Páginas

Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 25 de abril de 2015

SÃO JOÃO PIAMARTA, Presbítero e Fundador da Família Piamartina.


São João Piamarta nasceu na cidade de Bréscia (Itália), no dia 26 de novembro de 1841. Filho de José e Regina Ferrari.
Ainda em tenra idade, experimentou a dor de perder sua irmã - dois anos mais velha - e, um ano depois, viveu seu pior luto: a morte de sua amada mãe Regina. A morte novamente o golpearia – três anos depois - levando a outro de seus irmãos.
Quando ficou órfão, seu avô materno se encarregou de sua educação.
Talvez essas grandes perdas levaram-no a experimentar desde muito pequeno, uma grande ternura e compaixão para com os órfãos, pobres e desamparados - com quem se sentia identificado e comprometido.
Logo cedo, experimentou o chamado do senhor, entrando no seminário. Assim, em 23 de dezembro de 1865, foi ordenado sacerdote, exercendo seu ministério em diversas paróquias.
Sua condição de pobreza marcou profundamente sua vida em favor dos mais necessitados. Desde o início do seu ministério sacerdotal, distinguiu-se por um grande amor à juventude que vivia nos Oratórios, formando-a através da catequese em várias paróquias, nas quais também os doentes recebiam os seus cuidados espirituais.
O seu contacto com os jovens, sobretudo das categorias mais simples e pobres, convenceu-o de que era necessário interessar-se por todos eles. Dedicava-se com zelo apostólico a formação integral de crianças e jovens. Movido por sua experiência de vida, fundou em 03 de dezembro de 1886, o Instituto Artigianelli, para meninos pobres e abandonados, um instituto artesanal onde, com grandes sacrifícios e muitíssimas dificuldades, preparou centenas de jovens para a vida profissional e cristã.
 Preocupado também em auxiliar os jovens que moravam em regiões rurais, em 11 de novembro de 1895, junto ao Padre Bonsignori, fundou a Escola Agrícola de Remedello: referência e orientação para muitos jovens e famílias camponesas de toda Itália.
Em 1902 foi aprovada a Congregação dos Padres da Sagrada Família de Nazaré, por ele fundada com o objetivo de formar cristãmente as famílias e se dedicar à educação da juventude. Mais tarde, juntamente com a Madre Elisa Baldo, criou o Instituto das Humildes Servas do Senhor. Dedicou-se também à imprensa católica e fundou a Editora Queriniana, contribuindo assim para a difusão do pensamento cristão junto dos jovens e das pessoas cultas.
Falece santamente na Colônia Agrícola, em Remedello, no dia 25 de abril de 1913, mas não antes de deixar um legado de amor e educação para aqueles que continuam a sua grande obra de evangelização e de educação.
No dia 22 de março de 1986, o Papa João Paulo II reconheceu as virtudes do Pe. Piamarta. Ele viveu as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. E as virtudes morais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança.
O segredo de tanto fervor e atividade apostólica eficaz do Padre Piamarta consistiu na firme fidelidade a um programa de intensa oração e numa inabalável confiança na Providência. Na sua profunda humildade considerava-se um obstáculo para as obras de Deus, mas acreditava que a bênção divina jamais lhe faltaria.
Viveu pobre e morreu pobre, depois de ter ajudado milhares de jovens do mundo do trabalho a tornarem-se protagonistas da própria promoção humana e cristã.
No dia 12 de outubro de 1997, na Praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II proclamou Bem-Aventurado o Padre Piamarta. Com a sua Beatificação, o Papa João Paulo II o doa como pai aos jovens, o indica como exemplo aos sacerdotes e religiosos, o propõe como modelo para os educadores, o apresenta como intercessor das famílias e o oferece como protetor dos trabalhadores.
Na manhã do dia 21 de outubro de 2012, Padre Piamarta declarado Santo pelo Papa Bento XVI, em Roma.
O motivo da canonização, conforme contou o padre Sidney, teria sido um milagre realizado justamente em Fortaleza, no bairro Montese, onde existe a paróquia Nossa Senhora de Nazaré, administrada pelos padres piamartinos. 
Assim nos relata o padre:
“Em 2003, um senhor paroquiano estava engasgado com uma espinha de peixe, que desceu e ficou alojada no intestino, causando uma infecção generalizada”, explicou o padre. "O homem - continua o padre - foi desenganado pelos médicos. Então, uma novena foi rezada invocando o Pe. Piamarta. Foi quando as coisas começaram a melhorar”, disse o religioso. Após quatro anos de investigação, o Vaticano constatou que não havia explicação científica para a cura do enfermo. O milagre de João Piamarta foi reconhecido.
      Na lateral esquerda da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, de Fortaleza, existe um memorial-oratório de São João Piamarta, onde estão expostas uma relíquia de primeiro grau ("ex ossibus") do santo e várias relíquias de segundo grau: vestes sacras, crucifixo e outros objetos que pertenceram a ele. Vale a pena a visita. Realmente é um lugar bonito e os devotos de São João Piamarta sentirão grande emoção ao visitar o lugar. 


Uma das raras fotos do santo. 





ORAÇÃO DE SÃO JOÃO PIAMARTA:

Nós vos louvamos, ó Deus misericordioso, porque suscitastes no São João Batista Piamarta um grande exemplo de doação para a educação da juventude à vida cristã; no trabalho, na família e na sociedade. Dai-nos por sua intercessão que possamos viver e agir no vosso amor de Pai; experimentando a força da vossa graça, para, assim, alcançarmos a felicidade eterna AMÉM!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

