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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 17 de abril de 2015

São Dionísio (ou Dinis) de Paris, Bispo e Mártir


São Dionísio de Paris, depois de ter sua cabeça decepada, caminhou ainda seis quilômetros com ela nas mãos, pregando o Evangelho


Dos muitos mártires que a fé em Cristo já gerou ao longo dos séculos, em todos os cantos da terra, a Igreja celebra, hoje, a memória de São Dinis de Paris (Saint Denis), bispo e padroeiro da França.

São Dinis – que também se pode chamar de “Dionísio" – foi morto em meados do século III, durante o curto reinado do imperador romano Décio. Os dois anos em que ficou à frente do Império foram suficientes para que sua crueldade fosse comparada à do terrível Nero. Em pouco tempo, ele fez incontáveis vítimas no meio do clero e entre os próprios fiéis, elevando à honra dos altares nomes como Santa Ágata, São Saturnino e o próprio Papa Fabiano.

Como morreu São Dinis? Durante o seu pontificado, São Fabiano enviou à então província da Gália sete missionários cristãos, dentre eles Saturnino, mandado a Toulouse, e o próprio Dinis, que se fixou na Lutécia, onde atualmente fica a cidade de Paris. A eloquência de Dionísio logo colocou em polvorosa os sacerdotes pagãos do local, que ficaram alarmados pelas várias conversões que ele, por obra de Deus, conseguia. Um edito do imperador Décio, exigindo que todos prestassem o culto a César, tornou fácil a captura de Dinis, que se destacava por sua coragem e fidelidade. Um dia, levaram-no ao alto de um monte e cortaram a sua cabeça e as de seus fiéis companheiros, Rústico e Eleutério.

O mais incrível é que, segundo a tradição, o bispo Dionísio ainda saiu do Montmartre – “monte do mártir", como ficou conhecido o lugar – e caminhou seis quilômetros, carregando a sua cabeça e pregando um sermão sobre o arrependimento, até chegar ao lugar onde foi enterrado. A iconografia cristã geralmente o retrata segurando a sua cabeça, ainda com a mitra. Hoje, o “apóstolo da Gália" é invocado pelo povo cristão contra dores de cabeça e possessões demoníacas, além de ser homenageado como um dos primeiros pais da França.

O seu impressionante testemunho ilustra como nem depois de mortos os santos se calam. Se, nesta terra, com a sua pregação e vida, Dionísio glorificou sumamente a Deus, chegando ao heroísmo do martírio, após a sua morte, ele mesmo encorajou muitos outros homens a darem a vida por Cristo, cumprindo a profecia de Tertuliano, para quem o sangue dos mártires era semente de novos cristãos.

É importante lembrar que as ofertas dos perseguidores para que os cristãos “livrassem a sua pele” eram coisas aparentemente simples. Daniel-Rops conta que os suspeitos de seguirem a Cristo eram “conduzidos ao templo e convidados a sacrificar aos deuses ou, pelo menos, a queimar incenso na frente do altar”. Depois, caso persistisse “a acusação de cristianismo, o acusado era convidado a pronunciar uma fórmula blasfema, na qual renegava Cristo”. Por fim, celebrava-se uma refeição, “uma espécie de comunhão pagã, em que os suspeitos deviam comer carne das vítimas imoladas e beber vinho consagrado aos ídolos” [1]. Se fizessem qualquer uma dessas coisas, os cristãos se safavam e não eram mortos.

Representação da cena do milagre
Diante de uma perseguição como a impetrada por Décio, pode-se imaginar como era grande a tentação de jogar um pouquinho de incenso diante dos ídolos... Afinal, um punhado de incenso, que mal poderia haver? Mas, os santos não se improvisam. “Quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará" (Mt 16, 25). Os carrascos que olhavam para os mártires certamente pensavam em seus corações que se tratavam de loucos, assim como a modernidade comumente pinta as imagens dos primeiros mártires como “suicidas", como se fossem homens desgostosos da vida, à procura da morte. À luz do Evangelho, no entanto, a entrega dessas pessoas não era simplesmente a renúncia da vida, mas a adesão à verdadeira Vida, por amor. O “não” de Dionísio, Rústico e Eleutério à idolatria, à blasfêmia e às carnes sacrificadas pelos ídolos foi, ao mesmo tempo, um belo e glorioso “sim” a Deus, ao Seu nome e à Sua vontade.

Hoje, talvez não nos seja pedida a entrega física dos primeiros mártires, que tiveram suas cabeças, braços e pernas decepados por causa de Cristo. Mas, sem dúvida, é-nos pedida a fidelidade de cada dia, pela qual todo cristão é sempre um mártir:

“Sendo muitas as perseguições, também são numerosos os martírios. Todos os dias és testemunha de Cristo. Foste tentado pelo espírito de fornicação; mas, por temor do futuro juízo de Cristo, julgaste que não devias manchar a pureza da alma e do corpo: és mártir de Cristo. Foste tentado pelo espírito de avareza para assaltar a propriedade do teu inferior ou para violar os direitos da viúva indefesa; todavia, meditando nos preceitos divinos, preferiste prestar ajuda a praticar injustiças: és testemunha de Cristo. (...) Foste tentado pelo espírito de soberba; mas, ao ver o pobre e o necessitado, compadeceste-te piedosamente e preferiste a humildade à arrogância: és testemunha de Cristo."
“Como são numerosos todos os dias os mártires ocultos de Cristo, os que confessam o Senhor Jesus! O Apóstolo conheceu este martírio e este fiel testemunho, ao dizer: É esta a nossa glória e o testemunho da nossa consciência." [2]
Com os santos, aprendemos que “quem começa a servir verdadeiramente o Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a própria vida”, como ensinava Santa Teresa de Ávila. Peçamos a intercessão de São Dionísio, para que nos ajude a sermos testemunhas de Cristo onde for: senão no alto dos montes, nas arenas dos leões ou no madeiro das cruzes, em nossas casas, em nossas escolas e em nossos trabalhos.

São Dionísio, mártir, rogai por nós!

1.    Henri Daniel-Rops. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014.p. 360

2.    Santo Ambrósio, Sermo 20, 47-50: CSEL 62, 467-469



Catedral Basílica de São Dinis em Paris. 

Detalhes do padroeiro no pórtico da Catedral

Interior da magnífica Catedral de Paris

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Beata Isabel Vendramini, Virgem e Fundadora (Instituto das Irmãs Terciárias Franciscanas "Isabelinas" ou "Isabelas").



