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segunda-feira, 16 de abril de 2018

OFERTA DA VIDA: Novo caminho para os processos de beatificação e canonização


Decreto do Papa soma “aceitação de uma morte

 certa e a curto prazo” ao martírio e ao 

reconhecimento de “virtudes heroicas”.


A “oferta da vida” é a quarta via para os processos

 de canonização, que a partir de hoje se junta ao

 martírio, ao exercício das “virtudes heroicas” e à

 canonização “equipolente” (por decisão explícita

 do Papa).



O Papa Francisco publicou em 11 de julho de 2017 o decreto que apresenta a “oferta da vida” como novo modelo jurídico para a abertura de processos de beatificação e canonização, distinto do “martírio” e do reconhecimento das “virtudes heroicas”. De acordo com a carta apostólica em forma de “motu próprio” (documento assinado pelo próprio Papa), a “oferta da vida” tem de acontecer “de forma livre e voluntária” e corresponder a uma “heroica aceitação por caridade de uma morte certa e a curto prazo”.
Os critérios apontados pelo documento divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé indicam também a necessária ligação entre a “oferta da vida” e a “morte prematura” e o exercício das “virtudes cristãs antes de dar a vida”.
A “existência de fama de santidade” depois da morte e a “necessidade de um milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão” são outras duas condições para a santidade de quem dá a vida.
A “oferta da vida” é a quarta via para os processos de canonização, que a partir de hoje se junta ao martírio, ao exercício das “virtudes heroicas” e à canonização “equipolente” (por decisão explícita do Papa).
Os processos de canonização que se incluem na categoria da “oferta da vida” seguem as normas dos casos das virtudes heroicas, começando primeiro na fase diocesana, com a recolha de documentação relativa ao candidato, a que se segue a fase romana, onde os processos são avaliados na Congregação para as Causas dos Santos, de acordo com a legislação da Santa Sé e as alterações introduzidas pelo Papa Francisco e publicadas no dia 3 de março de 2016.
O documento pontifício, que entrou em vigor no mesmo dia da promulgação, define como “dignos de especial consideração e honra aqueles cristãos que, seguindo mais de perto as pegadas e os ensinamentos do Senhor Jesus, ofereceram de forma voluntária e livremente a vida pelos outros” perseverando “até a morte neste propósito”.
Aliás, prossegue o motu proprio, “a oferta heroica da vida, sugerida e apoiada pela caridade, exprime uma verdadeira, plena e exemplar imitação de Cristo e, portanto, merece aquela admiração que a comunidade dos fiéis costuma reservar a quantos de maneira voluntária aceitaram o martírio de sangue e exerceram de modo heroico as virtudes cristãs”.
Com o “parecer favorável” manifestado pela Congregação para as Causas dos Santos, na sessão plenária de 27 de setembro de 2016, o Papa estabelece os critérios a serem seguidos na ação processual.
O secretário da Congregação para as Causas dos Santos, D. Marcello Bartolucci, explica ao jornal do Vaticano que o Papa abriu uma “quarta via”, porque as precedentes não pareciam “suficientes para interpretar todos os possíveis casos de santidade canonizável”.
A canonização representa, na Igreja Católica, a confirmação, por parte da Igreja, que um fiel católico é digno de culto público universal e de ser dado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade.
O processo tem uma primeira etapa na diocese em que faleceu o fiel católico; a segunda etapa tem lugar em Roma, onde se examina toda a documentação enviada pelo bispo diocesano.
Após exame da documentação efetuada pelos teólogos e especialistas, compete ao Papa declarar a heroicidade das virtudes/oferta da vida/martírio, a autenticidade dos milagres, a beatificação e a canonização.




São Maximiliano Maria Kolbe (1894-1941)



O caso de Kolbe é praticamente arquetípico para o caminho da oferta da vida. O padre polonês, franciscano conventual, morreu como prisioneiro do campo de concentração nazista de Auschwitz depois de se oferecer voluntariamente para ir para a câmara de inanição – onde os condenados eram deixados para morrer de fome – no lugar de outro preso.
Devido à dificuldade em catalogar o seu caso como um martírio clássico, seu processo de beatificação teve início pela via da heroicidade das virtudes. Ele foi beatificado em 1971 pelo Beato Paulo VI. Depois da eleição de seu compatriota São João Paulo II, seu processo foi alterado para a via do martírio, culminando com sua canonização em 1982. Ambos os papas o chamaram “mártir da caridade”.



