunidades cristãs foram criadas, São Bartolomeu foi martirizado, vítima de esfolamento de toda a sua pele. Foi na cidade de Albanópolis, hoje Derbent, na região russa do Daguestão, às margens do mar Cáucaso. Ele teria sido morto por ordem do governador local, que não aceitou a pregação do cristianismo em suas terras.


Iconografia (Representação artística)

Essa tradição é tão forte que São Bartolomeu foi pintado na Capela Sistina segurando a pele de seu corpo em sua mão esquerda e, na mão direita, uma adaga, tipo de uma espada afiada, instrumento do martírio que ele sofreu. Séculos depois, as relíquias de São Bartolomeu foram transportadas para Roma e estão hoje na igreja dedicada a ele.


Devoção a São Bartolomeu


A festa litúrgica de São Bartolomeu é celebrada no dia 24 de agosto, provável dia de sua morte. As igrejas da Europa oriental devem sua fé, em última instância, à pregação corajosa de São Bartolomeu, cujos frutos permanecem até hoje.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Beatos Mártires Passionistas de Daimiel, Espanha (Guerra Civil Espanhola, em 1936)




Os gloriosos Mártires Passionistas de Daimiel


Hoje, 19 de outubro, memória litúrgica de São Paulo da Cruz, presbítero e fundador, trago a história destes ilustres "filhos da Paixão do Senhor", que deram sua vida por causa de sua fidelidade ao Cristo, durante a terrível perseguição impetrada pelos comunistas na Guerra Civil Espanhola de 1936. 

A Congregação da Paixão de Jesus Cristo, fundada no século XVIII por São Paulo da Cruz, nasceu para anunciar o Evangelho da Paixão aos homens. O convento Passionista de Daimiel (Cidade Real), casa de formação de futuros passionistas, foi viveiro do qual saíram gerações de jovens para as missões da Espanha e América.

A Comunidade Passionista de Daimiel foi violentamente expulsa de seu convento às doze horas da noite do dia 21 de julho de 1936. Vinte seis de seus trinta e um religiosos foram martirizados.
O Padre Nicéforo de Jesus e Maria, superior provincial (Nicéforo significa: “aquele que leva à vitória”) reuniu os religiosos na igreja, junto ao Cristo da Luz e à Virgem Dolorosa. Deu-lhes a comunhão e os exortou assim ao martírio:
“Meus filhos, este é nosso Getsêmani; nossa natureza, em sua parte débil, desfalece e se acovarda; porém, Cristo está conosco. Eu vos dou Aquele que é a fortaleza dos débeis. A Jesus lhe confortou um anjo; a nós, Ele mesmo, Jesus, é quem nos conforta e sustenta. Dentro em poucos momentos estaremos com Ele. Ânimo, moradores do Calvário, para morrer por Cristo! A mim me toca animá-los e eu mesmo me estimulo com vosso exemplo”.
Recebida a comunhão, se dispuseram todos para o martírio, fazendo realidade o ideal de sua vida: serem outros “cristos crucificados”. Padre Nicéforo, antes de abrir as portas da igreja insistiu-lhes que aquela era a hora de provar com sua vida que eram sincer’os passionistas. As abriu de par em par. Fora e envoltos na obscuridade da noite, lhes esperavam uns duzentos milicianos armados e apinhados próximos à entrada. Um deles, com a arma na mão, lhes exigiu, ameaçador, que abandonassem o convento e a igreja.
Pe. Nicéforo lhes contestou tranquilamente: “se querem matar-nos, façam-no aqui, na igreja”. O miliciano, confuso, balbuciou: “quem foi que disse que queremos mata-los? O que queremos é que vão embora daqui de uma vez por todas”.
Escoltados como malfeitores, os passionistas saíram da igreja e caminharam para a escuridão e para o desconhecido. Ninguém intentou fugir ante a morte. Onde lhes levavam na noite cerrada aqueles inimigos armados?
Caminhavam em filas, dois a dois, escoltados por milicianos de olhar obscuro e debaixo de ordem de silêncio. Rezavam calados meditando os mistérios dolorosos: a prisão no Horto, o caminho do Calvário, que viviam em pessoa, atualizados.


Se Deus o quer, nos encontraremos em Madrid; se não, no Céu.

