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domingo, 24 de junho de 2018

Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, Virgem da Ordem Carmelita Descalça, primeira Beata do Paraguai.


Maria Felícia Guggiari Echeverría nasceu a 12 de Janeiro de 1925 em Villarrica del Espíritu Santo, no Paraguai, sendo a primogênita de sete filhos do casal Ramón Guggiari e Maria Arminda Guggiari Echeverría. Foi batizada, somente, no dia 28 de Março de 1928, contava já três anos e dois meses, juntamente com os seus irmãos Maria Teresa (Manhica) e Frederico (Freddy), na Catedral de Villarica. Os seus padrinhos foram Luís Rufinelly e Maria Arminda Guggiari.

Era fisicamente pequena, motivo pelo qual o seu pai apelidou-a de “Chiquitunga” (pequerrucha, em guarani). Foi dotada de esplêndidas qualidades humanas e espirituais. Era muito alegre, sociável, prestável, modesta e muito simples.

 Aos cinco anos ingressou no Colégio “Maria Auxiliadora”. Desta época, conta-nos a sua mãe a seguinte anedota: “Num dia de muito frio, Chiquitunga voltou da escola tiritando de frio porque tinha dado o seu casaco a uma menina pobre. Uma das suas irmãs denunciou-a ao pai, porém ela respondeu: ‘Estás a ver, paizinho! Eu não sinto frio!’ E repetia esfregando as mãozinhas pelos braços nus e tiritantes”.  Episódio significativo que revela o caráter desta menina que encontrava a sua felicidade na partilha com os outros. O amor dá e dá-se.

O seu pai, homem reto, honesto, bom e de carácter irrepreensível, não era muito ligado à religião e à Igreja, embora grande respeitador. A sua mãe, mulher cristã, forte e firme, de grandes valores morais, soube como ninguém educar os seus filhos, preparando-os para serem na vida exemplos de coerência. Chiquitunga teve uma boa família e uma boa educação.



O lindo e característico sorriso de Chiquitunga: uma alma pura
e cheia de amor por Deus e pelo próximo


       A sua formação religiosa e espiritual foi solidificada no colégio católico que frequentou, sob a orientação das religiosas, chamando à atenção, desde pequenina, pela sua piedade. A 08 de Dezembro de 1932, recebeu pela primeira vez Jesus Eucaristia na Catedral de Villarrica,. Deste dia recordará anos mais tarde: «Nunca se apagará da minha mente a lembrança do dia mais feliz da minha vida, o dia da primeira união com o meu Deus e o ponto de onde surge minha resolução de ser cada dia e melhor».

Em 1937 iniciou os estudos liceais na Escola Normal nº 2 “Manuel Gondra”. Ingressou na Ação Católica em 1941. Em 1942 obteve o título de Mestra Nacional. Recebeu o Sacramento da Confirmação na Catedral de Villarica em 1945.

Na Ação Católica, Chiquitunga encontrou um ideal e um objetivo que orientou toda a sua vida, tendo trabalhado, com dedicação e amor, incansavelmente, num apostolado ativo e abrangente. Fez uma verdadeira consagração da sua vida, do seu ser, do seu tempo, ao apostolado: “Não quero passar agora adiante sem relembrar que hoje completo 10anos, senão me falha a memória, da minha ‘Consagração ao Apostolado’, a graça que, depois do Batismo e da Eucaristia, é a maior e a mais sublime com que Deus me presenteou”. Uma alma de fogo que ateava outros fogos.



Maria Felícia, a "Chiquitunga", desde pequena sempre foi uma alma que manifestava
uma vida interior profunda, marcada por ardente amor a Deus. 

Seu coração estava aberto a todos os necessitados material ou espiritualmente: idosos, doentes, abandonados, presos, marginalizados pela sociedade: «Eu vi-me mais de uma vez a andar tranquila, percorrendo lares, prodigando nem que seja um sorriso como fruto espontâneo da graça palpitante nas nossas almas... Ser apóstolos, Senhor, que lindo sonho!»

O ideal que a animava: o intenso apostolado, o fazer o bem tinha origem no seu profundo amor por Jesus Cristo, a quem se decidiu entregar, sem meias medidas, no estado de vida que Ele quisesse. O seu amor por Ele, cultivado na intimidade da oração e na participação diária na Eucaristia, constituía o centro da sua vida espiritual: «Hoje, no entanto, renovo perante Ti, Jesus Hóstia, este desejo sincero e íntimo de imolar a minha vida em prol do Teu amor». A Virgem Maria ocupava um lugar muito importante na vida de Chiquitunga. Chamava-a de “Minha Mãezinha”: «Somente quero pertencer-te, Mãezinha, para que Tu, tomando-me pelas mãos, como a uma pequenina, me leves a Ele, o único, o exclusivo amor do meu coração».