SANTA MARIA ROSA JÚLIA BILLIART, Virgem e Fundadora


Santa Júlia Billiart nasceu em 12 de julho de 1751 em Cuvilly, perto de Beauvais, Picardia, França. No batismo recebeu o nome de Maria Rosa Julieta. Era a sexta de sete filhos de Jean-François Billiart, um fazendeiro razoavelmente próspero, que também era dono de uma pequena loja, e de sua esposa Marie-Louise-Antoinette Debraine.
     Desde tenra idade Júlia demonstrou piedade e virtudes incomuns: aos sete anos sabia todo o Catecismo de cor e costumava reunir as amigas em torno dela para ouvirem a catequese que ela explicava. Sua educação era limitada à escola da aldeia de Cuvilly, que era conduzida por seu tio, Thibault Guilbert.
     Em assuntos espirituais, seu progresso foi tão rápido que o padre da paróquia, Pe. Dangicourt, permitiu que ela recebesse a 1ª Comunhão na idade de nove anos, enquanto o normal era 13. O pároco deu-lhe permissão para fazer um voto privado de castidade aos 14 anos de idade. Ele ensinou-lhe como fazer oração mental, a controlar o seu temperamento e incutiu-lhe um profundo amor por Jesus na Eucaristia.
     Em 1767, a família perdeu sua fortuna devido a maus investimentos e Júlia teve que realizar um trabalho duro para ajudar a família a sobreviver, mas continuou a ensinar catecismo às crianças mais jovens e aos trabalhadores agrícolas da freguesia, além disso, visitava os doentes.
     Júlia estava com vinte anos quando sua vida foi subitamente mudada. Uma noite, no inverno de 1774, alguém fez uma tentativa de ferir ou mesmo matar o pai: os dois estavam sentados juntos em casa, quando foi disparado um tiro pela janela. Júlia, sensível, teve um choque que a levou a uma paralisia nervosa, e progressivamente a doença a tornou incapaz de andar, o que lhe causou grande dor. Tentativas de tratamento não deram resultado, e ela ficou completamente inválida. Ela recebia a comunhão diária, e passava quatro a cinco horas por dia em contemplação. Ela oferecia seu sofrimento ao Sagrado Coração de Jesus como reparação pelos pecados, especialmente aqueles que eram cometidos contra a Sagrada Eucaristia.
     O pároco continuava a ser seu diretor espiritual, e a encorajou a continuar com o seu trabalho de catequese da cama. Ela desenvolveu o seu próprio apostolado, dando conselhos espirituais a um número crescente de pessoas. Algumas mulheres ricas começaram a visitá-la, impressionadas com o que tinham ouvido da sua paciência, dedicação e bom humor.
     Em 1789, a famigerada Revolução Francesa se instala. Entre os que a visitavam e conversavam com ela naquela época estavam os Bem-aventurados irmãos François-Joseph de Rochefoucauld e Louis de la Rochefoucauld, Bispos de Beauvais e Saintes, respectivamente, ambos martirizados no massacre do Mosteiro dos Carmelitas, na Rue de Rennes, em Paris, em 2 de setembro de 1792 e fazem parte dos 191 Mártires de Setembro.
     Em 1790, o padre da paróquia de Cuvilly foi substituído por um padre juramentado do governo revolucionário. Foi principalmente graças à influência que Júlia tinha sobre o povo que houve boicote ao intruso. Mas quando ela ficou sob suspeita pelo governo revolucionário por receber em sua casa os sacerdotes perseguidos, e na praça da aldeia o carrasco pôs fogo no mobiliário da igreja, onde Julia deveria ser queimada como bruxa, ela foi forçada a se esconder.
       Seus amigos foram exilados de Cuvilly, e nos três anos seguintes ela viveu na clandestinidade em Compiègne, onde foi transferida de um abrigo para outro. Ela sofreu dores e a doença se deteriorou a tal ponto, que ela perdeu a fala durante vários meses. Nesse tempo, ela teve uma visão: ela viu o Calvário cercado por freiras em trajes incomuns e ouviu uma voz dizendo-lhe: "Veja essas filhas espirituais que vos dou em um instituto marcado pela cruz".
     Em Compiègne ela morou perto do bendito Carmelo onde 16 freiras carmelitas enfrentaram a guilhotina cantando em 17 de julho de 1794.
     Após o primeiro intervalo das perseguições que se seguiram ao fim do período do terror, Júlia foi resgatada por um velho amigo, e em outubro de 1794, ela foi trazida para Amiens, para a casa do Visconde Blin de Bourdon.
     Neste lar hospitaleiro, Júlia se recuperou e conheceu a irmã do Visconde, Françoise Blin de Bourdon, Viscondessa de Gézaincourt, que se tornou sua amiga íntima e sua assistente em todos os trabalhos, co-fundadora do seu Instituto e sua primeira biógrafa. Françoise tinha 38 anos quando conheceu Júlia e havia passado sua juventude na piedade e em boas ações. Ela havia sido presa com toda a família durante o Terror, e só escapou da morte por causa da queda de Robespierre.
     Entre 1794 e 1804, Júlia tenta dar ao seu trabalho uma forma permanente. Mas uma nova perseguição se espalhou e forçou Júlia e sua nova amiga a se retirarem para uma casa que pertencia à família Doria, em Bettencourt. Neste tempo, foram visitadas várias vezes pelo Pe. Joseph Desire Varin (1769-1850), superior dos Padres da Fé, que ficou impressionado pela personalidade e habilidade de Júlia. Ele estava convencido de que Deus a tinha escolhido para fazer grandes coisas pela Igreja.
     Após a Revolução, Júlia voltou a Amiens, e fundou, sob orientação do Pe. Varin o "Instituto de Nossa Senhora Para Educação Cristã". O seu principal objetivo era o cuidado espiritual das crianças pobres, mas também a educação de meninas de todas as classes e de formação de professores. A fundação foi aprovada pelo Bispo de Amiens, Mons. Demandolx, ex-bispo de La Rochelle.
     Em 1804, os Padres da Fé realizaram uma grande missão em Amiens. Júlia pediu a um dos sacerdotes, o Pe. Enfantin, que tinha sido ordenado em uma granja durante a Revolução, para acompanhá-la em uma novena. No quinto dia, 1º junho, Festa do Sagrado Coração de Jesus, ele ordenou-lhe: "Madre, se tendes alguma fé, dê um passo em honra do Sagrado Coração de Jesus". Ela se levantou imediatamente e estava completamente curada após 22 anos de invalidez.
     Algumas senhoras se juntaram a Júlia e a Françoise, e o Pe. Varin escreveu uma regra provisória para elas. As primeiras quatro irmãs fizeram seus votos no dia 15 de outubro de 1804: Júlia Billiart, Françoise Blin de Bourdon, Victoire Leleu e Justine Garson. A regra temporária foi tão presciente que os seus princípios nunca foram alterados. Antes que um ano se passasse eram dezoito irmãs.
     Após sua recuperação, Júlia continuou a expansão de sua Congregação a passos rápidos, a qual se espalhou para Gent, Namur e Tournai, em Flandres (atual Bélgica). Agora ela também podia participar pessoalmente de missões conduzidas pelos Pais da Fé em outras cidades, mas as suas atividades foram interrompidas pelo governo.
     Quando a Congregação foi aprovada por decreto imperial de 19 de junho de 1806, tinha 30 membros. De 1804 até sua morte em 1816, Júlia viajou incessantemente e foi responsável pela rápida expansão do novo Instituto.
     Por causa da Revolução Francesa o povo não havia recebido nenhuma formação religiosa, e ela estava preocupada com a descristianização do país. Esta foi a principal motivação para o seu trabalho educacional. Embora o seu interesse inicial tivesse sido sempre os pobres, ela compreendeu que as outras classes na sociedade também tinham uma grande necessidade de educação cristã saudável e que suas irmãs nunca poderiam cobrir sozinhas toda a demanda.
     Em 1809, após problemas com o novo diretor do Instituto, Madre Júlia se instalou em Namur (Bélgica), levando consigo a maioria das Irmãs. O bispo da cidade, Mons. Joseph Pisani de la Gaude, aprovou a Congregação alterando o seu nome para "Irmãs de Nossa Senhora de Namur”.
     Várias circunstâncias levaram ao fechamento de todos os conventos e as escolas na França, e, em 1815, e os conventos belgas foram saqueados pelos soldados, antes e depois da Batalha de Waterloo.
     Madre Júlia enfrentava as dificuldades com bom humor e uma total confiança na Providência de Deus, e ela manteve a Congregação firme por meio de viagens intermináveis de convento a convento, onde ela incentivava, apoiava e contribuía ensinando ou lavando, se necessário. Françoise (Madre São José), por sua vez manteve um governo empreendedor, com uma segurança aristocrática, uma força tranquila e a convicção de que Madre Júlia fizera a obra de Deus.
     Madre Júlia, que foi a fundadora de uma das principais Congregações da Igreja, não escreveu nenhum tratado sobre o ensino ou o funcionamento das escolas. Suas ideias são encontradas nas cartas e nas instruções que deu às Irmãs, e como Madre São José colocou essas ideias em prática após sua morte.
     Em 1844, a regra foi aprovada pelo Papa Gregório XVI (1831-46). Quando Madre São José (Françoise Blin) morreu em 1838, a nova Congregação estava firmemente estabelecida, a sua filosofia de trabalho e a sua presença aceita e apreciada. Até o final do século XIX, a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora se espalhou para os Estados Unidos, Grã-Bretanha, Guatemala, Congo e da Rodésia (Zimbabwe). Em 1900, ela chegou ao Japão, China, Brasil, Peru, Nigéria e Quênia.
     Madre Júlia adoeceu em janeiro de 1816, e após três meses de sofrimento, em meio ao silêncio e a paciência, faleceu em 8 de abril 1816, em Namur, enquanto calmamente recitava o Magnificat. O Bispo de Namur disse: “A Madre Julia é uma dessas pessoas que podem fazer mais pela Igreja de Deus em poucos anos do que os outros fazem em um século”.
     Ela foi enterrada no dia 10 de abril no cemitério da cidade. Sua reputação de santidade foi reforçada por vários milagres. Seu processo de canonização foi iniciado em 1881 e seus restos mortais foram removidos em 1882.

     Ela foi beatificada em 13 de maio de 1906 (o documento foi datado de 19 de março) por São Pio X (1903-14), e canonizada em 22 de junho de 1969 pelo Beato Paulo VI (1963-78).

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SÃO MIGUEL DOS SANTOS, Presbítero Trinitário e Místico (Patrono da Juventude Trinitária). Dois textos biográficos.


Primeiro texto biográfico:

São Miguel dos Santos, pertencente à Ordem Trinitária e apelidado de o “estático” por causa dos frequentíssimos arrebatamentos aos quais estava sujeito, nasceu no dia 29 de setembro de 1591 em Vich, na Catalunha (Espanha), era o sétimo dos oito filhos que Henrique Argemir teve de Margarida Montserrat, ambos de nobre prosápia, mas decaídos da primitiva grandeza. À fonte batismal lhe foi imposto o nome de Miguel.

