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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

terça-feira, 21 de abril de 2015

SANTO ANSELMO DE CANTERBURY (Cantuária), Bispo e Doutor da Igreja. Grande defensor da ortodoxia católica e dos direitos da Igreja no Séc. XI.



Primeiros anos
Santo Anselmo nasceu em Aosta, parte do Reino de Arles, por volta de 1033. Sua família tinha fortes relações com a poderosa Casa de Sabóia e era muito rica. Seu pai, Gundulfo, era lombardo de nascimento. Sua mãe, Ermemberga, que foi descrita como prudente e virtuosa, veio duma antiga família burgúndia.

Aos quinze anos, Anselmo desejava entrar para um mosteiro, mas não conseguiu o consentimento do pai e acabou sendo recusado pelo abade. O desapontamento aparentemente provocou-lhe uma doença psicossomática. Depois de se recuperar, Anselmo desistiu de estudar e passou a viver despreocupadamente; neste período, sua mãe morreu. Aos vinte e três, Anselmo saiu de casa, cruzou os Alpes e viajou por toda a Borgonha e a França.

Atraído pela fama de seu conterrâneo Lanfranco (que era o prior da beneditina Abadia de Bec), chegou à Normandia em 1059. No ano seguinte, depois de algum tempo em Avranches, Anselmo finalmente entrou para a abadia como noviço aos vinte e sete. Ao fazê-lo, submeteu-se à Regra de São Bento, um evento que reformularia todo o seu pensamento na década seguinte.


Anselmo é escolhido para ser Abade de seu mosteiro. 




Santo Anselmo como monje
Abade de Bec
Em 1063, Lanfranco foi nomeado abade de Caen e Anselmo foi eleito prior em Bec, um cargo que manteve por quinze anos antes de tornar-se abade depois da morte de Herluin, o fundador da abadia, em 1078. Foi consagrado abade em 22 de fevereiro de 1079 pelo bispo de Évreux, o que foi acelerado por que, na época, a Arquidiocese de Ruão (a quem se subordinava Bec) estava vaga. Se Anselmo tivesse que ser consagrado pelo arcebispo de Ruão, teria sido pressionado a jurar obediência, o que comprometeria a independência de Bec.

Sob o comando de Anselmo, Bec tornou-se o principal centro de ensino na Europa, atraindo estudantes de toda a França, Itália e outras regiões. Foi durante esta época que escreveu suas primeiras obras filosóficas, o "Monológio" (1076) e o "Proslógio" (1077–8). A elas se seguiram "Os Diálogos sobre a Verdade", "Livre Arbítrio" e "A Queda do Diabo". Neste período, Anselmo também lutou para manter a independência da abadia tanto dos poderes seculares quanto do arcebispo. Posteriormente, Anselmo teve que lutar ainda contra Roberto de Beaumont, conde de Leicester.

Anselmo ocasionalmente visitava a Inglaterra para supervisionar as propriedades da abadia lá e também para visitar Lanfranco que, a partir de 1070, havia sido nomeado arcebispo de Cantuária, de quem era considerado o sucessor natural. Com a morte dele em 1089, porém, Guilherme II da Inglaterra tomou as propriedades e as rendas da Sé e não nomeou um novo arcebispo. Em 1092, a convite de Hugo de Avranches, 1º conde de Chester, Anselmo cruzou o Canal da Mancha. Na Inglaterra, permaneceu envolvido em assuntos da abadia por quase quatro meses e então foi proibido de voltar a Bec pelo rei. Guilherme ficou seriamente doente de forma súbita em Alveston no ano seguinte e, movido por um desejo de compensar por seus atos pecaminosos que acreditava serem a causa de sua doença, permitiu que Anselmo fosse nomeado para a Sé de Cantuária (Canterbury) em 06 de março de 1093.




Arcebispo de Canterbury (Cantuária) 

Nos meses seguintes, Anselmo tentou recusar o posto alegando estar velho e doente. Em 24 de agosto, apresentou a Guilherme as condições nas quais estaria pronto a aceitar o posto. Elas eram parte de uma agenda de Reformas Gregorianas: 1. Guilherme deveria devolver as terras da Sé que havia tomado; 2. Deveria aceitar a preeminência dos conselhos espirituais de Anselmo e 3. Deveria reconhecer Urbano II como Papa (e não Clemente III, o antipapa). As recusas de Anselmo ajudaram a melhorar sua posição na barganha enquanto os termos eram discutidos com o rei, que estava profundamente relutante em aceitar as condições impostas por ele. Guilherme cederia apenas à primeira. Alguns dias depois, Guilherme tentou voltar atrás até mesmo nisso e suspendeu a investidura de Anselmo, mas, pressionado pela população, foi obrigado a seguir adiante com a nomeação. No fim, Anselmo e Guilherme concordaram que a devolução das terras de Cantuária seria a única condição aceita. Finalmente os bispos ingleses colocaram-lhe nas mãos o báculo e o levaram para igreja para ser investido. Anselmo em seguida prestou homenagem a Guilherme e, em 25 de setembro de 1093, recebeu de volta as terras de sua nova Sé. Ele foi entronado no mesmo dia, depois de receber a dispensa de suas obrigações na Normandia. Por fim, foi consagrado arcebispo de Cantuária em 4 de dezembro.
Tem se discutido sobre se a relutância de Anselmo em assumir a Sé teria sido ou não sincera. Estudiosos como Southern defendem que sua preferência teria sido permanecer em Bec. Porém, a relutância em aceitar postos importantes era um costume medieval. Vaughn afirma que Anselmo não poderia ter expressado um desejo pela posição sem correr o risco de ser visto como um carreirista ambicioso. Ela afirma ainda que Anselmo percebeu a situação política e os objetivos de Guilherme e agiu no exato momento que lhe daria a melhor condição de negociar pelos interesses de sua futura Sé e do movimento reformista. Por outro lado, a vida de eremita era uma das opções que Anselmo considerou antes de aceitar o conselho do arcebispo de Ruão e entrar para o mosteiro. William Kent acreditava que não havia razão para suspeitar da sinceridade de sua resistência. Naturalmente atraído pela vida contemplativa, Anselmo não tinha atração alguma por este tipo de cargo mesmo em períodos de paz e, assim, teria ainda menos em tempos conturbados. Anselmo sabia bem o que o esperava na função.