O seu lema de vida: “TUDO TE OFEREÇO, SENHOR”, que ela representava como “T2OS”, qual “forma química” para a felicidade, sintetiza a sua vida de entrega a Deus, numa consagração total do seu ser a Jesus Cristo, Seu Filho diletíssimo, deixando-se guiar pelo Espírito Santo, a fim de cumprir sempre a Sua santa vontade. O seu ideal está sintetizado na seguinte poesia que ela escreveu: “TUDO TE OFEREÇO, SENHOR… Tudo te ofereço, Senhor, tudo quanto há em mim: as alegrias da minh’alma, as agonias sem fim. Tudo te ofereço, Senhor: meus trabalhos, meus pesares, as notas dos meus cantares que de sempre elevo para Ti. Tudo quanto há em mim, tudo te ofereço, Senhor, para que se faça em mim o que te agradar, meu Deus. Toda inteira e sem reserva, faz que eu chegue a subir, para estar contigo sempre mesmo que custe ‘morrer’”.

Quando, em fevereiro de 1950, se transladou com a sua família para Assunção, fez sem tardar três coisas: continuar a estudar para obter o grau de professora, procurar emprego com o qual pudesse ajudar a família e incorporar-se na Ação Católica da capital. Ingressou na Escola Normal nº1 de Professores e entre 1951 e 1952 exerceu o magistério na Escola paroquial dos Padres Redentoristas.

Em 1950, Maria Felícia conheceu Ángel Sauá Llanes, um jovem estudante de medicina e dirigente da Ação Católica e foi tal a comunhão de almas, partilhando o mesmo ideal, que surgiu entre eles uma profunda amizade e um amor pleno e puro. A partir de então passavam os domingos juntos visitando os pobres. Chiquitunga sentia um apelo para se consagrar totalmente a Deus, mas conhecendo este jovem, ela mesma pensou se Deus a chamaria ao matrimônio. Tendo falado com o seu diretor espiritual, e com o seu aval seguiu em paz.

O natural teria sido que a amizade entre os dois jovens, com aquele amor tão puro, tal como pensavam as suas famílias, acabasse em casamento, porém não foi assim. Ángel partilhou com Chiquitunga a sua determinação de seguir o sacerdócio assim que terminasse os seus estudos em Madrid. Ela compreendeu perfeitamente, aceitou e apoiou-o incondicionalmente. Estava pronta a abdicar daquele amor, por um Amor maior, por Aquele que é capaz de preencher todas as fibras do coração humano com ondas de felicidade eterna. Num ato de heroísmo sem igual, separam-se, empreendendo ele o caminho do sacerdócio e ela o da vida religiosa. No seu diário escreveu: “Muitas vezes tinha concebido isto que agora, Senhor, é maravilhosa realidade: Que lindo seria ter um amor, renunciar a esse amor e juntos imolá-lo ao Senhor em prol do ideal”.

Dr. Ángel Sauá Llanes, mora, 
desde a década de 60 em Roma.
Concluiu medicina em Madrid. 
Especializou-se em psiquiatria.
Casou-se. É médico e escritor. 
Um amor que foi sublimado em prol de um amor maior. E não se pense que seguiram a vida religiosa por desgosto, pois a sua decisão foi consciente, de comum acordo e em ambos os casos trouxe-lhes paz e felicidade, mesmo com sofrimentos, pois não eram insensíveis um ao outro. Que nobreza e que coragem a destes jovens na sua fidelidade de seguirem o chamamento de Deus! Sauá escreveu posteriormente: “a nossa relação se sublimou num verdadeiro amor místico, privado de toda a componente erótica e, conscientemente, concordamos em apresentar a nossa situação no ambiente familiar e social que nos rodeava, como se fosse uma normal relação sentimental entre dois jovens da nossa idade. Assim, por exemplo, uma vez, depois de termos doado o nosso sangue para uma intervenção cirúrgica de uma doente cancerosa, a Chiquitunga escreveu-me uma comovedora carta, na qual dizia que o nosso sangue que devia misturar-se nas veias de um filho, havia-se misturado no coração dum pobre”.

