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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 27 de dezembro de 2014

Beato Francisco Spoto, Presbítero e Mártir (Congregação dos Missionários Servos dos Pobres).


Francisco Spoto nasceu a 08 de Julho de 1924, em Raffadali (Itália). Os pais, Vincenzo Spoto e Vincenza Marzullo,  educaram-no para uma fé profunda e genuína e transmitiram-lhe um grande sentido do dever. A família, a escola e a paróquia foram os ambientes frequentados por Francisco: os seus educadores e os pais em primeiro lugar intuíram que naquele menino bom, consciencioso e sensível estavam amadurecendo os gérmens de vocação ao serviço de Deus e dos irmãos.
Com a idade de 12 anos, respondendo ao chamado de Deus, entrou no Seminário dos Missionários Servos dos Pobres (os Padre Boconistas) de Palermo, para seguir a estrada da “Caridade sem limites” traçada pelo Beato Giácomo Cusmano. Quando jovem sentiu o forte desejo de partir para as missões, mas soube aceitar a vontade de Deus que tinha para ele outros desígnios.
Desde o início mostrou possuir um carácter determinado: humilde, mas tenaz, com o sentido do dever e da responsabilidade muito acentuado. Exatamente por causa da sua determinação e tenacidade ganhou dois apelidos, respectivamente dos companheiros e dos superiores: "alemão" e "rocha", nomes que dão uma clara imagem do temperamento do jovem. Durante os anos de seminário nasceu nele a paixão pelos estudos, que se traduziu na sua breve vida, numa sólida preparação, claramente visível nos seus escritos, cartas e homilias. Cultura não finalizada a si mesma, mas colocada ao serviço do amor de Deus e dos irmãos.
No dia 01 de Novembro de 1940 Francisco emitiu a sua primeira profissão. Dotado de inteligência vivíssima, se empenhou apaixonadamente nos estudos que concluiu com ótimos resultados junto ao Seminário Arquidiocesano de Palermo. A 22 de julho de 1951, no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios (Palermo), foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Ernesto Ruffini. Imediatamente dedicou o seu ministério sacerdotal ao desenvolvimento das obras típicas da Congregação dos Servos dos Pobres. Destinado pelos superiores ao ensino, desempenhou ao mesmo tempo o ministério sacerdotal com zelo. No Capítulo de 1959 foi eleito Superior Geral com apenas 35 anos, com a devida dispensa da Santa Sé por causa da sua jovem idade. Consciente das novas responsabilidades com tenacidade renovada, determinação e sentido do dever ainda mais fortes, empenha-se com todas as forças a dar impulso e vitalidade à Congregação, colocando-se ao serviço de todos com ativa humildade e amorosa firmeza. A sua vida perfuma e vibra de oração, por ele considerada o centro da atividade quotidiana.
O seu modo concreto permitiu-lhe concluir a aprovação das Constituições da parte da Santa Sé, a nova Casa de estudos teológicos em Roma e, em 1961, a inauguração da missão de Biringi, na atual República Democrática do Congo (ex-Zaire). E, precisamente lá, na terra tão amada, Pe. Spoto transcorrerá os últimos meses da sua vida numa corrida toda orientada para a santidade e para o martírio.
Com efeito, no dia 04 de Agosto de 1964, partiu para Biringi a fim de confortar os irmãos, que se encontravam em notável dificuldade devido à situação política crítica e perigosa na ex-colônia belga que, após obter a independência em 1960, atravessava um período muito instável, com lutas assinaladas pela ideologia materialista e antirreligiosa, que se tornaram mais ferozes a partir de 1964 devido à perseguição de inúmeros religiosos e religiosas. Neste contexto, Padre Francisco partiu para o Congo, cheio de entusiasmo, embora consciente de que poderia perder a própria vida. No mês de Setembro, quando a situação em Biringi se fez mais difícil, decidiu deixar o cargo de Superior-Geral, comunicando a decisão numa carta dirigida ao Vigário-Geral: "Se permaneço aqui – confia ao Vigário-Geral –não é por teimosia ou desinteresse, mas somente por um elevado sentido do dever, só pelo interesse e amor da Congregação" (Carta ao Vigário-Geral, 20 de Setembro de 1964). Podendo escolher entre o retorno à Itália e a permanência na missão, não hesitou nem mesmo por um momento e quis permanecer na “catacumba verde” para condividir a paixão dos coirmãos. Um bom pai não abandona os próprios filhos na necessidade extrema.

O Beato Francisco Spoto (segundo, da esquerda para a direita)
e seus coirmãos missionários no Congo, perseguidos pelos
"Simba". Padre Spoto pediu a Deus que poupasse a vida
de seus irmãos em troca da sua vida... Sua prece foi ouvida. 
O mártir não procura a morte e faz de tudo para evitá-la, mas se deve passar por ela sem fugir – fruto das provocações do perseguidor – , então a aceita e oferece o sacrifício supremo de si, a suporta pacientemente por amor a Deus, como testemunho da própria fidelidade a Cristo. O fim que teve o Padre Francisco Spoto, sétimo sucessor do Beato Giácomo Cusmano, confirma tudo isso. De fato, ele não buscou a morte, mas estando diante de sua aterradora presença, a aceitou. Agiu com uma digna e cristã resignação por amor a Cristo, oferecendo a própria vida também em troca daquela dos seus três Coirmãos, como profeticamente havia confiado alguns dias antes: “O Senhor deverá contentar-se com três cálices cheios de amargura, mas apenas um de sangue”.
No início de Novembro, Padre Spoto e três irmãos de hábito foram obrigados a deixar a missão e a vagar sem rumo, escondendo-se e procurando fugir dos ferozes “Simba” (grupo de guerrilheiros anticristãos) que os seguiam para assassiná-los.
Nesta angustiante situação, Pe. Francisco afinou o sentido do sacrifício, aperfeiçoou a vontade de oferecer a vida para que os companheiros fossem salvos. Não obstante vivendo esta vida errante, repleta de sustos e medos, Pe. Francisco conseguiu escrever uma espécie de "diário".
No dia 03 de Dezembro os seus companheiros foram capturados. Embora tenha conseguido fugir, passou a noite a vaguear pelo bosque com os pés descalços, sedento, faminto, ensanguentado... Na manhã seguinte, encontrou os três companheiros livres, milagrosamente incólumes.
Na noite de 11 de Dezembro Pe. Francisco foi atacado por dois guerrilheiros e, devido às violentas pancadas, permaneceu paralisado. A partir daquela trágica noite até ao dia da sua morte ele foi transportado numa espécie de maca, ao prosseguirem a fuga para evitar nova captura. Pe. Francisco morreu a 27 de Dezembro de 1964, após ter recebido o sacramento da unção dos enfermos. Foi sepultado nas proximidades da cabana onde se refugiava. Foi, portanto, um verdadeiro martírio que lhe foi infligido in odium fidei pelos revolucionários ateus congoleses, que espreitavam a ele e aos outros religiosos da Missão de Biringi. Não obstante as dores atrozes, ele enfrentou os últimos dias do evento supremo com ânimo cristão, e nos confrontos com os algozes, várias vezes – mesmo que lacrimosamente, pois quase não podia falar – exprimiu o mais completo perdão.
Os seus irmãos de hábito salvaram-se e regressaram à Itália. Sepultado em Biringi, Enterrados em Biringi, os seus veneráveis despojos foram transladados para Palermo, na Itália, em 1984 e sepultados em 1987 na Paróquia “Coração Eucarístico de Jesus”, na via Corso Calatafimi, 327.
A oferta suprema do Bem-Aventurado não foi em vão e o seu sangue inocente irrigou os torrões daquele pedaço de terra da África, em cujo seio cresceram e desenvolveram frutos copiosos. De fato, depois da morte de Pe. Spoto, a Congregação dos Missionários Servos dos Pobres tem no Congo cerca de 50 religiosos em cinco comunidades. Verdadeiramente o sangue dos Mártires é semente de novos cristãos!
O Servo de Deus se consumiu como lenha seca no caminho, para iluminar a quem não era ainda iluminado por Cristo. Na sua vida terrena, terminada aos 40 anos, uniu a mansidão à fortaleza, a paciência à afabilidade, a coerência à compreensão, a cultura à simplicidade. Caminhou ao encontro da morte confiando-se ao mistério insondável e adorável da vontade de Deus, com o espírito da obediência filial de Jesus vivida até à morte de cruz (Fl 2,8).
Como a sua fama, com o passar dos anos crescia sempre mais, aos 16 de dezembro de 1992, em Palermo, deu-se início ao Processo diocesano de Beatificação.
Aprovada pela Santa Sé a validade jurídica dos Atos e redigida a Positio, em seguida aos votos favoráveis emitidos pelos Consultores teológicos e pelos Cardeais e Bispos, o Santo Padre Bento XVI autorizou em 26 de junho de 2006 a promulgação do Decreto referente ao martírio de Padre Francisco Spoto, que foi beatificado no dia 21 de Abril de 2007.


