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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 2 de janeiro de 2016

SÃO GREGÓRIO NAZIANZENO (de Nazianzo), Bispo e Doutor da Igreja.



1.     VIDA
São Gregório nasceu de família nobre, em Arianzo, Capadócia, em 330. Sua mãe, Nona, era uma mulher piedosa, que consagrou-o a Deus quando o concebeu. Ela também obteve a conversão de seu marido, igualmente chamado Gregório, o qual alguns anos mais tarde, em 325,  foi sagrado Bispo de Nazianzo. São Gregório estudou primeiramente na escola de Retórica de Cesárea da Capadócia; depois foi para a escola cristã de Cesárea na Palestina. Logo em seguida à Alexandria e finalmente para Atenas.[1] Teve por companheiros de estudos a São Basílio e Juliano, o apóstata.







Depois de brilhantes estudos literários, recebeu o batismo, por volta de 358, e tomou a decisão de viver a “filosofia” monástica. Entretanto, não estava inteiramente decidido, como havia prometido, a deixar a família para reunir-se a São Basílio. No entanto, passou alguns breves períodos com este, na solidão do ermo, durante os quais ambos se aplicaram ao aprofundamento teológico, estudando os escritos de Orígenes.[2]
No Natal de 361 foi ordenado sacerdote por seu próprio pai. Em 372, São Basílio o obrigou, por necessidades de sua política religiosa, a aceitar o episcopado na estação postal de Sásima, mas acabou não indo para esta cidade. Depois da morte de seu pai, em 374, dirigiu por pouco tempo a igreja de Nazianzo, mas logo se retira a Selêucia de Isáuria, onde ficou um tempo muito breve, pois um grupo de cristãos de Constantinopla dirigiu-se a ele pedindo que fosse àquela cidade, a fim de ajudar a reorganizar a igreja oprimida por uma série de Imperadores filo-arianos, mas esperançosa de melhores dias por causa da morte do Imperador Valente. São Gregório aceitou, passando dois anos em Constantinopla, desenvolvendo ação muito benéfica para os católicos. Ao chegar à cidade, encontrou todas as igrejas e prédios locais em mãos dos arianos, conseguindo residência apenas pelo fato de ter um parente na região. Conseguiu uma igreja que dedicou-a a Santa Anastácia. Seus sermões atraíam público sempre mais numeroso e em consequência abundantes conversões.[3]
Em 380, no dia 24 de Dezembro, Teodósio foi aclamado Imperador. Este apoiou os católicos e devolveu-lhes os bens que estavam em posse dos arianos. Em maio de 381 o I Concílio Geral de Constantinopla reconheceu São Gregório como Bispo da capital. Aconteceu, porém, que os Bispos do Egito e da Macedônia impugnaram tal designação. E São Gregório foi obrigado a retornar à Nazianzo, onde por mais ou menos dois anos se dedicou à cura pastoral daquela comunidade cristã. Finalmente retirou-se para Arianzo a fim de se dedicar aos estudos e levar uma vida ascética. Em 390, Deus acolheu em seus braços este servo fiel, o qual, com inteligência perspicaz, O tinha defendido nos escritos e cantado em suas poesias.[4]


2.     OBRAS
“Fui criado para me elevar até Deus com as minhas ações!”.[5] Assim concluía São Gregório Nazianzeno, sua reflexão sobre a missão que Deus lhe tinha confiado. De fato, ele colocou ao serviço de Deus e da Igreja o seu talento de escritor e de orador. Compôs numerosos discursos, vários panegíricos e homilias, muitas cartas e obras poéticas (quase 18.000 versos!): uma atividade verdadeiramente prodigiosa.[6]


2.1.  Os Discursos
As melhores composições dele são os 45 Discursos que se conservaram até hoje. A maior parte foi nos anos 379-381, o período mais importante de sua vida, quando as atenções universais se voltavam para ele, por ser bispo de Constantinopla. Eis o elenco dos mesmos:           
a) Os cinco discursos teológicos, pronunciados em Constantinopla no verão e outono de 380. Por causa destes discursos ele recebeu o titulo de “o Teólogo”. Defendia neles os dogmas da Igreja contra os eunomianos e macedonianos. Apesar de sua intenção ser especificamente a de proteger a fé nicena das más interpretações, representam o resultado maduro de um estudo prolongado e intensivo da doutrina trinitária. Além de refutar com argumentos novos o arianismo, no quinto discurso defende claramente a divindade do Espírito Santo contra os macedonianos.[7]
b) Sobre a Ordem e a Instituição dos Bispos e Sobre a Moderação e Propósito nas Controvérsias. Denuncia a paixão dos constantinopolitanos pelas controvérsias e argumentos dogmáticos. Novamente, oferece uma explicação detalhada sobre a doutrina trinitária.
c) Discurso Apologéticos. Consta das invectivas contra Juliano, o Apóstata, a quem São Gregório havia conhecido pessoalmente em Atenas. Foram compostos depois da morte do imperador.
d) Discursos Panegíricos e Hagiográficos são sermões quotidianos.
e) Os discursos de ocasião. Entre eles o mais importante de todos é o Apologeticus de fuga, onde descreve o caráter e as responsabilidades do ofício sacerdotal.

3.     ASPECTOS TEOLÓGICOS
Sua teologia se encontra explicita ou implicitamente em seus discursos, poemas e cartas, e não em comentários às Escrituras ou em algum tratado teológico. Contudo, “São Gregório representa, na teologia, um progresso claro a respeito de São Basílio, não só em terminologia e formas dogmáticas, que são melhores, senão, também, a realização da teologia como ciência e um conhecimento mais profundo de seus problemas.”[8]
Em mais de uma ocasião, trata explicitamente da natureza da teologia. Discute as fontes da teologia, as características dela, a ecclesia docens e a ecclesia discens; seus objetivos, o espírito da teologia, fé e razão, a autoridade da Igreja, a fim de precisar o máximo possível os termos, evitando ambiguidades. Para São Gregório, ser teólogo é ser “Arauto de Deus”.

