Páginas

Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quinta-feira, 9 de abril de 2015

SANTA MARIA EUGÊNIA DE JESUS MILLERET, Virgem e Fundadora


Alma firme e pervadida de fé, não temeu esta jovem fundadora enfrentar tormentas e dificuldades, sem se abalar, na consolidação da obra que lhe fora encomendada pela Providência.
"O desânimo, meu pai, está muito longe do meu espírito. [...] Crede, por fim, que estamos bem convencidas de não haver em nós a santidade exigida pelas obras de Deus e, assim, de minha parte, eu não me surpreenderia com nenhuma espécie de insucesso".1
Estas categóricas palavras, dignas de um ancião experimentado em mil batalhas, fluíam, entretanto, da pluma de uma jovem de apenas 24 anos... Acabava ela de ver-se abandonada por seu diretor espiritual e era aconselhada pelo superior eclesiástico a suprimir a congregação religiosa que de suas mãos nascia, mas tratava do assunto com extraordinário desapego e elevação de espírito.


De onde vinha tamanha firmeza?
Tendo frequentado desde pequena ambientes indiferentes ou contrapostos à Religião, esta jovem fundadora soubera ver quão vazias e instáveis são as coisas desta vida — a riqueza ou a pobreza, a inteligência, o prazer e até mesmo o convívio familiar —, quando falta o essencial: a fé.
Apoiada neste princípio, gravado a fogo em sua alma, Santa Maria Eugênia de Jesus erigiu uma magnífica obra em meio a terríveis tormentas. E tal foi sua integridade diante das dificuldades, que o Papa Pio XII não duvidou em qualificá- la de "mulher forte, mulier fortis, em toda a força do termo: sempre pronta a cumprir a vontade divina, de ânimo intensamente piedoso, de coração transbordante de amor a Cristo, de inteligência robusta, luminosa, vasta, de caráter firme, resoluto, continuamente direcionado para o objetivo proposto".2

Uma divisa olvidada pelos Milleret
Nihil sine fide — nada sem fé — era, não por acaso, a divisa da família em cujo seio nascera Ana Eugênia Milleret de Brou, a 25 de agosto de 1817. Contudo, no início do século XIX, tal lema se convertera tão só em uma bela frase gravada no brasão familiar. Jacques Milleret, pai de nossa Santa, preferia guiar- -se pelas ímpias doutrinas de Voltaire, enquanto sua esposa, Eleonora Eugênia de Brou, descendente da nobreza da Bélgica e Luxemburgo, tampouco parecia empenhada em reavivar este ideal.
A infância de Ana Eugênia transcorria farta e tranquila em Metz, sua cidade natal. O pai, além de possuir ali uma mansão, era deputado de Moselle, dono de três bancos e de uma vasta propriedade em Preisch, onde uma exuberante natureza tornava especialmente agradável a estadia nas melhores épocas do ano. Não faltavam à menina as brincadeiras em companhia dos irmãos, nem a sólida educação condizente com sua categoria social. Falava com perfeição o francês e o alemão, e era instruída pela mãe na prática das virtudes naturais, pois a levava a visitar os pobres e enfermos, e a ensinava a ser honesta e generosa.
Todos os membros da família participavam de certas cerimônias da Igreja, às quais, naquele tempo, era quase uma obrigação social comparecer. Todavia, sua vida de piedade reduzia-se praticamente só a isso. As crianças receberam os Sacramentos, mas sua educação religiosa fora negligenciada. "Minha ignorância dos dogmas e ensinamentos da Igreja era inconcebível. No entanto, eu participara das aulas de catecismo com os outros meninos, fizera minha Primeira Comunhão com amor, e Deus mesmo me concedera graças que foram, junto com vossas palavras, o fundamento de minha salvação",3 escreverá ela mais tarde ao padre Lacordaire.
Uma dessas graças se deu ao receber Jesus Eucarístico pela primeira vez. Sentira, naquele momento, a pequenez das coisas deste mundo e ouvira em seu coração estas proféticas palavras: "Perderás tua mãe, mas serei para ti mais que uma mãe. Virá o dia em que deixarás tudo aquilo que amas para Me glorificar e servir àquela Igreja que não conheces". 4 Ficara depositada na alma da jovem aristocrata uma possante semente. Daí a alguns anos a veremos florescer.


Radical mudança na vida da família
Ana Eugênia já experimentara o amargo sabor do infortúnio quando morreram seus dois irmãos, ainda pequenos. Mas em 1830 uma tragédia familiar provocou uma radical mudança na vida dos Milleret. Inábeis operações do senhor Jacques fizeram-no perder a fortuna. Viram-se obrigados a vender todos os imóveis e bens. Cessaram as festas e, ademais, Ana Eugênia, com 13 anos, teve que partir para Paris com a mãe, enquanto o pai permanecia em Metz com seu irmão Luís, apenas dois anos mais velho, de quem ela era inseparável.
Outros dramas sobrevieram. Em 1832, uma epidemia de cólera assolou Paris e, em poucas horas, Ana Eugênia viu a mãe perecer, sem sequer dar tempo para serem-lhe administrados os últimos Sacramentos.
Órfã aos 15 anos, foi acolhida por uma amiga da mãe, a senhora Doulcet, cujo marido era coletor geral de impostos em Châlons. Os prazeres mundanos lhe voltaram a fazer parte da vida e sua virtude da fé, então tão pouco alimentada, vacilava diante das habituais conversas anticlericais daqueles ambientes. Algumas réstias da luz penetrada em sua alma no Batismo e na Eucaristia, porém, se mantinham. "Deus, em sua bondade, deixara-me um vínculo de amor. Eu podia duvidar da imortalidade da alma, mas rejeitava espontaneamente tudo quanto atacava o Sacramento do Altar".5
Aos 18 anos, as diversões não a satisfaziam. Sua inteligência, muito viva, fazia-lhe perceber que a vida não podia ser tão vazia e carente de sentido. "Meus pensamentos são um mar agitado que me cansa, me pesa. Tanta instabilidade, nunca o repouso, um ardor que sempre ultrapassa os limites do possível. Às vezes, absorvida por questões bem acima do meu alcance e sobre as quais eu faria melhor em não pensar: as mais altas questões do mundo. Eu queria saber tudo, analisar tudo, e lançando-me em regiões amedrontadoras, vou ousadamente interrogando todas as coisas, perseguida por não sei que necessidade inquieta de conhecimento e de verdade, que nada pode saciar".6


"Eu estava realmente convertida"
No fim de 1835, seu pai mandou- -a para a casa de uma prima, a senhora Foulon. Tanto ela quanto as filhas eram muito piedosas, fato que pôs a jovem Milleret em um perigo talvez maior de perder a fé, porque elas "eram aborrecidas, pareciam- -me estreitas",7 comentaria a Santa.
Sem embargo, soara a hora da Providência. Seguindo o costume parisiense de seu século, foi ouvir na Catedral de Notre Dame os sermões dominicais do padre Henri Lacordaire, no auge da fama como pregador. A jovem sentiu-se intimamente tocada. "Vossa palavra" — escreveria poucos anos depois ao sacerdote dominicano — "respondia a todos os meus pensamentos, explicava o melhor de meus instintos, completava meu entendimento das coisas e reanimava em mim a ideia do dever, o desejo do bem, já prestes a definhar em minha alma; enfim dava- -me uma generosidade nova, uma fé que nada mais devia fazer vacilar".8
Ana Eugênia encontrara o eixo de sua existência. "Minha vocação nasceu em Notre Dame",9 gostava de dizer. Acabariam as provações? Não! Pelo contrário, estas haveriam de se tornar mais penosas e intensas ao longo de sua vida; mas ela firmara sua fé sobre a rocha eterna e nada mais a podia abalar. "Eu estava realmente convertida e sentia o desejo de entregar todas as minhas forças, ou melhor, toda a minha fraqueza a esta Igreja que, doravante, era a única a meu ver que possuía o segredo e o poder do bem".10
A jovem comunicou ao padre Lacordaire suas aspirações e ele respondeu: "Reza e espera".11 Ana Eugênia obedeceu.