Oração:
Beato Francisco Spoto, nós rendemos graças ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo pelas maravilhas operadas em ti. Tu que realizaste o desígnio misterioso de Deus e te deixaste conduzir no caminho da caridade e do sacrifício total, derramando o teu sangue nas terras áridas da África, dá-nos uma fé ardente e operosa, conserva-nos no amor a Deus e aos irmãos, abre o nosso coração à esperança e faze que, enquanto confiamos as nossas necessidades à tua intercessão, possamos ser capazes de realizar o projeto que Deus tem para cada um de nós. Amém.


SANTA PAULA ELISABETE CERIOLI, Viúva e Fundadora

Etapas históricas dos Institutos da Sagrada Família de Bérgamo
 1816 – Nasce em Soncino (Cremona) Constança Cerioli.
1835 – Casa-se com o viúvo Caetano Busecchi-Tassis.
1854 – Fica viúva.
1857 – Vestição das primeiras Irmãs por Dom Esperanza:
Fundação do Instituto Feminino da Sagrada Família.
1863 – abertura da Casa dos Filhos de São José, em Villacampagna de Soncino. Fundação do Instituto
Masculino da Sagrada Família.
1865 – Em 24 de dezembro morre a Irmã Paula Elizabete Cerioli, em Comonte de Seriate.
1885 – Transladação do corpo do cemitério de Seriate para a Casa de Comonte.
19l9 – Decreto de introdução da causa de Beatificação.
1939 – Pio XII proclama a heroicidade das virtudes da Venerável Irmã Paula Elizabete.
1950 – Em 19 de março, em S. Pedro, Pio XII a proclama Beata.
2004 – 16 de maio, o Papa João Paulo II a declarou Santa.


Santa Paula Elisabete Cerioli
Primeiro Texto Biográfico (site do Vaticano)