3.1.  Doutrina Trinitária
Em praticamente todos os seus discursos trata sobre a Santíssima Trindade.
Dentro do discurso Sobre o Santo Batismo, apresenta um detalhado resumo de seus ensinamentos trinitários:
“Dou-lhe esta profissão de fé para que te sirva de companheira e protetora durante toda a vida: uma só divindade e um só poder, que se encontram conjuntamente nos Três e compreende aos Três separadamente; não é distinta em substância ou natureza, nem aumente ou diminui por adições ou subtrações; é igual baixo todos os conceitos, idêntica em tudo: a conjunção infinita de Três infinitos, sendo cada qual Deus se se lhe considera aparte, tanto o Pai como o Filho como o Espírito Santo, conservando a cada qual sua propriedade (ίδιότης proprietas).[9]
Seu grande mérito foi o de oferecer pela primeira vez uma definição clara das caraterísticas distintivas entre as Pessoas. Além disso, quando São Basílio trata do relacionamento entre as Três Pessoas, só o faz na relação Pai e Filho, ao passo que São Gregório já trata do Espírito Santo.[10]
Ademais, foi São Gregório quem empregou o termo ‘processão’ para tratar da relação entre o Espírito Santo e as Duas outras Pessoas Divinas. Assim explica ele: “O Espírito Santo é Espírito de verdade, que procede do Pai, mas não à maneira de filiação, porque não procede por geração, senão por processão.[11]

3.2.  Espírito Santo
Em 372, São Gregório, em um sermão público, afirmou que o Espírito Santo é Deus. Ele não titubeou – como fez São Basílio – em expressar clara e explicitamente a divindade do Espírito Santo em público. Muito bela é esta sua afirmação:
“Até quando vamos ocultar a lâmpada debaixo do alqueire e privar os demais do pleno conhecimento da divindade do Espírito Santo? A lâmpada deveria ser colocada sobre o candelabro para que ilumine todas as igrejas e todas as almas do mundo inteiro, não mais com metáforas, senão com uma declaração (Orat. 12,6).”[12]

3.3.  Cristologia
Tão profunda quanto sua doutrina sobre a Trinidade e o Espírito Santo, é sua cristologia, que mereceu à aprovação dos concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451). Suas famosas cartas a Cledônio servirão à Igreja de excelente guia nos debates do século seguinte. Ele defende a doutrina essencial da humanidade completa de Cristo, incluída uma alma humana, contra as ensinamentos de Apolinário, o qual afirmava haver na humanidade de Nosso Senhor um corpo e uma alma animal onde a divindade se fazia de alma humana superior. Afirma claramente haver em Nosso Senhor as duas naturezas, humana e divina.
Entretanto, não chegou a explicitar claramente a existência de uma única Hipóstasis em Nosso Senhor, o que será afirmado no século seguinte.

3.4.  Mariologia
Já muito tempo antes do Concilio de Eféso (431), graças a São Gregório, o termo theotokos transformou-se em pedra fundamental da ortodoxia. Em um trecho de suas obras demonstra o dogma da maternidade divina de Maria que é o eixo da doutrina da Igreja acerca de Cristo e da salvação. Chega a afirmar que quem não aceita a maternidade divina de Nossa Senhora é um ateu e está fora da comunhão com a Divindade.[13]

3.5.  Doutrina Eucarística
São Gregório de Nazianzo está firmemente convencido do carácter sacrifical da Eucaristia. Em seu Apologetius de fuga descreve a Eucaristia como “o sacrifício externo, antítipo dos grandes mistérios”.[14]
Enfim, não é sem razão que o Papa Bento XVI comenta do Santo em uma audiência geral de 8 de agosto de 2007: “Teólogo ilustre, orador e defensor da fé cristã no século IV, foi célebre pela sua eloquência, e teve também, como poeta, uma alma requintada e sensível”.[15]

