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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Serva de Deus Teresa Juliana Chikaba, Virgem dominicana.



Na vida da pequena princesa negra Chikaba, exemplo admirável e patente de como uma alma fiel à Lei natural impressa em seu coração pode chegar ao conhecimento de Deus.
É doutrina corrente que Deus sempre dá às suas criaturas — inclusive às que vivem em condições muito adversas como a heresia e o paganismo — as condições necessárias para a salvação. Ele o faz por meio da lei natural, que é impressa em todos os corações. Sendo fiel a essa lei, uma alma reta pode chegar ao conhecimento de Deus.
Disso temos exemplo num caso de uma menina nascida na África de pais adoradores do sol, que desde os albores da vida se punha a questão: “Quem criou o mundo e tudo o que existe?” Por meio dessa lei que habitava no fundo do seu coração, ela praticava uma religião natural, e chegou ao conhecimento de Deus antes de chegar à luz da fé sobrenatural.
Trata-se da princesa Chikaba, nascida nos finais do século XVII e princípios do XVIII na Costa do Ouro, na África, e falecida como freira contemplativa na Espanha.



Filha de pequenos reis africanos
Nascida em 1676 no pequeno reino da Costa do Ouro, ela era a caçula e a mais inteligente dos quatro filhos dos soberanos da Mina Baixa de Ouro, pelo que todos julgavam que sucederia ao pai no governo do país.

O Evangelho não havia ainda penetrado naquela região e, no entanto, desde o uso da razão a princesa Chikaba deu mostras de uma religiosidade natural fora do comum. Vendo os campos, as flores, os pássaros, ela se perguntava, como fazia Santo Tomás de Aquino aos cinco anos de idade, abismado diante da grandeza da Criação: “Quem rega a terra, mantém a erva fresca, e dá colorido às flores?”.

Certo dia, um de seus irmãos levou-a a um rito do culto ao sol, adorado por sua tribo. Mostrando-lhe o astro-rei em todo o seu esplendor matutino, disse-lhe: “Vês ali o deus por quem perguntas, e a quem toda terra reverencia?”. Não convencida, a menina respondeu sagazmente: “Mas, quem pôs ali essa estrela? Como é pequena para ser autora de tanta grandeza!”.

Deslumbrados por sua prematura sabedoria, os súditos de seu pai começaram a considerá-la uma espécie de oráculo divino, e a consultá-la em suas dúvidas. Contudo, Chikaba fugia para a solidão, a fim de meditar em todas essas coisas e, de certo modo, prestar ao seu modo um culto ao verdadeiro Deus, que ainda não conhecia.


Aparece-lhe a Virgem Santíssima
Aos nove anos, chegando junto a uma fonte natural, Chikaba se perguntou: “Quem a pôs aí?”. Ao levantar os olhos, viu diante de si uma Senhora branca e formosa, que levava nos braços um Menino branco. Este sujeitava numa das mãos uma longa fita, e acariciava a cabeça da menina com a outra. Essa visão a marcou para sempre.

Certo dia, quando seu irmão mais velho lhe expressou o temor de que seria ela, e não ele, a suceder ao pai, ela o tranquilizou dizendo: “Sabes que eu não hei de casar nesta terra com homem algum, mas, com um Menino muito branco que conheço?”. Ela já estava enamorada do Menino Deus.



Reviravolta trágica, mas providencial
Foi então que a vida de Chikaba teve uma reviravolta trágica, embora providencial. Concentrada em suas elucubrações, ela se afastou um dia até uma praia desconhecida. Nesse momento, aportava uma barca proveniente de um navio espanhol. Um dos seus ocupantes, vendo a menina, capturou-a para levá-la como escrava.

Ao ver afastar a praia, Chikaba compreendeu que a levavam para sempre ao desconhecido. Quis então atirar-se às águas, mas nesse momento apareceu-lhe novamente a bela Senhora branca, que a dissuadiu do que poderia ter resultado em sua morte.