Albores da fundação
Enquanto esperava, ela sonhava "ser um homem, para, como eles, ser profundamente útil".12 "Com seu olhar, rico de vigor viril e ao mesmo tempo de feminina agudeza",13 a jovem havia analisado a fundo os males da sociedade laicizada em que vivia e lamentava-se pela ausência de formação religiosa de tantas jovens da aristocracia liberal da época: "Filha de uma família infelizmente pouco cristã, educada numa sociedade que o era menos ainda, ficara sem minha mãe aos 15 anos e, pelas circunstâncias da vida e por causa de minha posição, tivera muito mais relações e conhecimento do mundo do que normalmente se tem nesta idade. Eu pudera compreender a infelicidade da classe social à qual eu pertencia, e vos confessarei não conhecer, ainda hoje, pensamento mais triste do que esta recordação. Parece-me que toda alma que ama um pouco a Igreja, e conhece a profunda irreligião de três quartas partes das famílias ricas e influentes de Paris, deve sentir-se pressionada a tudo empreender para fazer penetrar Jesus Cristo entre elas".14
Já dominada pelo desejo de salvar almas, Ana Eugênia encontra, na Igreja de Santo Eustáquio, outro pregador cujo zelo a impressiona e ao qual pede um conselho: o padre Teodoro Combalot. Este anelava fundar uma congregação sob a proteção de Nossa Senhora da Assunção, empenhada na educação de meninas, como base para a regeneração da sociedade, e viu naquela jovem de 20 anos todas as qualidades requeridas para ser a fundadora. Na realidade, suas intenções eram bem mais ousadas. Tratava-se, explicou-lhe ele, de erigir uma obra dedicada a "tudo reconstruir sobre o Cristo, fazê-Lo conhecido, bem como sua Igreja, estender as fronteiras de seu Reino".15
Ela se sente tocada com a proposta, mas hesita e objeta: "Não conheço a vida religiosa. Tenho tudo a aprender. Sou incapaz de fundar qualquer coisa dentro da Igreja de Deus". Ao que retruca o sacerdote, com convicção: "É Jesus Cristo que será o Fundador de nossa Assunção; seremos apenas instrumentos e, entre as mãos de Deus, os mais fracos são os mais fortes".16
Após alguma resistência, Ana Eugênia aceita ser dirigida espiritual do padre Combalot e, seguindo suas orientações, espera junto às beneditinas alcançar a maioridade: 21 anos, então. Depois viaja à Lorena para despedir-se da família, faz o noviciado com as visitandinas e, com mais três vocações recrutadas pelo mesmo sacerdote, inicia a obra da Assunção em 1839.



Educação integral aliada à fé
Em meio ao intenso programa de estudos estabelecido pelo padre diretor, Madre Maria Eugênia de Jesus — seu nome como religiosa — estava convicta de ser a contemplação a principal fonte de sabedoria da nova congregação. "A educação era nosso dever, a vida religiosa nossa atração",17 dizia ela.
Tendo experimentado por si mesma o vazio que deixa na alma uma educação distante da fé, queria que as futuras formadoras da Assunção ensinassem, mais do que com palavras, pelo testemunho de vida. "A fé proporciona mais sabedoria que a velhice",18 afirmava. "É preciso formar caracteres firmes [...]. Nossa missão: a fé dinâmica, a fé dominando o raciocínio, o gosto, bem como os afetos".19
O novo instituto tinha por carisma dedicar-se a uma educação integral, o que conduz à "preocupação com a formação do critério, do senso crítico, da retidão de pensamento, principalmente à luz da fé e confiança na graça".20 Tais princípios farão o Papa Beato Paulo VI exclamar, ao beatificá- la: "Que luz para nós cristãos, que seríamos por vezes tentados, num mundo secularizado, de separar a educação humana da fé!".21

Abandono à vontade divina
Iniciada a fundação da obra almejada, sem o saber, Madre Maria Eugênia preparava-se para enfrentar as maiores tormentas da sua vida. E estas foram causadas por quem menos se poderia esperar: o padre Combalot!
Embora cheio de impulsos generosos, tinha ele um caráter muito volúvel. "Mudava de ideia sobre qualquer coisa a cada quinze dias",22 escreve a Santa. Por exemplo, à ordem de estudar os Salmos e Santo Agostinho, seguia-se a de largar todos os livros; à de comer carne todos os dias, logo se sobrepunha a de fazer duras penitências, entremeadas com severas repreensões. A cada uma dessas orientações, a madre se dobrava com humildade e obediência.

Para resolver o problema, designa um superior para a comunidade, cuja nomeação o impetuoso sacerdote não aceita. Decide, pelo contrário, que a fundadora e as religiosas o acompanhem à Bretanha, a fim de se subtraírem da autoridade do Arcebispo. A situação se torna muito tensa. E no dia 3 de maio de 1841, o padre Combalot junta seus livros e cartas, e abandona a comunidade, para nunca mais revê-la.Apesar de submissa às ordens recebidas, a graça a inspirava, entretanto, a não deixar o leme da fundação em mãos de alguém tão inconstante e comunica a situação ao Arcebispo de Paris, Dom Dionísio Augusto Affre. O prelado conhecia bem o padre Combalot — a quem qualificava de homem "de nobre coração, mas de cabeça quente" 23 — e logo compreende o que se passava.
"Seja feita a vontade de Deus!",24 exclama a jovem fundadora que, aos 24 anos, via-se agora sem o apoio de sempre, com a obrigação de levar adiante o empreendimento iniciado. E, buscando refúgio na fé, concluía: "Deus não tira nada sem Se doar mais profundamente no lugar... Mostrou-nos que a obra era d'Ele e quer fazê-la sozinho".25
A Providência, porém, enviara- -lhe novo auxílio na pessoa do padre Emmanuel d'Alzon, jovem Vigário Geral de Nîmes, com o qual trocava abundante correspondência. Ambos tinham o anseio de tornar Cristo presente na sociedade laicizada em que viviam e davam-se mutuamente conselhos nesse sentido. Mais tarde ele fundará o ramo masculino da Assunção.


"Não creio ter outra vocação"
Dando novas provas de sua inconstância, o padre Combalot deixara uma carta a Mons. Affre, "tão comovente quanto desconcertante, pedindo-lhe para tomar conta da obra"26 da Assunção. O Arcebispo põe então a comunidade sob sua proteção e designa Mons. Jean Nicaise Gros — mais tarde Bispo de Versalhes — para seu superior eclesiástico. Seguindo sua orientação são redigidas as constituições e regras, e em suas mãos as religiosas emitem os primeiros votos, no dia 15 de agosto daquele mesmo ano de 1841, recebendo o hábito definitivo de professas.
Não obstante, nova tempestade desaba sobre a frágil embarcação. Vendo as naturais dificuldades de uma comunidade que ainda não atingira toda a sua maturidade, Mons. Gros temeu por seu futuro e aconselhou à fundadora a voltar para a Ordem da Visitação, onde fizera o noviciado e da qual guardava tão boas impressões. Quanto às outras irmãs, cada qual ficaria livre para escolher o instituto religioso que melhor lhes conviesse.
Madre Maria Eugênia não se perturbou. Pediu um curto tempo para reflexão, após o qual redigiu uma carta respeitosa, mas direta, expondo as metas, o espírito e as características da Assunção. No final da mesma, declarava: "Ouso dizer que a satisfação pessoal nunca esteve entre os nossos pensamentos. Nossa coragem surgiu ao ouvir dos lábios do próprio Monsenhor o testemunho de ser nossa regra boa e edificante, e ter recebido de suas mãos o santo hábito, o qual portamos com alegria e amor. Não sei o que tenhamos feito, na prática desta regra, para perder a benevolência concedida por vossa pessoa; mas se formos consideradas indignas, e se não se realizar por nós a obra de zelo na qual quisemos trabalhar, perdoai- me por tomar a liberdade de dizer-vos: ela é tão necessária que, cedo ou tarde, se fará por mãos mais santas. De minha parte, não creio ter outra vocação senão a de pertencer a ela, quaisquer que sejam os sofrimentos e dificuldades daí decorrentes".27
Mons. Gros não tardou em dar-lhe uma resposta, na qual se manifestava inteiramente convencido da providencialidade da obra, e afirmava: "Eu só posso agradecer a Deus as graças que Ele vos deu".28