Conflitos com Guilherme II
Anselmo continuou a combater por suas reformas e pelos interesses de Cantuária. Sua visão sobre a Igreja era de uma Igreja universal, com sua própria autoridade interna, capaz de conter a visão de Guilherme de controle real sobre o Estado e sobre a Igreja. Por isso, tem sido descrito ora como um monge contemplativo ora como um homem politicamente engajado, determinado a defender os privilégios da Sé Episcopal de Cantuária. Um dos primeiros conflitos com Guilherme irrompeu já no seu primeiro mês. O rei preparava-se para combater seu irmão mais velho, Roberto II Curthose, duque da Normandia, e precisava de dinheiro. Anselmo estava entre os nobres de quem se esperava ajuda e ele ofereceu £500, mas Guilherme recusou exigindo mais. Posteriormente, um grupo de bispos convenceu Guilherme a aceitar a quantia original e foram até Anselmo, que afirmou ter doado o dinheiro aos pobres. Neste episódio, Anselmo foi cuidadoso e conseguiu evitar tanto acusações de simonia quanto mostrar-se um líder generoso.
As leis da igreja determinavam que os bispos metropolitanos não poderiam ser consagrados sem que antes recebessem o pálio das mãos do Papa. Anselmo, portanto, insistiu em ir à Roma para receber o seu, mas Guilherme não autorizou. O antipapa Clemente III estava lutando contra Urbano II, que havia sido reconhecido pela França e pela Normandia. Não parece que Guilherme fosse partidário de Clemente, mas claramente desejava fortalecer seus próprios interesses colocando-se na posição de decidir entre os dois rivais. Assim, quando Anselmo pediu permissão para ir ver o Papa, o rei afirmou que ninguém na Inglaterra deveria reconhecer nenhum dos dois papas antes que ele, o rei, se decidisse. Em 25 de fevereiro de 1095, os bispos e nobres da Inglaterra realizaram um concílio no castelo de Rockingham para discutir o tema no qual os bispos se alinharam ao rei, com Guilherme de Saint-Calais, o bispo de Durham, chegando ao ponto de recomendar ao rei que depusesse Anselmo. Os nobres, por outro lado, escolheram a posição de Anselmo e a conferência terminou num impasse.
Logo depois, Guilherme enviou mensageiros em segredo para Roma. Eles convenceram Urbano a enviar um legado (Gualtério de Albano) até o rei levando consigo o pálio arcebispal e os dois imediatamente deram início às negociações secretas. Guilherme concordou em reconhecer Urbano como Papa e assegurou para si o direito de autorizar que membros do clero recebessem cartas papais e as obedecessem; Gualtério, negociando em nome de Urbano, concedeu que Urbano não enviaria legados à Inglaterra sem que eles fossem antes convidados pelo rei. O maior desejo de Guilherme era que Anselmo fosse deposto e outro recebesse o pálio, ao que Gualtério respondeu que "...há boas razões para que se espere um bom resultado de acordo com os desejos do rei". Guilherme então reconheceu publicamente Urbano, mas Gualtério se recusou a depor Anselmo. Enfurecido, Guilherme tentou extorquir dinheiro de Anselmo em troca do pálio, também sem sucesso. Depois, tentou entregar-lhe o pálio pessoalmente, o que também não lhe foi permitido. Finalmente, o rei cedeu e Anselmo recebeu o pálio no altar de Cantuária em 10 de junho de 1095.
No decorrer dos dois anos seguintes, não se conhece nenhuma disputa aberta entre Anselmo e Guilherme. Porém, o rei bloqueou todos os esforços do arcebispo em suas reformas. A tensão finalmente explodiu em 1097, depois que Guilherme esmagou uma revolta galesa. Ele acusou Anselmo de ter lhe fornecido um número insuficiente de cavaleiros para a campanha e tentou multá-lo. Anselmo decidiu seguir para Roma para se aconselhar com o Papa, pois Guilherme se recusava a cumprir sua promessa de ajudar na reforma da igreja, mas o rei não lhe permitiu. As negociações terminaram com Guilherme declarando que se Anselmo partisse, tomaria de volta a Sé de Cantuária e jamais o receberia de volta como arcebispo. Por outro lado, se Anselmo resolvesse ficar, seria multado e teria que jurar que jamais apelaria novamente a Roma: "Anselmo recebeu a opções de se exilar ou de se submeter completamente".


Primeiro exílio
Exilado, Anselmo partiu para Roma em outubro de 1097. Guilherme imediatamente se apoderou das receitas da Sé e as manteve até morrer, embora Anselmo tenha permanecido titular da Sé. Ele escolheu o exílio para defender sua visão da Igreja universal, sublinhando os pecados de Guilherme em relação a ela. Embora ele tenha de fato prestado homenagem a Guilherme, Anselmo a desqualificou frente ao seu dever para com Deus e o Papa. Ele foi recebido com grandes honras por Urbano durante o cerco de Cápua, durante o qual foi muito elogiado pelas tropas sarracenas de Rogério I da Sicília (r. 1071–1101). Num grande concílio provincial realizado em Bari em 1098, que contou com a presença de 183 bispos, Anselmo recebeu a incumbência de defender a cláusula Filioque e o uso do pão ázimo durante a Eucaristia contra representantes da Igreja Ortodoxa. Em 1099, Urbano renovou a proibição da investidura secular do clero e do clero prestar homenagem a poderes seculares. No mesmo ano Anselmo se mudou para Lyon.


Conflitos com Henrique I
A vitória de Anselmo marcou o sucesso da Igreja Católica contra os monarcas ingleses na Questão das Investiduras.
Guilherme foi morto em 02 de agosto de 1100. Seu sucessor, Henrique I, convidou Anselmo de volta, escrevendo que se comprometia a ouvir os conselhos do arcebispo. Henrique cortejava Anselmo por que precisava de seu apoio para se consolidar no trono, uma vez que o arcebispo poderia a qualquer momento declarar seu apoio ao irmão mais velho de Henrique. Quando Anselmo retornou, Henrique exigiu que ele lhe prestasse homenagem em relação às propriedades de Cantuária e recebesse dele sua investidura em seu posto de arcebispo. Como o papado havia recentemente proibido o clero de fazer as duas coisas, a relação de Anselmo com Henrique já começou em conflito.
O rei se recusou a desistir do privilégio desfrutado por seus predecessores e propôs que o tema fosse levado ao Papa. Duas embaixadas foram enviadas ao Papa Pascoal II sobre a legitimidade da investidura de Henrique; ambas receberam a confirmação da ordem papal anterior. Neste ínterim, Anselmo ajudou Henrique, que estava ameaçado pela invasão de seu irmão, Roberto Curthose, e Anselmo publicamente apoiou-o, convencendo os barões ainda indecisos e ameaçando Curthose com a excomunhão.
Na festa de São Miguel de 1102, Anselmo realizou um concílio em Londres no qual ele proibiu o casamento e o concubinato aos membros das ordens sagradas36 (além de condenar a simonia e reformando os regulamentos de sobriedade e vestuário do clero). Ele estava entre os primeiros a opinar publicamente contra o tráfico de escravos em 1102, num concílio na igreja de São Pedro em Westminster, e conseguiu aprovar uma resolução contra a prática de vender homens como gado.
Por outro lado, Henrique concedeu a Anselmo autoridade sobre toda a Igreja na Inglaterra e concordou em obedecer ao Papa. Porém, como Pascoal havia reafirmado as regras sobre a investidura e as homenagens seculares, Henrique se voltou novamente contra Anselmo. Em 1103, o próprio arcebispo e um enviado real, Guilherme Warelwast, partiram novamente para Roma. Furioso, Pascoal excomungou os bispos investidos por Henrique.