Santa Gianna Beretta Molla (1922-1962)



A médica Gianna Beretta Molla tinha 38 anos quando engravidou pela quarta vez. Ela e seu marido Pietro estavam casados há seis anos e já tinham um menino e duas meninas. Nessa última gestação, porém, descobriu um fibroma no útero e foi colocada diante da opção de abortar o bebê, de remover totalmente o útero – o que também ocasionaria a morte da criança – ou de se submeter a uma cirurgia arriscada para retirar o tumor.
Ela deixou claro aos médicos que a vida de seu bebê era mais importante do que a dela e optou pela cirurgia de retirada do fibroma. A cirurgia teve sucesso, mas, mesmo assim, o nascimento da filha, sete meses depois, não foi fácil. De novo, Gianna suplicou aos médicos: “Se tiverem que decidir entre mim e o bebê, nenhuma hesitação: exijo que escolham a criança”. Gianna Emanuela nasceu saudável, mas uma semana depois a mãe morreu, em meio a dores excruciantes. O Beato Paulo VI chamou o seu gesto de “meditada imolação”.



Beato Oscar Romero (1917-1980)



O arcebispo de San Salvador foi assassinado aos 62 anos enquanto celebrava uma missa, em uma segunda-feira na capela de um hospital. Duas semanas antes, já havia sido descoberta uma bomba plantada para matá-lo na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, na capital salvadorenha. Quem planejou a sua morte foi o militar e líder político Roberto d’Aubuisson, chefe dos “esquadrões da morte” de cunho paramilitar que atuavam em favor do governo.
Longe da caricatura ideologizada que se quis colar à sua imagem, Romero era um bispo de traços conservadores que, em um espaço de poucos anos, tomou consciência pouco a pouco que denunciar as injustiças perpetradas pelo Estado contra o povo era uma exigência de sua fé e não uma mera opção política – e de tal maneira estava convencido disso que, mesmo sabendo que estava marcado para morrer, não se deteve.



Beata Lindalva Justo de Oliveira (1953-1993)



A leiga consagrada potiguar, membro da Companhia das Filhas da Caridade, trabalhava em um asilo de Salvador havia dois anos quando a casa, a pedido de um político, acolheu um homem de 46 anos. Ele começou a assediar a irmã Lindalva e lhe fazia propostas inconvenientes e ameaças.
As colegas sugeriram que Lindalva se afastasse do asilo e pedisse para ser transferida a outra obra da companhia. A consagrada, porém, repleta de caridade pelos 40 idosos de que cuidava, respondia: “Prefiro que meu sangue seja derramado a afastar-me daqui”. Até que, na manhã da Sexta-Feira Santa de 1993, o homem, que tinha comprado uma peixeira na segunda-feira anterior, esfaqueou Lindalva até a morte.



Beato Stanley Francis Rother (1935-1981)




O norte-americano Stanley Rother era padre havia cinco anos quando pediu ao seu bispo para ser missionário na Guatemala. Com a aprovação do bispo, ele se dirigiu em 1968 à cidade de Santiago Atitlán. Aprendeu espanhol e tzutuhil e chegou a traduzir o Novo Testamento e o rito da missa para essa língua, além de dirigir uma rádio educativa e uma pequena enfermaria. Mas, em 1980, começou uma onda de violência contra a sua comunidade. A estação de rádio foi destruída, seu diretor foi assassinado e catequistas foram raptados e encontrados mortos com sinais de tortura.
Rother ficou sabendo que o seu nome estava assinalado para morrer e alguns paroquianos recomendaram que ele voltasse aos Estados Unidos. Ele chegou a visitar sua cidade, Oklahoma, em janeiro de 1981, mas pediu ao seu bispo para retornar à Guatemala. Seu irmão o questionou: “Por que você quer voltar? Eles estão te esperando e vão te matar”. Rother respondeu: “Bem, um pastor não pode fugir do seu rebanho”. Ele voltou em abril, a tempo de celebrar a Páscoa, e foi assassinado em julho.