Paola Elisabetta Cerioli, nasceu em Soncino (Cremona Itália), aos 28 de janeiro de 1816. Seus pais eram o nobre Francisco Cerioli e a Condessa Francisca Corniani, ricos fazendeiros, e ainda mais ricos pela vida cristã que testemunhavam na família e na sociedade.
Recém-nascida foi logo batizada, em casa, pois corria risco de vida: superada a fase crítica, o dia 2 de fevereiro se completou na Igreja o rito do Batismo.
Desde cedo teve que lidar com o sofrimento: aquele físico, pelo seu corpo frágil e não poucas vezes doente; aquele moral, vendo a miséria, na época muito presente entre as pessoas do campo, para as quais a mãe despertou cedo a atenção dela, com verdadeira sabedoria cristã.
Chegado o tempo da sua formação cultural e moral, como era costume na época para as famílias nobres, foi enviada no Mosteiro das Irmãs da Visitação em Alzano Maggiore (Bérgamo Itália), onde já tinha sido enviada a irmã e onde se encontrava a tia, irmã Giovanna.
Por quase cinco anos, a partir de 11 anos até 16, Constança ficou naquele colégio recebendo a formação prevista para as filhas da nobreza. Depois da volta para a casa, a vontade dos pais, na qual ela sempre reconheceu a vontade do Deus, a levou, com 19 anos, ao casamento com Gaetano Busecchi, de 58 anos, herdeiro dos Condes Tassis de Comonte de Seriate (Bérgamo Itália).
O não fácil casamento a viu uma esposa dócil e cuidadosa. Teve a alegria de gerar quatro filhos, dos quais porém três morreram recém-nascidos; o outro, Carlos, morreu com 16 anos. Poucos meses depois morria também o marido, deixando Constança sozinha e herdeira de um grande património.
A perda do último filho e do marido foi para ela uma experiência dramática. Caiu num estado de grande aflição. Graças porém à ajuda de dois Bispos de Bérgamo, Mons. Luís Speranza e Mons. Alexandre Valsecchi, que a acompanharam espiritualmente, teve a força de se agarrar à fé. Deparou-se com o mistério da Mãe das Dores e se abriu, através de uma profunda vida de fé e de caridade ativa, ao valor da maternidade espiritual, preparando-se desta forma para uma doação total de si a Deus no serviço dos pequenos e pobres.
Só poucos meses depois de ter ficado viúva abriu o seu palácio nobre para as meninas abandonadas do campo e em 1857, junto com seis companheiras, fundou o Instituto das Irmãs da Sagrada Família.
Tendo enfrentado não poucas dificuldades, no dia 4 de novembro de 1863, realizava a sua mais profunda inspiração, abrindo a primeira casa para a acolhida e a educação dos pobres filhos do campo, disponibilizando para isso a sua propriedade de Villacampagna (Cremona Itália): o primeiro e fiel colaborador era o irmão João Capponi, natural de Leffe (Bérgamo Itália).
Desta forma ela fundava os Institutos das Irmãs e dos Irmãos da Sagrada Família para o socorro material e a educação moral e religiosa da classe camponesa, na época a mais excluída e pobre.
Escolheu a Sagrada Família como modelo, ajuda e conforto, querendo que as suas comunidades aprendessem dela como ser famílias cristãs acolhedoras, unidas no amor atuante, na fraternidade serena, na fé forte simples e confiante.
Feliz por ter se tornado pobre com os pobres, aos 24 de dezembro de 1865 morreu deixando aos cuidados da Providência o Instituto feminino já bem começado e a semente recém-jogada do Instituto masculino.
Santa Paola Elisabetta viveu tempos difíceis – nos meados do século XIX – quando as regiões da Lombardia e do Veneto estavam sobe o domínio do Império da Áustria: tempos de fortes contrastes pelas consequências do liberalismo e do nacionalismo como herança da revolução francesa.
O perfil espiritual da Cerioli é marcado pela ação forte da Trindade que moldou a vida e o coração dela de maneira surpreendente. No centro de todo seu desejo e atividade tem sempre uma referência explícita a Deus Pai e ao seu Filho Jesus. Mas o desenvolvimento do seu testemunho espiritual foi marcado de maneira especial pela figura de Maria Mãe das Dores.
Este mistério de Maria, que manifesta uma união total e profunda com o mistério de Jesus que na sua vida terrena não exclui a tentação e a cruz, para a Cerioli não foi só objeto de contemplação exterior: durante o ano de 1854 se tornou verdadeira iluminação que vivificou o destino de sua vida e de sua obra: «Confessou que uma vez, considerando as dores de Maria Santíssima e imaginando um momento em que ela viu a morte do seu Divino Filho, sentiu um pressentimento tal e um tal aperto de coração, que angustiada se deixou cair sentada quase desmaiando”. “Não sei — dizia depois — como eu posso ter sobrevivido, frágil e provada como estava”.
Foi assim que lentamente se sentiu levada a ter em si mesma aquelas atitudes e disposições que foram próprias de Maria e que o filho agonizante, de maneira profética, a convidava a assimilar: «Mãe não chores, Deus te dará outros filhos».
Destacou-se pela maternidade espiritual, a caridade concreta, a piedade, a absoluta confiança na Providência, o amor para a pobreza, a humildade e a simplicidade e pela admirável submissão aos Superiores (os Bispos seus orientadores espirituais). Valorizou a dignidade e o papel da mulher na família e na sociedade.
O que caracteriza de maneira singular a ação apostólica da Santa é a constante referência ao modelo evangélico Jesus, visitado e vivido em várias formas contemplativas e no apostolado social, voltado de maneira especial para o socorro e a educação das crianças pobres do campo porque consideradas as mais abandonadas e as mais necessitadas. Criou colégios para órfãs e órfãos, abandonados e sem futuro; instituiu escolas, cursos de doutrina cristã, exercícios espirituais, recreações festivas e assistência às enfermas. Vencendo dificuldades e incompreensões de todo tipo, quis dar início a uma instituição religiosa constituída por homens e mulheres que, de alguma forma, imitassem o modelo evangélico do mistério de Nazaré constituído por Maria e José que acolhem Jesus para doá-lo ao mundo.
O propósito da Fundadora de mediar a paternidade-maternidade benéfica de Deus para os filhos abandonados dos pobres camponeses da sua época tem como referência fundamental a Santa Família de Jesus, Maria e José. E isso não como consequência de uma reflexão teológica sobre a Família de Nazaré por parte da Cerioli, mas da sua experiência prática pessoal.
A contemplação da Família de Nazaré sugere a ela a aceitação de um modelo de geração, de paternidade, de maternidade e também de filiação característicos só da fé, aberto para novos horizontes e a nos caminhos para criar condições sempre mais eficazes para a afirmação da paternidade-maternidade de Deus.
Este projeto vocacional levou Irmã Paola Elisabetta a aceitar com alegria a pobreza total da Santa Família:
“Eis-nos a Belém! Ó, feliz Belém! Aqui, Irmãs, entremos com respeito, nesta humilde gruta, morada do Homem-Deus. Não tenham medo: aqui todos tem livre acesso. Que bondade! Prostremo-nos em silêncio num canto deste lugar e olhemos com respeito estes três augustos Personagens do Céu, e com a luz daquele fulgurante esplendor que ilumina em cada parte a querida choupana, meditemos com atenção o que Eles dizem e fazem, o que aqui acontece… porque é a partir destes primeiros exemplos que as Irmãs da Sagrada Família devem formar o seu espírito. Pobreza, eis o que por primeiro cai sob o nosso olhar… Ó pobreza, quanto você é grande! Quanto você é honrada agora que foi escolhida como companheira por um Deus Menino!”
A pobreza vivida e ensinada por esta Santa não é principalmente a pobreza de recursos materiais, e sim a renúncia a gerir os afetos de maneira pessoal para deixar a Deus a liberdade de doar o que a Ele agrada.


Segundo texto biográfico


Nascimento

Nasceu aos 28 de janeiro de 1816 em Socino (Cremona). Filha de Francisco Cerioli e da condessa Francisca Corniani; é a décima sexta e última filha do casal…Nasceu com uma pequena deformação na coluna e leve deficiência cardíaca que, com o passar dos anos irá aumentando, e por isso toda sua vida sofrerá consequências…que a levará a uma morte prematura. (p.6)
Tinha, contudo, espírito vivaz e pronto, e era preciso olhá-la com atenção, e nunca deixá-la sozinha nem por um instante. Constância demonstrava visivelmente alegria e contentamento quando seus pais ou empregados levavam-na à Igreja. (p.6)


Infância

Assim foi, desde pequena, Constância Cerioli. Caráter dócil, amável e alegre, jovial e criativa, gostava do sossego e do recolhimento. Com frequência era encontrada em algum canto da casa; muito ligada a livros de santos, imagens… (p.5)
Ali na redondeza sua mãe, a condessa Francisca, era chamada “Mãe dos Pobres”, e frequentemente saía em visitas de caridade. (p.9)


Boa convivência com as pessoas [1]

 Outro fato singular é que, sendo ela tão querida, especialmente pelas Superioras, todas as companheiras a amassem tão sinceramente que não surgia entre elas nenhum sinal de inveja, o que, nestas situações, infelizmente, é comum acontecer. Mas ela, dotada de um coração tão excelente, de um caráter tão jovial e, ao mesmo tempo reservado, que sempre estava, alegre e modestamente, à disposição para ajudar a todas em suas necessidades e desejos, sacrificando seus próprios prazeres em favor do próximo, por isso era quase impossível que alguém se desgostasse com ela.(p.12)
 Também as Mestras achavam-na um perfeitíssimo modelo de obediência e aplicação em todos os seus deveres, o que a tornava querida e preciosa também pela influência que a sua conduta tão exemplar exercia sobre o comportamento das outras educandas. Constança foi também favorecida pelo Senhor com um caráter alegre e apropriado para ser amada, com um coração excelente e sempre disposto a fazer favores, de uma tal igualdade de humor que se dizia frequentemente dela: – Constancinha é mesmo sempre a mesma. (p.14)
 A ninguém enganava ou provocava, nem de longe nem de perto. (p.18)