Segundo exílio
Anselmo se refugiou em Lyon depois disso e aguardou os próximos passos de Pascoal. Em 26 de março de 1105, o Papa excomungou o principal conselheiro de Henrique, Roberto de Meulan, por ter convencido Henrique a continuar com as investiduras seculares, os prelados investidos por Henrique e outros conselheiros, ameaçando o próprio rei com o mesmo destino. Em abril, Anselmo ameaçou excomungá-lo pessoalmente, provavelmente para forçar a mão de Henrique nas negociações. Como resposta, o rei arranjou um encontro com Anselmo e eles conseguiram chegar numa solução de compromisso em Laigle em 22 de julho de 1105. Parte do acordo era que as excomunhões de Roberto e de seus associados fossem revogadas (dado que eles agora aconselharam o rei a obedecer ao Papa); Anselmo fê-lo por sua própria autoridade, um ato que depois teve que explicar a Pascoal. Outras condições do acordo foram que Henrique deveria abandonar a investidura secular se Anselmo obtivesse de Pascoal permissão para que clérigos prestassem homenagem aos seus nobres; que as receitas da Sé de Cantuária fossem devolvidas a Anselmo; e que os sacerdotes fossem proibidos de casar. Anselmo então insistiu em ter o acordo de Laigle sancionado por Pascoal antes de aceitar voltar para a Inglaterra. Por carta, Anselmo também pediu ao Papa que aceitasse o compromisso de prestar homenagem ao rei, pois seria um pequeno preço a pagar por uma vitória maior, o fim do conflito sobre as investiduras seculares. Em 23 de março de 1106, Pascoal escreveu a Anselmo aceitando a solução, embora ambos vissem o acordo como um compromisso temporário e pretendiam continuar pressionando pelas reformas gregorianas, incluindo o fim das homenagens.

Mesmo depois disso, Anselmo continuou se recusando a voltar para a Inglaterra. Henrique viajou para Bec e encontrou-se com ele em 15 de agosto de 1106. Lá, o rei fez mais algumas concessões, restaurando a Anselmo todas as igrejas que havia tomado. Ele prometeu ainda que nada mais seria tomado das igrejas, que prelados que haviam pago seu controverso imposto (que havia começado como um imposto sobre clérigos casados) seriam isentados de impostos por três anos e, finalmente, que tudo o que havia sido levado de Cantuária durante o exílio de Anselmo seria devolvido. Anselmo finalmente aceitou voltar depois de reforçar ainda mais a posição da igreja frente à do rei.
Já em 1107, a longa disputa sobre as investiduras estava finalmente resolvida. A Concordata de Londres anunciou os compromissos de Anselmo e Henrique em Bec. Os dois anos finais da vida de Anselmo foram tranquilos e dedicados às suas funções em Cantuária. Como arcebispo, viveu à altura de seus ideais monásticos, que incluíam zelo, prudência e instrução adequada ao seu rebanho, além de oração e contemplação.  Anselmo morreu na Quarta-Feira Santa, 21 de abril de 1109, em Cantuária, e foi enterrado na Catedral de Cantuária.

Obras
Anselmo se situa entre Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino e é chamado “O Pai do Escolasticismo". Ele preferia defender a fé pelas razões intelectuais do que pelos argumentos das Escrituras.
Anselmo dedicou-se à filosofia, aplicando a razão em vez do apelo à autoridade das Escrituras ou da patrística para estabelecer as doutrinas da fé cristã. Estilisticamente, os tratados de Anselmo assumem duas formas, diálogos, de cunho pedagógico, e meditações. Seu grande predecessor, João Escoto Erígena, foi mais especulativo e místico em suas obras.
O mote de Anselmo era "fides quaerens intellectum" ("fé em busca de entendimento") que, para ele, significava "um ativo amor de Deus em busca de um conhecimento mais profundo de Deus". Ele escreveu "Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam. Nam et hoc credo, quia, nisi credidero, non intelligam." ("Nem busco entender para que possa acreditar, mas acredito que possa entender. Por isso, também, acredito que, a não ser que eu primeiro acredite, não serei capaz de entender"). Esta frase foi possivelmente inspirada por Santo Agostinho ("Dez Homilias sobre a I João", tratado XXIX sobre João 7:14-18, §6): "Portanto, não busque entender para que acredite, mas acredite para possa ser capaz de entender". Anselmo defendia que a fé precede a razão e que a razão pode expandir a fé.
A obra-prima sobre a teoria do conhecimento de Anselmo é o tratado "De Veritate", no qual afirma a existência de uma verdade absoluta da qual todas as verdades participam. Esta verdade absoluta, argumenta ele, é Deus, que é a base ou princípio de tudo e do pensamento. A visão de mundo de Anselmo era, grosso modo, a do neoplatonismo, que herdou de seu grande influenciador, Santo Agostinho, assim como de Dionísio Areopagita, possivelmente, de Escoto. Ele também herdou sua forma racionalista de pensar de Aristóteles e de Boécio.


Provas teístas
O "Monológio", escrito em 1077, inclui uma defesa da existência de Deus, mas também muitas discussões sobre os atributos divinos e sua economia, além de algumas sobre a mente humana. A obra começa assim:
“Se alguém não sabe, seja por que não ouviu ou por que não acredita, que há uma natureza, suprema sobre todas as coisas existentes, que sozinha é autossuficiente em sua felicidade eterna, que através de sua bondade onipotente concede e faz com que todas as coisas existam ou tenham algum tipo de bem-estar, e uma grande quantidade de outras coisas que devemos acreditar sobre Deus ou sua criação, penso que este devia pelo menos se convencer da maior parte destas coisas pela simples razão se for moderadamente inteligente ”.
Nos primeiros capítulos, apresenta a defesa da bondade em todas as coisas que só podem existir pela presença da bondade "em si". A prova do Monológio argumenta a partir da existência de muitas coisas boas em direção a uma unidade da bondade, uma única coisa através da qual todas as outras coisas são boas. Ele continua explicando que "coisas" são chamadas de "boas" em graus e formas variadas que seriam impossíveis se não houvesse algum padrão absoluto e alguma bondade "em si", da qual toda bondade relativa é parte. O mesmo vale para adjetivos como "grande" ou "justo", por meio do qual coisas tem uma certa medida de grandeza e justiça. Anselmo usa este raciocínio para afirmar que a própria existência de coisas seria impossível sem algum único Ser através do qual elas passam a existir. Este Ser absoluto, esta bondade, justiça e grandeza, é Deus. Anselmo não se satisfaz completamente com este raciocínio, porém, por que começa a partir de bases a posteriori, ou seja, é um raciocínio indutivo e não uma dedução como preferia.
Em seu Proslógio, Anselmo tentou encontrar um único argumento que não precisava de nada além de si próprio como prova, que seria suficiente em si mesmo para mostrar que Deus realmente existe; que ele é a bondade suprema dependente de nada mais, mas do qual tudo depende para existir ou para seu bem-estar. Estudiosos medievais chamaram-no de "ratio Anselmi" ("argumento de Anselmo"). Immanuel Kant posteriormente chamou-o de "argumento ontológico". Anselmo definia sua crença na existência de Deus utilizando a frase "aquele que não se pode conceber nada que seja maior". Ele argumentava que, se "aquele que não se pode conceber nada que seja maior" existisse apenas no intelecto, ele próprio não seria "aquele que não se pode conceber nada que seja maior", uma vez que se pode conceber que exista na realidade, que é maior que o intelecto apenas. Segue daí, segundo Anselmo, que "aquele que não se pode conceber nada que seja maior" deve existir na realidade. A maior parte do "Proslógio" é dedicada à tentativa de Anselmo de estabelecer a identidade "daquele que não se pode conceber nada que seja maior" como sendo Deus, estabelecendo assim que Deus existe de fato.
A prova ontológica de Anselmo tem sido objeto de controvérsia desde que foi publicada pela primeira vez na década de 1070. Ela foi combatida na época pelo monge Gaunilo em sua "Liber pro Insipiente", onde argumentava que humanos não podiam passar do intelecto para a realidade. A resposta de Anselmo veio em sua "Responsio". A crítica de Gaunilo foi depois repetida muitas vezes por filósofos posteriores, entre eles Tomás de Aquino e Kant. Anselmo escreveu diversos outros argumentos para a existência de Deus baseados em argumentos cosmológicos e teleológicos.