***

Além desses santos e beatos, vale citar dois casos de pessoas que ainda não foram beatificadas, mas cujo processo está aberto e claramente se encaixa na via da oferta da vida. Um deles é Salvo d’Acquisto (1920-1943), um jovem policial italiano que, para livrar da execução 22 pessoas acusadas de uma explosão que matou dois soldados nazistas, acusou a si mesmo de ter detonado os explosivos – o que não era verdade, pois a explosão tinha sido acidental.
Outro caso é o de Christian de Chergé (1937-1996) e seus companheiros, que formavam uma comunidade de monges trapistas em Tibhirine, na Argélia. Diante dos constantes ataques de fundamentalistas islâmicos na região, a comunidade precisou enfrentar o duro discernimento de decidir se permanecia ali ou se retornava à França. Eles decidiram permanecer e, em 1996, vinte homens armados invadiram a abadia e sequestraram sete monges, incluindo Christian, mantendo-os reféns e decapitando-os dois meses depois.


Salvo d’Acquisto


Christian de Chergé




CARTA APOSTÓLICA
EM FORMA DE «MOTU PROPRIO»
DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO
MAIOREM HAC DILECTIONEM
SOBRE A OFERTA DA VIDA

«Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13).
São dignos de especial consideração e honra aqueles cristãos que, seguindo mais de perto as pegadas e os ensinamentos do Senhor Jesus, ofereceram de forma voluntária e livremente a vida pelos outros», perseverando «até à morte neste propósito.
Certamente a oferta heroica da vida, sugerida e apoiada pela caridade, exprime uma verdadeira, plena e exemplar imitação de Cristo e, portanto, merece aquela admiração que a comunidade dos fiéis costuma reservar a quantos de maneira voluntária aceitaram o martírio de sangue e exerceram de modo heroico as virtudes cristãs.
Com o conforto do parecer favorável manifestado pela Congregação para as Causas dos Santos que, na Sessão Plenária de 27 de setembro de 2016, estudou atentamente se estes cristãos merecem a beatificação, estabeleço que sejam observadas as seguintes normas:

Art. 1
A oferta da vida é um novo caso no processo de beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre a heroicidade das virtudes.

Art. 2
A oferta da vida, a fim de que seja válida e eficaz para a beatificação de um Servo de Deus, deve responder aos seguintes critérios:
a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter caritatem de uma morte certa e a curto prazo;
b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;
c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;
d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos depois da morte;
e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.

Art. 3
A celebração do inquérito diocesano ou eparquial e a relativa Positio são reguladas pela Constituição Apostólica Divinus perfectionis magister de 25 de janeiro de 1983, em Acta Apostolicae Sedis Vol. LXXV (1983, 349-355), e pelas Normae servandae in inquisitionibus ab Episcopis faciendis in Causis Sanctorum de 7 de fevereiro do mesmo ano, em Acta Apostolicae Sedis Vol. LXXV (1983, 396-403), exceto o que se segue.

Art. 4
A Positio sobre a oferta da vida deve responder ao dubium: An constet de heroica oblatione vitae usque ad mortem propter caritatem necnon de virtutibus christianis, saltem in gradu ordinario, in casu et ad effectum de quo agitur.

Art. 5
Os seguintes artigos da citada Constituição Apostólica são alterados da seguinte forma:

Art. 1:
“Aos Bispos diocesanos, às autoridades eclesiásticas e a quantos a eles são equiparados pelo Direito, no âmbito da sua jurisdição, seja em virtude do próprio ofício, seja por instância dos fiéis, individualmente, ou de legítimas associações ou por meio dos seus representantes, compete o direito de investigar sobre a vida, as virtudes, a oferta da vida ou o martírio e a fama de santidade, de oferta da vida ou de martírio, sobre os possíveis milagres e, eventualmente, sobre o culto antigo do Servo de Deus, para o qual se pede a canonização”.

Art. 2, 5:
“O inquérito sobre presumíveis milagres faça-se separadamente do inquérito sobre as virtudes, sobre a oferta da vida ou sobre o martírio”.