Se lhes disseram que os levariam à estação e alguns pensaram que ali lhes deixariam tomar um trem e alojarem-se, porém, a coluna dos presos mudou de rumo e tomou outra direção: à das cercanias do cemitério.
Pensaram que ali seriam fuzilados. Porém, não. Ao chegarem à porta do mesmo, deixaram-lhe em “liberdade”, com a ordem de seguirem adiante e de não retornarem mais a Daimiel, sob pena de perderem a vida.
Os religiosos deram um suspiro de alívio e empreenderam seu êxodo. Ao chegarem à bifurcação da estrada de Cidade Real a Bolaños, detiveram-se na negritude da noite a deliberar: o que fazer? Trinta e um homens juntos não passariam despercebidos às linhas de frente vermelhas, por isso, decidiriam dividirem-se em grupos. O superior os abençoou. Abraçaram-se todos despedindo-se e cada grupo tomou seu caminho. Como lhes disse o Padre Nicéforo, se Deus o quisesse, encontrar-se-iam de novo em Madrid; caso contrário, no Céu.
Porém, ainda que deixados, aparentemente, em liberdade, seus “libertadores” os seguiam e iam informando a seus comparsas de seus possíveis itinerários até a capital da Espanha com dicas como esta: “vão passar por aí os passionistas de Daimiel. São ‘carne fresca’! Não a deixeis escapar...”. No dia seguinte seriam já fuzilados próximos à povoação de Manzanares os primeiros mártires. Cinco, entre eles o Padre Nicéforo, morreram ali mesmo; outros sete lograram sobreviver aos balaços, porém, três meses mais tarde e depois de muito sofrimento por causa das feridas sofridas, morriam também fuzilados pela segunda vez. Os passionistas dos demais grupos alcançariam também a glória do martírio em distintos lugares e datas, igualmente fuzilados em Carabanchel Bajo (Madrid), em Carrión de Calavatra (Ciudad Real) e em Urda (Toledo).
Testemunhas presenciais contaram na “positio” do processo que o Padre Nicéforo, apesar de receber vários disparos, já mortalmente ferido e próximo de morrer, levantou os olhos ao Céu, volveu o rosto para seus assassinos e lhes ofereceu um doce sorriso, o que lhes desconcertou. Um deles, mais enfurecido ainda, lhe recriminou: “como, todavia, ainda sorris”? E disparou outro tiro à queima roupa, que pôs fim à sua vida aqui na terra. Segundo confessaram mais tarde os mesmos assassinos, Padre Juan Pedro e o Irmão Paulo Maria morreram com o crucifixo entre as mãos gritando: “Viva Cristo Rei”!
Os 26 Beatos Passionistas do convento do Santo Cristo da Luz, de Daimiel, que deram sua vida por sua fidelidade ao Cristo e à Igreja são:







Nicéforo Díez Tejerina, Superior Provincial.
Germán Pérez Jiménez, Superior da comunidade
Juan Pedro Bengoa Aranguren, presb.
Felipe Valcobado Granado, presb.
Ildefonso García Nozal, presb.
Pedro Largo Redondo, presb.
Justiniano Cuesta Redondo, presb.
Pablo María Leoz Portillo, presb.
Benito Solana Ruiz, presb.
Anacario Benito Lozal, irmão coadjutor.  
Felipe Ruiz Fraile, irmão coadjutor;
Eufrasio de Celis Santos, estudante.
Maurilio Macho Rodríguez, estudante.
Tomás Cuartero Gascón, estudante.
José María Cuartero Gascón, estudante (irmão de Tomás)
José Estalayo García, estudante
José Osés Sáinz, estudante.
Julio Mediavilla Concejero, estudante.
Félix Ugalde Ururzun, estudante.
José María Ruiz Martínez, estudante.
Fulgencio Calvo Sánchez, estudante.
Honorino Carracedo Ramos, estudante.
Laurino Proaño Cuesta, estudante.
Epifanio Sierra Conde, estudante.
Abilio Ramos Ramos, estudante.
Zacarías Fernández Crespo, estudante.

Em 01 de outubro de 1989, todos foram Beatificados pelo Papa São João Paulo II na Praça de São Pedro, no Vaticano. Na cripta da Ermida de Cristo da Luz de Daimiel repousam suas relíquias esperando a gloriosa ressurreição.
Suas almas estão presentes diante do Trono do Cordeiro, Rei dos Mártires, intercedendo por nós, para que a Fé Católica da Espanha, pela qual deram sua vida, não desfaleça diante desta atual, mas, sutil perseguição.


(Nota: texto traduzido do espanhol por mim)



Beatos Mártires Passionistas de Daimiel, rogai pela
Espanha e por todos nós! 

SANTA APOLÔNIA, Virgem e Mártir. Padroeira dos Dentistas. Dois relatos biográficos.


Esta santa mártir do século III da Era Cristã, como veremos adiante, possui uma história polêmica e que suscitou discussões. Quanto ao seu martírio, na fogueira, existem duas versões: uma diz que, a princípio, teria escapado ilesa das chamas e que teria sido decapitada. Outra versão diz que seu corpo foi consumido pelas chamas da fogueira. Bem, de uma forma ou de outra, o que se sabe é que esta santa existiu de verdade e que realmente testemunhou com a vida sua fé e seu amor por Cristo Jesus. É a padroeira dos cirurgiões dentistas.