Desenvolve-se a congregação
Afinal, estava definitivamente fundada a Assunção, sobre a fé e a firmeza de Madre Maria Eugênia de Jesus. As meninas chegavam, as escolas começavam a crescer e a congregação se desenvolvia, para "formar verdadeiras mães de família, dar às mulheres os conhecimentos amplos e hábitos simples sem os quais não saberiam exercer a influência que o Cristianismo lhes deve dar",29 como noticiava a Gazeta da França, apresentando as esperanças depositadas na nova instituição religiosa.
Com a mesma valentia, a incansável fundadora enfrentou outras tormentas e obteve muitas vitórias, como a aprovação pontifícia das constituições da Assunção, sempre visando a implantação do Reino de Cristo. Decorrido pouco mais de um século de sua morte — ocorrida a 10 de março de 1898 —, as Religiosas da Assunção têm comunidades atuantes em vários países da Europa, África, Ásia e nas três Américas, dedicadas à educação de meninas de todas as camadas sociais.
Desta santa e profícua vida podemos dizer com o salmista: "Os que confiam no Senhor são como o monte de Sião, que não é abalado, e permanece para sempre" (Sl 124, 1). Porque ela confiou no Senhor, nada a pôde abalar!
1 BRETON, Germain. Mère Marie-Eugénie de Jésus: première Supérieure Générale des Religieuses de l'Assomption. Une fondatrice de congrégation religieuse au XIXe siècle. Saint-Étienne: J. Le Hénaff & Cie, 1922, p.143; 147.
2 PIO XII. Discorso alle religiose, alle alune e alle insengnanti dell'Istituto dell'Assunzione, de 19/5/1946.
3 BRETON, op. cit., p.31.
4 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO. Por Jesus e pelo Reino. Maria Eugênia Milleret: Fundadora das Religiosas da Assunção. São Paulo: Loyola, 1995, p.19.
5 BRETON, op. cit., p.36.
6 Idem, p.36-37.
7 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO, op. cit., p.25.
8 BRETON, op. cit., p.38.
9 Idem, ibidem.
10 POINSENET, Marie-Dominique. Feu vert... Au bout d'un siècle. Mère Marie Eugénie Milleret de Brou, Fondatrice des Soeurs de L'Assomption, apud PAULO VI. Omelia di Beatificazione di Madre Marie-Eugénie Milleret, de 9/2/1975.
11 BRETON, op. cit., p.39.
12 PAULO VI, op. cit.
13 PIO XII, op. cit.
14 BRETON, op. cit., p.139-140.
15 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO, op. cit., p.32.
16 Idem, p.33.
17 BRETON, op. cit., p.179.
18 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO, op. cit., p.78.
19 Idem, p.82.
20 Idem, p.78.
21 PAULO VI, op. cit.
22 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO, op. cit., p.53.
23 BRETON, op. cit., p.130.
24 Idem, p.132.
25 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO, op. cit., p.68.
26 Idem, ibidem.
27 BRETON, op. cit., p.147-148.
28 Idem, p.148.
29 RELIGIOSAS DA ASSUNÇÃO, op. cit., p.77.
(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Março/2015, n. 159, p. 31 - 35)


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Beata Restituta Kafka, Virgem e Mártir (a Mártir do Crucifixo).

Sua terra natal, Moravia, estava sujeita ao imperador austríaco Francisco José quando Helena nasceu, no dia 1º de maio de 1894; era a sexta dos sete filhos de Anton e Maria Kafka. A família mudou-se em 1896 da região nativa para Viena, a capital do império. Sua família era de um humilde sapateiro; Helena é pobre e além disso gaga. Era também um pouco teimosa, pelo menos a julgar pelo caráter forte e por sua maneira de fazer, rápida e decidida, que a acompanhou por toda a vida.
     Aos 15 anos, Helena desejaria continuar a estudar, mas mandaram-na trabalhar como empregada; aos 18 anos manifestou sua vocação de se tornar freira, mas os seus familiares se opõem fortemente. Então, ela resignou-se a esperar os 20 anos, e quando atingiu aquela idade fugiu de casa para ir para o convento. As Irmãs Franciscanas da Caridade Cristã de Viena lhe deram o nome de Irmã Restituta e designaram-na para a enfermaria, ocupação que sempre fora o seu maior desejo, porque ela gostava de servir Jesus nos doentes.

     No hospital regional de Mödling, perto de Viena, a religiosa tornou-se uma instituição para os médicos, para as outras enfermeiras, mas especialmente para os doentes, aos quais sabia como comunicar com extraordinária eficácia o seu amor pela vida, a sua própria e a dos outros, na alegria e no sofrimento. Ela era uma mulher, diriamos hoje, esplendidamente realizada.
     Aqui e ali continuou a demonstrar o seu caráter cordial, mas firme, de modo que Irmã Restituta logo foi chamada de "Irmã Resoluta". Na cabeceira dos doentes, no entanto, ninguém a podia superar, porque é de uma delicadeza e de uma ternura únicas. A Primeira Guerra Mundial eclodiu e a Irmã Restituta ficou ao lado dos feridos, solícita a cada chamada, pronta para qualquer emergência.
     Em 1938 os nazistas invadiram Viena e foram duas as primeiras disposições de Hitler: se livrar dos crucifixos de locais públicos e afastar as religiosas da ala da enfermaria do hospital. Irmã Restituta, no entanto, era tão indispensável devido sua experiência indiscutível, que pode mais ou menos secretamente continuar o seu trabalho de caridade na cabeceira dos doentes. O crucifixo nos quartos e enfermarias do hospital tornou-se quase uma questão pessoal: Irmã Restituta, resoluta como sempre, se ocupava da tarefa de ir pessoalmente substituí-los onde fossem tirados; ela sabia o risco que corria com o seu gesto provocativo, mas quanto mais crucifixos eram excluídos tanto mais ela os repunha.
Foto da mártir quando foi presa e "fichada"
pelos nazistas. Como se vê, foi destituída do
hábito religioso. 
     Entre ela e os nazistas se declarou uma incompatibilidade, porque ela não podia compartilhar a ideologia de morte e de racismo que Hitler vinha professando. E assim a fúria nazista se desencadeou até mesmo sobre ela: ela foi presa na Quarta-feira de Cinzas de 1942 e colocada na prisão, e em sua cela continuou a ajudar as mulheres grávidas e as companheiras debilitadas, além de consolar e apoiar as condenadas à morte.
     A sentença de morte veio quase um ano depois e Irmã Restituta foi decapitada em 30 de março de 1943. Antes de morrer, ela pediu ao capelão que traçasse na sua fronte o Sinal da Cruz, quase o selo de autenticidade de uma vida que esteve sempre inspirada pelo crucifixo. Às irmãs mandou um recado: "Tenho vivido por Cristo, por Cristo quero morrer".

     Em 21 de junho de 1998, Irmã Restituta Kafka, a Mártir do Crucifixo, foi proclamada beata e sua memória litúrgica foi fixada no dia 29 de outubro.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Beato Batista Mantuano (Spagnoli ou Mantovano), Presbítero Carmelita e grande Teólogo.