 Isabel Vendramini, filha de Francisco Vendramini e Antônia Ângela Duodo, nasceu em Bassano del Grappa no dia 9 de outubro de 1790. Desde menina, como ela mesma escrive de si, foi presenteada com as mais seletas bênçãos. A Primeira Comunhão e a Confirmação foram etapas decisivas em sua vida. Por algum tempo foi aluna das Irmãs Agostinianas, que a formaram em seu itinerário espiritual.
   Jovem brilhante, ela gostava de se vestir bem e era centro de interesse. Era amante da solidão e com frequência se retirava no campo para rezar. Depois de seis anos de noivado, às vésperas das bodas, o Senhor a fez ver com clareza que a chamava, o que para ela foi uma verdadeira conversão.
     Consagrada ao Senhor pelas vias de São Francisco, de uma fé ativa e consciente, empreendedora segundo o Evangelho a serviço dos mais pobres num programa de vida tendo Cristo como centro, encontramos em seus escritos as etapas do itinerário da elevada espiritualidade seráfica e apostólica.
     Em 17 de setembro de 1817, festa dos Estigmas de São Francisco, percebeu claramente que era chamada a uma vida de consagração. Desde então com alegria começou a levar uma vida de austera penitência e caridade. Assistia aos doentes e se dedicava inteiramente à educação das jovens de um orfanato. Em 1821 se tornou terceira franciscana. O Senhor a guiava para caminhos mais elevados.
     Em 1º de janeiro de 1827, deixou Bassano e se mudou para Pádua. Três dias depois foi contratada pela “Casa dos Expostos” para a formação das jovens. Ali se encontrou com Dom Luigi Moran, que se tornou seu diretor espiritual e colaborador na fundação que Isabel pretendia levar a cabo. Madura na experiência educativa, de apostolado, de graças e de carismas, em 04 de outubro de 1830 teve início a nova congregação das primeiras Irmãs Terceiras Franciscanas Isabelinas, com a vestição e a profissão religiosa no ano seguinte.
    Deus abençoou esta instituição e o número de religiosas cresceu; receberam uma sólida formação sob a direção inspirada da Madre Isabel Vendramini.
     Em 1834 foram chamadas à “Casa das Indústrias”. Em 1836 foram encarregadas da instrução das meninas órfãs, hóspedes do colégio do Beato Peregrino. Mais tarde foram chamadas para a assistência dos idosos nas casas de repouso e para os doentes em casas de saúde e hospitais. Nos anos de epidemia de cólera, Isabel e suas "isabelinas" se prodigaram com heroica dedicação na assistência dos enfermos.
     O desenvolvimento do instituto se dava sob a vigilante e maternal direção da Madre. Por 32 anos ela foi a Superiora amada e venerada de sua congregação, à qual ela deu a fisionomia franciscana e o ímpeto caritativo e missionário que hoje conta com 1.500 religiosas na Europa, África, Oriente Médio e América Latina.
     A Fundadora faleceu antes da aprovação de sua obra. Cheia de mérito e virtudes expirou no dia 02 de abril de 1860 aos 70 anos. Seu túmulo desapareceu depois de 1872, durante os trabalhos de reestruturação do cemitério de Pádua. São João Paulo II a beatificou em 04 de novembro de 1990.


Fontes: es.catholic.net/op/.../isabel-vendramini-beata.html ; www.santiebeati.it

terça-feira, 14 de abril de 2015

SÃO MIGUEL DOS SANTOS, Presbítero da Ordem da Santíssima Trindade ou Trinitários.


São Miguel dos Santos, pertencente à Ordem Trinitária e apelidado de o “estático” por causa dos frequentíssimos arrebatamentos aos quais estava sujeito.

Miguel Argimir Mitjana nasceu no dia 29 de setembro de 1591 em Vich, na Catalunha (Espanha), era o sétimo dos oito filhos que Henrique Argemir teve de Margarida Montserrat, ambos de nobre origem, mas decaídos da primitiva grandeza. À fonte batismal lhe foi imposto o nome de Miguel.

O pai, tabelião e conselheiro da municipalidade, antes de se dedicar ao seu trabalho ia para escutar toda manhã a Missa com os filhos mais crescidos e à noite recitava diariamente em casa, com os criados e os familiares, o Santo Rosário. Também liam os Evangelhos e aos sábados rezavam as Vésperas na catedral.

Miguel, dotado de excelente índole e de precoce inteligência, aprendeu dos pais a elevar cedo a mente e o coração a Deus, a obedecer também ao preceptor, a ser paciente com os irmãos, serviçal com os companheiros e caridoso com os infelizes.

Desde criança o santo demonstrou um invencível horror ao pecado e um vivo desejo de vida penitente. Divertia-se construindo altarzinhos, cantando louvores sagrados ou repetindo as cerimônias litúrgicas que tinha visto realizar-se na igreja. Passava longo tempo do dia no oratório doméstico aonde conduzia outros menininhos aos quais recomendava serem bons e obedientes.

Mais de uma vez foi surpreendido chorando, enquanto beijava o crucifixo, agachado num cantinho solitário. À leitura da vida dos santos anacoretas, teve a ideia de se retirar para fazer vida eremítica na gruta de Montseni, nos arredores da cidade, junto com alguns companheiros afervorados por seu zelo. O pai, naturalmente, se opôs. Permitiu-lhe somente observar o jejum quaresmal três vezes por semana, e de distribuir aos pobres quanto subtraía às refeições. Miguel adaptou também às suas costas uma cruz de madeira e começou a passar a noite acomodado, com frequência, sobre uns sarmentos com uma pedra abaixo da cabeça. Açoitava-se com correias, e um dia, enquanto os seus familiares vindimavam, avançou num bosque para revolutear-se numa sarça de espinhos pela irresistível necessidade que sentia em sofrer “por amor a Jesus e à imitação de São Francisco”.

O desejo de levar uma vida retirada e crucificada induziu Miguel a bater às portas dos conventos de Vich. Foi por todos rejeitado por causa da tenra idade. O que fazer? Decidiu emitir, apesar de ter somente nove anos, o voto de virgindade, na igreja das Dominicanas de Santa Clara. Mereceu, com tal gesto, ser livrado por toda a vida das tentações de impureza.

Aos quatro anos Miguel tinha ficado órfão de mãe; aos onze ficou órfão também de pai. O tutor lhe fez interromper os estudos para empregá-lo como garçom num comércio. Tanto ele como seus irmãos não queriam que abraçasse a vida religiosa porque, para eles, não convinha ao decoro da estirpe. Guiado pelo Espírito Santo, em 1603 fugiu para Barcelona a pé, com a esperança que o Senhor teria guiado os seus passos. Às portas da cidade uma pobre mulher teve compaixão dele e ofereceu-lhe hospitalidade. No dia seguinte foi para escutar a Missa na igreja mais perto, que era a dos Trinitários. Enquanto rezava, Deus lhe fez compreender que o queria entre aqueles religiosos. No começo foi acolhido como coroinha. Vestiu o uniforme branco dos Trinitários somente no mês de agosto de 1604.

Desde aquele dia Miguel fez consistir a essência da vida religiosa não apenas nos jejuns, nos cilícios e nas vigílias, como na abnegação da própria vontade. Durante o noviciado era tão virtuoso que foi apontado como modelo também aos religiosos mais velhos. Ao toque de levantar da meia noite para rezar as Matutinas foi sempre encontrado desperto. Diz a tradição que uma noite apareceu-lhe Nossa Senhora e ofereceu-lhe um lírio. Encontrava o seu prazer em servir o maior número possível de Missas. No altar parecia um serafim e após a comunhão permanecia absorto. Às vezes, transbordando de alegria, passava a correr pelo jardim, exclamando: “É tão violento o ardor interno, que se não lhe abrisse uma saída, ficaria queimado”.