Primeiro Relato Biográfico

Registros históricos
Santa Apolônia viveu no tempo do império romano por volta do ano 249. Era o tempo do imperador Felipe, que foi derrotado por Décio. Este tornou-se um dos  mais cruéis perseguidores dos cristãos. Apolônia era filha de um rico magistrado de Alexandria, cidade importante do Egito, então sob o domínio do império Romano. Apolônia teve sua história contada pelo então Bispo de Alexandria, São Dionísio, em cartas ao Bispo Fabio de Antioquia.

Perseguição
Na sétima investida do Imperador Décio contra os cristãos, ela foi capturada. Como Décio sempre fazia, Apolônia foi obrigada a renunciar a sua fé cristã pelas forças do império. Além disso, foi obrigada a prestar culto aos deuses romanos e a obedecer o Imperador. Santa Apolônia, porém, firme na fé e tomada por uma coragem impressionante, negou-se a obedecer. Por isso, ela passou a sofrer terríveis torturas em praça pública, diante de todo o povo, que se impressionava com tudo o que via.

Padroeira dos dentistas
Em meio às grandes torturas que sofreu sem negar sua fé, Santa Apolônia teve seus dentes arrancados por pedras afiadas. Mesmo sofrendo a dor lancinante de ter seus dentes quebrados, ela não renunciou à sua fé em Jesus Cristo. Ao ver sua firmeza na fé, os carrascos quebraram sua face com pancadas. Em seguida, foi condenada a morrer queimada. Depois de sua morte, seus dentes foram recolhidos e levados para vários mosteiros. Existe um dente e um pedaço de sua mandíbula no Mosteiro de Santa Apolônia em Florença, Itália.

Morte de Santa Apolônia
Depois de todos os sofrimentos pelos quais tinha passado, Santa Apolônia ainda reunia forças para mostrar a todos sua fé inabalável. Assim, mesmo amarrada, ela própria se jogou na fogueira onde morreria, dizendo que preferia a morte a renunciar sua fé em Cristo Jesus. Deus, porém, protegeu Santa Apolônia e ela escapou ilesa da fogueira. Muitos dos presentes se converteram ao presenciar este fato. Então os algozes lhe deram vários golpes de espada e lhe deceparam a cabeça. Santa Apolônia faleceu no ano de 249.


Reverência de Santo Agostinho
Mais tarde Santo Agostinho explicou que esse ato de Santa Apolônia não foi um “suicídio”, mas uma atitude inspirada pelo Espírito Santo, como um ato de coragem ao enfrentar todas as forças da época em nome de Jesus Cristo.
Um suicida tira a própria vida por angústia, medo ou covardia diante de uma situação ou problema. Santa Apolônia, pelo contrário, não teve medo de seus algozes e da morte, mas, “correu para ela” com coragem e força heroica, desvencilhando-se das mãos daqueles que a arrastavam para o suplício.


Canonização e festa
Santa Apolônia foi canonizada no ano 300. Seu culto é mais conhecido e divulgado na Europa, principalmente na Alemanha, França e Itália. Sua festa litúrgica é realizada no dia 9 de fevereiro. Ela é padroeira da Odontologia e dos cirurgiões-dentistas, dos que sofrem de dores na boca e problemas nos dentes.

Representação
Por ter tido os seus dentes arrancados ela é representada por uma imagem de uma senhora com vestes simples, adornada de um véu. Tem a seus pés uma palma e um fórceps na mão segurando um dente.


Oração a Santa Apolônia

"Ó, bom Deus. Rogamos que a intercessão da gloriosa mártir de Alexandria, Santa Apolônia, nos livre de todas as enfermidades do rosto e da boca. Lembrai-vos principalmente das criaturas inocentes e indefesas. Afastai, se possível, a amargura das dores de dente. Iluminai, fortificai e protegei os cirurgiões-dentistas, para que sempre se dediquem ao próximo com o amor que de vós emana, e nos seja dado usufruir de vosso reino. Santa Apolônia, intercedei a Deus por nós. Amém."



Segundo Relato Biográfico

O martírio de Santa Apolônia é relatado pelo historiador Eusébio de Cesareia (265-340), que na sua Historia Ecclesiastica, escrita no terceiro século, transcreve um trecho da carta do bispo São Dionísio de Alexandria († 264), endereçada a Fábio de Antioquia, na qual ele narra alguns episódios de que fora testemunha.