Sua vida

Batista Spagnoli ou Mantuano, nasceu em Mântua, Itália, em 17/04/1447. Seus pais: Pedro Modover, de origem espanhola e Constanza Maggi. Sendo todavia muito jovem, entrou na Ordem do Carmo, na célebre “Congregação Mantuana”, na cidade de Ferrara, onde professou (fez votos religiosos) em 1464. Era dotado de excelentes qualidades e por isso os superiores lhe encomendaram, desde muito jovem, missões muito delicadas.
Terminados seus estudos, foi ordenado sacerdote em Bolonha e ali recebeu na Universidade o Magistério de Teologia, no ano de 1475 (aos 28 anos). Foi prior em vários conventos e professor também em vários centros de estudos superiores. Foi prior de Parma, de Mântua e de Roma. Também foi superior da casa da Virgem de Loreto durante vários anos. Em 1483 foi eleito Vigário Geral da “Congregação de Mântua”, cargo que desempenhou até 1513, em cujo ano foi eleito Superior Geral de toda a Ordem. Em 1513 foi chamado a tomar parte do Concílio de Latrão V. Neste mesmo ano o Papa Leão X lhe confiou uma delicada missão de paz entre o rei da França e o duque de Milão.
A “biblioteca carmelitana” refere os títulos de 70 obras suas, das quais foram publicadas 57. Somente o livro “Parthenice Mariana” conta com 55.000 versos! Sua fama de poeta e exemplar religioso se estendeu pelas redondezas e a popularidade fervorosa e apaixonada acompanhava seu nome por todas as partes: primeiro na Itália e logo na Europa. A natureza de sua popularidade era a pureza e elegância de seu latim e o ardor de seu espírito de reformador, que colocava em “sua lira” (em seus versos), “notas” de sabor místico. Por isso suas poesias eram lidas em todos os centros docentes e declamadas com graça e aplauso em públicos certames literários. Ele era chamado o “Virgílio cristão”, já que consagrou suas canções, sua lira e sua vida ao único Deus verdadeiro!
Atraiu à fé muitos eruditos de seu tempo. Com seus penetrantes e agudos escritos, atalhou o mal que se estendia sobre a Igreja e o mundo. De algumas suas obras se fizeram até 150 edições. Escreveu preciosos tratados em prosa e verso e fez servir a Cristo com sua prodigiosa veia poética.
Morreu em Mântua em 20/ 03// 1516. O Papa Leão XIII, em 17/ 12/ 1885 aprovou seu culto imemorial. Sua festa se celebrava antes em 20/ 03 e agora, em 17 de abril.


Sua espiritualidade

As “notas” e profundos sentimentos de sua alma mística provém de Deus e a Deus retornam. Evocam o Ser Supremo: Sua essência e perfeições infinitas. Cantam a Virgem Maria: Suas grandezas, Seu poder e Sua bondade. Exaltam Suas virtudes, vestindo-A com as galas de sua inspiração e fustigam o vício “com uma visão horrível de um monstro”. Exaltam a fé e convocam às suas fileiras seus defensores contra a heresia.
Prepara-se ante a proximidade da morte, a teme, a embeleza com “suspiros” das virtudes teologais e escreve, quando se sente morrer, uns versos como oração de agonizante.
No campo de seu ministério sacerdotal, pregava ao povo com palavra luminosa e fervor apostólico. Distinguia-se também por seu finíssimo tato na direção das consciências! Ganhava para o Senhor os mais endurecidos corações, fazendo renascer a frequência aos sacramentos, verdadeiro sinal da regeneração dos costumes, fazendo-se tudo para todos, para ganha-los para Jesus Cristo.
Tinha predileção, porém, pela vida retirada e penitente, guarda dos sentidos e a fuga de todas as ocasiões perigosas.
Amava com indizível ternura a Virgem Maria do Carmo, pregava com frequência sobre Suas grandezas e privilégios e escreveu três livros para exaltar Suas virtudes, particularmente Sua santíssima pureza.



Sua mensagem

• Que amemos e embelezemos o Carmelo
• Que a cultura e a sabedoria nos levem a Deus.
• Que nosso zelo conduza os homens a Deus.
• Que sirvamos e amemos Maria como o Beato Batista a amava.

Oração:
Senhor Nosso Deus, que fizeste do Beato Batista, fiel servidor de Maria, um modelo de meditação e pregação da Palavra, concedei-nos, por sua intercessão, saborear, como Maria, a Escritura e, como Ela, proclamar Vossas grandezas com nossa vida! Por Cristo, Nosso Senhor! Amém!


   (Extraído do artigo “Os Santos Carmelitas”, do Pe. Rafael Maria López)



sábado, 4 de abril de 2015

Beato Antônio Rosmini, Presbítero e Fundador. Grande teólogo, filósofo e pensador profundo.


Beato Antônio Rosmini
Antônio Rosmini Serbati (1797 – 1855) foi beatificado em 18 de novembro de 2007. Ele foi um sacerdote italiano, pensador profundo, autor de livros marcantes, que sofreu a condenação do Santo Ofício de alguns de seus escritos por interpretações equivocadas promovidas por alguns seguidores.

Ordenado sacerdote em 1821, Antonio Rosmini fundou, em 1830, em Domodossola, o Instituto da Caridade, congregação religiosa reconhecida em 1839 pelo Papa Gregório XVI, à qual, alguns anos depois, se uniria a congregação das Irmãs da Providência.
Apesar de sua absoluta fidelidade ao Papa IX, a quem acompanhou em seu exílio em Gaeta (1848), as autoridades eclesiásticas, em 1849, puseram-no «Índice» dos livros proibidos duas de suas obras. Mais tarde, foram condenadas com o decreto doutrinal «Post Obitum» quarenta proposições suas, extraídas de obras sobretudo póstumas e de outras editadas em vida.
Em 1º de julho de 2001, uma «Nota da Congregação para a Doutrina da Fé», firmada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, afastou toda sombra de dúvida sobre a suposta culpabilidade de Rosmini.
Dom Renat Corti, bispo de Novara (diocese do futuro beato) apresentou o grande filósofo como um apóstolo da caridade no dia 08 de novembro, na sede da «Rádio Vaticano».
Dom Corti sublinhou que esta mensagem está presente inclusive no nome da congregação fundada por Rosmini: «Societas a Charitate» (Instituto da Caridade ou do amor).
A mensagem central de Rosmini, segundo o bispo, é a seguinte: Jesus Crucificado é o símbolo desse amor, que representa o fulcro de todo o cristianismo.
Participaram de sua beatificação, em Novara, entre sete e oito mil pessoas, entre esses, cerca de quatrocentos sacerdotes e aproximadamente trinta bispos.
A Missa foi presidida em nome do Papa pelo cardeal português José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.




HOMILIA DO CARDEAL JOSÉ SARAIVA MARTINS
NO RITO DE BEATIFICAÇÃO DE ANTÓNIO ROSMINI

Novara, 18 de Novembro de 2007

 "Como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós para que todos sejam um só... a fim de que o mundo creia que tu me enviaste".

1. Sentimos o ânimo cheio de júbilo espiritual, enquanto contemplamos a Igreja, em todo o esplendor da sua beleza, que nesta celebração eucarística se manifesta na hodierna Festa litúrgica da Igreja local, que se celebra no Piemonte, e durante a qual tenho a grande alegria de presidir, como Representante do Santo Padre, ao rito de beatificação de António Rosmini. A alegria da Igreja de Trento, que o viu nascer e da Igreja de Novara, na qual trabalhou e onde entregou a alma a Deus, estende-se muito além dos vastos confins diocesanos.

Que grande verdade se revela, mas também se esconde, nas fortes expressões que o Filho de Deus usa na sua última oração ao Pai, segundo o Evangelho de João, há pouco proclamado: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim..." por nós! "Que todos sejam um só; como Tu ó Pai estás em mim e Eu em ti...". Como Tu em mim e Eu em ti, assim eles em nós. A Igreja vive não "diante" mas "na" Trindade, amada pelo mesmo amor pelo qual se amam o Pai, o Filho e o Espírito. É olhando para uma realidade tão inefável que o apóstolo Pedro, na segunda leitura de hoje, pôde definir o novo povo dos batizados "como pedras vivas, entrai na construção de um edifício espiritual ...sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, a fim de anunciardes as virtudes d'Aquele que vos chamou das trevas para a Sua luz admirável".

2. A hodierna solene celebração transmite o sentido do inseparável vínculo que existe entre a Igreja e a santidade. De fato, a nossa Igreja é a Igreja dos Santos como disse J. Bernanos não "uma espécie de gendarmaria espiritual". A santidade é "uma aventura, aliás a única aventura possível" (J. Bernanos, I predestinati, Gribaudi, Turim, 1995, pp. 42-43).

E exatamente por ter tido a força de empreender esta maravilhosa aventura da santidade, de modo sublime, é que hoje a Igreja inscreve o abade Rosmini no álbum dos beatos. Uma santidade não meramente declarada, mas vivida em todo o seu alcance.

