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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Servo de Deus Francisco Xavier Nguyên Van Thuân, Cardeal e Testemunha Heroica de Fé.



Phanxicô Xaviê Nguyễn Văn Thuận, mais conhecido como François-Xavier Nguyên Van Thuân (Phu Cam, Huế, 17 de abril de 1928 — Roma, 16 de setembro de 2002), foi um bispo e cardeal Vietnamita da Igreja Católica.

Nasceu numa família que contava oito filhos. Vinha de uma família que contava com numerosos mártires da fé. Sua mãe, todas as noites, contava-lhe histórias bíblicas e narrava-lhe testemunhos de mártires, especialmente de seus antepassados.



Fez seus estudos no seminário menor e depois no seminário maior e foi ordenado sacerdote católico em 11 de junho de 1953. Continuou os seus estudos em Roma onde se formou em Direito Canônico. Retornando ao Vietnam foi encarregado da formação dos padres da sua diocese como reitor e professor do seminário e, em 24 de junho de 1967 foi nomeado bispo da Diocese de Nha Trang, no centro do Vietnam, diocese pela qual sempre confessou predileção.

 

Oito anos depois, o Papa Paulo VI o nomeou arcebispo coadjutor de Saigon. Ardoroso animador dos leigos e jovens, prepara-os para participarem dos conselhos pastorais.

Văn Thuận, que presidiu o Pontifício Conselho Justiça e Paz, deu início à publicação do Compêndio da Doutrina Social da Igreja publicado em 2004.


Prisão do arcebispo
Em 1975 foi nomeado pelo Papa Beato Paulo VI arcebispo coadjutor de Saigon. Sua nomeação foi recusada pelo governo comunista, que no dia 15 de agosto de 1975 – dia de Nossa Senhora da Assunção – o convoca ao palácio do governo e, após, o coloca em prisão domiciliar. Posteriormente, foi preso por treze anos. Em 1976 esteve no cárcere da prisão de Phu Khanh, após foi conduzido ao campo de reeducação de Vinh Phu no Vietnam do Norte, após em prisão domiciliar em Giang Xa e finalmente em Hanoi. Foi libertado em 21 de novembro de 1988 e conduzido à residência do arcebispo de Hanói.

Sobre a sua prisão pelo regime comunista disse: "Disseram-me que minha nomeação era fruto de um complô entre o Vaticano e os imperialistas para organizar a luta contra o regime comunista", contava Văn Thuận.

Rumo à prisão, tomou uma decisão:
Vieram-lhe à mente muitos pensamentos confusos: tristeza, abandono, cansaço depois de três meses de tensões… Porém, em sua mente surgiu claramente uma palavra que dispersou toda a escuridão, a palavra que Monsenhor John Walsh, Bispo missionário na China, pronunciou quando foi libertado depois de doze anos de cativeiro: ‘Passei a metade da minha vida esperando’. É verdadeiríssimo: todos os prisioneiros, inclusive eu, esperam a cada minuto sua libertação. Porém, depois decidiu: ‘Eu não esperarei. Vou viver o momento presente, enchendo-o de amor.

De fato, foi o que fez: amou, amou, amou. As condições não eram favoráveis. Durante alguns meses esteve confinado numa cela minúscula, sem janela, úmida, que para respirar passava horas com o rosto enfiado num pequeno buraco no chão. A cama era coberta de fungos.

Os nove primeiros anos foram terríveis: "uma tortura mental, no vazio absoluto, sem trabalho, caminhando dentro da cela desde a manhã às nove e meia da noite para não ser destruído pela artrose, no limite da loucura".

Buscava conversar com os carcereiros, que resistiam, mas logo eram seduzidos por sua gentileza e inteligência. Contava-lhes sobre países e culturas diferentes. Isso chamava sua atenção e instigava a curiosidade. Logo começavam a fazer perguntas, o diálogo se estabelecia, a amizade se enraizava. Chegou a dar aulas de inglês e francês.

No começo, a cada semana os guardas eram substituídos, mas logo as autoridades, para evitar que o exército todo fosse "contaminado", deixou uma dupla de carcereiros fixa. Estes se espantavam de como o prisioneiro pudesse chamar de amigos os seus carcereiros, mas ele afirmava que os amava porque esse era o ensinamento de Jesus.