O pai, tabelião e conselheiro da municipalidade, antes de se dedicar ao seu trabalho ia para escutar toda manhã a Missa com os filhos mais crescidos e à noite recitava em casa, com os criados e os familiares, o terço. Miguel, dotado de excelente índole e de precoce inteligência, aprendeu dos pais a elevar cedo a mente e o coração a Deus, a obedecer também ao preceptor, a ser paciente com os irmãos, serviçal com os companheiros e caridoso com os infelizes.

Desde criança o santo demonstrou um invencível horror ao pecado e um vivo desejo de vida penitente. Divertia-se construindo altarzinhos, cantando louvores sagrados ou repetindo as cerimônias litúrgicas que tinha visto realizar-se na igreja. Passava longo tempo do dia no oratório doméstico aonde conduzia outros menininhos aos quais recomendava serem bons e obedientes.

Mais de uma vez foi surpreendido chorando, enquanto beijava o crucifixo, agachado num cantinho solitário. À leitura da vida dos santos anacoretas, teve a ideia de se retirar para fazer vida eremítica na gruta de Montseni, nos arredores da cidade, junto com alguns companheiros afervorados por seu zelo. O pai, naturalmente, se opôs. Permitiu-lhe somente observar o jejum quaresmal três vezes por semana, e de distribuir aos pobres quanto subtraía às refeições. Miguel adaptou também às suas costas uma cruz de madeira e começou a passar a noite acomodado, com frequência, sobre uns sarmentos com uma pedra abaixo da cabeça. Açoitava-se com correias, e um dia, enquanto os seus familiares vindimavam, avançou num bosque para revolutear-se numa sarça de espinhos pela irresistível necessidade que sentia em sofrer “por amor a Jesus e à imitação de São Francisco”.

O desejo de levar uma vida retirada e crucificada induziu Miguel a bater às portas dos conventos de Vich. Foi por todos rejeitado por causa da tenra idade. O que fazer? Decidiu emitir, apesar de ter somente nove anos, o voto de virgindade, na igreja das Dominicanas de Santa Clara. Mereceu, com tal gesto, ser livrado por toda a vida das tentações de impureza.

Aos quatro anos Miguel tinha ficado órfão de mãe; aos onze ficou órfão também de pai. O tutor lhe fez interromper os estudos para empregá-lo como garçom num comércio. Tanto ele como seus irmãos não queriam que abraçasse a vida religiosa porque, para eles, não convinha ao decoro da estirpe. Guiado pelo Espírito Santo, em 1603 fugiu para Barcelona a pé, com a esperança que o Senhor teria guiado os seus passos. Às portas da cidade uma pobre mulher teve compaixão dele e ofereceu-lhe hospitalidade. No dia seguinte foi para escutar a Missa na igreja mais perto, que era a dos Trinitários. Enquanto rezava, Deus lhe fez compreender que o queria entre aqueles religiosos. No começo foi acolhido como coroinha. Vestiu o uniforme branco dos Trinitários somente no mês de agosto de 1604.

Desde aquele dia Miguel fez consistir a essência da vida religiosa não apenas nos jejuns, nos cilícios e nas vigílias, como na abnegação da própria vontade. Durante o noviciado era tão virtuoso que foi apontado como modelo também aos religiosos mais velhos. Ao toque de levantar da meia noite para rezar as Matutinas foi sempre encontrado desperto. Diz a tradição que uma noite apareceu-lhe Nossa Senhora e ofereceu-lhe um lírio. Encontrava o seu prazer em servir o maior número possível de Missas. No altar parecia um serafim e após a comunhão permanecia absorto. Às vezes, transbordando de alegria, passava a correr pelo jardim, exclamando: “É tão violento o ardor interno, que se não lhe abrisse uma saída, ficaria queimado”.

Pela vivacidade da inteligência e a dedicação ao estudo, Miguel, bem antes de emitir a profissão, foi enviado para o convento de São Lamberto, nos arredores de Zaragoza, para que frequentasse aquela célebre universidade. No século XVI, sob o influxo do Concílio de Trento, também a Ordem dos Trinitários tinha sido reformada pela obra de São João Batista da Conceição (1561-1613) com a aprovação do papa Clemente VIII.

Depois da profissão religiosa (1607), frei Miguel, sedento de perfeita abnegação e de rígida penitência, pediu para passar à estreita observância. Tendo-lhe sido concedido aquele favor, dirigiu-se a pé, no inverno, a Pamplona, para vestir em Oteiza (1608), nos arredores da capital de Navarra, o tosco saio dos Trinitários Descalços. Após alguns dias foi enviado a Madri para o ano de noviciado. Em Alcalá emitiu a profissão religiosa e em La Solana aperfeiçoou-se nos conselhos evangélicos através de um segundo tirocínio exigido pelas Constituições.

Foi então que Deus começou a favorecer o seu servo com dons extraordinários. Um dia, enquanto encontrava-se com os seus confrades em recreio fora do convento e discutia com eles sobre o paraíso, de repente deu um grito, voou como uma flecha sobre uma plantação de cevada e foi pousar-se perante o tabernáculo, onde permaneceu longamente extasiado.

Desde aquele dia os gritos improvisos, os arrebatamentos e os êxtases repetiram-se frequentemente na igreja, no refeitório, pela estrada, apesar da formal proibição dos superiores para não perturbar o sossego do convento. Para fazê-lo sair dos sentidos era suficiente falar-lhe da Santíssima Trindade, da Eucaristia, da Paixão do Senhor, da Santíssima Virgem. Uma quinta-feira santa, depois de ter elevado os olhos para um grande crucifixo fora do refeitório, deu um grande grito e arremessou-se para abraçá-lo.

Não sempre conseguia subtrair-se àqueles impulsos do Espírito Santo, e então arrastava consigo o objeto ou o confrade ao qual se agarrava. O seu Ministro Provincial, frei Francisco de Santana, o enviou a Sevilha para ter com o Padre Hernando Mata, experto mestre de espírito, para que o examinasse. O piedoso sacerdote declarou não ter conhecido em sua vida alma mais cândida e mais inflamada de amor divino como frei Miguel dos Santos. Confirmando tal opinião, exatamente naquele tempo Jesus concedeu ao seu servo fiel, absorto em oração, o singularíssimo privilégio da substituição do coração com o seu.

No mês de outubro de 1611, frei Miguel foi enviado a Baeza para estudar filosofia e, após três anos, à Universidade de Salamanca para estudar teologia. Certo dia, enquanto um sacerdote agostiniano entremostrava, na sala de aula, a gratidão devida ao Sangue Preciosíssimo de Jesus pelos homens, o santo lançou-se ao alto e permaneceu uns vinte minutos suspendido sobre as cabeças dos alunos com os braços abertos e os olhos dirigidos ao céu. Por isso, acorria continuamente ao convento pessoas ávidas de consultar o santo estudante.

Durante o carnaval, para impedir tantos escândalos, concebeu um projeto audaz. Junto com seus confrades vestidos como penitentes, flagelando-se sem piedade, tendo nas mãos uma caveira e na cabeça uma coroa de espinhos, dirigiu-se à praça pública, em meio ao estupor das pessoas.  Um pregador subiu, então, sobre um banco para lembrar aos gozadores da vida a vaidade dos prazeres mundanos. De repente, frei Miguel deu um formidável grito, levantou voo até o crucifixo que encabeçava o cortejo e, por quinze minutos, permaneceu suspendido no ar, em êxtase.  É inútil dizer que, a tal prodígio, o festim carnavalesco mudou-se em uma procissão de penitência.

Concluídos os estudos, frei Miguel foi ordenado sacerdote em Faro (Portugal) em 1615. Havia desejado tanto aquele dia porque lhe permitia receber cotidianamente Jesus Sacramentado. Para exercer o sagrado ministério foi enviado a Baeza. Em 1622 foi nomeado ministro do convento de Valladolid, não obstante que se reputasse indigno e incapaz. Frei Miguel foi um religioso perfeito. Sobretudo a sua obediência aos superiores foi sempre pronta, alegre e sem reservas também quando lhe proibiam entrar em êxtase ou lhe mandavam alimentar-se como todos os outros, preocupados com sua saúde.