Por Rodrigo Fujyama
BIBLIOGRAFIA

ALBERIGO, Giuseppe (org.). História dos Concílios Ecumênicos. Tradução de José Maria de Almeida. São Paulo: Paulus, 1995.
ALTANER, Berthold; STUIBER, Alfred. Patrologia. Tradução de Monjas Beneditinas. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2004.
S. BASÍLIO MAGNO. Homilia sobre Lucas 12; Homilias sobre a origem do homem; Tratado sobre o Espírito Santo. Tradução de Roque Frangiotti e Monjas Beneditinas. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2005.
BENEDETTO XVI. I Padri della Chiesa: da Clemente Romano a Sant’Agostino. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2008.
BOGAZ, Antônio S.; COUTO, Márcio A.; HANSEN, João H. Patrística: caminhos da Tradição Cristã. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2008.
COLOMBÁS, García M. El monacato primitivo. 2.ed. Madrid: B.A.C, 2004.
Dicionário patrístico e de antiguidades cristãs. Tradução de Cristina Andrade. Petrópolis: Vozes, 2002.
DROBNER, Hubertus. Manual de patrologia. Tradução de Orlando dos Reis e Carlos de Almeida. Petrópolis: Vozes, 2003.
LLORCA; G.ªVILLOSLADA; LABOA. Historia de la Iglesia Católica: Edad Antigua. 7.ed. Madrid: BAC, 2005.
LLORCA, Bernardino (S.J.). Manual de Historia Eclesiástica. 3.ed. Barcelona: Labor, 1951.
MONDIN, Battista. Dizionario dei teologi. Bologna: ESD, 1992.
MORESCHINI, Cláudio. Basílio Magno. Tradução de Francisco Gomes. São Paulo: Edições Loyola, 2010.
QUASTEN, Johannes. Patrología II: la edad de oro de la literatura patrística griega. Tradução de Ignacio Oñatibia (org.). 7.ed. Madrid: B.A.C., 2004.
RAMOS-LISSÓN, Domingo. Patrología. Navarra: EUNSA, 2005.
[1] Cf. BETTENCOURT, Estêvão Tavares. Curso de Patrologia. Rio de Janeiro: Paulus, 2003. p.93, 94.
[2] Cf. GRIBOMONT, Jean et al. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Tradução de Cristina Andrade. São Paulo: Paulus, 2002. p. 653.
[3] Cf. QUASTEN, Johannes. Patrologia II. p. 261-263.
[4] Cf. BETTENCOURT, Estêvão Tavares. Op. cit. p. 94.
[5] Cf. Oratio 14, 6 de pauperum amore: PG: 35, 865.
[6] Cf. Cf. BENEDETTO XVI. I Padri delle Chiesa: da Clemente Romano a Sant’Agostino. Roma: Vaticana, 2008. p. 99.
[7] Cf. QUSATEN, Johannes. Op. cit. p. 264-270.
[8] Cf. QUSATEN, Johannes. Op. cit. p. 275.
[9] Apud Idem, p. 276-277.
[10] Cf. QUSATEN, Johannes. p. 278.
[11] Apud QUASTEN, Johannes. p. 278.
[12] Idem, p. 278.
[13] Cf. QUSATEN, Johannes. p. 281.
[14] Cf. QUSATEN, Johannes. Op. cit. p. 281, 282.
[15] “Illustre teologo, oratore e difensore della fede cristiana nel IV secolo, fu celebre per la sua eloquenza, ed ebbe anche, come poeta, un’anima raffinata e sensibile”  (Cf. BENEDETTO XVI. Op. cit. p. 93.)


(Fonte: http://academico.arautos.org/2013/09/sao-gregorio-nazianzeno-teologo-ilustre-orador-e-defensor-da-fe-crista/)

SÃO BASÍLIO MAGNO, Bispo e Doutor da Igreja. O maior defensor da divindade do Espírito Santo.



1. Vida

São Basílio é o único dos Padres capadócios distinguido com o sobrenome de “Grande”. O título é justificado por suas extraordinárias qualidades como estadista e organizador eclesiástico, como expoente egrégio da doutrina católica e como um segundo Atanásio na defesa da ortodoxia. Além de ser considerado como o Pai do monaquismo oriental e reformador da liturgia.[1]

 São Basílio nasceu cerca de 330, de pais nobres, ricos e piedosos, em Cesareia da Capadócia. A quantidade de santos existentes em sua família é impressionante: seu pai e sua mãe são santos; seu avô foi mártir, sua avó é Santa Macrina a Anciã; seus bisavós eram São Basílio o Ancião, e Santa Emélia; além de três irmãos: Santa Macrina a Jovem, São Pedro, Bispo de Sebaste, e São Gregório, Bispo de Nissa.[2]
Os grandes amigos: São Basílio Magno
e São Gregório de Nazianzo. 

Realizou seus primeiros estudos em Cesareia, com seu pai, seguindo depois para Constantinopla e Atenas, onde encontra São Gregório Nazianzeno, com o qual se unirá em amizade estreita durante os difíceis combates do tempo. Um de seus companheiros de estudo chamava-se Juliano, ao qual, mais tarde, a História dará o triste epíteto de “Apóstata”.

Quando Basílio voltou a Cesaréia, em 356, recebeu o Batismo e o leitorado. Após isto, decidiu vender os seus bens – uma boa quantidade – a fim de levar uma vida solitária. Pouco durou sua solidão, pois um grande número de pessoas se lhe juntaram, a fim de levarem vida monástica. Daí surgiu a instituição monacal basiliana, para qual, junto com São Gregório Nazianzeno, São Basílio comporá duas regras que, juntamente com a de São Pacômio será a base da vida monástica do oriente, como a de São Bento será para o ocidente.

Para tal institucionalização da vida monacal, empreendeu longas viagens: Síria, Palestina, Mesopotâmia, Egito, visitando cenóbios, mosteiros, a fim de deles colher inspiração.

Sua vida monacal, continuada depois destas viagens, foi interrompida em 364 pelo apelo de Eusébio, bispo de Cesaréia, que o chamou para colaborador e conselheiro. Em 370 sucede a Eusébio, tornando-se o exarca da importante diocese do Ponto.[3]

Nesta função procurou de todos os modos, acabar com o arianismo, que vivia uma época de prestígio, graças ao imperador Valente. Este, tomando conhecimento da posição de São Basílio, procurou de todas as formas amedrontá-lo, mas em vão. Primeiro, enviou o prefeito Modesto para ameaçá-lo. Este, após as firmes e inflexíveis respostas de São Basílio, exclamou com arrogância: “Nunca ninguém me falou desta maneira!” Ao que retrucou Basílio: “É porque ainda não te havias confrontado com um bispo!”.