Pela vivacidade da inteligência e a dedicação ao estudo, Miguel, bem antes de emitir a profissão, foi enviado para o convento de São Lamberto, nos arredores de Zaragoza, para que frequentasse aquela célebre universidade. No século XVI, sob o influxo do Concílio de Trento, também a Ordem dos Trinitários tinha sido reformada pela obra de São João Batista da Conceição (1561-1613) com a aprovação do papa Clemente VIII.

Depois da profissão religiosa (1607), frei Miguel, sedento de perfeita abnegação e de rígida penitência, pediu para passar à estreita observância. Tendo-lhe sido concedido aquele favor, dirigiu-se a pé, no inverno, a Pamplona, para vestir em Oteiza (1608), nos arredores da capital de Navarra, o tosco saio dos Trinitários Descalços. Após alguns dias foi enviado a Madri para o ano de noviciado. Em Alcalá emitiu a profissão religiosa e em La Solana aperfeiçoou-se nos conselhos evangélicos através de um segundo tirocínio exigido pelas Constituições.

Foi então que Deus começou a favorecer o seu servo com dons extraordinários. Um dia, enquanto encontrava-se com os seus confrades em recreio fora do convento e discutia com eles sobre o paraíso, de repente deu um grito, voou como uma flecha sobre uma plantação de cevada e foi pousar-se perante o tabernáculo, onde permaneceu longamente extasiado.

Desde aquele dia os gritos improvisos, os arrebatamentos e os êxtases repetiram-se frequentemente na igreja, no refeitório, pela estrada, apesar da formal proibição dos superiores para não perturbar o sossego do convento. Para fazê-lo sair dos sentidos era suficiente falar-lhe da Santíssima Trindade, da Eucaristia, da Paixão do Senhor, da Santíssima Virgem. Uma quinta-feira santa, depois de ter elevado os olhos para um grande crucifixo fora do refeitório, deu um grande grito e arremessou-se para abraçá-lo.
Não sempre conseguia subtrair-se àqueles impulsos do Espírito Santo, e então arrastava consigo o objeto ou o confrade ao qual se agarrava. O seu Ministro Provincial, frei Francisco de Santana, o enviou a Sevilha para ter com o Padre Hernando Mata, experto mestre de espírito, para que o examinasse. O piedoso sacerdote declarou não ter conhecido em sua vida alma mais cândida e mais inflamada de amor divino como frei Miguel dos Santos. Confirmando tal opinião, exatamente naquele tempo Jesus concedeu ao seu servo fiel, absorto em oração, o singularíssimo privilégio da substituição do coração com o seu.

No mês de outubro de 1611, frei Miguel foi enviado a Baeza para estudar filosofia e, após três anos, à Universidade de Salamanca para estudar teologia. Certo dia, enquanto um sacerdote agostiniano entremostrava, na sala de aula, a gratidão devida ao Sangue Preciosíssimo de Jesus pelos homens, o santo lançou-se ao alto e permaneceu uns vinte minutos suspendido sobre as cabeças dos alunos com os braços abertos e os olhos dirigidos ao céu. Por isso, acorria continuamente ao convento pessoas ávidas de consultar o santo estudante.

Durante o carnaval, para impedir tantos escândalos, concebeu um projeto audaz. Junto com seus confrades vestidos como penitentes, flagelando-se sem piedade, tendo nas mãos uma caveira e na cabeça uma coroa de espinhos, dirigiu-se à praça pública, em meio ao estupor das pessoas.  Um pregador subiu, então, sobre um banco para lembrar aos gozadores da vida a vaidade dos prazeres mundanos. De repente, frei Miguel deu um formidável grito, levantou voo até o crucifixo que encabeçava o cortejo e, por quinze minutos, permaneceu suspendido no ar, em êxtase.  É inútil dizer que, a tal prodígio, o festim carnavalesco mudou-se em uma procissão de penitência.

Concluídos os estudos, frei Miguel foi ordenado sacerdote em Faro (Portugal) em 1615. Havia desejado tanto aquele dia porque lhe permitia receber cotidianamente Jesus Sacramentado. Para exercer o sagrado ministério foi enviado a Baeza. Em 1622 foi nomeado ministro do convento de Valladolid, não obstante que se reputasse indigno e incapaz. Frei Miguel foi um religioso perfeito. Sobretudo a sua obediência aos superiores foi sempre pronta, alegre e sem reservas também quando lhe proibiam entrar em êxtase ou lhe mandavam alimentar-se como todos os outros, preocupados com sua saúde.

O Senhor, que não o queria naquele caminho, permitiu que piorasse realmente, motivo pelo qual, após continuadas provas, os superiores permitiram-no continuar alimentando-se com um pouco de pão, com alguns cachos de uva seca ou com um bocado de salada somente a cada três dias. Às vezes chegou a prolongar o jejum absoluto até duas semanas. Não saboreou outra bebida a não ser água. Passava até semanas inteiras sem beber. A língua se lhe transformava, então, numa espécie de sobreiro, mas, ao invés de matar a sede, frei Miguel era capaz de ir até o chafariz somente para aumentar o espasmo da sede ao contemplar a água fresca. A quem o exortava para se nutrir, respondia brincando: “O meu cozinheiro é Deus”.

Amantíssimo da pobreza evangélica, frei Miguel considerou-se feliz mesmo quando lhe faltou o necessário. Pode-se dizer que nada possuía, nada desejou, nada usou como próprio. Por diversos anos repousava um pouco no sótão do convento e somente nos últimos anos aceitou, por obediência, um cobertor consumpto. Tinha à disposição só um hábito, deixado de lado pelos outros religiosos e remendado por si mesmo. Jamais se conseguiu fazer-lhe vestir hábitos novos, apesar de que lhos oferecessem para ganhar e guardar aquele por ele usado.

Em sua incomparável humildade frei Miguel dizia que era capaz somente de rezar. Pelo contrário, quando foi eleito Ministro do Convento de Valladolid, deu prova de grande habilidade ao afrontar a construção de uma nova igreja sem recursos. Aos seus religiosos a obra pareceu insensata, mas ele os tranquilizou dizendo: “Se formos bons, mesmo se trancarmos a porta, o Senhor nos lançará o necessário pelos muros da horta”.

Inflexível ao exigir a observância das regras, sabia, porém, torná-la amável e jubilosa, como sacrifício feito a Deus, sem considerações humanas. O único escopo de sua vida foi de conformar-se à vontade d’Ele “querendo – dizia – não somente aquilo que Deus quer, mas aquilo que Deus quer que eu queira”. Tinha assim alcançado tal união com a Santíssima Trindade que não sabia se comia, se bebia, se dormia ou se caminhava.