     O governo de Felipe o Árabe (243-249) foi um período em que praticamente houve uma trégua nas perseguições anticristãs, mas, em 248, eclodiu em Alexandria do Egito uma sublevação popular contra os cristãos instigada por um adivinho alexandrino.
     Muitos seguidores de Nosso Senhor Jesus Cristo foram flagelados e lapidados; nem os mais débeis escaparam do massacre. Os pagãos entravam em suas casas saqueando tudo e devastando a habitação.
     Durante este furor sanguinário dos pagãos, foi aprisionada a virgem Apolônia, já anciã, definida por Eusébio “parthenos presbytès”, mas que na iconografia sagrada, como todas as santas virgens, é apresentada como uma jovem.
     Os perseguidores arrancaram seus dentes com uma tenaz. Depois, levaram-na fora da cidade, acenderam uma fogueira e ameaçaram lançá-la viva nela se não pronunciasse uma palavra de impiedade contra Deus. Apolônia pediu para deixaram-na livre por um momento e, obtido isto, se lançou rapidamente no fogo, sendo reduzida a cinzas.
     O fato ocorreu no fim do ano 248 e início de 249. Na sua carta São Dionísio afirma que sua vida fora digna de toda admiração e, devido sua conduta exemplar e pelo apostolado que desenvolvia, a fúria dos pagãos caíra sobre ela com uma crueldade particular.
     O gesto de Apolônia de lançar-se no fogo a fim de não cometer um pecado grave, suscitou entre os cristãos e os pagãos de então uma grande admiração e nos séculos seguintes foi objeto de considerações doutrinárias.
     Eusébio e Dionísio não acenam com nenhuma reprovação ao seu gesto, que pode ser considerado suicídio, mas de fato a virgem estava condenada de qualquer forma ao fogo se não abjurasse a Fé. Quiçá, ela quis livrar-se de torturas posteriores que poderiam quebrantar sua vontade e que isto a fez decidir por se lançar nas chamas.

     Santo Agostinho, na sua De civitate Dei, se põe perguntas sobre o problema se é lícito dar-se voluntariamente a morte para não renegar a Fé e diz: “Não é melhor fazer uma ação vergonhosa da qual é possível se livrar com o arrependimento, do que um delito que não deixa espaço a um arrependimento que salva?” Mas o suicídio voluntário de algumas santas mulheres que em “tempo de perseguição se jogavam em um rio para fugir de quem tentava corromper a sua castidade” o deixava perplexo: e se não fora Deus mesmo que inspirara o gesto? Então não teria sido um erro, mas uma obediência. Santo Agostinho não se decide por uma posição sobre o argumento.

     Seja como for, o culto pela mártir da Alexandria se difundiu primeiro no Oriente e depois no Ocidente. Em várias cidades europeias surgiram igrejas dedicadas a ela; em Roma havia uma, hoje desaparecida, perto de Santa Maria em Trastevere. A sua festa, desde a Antiguidade, é celebrada no dia 9 de fevereiro.
     Na Idade Média era tão grande a devoção a esta santa mártir, protetora dos dentes e das doenças a eles relacionadas, que se multiplicaram os dentes-relíquia milagrosos, o que fez com que o Papa Pio VI (1775-1799), que era muito rígido nestas formas de culto, mandasse recolher todos os dentes que eram venerados na Itália. Este episódio nos ajuda a compreender quanta impressão e admiração o martírio desta santa suscitava no mundo cristão.

Fonte: www.santiebeati.it e blog "Heroínas da Cristandade" (com permissão da autora).

domingo, 18 de outubro de 2015

SANTA BÁRBARA, Virgem e Mártir.




Santa Bárbara nasceu na cidade de Nicomédia na região da Bitínia, onde hoje se localiza a cidade de Izmit, na Turquia, às margens do Mar de Mármara. Bárbara viveu no final do Século III. Foi uma bela jovem, filha única de Dióscoro, um rico e nobre morador de Nicomédia.

Dióscoro não queria deixar sua filha única viver no meio da sociedade corrupta daquele tempo. Por isso, decidiu fechá-la numa torre. Lá, ela era ensinada por tutores da confiança de seu pai. Porém, aquilo que parecia um castigo, começou a abrir a mente de Bárbara. Do alto da torre ela contemplou a natureza: as estações do ano, a chuva, o sol, a neve, o frio, o calor, as aves, os animais, etc. Tudo isso fez Bárbara questionar se aquilo era realmente criação dos “deuses”, como seus tutores e seu povo creditavam, ou se havia “alguém” muito mais inteligente e poderoso por trás da criação.


A beleza de divina

Quando atingiu a idade para o casamento, por volta de 17 anos, seu pai a trouxe para casa e permitia que ela recebesse a visita de pretendentes, mas não permitia que ela visitasse a cidade. Bárbara era uma jovem muito bela e de família rica. Por isso, muitos eram os pretendentes que queriam se casar com ela. Mas Bárbara não aceitava nenhum, enxergando neles a superficialidade e o interesse, e nenhum toque de amor verdadeiro.
Para seu pai, isso era um problema sério, pois, segundo os costumes, ele tinha obrigação de casar sua filha. Dióscoro pensava que as “desfeitas” da filha diante dos pretendentes se davam por causa do tempo que ela passou na torre. Então, ele decidiu permitir que Bárbara conhecesse a cidade.