Os tripulantes do navio, vendo suas joias e o modo como Chikaba estava vestida, compreenderam que devia ser alguém de certa relevância entre os seus. E começaram a tratá-la com mais consideração.

Foi provavelmente algum sacerdote presente no navio que, vendo a viva inteligência da menina, começou a instruí-la nas verdades da fé. Chikaba assimilava sofregamente tudo isso, que vinha de encontro aos seus mais caros anseios. De tal modo que, atracando o barco em São Tomé para reabastecimento, ela foi ali batizada com o nome de Teresa. Tinha então dez anos de idade.

Teresa Chikaba explicou depois ao seu confessor a felicidade que representou para ela encontrar por fim resposta a todas suas inquietudes religiosas. E que isso mitigou muito a dor que sentia ao ver-se separada para sempre de seus entes queridos.



Na Espanha, confidente da Marquesa de Mancera
Mapa histórico da Costa da Guine chamada Costa de OuroChegando à Espanha, seus captores julgaram que aquela escrava, por sua origem e sua personalidade, merecia viver na corte real de Madri. Consequentemente, ofereceram-na ao rei Carlos II, que a entregou ao Marquês de Mancera [pintura ao lado] para que cuidasse de sua educação religiosa e cívica.

Resultado de imagem para ChikabaBem orientada por um diretor espiritual, a adolescente progrediu tanto na virtude que passou a ser confidente da marquesa. Esta, abandonando as diversões e os entretenimentos, começou a passar com a escrava muitas horas diante do Santíssimo Sacramento.

Ora, essa preferência por Chikaba provocou a inveja dos outros servidores, que começaram a insultá-la e molestá-la, especialmente uma escrava turca, que tentou mesmo assassiná-la. Atacada por mortal moléstia, a muçulmana se negava a converter-se. Chikaba, com muita caridade e tato, conseguiu convencê-la a receber o batismo, após o qual a turca morreu piedosamente.



Um tio tenta casar-se com ela
Alguns anos depois, apareceu na corte de Carlos II um negro, também de origem nobre, chamado João Francisco. Este havia sido capturado em seu país por franceses, e dado a Luís XIV. Quando o Rei-Sol lhe deu a liberdade, João Francisco foi para a Espanha.

Lá sabendo que uma jovem negra estava com os marqueses de Mancera, quis conhecê-la, vindo a descobrir que era sua sobrinha.

Teresa teve assim notícias de seus pais e irmãos, alguns deles já falecidos. E ficou alegremente surpresa ao saber que todos eles tinham se tornados cristãos.

João Francisco quis casar-se com ela, para voltarem juntos à sua pátria. Mas Chikaba recusou-se de modo peremptório, pois estava resolvida a entregar-se inteiramente àquele Menino branco, que já sabia que era o próprio Menino Jesus. O tio usou de violência e quis levá-la à força, mas com a intervenção dos marqueses sua tentativa fracassou.


À procura de um convento
Vendo a firme resolução da jovem de entrar num convento, os marqueses encarregaram o nobre cavaleiro Dom Diego Gamarra de procurar um em Madri ou nos arredores, que quisesse recebê-la. Apesar das altas recomendações, todos os conventos se negavam a recebê-la.

Isso constituiu um profundo sofrimento para a jovem. Segundo dizem as Atas do Capítulo Provincial dos Dominicanos, reunidos em Toro em 1749, São Domingos então “a consolou, assegurando-lhe que se cumpririam seus desejos”.

Finalmente, Dom Diego procurou a priora do Convento da Penitência de São Domingos, em Salamanca, que concordou em receber a postulante. Isso ocorreu no ano de 1703.

Outra cruz estava reservada a Teresa: o bispo local, Dom Francisco Calderón de la Barca, parente do dramaturgo, proibiu que ela ingressasse como monja de coro, só a recebendo como irmã leiga e servente. Isso significava que ela não podia compartilhar a vida das outras monjas, nem, sobretudo, rezar com elas o Ofício Divino. Com espírito de obediência, ela aceitou essa humilhação.