"O Caminho da Esperança"
Como o amor é criativo, Văn Thuận encontrou também um jeito de se comunicar com seu rebanho:

Em outubro de 1975, fiz um sinal a um menino de sete anos, Quang, que regressava da Missa às 5 horas, ainda escuro: ‘Diz à tua mãe que me compre blocos velhos de calendários’. Mais tarde, também na escuridão, Quang me traz os calendários, e em todas as noites de outubro e novembro de 1975 escrevi da prisão minha mensagem ao meu povo. Cada manhã o menino vinha recolher as folhas para levá-las à sua casa e fazer que seus irmãos e irmãs copiassem-na”.

Assim foi escrito o livro "O Caminho da Esperança", posteriormente publicado em oito idiomas: vietnamita, inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, coreano e chinês.

Em 1980, na residência obrigatória de Giang-xá, no norte do Vietnam, sempre de noite e em segredo, escreveu seu segundo livro: "“ O caminho da esperança à luz da Palavra de Deus e do Concílio Vaticano II""; depois o terceiro livro: "“ Os peregrinos do caminho da esperança “".

Sempre inspirado pela criatividade amorosa, Văn Thuận escreveu uma carta aos amigos pedindo que enviassem um pouco de vinho, como remédio para doenças estomacais. Assim, a cada dia, três gotas de vinho e uma de água eram suficientes para trazer "Jesus eucarístico" à prisão. Os pedacinhos de pão consagrado eram conservados em papel de cigarro, guardado no bolso com reverência. De madrugada, ele e os poucos católicos detidos ali davam um jeito de adorar o Senhor escondido com eles.




Um dia, enquanto trabalhava de lenhador, Văn Thuận pediu ao amigo carcereiro: "Queria cortar um pedaço de madeira em forma de cruz… Feche os olhos, farei agora e serei muito cauteloso. Você vai andando e me deixa só". Assim, conseguiu como companheira aquela rústica cruz feita por ele mesmo.

Para completar sua obra, pediu: "Amigo, você me consegue um pedaço de fio elétrico?" Este ficou espantado, sabia que quando prisioneiros conseguem fios, suicidam. Mas, Văn Thuận explicou: "Queria fazer uma correntinha para levar minha cruz." Saindo da prisão, com uma moldura de metal, aquele pedaço de madeira tornou-se sua cruz peitoral (vide foto acima).

Cardeal Văn Thuận foi libertado no dia 21 de novembro de 1988. Em setembro de 1991 deixou o Vietnam e foi para Roma, onde presidiu o Pontifício Conselho Justiça e Paz. Tão logo chegou a Roma foi-lhe dado conhecimento que o governo do Vietnam não desejava o seu retorno ao país.

Em 1994 foi nomeado vice-presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz e em 1995 foi nomeado postulador da Causa de beatificação de Marcel Van.

Cardinalato
João Paulo II pediu-lhe que lhe pregasse o retiro espiritual da quaresma e à cúria romana no ano de 2000. Escreveu mais um livro: "Testemunhas da esperança" (Retiro ministrado ao papa São João Paulo II e a cúria romana pela passagem do Jubileu do Ano 2000) no qual relata sua experiência de prisioneiro. Fazia questão de dizer que não se trata de um livro para fazer denúncias, mas testemunhar o dom da esperança.


Em 21 de fevereiro de 2001 foi escolhido como cardeal pelo Papa São João Paulo II; o cardeal Văn Thuận foi levado em 16 de setembro de 2002 ao hospital romano Pio XI, padecendo de câncer, na idade de 74 anos, faleceu no dia 17 de setembro de 2002.[1] Seus funerais foram presididos pelo Papa São João Paulo II na basílica vaticana em 20 de setembro de 2002.[2]

 


Beatificação
Em 18 de abril de 2007, monsenhor Giampaolo Crepaldi, secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz anunciou a abertura da causa de beatificação do cardeal François-Xavier Nguyên Văn Thuận.

No dia 17 de setembro de 2007 o Papa recebeu os integrantes do Pontifício Conselho Justiça e Paz por ocasião do V aniversário da morte de Cardeal Văn Thuận cuja causa de beatificação se havia acabado de abrir. Cardeal Renato Raffaele Martino nomeou a advogada Silvia Mônica Correale como postuladora do processo de beatificação. No dia 26 de janeiro de 2011 o cardeal Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, nomeou como novo postulador o Dr. Waldery Hilgeman.

Citações
Bento XVI falando sobre ele destacou a sua "cordialidade e capacidade que tinha de dialogar e de fazer-se próximo de todos; (…) seu fervoroso compromisso na difusão da doutrina social da Igreja entre os pobres do mundo, o anelo pela evangelização no seu continente, Ásia, a capacidade que tinha de coordenar as atividades de caridade e de promoção humana que promovia e sustentava nos lugares mais longínquos da terra".