O Senhor, que não o queria naquele caminho, permitiu que piorasse realmente, motivo pelo qual, após continuadas provas, os superiores permitiram-no continuar alimentando-se com um pouco de pão, com alguns cachos de uva seca ou com um bocado de salada somente a cada três dias. Às vezes chegou a prolongar o jejum absoluto até duas semanas. Não saboreou outra bebida a não ser água. Passava até semanas inteiras sem beber. A língua se lhe transformava, então, numa espécie de sobreiro, mas, ao invés de matar a sede, frei Miguel era capaz de ir até o chafariz somente para aumentar o espasmo da sede ao contemplar a água fresca. A quem o exortava para se nutrir, respondia brincando: “O meu cozinheiro é Deus”.
Amantíssimo da pobreza evangélica, frei Miguel considerou-se feliz mesmo quando lhe faltou o necessário. Pode-se dizer que nada possuía, nada desejou, nada usou como próprio. Por diversos anos repousava um pouco no sótão do convento e somente nos últimos anos aceitou, por obediência, um cobertor velho e corroído. Tinha à disposição só um hábito, deixado de lado pelos outros religiosos e remendado por si mesmo. Jamais se conseguiu fazer-lhe vestir hábitos novos, apesar de que lhos oferecessem para ganhar e guardar aquele por ele usado.

Em sua incomparável humildade frei Miguel dizia que era capaz somente de rezar. Pelo contrário, quando foi eleito Ministro do Convento de Valladolid, deu prova de grande habilidade ao afrontar a construção de uma nova igreja sem recursos. Aos seus religiosos a obra pareceu insensata, mas ele os tranquilizou dizendo: “Se formos bons, mesmo se trancarmos a porta, o Senhor nos lançará o necessário pelos muros da horta”.

Inflexível ao exigir a observância das regras, sabia, porém, torná-la amável e jubilosa, como sacrifício feito a Deus, sem considerações humanas. O único escopo de sua vida foi de conformar-se à vontade d’Ele “querendo – dizia – não somente aquilo que Deus quer, mas aquilo que Deus quer que eu queira”. Tinha assim alcançado tal união com a Santíssima Trindade que não sabia se comia, se bebia, se dormia ou se caminhava.

Interrogado pelo Ministro Provincial sobre quantas horas por dia dedicava à oração, respondeu com simplicidade: “Eu rezo sempre”. De noite descansava apenas duas horas no chão, agachado sobre um banquinho com o rosto entre as mãos. “O meu bom Deus – dizia – me acorrenta e não me deixa dormir”. Habitualmente a sua Missa durava duas horas, por causa dos frequentes arrebatamentos aos quais estava sujeito. Todavia a igreja estava sempre muito cheia de fiéis.

Uma vez, à elevação do cálice, permaneceu elevado no ar por quase meia hora, e outra vez, tendo permanecido com os braços abertos em forma de cruz, não se deu conta que a chama de uma vela queimava-lhe a mão direita. Mais de uma vez foi visto emanar da sua pessoa um celestial esplendor e fulgurar-lhe ao redor da cabeça uma auréola de glória que deslumbrava a vista. O incêndio espiritual do amor divino se refletia no corpo com tal calor que não conseguia controlar-se. Um dia, enquanto discutia com o pároco de Marmel sobre o mistério da Santíssima Trindade, onde tinha ido para pregar, do seu peito jorrou algo como um vulcão de chamas resplandecentes. Admirado, o pároco quis abraçá-lo, mas caiu desmaiado por terra pela grandeza do calor e do fulgor daquela chama.

O apostolado de Frei Miguel não se limitou à oração pelos pecadores, à penitência rigorosa, às conversações particulares ou ao ministério das confissões, mas se afirmou vigorosamente também no púlpito. Aos fiéis falava, sobretudo, do amor de Deus aos homens e do mistério da Eucaristia, sem cair nas pomposidades de seu tempo histórico. Para salvar até mesmo uma só alma estava disponível a tolerar infinitas labutas. Os contínuos êxtases, que o surpreendiam bem no meio das pregações, turbavam-lhe as alegrias procuradas por tal apostolado. De vez em quanto protestava: “Se desta vez me acontecer a mesma ‘desgraça’, não subirei jamais ao púlpito”. Todavia, a cada convite, era incapaz de resistir à manifesta vontade de Deus para o bem do povo.

Nobres e plebeus, ricos e pobres, eclesiásticos e seculares, acorriam a ele como a um oráculo para todas as suas necessidades, sem jamais ficar desiludidos, pois Deus tinha concedido a frei Miguel o dom de perscrutar os corações, de predizer eventos distantes e futuros, de sarar os enfermos com a simples imposição das mãos, com um sinal de cruz ou com a leitura de um trecho do Evangelho. Porém, não obstante tudo isso, o santo considerava-se “um miserável, um ingrato, uma terra estéril, incapaz de fazer frutificar os dons recebidos do céu”. Era-lhe, portanto, de grande confusão ouvir-se chamar por todos “o santo”, ver as pessoas ajoelhar-se diante dele e procurar beijar-lhe a ponta do hábito.

Enquanto era pároco em Baeza, em uma conversação entre amigos sobre a morte inexorável e a felicidade do céu, frei Miguel tinha exclamado improvisamente: “O Senhor na sua infinita misericórdia me fez conhecer que preciso trabalhar e pregar muito, até os trinta e três anos; então me chamará a si quando eu for Ministro do Convento de Valladolid”.

Ao aproximar-se do tempo de sua morte, confirmou a penitentes e a confrades que morreria à idade do Senhor. Na segunda-feira de Páscoa de 1625 foi, de fato, constrangido a ficar de cama por causa de uma febre violenta que o pegou no momento em que pregava. Viveu ainda dez dias em uma contínua oração.

A quem lhe perguntou quais graças desejava alcançar, respondeu: “Peço ao Senhor sobretudo para sofrer os tormentos e as penas que os mártires e os santos sofreram e sofrerão até o fim do mundo, e depois que se forme uma só chama de amor do qual ardem os beatos e os espíritos celestes e me consome o coração”. Um confrade lhe perguntou se temia a morte. Respondeu-lhe: “Perturba-me somente o pensamento de morrer em um lugar onde se tem muita estima de mim, que sou um miserável”.

Faleceu no dia 10 de abril de 1625, após ter beijado o crucifixo e exclamado, levantando os olhos ao céu: “Creio em Deus, espero em Deus, amo Deus!”. Logo que se espalhou a notícia de seu falecimento, uma enorme multidão amontoou-se perante a porta do convento gritando: “Queremos ver o santo”.

Foram assim numerosos aqueles que desejavam ter um pedacinho do saio do defunto como relíquia, que seus confrades precisaram revesti-lo com outro saio por até três vezes. Pouco depois do enterro de frei Miguel foram verificados cinquenta milagres, recebidos de Deus, por sua intercessão, pelos devotos.

Pio VI o beatificou em 02 de maio de 1779 e Pio IX o canonizou no dia 8 de junho de 1862. João XXIII o nomeou padroeiro da cidade em que nasceu, VICH. As relíquias de São Miguel dos Santos, padroeiro da juventude trinitária, são veneradas em Valladolid, na paróquia de São Nicolau.


********************************


 Segundo texto biográfico (do blog: juventude trinitária)

Miguel Argimir Mitjana nasceu em Vich (Barcelona) no dia 29 de setembro de 1591. Seus pais se chamavam Henrique e Monserrat. Deus os abençoou com oito filhos. Miguel era o sétimo. Pertencia, pois, a uma família numerosa e cristã. Recitavam diariamente o Santo Rosário, liam os Evangelhos e aos sábados rezavam as Vésperas na catedral.


“Miguel é um bom menino”, diziam os que lhe conheciam. Chamava a atenção sua piedade e seu espírito de sacrifício. Conta-se que se deitava debaixo da cama e que usava uma pedra como travesseiro.

Sua inclinação para a vida religiosa e retirada do mundo o levou um dia a fugir de casa e refugiar-se no monte Montseni com o fim de dedicar-se à vida eremítica.