Art. 7, 1:
“Estudar, juntamente com os colaboradores externos, as causas que lhes foram encomendadas e preparar as Positiones sobre as virtudes, sobre a oferta da vida ou sobre o martírio.

Art. 13, 2:
“Se o Congresso julgar que a causa foi instruída segundo a lei, estabelecerá a qual dos Relatores se deve confiar a mesma; por sua vez, o Relator, ajudado por um colaborador externo, preparará a Positio sobre as virtudes, sobre a oferta da vida ou sobre o martírio, segundo as regras da crítica que devem ser observadas na hagiografia.

Art. 6
Os seguintes artigos das citadas Normae servandae in inquisitionibus ab Episcopis faciendis in Causis Sanctorum são alterados desta forma:

Art. 7:
“A causa pode ser recente ou antiga; diz-se recente, se o martírio, as virtudes ou a oferta da vida do Servo de Deus podem ser provados mediante as deposições orais de testemunhas oculares; diz-se antiga quando as provas relativas ao martírio ou as virtudes podem retirar-se de fontes escritas”.

Art. 10, 1°:
“Nas causas, sejam recentes sejam antigas, uma biografia de um certo valor histórico sobre o Servo de Deus, se existe, ou, na falta desta, uma cuidada relação cronológica sobre a vida e as atividades do Servo de Deus, sobre as suas virtudes ou sobre a oferta da vida ou sobre o martírio, sobre a fama de santidade e de milagres, sem omitir aquilo que parece contrário ou menos favorável à mesma causa”.

Art. 10, 3°:
“Só nas causas recentes, um elenco de pessoas que podem contribuir a explorar a verdade sobre as virtudes ou sobre a oferta da vida ou sobre o martírio do Servo de Deus, como também sobre a fama de santidade e de milagres, ou então impugná-la.

Art. 15, a:
“Recebido o relatório, o Bispo entregue ao Promotor de Justiça ou a outro experto tudo aquilo que foi adquirido até àquele momento, de forma que possa preparar os interrogatórios úteis para investigar e colocar à luz a verdade acerca da vida, das virtudes, da oferta da vida ou do martírio, da fama de santidade, da oferta da vida ou do martírio do Servo de Deus”.

Art. 15, b:
“Nas causas antigas os interrogatórios dizem respeito apenas à fama de santidade, de oferta da vida ou de martírio ainda presente e, se for o caso, ao culto prestado ao Servo de Deus em tempos mais recentes”.

Art. 19:
“Para provar o martírio, o exercício das virtudes ou a oferta da vida e a fama de milagres de um Servo de Deus que tenha pertencido a qualquer instituto de vida consagrada, uma parte notável das testemunhas apresentadas deve ser alheia; a menos que isso seja impossível, por motivo da particular vida do Servo de Deus”.

Art. 32:
“O inquérito sobre os milagres seja instruído separadamente do inquérito sobre as virtudes, ou sobre a oferta da vida ou sobre o martírio e se realize em conformidade com as seguintes normas”.

Art. 36:
“São proibidas nas igrejas as celebrações de qualquer gênero, ou panegíricos sobre os servos de Deus, cuja santidade de vida ainda está sujeita a legítimo exame. Mas também fora da igreja é necessário abster-se daqueles atos que poderão induzir os fiéis a considerar, erroneamente, que o inquérito feito pelo bispo sobre a vida e sobre as virtudes, ou sobre o martírio ou sobre a oferta da vida do Servo de Deus, comporta a certeza da futura canonização do Servo de Deus”.
Tudo o que deliberei com esta Carta Apostólica em forma de Motu proprio, ordeno que seja observado em todas as suas partes, não obstante qualquer disposição contrária, mesmo se digna de especial menção, e estabeleço que seja promulgado mediante a publicação no diário “L’Osservatore Romano”, entrando em vigor no mesmo dia da promulgação e que, sucessivamente, seja inserido em Acta Apostolicae Sedis.
Dado em Roma, em São Pedro no dia 11 de julho de 2017 quinto ano do nosso Pontificado.
FRANCISCO




sexta-feira, 13 de abril de 2018

Testemunhas da fé: Pessoas que entregaram sua vida pelos irmãos






Quem são as “madres Teresas de Calcutá” de hoje? Quem são os heróis da caridade e do amor incondicional pelos demais, especialmente pelos mais necessitados?
No ano de 2017, assim como nos últimos dois milênios, homens e mulheres das diferentes confissões cristãs doaram sua vida até a morte pelos demais, ou consagraram sua existência a compartilhar o amor de Deus com sua entrega diária aos mais necessitados.
Apresentamos a seguir dez casos de testemunhas da caridade que vivem ou viveram a fundo as palavras de Jesus: “ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (João 15, 13).