Após este fracasso de Modesto, Valente procurou ser mais violento: dividiu a diocese de São Basílio, aumentando o poder dos arianos. Porém, mais que Valente para o mal, o santo bispo de Cesaréia era infatigável para a causa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Neste tempo, as coisas estavam de tal forma no oriente que pouquíssimos bispos ainda se mantinham unidos a Roma. União com Roma: eis uma das grandes missões de São Basílio. Tentou-a através do grande Santo Atanásio, que o ajudou durante pouco tempo, pois sua missão na terra já se realizara sendo chamado à glória de Cristo cuja divindade defendeu durante toda sua vida. Não desistiu o Santo exarca, enviando homens de confiança a um sem número de lugares. Obteve êxito extraordinário, como se verificou no sínodo de Ilíara do ano 375, onde, na presença de Valentiniano, se juntaram muitos bispos ocidentais e tomaram o partido de São Basílio. A partir de então seu prestígio não fez senão crescer, sendo a ocasião perfeita para combater o apolinarismo, o macedonianismo, e o arianismo – este último, segundo a visão de Eunômio.

Entretanto, Deus, em seus insondáveis desígnios, chamou-o a si em 379, quando ele contava apenas 50 anos.[4]

Os frutos de seus esforços logo se fizeram sentir: poucos meses depois de sua morte, num Sínodo de Antioquia, se chegava a uma concórdia entre a Igreja Oriental e Ocidental.[5]

Ao Magno Capadócio, podem se aplicar suas próprias palavras a respeito de Jó: “Campeão imbatível, que suportou violentos assaltos do demônio, semelhantes ao ímpeto de uma torrente, com ânimo imperturbável e com propósito irremovível; e nas tentações tanto se mostrou superior, quanto maiores e árduas apareciam as lutas que empreendeu com o adversário.”[6]


2. Obras

Suas obras são: Contra Eunômio; Sobre o Espírito Santo; Moralia (Τα ήθικά); duas regras monásticas; Ad adolescentes; Homilias e sermões; In Hexaemeron; Homilias sobre os salmos; Comentários sobre Isaías; Alguns outros sermões e um enorme número de cartas.


3. A teologia de São Basílio

 3.1. Doutrina Trinitária

Para os redatores do Credo de Niceia, entre os quais Santo Atanásio, não havia a distinção entre Ousía e Hypostasis, o que ocasionou muitas controvérsias. São Basílio foi o primeiro a fazer a distinção: em Deus há uma Ousía e três Hypostasis.

“Para ele, ousía significa existência ou identidade substancial de Deus, enquanto que hipóstase quer dizer a existência de uma forma particular, a maneira de ser de cada uma das Pessoas.”[7]

Tudo isto, servirá de base para o Concílio de Calcedônia (451).


3.2 Cristologia

Quanto à cristologia, São Basílio não fez senão reafirmar e esclarecer o que fora definido em Nicéia. Assim afirmou ele: “Não podemos acrescentar nada ao Credo e Nicéia, nem sequer a coisa mais leve, fora a glorificação do Espírito Santo, e isto porque nossos pais mencionaram este tema incidentalmente.” (Ep. 258,2).[8]

A mesma distinção entre Hipóstases e Ousía, usada para a doutrina trinitária, servirá para a cristologia. Refutando aos partidários do Homoiousios, escreve: “Confessa uma só ousía nos dois [Pai e Filho] para não cair no politeísmo.”[9]

Entretanto, uma das mais importantes distinções que fez, foi sobre o conceito de Relação.

Na polêmica contra Eunômio, o qual afirmava que o caráter próprio da divindade é de ser “não gerado”, São Basílio explica que os nomes Pai e Filho, não definem a essência (Ousía), mas, sim, a ‘relação’ entre Eles. São Basílio emprega o termo ‘relação’ no sentido que Aristóteles dá em suas categorias. Assim, o nome de homem, mineral, animal, dizem respeito à essência do ser. Já pai, esposo, escravo, dizem respeito à ‘relação’, pois nenhum homem seria pai sem ter filho, esposo sem esposa, ou escravo sem senhor. Desta forma, dizer que o Filho não é gerado, ou não é eterno, vale a dizer que o Pai nem sempre foi Pai, pois se não havia Filho, esta relação de paternidade, em algum momento não existiu. Cair-se-ia num ciclo vicioso…

Com esta explicitação, São Basílio iluminou toda a teologia trinitária e cristológica com um brilho difícil de ser superado, e desferiu o ‘golpe de misericórdia’ no arianismo.


3.3. A Divindade do Espírito Santo

O Concílio de Niceia, convocado para discutir a doutrina de Ario sobre a divindade do Filho, não enfrentara o problema da divindade do Espírito Santo.

São Basílio defendia a divindade do Espírito Santo de maneira firme, mas prudente. Para não criar rivalidades mais crônicas do que as já havidas com os arianos, e assim causar mais divisões na Igreja, ele afirmava a divindade da Terceira Hypóstasis, com argumentos cautelosos. Afirma que se o Batismo, cuja fórmula foi instituída pelo próprio Senhor Jesus, é realizado em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, significa que este último não é alheio à divindade das outras duas Pessoas. Portanto, o Espírito Santo não é criatura.

A partir desta afirmação, acusaram-lhe de dar ao Espírito Santo uma prerrogativa que é exclusiva do Pai: a de “não gerado”. Isto ocasionou que – alguns afirmam que por primeira vez, antes mesmo de São Gregório Nazianzeno – São Basílio empregasse o termo “procede”, tirado do Evangelho de São João 15, 26, por primeira vez em sentido técnico.

Entretanto, o Espírito Santo não foi declarado explicitamente Deus, pois isto nas Sagradas Escrituras é apenas vislumbrado. Mas a doutrina de São Basílio e dos outros capadócios será a base para o Concílio de Constantinopla, onde a divindade do Espírito Santo será definitivamente expressada.