 Amava a vida dos Santos [2]

 Lendo depois a vida dos Santos, acendia-me o desejo de imitá-los e alegrava-me com sua fortaleza e generosidade de coração…(p.15)
 Quando ela sentia qualquer pequeno incômodo, oferecia-o secretamente a Deus sem nada dizer a ninguém, contente de poder imitar de alguma forma, as mortificações e exemplos dos santos .(p.17)

[1] Fonte: “Manuscrito Longoni”. Memórias da vida da beata Paula Elizabete Ceriori. Fundadora dos Institutos da Sagrada Família de Bérgamo. 1999. Padre Ângelo Paris. p.49. http://www.csfbrasil.com.br/
[2] Fonte: “Manuscrito Longoni”. Memórias da vida da beata Paula Elizabete Ceriori. Fundadora dos Institutos da Sagrada Família de Bérgamo. 1999. Padre Ângelo Paris. p.49. http://www.csfbrasil.com.br/



 Dom da Obediência

Certo dia, conversando com sua confidente, diz que na infância tinha muito medo de andar à noite sozinha pela casa. Mas para não contraria e faltar à obediência a sua mãe, esforçava-se por fazê-lo sem reclamar ou lamentar-se. Continua Constância à sua confidente: “A senhora minha mãe inspirava-me muito respeito e submissão e eu não tinha coragem de contar-lhe as frequentes indisposições que sofria por minha fragilidade física”. Isso ela fazia não por timidez, mas porque gostava de praticar a virtude da obediência e, se ela reclamasse, a mãe não lhe pedia mais favores. (p.7)
Constância, mais tarde, às suas filhas, precisará sobre a obediência: “Para que a obediência seja perfeita e tenha o mérito de um inteiro holocausto, procuremos submeter à obediência mesma não só o ato externo, mas a vontade, a inteligência e o juízo. Obedeceremos com presteza, com alegria, com humildade, com exatidão, com prontidão.” Continua Constância: “Qualquer ação é nobre quando feita por amor de Deus e em obediência a quem é constituído em autoridade”. (p.7)


Prontidão em servir aos pobres

 Ainda menina tinha predileção pelos pobres que batiam à porta de seu palácio. Com frequência, quando Constância está junto à mãe aprendendo serviços femininos como bordados, chegam empregados dizendo que tem pobre na porta pedindo esmola. Constância, como que de sobressalto e muita vivacidade, diz:
 -É pobre! Deixe-me! Que eu vou servi-lo. E com presteza e amor, após um breve bate-papo, o despede contente e satisfeito. (p.9)


 Saúde frágil

 Por ser uma pessoa de pouquíssima saúde era muito sensível ao frio. Seus pés raramente se esquentavam…(p.10)


 Casamento

 O casamento de Constância e Caetano foi celebrado no dia 30 de abril de 1835…obedece prontamente à vontade dos pais, assumindo o estado matrimonial…Durante os vinte anos de matrimônio, Caetano, por ser doente, tornou-se sempre mais intolerante e descontente, facilmente irritável…(p.14)
 Vinte anos de total sacrifício, esquecimento de si, tendo sempre em mente a felicidade e alegria dos outros.(p.12-15)


 Os quatro filhos

 Constância também foi provada. Do seu matrimônio nasceram-lhe quatro filhos: Francisca, Maria Tereza, Carlos e Rafael…Também Francisca, Maria Tereza e Rafael morreram ainda pequenos; somente Carlos atingiu a idade de 16 anos…No dia 16 de janeiro de 1854, depois de sete meses de doença, “já maduro de bom senso, rico de piedade, de religião e de variada cultura, queridíssimo por todos pela bondade de coração…” Carlos morria.(p.16)



 A viuvez

 Caetano, seu esposo, quase sem andar, atacado por uma paralisia progressiva, beira à morte. A saúde de Caetano, após a morte do filho, se agrava; seu caráter se torna intolerável. Como de nada adiantará remédios para o corpo, Constância então se dedica em prepará-lo bem, desta para outra vida, como um verdadeiro cristão. Assim, com resignada caridade, o entrega a Deus aos 25 de dezembro do mesmo ano em que morre o filho, 1854. (p.20-21)

Santa Paula, sempre resignada com
a vontade divina em sua vida. 

 [1] Desde a morte do filho havia feito o dom total de si mesma a Deus. Alimentava em seu coração o propósito de dedicar-se inteiramente a Ele. Este propósito foi renovado mais fortemente depois da perda do marido. Vinham-lhe frequentemente à memória as palavras de seu filho Carlos, ao morrer: “O Senhor lhe dará outros filhos em quem pensar”. Pensava e refletia nisso e projetava um estabelecimento de órfãos pobres, mas era sempre uma ideia confusa. Continuava a rezar ao Senhor para que a fizesse perceber com clareza sua santíssima Vontade. Estaria pronta a executá-la, fosse qual fosse, entregando-se totalmente nos seus braços.

[1] Fonte: “Manuscrito Longoni”. Memórias da vida da beata Paula Elizabete Ceriori. Fundadora dos Institutos da Sagrada Família de Bérgamo. 1999. Padre Ângelo Paris. p.49. http://www.csfbrasil.com.br/


Fonte: Madre Paula Elizabete Cerioli, a nobre camponesa. Editora Salesiana Dom Bosco.1987



 Caridade


 Sempre que podia, além daquilo que já se fazia na casa pelos necessitados, distribuía suas próprias esmolas, usando para isso o dinheiro que os pais lhe davam para satisfazer seus pequenos desejos e sentia-se muito contente de poder privar-se de algum prazer para diminuir a miséria alheia. (p.18)
 Nos dias festivos, depois de haver participado da missa que era celebrada em seu oratório, dirigia-se à paróquia de Seriate para assistir à missa paroquial e, tanto na ida como na volta, visitava os enfermos mais miseráveis nos seus barracos, onde, não encontrando muitas vezes nem ao menos uma cadeira para repousar um pouquinho, sentava-se na lareira, depois os ajudava a arrumar a sua cama e sozinha, sem ajuda, servia-os, limpava-os e medicava-os. Com os mais desprezados permanecia mais longamente, cercando-os das mais pequenas atenções como, abaná-los e espantar as moscas em volta, aproveitando-se da ocasião para confortá-los com boas palavras, recordando-lhes o Paraíso que os esperava, incentivando-os a terem paciência e resignação com a vontade divina. (p.51)
 Dizia-lhes: “Feliz aquele que sabe aceitar com calma e em paz o que o Senhor lhe oferece para sua santificação e exclamava: Benditos vocês que sofrem! É sinal que Deus os ama e os favorece, eu, por outro lado, sou indigna, todavia a sua bondade pode me tornar merecedora”. (p.51)
 Assim passava Constança os primeiros tempos de sua viuvez. Estas caridades eram o maior conforto para a sua angústia. (p.53)