1) Ignacio Echeverría, o “herói do skate” dos atentados de Londres


O mundo lembra dele como o “herói do skate”, pois Ignacio Echeverría, de 39 anos, bancário, não hesitou em enfrentar os terroristas no ataque de 3 de junho de 2017, em Londres.
Ele poderia ter seguido seu caminho e fugido como tantas outras pessoas, mas enfrentou e lutou contra um terrorista, salvando assim a vida de várias pessoas que conseguiram escapar naquele momento. Ignacio caiu ferido mortalmente quando outros terroristas chegaram e o esfaquearam pelas costas.
Licenciado em Direito, Ignacio era membro da Ação Católica. Ele tinha deixado a Espanha, sua terra natal, para trabalhar como analista no banco HSBC. Algumas pessoas já pediram à Igreja que avalie a possibilidade de abrir sua causa de beatificação.

2) Gaetano Nicosia, o “anjo dos leprosos” na China


O padre Gaetano Nicosia, missionário salesiano, chegou a Macau em 1963 para atender cerca de 100 leprosos que tinham se refugiado na ilha de Coloane. Abandonados à própria sorte, a situação dos doentes era dramática, em virtude da terrível falta de higiene, da violência e dos suicídios.
Nascido na Itália em 1915, o sacerdote já falava chinês, pois tinha começado sua obra missionária entre as comunidades chinesas em 1935 em Hong Kong, Macau e na província de Guangdong, de onde foi expulso pelos comunistas em 1950.
Quando o bispo de Macau pediu aos salesianos ajuda para atender os leprosos de Coloane, o padre Nicosia ofereceu-se para ir viver com eles, tal como fizera São Damião de Molokai. De 1963 a 2011, durante 48 anos, ele compartilhou sua vida com os leprosos, transformando totalmente aquele lugar.
Ele conseguir levar à ilha enfermeiros e médicos, implementou uma dieta adequada aos doentes, reformou as casas, fez chegar água potável e luz; montou uma granja, ofereceu formação profissional aos que podiam trabalhar, construiu uma escola e uma igreja.
Em 2011, quando o sacerdote, já muito idoso, deixou essa missão, já não havia mais nenhum doente entre os moradores. O testemunho de vida do salesiano levou a maioria dos membros da comunidade a abraçar a fé cristã. O padre Nicosia faleceu em Hong Kong, no dia 6 de novembro passado, aos 102 anos.


3) Sudha Varghese, libertadora das “intocáveis” na Índia.


Na Índia, ela é conhecida como “Nari Gunjan” (a voz das mulheres). Estamos falando da Irmã Sudha Varghese, religiosa das Irmãs de Notre Dame.
O trabalho desta religiosa permitiu libertar dos abusos sexual e de outras formas de violência as Musahar (dalits, ou intocáveis) do Estado de Bihar.
Antes da chegada da religiosa, nos anos 1980, os Musahar eram chamados de “comedores de ratos”: não tinham propriedades e só conseguiam os trabalhos mais duros.
Suas mulheres e crianças com frequência eram vítimas de abusos sexuais. Não podiam frequentar a escola. As meninas eram dadas em casamento aos 10 anos.
A Irmã Sudha Varghese, nascida em 1949 no seio de uma família rica de Kerala, lutou contra esse ciclo perverso, através da criação de uma rede de centros de formação para meninas e jovens Musahar (dalits), muitas delas mães solteiras. Seu trabalho lhe rendeu inúmeras ameaças de morte.
A religiosa, que viveu como uma dalit durante mais de duas décadas, complementou sua obra caritativa com centro educativos para meninos.



4) Marta Mya Thwe, a “madre Teresa da Birmânia”.