Digna de menção é esta da passagem de sua obra Sobre o Espírito Santo: “Substância inteligente, de poder infinito, grandeza ilimitada, fora do tempo e dos séculos, em nada ciosa de seus próprios bens. Para ele [Espírito Santo] voltam-se todos os que anseiam pela santificação, para ele se dirigem os anelos dos que vivem segundo a virtude, quantos recebem o refrigério de seu sopro, e são amparados para alcançar o fim adequado a sua natureza. Aperfeiçoa os outros, enquanto Ele mesmo de nada carece. Não é um ser vivo que precise se refazer; ao contrário é provedor de vida. Não aumenta progressivamente, mas logo possui a plenitude; é consistente por si mesmo, está em toda parte. Origem da santificação, luz inteligível, concede por si mesmo certa iluminação a toda faculdade racional, a fim de que descubra a verdade. Inacessível por sua natureza, faz-se, contudo, inteligível, por bondade.”[10]


3.4. Eucaristia

Além de seguir toda a doutrina tradicional da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo nas espécies do pão e do vinho, São Basílio menciona o costume da comunhão diária e da reserva do Santíssimo Sacramento já naquela época.


3.5. Confissão

São Basílio parece ter sido o primeiro a instituir a confissão auricular. Aconselhava-a, sobretudo, aos monges em relação a seus superiores, ainda que não fossem sacerdotes. Evidentemente, neste caso não era sacramental, mas disciplinar.

Quanto aos que cometiam pecados graves e se preparavam para receber o Sacramento da Reconciliação, “na Epístola canônica (cf. vol.1 p.419s) menciona quatro graus: o estado ‘dos que choram’, cujo posto estava fora da igreja (προίσκλαυσις); o estado dos escutam, que estavam presentes para a leitura das Sagradas Escrituras e para o sermão (άκρόασης); o estado dos que se prostram que assistiam de joelhos a oração (υπόσταση); por último, o estado dos que estavam de pé’ durante todo o ofício, mas não participavam da comunhão (σύστασις).[11]

Os três primeiros estados duravam três anos, e o último durava dois. Só após este período o pecador poderia ser readmitido na comunidade e na Eucaristia.

Como conclusão, São Basílio nos anima a lutar pela fé nestes tempos laicizados: “Estão prontos os preparativos da guerra contra nós. Os espíritos estão aguçados contra nós, e as línguas caluniadoras lançam suas flechas com maior intensidade do que a empregada ao apedrejar Estêvão aqueles que odiavam os cristãos. Mas, não se escondam! Efetivamente, pretexto para a guerra somos nós, mas na verdade o alvo em mira está mais alto. Contra nós, de fato, se preparam os mecanismos de guerra e as ciladas, e estimulam-se mutuamente ao esforço de dar cada qual o que possui em experiência e coragem. Mas é a fé que é combatida. Meta comum de todos os adversários, inimigos da sã doutrina, é abalar o fundamento da fé em Cristo, arrasando, fazendo desaparecer a Tradição Apostólica.”[12]

Por Rodrigo Fujyama

[1] Cf. QUASTEN. Patrología II. p. 224.

[2] Cf. DROBNER. Manual de Patrologia. p. 276; MONDIN, Battista. Dizionario dei teologi. p. 99.

[3] Cf. ALTANER; STUIBER. Patrologia. p. 293.

[4] Cf. LLORCA; G.ªVILLOSLADA; LABOA. Historia de la Iglesia Católica: Edad Antigua. 7.ed. BAC: Madrid, 2005. p. 462.

[5] Idem.

[6] S. BASÍLIO MAGNO. Homilia sobre Lucas 12, Homilias sobre a origem do homem, Tratado sobre o Espírito Santo. Tradução de Roque Frangiotti e Monjas Beneditinas. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 25.

[7] Apud QUASTEN. Patrología II. p. 252.

[8] Idem, p. 251.

[9] Idem, p. 254.

[10] SÃO BASÍLIO MAGNO. Op. Cit. p. 115.

[11] QUASTEN. Patrología II. p. 259.

[12] SÃO BASÍLIO MAGNO. Op. Cit. p. 117-118.


Fonte: http://academico.arautos.org/2013/09/sao-basilio-magno/

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Beato Benedito (Benedict) Daswa, Leigo, Esposo, Pai de Família e Mártir.



Pai de família morto por se opor a ‘magia negra’ é beatificado na África do Sul. Foi o martírio o que levou Benedict Daswa à honra dos altares. Ele morreu porque se negou a cooperar com as práticas pagãs e supersticiosas de seus conterrâneos.

No último dia 13 de setembro, a Igreja do mundo inteiro se uniu ao povo da África do Sul em ação de graças pela vida e pelo testemunho de Benedict Daswa.

O bispo da diocese de Tzaneen, Joao Noe Rodriguez, vê a beatificação como um evento verdadeiramente significativo não só para a comunidade sul-africana, como para toda a Igreja universal.

"Não estamos celebrando a memória de Benedict Daswa por nacionalismo, mas porque ele era um homem de muita fé. E isso é o que é bonito: ele era um de nós e, ao mesmo tempo, profundamente comprometido na vida da sua família, do seu trabalho e da sua comunidade. Um homem que estava servindo, ajudando e educando: uma completa inspiração de fé para todos."


Esposo, pai e professor.

Nascido no vilarejo de Mbahe, província de Limpopo, a 16 de junho de 1946, Tshimangadzo Samuel Daswa foi criado em meio à tribo dos lemba, um grupo étnico e religioso que observa leis e rituais judaicos tradicionais.

Na juventude, trabalhou como pastor de rebanhos, antes de começar sua educação formal, em 1957. Após a morte inesperada de seu pai, assumiu a responsabilidade financeira por sua família, trabalhando para sustentar seus três irmãos e sua irmã, a fim de que continuassem estudando.