Aos poucos as irmãs foram se edificando com a bondade de coração, piedade e caridade da jovem postulante, mesmo para com aquelas que a tratavam mal por causa de sua cor.

Ocorreu então a uma das freiras, Irmã Maria Teresa de São Jacinto, ensinar-lhe a rezar o Ofício Divino segundo o rito dominicano, e outras orações próprias à Ordem. Isso foi providencial, pois o bispo, reconhecendo a santidade daquela irmã leiga, não só permitiu que fosse recebida no Noviciado, mas adiantou sua profissão religiosa.


Desse modo, no dia 29 de junho de 1704, Chikaba, aos 28 anos de idade, converteu-se em Irmã Teresa Juliana de São Domingos. Para reparar sua falta anterior, o próprio bispo quis presidir à profissão solene.

Nesse dia a nova monja teve uma visão de São Domingos, que recebeu seus votos. Como ela confessou mais tarde, essa foi uma das três ou quatro vezes que o santo fundador lhe apareceu.

Aos poucos, a virtude dessa santa negra começou a ser conhecida fora do convento, por suas penitências e seus jejuns. E assim começaram as visitas ao parlatório, para ter o privilégio de pedir-lhe conselhos e recomendar-se às suas orações. Teresa passou a ser conhecida carinhosamente em Salamanca como “A Negrinha”, ou “La negrita de la penitencia”.

O povo atribuía-lhe não só diversas curas, mas também o fato de a cidade de Salamanca ter-se visto livre dos bombardeios e saques durante a guerra com Portugal, em 1706. Nessa ocasião, diante da proximidade dos bombardeios, Teresa havia posto numa das janelas do convento uma imagem de São Vicente Ferrer como escudo protetor. E recomendou aos habitantes da cidade que rezassem a ele pedindo proteção.

Os restos mortais da Irmã Teresa Chikaba repousam no claustro do belíssimo Monastério dominicano de Santa Maria de las Dueñas, em Salamanca (Espanha). [Foto PRC]


Transfiguração final
A irmã Teresa Chikaba morreu em odor de santidade no dia 6 de dezembro de 1748, segundo ainda o Capítulo de Toro, “tendo vivido setenta e dois anos sem mancha de pecado mortal”. Seu biógrafo relata um prodígio que sucedeu nesse momento, e que assombrou o doutor que a atendia: uma breve transfiguração converteu em luminosamente branco seu rosto negro.

Os restos mortais da irmã Teresa foram depositados no convento Santa Maria de las Duenas, em Salamanca e, em 1961, foram guardados num sepulcro, aberto no claustro daquele histórico monastério, com uma lápide de mármore negro.

Apesar de que em seu tempo ninguém duvidasse de sua santidade, já transcorreram mais de 250 anos desde a morte de Teresa Chikaba sem que a Igreja se tenha ainda pronunciado por meio de sua beatificação e canonização. O que fazemos votos para que ocorra o quanto antes, para sua glorificação, de sua raça, de sua terra natal, e de toda a Igreja.



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Notas:

[i] Cfr. Dom Estêvão Bettencourt, A Lei Natural, in

 http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?head=0&num=565

[ii] Utilizamos para este artigo a matéria publicada em http://www.religionenlibertad.com/teresa-chikaba-la-negrita-de-la-penitencia-de-princesa-a-esclava-37378.htm

[iii] Cfr. https://pt.wikipedia.org/wiki/Costa_do_Ouro_(regi%C3%A3o)

Beato Teresio Olivelli, Leigo da Ação Católica e Mártir (morto por nazistas)




O Beato Teresio Olivelli nasceu em 07 de janeiro de 1916, em Bellagio, Itália, e, em 1926 se mudou com a família para Mortara. Em 1938 se graduou em direito em Pavia.
Participou ativamente na Ação Católica nos ambientes universitários. Em 1938 foi assistente da Universidade de Turim e começou a unir-se ao fascismo. Movido por boa fé, crê que há elementos que são compatíveis com o cristianismo e tem a intenção de utilizá-los para buscar a cristianização do fascismo, pois, a princípio, não se deu conta que seria algo incompatível.