O contato com os cristãos

Santa Bárbara, então, começou a frequentar a cidade. Nessas visitas, acabou conhecendo os cristãos de Nicomédia. Estes passaram para Bárbara a mensagem de Jesus Cristo. Falaram-lhe também sobre o mistério da Santíssima Trindade. A novidade cristã tocou profundamente o coração de Bárbara. Com os cristãos ela encontrou a resposta para seus questionamentos: o Criador de tudo era o Deus Único e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e não os deuses que seu povo cultuava.
Bárbara se converteu ao cristianismo de todo o coração. Logo, um padre vindo de Alexandria ministrou a ela o batismo. E Bárbara passou a ser uma jovem fervorosa e cheia de virtudes cristãs. Em Jesus Cristo ela encontrou o sentido mais profundo de sua vida.


Santa Bárbara e as perseguições

Dióscoro, pai de Santa Bárbara, decidiu construir para ela uma casa de banho na torre, onde ele planejou instalar duas belas janelas. Quando a obra começou, Dióscoro teve que fazer uma longa viagem. Durante a viagem do pai, Santa Bárbara ordenou que construíssem uma terceira janela na obra. Sua intenção era que a torre tivesse três janelas em homenagem à Santíssima Trindade. Além disso, Santa Bárbara esculpiu uma cruz na torre.
Quando Dióscoro voltou, reparou logo nas mudanças feitas na construção e foi perguntar à filha o por que daquilo. Santa Bárbara explicou que as mudanças eram símbolos de sua nova fé: três janelas em homenagem ao Deus Uno e Trino, Criador de todas as coisas. E a Cruz lembrava o sacrifício do Filho de Deus para salvar a humanidade. Dióscoro ficou furioso.

A sentença de morte de Santa Bárbara

Ao perceber que a filha estava irredutível em sua fé cristã, Dióscoro, num impulso de ira, denunciou a filha ao prefeito da cidade. Este ordenou que Bárbara fosse torturada em praça pública, para tentar fazer com que a jovem renegasse a fé cristã. Porém, para surpresa de todos, Santa Bárbara não renegou sua fé, mesmo diante dos mais atrozes sofrimentos.
Durante a tortura, uma jovem cristã chamada Juliana denunciou os nomes dos carrascos, coisa que era expressamente proibida na época. Por isso, Juliana foi presa e condena à morte por decapitação juntamente com Santa Bárbara.
As duas jovens cristãs foram levadas amarradas pelas ruas de Nicomédia, sob os gritos furiosos de muita gente. Santa Bárbara teve os seios cortados. Depois, foi conduzida para fora da cidade. Lá, seu próprio pai a degolou.


Bárbara e os raios

Quando Dióscoro degolou a filha e a cabeça de Santa Bárbara rolou pelo chão, um raio riscou o céu e um enorme trovão foi ouvido pelo povo. E, para o assombro de todos, o corpo de Dióscoro caiu no chão sem vida, atingido pelo raio. Parece que a natureza se revoltou contra a atitude desse pai infanticida.
Depois deste fato, Santa Bárbara ganhou o status de "protetora contra relâmpagos e tempestades", além de ser nomeada Padroeira dos artilheiros, dos mineradores e das pessoas que trabalham com fogo.


Devoção à Santa Bárbara

A festa de Santa Bárbara é celebrada na Igreja Católica e na Igreja Ortodoxa. A festa é celebrada no dia 4 de Dezembro de cada ano.
Mas a grande mensagem de Santa Bárbara destina-se a todos aqueles que buscam a verdade, principalmente os jovens. Ela nos ensina a buscar a verdade com coração sincero e aberto. Ensina também que o casamento não deve acontecer por mero interesse, mas sim por amor. Por fim, Santa Bárbara nos dá uma mensagem de coragem e fé. A palavra mártir quer dizer testemunha e se aplica aos cristãos que preferiram morrer a negar sua fé e pecar. Este é o grande testemunho de Santa Bárbara.


Oração de Santa Bárbara


“Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura. Ficai sempre ao meu lado para que possa enfrentar de fronte erguida e rosto sereno todas as tempestades e batalhas de minha vida, para que, vencedor de todas as lutas, com a consciência do dever cumprido, possa agradecer a vós, minha protetora, e render graças a Deus, criador do céu, da terra e da natureza: este Deus que tem poder de dominar o furor das tempestades e abrandar a crueldade das guerras. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.”