  Mudança de vida

 Uma vez, encontrou com um sacerdote, antigo conhecido da família. Ele, ao vê-la em tão tristes trajes, virou-se para quem a acompanhava e disse: “tenham mais cuidado com a senhora, está se vestindo de maneira exageradamente apostólica”. Bem longe de envergonhar-se, ela se alegrou e continuando o caminho, acrescentou à companheira: “Que mais é preciso? Estou limpa e arrumada, o que me falta?… Nosso Senhor, dono de tudo, tinha só uma veste e eu, indigna serva sua, tenho duas e ainda dizem que tenho pouco! Enfim, não se usa mais que uma por vez e, ter demais é um incômodo.” (p.65).
 Apresentaram-se a ela, de fato, talvez naquele mesmo dia, mendigando, duas pobres meninas órfãs, de Seriate. Ela as recebeu, acertando detalhes com os familiares que ficaram felizes em confiar-lhes as meninas, estabelecendo, sem impor condições, que as mesmas ficariam com ela. (p.66)
 Era o momento de Deus!… Ela soube reconhecê-lo e, realizando a previsão de seu Carlos, naquele momento começava a tornar-se Mãe de outros filhos. (p.66)
 Mantinha as duas órfãs recolhidas, o mais que podia, junto de si, para instruí-las e orientá-las a respeito da alimentação, do vestuário, etc., (p.68).
 Eram, porém necessárias para este serviço, pessoas que pudessem dedicar-se integralmente. Pensou também nas jovens das propriedades vizinhas, que lhe causavam compaixão porque, pela distância, não podiam ir à escola em Seriate. Estando junto com as órfãs, poderiam aproveitar das instruções que seriam dadas a elas. Aconselhando-se então com o Senhor Bispo, este aprovou de imediato o seu pensamento, procurou e lhe enviou uma jovem de Bérgamo, que frequentava o Convento das Filhas da Caridade. Ela desejava ardentemente consagrar-se ao Senhor naquele Instituto, mas ficava sempre desiludida porque seu confessor, o digníssimo Professor Tiraboschi, que por dez anos consecutivos guiou-a, não lhe permitia nem ao menos fazer perguntas, pelo contrário, aconselhava-a para que, por enquanto, ficasse em casa onde havia muito a ser feito, com o pai enfermo e a madrasta com seis filhos.
 No entanto ela, queixosa por não poder fazer o que desejava,… começou a trabalhar na Páscoa de 1863. Foi depois Diretor do “Patrio Liceo” e, enfim, Arcipreste de Costa di Mezzate. Tomou conhecimento, através de uma sua amiga que fora camareira de D. Constança, que esta tinha ficado viúva e sozinha. Havia recolhido duas órfãs e precisava, em sua companhia, de uma boa jovem que a ajudasse nesta tarefa. Rogou, portanto à amiga que falasse a seu respeito à referida senhora, estando disposta a assumir, além dos cuidados para com as órfãs, qualquer outro serviço junto à família. (p.68)
 Sendo depois informada que a dita jovem frequentava o Convento das Canossianas, em Rocchetta, Bérgamo, dirigiu-se à Reverenda Madre Superiora Anna Lucchini, a qual, bem contente em poder ajudar a jovem Luíza, não hesitou um momento em incentivar D. Constança a aceitá-la como colaboradora, dando-lhe as melhores referências. Depois, chamando Luíza, disse-lhe: “Cara Luíza, o Senhor quer abrir-lhe uma estrada para que você satisfaça os seus anseios. Há aqui uma nobre e boa senhora que gostaria de tê-la junto de si, eu a aconselho a aceitar porque, muito embora ela ainda não tenha a intenção de tornar-se religiosa, alguma grande obra ela pretende fazer. Procure cooperar fielmente que granjeará certamente seu reconhecimento.” Confiando nas palavras da Superiora, a Senhora aceitou e a jovem. (p.69)
 Esta pediu e obteve uma licença de oito dias para informar tudo ao seu diretor espiritual, do qual obteve, depois de ter exposto tudo, permissão para aceitar e logo começar. Entretanto ela fê-lo observar que devia deixar o pai enfermo e toda a família necessitada de sua ajuda, ao que o homem de Deus pronta e precisamente respondeu: “A vontade de Deus é que você vá e depressa”. Diante de tão decidido e inesperado conselho ela ficou muito agitada e, voltando para casa, ao ver o pai doente e os frágeis irmãozinhos, teve medo de que o diretor lhe tivesse dado um conselho imaturo, dadas as circunstâncias nas quais se encontrava sua família. Por este motivo demorou alguns dias para voltar a falar com ele e quando o fez, antes que ela falasse qualquer coisa, disse-lhe: “Como? Você ainda está aqui? Não foi para onde a chama o Senhor? Vá depressa que o Senhor ajudará muito mais a sua família com a sua partida do que com a sua permanência, porque você deve seguir a vontade de Deus, que a quer lá. Se você perder aquele lugar, arrepender-se-á logo!”… (p.70).


 Prontidão para obedecer

 Ela foi, então, a primeira a experimentar com quanto zelo, doçura, sabedoria, prudência, discrição de espírito e inquebrantável virtude Constança conduziu-a a uma perfeita e pronta obediência. A Fundadora, devemos acrescentar, punha a capacidade de obedecer acima de qualquer outro bem, modelando assim o seu espírito e o de sua companheira de acordo com o espírito do próprio Jesus Cristo. (p.70)
 Nada fazia nem modificava nas obras, sem consentimento do bispo. Certa ocasião, o bispo, quase brincando, disse-lhe, na presença de todos: “Sabe o que dizem de você em Bérgamo? Que você é uma louquinha”. Alegre, ela respondeu: “Tomara o fosse, Excelência, louca da loucura da cruz!”. (p.74)


 Humildade: deixava que as pessoas à volta ensinassem. Quando alguma aluna pedia explicações sobre algum trabalho um pouco mais difícil, Constança mesmo sendo tão hábil em todos os gêneros de trabalho, para deixar todo o mérito para a professora e não adquirir nenhuma estima particular por parte da aluna, respondia-lhe: “Espera que chamarei a professora e ela a ensinará.” (p.72).