Durante as férias escolares, viajando para Johannesburgo à procura de emprego, Samuel se aproxima de um jovem cristão e começa a frequentar círculos de amigos católicos.

Na volta para Mbahe, ele começa a receber formações de um catequista leigo, Benedict Risimati, que lhe oferece aulas semanais e uma celebração dominical debaixo de uma figueira do vilarejo (a Missa era celebrada apenas uma vez por mês). Risimati exerce forte influência sobre o jovem Daswa, que, depois de receber catequese por dois anos, é batizado, no dia 21 de abril de 1963, com o nome cristão de "Benedict". Até o fim de sua vida, ele será inspirado pelo lema de São Bento: "Ora et labora – Reza e trabalha".

Benedict consegue obter sua graduação e passa a dar aulas na escola primária de uma vila próxima. Serve aos seus alunos e a toda a comunidade como professor e catequista, além de desenvolver um trabalho de caridade com as famílias mais pobres. Por sua honestidade e dedicação como professor, pouco a pouco conquista o respeito e a estima de todos no vilarejo.

Ele ajuda a construir a primeira igreja da vila de Nweli e, em 1º de janeiro de 1979, torna-se diretor da escola da região. Em seu novo posto, ele trabalha dando apoio a seus professores e proteção a seus estudantes. Quando estes faltam às aulas, ele procura as famílias para ver se precisam de ajuda. Conta-se que ele chegou a convencer um pai a permitir que sua filha terminasse os seus estudos, evitando que ela se casasse com um homem mais velho. Alunos impossibilitados de pagar as taxas da escola recebem dinheiro trabalhando em sua horta e na colheita de alimentos, os quais são distribuídos a famílias carentes do vilarejo.


O Beato e sua esposa, Shadi. 

Em 1980, Benedict casa-se com Shadi Eveline Monyai. O jovem e fecundo casal será abençoado com oito filhos. Ele ficou conhecido por quebrar a tradição, ajudando a sua esposa nas tarefas domésticas. Seu comportamento era tão chocante que alguns no vilarejo acreditavam que ele estava enfeitiçado.


Um mártir pela fé

Em novembro de 1989, chuvas carregadas e temporais relampejantes causam danos severos à região. Em janeiro de 1990, os líderes do vilarejo começam a dizer que as tempestades se devem à ação de "magia negra". Eles exigem que os moradores da vila paguem uma taxa, a fim de contratar um curandeiro e identificar o bruxo responsável pela maldição.

Benedict, que não participou nem da discussão nem da decisão, recusa-se a pagar, observando que tudo aquilo não passava de um fenômeno natural. Ele estava particularmente preocupado por aquela repentina adesão a superstições antigas e à crença de que um bruxo poderia ter causado os relâmpagos. Sua atitude era explicada, sobretudo, por sua fé católica, que o proibia de participar em qualquer coisa ligada à feitiçaria ou a atos de violência.

Muitos no vilarejo, porém, viram a sua resistência em cooperar como um ataque às crenças tradicionais da comunidade. O veredito final? Benedict deveria ser morto.

No dia 2 de fevereiro de 1990, voltando de carro para casa, Benedict encontra a estrada bloqueada por uma árvore caída. Enquanto tenta limpar o caminho, é atacado por um grupo de jovens rapazes que começam a atirar-lhe pedras. Sangrando e machucado, ele deixa seu carro e sai à procura de ajuda em uma cabana próxima. Quando os criminosos chegam à cabana, ameaçam matar as donas da casa, caso elas não revelem onde Benedict está escondido. Ouvindo as ameaças, Benedict sai de seu esconderijo e pergunta-lhes por que, afinal, eles queriam matá-lo. Sem responder, eles atacam Benedict e espancam-no até a morte. – Senhor, em tuas mãos recebe o meu espírito – são as últimas palavras de Daswa.



O caminho para a beatificação

A Missa de funeral foi celebrada no dia 10 de fevereiro. A procissão com o seu corpo saiu da casa onde ele morava até a igreja que ele tinha ajudado a construir, em Nweli. Durante a cerimônia, todos os padres trajaram paramentos vermelhos, demonstrando a firme convicção de que Benedict tinha morrido como mártir.



A causa de beatificação de Benedict Daswa foi aberta em 10 de junho de 2008. No último dia 22 de janeiro, o Papa Francisco reconheceu o seu martírio, abrindo o caminho para a sua beatificação.

Seguindo uma tradição antiquíssima da Igreja, os restos mortais de Benedict foram removidos de seu túmulo em 24 de agosto, em preparação para a sua beatificação. Durante a exumação, estiveram presentes todos os seus filhos. A pedido deles, o seu caixão foi primeiramente transportado para junto do túmulo de sua amada esposa (que morreu em 2008). Ali, seus restos físicos foram examinados e pequenas partículas de seus ossos e pedaços de sua roupa foram removidos, para serem venerados como relíquias. Por fim, o caixão foi lacrado e coberto com um tradicional tecido claro dos venda. Depois, foi levado por seus filhos a uma urna recém-construída na igreja paroquial de Mbahe.


Uma companhia no caminho para o Céu

São Jerônimo escreveu certa vez que "o martírio não consiste apenas em morrer pela fé, mas também em servir a Deus com amor e pureza de coração todos os dias da nossa vida". O bem-aventurado Benedict Daswa é uma dessas almas agraciadas que viveram esse mistério de maneira particularmente efetiva em sua própria vida. Foi o que disse o Papa Francisco, no dia 13 de setembro, durante a tradicional oração do Angelus, na Praça de São Pedro:

"Na sua vida, [Benedict] demonstrou sempre muita coerência, assumindo corajosamente atitudes cristãs e rejeitando hábitos mundanos e pagãos. O seu testemunho ajude especialmente as famílias a difundir a verdade e a caridade de Cristo. E o seu testemunho junta-se ao de tantos nossos irmãos e irmãs, jovens, idosos, adolescentes, crianças, perseguidos, expulsos, assassinados por confessarem Jesus Cristo."