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

SÃO HUMILDE (Úmile) DE BISIGNANO, Irmão Franciscano e místico.



Luca Antonio, seu nome de batismo, nasceu na cidade de Bisignano, província de Cosenza, Itália, em 26 de agosto de 1582. Pertencia a uma família muito pobre e muito cristã. Desde a mais tenra idade, o menino manifestou sua admirável piedade. Todos os dias ia à Missa, comungava, rezava e meditava a Paixão do Senhor, tornando-se modelo de virtude para todos os que o conheciam.
Aos dezoito anos, sentiu que sua real vocação estava na vida religiosa, mas por vários motivos teve de esperar nove anos para poder realizar os seus santos propósitos, levando, entretanto, uma vida ainda mais disciplinada a fim de conseguir seus objetivos. Finalmente, aos vinte e sete anos, entrou no noviciado dos Frades Menores de Mesuraca, tomando o nome de frei Humilde, emitindo a profissão em 1610.

Desde jovem, tinha o dom de contínuos êxtases contemplativos, motivo pelo qual era chamado de "o frade extático". A partir de 1613, esses dons se tornaram públicos e por isso seus superiores o submeteram a uma longa série de provas e humilhações para certificarem-se se eles provinham, realmente, de Deus. Mas essas provas, felizmente suportadas, só vieram aumentar sua fama de santidade junto aos irmãos e ao povo.

Outros dons particulares foram atribuídos a Humilde: a perscrutação dos corações, a profecia, as intercessões em milagres e, sobretudo, a ciência infusa. Apesar de ser analfabeto, dava respostas sobre as Sagradas Escrituras e sobre qualquer outro tema da doutrina católica que faziam admirar insignes teólogos. A esse propósito, Humilde foi experimentado por uma assembléia de sacerdotes seculares e regulares, com propostas de dúvidas e objeções, às quais respondeu de maneira muito satisfatória. Portanto, é fácil compreender a estima de que era universalmente rodeado.


Frei Humilde gozou da confiança dos sumos pontífices Gregório XV e Urbano VIII, que o chamaram ao Vaticano e se beneficiaram com suas orações e conselhos. Permaneceu em Roma por muitos anos, sendo hóspede no Convento de São Francisco, em Ripa, e, durante alguns meses, no de Santo Isidoro. Por volta de 1628, Humilde apresentou um pedido para poder ir como missionário aos países dos infiéis muçulmanos, porém obteve resposta negativa dos superiores, tendo de continuar na Itália.
As orações de Humilde eram simples, porém suas preces eram sempre dedicadas ao bem da humanidade e à paz universal. Apesar de ser muito estimado por todos, ele se humilhava, continuamente, perante Deus, por considerar-se um grande pecador. Disse, certa vez, ao papa Gregório XV: "Enquanto todas as criaturas louvam e bendizem ao Senhor, eu sou o único que o ofende". Ele faleceu no dia 26 de novembro de 1637, na sua cidade natal, onde passou os seus últimos anos de vida. Beatificado em 1882, foi somente em 2002 que o papa São João Paulo II declarou santo Humilde de Bisignano, cuja festa litúrgica ocorre no dia de sua morte.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Madame Elisabeth, o "Anjo da Corte", a "Princesa Esquecida".


   
                                 
A Revolução Francesa foi uma terrível cicatriz na face da Cristandade. Numerosos relatos contam com brilho a vida das pessoas envolvidas: o Rei e a Rainha da França, os revolucionários, os pobres e o grande corpo da nobreza que sucumbiu na guilhotina. Deixando-os por um momento à parte, vamos descobrir no ponto bem central da tragédia caótica a existência de um anjo – um anjo humano criado do mais nobre sangue na França: Madame Elisabeth, a Princesa real.


Elisabeth Filipina Maria Helena de França, nascida a 3 de maio de 1764, era a filha mais nova do Delfim de França, e neta de Luis XV. Seu pai, o Delfim Luis Ferdinando morreu inesperadamente antes que ela fizesse um ano de vida, e sua mãe, Maria Josefa de Saxe, faleceu um ano depois. Ela, sua irmã mais velha, Clotilde, e seus três irmãos – o novo Delfim (futuro Luís XVI), o Conde de Provença, e o Conde de Artois – ficaram órfãos.
As irmãs reais foram entregues aos cuidados da Condessa de Marsan, e esta boa dama dedicou longos anos à sua formação. A Princesa Elisabeth, diferentemente de sua dócil irmã, precisava de uma influência forte sobre ela, e por isso em 1770 uma nova governanta, a Baronesa de Mackau, foi nomeada para ajudar a excelente, mas idosa Madame de Marsan.
A Baronesa era uma mulher de alta virtude e grande bondade, e Elisabeth logo ficou encantada com ela. A nova governanta educou as princesas como se elas fossem suas filhas. Ela focalizou especialmente a pequena Elisabeth, que era conhecida por tremer de raiva diante da menor provocação.
Mas, a maior influência na vida de Elisabeth foi a religião. Foi a sua Primeira Comunhão que a modificou completamente.