 Bom uso do tempo

 Tinha também ela um precioso cuidado com o tempo… repetindo: “vamos, vamos que há outras coisas para serem feitas!…” (p.65).
 …não permitia que se prestasse nem o menor serviço a ela em particular, para não se perder nem mesmo um minuto de tempo. Arranjava-se como podia... Mas parecia não ligar para si mesma, tanto que não se preocupava com sua sobrevivência, devendo-se, com frequência, obrigá-la a se alimentar e a repousar. (p.72)


 A incompreensão por parte dos parentes

 E mesmo tendo sempre à sua mesa o antigo capelão da casa, não era colocado sobre ela nada além do necessário...nesta casa fosse servida, no jantar, a sopa que tinha sobrado do almoço, requentada. Mesmo quando estavam seus parentes, a situação era a mesma – cordialíssima hospitalidade e nada mais que o ordinário – de modo que uma sua cunhada, certa vez, disse-lhe sorrindo: “Vê-se logo que você fez votos de pobreza e por este motivo trata-nos assim, com tanta simplicidade, mas eu não os fiz ainda”. (p.72-73)


 Foi perseguida e chamada de louca

 Havia, enfim, mudado tão radicalmente a respeito das coisas do corpo e do mundo que os familiares, surpreendidos a toda hora por estas mudanças, comentavam entre eles e com a jovem professora, a respeito da sua… conduta que parecia… uma… loucura. (p.73)
 As pessoas que habitualmente a visitavam por causa da amizade que tinham tido com o seu marido, ficavam admiradas com o pouco interesse que ela demonstrava com tudo o que se referisse à sua própria pessoa, às suas coisas e às alheias e de seu modo humilde de vestir-se e começaram a ter, em relação a ela, um sentimento de compaixão, pensando que estivesse para ficar, como diziam, caduca. (p.73)
 Um dia, ficando a sós, sua companheira com algumas senhoras, esta ficou surpresa… quando lhe perguntaram: “O que você acha da senhora? Parece-nos que os desgostos sofridos a estão fazendo perder o juízo!…” (p.73)
 …Constância perguntou à companheira o que aquelas senhoras haviam conversado em sua ausência. A companheira não queria dizer, mas ela insistiu:
“Diga, diga, vamos, pois gostaria de saber!” E ela contou tudo. Constança, rindo, acrescentou: “Viu como fala o mundo e qual o seu espírito ? Quem se age como um louco, tem fama de sábio. Quando se faz o bem, se ganha a fama de tolo; peçamos ao Senhor para que as faça entender. Pobrezinhas, são mártires, escravas dos ideias mundanas. Como o fui também eu”. (p.73)
 Vendo-a trabalhar tanto para realizar o bem, tão dócil e obediente a cada conselho seu, resolveu mudar totalmente a maneira de guiá-la. Antes a tratava com severidade, quase não a escutava, como atesta quem a acompanhava quando ia ao Episcopado. Agora a incentivava a continuar e louvava, na sua presença, os progressos obtidos na obra começada. Deixava transparecer sua alegria interior. Visitava a casa, as escolas e conversava longamente com Constância, interessado em tudo que ela lhe contava, alegre como uma menina. (p.74)


 O tratamento carinhoso recebido pelas órfãs

 Entre o grande número de órfãs que se apresentavam, escolhia sempre as mais abandonadas e necessitadas, dando preferência às camponesas. Cada vez que admitia mais uma órfã, sentia uma satisfação tão grande que não sabia como exprimi-la. (p.75)
 Quando acolhia uma nova órfã, conduzia-a ela mesma à Capela da casa, onde a entregava a Deus, confiando-a à sua proteção. Isso se tornou hábito naquela casa e ainda hoje se faz o mesmo quando se aceita uma nova asilada. E, como a maior parte das órfãs apresentavam-se mendigando e portanto rasgadas, sujas e cheias de insetos nojentos, ela, toda prestativa e alegre, aproximava-se delas , despia-as e as limpava, dando-lhes depois uma roupa nova, o uniforme. Depois, toda alegre, exclamava : “Eis uma filha da Providência”. (p.76)
 Sabia , como ninguém, aproveitar de cada oportunidade para exercitar o seu incomparável senso de caridade, executando com as próprias mãos, esses serviços extremamente repugnantes. Fazia-os com a desculpa de querer fazer uma surpresa à companheira, apresentando-lhe a menina bonita e limpa, mas esta, que conhecia a sua virtude, afligia-se por não ter podido substituí-la ou, ao menos, ajudá-la neste serviço tão sacrificado. (p.76)
 Em outra ocasião sucedeu que uma das órfãs, passando pelo quintal, caiu numa fossa tão profunda que a pobre menina ficou imersa até o queixo. Uma Irmã tirou-a, mas vendo-a naquele estado lamentável não teve coragem de despi-la. Chegou, naquele momento, a bendita Madre que, sem nada dizer, arregaçou as mangas do hábito, pegou a menina pela mão, suja como estava e despiu-a com tal desembaraço e competência, que parecia até ter prazer naquilo. (p.76)
 Sabia adaptar-se tão bem aos usos e costumes dos camponeses, que parecia ter vivido sempre no meio deles. (p.77)


 Era perseguida por excesso de elogios

 Sentia-se amedrontada quando alguém elogiava e louvava a obra, perturbada dizia: “Mas, o que estamos fazendo aqui de tão especial? Que obra? Não sei de obra nenhuma!” Para acalmar-se, ia a Bérgamo e, meio perdida, revelava a angústia de seu coração abatido ao santo diretor, que se alegrava de vê-la tão humilde e desapegada de qualquer glória e , quase brincando, dizia-lhe : “Viu? O mundo a atormenta e você deve rir dele, ele é curioso, não se preocupe, você não está fazendo nenhum mal, antes, está fazendo o bem, portanto, por que temer ? (p.79)


 Fundação do Instituto

 Finalmente, numa manhã, demorou-se um pouco mais do que de costume para sair do habitual recolhimento em seu quarto. Saindo, encontrou sua companheira. Esta ficou tão surpresa em vê-la com o rosto particularmente iluminado, parecendo transfigurada que não ousou perguntar-lhe porque havia demorado tanto. Mas ela, adivinhando a pergunta da companheira, foi logo dizendo: “Hoje fiquei retirada por mais tempo que de costume porque redigi, por escrito, as minhas ideias a senhor cônego Valsecchi. Quanto é bom o Senhor”! De fato, naquela manhã havia composto um livrinho no qual havia colocado os primeiros esboços da fundação do seu Instituto, agora estabelecido sobre aquelas normas. (p.80)
Se depois, às vezes, o bom resultado demorava em aparecer, repetia: “Não tenhamos pressa, a pressa é um defeito. Ele é muito pacato, parece até lento nas suas coisas, mas as faz muito bem e chega sempre a tempo, tenhamos paciência, e a paciência é também um dos frutos do Espírito Santo”. De fato, as coisas resolviam-se às mil maravilhas, no seu devido tempo, e ela dizia: “Viram como São José fez tudo direitinho? Não só a questão foi otimamente resolvida como foi precedida e seguida das mais oportunas circunstâncias. Vamos, então, agradecê-lo por isto”.
 Por isso quis que suas órfãs fossem chamadas Filhas de São José, substituindo o nome em que haviam pesando antes, de Filhas da Providência. Depois de ter refletido muito e de ter sido muito aconselhada, decidiu dar ao Instituto, por muitos motivos, o nome de Instituto da Sagrada Família. (p.116-117)