Interrogado pelo Ministro Provincial sobre quantas horas por dia dedicava à oração, respondeu com simplicidade: “Eu rezo sempre”. De noite descansava apenas duas horas no chão, agachado sobre um banquinho com o rosto entre as mãos. “O meu bom Deus – dizia – me acorrenta e não me deixa dormir”. Habitualmente a sua Missa durava duas horas, por causa dos frequentes arrebatamentos aos quais estava sujeito. Todavia a igreja estava sempre muito cheia de fiéis.

Uma vez, à elevação do cálice, permaneceu elevado no ar por quase meia hora, e outra vez, tendo permanecido com os braços abertos em forma de cruz, não se deu conta que a chama de uma vela queimava-lhe a mão direita. Mais de uma vez foi visto emanar da sua pessoa um celestial esplendor e fulgurar-lhe ao redor da cabeça uma auréola de glória que deslumbrava a vista. O incêndio espiritual do amor divino se refletia no corpo com tal calor que não conseguia controlar-se. Um dia, enquanto discutia com o pároco de Marmel sobre o mistério da Santíssima Trindade, onde tinha ido para pregar, do seu peito jorrou algo como um vulcão de chamas resplandecentes. Admirado, o pároco quis abraçá-lo, mas caiu desmaiado por terra pela grandeza do calor e do fulgor daquela chama.

O apostolado de frei Miguel não se limitou à oração pelos pecadores, à penitência rigorosa, às conversações particulares ou ao ministério das confissões, mas se afirmou vigorosamente também no púlpito. Aos fiéis falava, sobretudo, do amor de Deus aos homens e do mistério da Eucaristia, sem cair nas pomposidades de seu tempo histórico. Para salvar até mesmo uma só alma estava disponível a tolerar infinitas labutas. Os contínuos êxtases, que o surpreendiam bem no meio das pregações, turbavam-lhe as alegrias procuradas por tal apostolado. De vez em quanto protestava: “Se desta vez me acontecer a mesma ‘desgraça’, não subirei jamais ao púlpito”. Todavia, a cada convite, era incapaz de resistir à manifesta vontade de Deus para o bem do povo.

Nobres e plebeus, ricos e pobres, eclesiásticos e seculares, acorriam a ele como a um oráculo para todas as suas necessidades, sem jamais ficar desiludidos, pois Deus tinha concedido a frei Miguel o dom de perscrutar os corações, de predizer eventos distantes e futuros, de sarar os enfermos com a simples imposição das mãos, com um sinal de cruz ou com a leitura de um trecho do Evangelho. Porém, não obstante tudo isso, o santo considerava-se “um miserável, um ingrato, uma terra estéril, incapaz de fazer frutificar os dons recebidos do céu”. Era-lhe, portanto, de grande confusão ouvir-se chamar por todos “o santo”, ver as pessoas ajoelhar-se diante dele e procurar beijar-lhe a ponta do hábito.

Enquanto era pároco em Baeza, em uma conversação entre amigos sobre a morte inexorável e a felicidade do céu, frei Miguel tinha exclamado improvisamente: “O Senhor na sua infinita misericórdia me fez conhecer que preciso trabalhar e pregar muito, até os trinta e três anos; então me chamará a si quando eu for Ministro do Convento de Valladolid”.

Ao aproximar-se do tempo de sua morte, confirmou a penitentes e a confrades que morreria à idade do Senhor. Na segunda-feira de Páscoa de 1625 foi, de fato, constrangido a ficar de cama por causa de uma febre violenta que o pegou no momento em que pregava. Viveu ainda dez dias em uma contínua oração.

A quem lhe perguntou quais graças desejava alcançar, respondeu: “Peço ao Senhor sobretudo para sofrer os tormentos e as penas que os mártires e os santos sofreram e sofrerão até o fim do mundo, e depois que se forme uma só chama de amor do qual ardem os beatos e os espíritos celestes e me consome o coração”. Um confrade lhe perguntou se temia a morte. Respondeu-lhe: “Perturba-me somente o pensamento de morrer em um lugar onde se tem muita estima de mim, que sou um miserável”.

Faleceu no dia 10 de abril de 1625, após ter beijado o crucifixo e exclamado, levantando os olhos ao céu: “Creio em Deus, espero em Deus, amo Deus!”. Logo que se espalhou a notícia de seu falecimento, uma enorme multidão amontoou-se perante a porta do convento gritando: “Queremos ver o santo”.

Foram assim numerosos aqueles que desejavam ter um pedacinho do saio do defunto como relíquia, que seus confrades precisaram revesti-lo com outro saio por até três vezes. Pouco depois do enterro de frei Miguel foram verificados cinquenta milagres, recebidos de Deus, por sua intercessão, pelos devotos.

Pio VI o beatificou em 02 de maio de 1779 e Pio IX o canonizou no dia 8 de junho de 1862. João XXIII o nomeou padroeiro da cidade em que nasceu, VICH. As relíquias de São Miguel dos Santos, padroeiro da juventude trinitária, são veneradas em Valladolid, na paróquia de São Nicolau.


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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Servo de Deus Antoninho da Rocha Marmo, Leigo e Adolescente. Conhecido pelo povo como "Santo Antoninho"




No fim da Grande Guerra e em plena "gripe espanhola", nascia, nesta Capital, uma criança privilegiada: com seis meses de idade apenas, já acenava para entrar nas igrejas por onde passava; predisse a solução da velha pendencia entre o Vaticano e o Quirinal; seu passatempo predileto era "celebrar missas", no quintal, num altarzinho portátil. Atacado de agressiva tuberculose, sucumbiu aos 12 anos. Sempre protegeu os pobres e os humildes. Conformou-se estoicamente com a breve morte irremediável.
São Paulo possui também o seu "santinho". Um "santinho" que caiu do céu e veio satisfazer a alma popular, que, há muito, não via santos sobre a terra...
É bem comovedora e merece, por isso mesmo, maior divulgação a encantadora historia diferente dessa criança predestinada que foi Antônio da Rocha Marmo, consagrado pela devoção do povo como o "santo Antoninho".
Esse suave e exemplar menino paulista, que sobrevoou a terra, durante apenas 12 anos, arrebatado, na flor da idade, por insidiosa enfermidade, trouxe consigo, desde o berço, a aureola da santidade e da espiritual beleza.
Era um pequenino com qualquer coisa de sobrenatural. Uma criaturinha com algo de extraordinário. Foi portador de doce mensagem divina endereçada aos homens esfaimados e egoístas da geração que passa. Veio com uma missão de Deus perante esta humanidade trágica que se suicida na guerra e tinge as mãos de sangue na cobiça insaciável das coisas materiais. Mas não teve tempo de realizar a sua missão celestial, porque os outros anjos seus irmãos vieram buscá-lo, com medo de que ele, tão pequenino e tão puro, se contaminasse com as peçonhas da terra.
Seu lugar era no céu. E para lá retornou. E lá se encontra na mansão dos justos, gozando as primícias da presença de Deus, enquanto o halo da sua glorificação ainda inebria a pobre humanidade sofredora, que busca lenitivo, alongando os olhos para os céus, numa prece angustiada, bradando por um bocadinho de felicidade...