Todos a conhecem como a “madre Teresa da Birmânia” ou Mianmar: mas seu nome é Marta Mya Thwe, religiosa da Congregação de São José da Aparição, que dedica sua vida aos enfermos de AIDS em seu país.
Seu trabalho mudou radicalmente, em pouco mais de uma década, a vida dos enfermos de AIDS no Estado de Mon, os quais não recebiam cuidados apropriados e viviam expulsos de suas famílias e discriminados pela sociedade.
Em 2002, ela fundou o centro de saúde “Espelho da Caridade”, que oferece refúgio, alimento, remédio, educação e formação profissional aos órfãos e aos portadores do HIV.
Agora esses centros estão se estendendo por todo país: os enfermos já não são discriminados como antes e podem se tratar e viver com dignidade.


5) Henri Burin des Roziers, advogado dos camponeses no Brasil.


O advogado dos camponeses no Brasil: assim ficou conhecido o padre dominicano francês Henri Burin des Roziers, falecido no dia 26 de novembro de 2017 em Paris.
Depois de um trabalho intenso de assistência a estudantes e imigrantes africanos na França, ele chegou ao Brasil em 1978 para se colocar ao serviço da Comissão Pastoral da Terra, que havia sido criada alguns anos antes pela Conferência dos Bispos para atuar contra as injustiças no campo.
Junto a outros dominicanos, Frei Henri, como passou a ser conhecido no Brasil, converteu-se em advogado dos camponeses injustamente presos e até mesmo torturados, assim como das famílias de camponeses assassinados.
Em 2000, sua ação através da Comissão Pastoral da Terra conseguiu pela primeira vez na história a condenação de um fazendeiro no Pará pelo assassinato de um líder sindical. Frei Henri sofreu inúmeras ameaças de morte.
Em 2005, as ameaças aumentaram. Nesse ano, foi assassinada a Irmã Dorothy Stang (73 anos), que compartilhava com o padre Henri a obra de assistência aos camponeses. A cabeça do sacerdote valeria 50.000 Reais (cerca de 15.000 dólares) para o matador que conseguisse derrubá-lo.



6) Padre Christopher Hartley, água para a Etiópia.


Nesse Natal, ele lançou um apelo urgente: em Gode, na Etiópia, no deserto, perto da fronteira com a Somália, fez um pedido dramático de água para o povo local, que está morrendo de sede.
O padre Christopher Hartley, nascido em 1959 em Londres, antigo colaborador da Madre Teresa de Calcutá, luta há uma década pela saúde e a melhoria da expectativa de vida de milhares de pessoas, a maioria muçulmanos, em terras que nunca tinham visto um missionário cristão.
Ao ver dia após dia como a população morre de infecções, o padre Christopher passou a se dedicar a um projeto que permita resolver a situação em longo prazo: filtrar a água do rio Wabi Shebelle, na região de Gode, e levá-la até a população. Esse projeto salvará a vida de milhares de pessoas.
O sacerdote, que está conseguindo levar água potável a essa população do segundo país mais populoso da África, confessa que, em seu coração, ressoam diariamente as palavras de Jesus aos apóstolos: “Dai-lhes de comer”, além das palavras do Senhor, quando disse: “tive sede, e me deste de beber”.


7) Irmã Rafała Włodarczak, “mãe dos órfãos” do conflito entre palestinos e israelenses.


O que poderia fazer uma jovem polonesa em favor dos órfãos da Guerra dos Seis Dias? A Irmã Rafała Włodarczak, religiosa da Congregação de Santa Isabel, arregaçou as mangas e, em 1968, construiu com suas próprias mãos e com a ajuda de outras religiosas o “Lar da Paz”, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém.
A casa ficaria pequena diante das necessidades, e logo surgiria outro “Lar da Paz” para crianças necessitadas, em Belém.
Nesse 8 de dezembro de 2017, o “Lar da Paz” celebrou 50 anos de vida, nos quais o trabalho das religiosas não se limitou a oferecer moradia e assistência às crianças palestinas mais necessitadas, mas sobretudo aquilo de que mais precisam para o futuro: educação, e uma educação para a paz.
Por isso, em junho passado, o Papa Francisco entregou à Irmã Rafała Włodarczak a cruz “Pro Ecclesia et Pontifice”.