Rosmini, no início da segunda das suas célebres "Máximas de perfeição cristã", justamente considerado o coração da sua espiritualidade evangélica, escreve: "O primeiro desejo que é gerado no coração do cristão pelo desejo supremo da justiça [santidade] é o do incremento e da glória da Igreja de Jesus Cristo" (Rosmini A., Massime di perfezione cristiana, aos cuidados de M. M. Riva, Trento 2003, p. 17).

Se a finalidade da vida para todos os cristãos é o desejo único e infinito de agradar a Deus, dentro deste desejo reside a escolha de orientar todos os próprios pensamentos e as próprias ações para o crescimento e a glória da Igreja de Jesus Cristo. Este olhar único e inseparável dirigido para Cristo e a sua Igreja requer uma visão extremamente forte desta última, que Rosmini teve ao seguir muitos outros pensadores cristãos, primeiro entre todos Santo Agostinho, que escreveu: "Alegremo-nos, demos graças a Deus, não só porque nos fez cristãos, mas porque nos fez tornar o próprio Cristo. Dai-vos conta, irmãos, de qual graça nos fez Deus, doando-nos Cristo como Cabeça? Exultai, alegrai-vos, tornámo-nos Cristo. Se ele é a Cabeça, nós somos os membros: somos um homem completo, ele e nós... Plenitude de Cristo: a Cabeça e os membros. Qual é a Cabeça e quais são os membros? Cristo e a Igreja" (Santo Agostinho, In Evangelium Johannis tractatus, 21, 8).

Ao exclusivo serviço desta Igreja, que com Cristo forma o "Cristo total" (Christus totus), Rosmini fundou o Instituto da Caridade (Rosminianos) e as Irmãs da Providência (Rosminianas), institutos aos quais estabeleceu como único fim a própria finalidade primária da vida religiosa: a busca incessante da salvação e da santidade. Totalmente pela Igreja. Trata-se de um aspecto que Rosmini pagou um preço elevado e que brilha de maneira muito significativa e exemplar na vida do Beato: o seu inoxidável e tenaz amor à Igreja.

Nas "Constituições" ele usa palavras claríssimas: "Não pensemos neste Instituto, mas sempre na Igreja de Cristo, evocando na alegria do nosso coração as promessas que nos foram transmitidas como herança a respeito do reino de Cristo e da imobilidade do divino conselho" (Rosmini A., Costituzioni dell'Istituto della Carità, Trento 1974, p. 377, n. 468); "... a fim de que [a nossa família religiosa] seja útil à Igreja, [Deus] conservá-la-á e protegê-la-á; quando, ao contrário, começar a ser inútil e prejudicial, com autêntico juízo cortará a árvore nociva e dá-la-á às chamas" (Ibid., p. 375, n. 465). Os religiosos e as religiosas, ao caminhar para a única meta da santidade, deveriam estar abertos a qualquer obra de caridade, principalmente através dos Pastores da Igreja e das circunstâncias dos tempos e dos lugares que o Senhor indicar:

- às obras da caridade espiritual, que se referem imediatamente à salvação eterna do homem (o anúncio da fé, os sacramentos);

- às da caridade intelectual, com as quais se quer libertar a mente do homem das trevas da ignorância e iluminá-la com a luz da verdade;

- e às da caridade temporal que se referem às necessidades do corpo, como a fome e a saúde.

3. O Beato Antônio Rosmini, além da guia da família religiosa que fundou, dedicou as suas múltiplas energias ao empenho cultural, sobretudo nos campos da filosofia, da pedagogia e da teologia, em resposta ao chamado dos Papas do seu tempo, que nos dotes intelectuais do Roveretano viram a indicação clara de que deveria servir a Igreja e o homem ao elaborar um sistema de pensamento que servisse de fundamento à fé. Tratava-se, como ele mesmo escreveu, de reconduzir a Deus o homem, que se tinha afastado d'Ele com um mau uso da razão, tomando a estrada da própria razão. Esta tarefa ingente, que custou a António Rosmini fadigas e dolorosas incompreensões, recentemente recebeu o sigilo competente da Igreja, sobretudo na Encíclica Fides et Ratio de João Paulo II. Nela, que se abre com a belíssima comparação das duas asas ("A fé e a razão constituem como que duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade") (Fides et Ratio, introdução), o saudoso Pontífice, após ter repetido que a separação entre razão e fé é um drama, afirmou, citando Santo Agostinho: “A profundidade e a autenticidade da fé saem favorecidas quando esta se une ao pensamento e não renuncia a ele”. Mais uma vez, encontramos nos Padres a lição que nos guia nesta convicção: "Crer nada mais é senão pensar consentindo [...]. Todo o que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê [...]. A fé se não for pensada, nada é". Mais: "Se se tira o assentimento, tira-se a fé, pois sem o assentimento, realmente não se crê" (Ibid., n. 79). E na mesma Encíclica está inserido o nome de Rosmini entre os modernos expoentes desta linha do diálogo: "A relação entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein..." (Ibid., n. 74).

A voz de Rosmini é um eco moderno daquela dos grandes Padres da Igreja ao lado dos quais pode estar tranquilamente, pela acuidade e pela vastidão dos interesses teóricos, bem unidos com o ardor evangélico dos pastores de almas. De facto, sobre ele é possível dar, e foram propostas, muitas e diversas definições que descrevem somente parte das múltiplas facetas do prisma da sua extraordinária identidade. Em Antônio Rosmini encontra-se o filósofo, o pedagogo, o teórico da política, o apóstolo da fé, o profeta, o gigante da cultura. Contudo, por quanto tudo isto enriqueça o seu valor e confirme a sua atualidade, a nossa hodierna chave de leitura é a da santidade de Rosmini que, certamente, ajudará a recuperar a amizade entre razão e fé, entre religião, comportamento ético e serviço público dos cristãos.

4. A Igreja hoje proclama Beato este sacerdote porque reconheceu na sua operosa existência os sinais da virtude, que ele praticou de modo heroico. Jovem sacerdote, redigiu para si uma "Regra de comportamento" baseada no Evangelho e que consistia em dois princípios:
“1º Pensar seriamente em corrigir a mim mesmo os vícios e em purificar a alma da iniquidade pela qual está marcada desde o nascimento, sem procurar outras ocupações ou obras em prol do próximo, se me achar na absoluta impotência de fazer algo a seu favor”;
“2º Não rejeitar os serviços de caridade para o próximo quando a divina Providência assim os oferecer e apresentar, porque Deus é poderoso para se servir de qualquer um, e também de mim, para as suas obras, e em tal caso conservar uma perfeita indiferença entre todas as obras de caridade, fazendo a que me for proposta com igual fervor como por qualquer outra por minha livre vontade”.
Aqueles que o conheceram tanto os grandes personagens da sua época, com os quais ele tinha contatos frequentes, como os fiéis mais humildes testemunharam que Rosmini viveu em conformidade com esta regra, que ecoa nas palavras de Jesus: "...sem mim nada podeis fazer" (Jo 15, 5) e naquelas de São Paulo aos Filipenses: "Tudo posso naquele que me dá força" (4,13).

No novo Beato verifica-se um constante fio unificador entre o seu pensar, o seu crer e o seu viver quotidiano. Disso resulta um testemunho de vida indicador desta unidade que é ascese, mística, santidade. O abade Rosmini viveu uma vida teologal, na qual a fé implicava a esperança e a caridade, com aquele diálogo de amor confiante na Providência, a tal ponto que o levava a não empreender algo, grande nem pequeno, "se não nos sentirmos como que atraídos pela própria Providência".

Elevando-o às honras dos altares, a Igreja indica este sacerdote como intercessor e modelo também para o homem de hoje, para nós. A vida e os ensinamentos do Fundador do Instituto da Caridade exortam-nos a colocar resolutamente Deus no centro da nossa existência e a servi-lo no homem que é seu sacramento, em qualquer campo que o Senhor nos chame, unicamente felizes por sermos inseridos em Cristo, como sarmentos na Videira, e em atitude de diálogo, e não de contraposição, com as várias e muitas vezes enganadoras correntes do pensamento atual.