Tinha apenas onze anos quando se tornou órfão dos dois genitores. Teve que ficar sob a tutela de seus parentes, que o tornaram comerciante. Sua vocação não era dedicar-se à venda. Mas não agradou muito e foi despedido.

Com somente doze anos foi admitido como coroinha no convento dos Trinitários calçados de Barcelona. Desde então chamava sua atenção o fervor e a devoção para com o sacramento da Eucaristia.

Ao cumprir os quinze anos (1606) foi destinado ao convento de São Lamberto, fora de Zaragoza, com o fim de iniciar seu ano de noviciado. No dia 30 de setembro de 1608 fez sua profissão, e a partir daí começa seus estudos superiores na mesma cidade do Pilar.

No mesmo ano de 1608, passa pela cidade do Ebro um religioso trinitário descalço, Frei Manuel da Cruz, que vinha de Pamplona, da nova fundação descalça trinitária. Frei Miguel fica apaixonado pelo testemunho de sua santidade. Era o que ele buscava. Uma voz interior o chamava pelo caminho dos trinitários descalços. “Leva-me contigo!”, exclama. Em 28 de janeiro de 1609, em Madrid, fez sua profissão como religioso trinitário descalço com o nome de Miguel dos Santos.

Na capital da Espanha teve a honra de conhecer pessoalmente o nosso Santo Reformador, São João Batista da Conceição.

Um dado curioso: Durante o ano de 1609, no convento trinitário descalço de Solana (Cidade-Real) residem três santos: São João Batista da Conceição, São Miguel dos Santos e o Venerável Frei Tomás da Virgem. São Miguel dos Santos chega rapidamente às profundidades da mística: oração de união, êxtase, arrebatamentos... São fenômenos que nele se deram com frequência. Em certa ocasião, o irmão Provincial lhe pergunta: “Frei Miguel, quantas horas dedicas à oração?” “Sempre estou em oração”, ele lhe responde. Pode-se dizer que ele “vivia sem terra pela terra caminhando”. Sua grande devoção era Jesus Sacramentado. Frequentemente passava as noites em adoração diante de Jesus Sacramentado. Era um adorador permanente. A Igreja o declarou ‘co-patrono’ da Adoração Noturna, juntamente com São Pascoal Bailón.

Deixou suas experiências místicas refletidas num pequeno tratado, por ele escrito, intitulado “A tranquilidade da alma”. Um dos fenômenos místicos mais conhecidos de São Miguel foi a troca do seu coração com o de Jesus, que aconteceu diante do sacrário, em uma noite de graça e de glória.

Cursou seus estudos superiores em Salamanca e em Baeza. De sua estada na cidade de Tormes se conta que o mestre Antolínez estava explicando o mistério da Encarnação quando, de repente, frei Miguel deu um grito e se elevou cerca de um metro, com os braços em forma de cruz e com seu olhar apontando fixamente um ponto misterioso. Permaneceu assim durante quinze minutos. Diante de tal fenômeno, o professor comentou: “Quando uma alma está cheia do amor de Deus, dificilmente pode escondê-lo”. Foi ordenado sacerdote em Baeza. Exerceu na cidade e nos arredores o ministério da pregação e da direção espiritual. Conversões milagrosas testemunhavam sua santidade.

Antes de preparar seus sermões passava três dias em oração aos pés de um crucifixo e outros três dias estudando o que no caderno tinha escrito. Celebrando a Eucaristia e pregando, com frequência se extasiava: era possível perceber isso porque ele se elevava do solo com os braços abertos em cruz, com o olhar fixo para cima e com a cabeça inclinada para trás. Por todos estes fenômenos místicos o chamavam de ‘o extático’.

De Baeza o transferiram para Valladolid. A um homem tão espiritual encarregaram a construção do convento da cidade de Pisuerga. Sua fama de santidade se espalhou pela cidade. O convento foi levantado como que por encanto. Os ‘grandes’ visitavam-lhe e pediam-lhe conselho. Entre eles estão o Duque de Lerma, o senhor Bispo, os nobres. O veem como um homem do céu que passa pela terra tocando-a levemente, como um raio de luz celestial.

Aos 33 anos, como seu Jesus, nasce para o céu, que era o seu lugar natural, no dia 28 de outubro de 1624. Sua morte foi um triunfo. Mesmo com o pouco tempo que esteve em Valladolid, toda a cidade acorreu às suas honras fúnebres. Mais que um funeral foi uma celebração das maravilhas de Deus realizadas em frei Miguel.


Em 1779, Pio VI o beatificou. Setenta e um anos mais tarde, Pio IX o canonizou. Na ordem é considerado e venerado como patrono da juventude trinitária. Suas relíquias são veneradas na paróquia de São Nicolau (Valladolid). É a Igreja de nosso antigo convento. Atualmente é paróquia diocesana.

terça-feira, 21 de abril de 2015

SANTO ANSELMO DE CANTERBURY (Cantuária), Bispo e Doutor da Igreja. Grande defensor da ortodoxia católica e dos direitos da Igreja no Séc. XI.



Primeiros anos
Santo Anselmo nasceu em Aosta, parte do Reino de Arles, por volta de 1033. Sua família tinha fortes relações com a poderosa Casa de Sabóia e era muito rica. Seu pai, Gundulfo, era lombardo de nascimento. Sua mãe, Ermemberga, que foi descrita como prudente e virtuosa, veio duma antiga família burgúndia.

Aos quinze anos, Anselmo desejava entrar para um mosteiro, mas não conseguiu o consentimento do pai e acabou sendo recusado pelo abade. O desapontamento aparentemente provocou-lhe uma doença psicossomática. Depois de se recuperar, Anselmo desistiu de estudar e passou a viver despreocupadamente; neste período, sua mãe morreu. Aos vinte e três, Anselmo saiu de casa, cruzou os Alpes e viajou por toda a Borgonha e a França.

Atraído pela fama de seu conterrâneo Lanfranco (que era o prior da beneditina Abadia de Bec), chegou à Normandia em 1059. No ano seguinte, depois de algum tempo em Avranches, Anselmo finalmente entrou para a abadia como noviço aos vinte e sete. Ao fazê-lo, submeteu-se à Regra de São Bento, um evento que reformularia todo o seu pensamento na década seguinte.


Anselmo é escolhido para ser Abade de seu mosteiro. 




Santo Anselmo como monje
Abade de Bec
Em 1063, Lanfranco foi nomeado abade de Caen e Anselmo foi eleito prior em Bec, um cargo que manteve por quinze anos antes de tornar-se abade depois da morte de Herluin, o fundador da abadia, em 1078. Foi consagrado abade em 22 de fevereiro de 1079 pelo bispo de Évreux, o que foi acelerado por que, na época, a Arquidiocese de Ruão (a quem se subordinava Bec) estava vaga. Se Anselmo tivesse que ser consagrado pelo arcebispo de Ruão, teria sido pressionado a jurar obediência, o que comprometeria a independência de Bec.

Sob o comando de Anselmo, Bec tornou-se o principal centro de ensino na Europa, atraindo estudantes de toda a França, Itália e outras regiões. Foi durante esta época que escreveu suas primeiras obras filosóficas, o "Monológio" (1076) e o "Proslógio" (1077–8). A elas se seguiram "Os Diálogos sobre a Verdade", "Livre Arbítrio" e "A Queda do Diabo". Neste período, Anselmo também lutou para manter a independência da abadia tanto dos poderes seculares quanto do arcebispo. Posteriormente, Anselmo teve que lutar ainda contra Roberto de Beaumont, conde de Leicester.

Anselmo ocasionalmente visitava a Inglaterra para supervisionar as propriedades da abadia lá e também para visitar Lanfranco que, a partir de 1070, havia sido nomeado arcebispo de Cantuária, de quem era considerado o sucessor natural. Com a morte dele em 1089, porém, Guilherme II da Inglaterra tomou as propriedades e as rendas da Sé e não nomeou um novo arcebispo. Em 1092, a convite de Hugo de Avranches, 1º conde de Chester, Anselmo cruzou o Canal da Mancha. Na Inglaterra, permaneceu envolvido em assuntos da abadia por quase quatro meses e então foi proibido de voltar a Bec pelo rei. Guilherme ficou seriamente doente de forma súbita em Alveston no ano seguinte e, movido por um desejo de compensar por seus atos pecaminosos que acreditava serem a causa de sua doença, permitiu que Anselmo fosse nomeado para a Sé de Cantuária (Canterbury) em 06 de março de 1093.