O NASCIMENTO
Foram seus virtuosos progenitores Pamphilo Marmo e D. Maria Isabel da Rocha Marmo. Desse consórcio feliz e abençoado vieram ao mundo Maria da Penha, Nair, Ciro, Antônio e Wanda.
Antes de vir ao mundo o nosso menino, apareceu em casa de seus pais, sem que ninguém o chamasse, um clínico de alto renome, porém desconhecido da família, oferecendo seus valiosos préstimos em ocasião tão oportuna quão necessária.
Assim veio ele a luz numa época em que a dor e a tristeza cobriam de luto inúmeros lares. Seus pais, tomados de justa apreensão pela constituição física e, tendo no seio da família um de seus membros gravemente enfermo, contaminado pela gripe pneumônica, viram, por favor celeste, o seu restabelecimento e os demais, incólumes da terrível epidemia.
Grande fora a angústia de todos, pois o doente já havia sido desenganado pelos médicos e assim esperava-se um fatal desenlace. Entre os amigos do enfermo, correra por equívoco, a notícia do seu falecimento e muitos se apressaram por isso a enviar a família telegramas de condolências e até coroas.
Gozando depois de invejável saúde, recordou daqueles dias apreensivos e também das palavras de incitamento à gratidão para com Deus, proferidas mais tarde por Antoninho, que assim queria explicar-lhe ter ele sido naquela ocasião favorecido pelos céus.

O BATISMO
Levando a “renascer de novo” pelas águas lustrais e divinas do Santo Batismo, seus pais mostravam-se conhecedores de que a vida natura é uma existência envenenada na sua fonte, marcada pelo pecado original, em si estéril para o céu.
Antoninho ia pois renascer, recebendo uma vida superior, que sem destruir a vida natural no que possui de bom, iria ultrapassá-la, elevá-la, edificá-la.
Pela vez primeira saiu Antoninho do berço para o templo de Deus, a fim de receber a água que regenera a alma pela virtude do Espírito Santo. Acompanhado de seus padrinhos Dr. Oscar Tollens e D. Augustinha Tollens, pais, irmão e pessoas amigas, foi conduzido à Matriz de Santo Antonio do Pary, seu patrono, sendo-lhe administrado o Santo Batismo, e recebendo, então, o nome de Antonio: grande taumaturgo da Igreja de quem mais tarde deveria imitar as heroicas virtudes, consagrando-lhe sincera a acendrada devoção.
Este foi o primeiro passo para a sua santidade, que deveria culminar aos 12 anos apenas, correndo assim como gigante no caminho da perfeição. Da pia batismal saiu ele purificado do pecado, regenerado pela água fecundada pelo Espírito Santo, com a alma ornada pela graça: “Morrer para o pecado e viver em Jesus Cristo”.
Foi justamente esse o lema do nosso santo menino: abominando terminantemente o pecado, sentiu no âmago de sua alma toda a ofensa a Deus, o que deparamos a cada passo em sua vida, não só pelo exemplo, que a todos edificava, como pelas palavras que proferia: aconselhando, excitando em todos repulsão mortal ao pecado. Comprazia-se ele ao contrário, por tudo quanto se referisse à virtude e concitava todos a que possuíssem a alma branca como que repetindo as palavras do Apóstolo: Todos vós que fostes batizados em Cristo, estais revestidos de Cristo.
Lançada a base do edifício espiritual, Antoninho cercado de todos os desvelos e carinhos, não só por parte de seus virtuosos pais, como também pelos devotados irmãos e parentes. Segundo os insondáveis desígnios do senhor, começou ele sua vida para o céu, dando-nos exemplos de acrisoladas virtudes, glorificando a Deus nosso senhor pela graça que já se operava em seu coração, provando o quanto pode o amor de Deus na alma de seus eleitos.
Assim, passaram-se os primeiros meses de sua vida amparado sempre pelos desvelos maternos.
Notando em Antoninho qualquer coisa de atraente o sobrenatural, o que se justificava pela afeição singular que todos lhe tributavam, parentes e amigos, seu pai começou a chamá-lo de “santo filhinho” deixando de fazê-lo, instintivamente, logo após a manifestação da moléstia que o deveria arrebatar.

OS PRIMEIRO PASSOS
Fora ele entregue aos cuidados de uma ama, que o levava a passear assiduamente, aproveitando o ar puro da manha, tão necessário à sua constituição franzina.
Quando sucedia passarem por uma igreja, o pequerrucho não se continha nos braços da ama: olhava firme para o templo e, gesticulando os bracinhos, forçava-a entrar.
Já no interior, compenetrava-se: olhos fitos no tabernáculo, realizando-se então, em sua alma, qualquer coisa de extraordinário: transfigurava-se, ele, que ainda não sabia pronunciar uma palavra sequer.
Sabemos, que nem todos os templos possuem a capela do SS. Sacramento conservando-se as espécies sagradas no Altar Mor. Quando, porém, Antoninho entrava numa igreja enriquecida com a capela do Santíssimo, sabia perfeitamente, apenas com seis meses de idade, procurar o seu Jesus! A ama, julgando distraí-lo, mostrava-lhe as imagens dos altares. Contudo, via-se obrigado a aproximar-se da capela do Santíssimo Sacramento, levada pelos anseios do menino, que enlevado, olhando para o tabernáculo numa alegria encantadora, parecia um serafim a receber os eflúvios e as carícias de Jesus, todo seu amor!
Em suas visitas ao convento da luz e igreja de Maria Auxiliadora, por ocasião da Benção do Santíssimo, assistia compenetrado à cerimônia e levantando também a mãozinha abençoava os assistentes, o que chamava a atenção dos circunstantes.
Seus pais, que de há muito notavam algo de estranho no pequeno, sentiam uma profunda tristeza, levados pela impressão de que ele não seria por muito tempo deste mundo: lírio de puríssima alvura, não poderia vicejar no paul impuro da terra. Antoninho era uma criança dotada de grande acuidade. Possuía feliz inteligência, memória extraordinária e um forte poder de observação aliado à lógica, que chamava a atenção. No dia de seu primeiro aniversário natalício, seus pais entronizaram solenemente e com grande júbilo de todos, a imagem do Sagrado Coração de Jesus, afim de que reinando no lar, velasse pela família que se fazia sua humilde serva.
O menino, grandemente estimado pela vizinhança, foi com o decorrer dos anos, conquistando com o coração de todos pela candura e afabilidade do seu trato. Em casa, era ele quem recebia as visitas e o fazia de tal modo e com tanta simplicidade, educação e respeito, que não parecia uma criança. Palestrando, era loquaz, não se lhe notando a menor leviandade, mas, ao contrário, observava-se em todos os seus atos muita seriedade, aliada à jovialidade tão natural quão sincera, o que cativava a todos, indistintamente.