O Anjo

Conforme os anos iam passando, a princesa crescia em piedade e charme. Ela não era exatamente bonita, mas sua frescura e alegria emprestavam a ela um tipo de beleza vibrante que falta a muitas beldades. Seu charme principal, entretanto, era seu devotamento infatigável e caloroso a todos aqueles que a rodeavam na vida diária. Para seu irmão, o Rei, ela professava uma afeição ilimitada, embora sua fraqueza a angustiasse. Ela o envolvia com seu devotamento, pairando sobre ele como um anjo guardião. Quando príncipes reais de paises estrangeiros pediram-na em casamento, ela recusou, preferindo ficar a seu lado.
 Quando ela atingiu uma certa idade, o protocolo da corte exigiu mais dela. No silêncio de sua alma, um protocolo diferente e mais forte a chamava, um chamado misterioso para a solidão e a oração. Ela passou a freqüentar mais o Convento de São Dionísio, onde sua tia era abadessa.
 Seu irmão, cada vez mais preocupado com o aumento da freqüência dessas visitas, afetuosamente disse a ela: "Nada me agrada mais do que vê-la visitando sua tia, mas não a imite. Elisabeth, eu preciso de você comigo". Ela já havia pressentido a sombra agourenta ameaçando a corte de seu irmão e sem dúvida isto fê-la apoiar o Rei mais do que inclinações pessoais.
Numa carta de uma pessoa amiga, seu sacrifício foi definido sucintamente: "Há vidas de abnegação tão valiosas quanto vocações monásticas; ações que superam o silêncio prescrito; obras de serviços aos outros que excedem as austeridades conventuais".
Seu devotamento à família real nunca vacilou: até sua morte a energia no serviço de todos provaria isto incessantemente. Quantos relatos foram deixados para a História que nos falam de seu desprendimento, suas boas obras, seus conselhos sábios, sua assistência bondosa onde quer que ela notasse sofrimento e angústia.
O Rei deu a ela uma propriedade, Montreuil, onde ela passava muitas horas, recebia algumas amigas e se dedicava às obras de caridade. Ela mantinha ali um estábulo com vacas que forneciam leite para os órfãos da vizinhança.
Contudo, suas boas obras somente refletiam sua espiritualidade profunda. Elisabeth atingia realidades sublimes com a facilidade da alma plena de amor. Em uma carta a uma amiga muito querida cuja mãe estava morrendo, sua pena ecoa o cântico de seu próprio coração: "Eu tenho vivido totalmente para Deus; eu me apresentei a Ele com muitas infidelidades, mas com muito amor e com um grande desejo de possuir a alegria reservada para aqueles que O serviram".
A Providência a preparou continuamente para a tragédia que viria.


A Revolução
A tempestade caiu sobre a França. As negras maquinações da Revolução atingiram não apenas as pessoas da realeza, mas todas as formas de nobreza. Em meados de agosto de 1792, a família real foi aprisionada na Torre do Templo, onde ficou até sua morte. O que foi relatado sobre a infeliz família real durante aquele período deveria ter causado indignação em todas as cortes da Europa. Enquanto eles esperavam sentados, uma das piores conspirações da História ameaçava a França e seu trono.
Madame Elisabeth recusou todas as propostas para fugir apresentadas por outros membros de sua família, a fim de ficar com seu irmão, e foi aprisionada com o Rei e sua família. Os poucos serviçais que puderam acompanhá-los foram diminuindo gradualmente. Com calculada intenção, algumas das criaturas mais vis da França foram designadas para vigiar os prisioneiros reais, causando-lhes humilhações e tormentos indizíveis.
A 21 de janeiro de 1793, o Rei foi guilhotinado, seguido pela Rainha Maria Antonieta em 2 de agosto. O Delfim, uma criança de oito anos, foi separado do resto da família, provavelmente morrendo de maus tratos e abuso.
Após a morte da Rainha, somente Madame Elisabeth e sua sobrinha de quinze anos, filha da Rainha, sobreviveram. Elas passaram o inverno e os vinte e dois meses seguintes num isolamento terrível, sendo seu único conforto a amorosa companhia que uma dava a outra. Madame Elisabeth com toda bondade distraia a jovem princesa no seu infortúnio e sofrimento. As memórias da princesa fornecem muito do que é conhecido da tragédia da família real, além de preciosas informações sobre o caráter e a piedade de Madame Elisabeth durante sua prisão.