Arcebispo de Canterbury (Cantuária) 

Nos meses seguintes, Anselmo tentou recusar o posto alegando estar velho e doente. Em 24 de agosto, apresentou a Guilherme as condições nas quais estaria pronto a aceitar o posto. Elas eram parte de uma agenda de Reformas Gregorianas: 1. Guilherme deveria devolver as terras da Sé que havia tomado; 2. Deveria aceitar a preeminência dos conselhos espirituais de Anselmo e 3. Deveria reconhecer Urbano II como Papa (e não Clemente III, o antipapa). As recusas de Anselmo ajudaram a melhorar sua posição na barganha enquanto os termos eram discutidos com o rei, que estava profundamente relutante em aceitar as condições impostas por ele. Guilherme cederia apenas à primeira. Alguns dias depois, Guilherme tentou voltar atrás até mesmo nisso e suspendeu a investidura de Anselmo, mas, pressionado pela população, foi obrigado a seguir adiante com a nomeação. No fim, Anselmo e Guilherme concordaram que a devolução das terras de Cantuária seria a única condição aceita. Finalmente os bispos ingleses colocaram-lhe nas mãos o báculo e o levaram para igreja para ser investido. Anselmo em seguida prestou homenagem a Guilherme e, em 25 de setembro de 1093, recebeu de volta as terras de sua nova Sé. Ele foi entronado no mesmo dia, depois de receber a dispensa de suas obrigações na Normandia. Por fim, foi consagrado arcebispo de Cantuária em 4 de dezembro.
Tem se discutido sobre se a relutância de Anselmo em assumir a Sé teria sido ou não sincera. Estudiosos como Southern defendem que sua preferência teria sido permanecer em Bec. Porém, a relutância em aceitar postos importantes era um costume medieval. Vaughn afirma que Anselmo não poderia ter expressado um desejo pela posição sem correr o risco de ser visto como um carreirista ambicioso. Ela afirma ainda que Anselmo percebeu a situação política e os objetivos de Guilherme e agiu no exato momento que lhe daria a melhor condição de negociar pelos interesses de sua futura Sé e do movimento reformista. Por outro lado, a vida de eremita era uma das opções que Anselmo considerou antes de aceitar o conselho do arcebispo de Ruão e entrar para o mosteiro. William Kent acreditava que não havia razão para suspeitar da sinceridade de sua resistência. Naturalmente atraído pela vida contemplativa, Anselmo não tinha atração alguma por este tipo de cargo mesmo em períodos de paz e, assim, teria ainda menos em tempos conturbados. Anselmo sabia bem o que o esperava na função.


Conflitos com Guilherme II
Anselmo continuou a combater por suas reformas e pelos interesses de Cantuária. Sua visão sobre a Igreja era de uma Igreja universal, com sua própria autoridade interna, capaz de conter a visão de Guilherme de controle real sobre o Estado e sobre a Igreja. Por isso, tem sido descrito ora como um monge contemplativo ora como um homem politicamente engajado, determinado a defender os privilégios da Sé Episcopal de Cantuária. Um dos primeiros conflitos com Guilherme irrompeu já no seu primeiro mês. O rei preparava-se para combater seu irmão mais velho, Roberto II Curthose, duque da Normandia, e precisava de dinheiro. Anselmo estava entre os nobres de quem se esperava ajuda e ele ofereceu £500, mas Guilherme recusou exigindo mais. Posteriormente, um grupo de bispos convenceu Guilherme a aceitar a quantia original e foram até Anselmo, que afirmou ter doado o dinheiro aos pobres. Neste episódio, Anselmo foi cuidadoso e conseguiu evitar tanto acusações de simonia quanto mostrar-se um líder generoso.
As leis da igreja determinavam que os bispos metropolitanos não poderiam ser consagrados sem que antes recebessem o pálio das mãos do Papa. Anselmo, portanto, insistiu em ir à Roma para receber o seu, mas Guilherme não autorizou. O antipapa Clemente III estava lutando contra Urbano II, que havia sido reconhecido pela França e pela Normandia. Não parece que Guilherme fosse partidário de Clemente, mas claramente desejava fortalecer seus próprios interesses colocando-se na posição de decidir entre os dois rivais. Assim, quando Anselmo pediu permissão para ir ver o Papa, o rei afirmou que ninguém na Inglaterra deveria reconhecer nenhum dos dois papas antes que ele, o rei, se decidisse. Em 25 de fevereiro de 1095, os bispos e nobres da Inglaterra realizaram um concílio no castelo de Rockingham para discutir o tema no qual os bispos se alinharam ao rei, com Guilherme de Saint-Calais, o bispo de Durham, chegando ao ponto de recomendar ao rei que depusesse Anselmo. Os nobres, por outro lado, escolheram a posição de Anselmo e a conferência terminou num impasse.
Logo depois, Guilherme enviou mensageiros em segredo para Roma. Eles convenceram Urbano a enviar um legado (Gualtério de Albano) até o rei levando consigo o pálio arcebispal e os dois imediatamente deram início às negociações secretas. Guilherme concordou em reconhecer Urbano como Papa e assegurou para si o direito de autorizar que membros do clero recebessem cartas papais e as obedecessem; Gualtério, negociando em nome de Urbano, concedeu que Urbano não enviaria legados à Inglaterra sem que eles fossem antes convidados pelo rei. O maior desejo de Guilherme era que Anselmo fosse deposto e outro recebesse o pálio, ao que Gualtério respondeu que "...há boas razões para que se espere um bom resultado de acordo com os desejos do rei". Guilherme então reconheceu publicamente Urbano, mas Gualtério se recusou a depor Anselmo. Enfurecido, Guilherme tentou extorquir dinheiro de Anselmo em troca do pálio, também sem sucesso. Depois, tentou entregar-lhe o pálio pessoalmente, o que também não lhe foi permitido. Finalmente, o rei cedeu e Anselmo recebeu o pálio no altar de Cantuária em 10 de junho de 1095.
No decorrer dos dois anos seguintes, não se conhece nenhuma disputa aberta entre Anselmo e Guilherme. Porém, o rei bloqueou todos os esforços do arcebispo em suas reformas. A tensão finalmente explodiu em 1097, depois que Guilherme esmagou uma revolta galesa. Ele acusou Anselmo de ter lhe fornecido um número insuficiente de cavaleiros para a campanha e tentou multá-lo. Anselmo decidiu seguir para Roma para se aconselhar com o Papa, pois Guilherme se recusava a cumprir sua promessa de ajudar na reforma da igreja, mas o rei não lhe permitiu. As negociações terminaram com Guilherme declarando que se Anselmo partisse, tomaria de volta a Sé de Cantuária e jamais o receberia de volta como arcebispo. Por outro lado, se Anselmo resolvesse ficar, seria multado e teria que jurar que jamais apelaria novamente a Roma: "Anselmo recebeu a opções de se exilar ou de se submeter completamente".


Primeiro exílio
Exilado, Anselmo partiu para Roma em outubro de 1097. Guilherme imediatamente se apoderou das receitas da Sé e as manteve até morrer, embora Anselmo tenha permanecido titular da Sé. Ele escolheu o exílio para defender sua visão da Igreja universal, sublinhando os pecados de Guilherme em relação a ela. Embora ele tenha de fato prestado homenagem a Guilherme, Anselmo a desqualificou frente ao seu dever para com Deus e o Papa. Ele foi recebido com grandes honras por Urbano durante o cerco de Cápua, durante o qual foi muito elogiado pelas tropas sarracenas de Rogério I da Sicília (r. 1071–1101). Num grande concílio provincial realizado em Bari em 1098, que contou com a presença de 183 bispos, Anselmo recebeu a incumbência de defender a cláusula Filioque e o uso do pão ázimo durante a Eucaristia contra representantes da Igreja Ortodoxa. Em 1099, Urbano renovou a proibição da investidura secular do clero e do clero prestar homenagem a poderes seculares. No mesmo ano Anselmo se mudou para Lyon.