Comprometido com sua família e com sua vocação de pai e professor, Benedict realmente fez da fé católica o primeiro ponto de referência em todos os aspectos de sua vida.

Em entrevista concedida antes da beatificação, o arcebispo William Slattery, de Pretória, capital da África do Sul, afirmou que o bem-aventurado Benedict Daswa é honrado como mártir e exemplo não só para o povo sul-africano, como para o mundo inteiro: "O Papa está dizendo: Povos do mundo, eis um antepassado espiritual, um exemplo para o mundo inteiro, e, também, uma companhia em nosso caminho rumo a Deus. Porque todos nós somos uma família: vivos e mortos, todos nos movemos na direção d'Ele."

O arcebispo concluiu dizendo que "os santos e os beatos são presentes de Deus para nós, um exemplo da graça de Deus operando em Seu povo".


Fonte: Aleteia | Tradução e adaptação: Equipe CNP

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Beato Charles de Foucauld, Presbítero e Eremita. Apóstolo Silencioso do Evangelho.



Biografia e Espiritualidade
Charles de Foucauld, ou Carlos de Foucauld, ou Carlos de Jesus, ou ainda Irmão Carlos de Jesus como popularmente é conhecido, é o nome de um ex-militar convertido que nos deixou uma verdadeira espiritualidade do escondimento, do deserto, do serviço aos mais humildes e de uma intimidade profunda com Deus a partir do Evangelho de Jesus e de Sua presença eucarística.

Nasceu visconde em 15 de setembro de 1858, em Estrasburgo, França. Aos nove anos ficou órfão e fora criado por seu avô, o coronel de engenharia, Charles de Morlet. Seguiu carreira militar. Em 1878 o encontramos na mais aristocrata das instituições francesas, a Escola de Cavalaria de Saumur. Em 1880, como tenente do regimento de Hussardos, vai para a Argélia, colônia norte-africana francesa. Durante esta primeira juventude de jovem aristocrata, o futuro santo, teve uma vida dissoluta de amantes, luxos e prazeres, onde começou a dilapidar sua fortuna.
O contato com o deserto do norte de África, porém, lhe deu novas perspectivas de vida. Após ajudar a sufocar algumas revoltas, em lugar de voltar para França, preferiu ficar no deserto da Argélia e do Marrocos, onde escreveu dois livros de valor científico e estratégico-militar: “Reconhecimento do Marrocos” e “Itinerários do Marrocos”. Tornou-se explorador em Marrocos, chegando a receber uma medalha da Sociedade Francesa de Geografia em reconhecimento pelo seu trabalho de investigação no Norte de África.

Para isto fez longas incursões a cavalo percorrendo milhares de quilômetros pelos desertos que o colocaram em contato com a hospitalidade tradicional dos muçulmanos e aquele Sahara que o fascinou por sua imensidão, solidão e silêncio, e onde os muçulmanos rezam três vezes por dia ao Deus misericordioso e clemente.

Neste momento em que descobre o Deus sempre presente na fé dos muçulmanos, ele se pergunta por sua própria fé e começa a procurar a luz de Deus num cristianismo decadente. Até o momento em que, já em Paris, encontra o Pe. Huvelin, vigário da Igreja de Santo Agostinho. Numa conversa com ele lhe comunica: “Padre, não tenho fé. Peço-lhe que me instrua”. O padre o cortou e disse apenas: “Ajoelhe-se e se confesse! Então, crerá!” Contrariado, Charles respondeu: “Mas, eu não vim aqui para isso...” “Confesse-se!” ordenou o velho e cego padre... A partir deste momento a conversão como mudança de vida, aconteceu e aquele jovem aristocrata, mulherengo, dado aos luxos e aos prazeres, se abandona nas mãos de Deus.

Entrou num mosteiro trapista na França, mas, pouco depois, foi enviado para a Terra Santa, onde ele pretende imitar a vida oculta de Jesus em Nazaré. Após uma passagem, como jardineiro de um mosteiro de clarissas, volta para a Europa, para concluir seus estudos e se ordenar sacerdote. Em 1901 o encontramos, na fronteira da Argélia com o Marrocos no meio dos muçulmanos, no oásis de Benni-AbbSs. Ele não quer fazer proselitismo cristão, apenas ser uma testemunha vital de Jesus Cristo. Em 1904 vai viver no meio dos muçulmanos mais pobres, os tuaregs nômades.



A imagem dominante no mundo de Carlos de Foucault foi a de Jesus carpinteiro de Nazaré. Carlos de Foucault preferiu ver Jesus Salvador do mundo como obscuro carpinteiro de remota aldeia da desprezada Nazaré. Encontramos essa imagem em todas as dimensões de sua busca espiritual.

Em 1916, apesar da estima e do reconhecimento da população tuareg e muçulmana, o Pe. Charles de Foucauld se encontra no fogo cruzado da primeira guerra mundial entre franceses e alemães. No dia 1º de dezembro deste ano foi assassinado. Tinha a intenção de criar uma nova ordem religiosa, o que sucedeu apenas depois da sua morte: “os Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus”, também chamados de “Irmãozinhos e Irmãzinhas de Foucauld”.

Foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 13 de novembro de 2005.

"Aquele que vive a fé tem a alma cheia de novos pensamentos, de novos julgamentos, de novos afetos".
Charles de Foucauld


Sua Profunda Espiritualidade:
Espiritualidade de Charles de Foucauld: dar testemunho de Cristo, de seu amor, de sua bondade e misericórdia, sem pregações ou proselitismo, apenas dando testemunho dEle em meio aos homens.