Disse ainda que: “era um homem de esperança, vivia de esperança e a difundia entre todos os que encontrava”. Graças a esta energia espiritual resistiu a todas as dificuldades físicas e morais. A esperança o sustentou como bispo isolado durante treze anos de sua comunidade diocesana; a esperança o ajudou a perceber o absurdo dos eventos que lhe sucederam - nunca foi processado durante sua longa detenção - um desígnio providencial de Deus.
Em 30 de novembro de 2007, comentando a sua encíclica Spe salvi, o Papa Bento XVI voltou a se referir a ele como exemplo de como a oração é modelo de esperança:

"Há outro testemunho de que, em uma situação de "desespero aparentemente total", a escuta de Deus e poder falar com ele foi uma força crescente de esperança: trata-se do servo de Deus, o cardeal vietnamita François-Xavier Nguyên Văn Thuận (1928-2002), uma figura inesquecível."

"Treze anos nas prisões vietnamitas; deles, nove em isolamento: sua experiência de esperança, graças à oração, "lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão"


Obras publicadas (em francês)

Une vie d'espérance Vie de François-Xavier Nguyen Van Thuan André Nguyen Van Chau (2007, édition du Jubilé) ISBN 9782866794446
365 jours d'espérance, Nguyen van Thuan François-Xavier (2005, édition du Jubilé) ISBN 286679351X
Prières d'espérances, Nguyen van Thuan François-Xavier (1995, édition du Jubilé) ISBN 2866791878
À la lumière de la Parole de Dieu et du Concile, Nguyen van Thuan François-Xavier (1994, édition du Jubilé) ISBN 2866791320
Les pèlerins du chemin de l'Espérance, Nguyen van Thuan François-Xavier (1993, édition du Jubilé) ISBN 2866791274
Sur le chemin de l'Espérance, Nguyen van Thuan François-Xavier (1991, édition du Jubilé) ISBN 2866790731




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SANTA MISSA DE EXÉQUIAS
DO CARDEAL FRANÇOIS-XAVIER NGUYÊN VAN THUÂN
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Sexta-feira, 20 de Setembro de 2002