 Bons conselhos

 Deixando ainda, a respeito dele, uma norma especial por escrito, acrescida de muitos e sábios conselhos. Recomendava, por exemplo, que as mestras nunca se dessem ar de importância. Deviam tratar suas alunas somente com o coração e com desvelo de mãe. Insistia que fossem educadas aos poucos, de acordo com as situações que se apresentassem, que se fosse tirando delas algum mau hábito ou vício, mais do que deter-se em ensinamentos ou teorias, que as meninas não entendiam e que, na prática, não tinham nenhum valor. (p.118)


 Perseverança no chamado de Deus

 Quando Deus chama para uma missão, dá também a força, os talentos e a capacidade para cumpri-la. Ai de quem voltar atrás sob vãos pretextos! Ai de quem, por soberba, desprezar os ofícios e trabalhos humildes e simples,…(p.84)

 Viveu uma santa alegria

 As companheiras, então, não mais puderam vê-la a não ser na igreja e à mesa, onde comparecia absorta e com ar angelical, sinais claros e evidentes de que Ela estava totalmente compenetrada em Deus. Enquanto as outras, naqueles dias, estavam impressionadas pelas meditações sobre as eternas verdades, ela transbordava de íntima e santa alegria, tanto que, admirada de ver as outras tão concentradas em si mesmas, não pode deixar de comentar, um dia, com uma delas: “Como é que vocês estão assim tão pensativas e eu não posso conter a minha alegria? Tenho medo de escandalizá-las por me verem tão diferente de todas”.
 Era a graça extraordinária que Deus a fazia experimentar já nesta vida, como uma pequena amostra do prêmio que estava sendo preparado no céu para ela, como recompensa pelos benefícios que com tanta generosidade havia realizado.(p.88)


 Tentação para não assumir o compromisso de consagração perpétua

 Em seguida, ela decidiu, de uma vez por todas, realizar finalmente aquilo que já há muito tempo, com todo ardor, sentia-se impulsionada a fazer, isto é, o seu sacrifício a Deus de proferir os votos perpétuos religiosos. O demônio, até então, havia confundido os seus pensamentos, sugerindo-lhe que tomasse cuidado com aquilo que estava fazendo, porque depois se arrependeria e não poderia mais anular os votos proferidos e ela já tinha realizado tantos benefícios, mesmo sem os votos. Mas com a ajuda de Deus, que lhe mostrou a armadilha do tentador, e com o conselho iluminado do diretor, tendo já no Natal passado, feito o voto de Castidade, emitiu também os outros dois votos perpétuos de pobreza e obediência, no dia 8 de fevereiro de 1857, domingo da septuagésima e festa de são Jerônimo Emiliano, com a aprovação do senhor Bispo. Acrescentou mais tarde ainda um quarto voto, de trabalhar sempre para a maior glória de Deus. (p.89-90)


 Vida de Pobreza

 Completado assim o seu total e irrevogável ato de perfeita oblação, deu fim a tudo quanto ainda restava de supérfluo no palácio. Tudo quanto havia em ouro, diamantes, mobílias, roupas de luxo, ela vendeu, despojando o palácio e a si mesma. O dinheiro foi empregado na compra de camas e tudo o que era necessário para equipar o orfanato, enquanto isso, cheia de alegria, dizia: “Não acham que o dinheiro está muito melhor empregado agora? Com aquelas joias pudemos providenciar conforto e abrigo para essas pobres criaturas sem teto e sem pão”.
 Assim fazia depois cada vez que precisava arcar com alguma despesa, revistava cada canto da casa até encontrar alguma coisa que julgasse supérflua e rapidamente a vendia, conseguindo assim dinheiro para as suas novas provisões, e dizia : “Para pobres como nós somos, não ficam bem estas coisas, para nós basta o resto que temos e isto está sendo mais bem empregado adquirindo novos colchões, panos, etc., para nossas filhinhas”.
 As companheiras, diante de tal desprendimento, ficavam admiradíssimas, parecendo a elas muito estranho ver a nobre Senhora desfazer-se de tantos móveis e enfeites preciosos com tanta indiferença a ponto de parecer que ela lidasse com coisas que não eram suas e sua alegria era tanta que mais parecia ter feito uma grande aquisição e não uma venda. A sua forma de vestir-se não teve necessidade de reformas, pois vestia… desde a morte do filho, não tendo usado, daquela época em diante, nenhum outro tipo de roupa. (p.90-91)


 Conselhos para confissão

 Se não procurassem a autossatisfação, estariam contentes. A simplicidade, a humildade e a firme vontade de não mais pecar são as coisas que realmente contam. Vocês se confessam para limpar a alma, humilhem-se e não pretendam que o confessor satisfaça e console vocês, pois não sabemos se merecem isso . Caminhem até lá com boa vontade, não percam seu tempo no confessionário e nem façam com que o confessor também perca o seu. Muitas vezes acho que se fazem algumas confissões inúteis, isto é, confessa-se tão somente por confessar ou para se satisfazer. Minhas caras, não procuremos estas formas de amor próprio, mas a graça do sacramento, que o Senhor dá a quem a procura”. (p.92)


Corpo incorrupto da santa. 



 A morte

 “Estou confessada – exclamou exclamou a bem aventurada mãe – Oh! Como o Senhor é bom! Quantas bonitas graças são feitas! Veja! Há poucos dias fizemos a nossa confissão anual com o Cônego Valsecchi, com a qual ficamos muito contentes e agora, de novo, estamos reconciliadas com Deus! Amanhã comungaremos e receberemos a indulgência plenária. Temos tido mesmo muita sorte. Depois haverá ainda a solenidade do Natal… que beleza ! Amanhã cedo levantar-nos-emos um pouco antes do horário normal e, no caso de sentir-me fraca, comungarei antes da Santa Missa”.
Morreu santamente na madrugada do dia seguinte. Sua morte foi, para ela, um merecido e plácido repouso. Sequer a percebeu! Havia apenas se acomodado para dormir um pouco e enquanto a companheira que estava ao seu lado, enganada por aquele sono mentiroso, havia se deitado também para contentá-la, não pode aperceber-se que havia expirado poucos minutos depois. Começou, certamente, seu último sono entre os mais ardentes desejos de Deus, adormeceu para sempre entre seus braços amorosos. Expirou às 02h00min horas da madrugada do dia 24 deste mês, isto é, na véspera do Santo Natal, não tendo completado ainda o quinquagésimo ano de sua santa vida.(p.192)
 Fonte: “Manuscrito Longoni. Memórias da vida da beata Paula Elizabete Ceriori – Fundadora dos Institutos da Sagrada Família de Bérgamo. 1981.







terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SÃO JOÃO CÂNCIO ou João de Kanty, Presbítero e patrono dos professores e peregrinos (23 de dezembro).