Conflitos com Henrique I
A vitória de Anselmo marcou o sucesso da Igreja Católica contra os monarcas ingleses na Questão das Investiduras.
Guilherme foi morto em 02 de agosto de 1100. Seu sucessor, Henrique I, convidou Anselmo de volta, escrevendo que se comprometia a ouvir os conselhos do arcebispo. Henrique cortejava Anselmo por que precisava de seu apoio para se consolidar no trono, uma vez que o arcebispo poderia a qualquer momento declarar seu apoio ao irmão mais velho de Henrique. Quando Anselmo retornou, Henrique exigiu que ele lhe prestasse homenagem em relação às propriedades de Cantuária e recebesse dele sua investidura em seu posto de arcebispo. Como o papado havia recentemente proibido o clero de fazer as duas coisas, a relação de Anselmo com Henrique já começou em conflito.
O rei se recusou a desistir do privilégio desfrutado por seus predecessores e propôs que o tema fosse levado ao Papa. Duas embaixadas foram enviadas ao Papa Pascoal II sobre a legitimidade da investidura de Henrique; ambas receberam a confirmação da ordem papal anterior. Neste ínterim, Anselmo ajudou Henrique, que estava ameaçado pela invasão de seu irmão, Roberto Curthose, e Anselmo publicamente apoiou-o, convencendo os barões ainda indecisos e ameaçando Curthose com a excomunhão.
Na festa de São Miguel de 1102, Anselmo realizou um concílio em Londres no qual ele proibiu o casamento e o concubinato aos membros das ordens sagradas36 (além de condenar a simonia e reformando os regulamentos de sobriedade e vestuário do clero). Ele estava entre os primeiros a opinar publicamente contra o tráfico de escravos em 1102, num concílio na igreja de São Pedro em Westminster, e conseguiu aprovar uma resolução contra a prática de vender homens como gado.
Por outro lado, Henrique concedeu a Anselmo autoridade sobre toda a Igreja na Inglaterra e concordou em obedecer ao Papa. Porém, como Pascoal havia reafirmado as regras sobre a investidura e as homenagens seculares, Henrique se voltou novamente contra Anselmo. Em 1103, o próprio arcebispo e um enviado real, Guilherme Warelwast, partiram novamente para Roma. Furioso, Pascoal excomungou os bispos investidos por Henrique.


Segundo exílio
Anselmo se refugiou em Lyon depois disso e aguardou os próximos passos de Pascoal. Em 26 de março de 1105, o Papa excomungou o principal conselheiro de Henrique, Roberto de Meulan, por ter convencido Henrique a continuar com as investiduras seculares, os prelados investidos por Henrique e outros conselheiros, ameaçando o próprio rei com o mesmo destino. Em abril, Anselmo ameaçou excomungá-lo pessoalmente, provavelmente para forçar a mão de Henrique nas negociações. Como resposta, o rei arranjou um encontro com Anselmo e eles conseguiram chegar numa solução de compromisso em Laigle em 22 de julho de 1105. Parte do acordo era que as excomunhões de Roberto e de seus associados fossem revogadas (dado que eles agora aconselharam o rei a obedecer ao Papa); Anselmo fê-lo por sua própria autoridade, um ato que depois teve que explicar a Pascoal. Outras condições do acordo foram que Henrique deveria abandonar a investidura secular se Anselmo obtivesse de Pascoal permissão para que clérigos prestassem homenagem aos seus nobres; que as receitas da Sé de Cantuária fossem devolvidas a Anselmo; e que os sacerdotes fossem proibidos de casar. Anselmo então insistiu em ter o acordo de Laigle sancionado por Pascoal antes de aceitar voltar para a Inglaterra. Por carta, Anselmo também pediu ao Papa que aceitasse o compromisso de prestar homenagem ao rei, pois seria um pequeno preço a pagar por uma vitória maior, o fim do conflito sobre as investiduras seculares. Em 23 de março de 1106, Pascoal escreveu a Anselmo aceitando a solução, embora ambos vissem o acordo como um compromisso temporário e pretendiam continuar pressionando pelas reformas gregorianas, incluindo o fim das homenagens.

Mesmo depois disso, Anselmo continuou se recusando a voltar para a Inglaterra. Henrique viajou para Bec e encontrou-se com ele em 15 de agosto de 1106. Lá, o rei fez mais algumas concessões, restaurando a Anselmo todas as igrejas que havia tomado. Ele prometeu ainda que nada mais seria tomado das igrejas, que prelados que haviam pago seu controverso imposto (que havia começado como um imposto sobre clérigos casados) seriam isentados de impostos por três anos e, finalmente, que tudo o que havia sido levado de Cantuária durante o exílio de Anselmo seria devolvido. Anselmo finalmente aceitou voltar depois de reforçar ainda mais a posição da igreja frente à do rei.
Já em 1107, a longa disputa sobre as investiduras estava finalmente resolvida. A Concordata de Londres anunciou os compromissos de Anselmo e Henrique em Bec. Os dois anos finais da vida de Anselmo foram tranquilos e dedicados às suas funções em Cantuária. Como arcebispo, viveu à altura de seus ideais monásticos, que incluíam zelo, prudência e instrução adequada ao seu rebanho, além de oração e contemplação.  Anselmo morreu na Quarta-Feira Santa, 21 de abril de 1109, em Cantuária, e foi enterrado na Catedral de Cantuária.

Obras
Anselmo se situa entre Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino e é chamado “O Pai do Escolasticismo". Ele preferia defender a fé pelas razões intelectuais do que pelos argumentos das Escrituras.
Anselmo dedicou-se à filosofia, aplicando a razão em vez do apelo à autoridade das Escrituras ou da patrística para estabelecer as doutrinas da fé cristã. Estilisticamente, os tratados de Anselmo assumem duas formas, diálogos, de cunho pedagógico, e meditações. Seu grande predecessor, João Escoto Erígena, foi mais especulativo e místico em suas obras.
O mote de Anselmo era "fides quaerens intellectum" ("fé em busca de entendimento") que, para ele, significava "um ativo amor de Deus em busca de um conhecimento mais profundo de Deus". Ele escreveu "Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam. Nam et hoc credo, quia, nisi credidero, non intelligam." ("Nem busco entender para que possa acreditar, mas acredito que possa entender. Por isso, também, acredito que, a não ser que eu primeiro acredite, não serei capaz de entender"). Esta frase foi possivelmente inspirada por Santo Agostinho ("Dez Homilias sobre a I João", tratado XXIX sobre João 7:14-18, §6): "Portanto, não busque entender para que acredite, mas acredite para possa ser capaz de entender". Anselmo defendia que a fé precede a razão e que a razão pode expandir a fé.
A obra-prima sobre a teoria do conhecimento de Anselmo é o tratado "De Veritate", no qual afirma a existência de uma verdade absoluta da qual todas as verdades participam. Esta verdade absoluta, argumenta ele, é Deus, que é a base ou princípio de tudo e do pensamento. A visão de mundo de Anselmo era, grosso modo, a do neoplatonismo, que herdou de seu grande influenciador, Santo Agostinho, assim como de Dionísio Areopagita, possivelmente, de Escoto. Ele também herdou sua forma racionalista de pensar de Aristóteles e de Boécio.