Outras obras
Deus Pai e a Virgem Maria, dois temas explorados por Anselmo em sua teologia.
Em suas demais obras, Anselmo luta para afirmar a base racional das doutrinas cristãs da criação e da Trindade, que ele discutiu primeiro afirmando que seres humanos não poderiam conhecer Deus em si, mas apenas através de uma analogia. A que ele utilizou foi a da autoconsciência do homem.
A peculiar dupla natureza da consciência - memória e inteligência - representam a relação do Pai com o Filho. O amor mútuo entre os dois, que procede de uma relação que eles mantém entre si, é o Espírito Santo. As demais doutrinas teológicas sobre o homem, como o pecado original e o livre arbítrio, foram desenvolvidas no "Monológio" e em outros tratados.
A visão da satisfação na teoria da Expiação foi formulada por Anselmo em seu obra "Cur Deus Homo" ("Por que Deus foi feito Homem?"). Ele tentou ali explicar a necessidade racional do mistério cristão da expiação. O ponto central do argumento é que o ser humano pode compensar pelo pecado humano contra Deus, mas sendo a compensação impossível para qualquer ser humano individual, ela só poderia ser feita por Deus. Um ato assim só seria possível para Jesus Cristo, o Filho, que é tanto Deus quanto homem. A expiação é alcançada através da morte de Cristo, que tem valor infinito. Em última instância, na interpretação de Anselmo sobre a expiação, a justiça e a misericórdia divina em seus sentidos mais amplos se mostram completamente compatíveis. Melhor explicando: se Deus desejasse meramente perdoar os pecados do homem Sua misericórdia teria se conflitado com Sua justiça. Para reconciliar misericórdia e justiça era necessário um oferecimento maior que a desobediência do homem. Somente Deus poderia fazer este oferecimento, mas somente o homem deveria fazê-lo, assim somente o Deus-homem-Jesus poderia fazer, como realmente O fez na Cruz.
De acordo com esta visão, o pecado seria um débito frente à justiça divina que precisa ser pago de alguma forma. Assim, nenhum pecado, segundo Anselmo, pode ser perdoado sem uma devida "satisfação". Porém, o débito incorreto é algo muito maior que um ser humano é capaz de pagar. Todo serviço que uma pessoa pode oferecer a Deus já está alienado por conta de outros débitos para com Deus. A única forma pela qual se pode dar a satisfação - para que o homem se livre de seus pecados - seria pela vinda de um "Redentor" que fosse também tanto homem quanto Deus. Ele próprio teria que ser livre de todo pecado e, portanto, não ter nenhum débito incorrido. Sua morte seria então maior do que todos os pecados incorridos pela humanidade e corresponderia a uma superabundante "satisfação" à justiça divina.
Anselmo negou a crença que no que atualmente chamamos de Imaculada Conceição, embora sua forma de pensar tenha lançado as bases para o desenvolvimento da doutrina no ocidente. Em "De virginali conceptu et de peccato originali" ("Do Conceito de Virgindade e o Pecado Original"), Anselmo propôs dois princípios que se tornariam fundamentais na discussão. O primeiro é que seria adequado que Maria fosse tão pura que nenhum outro ser mais puro pudesse ser imaginado, com exceção de Deus. O segundo, que abriu caminho para o dogma no futuro, foi sua compreensão sobre o pecado original.  Anselmo afirmou que o pecado original seria nada mais do que a natureza humana desprovida da justiça divina e que seria transmitida (no nascimento) por que os pais não podem conceder a justiça divina por que eles próprios não a têm. O pecado original seria portanto a transmissão da decadência da natureza humana. Em contraste, os contemporâneos de Anselmo defendiam que a transmissão do pecado original teria relação com a natureza lasciva do ato sexual. Anselmo foi o primeiro a separar o pecado original do desejo sexual.


Influência
As obras de Anselmo foram copiadas e disseminadas ainda durante a sua vida e exerceram grande influência sobre os escolásticos posteriores como Boaventura, Tomás de Aquino, João Duns Escoto e Guilherme de Ockham. Seu tratado sobre a processão do Espírito Santo ajudou a guiar as especulações escolásticas sobre a Trindade, "Cur Deus Homo" iluminou o caminho para a teoria da Expiação e sua obra antecipou muito do que seria discutido nas futuras controvérsias sobre o livre arbítrio e a predestinação.


Reconhecimento
O aniversário da morte de Anselmo, em 21 de abril, é celebrado pela Igreja Católica, pela maior parte da Comunhão Anglicana e por algumas correntes do luteranismo. Sua canonização foi solicitada por Tomás Becket em 1163 e é possível que tenha sido formalmente canonizado em algum momento antes da morte deste em 1170, mas nenhum registro oficial sobreviveu, apesar de, a partir daí, Anselmo ter sido incluído no rol dos santos em Cantuária e em outros lugares. Alguns estudiosos defendem que a canonização de Anselmo só teria sido executada em 1494 pelo Papa Alexandre VI. Foi proclamado Doutor da Igreja em 1720 por Clemente XI. Em 21 de abril de 1909, 800 anos depois de sua morte, São Pio X emitiu uma encíclica, "Communium Rerum", elogiando Anselmo, sua carreira eclesiástica e suas obras. Seu símbolo na hagiografia é um navio que representa a independência espiritual da Igreja.