PROMESSA CUMPRIDA
Antoninho da Rocha Marmo era um crente. Fazia promessas e sabia cumpri-las. Certa vez, chegando o padeiro, Antoninho recebeu-o como de costume. Gostava muito de conversar e ensinar aos humildes os princípios da fé. O padeiro era um de seus ouvintes cotidianos e que muito o estimava. Quando ele vinha, Antoninho subia na boleia da carrocinha e ficava ali, até que ele voltasse para depois darem um pequeno passeio pelas proximidades. Numa dessas ocasiões, ia acontecer um grave desastre.
Não se sabe como, provavelmente só saberemos quando subirmos e pudermos conversar com o nosso pequeno, mas o fato é que, o cavalo se espanta, não sabemos com o que, e sai em desabalada carreira pela ladeira abaixo. O padeiro não conseguiria de jeito nenhum alcançar a carroça, a carroça que rodava sempre com o nosso pequeno Antoninho.
De súbito, como que por encanto o animal estaca imediatamente, sob os olhares atônitos de todos que já contavam com uma inevitável desgraça.
Em agradecimento a Deus pelo claro milagre que se realizara, Antoninho prometerá à Santa Cruz ascender 22 velas pela graça alcançada. Mal sabiam todos que esse número devia assinalar o dia de seu sepultamento!
Esse fato deu-se em Santana, sendo a Santa Cruz local a receptora dessa homenagem.


A PRIMEIRA MISSA
Por ocasião da primeira missa de um neossacerdote, a família de Antoninho da Rocha Marmo fora convidada para assisti-la, pois o novo levita, quando menino, recebera do pai de Antoninho palavras de estímulo à sua incipiente vocação. No dia solene da Missa, Antoninho madrugou, acordando toda a família. Sua mãe fez-lhe ver que era muito cedo ainda. Ele não se deu por vencido, só ficando satisfeito quando todos se puseram de pé para irem à matriz de Sant’Ana. Uma vez no templo, esperou pela hora solene.
Terminada a Missa, sentou-se o novo levita para a cerimônia do beija-mão. Recorda-se ainda ele, que a todos relata comovido, o seguinte fato: Antoninho de joelhos, tomou-lhe as mãos, beijando-as e não satisfeito ainda, atira-se ao colo abraçando-o demoradamente, sendo preciso que sua mãe lhe advertisse, dizendo:
– Você assim amarrota os paramentos do Padre...
O sacerdote acrescenta que sentiu nessa ocasião, qualquer coisa inexplicável, a ponto de chegar a chorar. Esse fato que acabou comovendo a todos, é comentado até os dias atuais. O maior desejo de Antoninho era ser padre, para viver, como ele dizia, ao lado de Jesus e na maior intimidade. Queria trabalhar na seara do Senhor, cheio de fé, leal e desassombradamente. Perguntaram-lhe certa vez em que ordem religiosa queria professar. Ele levado pelo zelo na salvação das almas, respondeu que desejava pertencer ao clero secular, porque os sacerdotes, no seio do povo, possuem campo vastíssimo para um maior apostolado.
O sofrimento indispensável que sempre os acompanha nas lutas do ministério, era ardentemente desejado por Antoninho.
Desse-lhe um dia uma pessoa da sua família:
– Antoninho, se você for vigário terá que ir para longe de nós.
Ele prontamente respondeu :
– Não faz mal, nesse caso irão todos comigo.


AMIGO DO SANTO PADRE
Antoninho da Rocha Marmo tinha uma devoção particular pelo sumo Pontífice. Era de se estranhar que uma criança pudesse compreender a sublime e alcançadora significação sintetizada no solene : UBI PETRUS IBI ECCLESIA !
Ao Papa, dedicava ele também um grande afeto que se traduzia sempre numa alegria espontânea, toda vez que ouvia a prolação do seu nome. Ao se referirem ao Pontífice da época, Pio XI, gloriosamente reinante, Antoninho da Rocha Marmo como que transfigurava. Lia-se-lhe no olhar qualquer coisa que demonstrava seu grande interesse e depois num sorriso próprio das almas eleitas, repetia com unção: o Papa! Sabia ele ser o Papa o fundamento de um edifício moral: a Igreja; o Pastor que apascenta a Igreja do Senhor; o Piloto incumbido de dirigir a Barca de S. Pedro no oceano proceloso da vida! É o nosso Pai, dizia! Entusiasmava-se em suas práticas às crianças, que comumente reunia em sua casa para lhes ensinar o catecismo. Discorria sobre a igreja de Cristo e seu Pastor, o Papa! Repetia com ênfase ao seu auditório: “E JESUS falou a São Pedro e a ele só : Eu te darei as chaves do reino dos céus e tudo quanto ligares na terra, será ligado nos céus e tudo quanto desligares na terra, será desligado nos céus: Assim a Igreja com o Papa nos ensinam a verdade que devemos professar”.
O Papa é guiado e assistido pelo Divino Espírito Santo! E o nosso pregador arrebatava-se em frases concisas, repassadas de ternura, revelando-se um amigo sincero e leal, transformando-se num admirador do Santo Padre, pelos sentimentos filiais que a miúde externava.
Certa vez manifestara-se sobre a questão romana, solucionada definitivamente a 11 de fevereiro de 1929! Havia já 58 anos que o chefe da Cristandade se condenara voluntariamente prisioneiro no Vaticano, como protesto ao esbulho de que fora vítima o Pontificado Romano. Até então, nenhuma voz se levantara em favor da Sé Apostólica, humilhada pelas forças garibaldinas. O ambiente social e político e o cuidado dos Pontífices Romanos em salvaguardar o secular prestígio da Igreja faziam prever que a situação não se modificaria tão cedo. Toda a hipótese de se encontrar um MODUS VIVENDI que viesse preservar o direito da Santa Sé e os interesses da Itália, era afastada como ilógica e irrealizável! A injustiça levada a efeito pelo governo italiano que se instalara em Roma a 2 de julho de 1871, não só clamava aos céus, como era um axioma que transformara a vitória garibaldina numa mancha indelével.
Mussolini, sentindo pesar sobre sua pátria essa mácula como sinal de maldição e, levado pelos mais nobres sentimentos de pundonor racial e de justiça, envidava todos os esforços para ver resolvida decisivamente a magna pendência. Antoninho, que frequentava a Santa Casa de Misericórdia, não só pela amizade que tributava às religiosas da benemérita Congregação de São José, como para sujeitar-se a sérios tratamentos clínicos, ouvira certa vez a Irmã Maria Vicentina que, conversando com sua mãe sobre o Papa, recordava a sua longa e injusta prisão. Antoninho, que acompanhava atento toda a conversa, não se contendo, disse a Irmã “Mas isso não pode continuar assim. A senhora verá que logo o Papa não será mais prisioneiro. Que não se afligisse, por quanto o Papa seria solto”.
A religiosa voltando-se para o menino sorriu ao ver seu entusiasmo e interesse por uma questão que sua inteligência não poderia ainda alcançar e acrescentou: “Reze, Antoninho, reze muito, pelo Papa!” Essa passagem deu-se no ano de 1924, tendo Antoninho 06 anos de idade, e, todavia, não se debatia ainda a Questão Romana.
A 11 de fevereiro de 1929, dias depois da estada de Antoninho da Rocha Marmo no hospital de S. José dos Campos, os jornais publicavam ter sido resolvida, definitivamente, a tão delicada questão, que desafiara as inteligências dos estadistas mais notáveis. Operara-se o portento, extasiando o mundo inteiro e enchendo de alegria o coração da Cristandade. A fórmula encontrada por Mussolini e pelo virtuoso quão sábio Cardeal Pedro Gasparri, Secretário de Estado do Vaticano, de saudosa memória, vinha elevar, ainda mais, a Igreja de Deus, no esplendor de sua justa glória, por esse belo triunfo! Antoninho participou das alegrias da família e embora não soubesse ler, recortou de um jornal a sensacional notícia, enviando-a a religiosa para comprovar suas previsões.
Respeitava profundamente os bispos e sacerdotes. Ao ver um padre alegrava-se e, em seguida, pedia-lhe a benção, o que fazia com veneração edificante! Conversava com os padres na maior intimidade atendendo-os em todos os seus conselhos. Os sacerdotes que tiveram a felicidade de conhecê-lo, guardam ainda no espírito a impressão profunda daquela criança que já sabia discorrer sobre assuntos religiosos com tanta proficiência!
Antoninho da Rocha Marmo, magoava-se quando alguém, imprudentemente, procurava ferir a reputação dos sacerdotes. Defendia-os então, com todo o ardor de sua alma infantil. Certa vez, queixara-se amargamente à sua mãe, de pessoas sem escrúpulos que visaram, com palavras desrespeitosas, a reputação de um Vigário. Antoninho, apenas viu o padre em questão, disse-lhe que em breve seria removido pelo Ordinário e convidou-o a ir à sua casa. Pela conversa, o pároco compreendeu logo que estava diante de uma criança invulgar e deixou, com isso, muito comovido, a casa de Antoninho. Passados alguns dias, realizava-se o prognóstico: o senhor Bispo Diocesano, removia o dito padre.