Charles de Foucauld escreveu: "Logo que descobri que existe Deus entendi que não podia mais fazer outra coisa a não ser viver por ele: minha vocação religiosa começa no exato momento em que despertou a minha fé". Desde aquele momento, Charles se esvazia de tudo o que não é o Evangelho, "porque há uma grande diferença entre Deus e aquilo que não é Ele".

No silêncio e no abandono, mergulha no essencial. "O nosso aniquilamento é o meio mais poderoso que temos para nos unir a Jesus e fazer o bem". Quando ainda estava no mosteiro trapista e decidiu de deixá-lo, escreveu:

"No mosteiro passei seis anos e meio, depois, desejando querer me assemelhar a Jesus, fui autorizado a viver como alguém desconhecido, vivendo do meu trabalho cotidiano". O coração de Charles se alarga numa dimensão universal, exatamente porque se torna pequeno, escondido, partícipe da humildade do Senhor.
Foi chamado o "irmão universal" porque abrangeu o mundo todo e todos os povos, a partir da intensidade da presença entre os Tuaregs. A universalidade tem, portanto, duas vertentes: uma é representada pela potencialidade e a intensidade da presença e a outra pela extensão e abertura até os confins da terra.

A presença e o aniquilamento não são dimensões que alimentam a tristeza da vida cristã, mas representam o caminho mais simples do seguimento de Jesus que se fez pobre e para todos ofereceu sua vida. O esvaziamento é o processo de diminuição para que, como João Batista, o missionário deixa que Deus possa intervir e agir na história dos povos e das pessoas.

Na vida de Charles de Foucauld, o protagonista que deve sempre mais aparecer e agir, através do discípulo, é o próprio Deus. Charles emprestou sua própria vida a Deus, uma vida não retida, mas doada. Quem guarda a própria vida para si, este a perde, mas quem a entrega, este a ganha.
A decisão que levou Charles de Foucauld a viver junto com os Tuaregs, os pobres do deserto, é a condição de um caminho místico. O amor radical nasce dessa entrega.

Neste caminho está o processo de evangelização: antes de evangelizar, é necessário amar. Antes de proclamar as palavras e anunciar a mensagem, ocorre vivê-la, sem arrogância e orgulho, na própria vida.

Assim os tuaregs começarão a chamá-lo de "marabuto branco", isto é, o homem da oração e o homem de Deus. A missão de Charles de Foucauld foi o inverso do proselitismo. Enquanto este quer conquistar o outro para fazê-lo entrar no mundo do conquistador, Charles, através de sua vida, revela Deus presente e completamente comprometido com os pobres.


Breve biografia do Beato no site do Vaticano:
Presbítero, viveu no deserto norte-africano no meio dos Tuareg. Com a sua fervorosa e generosa fé, o ardente amor por Jesus Eucaristia, o respeito pelos homens, a predileção pelos mais pobres, nos quais sabia descobrir o reflexo do rosto do Filho do Homem, ele nunca deixou de atrair, até depois da sua morte, um número cada vez maior de almas para o mistério de Nazaré.

Nasceu em Estrasburgo (França), no dia 15 de Setembro de 1858. Ao ficar órfão com 06 anos, cresceu, com a irmã Marie, sob os cuidados do avô. A formação cristã recebida na infância permitiu-lhe fazer uma sentida Primeira Comunhão em 1870.

Na adolescência distanciou-se da fé. Conhecido como amante do prazer e da vida fácil, revelou, não obstante tudo, uma vontade forte e constante nos momentos difíceis. Empreendeu uma viagem de exploração em Marrocos (1883-1884). O testemunho da fé dos muçulmanos despertou nele um interrogativo: Mas Deus, existe? "Meu Deus, se existis, fazei que vos conheça".

Ao regressar à França, surpreendido pelo discreto e carinhoso acolhimento da sua família, profundamente cristã, inicia a estudar e pede a um sacerdote para o instruir. Guiado pelo Pe. Huvelin, encontrou Deus no mês de Outubro de 1886. Tinha 28 anos. "Quando acreditei que existia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver somente para Ele".
Uma peregrinação na Terra Santa revelou-lhe a sua vocação: seguir e imitar Jesus na vida de Nazaré. Viveu 07 anos na Trapa, primeiro em Nossa Senhora das Neves, depois em Akbés na Síria. Em seguida, viveu sozinho, na oração, na adoração, numa grande pobreza, junto das Clarissas de Nazaré. Foi ordenado sacerdote com 43 anos (1901), na Diocese de Viviers. Depois, transferiu-se para o deserto argelino do Sahara, inicialmente em Beni Abbès, pobre entre os mais pobres, depois mais ao Sul em Tamanrasset com os Tuaregs do Hoggar. Viveu uma vida de oração – meditando continuamente as Sagradas Escrituras – e de adoração, no desejo incessante de ser, para cada pessoa o "irmão universal", imagem viva do Amor de Jesus. "Gostaria de ser bom para que se pudesse dizer: Se assim é o servo como será o Mestre?". Quis "gritar o Evangelho com a sua vida". Na noite de 01 de Dezembro de 1916 foi assassinado por um bando de ladrões de passagem.


O seu sonho foi sempre compartilhar a sua vocação com os outros: após ter escrito diversas regras de vida religiosa, pensou que esta "Vida de Nazaré" pode ser vivida por todos e em toda parte. Hoje a "família espiritual de Carlos de Foucauld" inclui diversas associações de fiéis, comunidades religiosas e institutos seculares de leigos ou sacerdotes dispersos no mundo inteiro.