Provas teístas
O "Monológio", escrito em 1077, inclui uma defesa da existência de Deus, mas também muitas discussões sobre os atributos divinos e sua economia, além de algumas sobre a mente humana. A obra começa assim:
“Se alguém não sabe, seja por que não ouviu ou por que não acredita, que há uma natureza, suprema sobre todas as coisas existentes, que sozinha é autossuficiente em sua felicidade eterna, que através de sua bondade onipotente concede e faz com que todas as coisas existam ou tenham algum tipo de bem-estar, e uma grande quantidade de outras coisas que devemos acreditar sobre Deus ou sua criação, penso que este devia pelo menos se convencer da maior parte destas coisas pela simples razão se for moderadamente inteligente ”.
Nos primeiros capítulos, apresenta a defesa da bondade em todas as coisas que só podem existir pela presença da bondade "em si". A prova do Monológio argumenta a partir da existência de muitas coisas boas em direção a uma unidade da bondade, uma única coisa através da qual todas as outras coisas são boas. Ele continua explicando que "coisas" são chamadas de "boas" em graus e formas variadas que seriam impossíveis se não houvesse algum padrão absoluto e alguma bondade "em si", da qual toda bondade relativa é parte. O mesmo vale para adjetivos como "grande" ou "justo", por meio do qual coisas tem uma certa medida de grandeza e justiça. Anselmo usa este raciocínio para afirmar que a própria existência de coisas seria impossível sem algum único Ser através do qual elas passam a existir. Este Ser absoluto, esta bondade, justiça e grandeza, é Deus. Anselmo não se satisfaz completamente com este raciocínio, porém, por que começa a partir de bases a posteriori, ou seja, é um raciocínio indutivo e não uma dedução como preferia.
Em seu Proslógio, Anselmo tentou encontrar um único argumento que não precisava de nada além de si próprio como prova, que seria suficiente em si mesmo para mostrar que Deus realmente existe; que ele é a bondade suprema dependente de nada mais, mas do qual tudo depende para existir ou para seu bem-estar. Estudiosos medievais chamaram-no de "ratio Anselmi" ("argumento de Anselmo"). Immanuel Kant posteriormente chamou-o de "argumento ontológico". Anselmo definia sua crença na existência de Deus utilizando a frase "aquele que não se pode conceber nada que seja maior". Ele argumentava que, se "aquele que não se pode conceber nada que seja maior" existisse apenas no intelecto, ele próprio não seria "aquele que não se pode conceber nada que seja maior", uma vez que se pode conceber que exista na realidade, que é maior que o intelecto apenas. Segue daí, segundo Anselmo, que "aquele que não se pode conceber nada que seja maior" deve existir na realidade. A maior parte do "Proslógio" é dedicada à tentativa de Anselmo de estabelecer a identidade "daquele que não se pode conceber nada que seja maior" como sendo Deus, estabelecendo assim que Deus existe de fato.
A prova ontológica de Anselmo tem sido objeto de controvérsia desde que foi publicada pela primeira vez na década de 1070. Ela foi combatida na época pelo monge Gaunilo em sua "Liber pro Insipiente", onde argumentava que humanos não podiam passar do intelecto para a realidade. A resposta de Anselmo veio em sua "Responsio". A crítica de Gaunilo foi depois repetida muitas vezes por filósofos posteriores, entre eles Tomás de Aquino e Kant. Anselmo escreveu diversos outros argumentos para a existência de Deus baseados em argumentos cosmológicos e teleológicos.

Outras obras
Deus Pai e a Virgem Maria, dois temas explorados por Anselmo em sua teologia.
Em suas demais obras, Anselmo luta para afirmar a base racional das doutrinas cristãs da criação e da Trindade, que ele discutiu primeiro afirmando que seres humanos não poderiam conhecer Deus em si, mas apenas através de uma analogia. A que ele utilizou foi a da autoconsciência do homem.
A peculiar dupla natureza da consciência - memória e inteligência - representam a relação do Pai com o Filho. O amor mútuo entre os dois, que procede de uma relação que eles mantém entre si, é o Espírito Santo. As demais doutrinas teológicas sobre o homem, como o pecado original e o livre arbítrio, foram desenvolvidas no "Monológio" e em outros tratados.
A visão da satisfação na teoria da Expiação foi formulada por Anselmo em seu obra "Cur Deus Homo" ("Por que Deus foi feito Homem?"). Ele tentou ali explicar a necessidade racional do mistério cristão da expiação. O ponto central do argumento é que o ser humano pode compensar pelo pecado humano contra Deus, mas sendo a compensação impossível para qualquer ser humano individual, ela só poderia ser feita por Deus. Um ato assim só seria possível para Jesus Cristo, o Filho, que é tanto Deus quanto homem. A expiação é alcançada através da morte de Cristo, que tem valor infinito. Em última instância, na interpretação de Anselmo sobre a expiação, a justiça e a misericórdia divina em seus sentidos mais amplos se mostram completamente compatíveis. Melhor explicando: se Deus desejasse meramente perdoar os pecados do homem Sua misericórdia teria se conflitado com Sua justiça. Para reconciliar misericórdia e justiça era necessário um oferecimento maior que a desobediência do homem. Somente Deus poderia fazer este oferecimento, mas somente o homem deveria fazê-lo, assim somente o Deus-homem-Jesus poderia fazer, como realmente O fez na Cruz.
De acordo com esta visão, o pecado seria um débito frente à justiça divina que precisa ser pago de alguma forma. Assim, nenhum pecado, segundo Anselmo, pode ser perdoado sem uma devida "satisfação". Porém, o débito incorreto é algo muito maior que um ser humano é capaz de pagar. Todo serviço que uma pessoa pode oferecer a Deus já está alienado por conta de outros débitos para com Deus. A única forma pela qual se pode dar a satisfação - para que o homem se livre de seus pecados - seria pela vinda de um "Redentor" que fosse também tanto homem quanto Deus. Ele próprio teria que ser livre de todo pecado e, portanto, não ter nenhum débito incorrido. Sua morte seria então maior do que todos os pecados incorridos pela humanidade e corresponderia a uma superabundante "satisfação" à justiça divina.
Anselmo negou a crença que no que atualmente chamamos de Imaculada Conceição, embora sua forma de pensar tenha lançado as bases para o desenvolvimento da doutrina no ocidente. Em "De virginali conceptu et de peccato originali" ("Do Conceito de Virgindade e o Pecado Original"), Anselmo propôs dois princípios que se tornariam fundamentais na discussão. O primeiro é que seria adequado que Maria fosse tão pura que nenhum outro ser mais puro pudesse ser imaginado, com exceção de Deus. O segundo, que abriu caminho para o dogma no futuro, foi sua compreensão sobre o pecado original.  Anselmo afirmou que o pecado original seria nada mais do que a natureza humana desprovida da justiça divina e que seria transmitida (no nascimento) por que os pais não podem conceder a justiça divina por que eles próprios não a têm. O pecado original seria portanto a transmissão da decadência da natureza humana. Em contraste, os contemporâneos de Anselmo defendiam que a transmissão do pecado original teria relação com a natureza lasciva do ato sexual. Anselmo foi o primeiro a separar o pecado original do desejo sexual.


Influência
As obras de Anselmo foram copiadas e disseminadas ainda durante a sua vida e exerceram grande influência sobre os escolásticos posteriores como Boaventura, Tomás de Aquino, João Duns Escoto e Guilherme de Ockham. Seu tratado sobre a processão do Espírito Santo ajudou a guiar as especulações escolásticas sobre a Trindade, "Cur Deus Homo" iluminou o caminho para a teoria da Expiação e sua obra antecipou muito do que seria discutido nas futuras controvérsias sobre o livre arbítrio e a predestinação.


Reconhecimento
O aniversário da morte de Anselmo, em 21 de abril, é celebrado pela Igreja Católica, pela maior parte da Comunhão Anglicana e por algumas correntes do luteranismo. Sua canonização foi solicitada por Tomás Becket em 1163 e é possível que tenha sido formalmente canonizado em algum momento antes da morte deste em 1170, mas nenhum registro oficial sobreviveu, apesar de, a partir daí, Anselmo ter sido incluído no rol dos santos em Cantuária e em outros lugares. Alguns estudiosos defendem que a canonização de Anselmo só teria sido executada em 1494 pelo Papa Alexandre VI. Foi proclamado Doutor da Igreja em 1720 por Clemente XI. Em 21 de abril de 1909, 800 anos depois de sua morte, São Pio X emitiu uma encíclica, "Communium Rerum", elogiando Anselmo, sua carreira eclesiástica e suas obras. Seu símbolo na hagiografia é um navio que representa a independência espiritual da Igreja.


Famosa Oração de São Anselmo;
“Oh, meu Senhor e meu Deus, nos dê a graça de desejar a Vós com todo nosso coração, porque desejando-O , iremos procura-Lo procurando-O , iremos encontra-Lo, encontrando- O, iremos ama-Lo, amando- O, iremos odiar aqueles pecados que Vós nos redimistes na Cruz”!

Frases famosas de Santo Anselmo:
“Não quero saber para crer, mas crer para saber”
“Acreditamos que vós (Deus) sois algo que nada se pode conceber que vos seja maior”.