Na véspera da partida de Sauá para Madrid, fizeram diante de Deus o compromisso de separação. Como lembrança, Chiquitunga deu a Ángel um desenho dela mesma abraçada à Cruz, entregando-o a Jesus para ser um santo sacerdote. Ele, por sua vez, ofereceu-lhe uma pulseira de prata com o nome de Mieke que era o nome carinhoso com que ele a tratava. Maria Felícia, no seu desejo de viver o lema da sua vida: “tudo Te ofereço, Senhor”, começou a indagar-se onde se encontraria o lugar onde poderia realizar essa entrega total da sua vida:


Vestida de noiva, no dia da 

tomada de hábito. 
«Neste momento, em que como nunca, com um ardor inigualável, quisera dar-me, sem medida, Jesus, Mestre amado, Esposo da minha alma. Tu que conheces as minhas ânsias de apostolado, de zelo pela salvação das almas, ajuda-me: que eu saiba onde queres que eu consagre integralmente todo o meu ser!... Por um lado, está a ânsia de entregar-me, em corpo e alma, ao Divino Esposo num convento, onde sem cessar, possa louvá-Lo, reverenciá-Lo e servi-Lo... e, por outro lado, a necessidade do apostolado leigo: estar em todos os ambientes e a todo o momento.»

O Senhor foi guiando-a na sua busca. No dia 20 de agosto de 1952, deu-se um encontro providencial entre Maria Felícia e a Madre Teresa Margarida, prioresa das Carmelitas Descalças de Assunção, no Hospital Espanhol, onde esta se encontrava hospitalizada. Tinham-lhe sugerido, ela hesitou, mas, lá acabou por ir. No seu diário escreveu: «Francamente eu não queria ir, mas Deus ajeitou tudo e, graças a isso, hoje conto com uma mãe».


Chiquitunga no dia da "tomada de hábito", 

ou, vestição religiosa, que marca o início do

noviciado no Carmelo Descalço. 
A madre teve a oportunidade de conhecê-la e acompanhá-la no momento de dúvidas pelo qual ela estava a passar. No mês de janeiro de 1954, saiu dum retiro resolvida a entregar-se inteiramente a Deus como carmelita descalça. Na manhã do dia 02 de fevereiro de 1955, Festa da Apresentação do Senhor, repleta de fervor, ingressou no mosteiro das carmelitas descalças de Assunção. Chiquitunga escreve: “Fazem exatamente 18 dias de constantes e ininterruptas horas de gozo neste santo Carmelo, no qual Deus nosso Senhor, com infinita misericórdia, me elegeu, e tremo, de verdade, ao dizer esta palavra, conhecendo-me ruim e pecadora como sou”. Terminado o período de postulantado, no dia 14 de agosto de 1955, teve lugar a cerimónia da sua tomada de hábito. Revestida do seu vestido de noiva, desposou-se com Jesus, recebendo o hábito carmelita e o nome de Irmã Maria Felícia de Jesus Sacramentado.


Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, 
no dia de sua "profissão" simples, 
ou, votos temporários. 
A sua Profissão simples teve lugar no dia 15 de Agosto de 1956, fazendo os seus votos temporários, por três anos, nas mãos da Madre Teresa Margarida do Sagrado Coração. A Madre Teresa Margarida resumiu em poucas palavras a atitudes da Irmã Felícia desde o início da sua entrada no Carmelo: “grande espírito de sacrifício, caridade e generosidade, tudo envolvido em grande mansidão e comunicativa alegria, sempre viva e brincalhona». Na sua vocação contemplativa do Camelo oferecia-se pelos sacerdotes. “Cantinho alegre, pedaço do céu, cela do Carmelo quero em ti morrer. Dizem que o silêncio é de Deus morada, quando acompanhado vai de soledade: silêncio na mente, silêncio nos lábios, soledade do mundo, de homens soledade”.




Aproxima-se o momento de encontrar o Amado face a face...

No dia 9 de janeiro de 1959 foi internada no Hospital da Cruz Vermelha, por se encontrar doente com uma hepatite infeciosa. De lá escreveu: “Já espero por Jesus. Queria encher-me somente do Seu amor e não viver senão para Ele. Só desejo cumprir a Sua vontade, não quero outra coisa...”.

Nesse mesmo mês, a sua irmã Manhica morreu com a mesma doença. No dia 22 de março teve alta e pôde voltar para o mosteiro. Porém, no dia 26, domingo de Páscoa, o seu irmão Frederico (Freddy), médico, diagnosticou-lhe “púrpura” e foi novamente hospitalizada.