Com a entrada na guerra da Itália, para compartilhar o destino dos que se veem obrigados a ir ao “front”, parte para a Rússia, com uma tropa de soldados alpinos. Na guerra, reza e consola aos débeis e temerosos. Traz a Cristo às trincheiras da morte. Na trágica retirada, enquanto todos fogem, ele ajudará aos feridos. Ao regressar à Itália, se nega a estar ao lado da ideologia nazista anticristã e é levado aos campos de prisioneiros. Foge, se une à resistência católica: assume um papel formativo e difunde o valor moral do “soerguimento”. Lutando com ideias e gestos de solidariedade, suas armas são o amor e o sacrifício pelo próximo.

Funda o periódico: “O Rebelde” e passa a combater, com a doutrina católica, as ideias e argumentos dos nazistas e fascistas. É perseguido pelos nazistas porque rechaça o ódio e difunde os valores da humanidade cristã. Foi capturado, aprisionado e deportado sucessivamente para Fossoli, Bolzano, Flossenbürg e Hersbruck, onde assume sempre atitudes religiosas e caritativas: reza e consola, ajuda espiritualmente aos enfermos e débeis e lhes dá de comer de sua pobre ração de alimentos.


Os nazistas continuam castigando-o, porque odeiam sua fé e seu testemunho cristão. Porém, apesar de todos os sofrimentos, ele não se queixa e os perdoa. Em 31 de dezembro de 1944, se lançou a um gesto supremo de amor: protege com seu corpo a um jovem brutalmente golpeado por um guarda. Recebe um violento chute em seu ventre. Foi levado à enfermaria de Hersbruck e morre, dias depois, em lenta agonia, no dia 17 de janeiro de 1945.



Oração:
Ó Deus, nosso Pai, nós vos damos graças por haver dado à Igreja o heroico testemunho do Beato Teresio Olivelli, que irradiou em todas as partes a luz de sua fé, o entusiasmo da esperança e o calor da caridade.
À semelhança do Bom Samaritano Jesus, enterneceu-se e foi ao encontro dos sofrimentos dos mais pobres, dos débeis e indefesos, oferecendo-se todo até o dom supremo de sua vida.
Fazei que, imitando a esse mártir da fé e apóstolo da misericórdia, possamos seguir ao vosso único Filho, construindo um mundo de justiça e de paz.
Pelos méritos e intercessão do Beato Teresio Olivelli, vos pedimos que nos concedais a graça (     ) que confiança vos pedimos.
A Vós, ó Pai, por Jesus, vosso Filho e no poder do Espírito Santo, louvor eterno pelos séculos dos séculos! Amém.


Fonte, com maiores detalhes sobre sua vida:
https://www.teresioolivelli.com/

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Beato Boaventura García Paredes, presbítero dominicano e mártir (Guerra Civil Espanhola, 1936)




Seu testemunho de vida nos impulsiona a viver com autenticidade e com verdadeira paixão a vocação para qual Deus nos chamou, quer como clérigos, religiosos ou leigos.

Boaventura García Paredes nasceu nas Astúrias, Espanha, concretamente no Castañedo de Valdés, em 19 de abril de 1866. Foi batizado no mesmo dia de seu nascimento. De família pobre, humilde, trabalhadora e muito religiosa. Foram cinco irmãos. Outro, além dele, também foi sacerdote.

Boaventura sentiu muito cedo em seu coração a vocação à vida religiosa e sacerdotal. Conheceu os frades dominicanos e, impactado por seu estilo de vida, decidiu entrar na Ordem. Ingressou no Colégio Dominicano de Corias, Astúrias, para iniciar seu postulantado. Começou os estudos, porém, dois anos depois teve que deixa-lo por motivos de saúde.