Eleve-se desta nossa Santa Assembleia um hino de ação de graças ao Senhor, que tudo conduz com a sua admirável Providência. E as palavras mais uma vez nos são apresentadas pelo nosso Beato, que em 1849, num momento de grave provação para ele, escreveu a um irmão de hábito: "Meditando sobre a Providência, admiro-a: admirando-a, amo-a; amando-a, celebro-a; celebrando-a, agradeço-lhe; agradecendo-lhe, encho-me de alegria. E como poderia fazer diferentemente, se sei pela razão e pela fé, e sinto com o íntimo espírito, que tudo o que se faz, querido ou permitido por Deus, é feito por um amor eterno, infinito, essencial? E quem poderia entristecer por amor?" (Rosmini A., Epistolario ascetico, III, p. 508, carta 1124). Amém.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Serva de Deus Luisa Piccarreta, Virgem e Mística. Apóstola da Divina Vontade.


A Serva de Deus Luísa Piccarreta nasceu em Corato, na província de Bari (Itália), no dia 23 de abril de 1865, e ali faleceu em fama de santidade a 4 de março de 1947.

Luísa teve a sorte de nascer em uma daquelas famílias patriarcais, que ainda resistem nos nossos ambientes da Apúlia e gostam de viver no campo aberto, povoando as nossas aldeias. Os seus pais, Vito Nicola e Rosa Tarantino, tiveram cinco filhos: Maria, Rachele, Filomena, Luísa e Ângela. Maria, Rachele e Filomena casaram-se. Ângela, comumente chamada Angelina, ficou solteira e viveu ao lado da irmã Luísa até à sua morte.

Luísa nasceu no domingo in Albis e foi batizada nesse mesmo dia. Seu pai – poucas horas depois do nascimento – envolveu-a com uma coberta e levou-a à paróquia onde lhe foi administrado o Santo Batismo.

Nicola Piccarreta era empregado em uma feitoria de propriedade da família Mastrorilli, situada no centro das Murgas, na localidade de Torre Desesperada, a 27 quilômetros de Corato. Quem conhece estes lugares pode apreciar a solenidade do silêncio que impera ali, submerso entre as colinas ensolaradas, despojadas e pedregosas. Nessa feitoria Luísa transcorreu longos anos da sua infância e adolescência. Diante do povoado ainda existe a amoreira frondosa e secular, com uma grande cavidade no tronco em que Luísa, quando era criança, se escondia para rezar, longe dos olhos indiscretos. Foi nesse lugar solitário e ensolarado que para Luísa teve início aquela aventura divina que a conduzirá ao longos das sendas do sofrimento e da santidade. Com efeito, foi precisamente nesse lugar que teve de sofrer penas indizíveis devido aos assaltos do maligno, que às vezes a atormentavam também fisicamente. Para libertar-se de tal sofrimento, Luísa recorria de maneira incessante à oração, dirigindo-se de modo especial à Santíssima Virgem, que a consolava com a sua presença.

A Divina Providência conduzia esta criança ao longo de veredas tão misteriosas, a ponto de ela não conhecer qualquer alegria senão Deus e a sua Graça. Efetivamente, um dia o Senhor disse-lhe: «Dei voltas e mais voltas à terra, olhei uma por uma as criaturas, para encontrar a menor de todas. A tua pequenez agradou-me e escolhi-te; confiei-te aos meus anjos a fim de que te acudam, não para fazer-te grande, mas para que conservem a tua pequenez, e agora quero começar a grande obra do complemento da minha vontade. Nem com isso te sentirás maior, mas, pelo contrário, a minha vontade far-te-á menor e continuarás a ser a pequena filha da Vontade Divina» (cf. Volume XII, 23 de março de 1921).

Com nove anos de idade, Luísa recebeu pela primeira vez Jesus Eucarístico e a Santa Crisma, e a partir desse momento aprendeu a permanecer em oração por horas inteiras diante do Santíssimo Sacramento. Com 11 anos, quis inscrever-se na associação das Filhas de Maria – florescente nesse período – na igreja de São José. Com a idade de 18 anos, Luísa fez-se terciária dominicana com o nome de Irmã Madalena. Ela foi uma das primeiras a inscrever-se na Terceira Ordem, cujo promotor era o seu pároco. A devoção de Luísa à Mãe de Deus desenvolverá nela uma profunda espiritualidade mariana, prelúdio daquilo que um dia escreveria sobre Nossa Senhora.

A voz de Jesus conduzia Luísa ao desapego de si mesma, de tudo e de todos. Com cerca de 18 anos de idade, da varanda da sua casa na rua Nazario Sauro, teve a visão de Jesus sofredor sob o peso da cruz que, erguendo o olhar em sua direção, pronunciou estas palavras: «Alma, ajuda-me!». Foi a partir desse momento que se acendeu em Luísa um insaciável anseio de sofrer por Jesus e pela salvação das almas. Assim, iniciaram aqueles sofrimentos físicos que, acrescentados aos espirituais e morais, alcançaram o heroísmo.

A família interpretou estes fenômenos como uma enfermidade e recorreu ao auxílio da ciência médica. Todavia, todos os médicos que foram interpelados ficaram admirados diante de um caso clínico tão único e singular. Luísa era sujeita a uma espécie de "rigidez cadavérica" - não obstante desse sinal de vida – e não existiam curas que pudessem aliviá-la dessas penas indizíveis. Quando terminaram todos os recursos da ciência, recorreu-se à última esperança: os sacerdotes. Foi chamado à sua cabeceira um sacerdote agostiniano, Padre Cosma Loiodice, que, na época, visitava familiares; com a admiração de todos os presentes, bastou um sinal da cruz, que o Padre fez sobre o seu pobre corpo, para que a enferma adquirisse imediatamente as suas faculdades normais. Depois que o Padre Loiodice partiu para o convento, foram chamados alguns sacerdotes seculares que, com um sinal da cruz, faziam com que Luísa voltasse para a normalidade. Ela estava convencida de que todos os sacerdotes eram santos, mas um dia o Senhor disse-lhe: «Não porque são todos santos, oxalá o fossem, mas somente porque são a continuação do meu sacerdócio no mundo, tu deves submeter-te sempre à sua autoridade sacerdotal; nunca vás contra eles, quer eles sejam bons os maus» (cf. Volume I). Luísa submeter-se-á sempre à autoridade sacerdotal, durante toda a sua vida. Este será um dos pontos que mais a farão sofrer. Para Luísa, a maior mortificação era a necessidade quotidiana da autoridade sacerdotal para regressar às ocupações habituais.
Nos primeiros tempos, ela padeceu as incompreensões e os sofrimentos mais humilhantes precisamente da parte dos sacerdotes que a consideravam uma jovem exaltada, louca, uma pessoa que queria chamar sobre si mesma a atenção dos outros. Certa vez, deixaram-na naquele estado por mais de 20 dias. Aceitando o papel de vítima, Luísa começou a viver um estado muito particular: cada manhã ficava rígida, imóvel, contraída na sua cama, e ninguém era capaz de estendê-la, erguer os seus braços, movimentar a sua cabeça ou as suas pernas. Como sabemos, era necessária a presença do sacerdote que, abençoando-a com um sinal da cruz, anulava aquela rigidez, fazendo-a voltar às suas ocupações normais (bordado de almofadas). Um caso único: os seus confessores jamais foram os seus diretores espirituais, tarefa esta que nosso Senhor queria reservar a si mesmo. Jesus fez-lhe ouvir a sua voz diretamente, ensinando-a, corrigindo-a, se fosse necessário repreendendo-a, e de modo gradual levou-a aos elevadíssimos píncaros da perfeição. Por longos anos, Luísa foi sabiamente educada e preparada para receber o dom da Vontade Divina.