8) Irmã Rosemary Nyirumbe, um futuro para as meninas-soldado de Uganda


A CNN a nomeou no passado a “Heroína do Ano”, pois ela deu um futuro a mais de duas mil mulheres vítimas de abusos e da violência do Exército de Resistência do Senhor (LRA), em Uganda.
Tudo começou há 16 anos. Rosemary Nyirumbe, religiosa das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus, percebeu que na escola que ela dirigia havia algumas meninas e jovens que tinham sido escravizadas pelo LRA, um dos grupos terroristas mais perigosos do mundo.
Algumas jovens lhe confessaram que seus abusadores as tinham forçado inclusive a matar parentes. Vítimas das piores atrocidades, suas vidas pareciam destruídas para sempre.
Irmã Rosemary não lhes fez mais perguntas. Abriu-lhes as portas de seu convento. Imediatamente começaram a chegar outras mulheres: algumas estavam grávidas em decorrência de estupros, outras tinham sido forçadas a combater como soldado, e agora tentavam fugir do horror.
Além de um teto, Irmã Rosemary lhes ofereceu a caridade cristã e a possibilidade de um futuro: formação profissional com cursos de culinária e costura. Hoje muitas são professoras ou costureiras, e estão entre as mais renomadas do país.
As bolsas fabricadas por elas são mundialmente famosas. Celebridades de Hollywood já compraram como gesto beneficente, chegando a pagar 5.000 dólares por peça.


9) Padre Paolo Cortesi, e o gesto de acolher os refugiados.


O missionário passionista Paolo Cortesi foi eleito a “Pessoa do Ano” na Bulgária, o mais importante prêmio do país, por sua contribuição para a defesa dos direitos humanos.
É a primeira vez que se atribui esse prêmio a uma pessoa que não é de nacionalidade búlgara (padre Cortesi é de origem italiana). É também a primeira vez que se escolhe um representante de uma confissão religiosa.
Acolhendo a proposta do Papa Francisco, o padre Cortesi tinha acolhido em sua casa paroquial, na cidade de Bélene, uma família de refugiados sírios.
Sua decisão causou a ira de grupos radicais locais, que ameaçaram o sacerdote de morte. Apesar de tudo, o padre Cortesi não guarda rancor: “As pessoas daqui são boas, mas às vezes basta muito pouco para começar um incêndio”, ele disse, ao receber o prêmio com um sorriso.


10) Dominique de La Rochefoucauld-Montbel, um príncipe a serviço dos mais necessitados.


Dominique de La Rochefoucauld-Montbel, Grão-Hospitalário da Ordem de Malta, coordena uma das maiores organizações humanitárias do mundo, mas poucos jornalistas sabem disso.
Só nas águas do Mediterrâneo, nos últimos nove anos, esta instituição salvou, com seus barcos e equipes médicas, a vida de 53.712 imigrantes e refugiados que haviam se lançado na perigosa travessia rumo à Europa, partindo do Oriente Médio e da África.
Se bem que Dominique La Rochefoucauld-Montbel é príncipe, membro de uma das famílias mais antigas da nobreza francesa, ele está dedicando sua vida totalmente à assistência cristã aos mais necessitados.
Os números de seu trabalho de coordenação são imponentes: promove cerca de 2.000 projetos de ajuda em 120 países, animados por 100.000 voluntários, que são assistidos por 25.000 funcionários permanentes.
No último ano foram atendidas mais de 1,6 milhão de pessoas nos 435 centros apoiados por Malteser International, a organização não-governamental de assistência da Ordem de Malta.
No norte do Iraque, por exemplo, leva assistência aos refugiados em Dohuk, Erbil e Nínive, e gerencia clínicas móveis que conseguem chegar aos vilarejos mais remotos.
Na Síria, apoia o hospital pediátrico de Aleppo, cujo serviço de cuidados intensivos neonatais é único na região, estando preparado para atender bebês prematuros ou diagnosticados com doenças graves.
Quando perguntado sobre o porquê de fazer tudo isso, o príncipe responde: “Vemos Cristo nos enfermos e nos que sofrem. Vemos Cristo nos refugiados. O Evangelho diz: ‘tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber…’. Essa é a razão de ser membro da Ordem de Malta”.