Após recuperar-se, voltou a ingressar na Ordem, porém, não em Corias, senão em Ocaña, Toledo, no Colégio Apostólico do memorável Convento de São Domingos. Este convento é muito importante para a história da Ordem na Espanha, pois, foi o único que permaneceu em pé após a desamortização de Mendizabal e, a partir dele, se pode levar a cabo posteriormente a restauração da Ordem na Espanha. Também é memorável esse convento, pertencente à Província Dominicana de Nossa Senhora do Rosário, porque nele  se formaram dominicanos para as missões do Extremo Oriente, entre eles, quatro santos: São Valentín de Berrio Ochoa, São Pedro Almató, São José Maria Díaz Sanjurjo e São Melchior García Sampedro, mártires do Vietnã, canonizados por São João Paulo II em 1988.
Ocaña, a vida observante dos frades ali, a memória de seus mártires, causou uma grande impressão no jovem Boaventura e será sempre um lugar referencial em sua vida, como teremos a ocasião de mostrar adiante.
Em Ocaña, Boaventura nasce para a Ordem, tomando o hábito do dito convento em 30 de agosto de 1883. No ano seguinte fez sua profissão religiosa e continuou em Ocaña estudando filosofia. Terminada a formação filosófica, passou ao convento de Santo Tomás de Ávila, onde fez sua profissão solene em 08 de setembro de 1887. Completou seus estudos teológicos complementando-os com a carreira civil de filosofia, letras e direito.
Em 1891 foi ordenado sacerdote. Foi um homem com uma formação humana e intelectual impressionantes. Foi destinado a Manila, Filipinas, à Universidade Dominicana de Santo Tomás, para ensinar. Em 1901, regressou à Espanha, ao ser eleito o prior de Santo Tomás de Ávila. Depois, foi eleito reitor do colégio que os dominicanos tinham em Santa Maria de Nieva, Segóvia. Posteriormente, prior de seu querido convento de Ocaña em 1910 e, nesse mesmo ano, foi eleito prior provincial. Durante seu mandato como provincial da província de Nossa Senhora do Rosário, contribuiu decisivamente para impulsionar o apostolado missionário da Ordem no Oriente. Terminado seu mandato, em 1917, voltou à Espanha como superior da nova Casa do Rosário de Madrid.
Em 1926, o capítulo geral da Ordem celebrado no convento de Santo Domingo de Ocaña, o elegeu Mestre da Ordem. O padre Boaventura, prostrado ao solo, pediu aos eleitores que o relevassem do cargo, porém, ao não ser aceita sua petição, assumiu o ofício com um profundo sentimento de obediência e responsabilidade. Seu mandato como sucessor de São Domingos à frente da Ordem durou dois anos e meio, nos quais trabalhou incansavelmente pelo bem da mesma.
Sua pouca saúde o levou a renunciar ao cargo. Ao terminar, lhe deram a possibilidade de escolher o destino: qualquer casa ou convento, e ele pediu para voltar ao convento de Santo Domingo de Ocaña, que ele amava de verdade.
Dedicado à pregação, ao estudo, à investigação e à atenção de muitas pessoas que se confiavam espiritualmente a ele, passou o resto de seus anos em Ocaña.
Em julho de 1936, viaja a Madrid e, ali, lhe surpreendeu a perseguição religiosa e a guerra civil. Já não podia voltar a Ocaña. Detido em Madrid, é martirizado simplesmente por sua condição de religioso, morrendo exemplarmente e com valentia, dando testemunho de sua fé.
Todos os que conheceram o Padre Boaventura destacam sua profunda simplicidade, sua autêntica humildade, sua fé arraigada e profunda, seu espírito de oração, sua grande capacidade para suportar as dificuldades e para perdoar as ofensas, sua caridade para com todos e seu caráter afável. Como superior, se mostrou sempre compassivo e humano. Era um homem plenamente identificado com o carisma da Ordem na busca da Verdade e no anúncio do Evangelho, manifestando sempre um grande sentimento de serviço e amor à Igreja.
O testemunho de vida de Boaventura García Paredes, que atravessa o tempo e chega até nós, nos impulsiona a viver com autenticidade e com verdadeira paixão a vocação à qual Deus nos chama. Sua vocação como religioso dominicano é uma prova a mais de que através das pessoas, lugares ou situações, Deus nos fala, nos “chama” e nos mostra a nós seu plano.
Boaventura foi valente e disse: “sim”! Sua entrega, sua valentia e sua fé é o que a Igreja especialmente reconheceu naquele 28 de outubro de 2007, quando Frei Boaventura García Paredes foi beatificado em Roma, junto com outros 497 mártires do século XX na Espanha. Beato Boaventura, ajuda-nos e roga por nós ao Senhor!