Quando o arcebispo dessa época, D. Giuseppe Bianchi D. Giuseppe Dottula (22 de dezembro de 1848 – 22 de setembro de 1892), tomou conhecimento daquilo que estava acontecendo em Corato, ouviu o parecer de alguns sacerdotes e em seguida quis assumir este caso sob a sua autoridade e responsabilidade e, depois de uma reflexão amadurecida, julgou oportuno delegar um confessor particular na pessoa do Pe. Michele De Benedictis, esplêndida figura de presbítero, a quem Luísa abriu pormenorizadamente a sua alma. O Pe. Michele, sacerdote prudente de vida santa, impôs limites aos seus sofrimentos e ela nada devia fazer sem o seu consentimento. Foi precisamente o Pe. Michele que lhe mandou comer pelo menos uma vez por dia, embora imediatamente depois vomitasse tudo. Luísa devia viver somente da Vontade Divina. Foi sob a guia deste sacerdote que obteve a autorização de permanecer continuamente na cama, como vítima de expiação. Corria o ano de 1888. Luísa permaneceu imobilizada no seu leito de sofrimento, sempre sentada por mais 59 anos, até à morte. Observe-se que até então ela, embora aceitasse a condição de vítima, tinha ficado na cama sempre ocasionalmente, porque a obediência jamais lhe consentira permanecer na cama de maneira contínua. Contudo, a partir do primeiro dia de 1889, ficará na cama de modo permanente.

A Serva de Deus foi favorecida com extraordinárias
visões e revelações, em meio a grandes sofrimentos
físicos, morais e espirituais. 
Em 1898, o novo arcebispo D. Tommaso De Stefano (24 de março de 1898 – 13 de maio de 1906) delegou como novo confessor o Pe. Gennaro di Gennaro, que cumpriu tal tarefa por 24 anos. Intuindo as maravilhas que o Senhor realizava nessa alma, o novo confessor mandou categoricamente que Luísa escrevesse tudo aquilo que a Graça de Deus atuava nela. De nada valeram todos os motivos apresentados pela Serva de Deus para subtrair-se à obediência do seu confessor: nem sequer a sua escassíssima preparação literária a pôde eximir da obediência. O Pe. Gennaro di Gennaro foi insensível e irremovível, embora soubesse que a pobrezinha só tinha frequentado a primeira série do primeiro grau. Assim, no dia 28 de fevereiro de 1899, teve início a redação do seu diário, que se concluiu com 36 volumes espessos! O último capítulo foi completado em 28 de dezembro de 1939, dia em que ela recebeu a ordem de não escrever mais.

Quando o seu confessor faleceu, no dia 10 de setembro de 1922, sucedeu-lhe o cônego Pe. Francesco De Benedictis, que a assistiu somente por quatro anos, pois morreu a 30 de janeiro de 1926. O arcebispo, D. Giuseppe Leo (17 de janeiro de 1920 – 20 de janeiro de 1939) delegou como confessor ordinário um jovem sacerdote, Pe. Benedetto Calvi, que permaneceu ao lado de Luísa até à morte dela, compartilhando todos aqueles sofrimentos e incompreensões que se abateram sobre a Serva de Deus nos últimos anos da sua vida.

Santo Aníbal Maria de Francia
No início do século, o nosso povo teve a ventura de ver percorrer a Apúlia Santo Aníbal Maria de Francia, que em Trani desejava abrir uma casa, masculina e feminina, da sua congregação nascente. Tendo tomado conhecimento de Luísa Piccarreta, foi visitá-la e a partir desse momento estas duas almas foram unidas indivisivelmente por propósitos comuns. Também outros sacerdotes ilustres frequentaram Luísa, como por exemplo o jesuíta Gennaro Braccali, Eustachio Montemurro, falecido com fama de santidade, e Ferdinando Cento, Núncio Apostólico e Cardeal da Santa Mãe Igreja. Santo Aníbal tornou-se o seu confessor extraordinário e revisor dos seus escritos, que pouco a pouco eram regularmente examinados e aprovados pela autoridade eclesiástica. 
Sobre Luisa um dia escreveu o Santo: 
“Nosso Senhor, que de século em século aumenta sempre mais as maravilhas do seu Amor, parece que desta virgem, que Ele disse que é a mais pequena que encontrou na terra, sem nenhuma instrução, quis fazer dela um instrumento apto para uma missão tão sublime, que nenhuma outra se pode comparar a ela, ou seja, O TRIUNFO DA DIVINA VONTADE no universo, conforme aquilo que dizemos no Pai Nosso: FIAT VOLUNTAS TUA, SICUT IN COELO IN TERRA”.


Luísa Piccarreta em êxtase
Por volta de 1926, Santo Aníbal mandou que Luísa escrevesse um caderno de memórias sobre a sua infância e adolescência. Ele publicou vários escritos de Luísa, dentre os quais ficou muito famoso o livro L’orologio della Passione («O relógio da Paixão»), que teve quatro edições. A 7 de outubro de 1928, depois que se construiu a casa das irmãs da congregação do Zelo Divino em Corato, para satisfazer o desejo do próprio Santo Aníbal, Luísa foi transportada para o convento. Santo Aníbal já tinha falecido com fama de santidade em Messina.

Em 1938 abateu-se uma terrível tempestade sobre Luísa Piccarreta: de Roma ela foi publicamente reprovada e os seus livros foram proibidos. Assim que foi publicada a condenação do Santo Ofício, ela submeteu-se imediatamente à autoridade da Igreja (1).

De Roma, enviado pelas autoridades eclesiásticas, apresentou-se um sacerdote que lhe pediu todos os seus manuscritos, os quais foram pacífica e prontamente entregues por Luísa. Assim todos os seus escritos foram fechados no arquivo secreto do Santo Ofício.

Por disposições superiores, no dia 07 de outubro de 1938 Luísa teve que abandonar o convento e encontrar uma nova habitação. Assim, transcorreu os seus últimos nove anos de vida em uma casa na rua Madalena, lugar que os idosos de Corato conhecem bem e de onde, em 8 de março de 1947, viram sair o seu ataúde.

A vida de Luísa fora muito modesta; ela possuía pouco ou nada. Vivia em uma casa alugada, assistida amorosamente pela sua irmã Angelina e por algumas mulheres piedosas. Aquele pouco que ela possuía não lhe bastava sequer para pagar o aluguel da casa. Para sustentar-se, dedicava-se assiduamente aos bordados de almofadas, tirando daí aquilo que lhe bastava para manter a própria irmã, uma vez que ela não tinha necessidade de roupas nem de calçados. O seu alimento consistia de poucos gramas de vianda, que lhe eram oferecidos pela sua assistente Rosária Bucci. Luísa nada pedia, nada desejava e vomitava imediatamente o alimento que ingeria. O seu aspecto não era o de um moribundo, mas nem sequer o de uma pessoa perfeitamente sadia. Contudo, nunca estava inerte: as suas forças eram consumadas no sofrimento quotidiano ou no trabalho e, para quem a conhecia profundamente, a sua vida era considerada um milagre contínuo.

Era admirável o seu desapego de qualquer lucro que não proviesse do seu trabalho diário, Com firmeza, ela rejeitava o dinheiro e os vários presentes que lhe eram enviados com qualquer pretexto. Além disso, nunca aceitou dinheiro pela publicação dos seus livros. Santo Aníbal, que certo dia lhe queria entregar o dinheiro derivado dos direitos de autor, ela respondeu assim: «Não tenho qualquer direito, porque o que ali está escrito não é meu» (cf. «Prefácio» ao livro L’orologio della Passione, Messina 1926). Rejeitava indignada e restituía o dinheiro que às vezes as pessoas piedosas lhe enviavam.

A habitação de Luísa parecia um mosteiro, pois nenhum curioso tinha acesso à mesma. Ela estava sempre circundada por poucas mulheres, que viviam da sua própria espiritualidade, e por algumas jovens que frequentavam a sua casa para aprender a bordar almofadas. Era precisamente desse cenáculo que saíam numerosas vocações religiosas. Porém, a sua obra não se limitava às jovens, uma vez que muitos jovens também foram convidados por ela a entrar nos vários institutos religiosos e no sacerdócio.
A Serva de Deus teve várias visões e revelações
sobre os sofrimentos de Jesus e de Maria
O seu dia iniciava por volta das cinco horas da manhã, quando à sua casa chegava o sacerdote para abençoá-la e celebrar a Santa Missa, oficiada pelo seu confessor ou por algum seu delegado: privilégio que ela obteve de Leão XIII, confirmado por São Pio X em 1907. Depois da Santa Missa, Luísa permanecia em oração de ação de graças por cerca de duas horas. Por volta das oito horas iniciava o seu trabalho, que durava até ao meio-dia; após o almoço frugal, permanecia sozinha no seu quarto, em recolhimento. À tarde – depois de algumas horas de trabalho – recitava o Santo Rosário. À noite, por volta das vinte horas, Luísa começava a escrever o seu diário e adormecia por volta da meia-noite. De manhã, encontrava-se imobilizada, rígida, contraída na cama, com a cabeça dobrada à direita, e era necessária a intervenção da autoridade sacerdotal a fim de acordá-la para as suas ocupações diárias e colocá-la sentada na cama.