Famosa Oração de São Anselmo;
“Oh, meu Senhor e meu Deus, nos dê a graça de desejar a Vós com todo nosso coração, porque desejando-O , iremos procura-Lo procurando-O , iremos encontra-Lo, encontrando- O, iremos ama-Lo, amando- O, iremos odiar aqueles pecados que Vós nos redimistes na Cruz”!

Frases famosas de Santo Anselmo:
“Não quero saber para crer, mas crer para saber”
“Acreditamos que vós (Deus) sois algo que nada se pode conceber que vos seja maior”.




segunda-feira, 20 de abril de 2015

Venerável Servo de Deus Atílio Giordani, Colaborador Salesiano (1913 - 1972)



Atílio Giordani nasceu em Milão no dia 3 de fevereiro de 1913. Distingue-se desde os primeiros anos por sua grande paixão pelo Oratório e, já aos dezoito anos, pela sua dedicação aos jovens oratorianos.
Por decênios é catequista diligente e animador constante e genial, com muita simplicidade e serena alegria. Cuida da liturgia, da formação, do jogo, do tempo livre, das férias dos seus jovens, do teatro. Ama a Deus com todo o coração e encontra na vida sacramental, nas orações e na direção espiritual os recursos para a vida na graça.
Durante o serviço militar que começa em 1934 e termina, com fases alternadas, em 1945, demonstra senso apostólico entre seus companheiros de arma. Emprega-se na indústria Pirelli de Milão onde também espalha alegria e bom humor, com o mais profundo senso do dever.
Na própria família é um marido rico de grande fé e de serenidade, com uma desejada austeridade e pobreza evangélica em favor dos mais necessitados. Todos os dias, é fiel à meditação, à Eucaristia e ao Rosário.
Atento às vicissitudes de sua família (os três filhos já estavam no Brasil para um período de voluntariado missionário) decide ele próprio - de acordo com a sua Noemi - partirem juntos, marido e mulher, para partilhar totalmente a sua paternidade e a vocação dos filhos ao voluntariado. Também no Brasil ele continua a ser catequista e animador.

Um dia, em 18 de dezembro de 1972, em Campo Grande, durante uma reunião, está falando com entusiasmo e com ardor do dever de dar a vida pelos outros, quando imprevistamente se sente desfalecer. Há tempo apenas para dizer ao filho: “Pier Giorgio, agora continue você” e morre fulminado por um enfarte. O seu corpo transportado para a Itália repousa na Igreja de Santo Ambrósio em Milão.

Venerável Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico, Virgem e Fundadora (do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada)


Em 08 de janeiro de 1972, há 42 anos, a serva de Deus, Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico deixava o mundo para habitar a Casa do Pai. Conheça a história da missionária e fundadora do Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, mais uma candidata aos altares do nosso Brasil. 

Dulce Rodrigues dos Santos nasceu em São Paulo, em 1901. Ainda jovem, nutria o desejo de dedicar-se à vida religiosa, porém sua saúde era frágil e aos 21 anos, com tuberculose, mudou-se com sua mãe para São José dos Campos.

Mesmo tento um físico frágil e delicado, Dulce não abandonou o seu anseio por seguir a Deus e abraçou a vontade do Senhor. Durante sua recuperação, a jovem Dulce preocupava-se com a saúde daqueles que chegavam às pensões em busca de tratamento. Assim, já restabelecida, começou a oferecer aos doentes um pouco de conforto, visitando-os, levando-lhes boas leituras e sua caridade.

Outras jovens uniram-se à Dulce na missão, surgindo, assim, um pequeno pensionato, no qual os doentes encontravam não apenas o tratamento para sua enfermidade, mas também o calor e alegria advindos da Palavra de Deus.

Dom Epaminondas Nunes D’ávila e Silva, bispo da Diocese de Taubaté, a qual pertencia São José dos Campos, soube, através do Padre Ascânio Brandão, de santa memória, dos trabalhos realizados pelas jovens e chamou Dulce para uma conversa. Ali, ambos entenderam que compartilhavam o mesmo desejo de servir a vontade do Senhor.

Então, Dom Epaminondas pede a Dulce que escreva seus propósitos e o entregue. Aos pés da Virgem, a jovem escreveu o que seria mais tarde a espiritualidade e a maneira de ser da Pequena Missionária.

Em 15 de agosto de 1932, para que a obra se concretizasse e perdurasse pelo tempo, Dom Epaminondas transformou-a na Associação Pia e autorizou as jovens a usarem um uniforme. Na época, a associação contava com cinco associadas, entre eles a Dulce.

Mais tarde, em 08 de dezembro de 1934, as missionárias receberam seus hábitos religiosos e a Associação Pia passou a chamar-se Congregação Religiosa. As constituições escritas por Dulce, a qual as irmãs já chamavam de Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico, foram enviadas a Roma.

A Santa Sé, pela voz do papa Pio XI, concede a aprovação pelo Decreto de Beneplácito. Assim, em 08 de novembro de 1936, o segundo bispo de Taubaté, Dom André Arcoverde de Albuquerque Cavalcante, faz a Ereção Canônica da Congregação.

Em 21 de novembro do mesmo ano, Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico, confirmada como a Mãe do Instituto, faz seus votos perpétuos. Em 06 de dezembro, a Madre é empossada no cargo de superiora geral e impõe o véu às noviças que deviam iniciar o noviciado canônico. As primeiras irmãs do Instituto, nas mãos da Madre, são dispensadas no noviciado. Assim, a congregação, já inserida na Igreja, segue sua trajetória.


APROVAÇÃO PONTIFÍCIA
Muitas vocações foram chegando e as Irmãs foram solicitadas para novas fundações. Instalaram-se novas comunidades em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e mais recentemente, após o falecimento de sua fundadora, no Distrito Federal e Santa Catarina, além de duas Comunidades em Portugal.

Sempre na vanguarda de sua pequena grei, Madre Maria Teresa foi uma alma de mãe, de pastora, de apóstola. Viu espalhar-se para a glória de Deus a sua Congregação. Em 11 de fevereiro de 1952, Madre Teresa teve a alegria que é dada a poucos fundadores: ver concedido à Congregação o Decreto de Louvor, tornando-a Pontifícia. E ainda mais: em pleno Concílio Vaticano II, aos 08 de dezembro de 1964, recebeu de Sua Santidade o Papa Beato Paulo VI a aprovação definitiva do Instituto, como confirmação de que a Congregação, seu espírito, suas obras, suas atividades e objetivos estão perfeitamente dentro do espírito da Igreja e atingem as necessidades atuais do mundo e as exigências da evangelização.


TESTAMENTO DA FUNDADORA

A vida de Madre Teresa é uma busca constante da intimidade com Deus, principalmente na Adoração da Eucaristia, fonte de força para anunciar o Reino.
Seu amor para com Nossa Senhora, Maria Imaculada, torna-a uma propagadora incansável da devoção à Mãe de Jesus e nossa Mãe.
A espiritualidade de Madre Teresa, centrada no mistério Eucarístico, leva-a a ter um amor todo especial pelos Sacerdotes, herança bem presente no coração de cada Pequena Missionária.