AMIGO E PROTETOR DOS HUMILDES
O garoto tinha, na verdade, coisas excepcionais, próprias de gente grande. Antoninho era um menino diferente dos outros. Um menino prodígio.
Doente gravemente, viu-se obrigado a procurar o clima ameno de S. José dos Campos e de Campos de Jordão, a fim de tentar a cura de uma tuberculose que se apossara valentemente do seu débil corpo. Enfraquecera-se, a principio, sob violenta erupção de sarampo. Depois veio aquela enfermidade insidiosa, para que se tornaram vãos todos os apelos à medicina. Ele mesmo previra que os maiores esforços resultariam inúteis.
Mesmo atormentado pelos dolorosos sofrimentos, jamais esquecia os humildes. Um dia, em Campos de Jordão, soube que fora detido um pobre homem, surpreendido com o porte irregular de um revolver, achado no mato. Antoninho interessou-se pelo caso. Demandou à Delegacia, a fim de falar ao Delegado que era, então, o Dr. Caio Machado Leite Sampaio. Não o encontrou. Falou ao carcereiro. Pediu-lhe que transmitisse por favor à autoridade a sua solicitação: "Diga ao delegado assim que chegar que Antoninho quer a liberdade do preso". E como lembrete desenhou uma caricatura qualquer sobre a escrivaninha do delegado.
"Faço esta careta no caso do senhor esquecer-se de transmitir meu recado. O delegado, vendo-a, ha de perguntar quem a fez. O senhor dirá então que fui eu e fará o meu pedido".
E assim aconteceu. A autoridade ali chegando achou estranho o desenho. Interpelou o carcereiro, que lhe contou tudo. O Dr. Caio Machado, com aquela bondade que lhe é peculiar, foi em pessoa à procura de Antoninho, que lhe contou do interesse em favor do seu "constituinte". O delegado, que não o conhecia, achou curioso os modos do garoto. E declarou-lhe que mandaria por em liberdade o detido. Assim o fez, porém, por medida de precaução, despachou-o para Pindamonhangaba.
O homem, profundamente reconhecido ao gesto de Antoninho, regressou a Campos, em áspera travessia a pé, a fim de agradecer-lhe pessoalmente, trazendo de presente uma cabra e dois cabritinhos. O garoto enternecido com a atitude do pobre camponês, fez-lhe ver que a Deus devia agradecer e não a ele, e negou-se a receber o presente, aconselhando-o a vendê-lo, pois era pobre e necessitava de dinheiro.

PREVISÃO
Enfermara a superiora da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Como se agravasse o seu estado, a avó e a mãe de Antoninho resolveram levar-lhe seu preito de sincera amizade, e para lá se dirigiram em companhia do nosso menino que nessa época estava com cinco anos de idade. Ao entrarem no portão da Santa Casa, a mãe de Antoninho considerou “quem será a nova Superiora quando deixar de existir Madre Águeda!” Antoninho apresentou-se, dizendo “É aquela que vai do lado direito”. Referindo-se a uma das duas religiosas que naquele momento tomavam a entrada principal do Hospital.
Sua mãe, muito admirada, perguntou-lhe: “Como é que você pode saber e ainda mais se aquelas duas irmãs estão de costas”?
Por curiosidade, resolveram então alcança-las. Antoninho que correra adiante tocou com a mão na que lhe parecia, e disse : “É esta”.
A religiosa voltou-se e reconhecendo as recém-chegadas, cumprimentou-as.
A mãe de Antoninho disse-lhe: esta é Mère Eugenie e já é superiora do Hospital de Taubaté, e depois se voltando para a religiosa pormenorizou aquele breve incidente. A irmã, a quem Antoninho via pela primeira vez, sorriu dizendo: “Eu estou chegando agora, em visita a Superiora doente”, e discretamente despediu-se. Baldados foram os esforços dos dedicados clínicos da Santa Casa.
A Superiora, com grande pesar de todos, veio a falecer. A dor cobriu de luto a benemérita Congregação de S. José e a Santa Casa, que a 26 de agosto de 1923 perdia uma de suas mais dedicadas auxiliares que, na direção do nosso maior hospital, prestara trabalhos de longos anos. A família de Antoninho sentiu muito a falta da boa religiosa.
Cada vez que nisso se falava, Antoninho insistia dizendo que a irmã que ele vira no jardim seria a nova superiora. Passaram-se alguns dias, sendo escolhida a nova superiora. A mãe de Antoninho, chamando-o, perguntou-lhe:
“Quem é a nova Superiora!”
– “Ora, mamãe, e Mère Eugenie!”
Todos ficaram surpresos por se realizar o fato conforme a previsão do menino.
Sobre a nova superiora, Antoninho fez algumas revelações que infelizmente deixaremos de reproduzir em respeito ao mesmo que não gostava de se gabar, não gostava de se mostrar. Deixamos esses comentários, para que o nosso menino nós conte quando estivermos UNIDOS NO CÉU!