Seu calvário
No meio da noite do dia 9 de maio de 1794, as princesas foram súbita e rudemente acordadas por seus carcereiros. Disseram para Madame Elisabeth se vestir rapidamente e para acompanhar os guardas. Sendo avisada de que não retornaria mais para a prisão da torre, Elisabeth abraçou e beijou a sobrinha, dizendo para ela ficar calma. "Os guardas acumularam-na de insultos e palavras vulgares", narra a princesa. "Ela suportou tudo isto com paciência, pegou sua touca, beijou-me novamente, e disse-me para ter coragem e firmeza, para confiar sempre em Deus. Ela então foi embora".
A Princesa não tinha dúvidas para onde a levavam. Naquela hora tardia, ela foi levada para a Conciergerie, o antigo palácio real transformado em lutuosa prisão. Ela então compareceu diante do tribunal revolucionário e foi "julgada" com outros vinte e três membros da nobreza. Os vinte e quatro prisioneiros foram condenados. Isto significava morte em 24 horas, após um período de torturas psicológicas. Eles foram deixados sozinhos no corredor onde os prisioneiros passavam sua última noite.
     Elisabeth foi então chamada a praticar um último ato de amor. Com inexprimível ternura e calma ela começou a dirigir-se aos seus companheiros diminuindo seus medos, consolando sua agonia pela transparência de sua serenidade. A branca silhueta da Princesa foi vista assim, passar a última noite de sua vida indo de um em um secando lágrimas, encorajando os medrosos, lançando sementes de esperança nos desesperados, elevando todos os corações para uma realidade superior: o Paraíso!
     Nos primeiros raios da aurora, as mulheres foram preparadas para terem seus cabelos cortados. As portas da prisão se abriram e as vítimas foram colocadas nas carroças. Os condenados partiram da Conciergerie às 16 horas. Eles se dirigiram para a Praça Luis XV.
     Todos estavam de pé, somente Madame Elisabeth estava sentada. Mas, na altura da Rua du Coq, apressaram os cavalos e ela então se levantou. Subitamente as carroças penetram na praça e os prisioneiros se viram diante do infame instrumento de morte, a guilhotina. A Princesa foi a primeira a descer. O carrasco ofereceu sua mão, mas ela olha para outro lado, não precisando de ajuda.
     Uma após a outra as vítimas sobem o cadafalso, e cada qual, antes de ir, faz um último ato de respeito à irmã de seu Rei morto. De acordo com as ordens, Madame Elisabeth deveria ser a última executada, numa cruel esperança de que o horrível ritual que acontecia diante de seus olhos quebrasse sua coragem. Mas, eles foram desapontados até o fim! Ela ficou de pé no meio dos guardas, enquanto seus companheiros eram supliciados.
     Madame Elisabeth recitou o De Profundis. Ela rezava, o rosto voltado para a guilhotina, mas nenhum barulho a fazia erguer os olhos. Quando chegou a vez de Madame Elisabeth, ela subiu os degraus com passos lentos; ela tremia ligeiramente, sua cabeça estava inclinada sobre o peito.
     No momento em que ela chegou diante do cadafalso, um dos ajudantes tirou o xale que cobria seus ombros, deixando à mostra uma medalha de prata da Imaculada Conceição. Ela fez um movimento e gritou pudicamente: "Senhor, em nome de vossa mãe, cobri meus ombros!" Tocado por seu apelo, o homem silenciosamente a atendeu. Quase em seguida ela foi fechada sobre a prancha, a lâmina caiu e sua cabeça tombou.




     Os tambores tocavam num ensurdecedor crescendo, saudando a morte de cada condenado e incitando o povo presente a gritar o costumeiro "longa vida à República". Mas, desta vez o silêncio era profundo. Nenhuma palavra foi ouvida em toda a praça quando a lâmina caiu.
     O capitão, que deveria dar o sinal, tombou desmaiado (ele vira e admirara Madame Elisabeth na Torre do Templo). Levaram-no paralisado, moribundo. Um silêncio impressionante pairou sobre a multidão estupefata. E todos os primeiros biógrafos da Princesa repetiam que um penetrante perfume de rosa se espalhou por toda praça.
     O corpo ensangüentado de Madame Elisabeth, confundido com os das outras vítimas, foi levado para um terreno reservado aos supliciados da Revolução, chamado "o recinto de Cristo", e espalharam cal viva sobre seu corpo, como haviam feito com o Rei e a Rainha. Apesar de todas as buscas, jamais se pode identificá-lo.
     O "anjo da corte" abandonou esta Terra para voar para a corte celeste. "Sua glória tão pura, disseram, está por toda parte e seu túmulo em nenhum lugar". Mas, seu nome certamente está gravado no livro eterno dos grandes vencedores.

Trad. e adap. de art. de Virginia Carmeli, publ. em CRUSADE de maio-junho 1996.