Aos setenta anos, cansada no corpo, cheia de entusiasmo no espírito, tendo dedicado toda a sua vida à Igreja, à sua Congregação e ao anúncio do Evangelho, percorrendo a Pequena Via de Santa Teresinha, morreu em 08 de janeiro de 1972, após um período curto de enfermidade. Assim, parte para a casa do Pai. tendo cumprido fiel e amorosamente sua missão.

Seu testamento, deixado poucas horas antes de morrer, diz da certeza de um ideal conquistado: “Sejam santas! Sejam fiéis ao Papa, à Igreja e às Constituições! Amem muito o Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora! Sejam unidas e assim serão felizes”!


Suas filhas espirituais e continuadoras de sua obra sentem que, em Deus, sua luz que é a do próprio Deus, continua a guiá-las.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Beata Isabel Vendramini, Virgem e Fundadora (Instituto das Irmãs Terciárias Franciscanas "Isabelinas" ou "Isabelas").



 Isabel Vendramini, filha de Francisco Vendramini e Antônia Ângela Duodo, nasceu em Bassano del Grappa no dia 9 de outubro de 1790. Desde menina, como ela mesma escrive de si, foi presenteada com as mais seletas bênçãos. A Primeira Comunhão e a Confirmação foram etapas decisivas em sua vida. Por algum tempo foi aluna das Irmãs Agostinianas, que a formaram em seu itinerário espiritual.
   Jovem brilhante, ela gostava de se vestir bem e era centro de interesse. Era amante da solidão e com frequência se retirava no campo para rezar. Depois de seis anos de noivado, às vésperas das bodas, o Senhor a fez ver com clareza que a chamava, o que para ela foi uma verdadeira conversão.
     Consagrada ao Senhor pelas vias de São Francisco, de uma fé ativa e consciente, empreendedora segundo o Evangelho a serviço dos mais pobres num programa de vida tendo Cristo como centro, encontramos em seus escritos as etapas do itinerário da elevada espiritualidade seráfica e apostólica.
     Em 17 de setembro de 1817, festa dos Estigmas de São Francisco, percebeu claramente que era chamada a uma vida de consagração. Desde então com alegria começou a levar uma vida de austera penitência e caridade. Assistia aos doentes e se dedicava inteiramente à educação das jovens de um orfanato. Em 1821 se tornou terceira franciscana. O Senhor a guiava para caminhos mais elevados.
     Em 1º de janeiro de 1827, deixou Bassano e se mudou para Pádua. Três dias depois foi contratada pela “Casa dos Expostos” para a formação das jovens. Ali se encontrou com Dom Luigi Moran, que se tornou seu diretor espiritual e colaborador na fundação que Isabel pretendia levar a cabo. Madura na experiência educativa, de apostolado, de graças e de carismas, em 04 de outubro de 1830 teve início a nova congregação das primeiras Irmãs Terceiras Franciscanas Isabelinas, com a vestição e a profissão religiosa no ano seguinte.
    Deus abençoou esta instituição e o número de religiosas cresceu; receberam uma sólida formação sob a direção inspirada da Madre Isabel Vendramini.
     Em 1834 foram chamadas à “Casa das Indústrias”. Em 1836 foram encarregadas da instrução das meninas órfãs, hóspedes do colégio do Beato Peregrino. Mais tarde foram chamadas para a assistência dos idosos nas casas de repouso e para os doentes em casas de saúde e hospitais. Nos anos de epidemia de cólera, Isabel e suas "isabelinas" se prodigaram com heroica dedicação na assistência dos enfermos.
     O desenvolvimento do instituto se dava sob a vigilante e maternal direção da Madre. Por 32 anos ela foi a Superiora amada e venerada de sua congregação, à qual ela deu a fisionomia franciscana e o ímpeto caritativo e missionário que hoje conta com 1.500 religiosas na Europa, África, Oriente Médio e América Latina.
     A Fundadora faleceu antes da aprovação de sua obra. Cheia de mérito e virtudes expirou no dia 02 de abril de 1860 aos 70 anos. Seu túmulo desapareceu depois de 1872, durante os trabalhos de reestruturação do cemitério de Pádua. São João Paulo II a beatificou em 04 de novembro de 1990.


Fontes: es.catholic.net/op/.../isabel-vendramini-beata.html ; www.santiebeati.it

terça-feira, 14 de abril de 2015

SÃO MIGUEL DOS SANTOS, Presbítero da Ordem da Santíssima Trindade ou Trinitários.


São Miguel dos Santos, pertencente à Ordem Trinitária e apelidado de o “estático” por causa dos frequentíssimos arrebatamentos aos quais estava sujeito.

Miguel Argimir Mitjana nasceu no dia 29 de setembro de 1591 em Vich, na Catalunha (Espanha), era o sétimo dos oito filhos que Henrique Argemir teve de Margarida Montserrat, ambos de nobre origem, mas decaídos da primitiva grandeza. À fonte batismal lhe foi imposto o nome de Miguel.

O pai, tabelião e conselheiro da municipalidade, antes de se dedicar ao seu trabalho ia para escutar toda manhã a Missa com os filhos mais crescidos e à noite recitava diariamente em casa, com os criados e os familiares, o Santo Rosário. Também liam os Evangelhos e aos sábados rezavam as Vésperas na catedral.

Miguel, dotado de excelente índole e de precoce inteligência, aprendeu dos pais a elevar cedo a mente e o coração a Deus, a obedecer também ao preceptor, a ser paciente com os irmãos, serviçal com os companheiros e caridoso com os infelizes.

Desde criança o santo demonstrou um invencível horror ao pecado e um vivo desejo de vida penitente. Divertia-se construindo altarzinhos, cantando louvores sagrados ou repetindo as cerimônias litúrgicas que tinha visto realizar-se na igreja. Passava longo tempo do dia no oratório doméstico aonde conduzia outros menininhos aos quais recomendava serem bons e obedientes.

Mais de uma vez foi surpreendido chorando, enquanto beijava o crucifixo, agachado num cantinho solitário. À leitura da vida dos santos anacoretas, teve a ideia de se retirar para fazer vida eremítica na gruta de Montseni, nos arredores da cidade, junto com alguns companheiros afervorados por seu zelo. O pai, naturalmente, se opôs. Permitiu-lhe somente observar o jejum quaresmal três vezes por semana, e de distribuir aos pobres quanto subtraía às refeições. Miguel adaptou também às suas costas uma cruz de madeira e começou a passar a noite acomodado, com frequência, sobre uns sarmentos com uma pedra abaixo da cabeça. Açoitava-se com correias, e um dia, enquanto os seus familiares vindimavam, avançou num bosque para revolutear-se numa sarça de espinhos pela irresistível necessidade que sentia em sofrer “por amor a Jesus e à imitação de São Francisco”.