O PÁSSARO
Há muito tempo escuto uma história, que não sai de minha cabeça, nela Antoninho já era conformado com a própria morte. Depois acabei sabendo que isso já chegou a ser passado na Rede Globo, em um programa que passava há muitos anos atrás sempre no período da manha, era um programa que mostrava fatos reais. Bem, voltando ao assunto.
Minha avó Leonor, sempre me dizia o seguinte:
Antoninho já muito doente (com a tuberculose) em mais uma de suas tentativas de consolar sua mãe (desesperada) perguntou se o passarinho que cantava em uma árvore próximo deles, viesse e pousasse em seu dedo, se ela assim acreditaria que sua morte era realmente vontade de Deus. Sua mãe deu um sorriso e diante dos fatos, acabou afirmando. Antoninho então levantou o dedo e o passarinho mais que certeiramente, veio em sua direção e acabou pousando em seu dedo.
Outra Versão:
Alguns dizem outra coisa, dizem que na verdade ele teria pegado ração de pássaro, colocado em uma das mãos, e deixando a outra vazia. E perguntado a sua mãe, se ela acreditaria que seria vontade de Deus que ele morresse, se o pássaro pousasse na mão vazia, sua mãe teria sorrido, e dito “Oh Antoninho, ela vai pousar na mão em que tem a ração”. Antoninho levantou as duas mãos, e o pássaro parou em cima da mão vazia.

CONFORMADO COM A MORTE PRÓXIMA
Antoninho piorava cada dia mais nos últimos meses da sua rápida vida. Conhecia perfeitamente o precário estado de sua saúde e mostrava-se conformado com a vontade de Deus.
Uma tarde, vendo a pobre mãe tristonha por causa da sua moléstia, interpelou-a assim:
- Por que está tão triste, mamãe?
- Por nada, meu filho. Eu nunca estou triste ao seu lado.
- Mamãe, precisa fazer a vontade de Nosso Senhor! Nosso Senhor precisa de mim!
E após uma pausa:
- A senhora está vendo aquele pintassilgo naquela arvore? Se eu fizer com que ele venha pousar no meu dedo e cantar, a senhora acredita que é por vontade de Nosso Senhor?
- Acredito, sim, meu filho!
- Então veja! Pintassilgo, passarinho querido, em nome de Deus Nosso Senhor, vem pousar aqui no meu dedo e canta!
Realmente, o lindo passarinho veio obediente ter sobre a mão de Antoninho, e cantou um canto mavioso e doce.
- Então, mamãe, ouviu o canto da vontade de Nosso Senhor?
- Sim, meu filho, ouvi e acredito!
- Vai, vai, meu amiguinho, para a tua arvore e lá continua a cantar!
E assim aconteceu. A avezinha voou e foi cantar na arvore donde descera.
Voltaram mãe e filho para casa. Horas depois, o interpelava:
- Está ainda pensando no passarinho, mamãe?
- Sim, é verdade, meu filho...
Dias após, perguntava Antoninho à sua progenitora:
- Minha mãe, que frade foi esse que esteve aqui conversando comigo?
- Frade, meu filho? Eu não vi nenhum frade ao seu lado. Você, com certeza, teve algum sonho...
- Bem, mamãe, não se fala mais nisso...
Logo mais bateram à porta. Era o carteiro. Trazia um envelope. Abriram. Dentro, o retrato de um frade. Antoninho o reconheceu:
- Este retrato, minha mãe, é de Frei Fabiano de Cristo, que, ainda há pouco, esteve palestrando comigo.
Não era possível aquilo senão por milagre: Frei Fabiano de Cristo falecera já há muitos anos. Aquela fotografia fora enviada por uma irmã do garoto prodigioso.

A MORTE DE UM JUSTO
Antoninho marchava, cada dia, para a morte certa. Ele o sabia perfeitamente. E era um conformado com a dura realidade. Era a vontade de Deus. Deus o queria. Que se fizesse, então, a vontade de Deus.
A 19 de dezembro, dois dias antes, ainda armou, com as próprias mãos, num grande esforço, o seu tradicional presépio de Natal!
Dali foi carregado pela mãe desvelada, causando tamanho trabalho, até o leito, donde não mais se levantaria.
Na manhã do dia 20, foi visitá-lo a Superiora da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, acompanhada de outras freiras. Aquela visita foi excepcional motivo de alegria para o doente.
Ali compareceu depois frei Ângelo de Rezende, que lhe ministrou os últimos sacramentos, em altar previamente armado e ornamentado pelo próprio Antoninho, que, da cama, ia orientando tudo.
Em dado momento, após a comunhão, supôs o sacerdote que o menino tinha já entregue a alma ao Criador, apresentando-se com os olhos fechados, em atitude de êxtase. Tocou-lhe de leve no ombro. Ele abriu os olhos e falou: "Eu estou rendendo graças a Deus!"
Logo mais, não esquecendo o padre, pediu à mãe que providenciasse um automóvel para reconduzi-lo ao convento e que não o deixasse ir sem tomar uma xicara de café.
Depois solicitou um copo d’água e principiou a balbuciar estas frases:
- Que linda estrada... Atapetada de flores... Como são belas! Quantos anjos! Olha, minha mãe: alguns tocam... Outros sorriem! Convidam-me para acompanhá-los... Que belo cortejo!... Eu vou, mamãe... Vou... Sim... Vejo um clarão! Um vulto se aproxima... Olha, mamãe, é meu avozinho... O pai da senhora!
Pediu que acendessem duas velas em torno da imagem de S. Antônio, junto do leito.
- Antes que estas velas se consumam, eu estarei no céu! Estou cansado... Preciso repousar...
Principiou a lenta agonia. Em dado instante, num esforço, abriu os olhos. Circunvagou-os pelo quarto, num meigo sorriso para todos. Um ligeiro tremor de lábios, como se quisesse falar alguma coisa. Depois, mais nada. Estava morto! Morrera como um pássaro do céu!
O relógio assinalava 23h e 30m de 21 de dezembro de 1930. Contava 12 anos de idade.
No dia seguinte, era inumado no jazigo da família no Cemitério da Consolação, na quadra 80, sepultura nº 6, onde a visitação publica o consagrou com a sua admiração e a sua veneração, de então para cá.



Belíssimo túmulo do menino Antoninho da Rocha Marmo, visitado por milhares de devotos, sempre
mantido enfeitado por flores. 



A missa de 7º dia foi celebrada sem qualquer pompa, com a encomendação sobre um modesto pano preto, entre quatro velas singelas. Era satisfeita assim a sua ultima vontade.
E, numa curiosa e bem interessante coincidência, conforme uma sua anterior previsão: por acidental engano da Empresa Funerária, foi seu corpo encerrado num caixão de adulto, carregado num coche de adulto e enterrado numa cova de adulto...
Toda a pequena existência desse grande menino paulista, não há duvida, extraordinária, fora assim revestida de grandes lances: reviveu, em poucos anos, nos dias da atualidade, uma vida beatífica igual à dos santos da antiguidade...



(Fontes: site oficial de Antoninho, construído pela Sra. Leonor Rocha Ferreira, prima de 1º grau de Antoninho e o Banco de Dados do Folha de São Paulo)