 Fonte: 
Texto de Fr. Juan Carlos González del Cerro (Real Convento de Santo Domingo, Jerez de la Frontera)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Santo Anselmo de Cantuária, Bispo e Doutor da Igreja



Santo Anselmo, abriu-se ao chamado à vida religiosa e entrou para a família beneditina




Bispo e Doutor da Igreja. É dele a frase: “Não quero compreender para crer, mas crer para compreender, pois bem sei que sem a fé eu não compreenderia nada de nada.”



É chamado de teólogo-filósofo.

Santo Anselmo de Cantuária: herói na defesa da ortodoxia católica e da legitimidade face aos reis


Anselmo nasceu em Aosta, Itália, filho do nobre Gondulfo e da piedosa Ermenberga. Entregou-se cedo à virtude, tendo muito sucesso nos estudos. Aos 15 anos já se preocupava com altas questões metafísicas e teológicas, e quis entrar num mosteiro. Mas os monges negaram-lhe a entrada, por medo de desagradar seu pai.
Não podendo ingressar na vida religiosa, Anselmo entregou-se gradualmente aos prazeres mundanos. Com o falecimento de sua genitora, seu pai tornou-se mal-humorado e violento. Devido ao mau relacionamento com ele, Anselmo saiu de casa, apenas com um burrinho e um servo. Vagou pela Itália e pela França, conheceu a fome e a fadiga.
Foi em busca da ciência, mas também se entregando aos prazeres. Era cristão, mas não de vivência. Devido aos estudos, ‘bateu’ no Mosteiro de Bec, na França, onde havia a escola mais afamada do século XI, e conheceu Lanfranc, um religioso e mestre beneditino. Através dessa amizade edificante, descobriu um tesouro maior: Jesus Cristo.

Discípulo suplanta o mestre

Anselmo entregou-se então vorazmente ao estudo, esquecendo-se às vezes até das refeições e recreação. “Seus progressos eram tão admiráveis quanto sua amabilidade, e logo foi tido como um prodígio de saber e seus condiscípulos creram que fazia milagres, por sua piedade e virtude”.
Apesar de todos seus sucessos, Anselmo tinha uma grande perplexidade: “Estou resolvido a fazer-me monge; mas, onde? Pois bem, far-me-ei monge onde possa pisotear minhas ambições, onde seja estimado menos que os demais, onde seja pisoteado por todos”.
Em Bec foi ordenado sacerdote em 1060. Em 1066 foi eleito Abade. Seu primeiro biógrafo, Eadmer, conta comovente cena ocorrida nessa ocasião, típica da Idade Média: o eleito abade prosterna-se diante de seus irmãos, pedindo-lhes com lágrimas que não o onerassem com aquele fardo, enquanto os irmãos, também prosternados, insistem com ele para que aceite o ofício.
Sob sua direção, Bec alcançou sua maior celebridade, sendo para a Normandia e Inglaterra o que Cluny era para a Borgonha, França e Itália.
Em Bec, “escreveu vários de seus livros, que abrem um novo caminho para o estudo da Teologia e se distinguem pela profundidade de pensamento, delicadeza de investigação, ousado vôo metafísico que, não obstante, nunca se separa do terreno da fé tradicional”.