Fonte: https://pt.aleteia.org/2017/12/29/10-pessoas-que-entregaram-sua-vida-pelos-demais-em-2017/

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Beato Miguel Kozal: Bispo e Mártir, morto por nazistas.





Miguel Kozal nasceu em 1893 na Polônia no seio de uma família de camponeses piedosos. Foi ordenado sacerdote em 1918 e exerceu o seu ministério nomeadamente como pároco na cidade de Bydgoszcz. Pio XII nomeou-o bispo auxiliar de Wloclawek a 13 de Junho de 1939 nas vésperas do início da segunda guerra mundial, com o título episcopal de Lappa.
Depois da ordenação sacerdotal, dedicou-se intensamente ao trabalho pastoral em diversas paróquias e mais tarde à formação espiritual da juventude como diretor de uma escola secundária. Deu mostras do mesmo zelo e empenho quando o transferiram para o seminário de Gniezno, onde lecionou durante doze anos.
Em 1939 foi designado pela Santa Sé Bispo auxiliar da diocese de Wloclawek. Duas semanas depois da consagração episcopal, deflagrou-se a Guerra Mundial e a Polônia foi invadida pelas tropas alemãs. Os chefes nazistas, dominados pelo ódio contra a fé católica fecharam igrejas e colégios, prenderam padres e proibiram todas as publicações religiosas. O novo bispo reagiu, defendendo os direitos da fé. Foi admoestado, perseguido e, por fim, preso.
Quando as tropas alemãs invadiram a Polônia, a diocese de Wloclawek encontrou-se dentro da zona anexada ao Reich. O regime de ocupação era terrível e tudo era feito para destruir a elite, nomeadamente os professores da Universidade e o clero diocesano em geral.
A diocese, particularmente atingida, irá ver desaparecer durante a guerra metade do seu clero. De Miguel Kozal pode dizer-se como deste ou daquele outro mártir beatificado, que ele foi um “no meio de milhares de outros”, porque o número dos mártires é bem superior ao número daqueles que a Igreja beatificou.


Logo a 7 de Novembro de 1939 ele foi apreendido, internado e torturado, primeiro num convento em Wloclawek e depois em Lad, Szczeglin e Berlim. Em 3 de Abril de 1941 foi deportado para Dachau, campo de concentração de triste memória, onde se faziam experiências inacreditáveis e inumanas. Ele aí permanecerá durante 20 meses, maltratado pelos guardas, mas continuando a oferecer os seus serviços e o seu ministério sacerdotal aos numerosos outros deportados.
No cárcere ofereceu generosamente a Deus a própria vida como holocausto pela libertação dos sacerdotes. Quanto sofreu e quanto rezou nos três anos de prisão, é difícil imaginar. Contudo, ele preocupava-se mais com os sofrimentos dos outros do que com os seus. Foi, por assim dizer, o anjo tutelar dos sacerdotes que juntamente a ele penavam nos calabouços nazistas.
Era grande a sua alegria quando lhe era possível distribuir ocultamente a Eucaristia aos presos. Dizia-lhes: “Dou-vos o dom mais precioso, Jesus Eucarístico. Deus está conosco. Deus nunca nos abandona”.
O Bispo Miguel Kozal não foi apenas mártir, mas verdadeiro mestre dos mártires. Com o seu exemplo e palavras, na sexta-feira da Paixão de 1942, todos os presos puderam conhecer melhor o mistério da dor, todos sentiram que participavam um pouco no sofrimento do Salvador pela salvação dos homens.
Em 26 de Janeiro de 1943, na enfermaria do campo de concentração de Dachau, um médico pôs fim aos seus sofrimentos, ao mesmo tempo que a sua vida, por meio de uma injeção que sem o menor escrúpulo lhe administrou. Estava com 50 anos incompletos
A quando do encerramento do Congresso Eucarístico da Polônia que se realizou em Varsóvia, o Papa São João Paulo II beatificou-o em 14 de Junho de 1987, classificando-o entre os mártires e invocando o seu testemunho fiel e a sua fé inquebrantável em Cristo.