Luísa faleceu com a idade de 81 anos, 10 meses e nove dias, a 4 de março de 1947, depois de 15 dias uma forte pneumonia, a única enfermidade da sua vida. Ela morreu no fim da noite, na mesma hora em que todos os dias a bênção do sacerdote a libertava do seu estado de rigidez. Nessa época o arcebispo era D. Francesco Petronelli (25 de maio de 1939 – 16 de junho de 1947). Luísa permaneceu sentada na cama. Não foi possível estendê-la e – o que constitui um fenômeno extraordinário – o seu corpo não passou pela rigidez cadavérica e permaneceu na posição em que sempre estivera.






Sem apresentar sinais de corrupção, durante quatro dias, 

seu corpo foi velado e visitado por centenas de pessoas.








Assim que se difundiu a notícia a morte de Luísa, como um regato em cheia, toda a população acorreu à sua casa e foi necessária a intervenção da polícia para conter a multidão que, dia e noite, ia ver Luísa, mulher muito querida ao coração da população. Uma voz ressoava: «Morreu Luísa a Santa!». Para conter toda a multidão que ia vê-la, com o consentimento da autoridade civil e do oficial sanitário, o seu corpo permaneceu exposto por quatro dias, sem dar qualquer sinal de corrupção. Sentada na sua cama, vestida de branco, Luísa não parecia morta; parecia que dormia, uma vez que, como já se disse, o seu corpo não passou pela rigidez cadavérica. Com efeito, sem qualquer esforço era possível movimentar a sua cabeça em todas as direções, erguer os seus braços, dobrar as mãos e todos os dedos; podia-se também levantar as suas pálpebras e observar os seus olhos brilhantes não velados. Todos a consideravam ainda viva, imersa em um sono profundo. Uma equipe de médicos convocados de forma especial declarou, depois de atentos exames do cadáver, que Luísa estava realmente morta e que portanto se devia pensar em uma morte verdadeira e não a uma morte aparente, como todos imaginavam.

Luísa tinha afirmado que nasceu «ao contrário»; por isso, era justo que a sua morte fosse «ao contrário» em relação às outras criaturas. Ela permaneceu sentada, como tinha sempre vivido, e sentada teve que ir para o cemitério, em um ataúde especialmente construído, com as partes laterais e a frente feitas de vidro, de maneira que todos a pudessem ver, como uma rainha no seu trono, vestida de branco, com o Fiat no seu peito. Mais de 40 sacerdotes, o Cabido e o Clero local participaram no cortejo fúnebre; revezando-se as irmãs carregavam-na nos ombros, e uma imensa multidão de cidadãos a circundava: as ruas estavam apinhadas de maneira inverossímil; também as varandas e os tetos das casas estavam repletos de gente, e o cortejo prosseguia com grande dificuldade. As exéquias da pequena filha da Vontade Divina foram celebradas na Igreja Matriz por todo o Cabido. Cada um procurou levar para casa uma recordação, flores, depois de ter tocado o ataúde que, poucos anos mais tarde, foi trasladado para a paróquia de Santa Maria Greca.


Funerais de Luísa Piccarreta: ataúde especialmente feito para ela. 




Em 1994, no dia da solenidade de Cristo Rei na Igreja Matriz, Sua Excelência D. Carmelo Cassati, na presença de um público numerosíssimo e de representantes estrangeiros, abriu oficialmente o processo de beatificação da Serva de Deus Luísa Piccarreta.




Datas significativas (cronologia)

1865 Luísa Piccarreta nasceu no dia 23 de abril, domingo in Albis, em Corato, Bari (Itália), e os seus pais Vito Nicola e Tarantino Filomena, tiveram cinco filhos: Maria, Rachele, Filomena, Luísa e Angela.

Depois de poucas horas do nascimento de Luísa, o seu pai envolveu-a em uma coberta e levou-a à Igreja Matriz para ser batizada. A sua mãe não sofres as dores do parto; o seu nascimento foi indolor.

1872 Recebeu Jesus eucarístico no domingo in Albis e, no mesmo dia, foi-lhe administrado o sacramento da Crisma, pela mãos de D. Giuseppe Bianchi Dottula, então arcebispo de Trani.

1883 Com a idade de 18 anos, da varanda da sua casa vê Jesus curvado sob o peso da cruz, que lhe diz: «Alma, ajuda-me!». A partir desse momento, alma solitária, viveu em contínua união com os sofrimentos inefáveis do seu Esposo divino.

1888 Torna-se Filha de Maria e Terciária dominicana com o nome de Irmã Madalena.

1885-1947 Alma eleita, seráfica esposa de Cristo, humilde e piedosa, dotada por Deus de dons extraordinários, vítima inocente, para-raios da Justiça divina, nos 62 anos ininterruptos de cama, foi Arauto do Reino da Vontade Divina.

4.III.1947 Repleta de méritos, na luz eterna da Vontade Divina terminou – como viveu – os seus dias para triunfar com os anjos e os santos nos esplendores eternos da Vontade Divina.

7.III.1947 Por quatro dias, os seus restos mortais foram expostos à veneração de uma imensa multidão de fiéis, que iam à sua casa para ver pela última vez Luísa a Santa, muito querida ao seu coração. O funeral foi um verdadeiro triunfo; Luísa passou como uma rainha, carregada sobre os ombros, no meio de alas de gente. Todo o clero, secular e religioso, acompanhou o ataúde de Luísa. A liturgia fúnebre realizou-se na Igreja Matriz, com a participação do inteiro Cabido. Na parte da tarde, Luísa foi enterrada na capela gentílica da família Calvi.

3.VII.1963 Os seus restos mortais foram sepultados definitivamente em Santa Maria Greca.

20.XI.1994 Festividade de Cristo Rei. Na Igreja Matriz de Corato, na presença de um numerosíssimo público local e forasteiro, D. Cassati abriu de forma oficial o processo de beatificação da Serva de Deus Luísa Piccarreta.


A primeira imagenzinha da Serva de Deus Luísa Piccarreta, publicada em 1948, com o imprimatur de D. Reginaldo Addazzi, O.P.



Oração pedindo a glorificação da Serva de Deus: 

« Ó Santíssima Trindade,
Pai, Filho, Espírito Santo,
louvamos-Te, e damos-Te graças pelo dom da santidade
da tua Serva fiel Luísa Piccarreta.
Pai, ela viveu na Tua Divina Vontade,
movendo-se sob a ação do Espírito Santo,
conforme ao Teu Filho obediente até à morte de cruz,
Vítima e Hóstia a Ti agradável,
cooperando na obra da Redenção do género humano.
As suas virtudes de obediência, de humildade,
de amor total a Cristo e à Igreja
levam-nos a pedir-Te o dom da sua glorificação na Terra,
para que resplandeça diante de todos a Tua glória,
e que o Teu Reino de verdade, de justiça e de amor
se difunda, até aos confins da terra,
através do carisma particular
do Fiat Voluntas Tua sicut in Caelo et in terra.
Recorremos aos seus méritos para obter de Ti,
Santíssima Trindade,
a graça particular que Te pedimos
com a intenção de cumprir a Tua Divina Vontade. Amém

Três Glórias...
Pai Nosso...
Rainha dos Santos, rogai por nós.


+ Giovanni Battista Pichierri
Arcebispo de Trani-Bisceglie-Barlettta
Trani, 29 de Outubro de 2005