Combates em defesa da Fé

Anselmo teve que viajar várias vezes para a Inglaterra, por interesses de seu convento. Lá encontrou novamente Lanfranco, então Arcebispo de Cantuária. O rei “Guilherme, o Conquistador, ele próprio tão temível e inacessível aos ingleses, se humanizava com o Abade de Bec e parecia tornar-se todo outro em sua presença”.
O abade era uma figura imponente, majestosa, sempre serena. Era também um grande lutador: “Enquanto luta com os senhores da região em defesa de seu mosteiro, defende a pureza da fé contra Berengário, discute com os hereges e confunde o racionalista Roscelino”.
Em 1087, Guilherme II, o Ruivo, sucedeu seu pai no trono da Inglaterra. Príncipe “que temia a Deus muito pouco, e nada aos homens”, ele se apoderava das rendas das sés vacantes e não queria nomear novos bispos para as preencherem.
Ora, Anselmo foi escolhido pelo povo para suceder Lanfranco na sé de Cantuária. Porém o rei, por prepotência não permitia que ocupasse a sé dizeendo: “o Arcebispo de Cantuária sou eu!”.

Arcebispo de Cantuária contra a vontade

A Providência resolveu o caso. Atacado por estranha doença, o rei temeu por sua alma. Os prelados e barões então pressionaram-no para que não deixasse mais vacante a Sé de Cantuária; e ele nomeou Anselmo.
Sucedeu então outra cena que só acontecia nos tempos medievais: “Ele [Anselmo] foi arrastado à força até o lado do leito do Rei, um báculo foi enfiado em sua mão fechada, e o Te Deum foi cantado”.
Entretanto, o arrependimento do rei foi-se com a doença. Apenas restabelecido, tentou dobrar o Arcebispo. Começou uma verdadeira batalha entre altar e trono, e Anselmo preferiu exilar-se no continente a ceder nos princípios. Essa tendência absolutista dos soberanos ingleses manifestar-se-á no século seguinte com o martírio de São Tomás Becket, e, no século XVI com o cisma de Henrique VIII.

Luminar do Concílio de Bari

Em Roma, Anselmo foi recebido por Urbano II, que o convenceu a voltar para sua diocese. Mas antes participou ele do Concílio de Bari, em 1098, do qual foi um dos luminares, desfazendo o sofisma dos gregos, que negavam que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Regressou à Inglaterra em 1100, a pedido de Henrique, que sucedera no trono a seu pai, Guilherme, morto impenitente durante uma caçada.
Anselmo havia pedido ao Papa que lhe desse alguém a quem ele pudesse se submeter em todas as ações, como um monge ao seu superior. O Papa designou o monge Eadmer, que se tornou amigo íntimo, discípulo e biógrafo do Santo.

Desterro do Santo Arcebispo

Henrique II, querendo assegurar para si o trono em detrimento de seu irmão mais velho, Roberto, que voltava da Cruzada na Terra Santa, restituiu à Igreja todos seus antigos direitos. Por uma série de medidas assim também no campo civil, obteve a simpatia do clero e povo em seu favor.
Quando Roberto chegou à frente de um exército, para reivindicar seus direitos, o Arcebispo Anselmo obteve que os ingleses permanecessem na fidelidade a Henrique II. Porém, para mostrar não era melhor que seu pai, na primeira oportunidade Henrique atacou Roberto de surpresa, derrotou-o, e fez prisioneiro até o fim da vida.
A aliança entre Henrique II e Anselmo se rompeu devido à contínua questão das investiduras.
Para resolver a questão, Santo Anselmo foi mais uma vez a Roma. Mas ao voltar foi impedido de entrar no país. Permaneceu três anos no desterro. Sob pena de excomunhão lançada pelo Papa, Henrique II chegou a um acordo com o Arcebispo, que pôde voltar assim à sua Sé.

Homem de governo, de letras, santo

Os últimos anos da vida de Anselmo transcorreram em atividades para a reforma de sua diocese e em trabalhos literários.
Na véspera de sua morte, lamentava que não tivesse tido tempo para escrever um tratado sobre a origem da alma, tema sobre o qual meditava constantemente.
Faleceu no dia 21 de abril de 1109, sendo canonizado pelo Papa Alexandre III.
(Fonte: Plinio Maria Solimeo, “Catolicismo”, abril de 2003).



Santo Anselmo, rogai por nós!