São João Câncio
Considerado um dos santos mais representativos e queridos da heroica Polônia, São João Câncio é chamado, pelo povo, de a "glória da nação polonesa" e o "pai da pátria". Isso num país que sempre teve orgulho de sua fé no cristianismo e da fidelidade à cátedra de Pedro.
João Câncio nasceu em 23 de junho de 1390, no povoado de Kenty, e viveu sempre em sua cidade, Cracóvia. Lá, conquistou todos os graus acadêmicos e lecionou em sua principal universidade até morrer.


Modelo de professor

A grande preocupação de seu magistério era transmitir aos alunos os conhecimentos "não à luz de uma ciência fria e anônima, mas como irradiação da ciência suprema que tem sua fonte em Deus". Mesmo depois de ordenar-se sacerdote, continuou a cultivar a ciência, ao mesmo tempo que fazia seu trabalho pastoral como vigário da paróquia de Olkusz.




Homem de oração, humildade e penitência

Homem de profunda vida interior, era um homem sério, humilde e generoso; jejuava e penitenciava-se com frequência; dormia pouco, não comia carne. Apesar de tão rígido para consigo mesmo, manifestava profundo amor pelo próximo, principalmente pelos pobres da cidade. Várias vezes, inclusive, foi visto dando suas próprias vestes para um pobre. A gente o chegou a chamar "o pai dos pobres" por suas muitas obras de caridade com os mais necessitados.
Quando a sua humildade e a sua paciência eram postas a prova, sem perder a costumeira serenidade de espírito, se limitava a responder: “Graças a Deus!” Na qualidade de preceptor dos príncipes da Casa real polonesa, às vezes não podia se subtrair a participação de alguma festa mundana.
Um dia, se apresentou a um banquete com roupas humildes e um doméstico o colocou porta afora. João foi se trocar e voltou ao lugar onde se dava a recepção. Desta vez pode entrar, mas durante o almoço um servente desastrado esvaziou um copo nas suas vestes. João sorriu afirmando: “Está certo que também a minha roupa tenha a sua parte, foi graças a ela que pude entrar aqui.” Tanto nas pequenas como nas grandes adversidades, João teve sempre em mira algo de bem superior ao prestígio, a carreira e ao bem-estar materiais: “Mais para o alto!”, repetia frequentemente querendo exprimir com este lema o seu programa de vida ascética. Ele se distinguiu, sobretudo, pela caridade evangélica, com uma marca claramente franciscana.


O santo peregrino

Há um exemplo claro de sua personalidade em sua biografia, que remonta às inúmeras peregrinações e romarias aos túmulos dos mártires em Roma (fez quatro peregrinações a Roma carregando sua bagagem nas costas), bem como aos lugares santos da Palestina. Desejava ser martirizado pelos “turcos” (muçulmanos). Numa dessas incontáveis viagens, foi assaltado. Os bandidos exigiram que João Câncio lhes desse tudo que tinha, depois perguntaram ainda se não estava escondendo mais nada. Ele afirmou que não.
Depois que os ladrões partiram, ele se lembrou de que ainda tinha algumas moedas no forro do manto. Achou-as, correu atrás dos bandidos, deu-lhes as moedas e ainda pediu desculpa pelo esquecimento.

Com pena de uma pobre mulher que
deixara cair um vaso com óleo, o
santo realizou um grande milagre:
após pegar os "cacos", os mesmos
começaram a juntar-se e emendar
sozinhos e o vaso encheu-se
de óleo novamente.
Grande pregador contra o pecado

Sua fama chegou a ser extremamente grande. Nas discussões repetia o que dizia Santo Agostinho: "Combatemos o pecado mas amamos o pecador. Atacamos o engano, mas não queremos violência contra ninguém, a violência sempre faz mal, em troca a paciência e a bondade abrem as portas dos corações".
Quando pregava sobre o pecado chorava ao recordar a ingratidão dos pecadores para Deus, e as pessoas ao vê-lo chorar se comoviam e mudavam de conduta.
A seus alunos repetia estes conselhos: "Cuidem-se de ofender, que depois é difícil fazer esquecer a ofensa. Evitem murmurar, porque depois resulta muito difícil devolver a fama que se tirou". Foram centenas os sacerdotes formados espiritualmente por ele.


Morte e glorificação
Anos depois, ao perceber a proximidade da morte, distribuiu os poucos bens que possuía aos pobres, falecendo às vésperas do Natal de 1473, aos 83 anos de idade. Foi canonizado por Clemente II em 1767. São João Câncio era celebrado no dia 20 de outubro, mas agora sua festa acontece um dia antes daquele que marca sua morte.
Para homenagear o "professor santo", que foi modelo para gerações inteiras de religiosos, o Papa São João Paulo II foi à Polônia em 1979. Na ocasião, consagrou uma capela em memória do padroeiro da Polônia, São João Câncio, na igreja de São Floriano. Nela, na metade do século XX, o mesmo papa, então um jovem sacerdote, iniciava o seu serviço de vigário paroquial.


Ladainha de São João Câncio:
São João Câncio, rogai por nós.
Fiel servo de Jesus Cristo, rogai por nós.
Discípulo fervoroso e defensor do Evangelho de Cristo, rogai por nós.
Venerador da Paixão do Senhor, rogai por nós.
Pastor exemplar do rebanho de Jesus Cristo, rogai por nós.
Venerador da Santíssima Mãe de Deus, rogai por nós.
Venerador de Santa Ana, rogai por nós.
Imitador zeloso dos santos, rogai por nós.
Amante de almas redimidas com o sangue de Cristo, rogai por nós.
Patrono da sua terra natal, a Polônia, rogai por nós.
Padroeiro da cidade de Cracóvia, rogai por nós.
Modelo Luminoso da profissão acadêmica, rogai por nós.
Padroeiro dos professores, rogai por nós.
Guardião das pessoas envolvidas no trabalho acadêmico, rogai por nós.
Professor da verdade, rogai por nós.
Orgulho e patrono do sacerdócio, rogai por nós.
Pai dos pobres, rogai por nós.
Exemplar de bondade cristã, rogai por nós.
Professor e modelo de misericórdia evangélica, rogai por nós.
Oração:
Senhor, pelos méritos de São João Câncio, eu vos peço o mais precioso dos dons, o da caridade.  Fazei-me amável, tolerante, solícito, gentil e que todas as minhas atividades sejam baseadas no amor que Cristo nos ensinou. Amém.