O desejo de levar uma vida retirada e crucificada induziu Miguel a bater às portas dos conventos de Vich. Foi por todos rejeitado por causa da tenra idade. O que fazer? Decidiu emitir, apesar de ter somente nove anos, o voto de virgindade, na igreja das Dominicanas de Santa Clara. Mereceu, com tal gesto, ser livrado por toda a vida das tentações de impureza.

Aos quatro anos Miguel tinha ficado órfão de mãe; aos onze ficou órfão também de pai. O tutor lhe fez interromper os estudos para empregá-lo como garçom num comércio. Tanto ele como seus irmãos não queriam que abraçasse a vida religiosa porque, para eles, não convinha ao decoro da estirpe. Guiado pelo Espírito Santo, em 1603 fugiu para Barcelona a pé, com a esperança que o Senhor teria guiado os seus passos. Às portas da cidade uma pobre mulher teve compaixão dele e ofereceu-lhe hospitalidade. No dia seguinte foi para escutar a Missa na igreja mais perto, que era a dos Trinitários. Enquanto rezava, Deus lhe fez compreender que o queria entre aqueles religiosos. No começo foi acolhido como coroinha. Vestiu o uniforme branco dos Trinitários somente no mês de agosto de 1604.

Desde aquele dia Miguel fez consistir a essência da vida religiosa não apenas nos jejuns, nos cilícios e nas vigílias, como na abnegação da própria vontade. Durante o noviciado era tão virtuoso que foi apontado como modelo também aos religiosos mais velhos. Ao toque de levantar da meia noite para rezar as Matutinas foi sempre encontrado desperto. Diz a tradição que uma noite apareceu-lhe Nossa Senhora e ofereceu-lhe um lírio. Encontrava o seu prazer em servir o maior número possível de Missas. No altar parecia um serafim e após a comunhão permanecia absorto. Às vezes, transbordando de alegria, passava a correr pelo jardim, exclamando: “É tão violento o ardor interno, que se não lhe abrisse uma saída, ficaria queimado”.

Pela vivacidade da inteligência e a dedicação ao estudo, Miguel, bem antes de emitir a profissão, foi enviado para o convento de São Lamberto, nos arredores de Zaragoza, para que frequentasse aquela célebre universidade. No século XVI, sob o influxo do Concílio de Trento, também a Ordem dos Trinitários tinha sido reformada pela obra de São João Batista da Conceição (1561-1613) com a aprovação do papa Clemente VIII.

Depois da profissão religiosa (1607), frei Miguel, sedento de perfeita abnegação e de rígida penitência, pediu para passar à estreita observância. Tendo-lhe sido concedido aquele favor, dirigiu-se a pé, no inverno, a Pamplona, para vestir em Oteiza (1608), nos arredores da capital de Navarra, o tosco saio dos Trinitários Descalços. Após alguns dias foi enviado a Madri para o ano de noviciado. Em Alcalá emitiu a profissão religiosa e em La Solana aperfeiçoou-se nos conselhos evangélicos através de um segundo tirocínio exigido pelas Constituições.

Foi então que Deus começou a favorecer o seu servo com dons extraordinários. Um dia, enquanto encontrava-se com os seus confrades em recreio fora do convento e discutia com eles sobre o paraíso, de repente deu um grito, voou como uma flecha sobre uma plantação de cevada e foi pousar-se perante o tabernáculo, onde permaneceu longamente extasiado.

Desde aquele dia os gritos improvisos, os arrebatamentos e os êxtases repetiram-se frequentemente na igreja, no refeitório, pela estrada, apesar da formal proibição dos superiores para não perturbar o sossego do convento. Para fazê-lo sair dos sentidos era suficiente falar-lhe da Santíssima Trindade, da Eucaristia, da Paixão do Senhor, da Santíssima Virgem. Uma quinta-feira santa, depois de ter elevado os olhos para um grande crucifixo fora do refeitório, deu um grande grito e arremessou-se para abraçá-lo.
Não sempre conseguia subtrair-se àqueles impulsos do Espírito Santo, e então arrastava consigo o objeto ou o confrade ao qual se agarrava. O seu Ministro Provincial, frei Francisco de Santana, o enviou a Sevilha para ter com o Padre Hernando Mata, experto mestre de espírito, para que o examinasse. O piedoso sacerdote declarou não ter conhecido em sua vida alma mais cândida e mais inflamada de amor divino como frei Miguel dos Santos. Confirmando tal opinião, exatamente naquele tempo Jesus concedeu ao seu servo fiel, absorto em oração, o singularíssimo privilégio da substituição do coração com o seu.

No mês de outubro de 1611, frei Miguel foi enviado a Baeza para estudar filosofia e, após três anos, à Universidade de Salamanca para estudar teologia. Certo dia, enquanto um sacerdote agostiniano entremostrava, na sala de aula, a gratidão devida ao Sangue Preciosíssimo de Jesus pelos homens, o santo lançou-se ao alto e permaneceu uns vinte minutos suspendido sobre as cabeças dos alunos com os braços abertos e os olhos dirigidos ao céu. Por isso, acorria continuamente ao convento pessoas ávidas de consultar o santo estudante.

Durante o carnaval, para impedir tantos escândalos, concebeu um projeto audaz. Junto com seus confrades vestidos como penitentes, flagelando-se sem piedade, tendo nas mãos uma caveira e na cabeça uma coroa de espinhos, dirigiu-se à praça pública, em meio ao estupor das pessoas.  Um pregador subiu, então, sobre um banco para lembrar aos gozadores da vida a vaidade dos prazeres mundanos. De repente, frei Miguel deu um formidável grito, levantou voo até o crucifixo que encabeçava o cortejo e, por quinze minutos, permaneceu suspendido no ar, em êxtase.  É inútil dizer que, a tal prodígio, o festim carnavalesco mudou-se em uma procissão de penitência.

Concluídos os estudos, frei Miguel foi ordenado sacerdote em Faro (Portugal) em 1615. Havia desejado tanto aquele dia porque lhe permitia receber cotidianamente Jesus Sacramentado. Para exercer o sagrado ministério foi enviado a Baeza. Em 1622 foi nomeado ministro do convento de Valladolid, não obstante que se reputasse indigno e incapaz. Frei Miguel foi um religioso perfeito. Sobretudo a sua obediência aos superiores foi sempre pronta, alegre e sem reservas também quando lhe proibiam entrar em êxtase ou lhe mandavam alimentar-se como todos os outros, preocupados com sua saúde.