1. "A sua esperança está repleta de imortalidade" (cf. Sb 3, 4).
Estas consoladoras palavras do Livro da Sabedoria convidam-nos a elevar, à luz da esperança, a nossa oração de sufrágio pela alma eleita do saudoso Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân, que levou toda a sua vida precisamente sob o sinal da esperança.
Sem dúvida, a sua morte amargura todos quantos o conheceram e amaram: os seus familiares, em particular a sua mãe, a quem renovo a expressão da minha afectuosa proximidade. Em seguida, penso na querida Igreja que está no Vietname, que o gerou para a fé; e penso inclusivamente em todo o povo vietnamita, que o venerando Purpurado recordou de maneira expressa no testamento espiritual, afirmando que sempre o amou. Chora a morte do Cardeal a Santa Sé, a cujo serviço ele dedicou os seus últimos anos, primeiro como Vice-Presidente e depois como Presidente do Pontifício Conselho "Justiça e Paz".
Também neste momento parece que ele está a dirigir a todos o seu persuasivo convite à esperança. Quando durante o ano de 2000, lhe pedi que preparasse as meditações para os Exercícios Espirituais da Cúria Romana, ele escolheu como tema: "Testemunhas da esperança".
Agora que o Senhor o provou "como o ouro no cadinho" e o julgou agradável "como um holocausto", podemos verdadeiramente dizer que "a sua esperança estava repleta de imortalidade" (cf. Sb 3, 4.6). Ou seja, estava cheia de Cristo, vida e ressurreição daqueles que nele confiam.
2. Espera em Deus! Foi com este convite a confiar no Senhor, que o estimado Purpurado deu início às meditações dos Exercícios Espirituais. As suas exortações ficaram impressas na minha memória, em virtude da profundidade das suas reflexões, enriquecidas com contínuas recordações pessoais, em grande parte relativas aos treze anos que foi obrigado a passar na prisão. Ele narrava que, precisamente no cárcere, tinha compreendido que o fundamento da vida cristã consiste em "escolher unicamente a Deus", abandonando-se de maneira integral nas suas mãos paternas.
À luz da sua experiência pessoal, ele acrescentava que nós somos chamados a anunciar a todas as pessoas o "Evangelho da Esperança"; em seguida, especificava: somente com a radicalidade do sacrifício é possível cumprir esta vocação, apesar da subsistência das provações mais duras.
Depois, dizia que "valorizar cada uma das dores, como um dos inúmeros rostos de Jesus crucificado, e uni-lo ao seu significa entrar na sua própria dinâmica de sofrimento-amor; quer dizer participar na sua luz, na sua força e na sua paz; significa voltar a encontrar em nós mesmos uma renovada e mais completa presença de Deus" (Testimoni della Speranza, Roma 2001, pág. 124).
3. Poderíamos perguntar de onde é que ele tirava a paciência e a coragem, que sempre o caracterizaram. A este propósito, ele confessava que a sua vocação sacerdotal estava vinculada de maneira misteriosa mas concreta ao sangue dos mártires que morreram durante o século passado, enquanto anunciavam o Evangelho no Vietnam. Com efeito, ele observava que "os mártires nos ensinaram a dizer "sim": um "sim" incondicional e sem limites ao amor do Senhor; todavia, também um "não" às tentações, às conivências e à injustiça, talvez com a finalidade de salvar a sua própria vida" (Ibid., pp. 139-140). E o Purpurado acrescentava que não se tratava de heroísmo, mas de fidelidade amadurecida, voltando o olhar para Jesus, modelo de cada testemunha e de todos os mártires. Uma herança a ser acolhida em cada dia, ao longo de uma vida cheia de amor e de mansidão.
4. Enquanto damos o nosso derradeiro adeus a este heróico arauto do Evangelho de Cristo, damos graças ao Senhor por nos ter concedido, nele, um luminoso exemplo de coerência cristã, até ao martírio. Assim, foi com impressionante simplicidade ele que ele fez a seguinte afirmação sobre si mesmo: "No abismo dos meus sofrimentos... jamais cessei de amar a todos, sem excluir ninguém do meu coração" (Ibid., pág. 124).
O seu segredo era uma confiança indómita em Deus, alimentada pela oração e pelo sofrimento aceite com amor. Na prisão, ele celebrava em cada dia a Eucaristia com três gotas de vinho e uma gota de água na palma da sua mão. Este era o seu altar, a sua catedral. O Corpo de Cristo era o seu "remédio". Por isso, narrava com emoção: "Todas as vezes eu tinha a oportunidade de estender as minhas mãos e de me cravar na Cruz juntamente com Jesus, de beber com Ele o cálice mais amargo. Em cada dia, recitando as palavras da consagração, eu confirmava com todo o meu coração e com toda a minha alma um novo pacto, uma aliança eterna entre mim e Jesus, mediante o seu Sangue que se misturava ao meu" (Ibid., pág. 168).
5. "Mihi vivere Christus est!" (Fl 1, 21). Fiel até à morte, o Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân, fez sua a expressão do Apóstolo Paulo, que acabámos de escutar. Ele conservou a serenidade e até mesmo a alegria, durante a sua prolongada e dolorosa hospitalização. Nos últimos dias, quando já era incapaz de falar, permanecia com o olhar fixo no Crucifixo posto à sua frente.
Rezava em silêncio, enquanto consumava o seu extremo sacrifício, como coroação de uma existência assinalada pela heróica configuração com Cristo na Cruz. Bem se lhe adaptam as palavras proclamadas por Jesus, na iminência da sua Páscoa: "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24).
Somente com o sacrifício de si mesmo é que o cristão contribui para a salvação do mundo. E foi assim para o nosso venerável Irmão Cardeal. Ele deixa-nos, mas o seu exemplo permanece. A fé garante-nos que ele não morreu, mas que entrou no dia eterno que não conhece ocaso.
6. "Santa Maria... rogai por nós... na hora da nossa morte". Na prisão, quando lhe era impossível rezar, ele recorria a Maria: "Mãe, vedes que me encontro no limite extremo e não consigo recitar qualquer prece. Então... colocando tudo das vossas mãos, simplesmente repetirei: "Ave Maria!"" (Ibid., pág. 253).
No testamento espiritual, depois de ter pedido perdão, o extinto Cardeal assegura que continua a amar a todos. Assim, afirma: "Parto com serenidade e não conservo ódio por ninguém. Ofereço todos os sofrimentos que passei, a Maria Imaculada e a São José".
O testamento termina com esta tríplice recomendação: "Amai a Virgem Santa e tende confiança em São José; sede fiéis à Igreja; permanecei unidos e sede caridosos para com todos". Esta é a síntese da sua existência.
Agora ele possa ser recebido, juntamente com José e Maria, na alegre contemplação celestial do Rosto glorioso de Cristo que, na terra, ele procurou ardentemente como a sua única esperança.
Amém!



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