Na madrugada do dia 28 de abril de 1959, acompanhada pela prioresa, pela família e sobretudo pelo irmão médico que cuidou permanentemente dela, estando iminente o fim, a Irmã Felícia pediu que lhe lessem o poema “Morro, porque não morro”, de Santa Teresa de Jesus. Recostada nas almofadas parecia dormir. Mas, de repente, ergueu-se com uma energia fora do comum exclamando: “Paizinho querido, que feliz eu sou! Que grande é a religião católica! Que dita o encontro com o meu Jesus! Sou muito feliz!” E sem desaparecer o seu sorriso balbuciou: “Jesus eu Te amo! Que doce encontro! Virgem Maria!”.  E entregou a sua alma ao Criador. Eram 4 horas e 10 minutos. Chiquitunga tinha, então, 34 anos de idade. As exéquias foram uma manifestação espontânea, e, em boa parte, inesperada, da sua fama de santidade. O comentário que se ouvia entre as pessoas era: “morreu uma santa”.

No dia 30 de maio de 1997 o arcebispo de Assunção, Dom Felipe Santiago Benítez, solicitou a introdução da causa de canonização da Irmã Felícia. A 13 de dezembro de 1997 deu-se a abertura do Processo Diocesano em Assunção. Por ocasião do reconhecimento canônico dos restos mortais de Chiquitunga, observou-se que dentro do crânio havia "algo" solto. Ao ser aberto, para espanto dos presentes, foi encontrando seu cérebro incorrupto. Estava como que "desidratado", de coloração marrom escura, reduzido de tamanho, mas, conservava ainda anatomia perfeitamente perceptível. Sendo, posteriormente, colocado à veneração em um relicário. 










        No dia 28 de abril de 2000, foi concluído o Processo Diocesano que foi enviado para Roma no dia 8 de maio de 2000 e entregue à Congregação para a causa dos Santos no dia 10 de maio. No dia 22 de fevereiro de 2002 foi assinado o Decreto de Validade do Processo Diocesano e foi nomeado um Relator.

No dia 6 de março de 2018 o Papa Francisco autorizou a publicação do decreto do milagre para a beatificação. O milagre para a beatificação ocorreu no dia 15 de agosto de 2002. As testemunhas contam o fato ocorrido com o pequeno Ángel Domínguez quem nasceu morto e, sem intervenção médica alguma, ressuscitou através de um milagre obtido pela intercessão de Chiquitunga, a pedido de uma enfermeira presente no momento que a criança nasceu morta.

Maria Felícia de Jesus Sacramentado, a primeira Beata paraguaia, foi solenemente beatificada no estádio Pablo Rojas no dia 23 de junho de 2018, em belíssima e participadíssima Missa, com a presença de 60.000 fiéis, transmitida pela televisão e pela internet para todo o mundo. 





Os restos mortais da Irmã Maria Felícia foram levados pelo Frei Romano Gambalunga, postulador geral dos Carmelitas Descalços, para o Vaticano, para estudo e conservação e regressaram ao Paraguai para a beatificação.

Aquela que foi carinhosamente apelidada de Chiquitunga, pela sua pequena estatura, vai receber a maior honra humana: o reconhecimento da sua santidade que revela a grandiosidade da sua alma. Chiquitunga, roga por nós!

Oração para dar graças a Deus pela beatificação de Chiquitunga e para impetrar-lhe a intercessão:
Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, que Vos alegrais em fazer a Vossa morada no coração dos homens: nós Vos damos graças por terdes derramado na Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado o fogo do Vosso amor, levando-a a doar sua juventude no apostolado laical e a imolar-se por todos na vida contemplativa do Carmelo.

Nós Vos louvamos e bendizemos, porque, com a sua vida exemplar, nos manifestais a Vossa bondade de Pai e Amigo e nos revelais as exigências do verdadeiro amor. Pedimos-vos que nos concedais por sua intercessão a graça que Vos suplicamos, se for para Vossa maior glória e bem das almas. Amém.



Nota: 
O texto acima foi fruto de revisão, adaptação e complementação de um texto básico, em forma de "apresentação de slides" em Power Point, feito por Antônio José Gomes Machado, ocds, da Comunidade Stella Maris do Carmelo Secular do Porto, Portugal. Foram feitos por mim vários acréscimos ao texto base... 




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