O Senhor, que não o queria naquele caminho, permitiu que piorasse realmente, motivo pelo qual, após continuadas provas, os superiores permitiram-no continuar alimentando-se com um pouco de pão, com alguns cachos de uva seca ou com um bocado de salada somente a cada três dias. Às vezes chegou a prolongar o jejum absoluto até duas semanas. Não saboreou outra bebida a não ser água. Passava até semanas inteiras sem beber. A língua se lhe transformava, então, numa espécie de sobreiro, mas, ao invés de matar a sede, frei Miguel era capaz de ir até o chafariz somente para aumentar o espasmo da sede ao contemplar a água fresca. A quem o exortava para se nutrir, respondia brincando: “O meu cozinheiro é Deus”.

Amantíssimo da pobreza evangélica, frei Miguel considerou-se feliz mesmo quando lhe faltou o necessário. Pode-se dizer que nada possuía, nada desejou, nada usou como próprio. Por diversos anos repousava um pouco no sótão do convento e somente nos últimos anos aceitou, por obediência, um cobertor consumpto. Tinha à disposição só um hábito, deixado de lado pelos outros religiosos e remendado por si mesmo. Jamais se conseguiu fazer-lhe vestir hábitos novos, apesar de que lhos oferecessem para ganhar e guardar aquele por ele usado.

Em sua incomparável humildade frei Miguel dizia que era capaz somente de rezar. Pelo contrário, quando foi eleito Ministro do Convento de Valladolid, deu prova de grande habilidade ao afrontar a construção de uma nova igreja sem recursos. Aos seus religiosos a obra pareceu insensata, mas ele os tranquilizou dizendo: “Se formos bons, mesmo se trancarmos a porta, o Senhor nos lançará o necessário pelos muros da horta”.

Inflexível ao exigir a observância das regras, sabia, porém, torná-la amável e jubilosa, como sacrifício feito a Deus, sem considerações humanas. O único escopo de sua vida foi de conformar-se à vontade d’Ele “querendo – dizia – não somente aquilo que Deus quer, mas aquilo que Deus quer que eu queira”. Tinha assim alcançado tal união com a Santíssima Trindade que não sabia se comia, se bebia, se dormia ou se caminhava.

Interrogado pelo Ministro Provincial sobre quantas horas por dia dedicava à oração, respondeu com simplicidade: “Eu rezo sempre”. De noite descansava apenas duas horas no chão, agachado sobre um banquinho com o rosto entre as mãos. “O meu bom Deus – dizia – me acorrenta e não me deixa dormir”. Habitualmente a sua Missa durava duas horas, por causa dos frequentes arrebatamentos aos quais estava sujeito. Todavia a igreja estava sempre muito cheia de fiéis.

Uma vez, à elevação do cálice, permaneceu elevado no ar por quase meia hora, e outra vez, tendo permanecido com os braços abertos em forma de cruz, não se deu conta que a chama de uma vela queimava-lhe a mão direita. Mais de uma vez foi visto emanar da sua pessoa um celestial esplendor e fulgurar-lhe ao redor da cabeça uma auréola de glória que deslumbrava a vista. O incêndio espiritual do amor divino se refletia no corpo com tal calor que não conseguia controlar-se. Um dia, enquanto discutia com o pároco de Marmel sobre o mistério da Santíssima Trindade, onde tinha ido para pregar, do seu peito jorrou algo como um vulcão de chamas resplandecentes. Admirado, o pároco quis abraçá-lo, mas caiu desmaiado por terra pela grandeza do calor e do fulgor daquela chama.

O apostolado de frei Miguel não se limitou à oração pelos pecadores, à penitência rigorosa, às conversações particulares ou ao ministério das confissões, mas se afirmou vigorosamente também no púlpito. Aos fiéis falava, sobretudo, do amor de Deus aos homens e do mistério da Eucaristia, sem cair nas pomposidades de seu tempo histórico. Para salvar até mesmo uma só alma estava disponível a tolerar infinitas labutas. Os contínuos êxtases, que o surpreendiam bem no meio das pregações, turbavam-lhe as alegrias procuradas por tal apostolado. De vez em quanto protestava: “Se desta vez me acontecer a mesma ‘desgraça’, não subirei jamais ao púlpito”. Todavia, a cada convite, era incapaz de resistir à manifesta vontade de Deus para o bem do povo.

Nobres e plebeus, ricos e pobres, eclesiásticos e seculares, acorriam a ele como a um oráculo para todas as suas necessidades, sem jamais ficar desiludidos, pois Deus tinha concedido a frei Miguel o dom de perscrutar os corações, de predizer eventos distantes e futuros, de sarar os enfermos com a simples imposição das mãos, com um sinal de cruz ou com a leitura de um trecho do Evangelho. Porém, não obstante tudo isso, o santo considerava-se “um miserável, um ingrato, uma terra estéril, incapaz de fazer frutificar os dons recebidos do céu”. Era-lhe, portanto, de grande confusão ouvir-se chamar por todos “o santo”, ver as pessoas ajoelhar-se diante dele e procurar beijar-lhe a ponta do hábito.

Enquanto era pároco em Baeza, em uma conversação entre amigos sobre a morte inexorável e a felicidade do céu, frei Miguel tinha exclamado improvisamente: “O Senhor na sua infinita misericórdia me fez conhecer que preciso trabalhar e pregar muito, até os trinta e três anos; então me chamará a si quando eu for Ministro do Convento de Valladolid”.

Ao aproximar-se do tempo de sua morte, confirmou a penitentes e a confrades que morreria à idade do Senhor. Na segunda-feira de Páscoa de 1625 foi, de fato, constrangido a ficar de cama por causa de uma febre violenta que o pegou no momento em que pregava. Viveu ainda dez dias em uma contínua oração.

A quem lhe perguntou quais graças desejava alcançar, respondeu: “Peço ao Senhor sobretudo para sofrer os tormentos e as penas que os mártires e os santos sofreram e sofrerão até o fim do mundo, e depois que se forme uma só chama de amor do qual ardem os beatos e os espíritos celestes e me consome o coração”. Um confrade lhe perguntou se temia a morte. Respondeu-lhe: “Perturba-me somente o pensamento de morrer em um lugar onde se tem muita estima de mim, que sou um miserável”.

Faleceu no dia 10 de abril de 1625, após ter beijado o crucifixo e exclamado, levantando os olhos ao céu: “Creio em Deus, espero em Deus, amo Deus!”. Logo que se espalhou a notícia de seu falecimento, uma enorme multidão amontoou-se perante a porta do convento gritando: “Queremos ver o santo”.

Foram assim numerosos aqueles que desejavam ter um pedacinho do saio do defunto como relíquia, que seus confrades precisaram revesti-lo com outro saio por até três vezes. Pouco depois do enterro de frei Miguel foram verificados cinquenta milagres, recebidos de Deus, por sua intercessão, pelos devotos.

Pio VI o beatificou em 02 de maio de 1779 e Pio IX o canonizou no dia 8 de junho de 1862. João XXIII o nomeou padroeiro da cidade em que nasceu, VICH. As relíquias de São Miguel dos Santos, padroeiro da juventude trinitária, são veneradas em Valladolid, na paróquia de São Nicolau.


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